Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

Mostrando postagens com marcador historia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador historia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Especial NBA - Isiah Thomas e Magic Johnson





Pra quem não sabe que Especial é esse e pra que ele serve, leiam esse post antes.

Posts anteriores:

 - Bill Russell e Wilt Chamberlain
 - Jerry West e Oscar Robertson
 - Julius Erving
 - Larry Bird e Kareem Abdul-Jabaar


Isiah Thomas (Detroit Pistons, 1989)
Magic Johnson (Los Angeles Lakers, 1991)


Depois de algum tempo sem posts, vamos retomar de onde terminamos da última parada: Os anos 1980-1987, que pode ser melhor representado pela rivalidade entre as duas maiores estrelas da NBA na época, Larry Bird e Magic Johnson. Agora que sabemos a história desse período, vamos avançar um pouco na história da NBA, fazendo a ponte entre o fim da Era Bird/Magic (Com o último grande momento da rivalidade em 1987) e o começo da Era Jordan, em 1991 (não se preocupem, chegaremos lá). E pra tratar desses quatro anos entre 1987 e 1991, eu preciso de dois jogadores, dois dos melhores jogadores de todos os tempos a jogar a posição de armador e dois dos maiores líderes da história da NBA e da sua geração: Magic e Isiah Thomas.

Vocês já sabem agora de como as carreiras de Magic Johnson e Larry Bird foram, desde o momento que entraram na NBA, muito entrelaçadas e muito semelhantes. Ambos os jogadores entraram na NBA em 1980 e atingiram sucesso imediato (Bird calouro do ano, Magic MVP das Finais) e logo se tornaram a nova face da NBA. Ao longo da década (não vou entrar em detalhes porque já o fiz no post de Bird e Kareem) ambos foram os dois jogadores mais polarizadores e mais interessantes da Liga, chegaram a múltiplas finais e jogaram num nível tão alto que nenhum outro jogador individualmente conseguiu atingir nesse período entre 80 e 87. Ambos ganharam 3 MVPs e definiram o padrão de excelência das suas respectivas posiçōes, dominando a Liga e com pelo menos um dos dois chegando em TODAS as Finais da NBA entre 1980 e 1989. Ambos eram grandes líderes, passadores altruístas que elevavam o nível de toda a equipe e dois dos jogadores mais amados da época. E, claro, foram dois dos jogadores mais importantes da história do basqeute. Os dois até aposentaram muito próximos, Magic em 91 (pela primeira vez) e Bird em 92. Então sim, as carreiras de Magic e Bird foram extremamente semelhantes sob praticamente qualquer ponto de vista.

Mesmo assim, a carreira dos dois jogadores apresenta duas diferentes importantes. O primeiro detalhe é um pouco mais insignificante, que é o fato de que Bird foi o Alpha Dog do Celtics desde o momento que pisou em Boston até o momento da sua aposentadoria, enquanto Magic apenas tomou o controle da equipe de Kareem (um dos maiores jogadores da história) em 1987, conforme já cobrimos no post anterior. Mas a segunda diferença é mais importante, e pode ser melhor ilustrada quando olhamos para os anos entre a última final Bird-Magic em 1987, até o primeiro título de Michael Jordan, em 1991. Em outras palavras, a segunda e mais importante diferença entre as carreiras de Magic e Bird foram como esses jogadores atingiram o final de carreira, passado seu auge em 1987.

Depois de levar um baleadíssimo Celtics nas costas nos playoffs de 1987 em um banho de sangue extremamente físico de sete jogos contra Detroit, e de quase levar o Celtics por cima de um sensacional time do Lakers nas Finais, Bird (agora com 31 anos) começou a ter problemas físicos, especialmente nas costas. Não é a toa que, depois de jogar 4000 minutos (41 por jogo na temporada regular e 44 por jogo os playoffs) só na temporada 1987, encarando durante boa parte do tempo times físicos como Detroit ou Atlanta, e tendo que quebrar por muito tempo um galho no garrafão com Bill Walton fora e Kevin McHale e Robert Parish limitados por sérias lesōes, o corpo de Bird tenha começado a traí-lo. Ainda que tenha conseguido terminar a temporada de 88 em altíssimo nível (30-9-6, 53% FG), Bird perdeu sete jogos por lesão e, por algum motivo, o técnico KC Jones continuou jogando Bird 39 minutos por jogo, até que chegando nos playoffs seu corpo quebrou de vez. Jogando limitado por fortíssimas dores nas costas, Bird não chegou nem a 25 ppg e chutou 45% do campo, jogando absurdos 45 minutos. Com McHale incapaz de se recuperar (nunca mais recuperou, na verdade) de ter jogado os playoffs de 87 com um pé quebrado, e Bird lidando com lesōes nas costas, o Celtics foi presa fácil para o Detroit nos playoffs, sendo eliminado.

O resto da carreira de Bird foi marcado pela mesmas lesōes nas costas que o limitaram em 1988. Jogou apenas 6 jogos em 89, e até o final da sua carreira em 1992 apenas uma vez jogou mais de 60 jogos (1990). Apesar de ter tido bons momentos, e até tido médias de 24-10-8 em 1990, nunca mais foi o mesmo Bird, sempre parecia com dor e sempre chegando no final da temporada com mais milhagem do que seu corpo aguentava. Quando finalmente aposentou em 1992, a triste verdade era que seus últimos anos tinham sido jogando em um nível muito inferior ao que ele seria capaz se seu corpo aguentasse. Aliás, Bird era o tipo de jogador que poderia ter mantido um excelente nível durante muito tempo se seu corpo não o traísse. Ainda que fosse ficando mais lento e menos capaz de seu jogo físico com a idade, ele ainda poderia ter ido até o final dos seus 30 anos sendo um facilitador: Conseguindo roubos, dando passes da entrada do garrafão, rodando a bola com inteligência e arremessando de três. Ele mesmo disse que gostaria de ter feito isso se fosse possível, mas seu corpo não permitiu. Então a carreira de Bird acabou sendo de nove temporadas transcendentais e mais quatro anos nos quais seu corpo não permitiu que ele jogasse naquele nível.

Do outro lado, Magic nunca teve uma lesão pra atrapalhar o fim da sua carreira, tirando obviamente o HVI (chegaremos lá). Se a carreira de Bird foi composta por 9 anos transcendentais e mais quatro anos decadentes, a carreira de Magic foi composta de 12 anos transcendentais, praticamente sem quedas no rendimento e continuamente se reinventando (se HVI não tivesse tirado Magic das quadras em 91, ele teria virado um Power Foward no final da carreira e jogado até uns 38 anos). Depois de tomar o controle do Lakers de Kareem e se estabelecer como o Alpha Dog do time em 1987 e levar o Lakers ao título (vencendo o Celtics de Bird nas finais), Magic continuou liderando o time por mais duas finais com Kareem ainda no time (tambem chegaremos lá) em 88 e 89. Quando Kareem se aposentou após a derrota nas Finais de 89, Magic continuou levando o time sem perder o ritmo por mais dois anos com o combo Vlade Divac/Mychael Thompson no lugar de Kareem, mesmo com a falta de um pontuador de elite no garrafão. Não vou entrar nesses detalhes agora porque vamos falar deles mais pra frente, mas o importante é que Magic conseguiu levar mais três anos de elite na sua carreira, enquanto o corpo de Bird impediu que ele fizesse o mesmo.

Alem disso, existe algum jogador na história da NBA que se reinventou mais com o passar dos anos do que Magic? Quando entrou na NBA em 1980, Magic era o calouro sorridente, rápido e com pensamento ágil que tinha uma habilidade no passe igualada na NBA somente por Bird. Esse Magic extremamente carismático e contagiante foi o responsável por dar vida nova ao Lakers e a Kareem, levando o time à final da NBA. Em 1982, Magic era um jogador mais maduro, mais versátil do que nenhum outro na história, capaz de jogar cinco posiçōes e também seu auge como defensor (quase 3 roubos por jogo). Os números comprovam essa versatilidade e capacidade de fazer tudo em uma quadra: Magic chegou mais perto do que nenhum outro pós-Merger de um triple double (19,6-9,6-9,5). Quando o Lakers trocou Norm Nixon (que dividia as funçōes de armador com Magic) e deu ao camisa 32 as chaves do Showtime em 84, Magic assumiu de vez o controle do time e atingiu seu alge como PG passador e altruísta que rodava a bola (seu auge nessa "fase" sendo 1985). Quando o Rockets destruiu o Lakers em 86 e a idade de Kareem deixou claro que ele não poderia carregar sozinho o ataque de meia quadra, Magic se reinventou como um grande pontuador e assassino nos finais de jogos, com um mortal jogo de costas pra cesta, e assumiu de vez o papel de Alpha Dog do time. E quando Kareem se aposentou em 89, ainda que Magic não tenha mudado seu jogo muito (apesar dele ter virado um bom chutador de três pontos, com 38% atrás do arco), a ausência do veterano fez Magic reforçar ainda mais sua postura de liderança e motivador dentro do elenco, tirando o máximo de jogadores em uma equipe em decadência e mantendo o Lakers relevante por três anos (89, 90 e 91) a mais do que devia. Tirando TALVEZ Steve Nash, nenhum outro jogador tirou mais de seus companheiros, sejam All-Stars, jogadores medianos ou role players, mais do que Magic. Nenhum, nem Nash nem Bob Cousy, era mais imparável puxando contra ataques. Ele foi um dos lideres mais inspiradores e queridos da história do esporte e um dos seus maiores ícones fora de quadra. E ele capturou três MVPs, três Finals MVPs, seis títulos e apareceu em nove Finais em doze anos, além de ser co-capitão do maor time de basquete jamais montado (Dream Team de 92). Isso, meus amigos, é uma carreira.

Por falar nisso, Magic também foi uma pessoa extremamente importante em algo que nada tinha a ver com basquete: AIDS. Seu anúncio em Novembro de 1991 de que ele tinha sido diagnosticado com HIV foi uma das transmissōes mais chocantes da história da televisão, um dos momentos definitivos daquela geração. Mesmo quem não era fã de basquete sabia quem era Magic Johnson e sabia o peso daquelas palavras. Como a AIDS ainda era uma doença da qual pouco se sabia, muitas vezes era tratada de forma um pouco obscura, e muitos acreditavam ainda que só era contraída em casos de relaçōes homossexuais ou por uso de drogas, algo distante de sua realidade. O anúncio de Magic foi um choque não só por ser uma pessoa famosa, mas por mostrar que até um atleta, heterossexual e que não usava drogas podia contrair essa doença sem fazer nada fora da "realidade" das pessoas que se diziam longe da doença. Isso mostrou como a doença era muito mais presente do que as pessoas imaginavam e sabiam. Mesmo a reação coletiva, que perguntava que "Magic vai morrer!?", mostrava como as pessoas eram ignorantes a respeito do virus, e não sabiam sequer a diferença entre HVI e AIDS totalmente desenvolvida. A verdade era que grande parte da população sabia muito pouco sobre essa "nova" doença, e elas precisavam de alguém famoso que pudesse alertá-las e educá-las sobre esssa doença. E Magic assumiu esse papel, dedicando boa parte da sua vida pós-NBA a campanhas de prevenção e conscientização sobre AIDS. Claro que ele não foi o único, mas ele teve um papel importantíssimo no aumento da identificação e conscientização mundial sobre HIV. O seu anúncio (sobre o qual recomendo o excelente documentário da ESPN, "The Announcement") foi um dos momentos mais importantes da época. Some a isso o fato de que Magic foi também um dos ex-jogadores mais bem-sucedidos como investidores fora das quadras (especialmente com cadeias de cinemas na costa Oeste americana) que conseguiu aumentar em muito seus ganhos com basquete (inclusive sendo o principal representante de um grupo que recentemente adquiriu o time de baseball Los Angeles Dodgers), e tudo que nós sabemos sobre sua carreira na NBA, e é difícil achar um jogador de basquete mais importante  e que teve mais sucesso do que Magic. E ele continua aí, vivo e saudável, o que de certa forma talvez seja seu maior sucesso.

Mas voltando a falar de basquete, embora a década de 80 conforme cobrimos no post anterior tenha sido marcada pela rivalidade Bird vs Magic, o período que estamos cobrindo no momento precisa que falemos de um outro time, o Detroit Pistons de Isiah Thomas. E na verdade, só a forma como o GM Jack McCloskey montou esse time em torno de Isiah (2nd pick do Draft de 1982) já valeria um post separado, porque foi uma das montagens mais criativas e mais geniais da NBA até onde eu lembro.

Voltemos um momento para os anos 84/85 da NBA, onde sabemos que tivemos duas finais entre os invencíveis  na época Celtics e Lakers. Nessa época, o Pistons ainda estava tentando juntar talento em torno do seu melhor jogador Isiah numa tentativa frustrada de desafiar o Celtics no Leste. Mas em 1985, depois de tomar mais uma surra de Bird e companhia, McCloskey entendeu que estava fazendo isso errado. Ele entendeu que nunca iria superar o Lakers e o Celtics simplesmente juntando jogadores talentosos, era uma tarefa grande demais superar times com Bird, McHale, Parish, Dennis Johnson, Magic, Kareem, James Worthy e companhia. Além disso, o que Isiah e McCloskey perceberam assistindo esses dois times e que era muito mais importante, era de que esse sucesso ia muito além de basquete: O segredo do basquete é que não é sobre basquete, como descobriu Isiah (nas suas próprias palavras). O enorme talento de Celtics e Lakers ajudavam, mas Isiah percebeu que isso não era o mais importante. O mais importante era que essas duas equipes realmente funcionavam como um time: Ambos os times tinham uma hierarquia estabelecida, com todos os jogadores sabendo exatamente seu papel na equipe e nenhum tentando desafiar essa ordem. Todo mundo no time jogava pro time, sem se preocupar com seus números ou minutos, e todos sabiam que a forma de vencer era exatamente assim. Jogadores que se preocupassem não em como se destacarem individualmente, e sim jogadores que se preocupassem em fazer o que podia ajudar o time e aos seus companheiros. O time e a vitória vinha sempre acima das preocupaçōes individuais, e não era apenas um ou dois jogadores que deveria saber disso... Era o time todo. Isso foi o que Isiah mais tarde chamou de o "Segredo" do basquete. E é a mais pura verdade.

Sabendo dessas duas coisas, Isiah e McCluskey decidiram montar um time baseado não no talento dos seus jogadores, e sim no "Segredo". Jogadores que se complementasse, jogassem pro time, ajudassem uns aos outros e que sacrificassem seus numeros e minutos pelo time. Um time que não necessariamente fosse o melhor no papel... Mas Isiah sabia que não é no papel que se ganham títulos, e sim na forma como os jogadores interagem e se complementam. E ele estava certo.

Depois da derrota pro Celtics em 1985, McCluskey chegou à conclusão de que apenas três jogadores do seu elenco poderiam fazer parte de um time construído dessa maneira: Isiah, Vinnie Johnson, e Bill Laimbeer. Todo o resto seria dispensável por não ser capaz de se ajustar a um time construido com base em entrosamento e altruísmo ou então por não possuir a flexibilidade e atleticismo que Detroit procurava pra poder bater de frente com Celtics e Lakers. Sabendo que nunca iria ganhar desses times no ataque, Detroit focou também em pegar jogadores versáteis, físicos e capazes de não só defender como cansar fisicamente seus adversários, uma defesa profunda e que estivesse o tempo todo em cima dos oponentes, não dando nenhuma cesta fácil. Assim, McCluskey usou sua escolha de primeira rodada naquele Draft (17th) pra pegar o ótimo defensor Joe Dumars, e trocou Dan Roundfield por Rick Mahorn, um ala mais físico capaz de complementar o lento mas eficiente Laimbeer. Como não foi possível conseguir um jogador de garrafão clássico pra pontuar de costas pra cesta pra fazer a dupla ofensivamente com Isiah, McCluskey optou por cercar seu armador de arremessadores e jogadores mais baixos capazes de pontuar no garrafão: Trocou Kelly Tripucka e Kent Benson (dois pontuadores lentos que não defendiam ninguém) por Adrian Dantley (um swingman cujo poder ofensivo vinha do seu jogo de costas pra cesta e sua capacidade de cavar faltas) e draftou no ano seguinte John Sally (11th pick), um PF para dar flexibildade ao garrafão e cavar pontos perto do aro. Também usou uma escolha de segunda rodada nesse Draft em Dennis Rodman (32nd pick), um combo foward extremamente atlético para ajudar a cansar seus adversários, tornar o time mais forte fisicamente e aumentar a qualidade dos rebotes defensivos da equipe. Em 18 meses, sem nenhuma escolha de Draft no top 10 ou nenhuma troca bombástica, McCluskey montou um time muito sólido e com entrosamento fantástico em torno de Isiah, um time que iria ganhar dois títulos e chegar dolorosamente perto de outros dois nos quatro anos seguintes.

Claro, a chave aqui são as palavras "em torno de Isiah". Esse time de Detroit era espetacular dentro de quadra, mas não o era no papel. Tirando Isiah, o time era composto basicamente de Role Players, pontuadores unidimensionais, jogadores incapazes de criar o próprio arremesso e arremessadores. Ainda que tivessem todos os intangíveis que McCluskey tanto queria depois de assistir Celtics e Lakers dominando a NBA, todos jogadores que jogavam pro time, não se importavam com seus números e que viviam completando uns aos outros em quadra, o time não era exatamente um modelo de pontuação e eficiência, e esses jogadores não teriam sobrevivido se ninguém fizesse eles pontuarem na marra, se tivesse um líder capaz de envolver todos eles e achar os companheiros certos nas horas certas. E aí que entra Isiah Thomas.

Apesar de ter acabado sendo uma das estrelas menos apreciadas da história da NBA (e talvez uma das mais odiadas, tirando talvez Ricky Barry), Isiah Thomas era o modelo do armador puro e um dos melhores jogadores da sua geração. Com um jogo mais completo do que talvez qualquer armador na história da NBA (Isiah era um exímio passador, infiltrador, pontuador, defensor e crunch-time scorer, a única coisa que ele não tinha era um arremesso de três), Isiah percebeu que a melhor forma de maximizar seus talentos na equipe era jogando para ela. Ele dominou a arte de envolver seus companheiros, distribuir o jogo, manter todo mundo no jogo durante os primeiros 45 minutos, para depois resolver sozinho nos minutos finais da partida (hoje, Chris Paul é o mestre dessa arte na NBA). Um grande líder e o tipo de jogador que lidera por exemplo, se mata dentro de quadra, joga pro time e não se importa com seus próprios números, Isiah acabou sendo o jogador perfeito pra implementar e manter o "Segredo" no seu time do Pistons. E no que tange a basquete, tudo centrava em torno dele: Isiah era responsável por infiltrar, distribuir o jogo, desmontar a defesa, achar arremessadores livres, dar pontos fáceis pra jogadores incapazes de criar o próprio arremesso, pontuar quando o time estancava, e ser o responsável pelos pontos nos momentos decisivos dos jogos. Tudo rodava em torno de Isiah, sua capacidade de jogar basquete e sua compreensão do "Segredo", e de passar isso para os demais.

Eu sempre disse que a temporada 2007 do Steve Nash no Phoenix Suns foi uma das mais impressionantes da história do universo no quesito "nível de dificuldade" para um armador: O time era composto de forma a rodar totalmente em torno dele, da sua capacidade de conduzir um contra ataque e o pick and roll, da sua visão de jogos e seus arremessos... Basicamente, o time era construído de forma a utilizar o talento de Nash pra tirar o máximo de bons mas muitas vezes unidimensionais jogadores. Era construído de forma que um e apenas um armador na história da Liga poderia ter conduzido esse time aonde conduziu: Nash. O único rival de Nash nesse quesito? Isiah nesses times do Pistons de 87-90. Eles também eram construídos com jogadores unidimensionais em torno de um único armador e suas capacidades, e Isiah tinha que fazer tudo de uma forma extremamente difícil: Tinha que envolver todos os jogadores, saber quem acionar a cada momento, aproveitar quem estava com a mão quente, dar pontos fáceis para os que estavam frios, acionar cada jogador na melhor situação possível pra maximizar a eficiência dos arremessos, e saber quando insistir nos companheiros e saber quando ficar com a bola nas mãos pra resolver sozinho. O nível de dificuldade é absurdo.

O Pistons também se equipou de uma outra arma, uma arma mais suja e mais psicológica, que era a de perturbar o máximo possível o adversário como o time pudesse. Isso era feito explorando ao máximo o que era permitido pelo escopo de regras da NBA. O time do Pistons frequentemente abusava de faltas duras e violentas quando algum adversário chegava perto do aro, pra intimidar e fazer o oponente pensar duas vezes quando fosse pra uma bandeja ou enterrada (sem bandejas ou enterradas fáceis era a regra do Pistons, eles IAM fazer uma falta feia em voce). Como na época a NBA tinha uma política muito pouco rígida sobre brigas, xingamentos e faltas duras, os jogadores estavam sempre provocando, xingando, fazendo contatos desnecessários fora do lance, dando cotoveladas e basicamente tirando o adversário do sério. A idéia não era machucar o adversário (embora eles não ligassem de fazer isso e até fizessem quando tinham a chance, como Rick Mahorn pisando repetidamente no pé quebrado de McHale nos playoffs de 87), e sim tirar o seu foco do jogo, fazê-nos ficar com medo de tomar uma falta dura ao entrar no garrafão, fazê-los ficarem com raiva e saírem do seu jogo... Em resumo, o objetivo disso tudo era entrar na cabeça do adversário e desconcentrá-los. Quando o adversário parava de focar no jogo pra se preocupar em como bater em alguem ou como se vingar, então o Pistons tinha atingido seu objetivo. Eles acharam uma falha no sistema da NBA, e o exploraram de forma até suja, mas muito eficiente. Quando Pat Rilley levou isso a um nível ainda maior com seu Knicks nos anos 90, a NBA finalmente deu um basta nisso e estabeleceu regras muito mais rígidas pra faltas técnicas, brigas e aumentou as suspensōes que poderiam ser dadas aos jogadores, tirando essa "falha no sistema" da Liga (mais um motivo para odiar Pat Rilley). Mas mesmo assim, sem essa arma, o Pistons dessa época ainda era um time que daria certo em qualquer época. Eles eram o time perfeito pra era do Salary Cap (epenas uma estrela e varios role players, poucos contratos muito caros), e eles tinham uma característica especial de flexibilidade, atleticismo e toughness, sem falar numa imensa competitividade e instinto assassino especialmente do Isiah, que se transferiria para qualquer época.

E foi com essa identidade que o Pistons se lançou em 1987 para desafiar os soberanos Celtics: Um time extremamente flexível e profundo, que poderia se adaptar a qualquer time ou estilo e tinha resposta pra tudo, um time muito físico e com uma defesa muito feroz, um time que era melhor do que qualquer outro em entrar na cabeça do adversário e tirá-lo do seu jogo. Seu ataque era extremamente coletivo e centrado no seu astro, Isiah, e no seu famoso "Segredo". Ninguém no time tinha média de mais de 15 pontos por jogo, e era assim que o Pistons queria: Qualquer um poderia estar num dia bom e ser o cestinha, mas ninguém se preocupava em ser um. E com seu estilo de jogo, o Pistons logo se firmou como uma nova potência no Leste e varreu a conferência até o esperado confronto contra o baleado Celtics, nas Finais de Conferência. E o Pistons aproveitou a chance: Dividiu os quatro primeiros jogos contra o Celtics, e foi pra Boston no Jogo 5 pronto pra roubar um jogo e fechar em casa no Jogo 6. E quase conseguiu: O Pistons abriu 1 ponto de vantagem faltando 15 segundos pro final da partida. E aí que veio o castigo: O Celtics, sabendo que o ideal era virar a partida com o cronômetro zerado, deixou a bola com Bird pra criar seu arremesso. Bird entrou no garrafão e tentou uma bandeja, mas foi rejeitado pelo calouro Rodman, que ainda fez a bola bater em Danny Ainge antes de sair para a lateral. Com apenas alguns segundos no relógio e a posse da bola, parecia que o Pistons tinha o jogo liquidado... Mas Isiah teve uma pane cerebral e lançou a bola na direção da própria cesta para Lambeer, num passe que Bird antecipou a voou para conseguir o roubo, fazendo um passe sensacional para um Dennis Johnson que corria desesperadamente em direção à cesta fazer a bandeja da vitória pro Celtics. Enquanto o Pistons realmente venceu o jogo 6 em casa, o Celtics fechou a série em casa no Jogo 7 pra ir às Finais contra o Lakers. Abaixo, o vídeo da jogada.




(Fato mais underrated dessa jogada: A velocidade de reação de DJ ao cortar para a cesta quando Bird conseguiu o roubo, receber um passe lindo e fazer uma bandeja extremamente difícil por cima de Joe Dumars. Se ele não tivesse percebido a tempo e corrido pra cesta, Bird teria que fazer um  arremesso turnaround por cima da tabela pra virar a partida... E o pior, ele provavelmente teria acertado. Mas foi melhor com DJ ali facilitando as coisas pra ele)

Essa derrota acabou sendo muito difícil pro Pistons digerir: Eles tinham o controle da série, tinham o controle da partida e a vantagem, e a bola nas mãos do seu melhor jogador, e estiveram a uma pane cerebral inexplicável de ir às Finais aquele ano. Mas a derrota acabou fortalecendo o Pistons, que teve sua revanche contra o Celtics no ano seguinte, com McHale e Bird machucados, em uma vitória fácil pra levar Detroit às Finais, contra o fortíssimo time do Lakers.

Nas Finais, Detroit conseguiu abrir 3-2 na série, e com um jogo 6 em Los Angeles, o Pistons começou a sentir cheiro de sangue no terceiro quarto: O Lakers não conseguia conter armadores infiltradores, e Isiah sabia que estava a mais dois quartos do seu primeiro título. Ele começou a pontuar. Uma bandeja. Um arremesso curto. Um floater. Quando todo mundo viu, Isiah tinha 14 pontos consecutivos no quarto... Até que, ao cair de um salto, Isiah pisou violentamente no pé de Michael Cooper e torceu fortemente o tornozelo. Carregado pra fora de campo visivelmente com dor, Isiah não conseguiu ficar fora de quadra. Sem conseguir apoiar o pé, Isiah voltou pra quadra e recomeçou a jogar. Um floater. Uma cesta-e-falta sobre Cooper. Uma bola de três. E, nos segundos finais do quarto, outra bola de três pra fechar o quarto com 25 pontos, recorde das Finais, mesmo jogando em um pé só. Mas o Pistons não conseguiu segurar, mesmo com tres pontos de vantagem a um minuto do final: Byron Scott fez uma cesta, Isiah errou um arremesso em uma perna só, os juizes deram uma falta fantasma em Kareem (que converteu os lances livres), e Dumars errou o arremesso da vitória no segundo final da partida. O Lakers venceu o Jogo 7 em casa com Isiah claramente sem condiçōes de jogo, e mais uma vez o Pistons chegou muito perto de um título pra morrer na praia de forma traumatizante. E realmente, o título devia ter sido do Pistons se Isiah não machuca o tornozelo: Eles eram físicos demais no garrafão pro Lakers, e ninguém lá conseguia marcar Isiah. Mesmo com Magic e James Worthy no auge, o time menos talentoso do Pistons era forte, flexível e entrosado demais pra aquele Lakers. Mas com a torção no tornozelo do centro do seu time, acabou sendo demais pro Pistons superar, e a segunda derrota traumatizante em dois anos pra Detroit se confirmou.

Começando 1989, duas coisas importantes aconteceram para Detroit: Primeiro, o time estava extremamente endurecido e irritado vindo de duas derrotas traumáticas nos playoffs, e pronto pra mostrar pro mundo quem eles eram, o que normalmente prenuncia uma temporada Keyser Soze de nível "Holy Hell!" (o que acabou acontecendo). E segundo, ao final dos playoffs de 1988, Dantley começou a reclamar dos seus minutos, em especial por estar ficando no banco nos finais de partida pra dar lugar a Rodman. E aí que a essência do próprio time do Pistons ficou em xeque: O Pistons não era o time mais talentoso da NBA, mas chegou aonde chegou graças à coletividade dos seus jogadores, colocando o time sempre em primeiro lugar em relação aos números pessoais. Chegou aonde estava graças ao equilíbrio e coletividade do seu time. E Dantley, um dos jogadores chaves do time, estava ameaçando implodir tudo isso porque não queria perder minutos para Rodman, o que era importante para o time já que Rodman deixava o Pistons melhor defensivamente e mais atlético. Com essa ameaça, McCluskey e Isiah decidiram que o melhor a fazer era se livrarem de Dantley, mandando ele para o Mavericks em troca de Mark Aguirre (1st pick do Draft de 1982, cuja 2nd pick foi - wait for it... - Isiah Thomas!), um ala com um eficiente jogo de costas pra cesta, mas inferior a Dantley. A troca aconteceu... E empurrou o Pistons a um nível ainda superior. Por quê? Porque a troca não tinha nada a ver com basquete! E essa era exatamente a fundação desse time do Pistons: Não é sobre basquete. Dantley ameaçou o entrosamento e mentalidade altruísta do Pistons, e foi trocado por Aguirre, um jogador inferior mas que aceitou seu lugar no time, continuou fazendo sua parte e nunca reclamou de minutos. A troca tirou poder de fogo do Pistons, mas deu a ela mais flexibilidade, defesa e rebotes (pelo aumento de minutos de Rodman) e, principalmente, melhorou o entrosamento e o ambiente do Pistons. Times não ficam grandes pelo que fazem uma fez, e sim pelo que continuam fazendo uma vez que tem sucesso ou uma grande queda. Dantley ameaçou esse equilíbrio, e o Pistons se livrou dele. Não foi uma troca de basquete, foi uma troca pessoal, mas que resultou no Pistons elevando seu nível e liberando uma temporada Keyser Soze em 1988, que terminou com uma varrida do Lakers nas Finais sem a menor dificuldade (Lakers esse que não tinha perdido nenhum jogo até as Finais). E tudo porque Detroit "piorou" no papel com Aguirre no lugar de Dantley.

Essa normalmente é a parte que eu dou alguns números pra mostrar como a temporada de 1989 do Pistons foi sensacional, como eles massacraram todo mundo e jogara com aquela atitude "Eff-You" que caracteriza os grandes times como Celtics de 86 e o Bulls de 96. Mas eu não vou fazer isso. Assim como não é possível captar o quão bom esse time era apenas no papel, é impossível capturar apenas em estatísticas e números o poder do Pistons dessa temporada. Esse Pistons foi construído em cima de uma coisa que transcende qualquer estatística, o "Segredo", e temos que ir muito além pra podermos compreender o poder disso nesse time. Saiba apenas que, se pudessemos organizar um mega torneio eliminatório com todos os times a serem campeōes da NBA, recriando não apenas seu jogo como sua atitude, o Pistons de 1989 provavelmente seria minha escolha depois de Celtics 86, Lakers 87 e Bulls 96. E isso é um tremendo de um elogio. Nenhum outro time misturava atleticismo, defesa, intensidade, competitividade e toughness que nem esse time de Detroit. E poucos times entendiam e praticavam tão bem o "Segredo".

O Pistons ainda teve mais um ano de sucesso em 1990, quando venceu o Blazers nas Finais, antes de sumir em 1991, quando Michael Jordan enfiou uma estaca no coração do Pistons com a famosa varrida que terminou com os jogadores de Detroit saindo de quadra antes do final da partida. No fundo, era assim que a NBA queria que eles fossem embora: Silenciosamente, talvez sem deixar saudades. Eles deram golpes baixos demais pra serem bem recebidos, e talvez por isso pouca gente lembre deles com respeito pelo grande time que eram, mas com ressentimento. Talvez com razão. Mas eles foram um dos grandes times da história da NBA, um dos que melhor praticou o "Segredo", e o time que fez a ponte entre o fim da era Magic/Bird e o começo da era Jordan. Foram um time tão competitivo e tough que Celtics e Lakers nunca mais foram os mesmos depois de gastar tanta energia pra segurá-los. Você pode não gostar ou até odiar os Bad Boy Pistons - e acredite, eu talvez odeie como torcedor do Celtics- mas tem que respeitar o que eles conseguiram. E se tem uma coisa que eu acredito sobre basquete, é que o esporte transcende em muito o que podemos medir e o que acontece "no papel", que tem muito mais por trás disso tudo, e que o mais importante é como você afeta seus companheiros. E o Pistons se construiu em cima disso.

E enquanto o Pistons fazia sua história com os títulos de 89 e 90, o Lakers passava por um período possivelmente conturbado após a derrota em 1989 com a aposentadoria do seis vezes campeão, seis vezes MVP e três vezes MVP das Finais, Kareem Abdul-Jabaar. Apesar da idade (42 anos), Kareem ainda era importante pro Lakers a ponto do time ter chamado para ele a jogada decisiva das Finais de 1988 no Jogo 6 (quando ele sofreu uma falta inexistente do Laimbeer e acertou os FTs). Quando Kareem aposentou, o time perdeu seu líder veterano e pontuador de garrafão, e muita gente  apostou que seria a derrocada do Lakers. Mas Magic assumiu de vez a liderança emocional da equipe, se reinventou como um bom chutador de três pontos, e manteve o time vivo após a saída de Kareem com Vlade Divac e Mychael Thompson no garrafão e Worthy assumindo um papel maior ofensivamente na equipe. A adição de Divac tornou o Lakers o time um pouco mais ágil e que rodava melhor a bola a partir do garrafão, enquanto os minutos de Thompson e AC Green no lugar de Kareem tornaram o time mais flexível e forte fisicamente no garrafão, numa tentativa de compensar a grande perda de poder de fogo e um pontuador nato no garrafão. Depois de perder pra um muito bom time do Suns em 1990, o Lakers deu a volta por cima e chegou forte em 91, se classificando em terceiro no Oeste. Ainda que não fosse mais a potência que era com Kareem, o Lakers conseguiu se reinventar nas costas de Magic o suficiente pra continuar relevante. Nos playoffs, o Lakers varreu um bom time de Houston e ganhou com propriedade de bons times do Warriors e do Blazers antes de chegarem nas Finais como favoritos pra ganhar do Bulls de Jordan e Scottie Pippen. Depois de uma vitória no Jogo 1, com Magic voando, Pippen pediu pessoalmente a Phil Jackson pra marcar o armador do Lakers... E o resto foi história. Pippen marcou Magic com perfeição, o Bulls arremessou 61% de quadra no Jogo 2, Jordan fez isso aqui  e Chicago tomou de vez o controle da série, ganhando com tranquilidade os jogos restantes até o título (Apesar das 20 assistências de Magic no Jogo 5, o famoso jogo do "Jordan, who's open??" que vai ganhar o devido crédito quando falarmos de Jordan).

No fundo, Magic nunca ganhou o devido crédito por essas duas temporadas por um problema de percepção. O fato do Lakers não ter chegado às Finais em 90 e ter sumido em 92 acabou passando a impressão de que era um time fraco tentando desesperadamente se manter vivo antes do fim... E talvez fosse de certa forma, mas na verdade também era a história de um time se reinventando depois de perder um dos seus pilares em Kareem. E Magic nunca recebeu crédito por conseguir realizar esse feito com sucesso no comando do time e recolocar o Lakers no topo do Oeste, e possivelmente teria mantido o Lakers ainda mais alguns anos entre o topo do Oeste caso o HIV não o tivesse tirado de vez das quadras (Nenhuma chance desse Lakers envelhecido ganhar do Suns em 1993, mas tinha uma boa chance de ganhar do Blazers de 92 e chegar a mais uma final). Mas foi um feito e tanto, e por isso eu entendo a escolha do ano de 1991 pro Magic: Por mais que eu ainda preferia Magic em 87 e um post apenas de Magic/Bird, o ano de 1991 personificou a longevidade e a capacidade de Magic de manter um time decadente do Lakers relevante e no topo da Liga, depois de aguentar anos de "Ele não consegue fazer sem Kareem!". Mesmo curto e muitas vezes desprezado, esse período da carreira de Magic sem Kareem cimentou seu legado na Liga como líder de uma equipe. O que poderia ter acontecido depois de 1991, só podemos imaginar pois o HIV o tirou das quadras, mas provavelmente teria mantido o Lakers mais alguns anos em boa forma, e se reinventado (pra bem ou pra mal - possivelmente mal) como um Power Foward no final da carreira.

Por outro lado, por mais que o Lakers pudesse se manter mais alguns anos no topo da Liga com mais alguns anos de Magic, tem algo poético com Magic se aposentando no momento que Jordan assumiu de vez seu lugar no topo da Liga. Como o próprio Magic disse sobre as Finais: "Chega um momento em que o jogador que estava no topo da Liga tem que passar a tocha para o próximo que está chegando. Eu nunca passei a tocha pro Jordan. Ele veio e arrancou ela das minhas mãos nas Finais!". Então por mais que eu nunca desejasse Magic aposentando por algo sério como HIV, talvez tenha sido melhor que ele parasse quando estava por cima, no momento que aparecia alguem ainda superior pra lhe tomar a coroa.

Dois últimos comentários um pouco relacionados a Magic: Primeiro, a disputa pelo MVP da temporada 1987 deve ter sido de longe a melhor da história. Não sei porque eu gosto tanto de MVPs na NBA, mas esse é especialmente saboroso: Tivemos Magic ganhando seu primeiro MVP ao se reinventar como um pontuador mortal e tomando o controle do Lakers de Kareem, com médias de 24-12-6. Em segundo lugar, ficou Jordan, com sua temporada gritando "Cheguei!" e sendo o cestinha da Liga com 37 pontos por jogo. E em terceiro porque todo mundo tava cansado de votar nele (tinha sido MVP três vezes seguidas antes dessa temporada), Bird com sua melhor temporada, 28-9-8 (!!!) e chutando 53-40-90. Olhe de novo essas três temporadas e lembre que o cara que quase teve um Triple Double de média ficou em terceiro e que esse foi o melhor ano estatístico de Bird e Magic... Bom, isso que eu chamo de uma corrida pra MVP, certo??

Pra terminar, eu sempre acho engraçado como a história da NBA seria muito diferente se não fosse por um golpe de sorte e uma tremenda burrice de um GM. Claro, sempre podemos argumentar "Ei, se o Blazers pega o Jordan na 2nd pick do Draft ao invés do Sam Bowie, também seria diferente"... E claro, é verdade, mas a história de Magic e Bird indo parar nos seus respectivos times, pra mim, foi a mais engraçada desse ponto de vista porque foram causadas por coisas decisōes que pouco (na verdade nada) tinham a ver com eles. Pois bem, voltemos para 1975. A NBA realizou um Draft de dispersão para alguns jogadores que estavam saindo da ABA e não tinham sido draftados anteriormente por times da NBA, e entre os jogadores draftados, o New Orleans Jazz usou sua escolha em um pivô chamado Moses Malone (sim, AQUELE Moses que foi três vezes MVP e chutou o traseiro do Kareem a vida toda). No entanto, Malone machucou o pé e pouco jogou em 76, e em 77 o Jazz se apaixonou pelo SG que iria virar Free Agent do Lakers, Gail Goodrich. Como naquela época os times tinham que pagar "compensação" ao assinarem um Free Agent, o Jazz decidiu trocar Moses por uma escolha de primeira rodada, juntar com duas escolhas de primeiras rodadas próprias de outros anos (79 e 80), e mandar por compensação pelo Goodrich (Porque, sabe, aparentemente é uma boa ideia trocar duas 1st rounders e um pivô jovem e talentoso por um SG de 33 anos que não defendia ninguém. Btw, vocês não vão acreditar nisso, mas Goodrich rompeu o tendão depois de apenas 27 jogos na temporada e se aposentou. So there!). Uma dessas picks que o Jazz trocou era a de 1980... E claro que o Jazz teve a pior campanha em 1979 e essa escolha nas mãos do Lakers acabou virando a primeira de todo o Draft. Isso aí... Magic Johnson!! De uma tacada, o Jazz perdeu Moses E uma chance de pegar Magic... E o Lakers nunca teria acabado com Magic se não fosse a estupidez do GM do Jazz que decidiu pagar tudo aquilo por Goodrich. O Lakers simplesmente aceitou o presente. Me diga a última vez que uma única troca estúpida mudou tanto o destino de três ou quatro times e diversos títulos.

Com Bird, foi ainda mais esquisito (embora não tão inexplicável como essa troca por Goodrich). De alguma forma, Red Auerbach teve uma pequena pane cerebral antes da temporada de 76 e achou que era uma boa ideia trocar Paul Westphal e Paul Silas por Charlie Scott, Sidney Wicks e Curtis Rowe. Não só Westphal deu vida nova ao Suns (que chegou nas Finais aquele ano) e Silas era um dos favoritos da torcida, os recém-chegados não adicionaram em nada, jogaram mal e irritaram toda a torcida por não se importarem e não darem tudo de si, o que acabou matando o entrosamento do time em 77/78. Em 1978, quando a temporada do time ia pro saco graças a essa falta de ambiente na equipe, Red percebeu a besteira que tinha feito e se livrou dos três. Em particular, Scott foi trocado para o Lakers por Kermit Washington e uma escolha de primeira rodada. No Draft seguinte, a escolha do Celtics foi a número 6, e a recebida do Lakers (via New Orleans ainda na troca do Goodrich) foi a número 8. O Celtics acabou usando sua 6th pick num Junior de Indiana State que só viria pra NBA na temporada de 80 (passando mais um ano no College) chamado Larry Bird, e a 8th pick num ala pontuador chamado Freeman Williams pra substituir John Havlicek. Bom, até ai tudo bem, certo? Acontece que o próprio Red admitiu que o Celtics precisava urgentemente de um ala pontuador e que só pegou Bird pra esperar um ano porque sabiam que tinham outra escolha pra suprir a necessidade mais urgente (o ala pontuador), e portanto podiam se dar ao luxo do tempo com Bird. Em outras palavras, se o Celtics não tivesse a 8th pick vinda da troca de Scott,  eles teriam pego Williams com a 6th Pick e não Bird. Ou seja, se Red Auerbach não tivesse cometido o erro de trocar Silas e Westphal, o Celtics provavelmente teria tido uma boa chance de ganhar as temporadas 77 e 78 da NBA (especialmente 78, acho que ninguém tirava do Blazers em 77), mas ao mesmo tempo não teria pego Bird em 79 e nunca teria tido a década de 80 que teve. E depois não entendem porque Red foi o GM de mais sucesso da história: até quando ele errava, dava certo.

A parte mais engraçada? Se o Celtics não tivesse trocado Westphal, provavelmente teria pego Williams na 6th pick e perdido Bird, mas... Aonde Bird iria parar? A 7th pick era do Blazers, que dificilmente teria pego um jogador para esperar um ano dadas as lesōes de Bill Walton e a necessidade de ajuda imediata para um time que queria brigar pelo título pelas ultimas vezes, e a 8th pick teria sido de... Wait for it... Los Angeles Lakers, via Jazz! Como o Lakers tava passando por um período de reconstrução (por isso a troca de Washington), era bem capaz de LA ter acabado apostando em Bird, esperado um ano, e juntado com sua futura 1st rounder do Jazz em 1980 (o próprio GM Jerry West admitiu que queria pegar Bird se tivesse a chance em 1979). Em outras palavras, se Red não troca Westphal por Scott, o Lakers provavelmente iria pegar Bird em 79 e acabar com Bird, Magic E Kareem no mesmo time pelos próximos nove ou dez anos. Holy smokes!! Entendem agora o que eu quis dizer com "pequenas decisōes que nada tinham a ver com Bird e Magic mudando a história da NBA"? Quantos títulos esse time teria ganho pro Lakers? Sete? Oito? Gosto do jeito como as coisas acabaram, muito obrigado!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Especial NBA - Larry Bird e Kareem Abdul-Jabaar



Para quem não sabe que Especial é esse e pra que ele serve, leiam esse post antes. 
Posts anteriores:
 - Bill Russell e Wilt Chamberlain
 - Jerry West e Oscar Robertson
 - Julius Erving

Larry Bird (Boston Celtics, 1986)
Kareem Abdul-Jabaar (Los Angeles Lakers, 1987)


Senhoras e senhores, seus vencedores para "Melhor sequência de dois anos da história da NBA". E já aviso a vocês todos, eu não consigo ser totalmente imparcial quando falo dos anos 80 na NBA, em especial desse período de dois anos entre 1986 e 1987. Porquê? Bom, nesse biênio vimos dois dos melhores times de todos os tempos, duas das três maiores temporadas Keyser Soze da história da NBA (com o Bulls de 96 sendo a outra), o auge de dois dos cinco maiores jogadores de todos os tempos, a maior rivalidade entre dois times da história da NBA e a maior - e mais interessante - rivalidade individual da história da NBA entre Magic Johnson e Larry Bird. Foi o período que a NBA definitivamente deixou de ser uma Liga secundária e passou a ser mainstream, que a NBA entrou no modo de TV a cabo e finalmente teve suas maiores estrelas repercutindo fora das quadras (como vocês devem lembrar, isso começou com Julius Erving alguns anos antes). Então sim, foi um período extremamente interessante e muito importante. Ninguém pode me culpar por babar toda vez que tocam nesse assunto

Mas muito embora a década de 80 tenha sido dominada e marcada por dois dos melhores e mais importantes jogadores da NBA (Bird e Magic), e serem os dois envolvidos na grande rivalidade da história da Liga, o 2K12 nos deu um outro jogador pro time do Lakers de 87, outro dos grandes de todos os tempos, Kareem Abdul-Jabbar. E embora eu entenda porque Magic ficou com o Lakers de 91 (falaremos disso mais tarde), pra mim devia ser Magic e Bird com esses dois times. Mas como ficou com Kareem, vamos falar rapidamente de Lew Alcindor antes de seguirmos em frente.

Eu já falei muito de Kareem - em especial quando ele ainda era Lew Alcindor e jogava pelo Bucks - nos posts de Oscar Robertson e Julius Erving, então para maiores detalhes recomendo que leiam esses posts. Mas pra falar rapidamente da carreira dele, precisamos começar por quando ele foi draftado. Saindo do College, Alcindor era considerado o próximo grande pivô e superestrela da NBA. Ágil e rápido demais pra ser marcado por jogadores mais altos e fortes, alto e habilidoso demais pra ser marcado por jogadores mais baixos e atléticos, e ainda possuindo o único arremesso da história da NBA que era impossível de evitar - o seu famoso Sky Hook - Kareem dominou a NCAA ao ponto de que criaram uma regra proibindo enterradas por causa dele (que David Thompson adorava desafiar e enterrar mesmo tomando uma técnica depois). Por isso, quando finalmente chegou a hora de mudar para os profissionais, aliciar Kareem virou uma questão importantíssima no contexto da competição entre a NBA e a ABA: A NBA queria mostrar que não estava com problemas e que ainda era capaz de trazer as grandes estrelas da NCAA, e a ABA queria mostrar sua força e atrair uma das grandes estrelas do basquete, que eventualmente forçaria um contrato de televisão e apressaria a fusão entre as duas (para mais detalhes, leiam o post de Erving).

O resultado todo mundo sabe, Kareem acabou indo para o Bucks, jogar na NBA. Mas o curioso é, Kareem queria mesmo era ir pra ABA, uma Liga com mais jogadores negros onde ele poderia morar em New York (e jogar pelo Nets), uma cidade muito mais interessante do que Milwaukee. No entanto, como a ABA ainda era uma Liga recém-formada e ele não queria flertar muito com ela em público, decidiu que iria escutar apenas uma oferta de cada Liga antes de decidir... E quando o comissário da ABA, George Mikan, foi fazer a proposta para Kareem, ele simplesmente esqueceu - não, sério, ele esqueceu - de entregar a ele um cheque de um milhão que fazia parte da proposta para ele jogar no Nets. Ofendido pela proposta da ABA, Kareem decidiu jogar pela NBA.

A carreira de Kareem na NBA teve um começo interessante. Com muito sucesso logo na sua primeira temporada (29-15-4, Rookie of the Year), o Bucks decidiu ir atrás de ajuda imediata para conseguir um título para sua superestrela, trocando por Oscar Robertson. Não vamos entrar em detalhes porque isso já foi contado no Especial sobre Oscar, mas o Bucks acabou ganhando seu título aquele ano com Kareem (32-16) liderando o time. O Bucks se manteve relevante por mais alguns anos enquanto Kareem e Oscar continuaram jogando, mas quando Oscar se aposentou depois da temporada 1974, o Bucks de repente ficou sem armador e sem um elenco de apoio decente para Kareem (o time era tão ruim que em 75 o próprio Kareem liderou o time em assistencias... Com 4.1 por jogo). Depois de amargar uma temporada de 1975 muito ruim, com um péssimo time e preso em uma cidade chata e sem nenhuma população muçulmana, Kareem se tornou o primeiro Superstar a forçar uma troca de um time de mercado pequeno para um de mercado grande ao forçar uma troca para o Los Angeles Lakers. Pois é, se Doctor J foi o superstar responsável por tornar as estrelas do basquete ícones foras das quadras, Kareem foi o responsável inicial pela tendência de Superstars forçarem trocas para times de mercado grande. Adivinhe qual deles é lembrado com mais saudade.

Bom, Kareem foi trocado pro Lakers, mas não foram exatamente bons anos para ele. O Lakers teve que mandar boa parte do seu time na troca e Kareem acabou ficando em Los Angeles com um elenco de apoio medíocre, cada vez mais introspectivo e incapaz de carregar aquele elenco fraco longe. No entanto, pra sorte de Kareem - e da NBA - o Draft da 1980 acabou trazendo a salvação.

Com o tempo, acabou se criando um certo mito de que a chegada de Magic e Bird na Liga salvou a NBA. Que a NBA estava em baixa com audiência e popularidade, vindo de algumas temporadas fracas e com Finais pouco importantes que sequer foram transmitidas ao vivo, e em resumo, com dificuldades de conectar com o povo e colher os benefícios disso. E a chegada de Magic e Bird teria reacendido a Liga, salvado sua popularidade e lançado a NBA de vez no mundo do sucesso.

Bem, na verdade esse mito não é muito verídico. É verdade que a NBA estava com dificuldades financeiras e em termos de público, especialmente depois da temporada de 1977. Apesar da fusão entre as duas Ligas ter juntado o melhor do talento do basquete em uma Liga só, os times ainda passavam por uma fase de adaptação. O choque entre os estilos da Liga foi bem grande, muitos times tiveram muitas dificuldades pra estabelecerem uma identidade com jogadores acostumados a estilos muito diferentes, e pra piorar o melhor e mais popular time da NBA da época (Blazers, campeão em 77 e 50-10 na temporada 78) acabou implodindo depois da lesão que tirou Bill Walton (Por sinal, a maior estrela da Liga junto com J) das quadras. O aumento dos salários pré-Merger acabou tirando um certo poder dos times e fez com que os torcedores parassem de se identificar com os jogadores (aquela velha história do "Todo mundo ganha demais e se importa de menos", justa ou não). As temporadas de 78 e 79 foram temporadas muito fracas, sem times fortes carregados por estrelas carismáticas e com a televisão nem se importando em passar os jogos ao vivo. A NBA precisava de uma vida nova, alguma coisa que atingisse mais fãs e que aumentasse o interesse na Liga, e portanto as receitas. Então sim, essa parte da história é verdade, embora tenha sido um pouco exagerada ao longo dos anos.

E é verdade também que isso começou a mudar em 1980, o ano que Magic e Bird (Draftado em 79, mas só foi pra NBA um ano depois) chegaram na Liga. Mas a questão é que o principal motivo dessa mudança não foi exatamente a chegada de Bird e Magic. Não entendam errado, a chegada dos dois para as duas principais franquias da Liga, já trazendo uma rivalidade vindo da NCAA depois de uma espetacular temporada que acabou com o Michigan State de Magic vencendo o Indiana State de Bird na final, foi muito importante. Bird e Magic eram as estrelas que a Liga precisava, ancoraram os dois grandes times dos anos 80, conectaram com fãs (algo que a Liga precisava urgentemente) e mostraram pro mundo que basquete era realmente divertido. A entrada dos dois na Liga definitivamente levou a NBA para um patamar muito melhor. Mas isso demorou algum tempo pra se firmar, enquanto que a temporada de 1980 sozinha já deu sinais de recuperação antes mesmo dos dois estourarem. E isso aconteceu principalmente por causa de outra coisa: TV a cabo. E isso foi a melhor coisa que aconteceu pra NBA, porque deu à nova geração de talentos da NBA muito mais exposição. Ao inves de depender da CBS, passar poucos jogos na televisão, seus principais jogos mudados de data pra acomodar a programação da emissora ou simplesmente ver os playoffs passando em tape delay, a NBA agora tinha canais pra passar sua programação num periodo muito maior, passar seus jogos importantes ao vivo e aumentar em muito o tempo de exposição da Liga na televisão. Essa mudança permitiu à NBA alcançar uma base de fãs muito maior e aumentou em muito o material disponivel em vídeo. Então sim, a entrada de Bird e Magic foi importantíssima pra NBA, mas quem permitiu que eles atingissem essa importância foi a chegada da televisão a cabo.

A rivalidade de Magic e Bird quando chegaram à NBA já era mais do que esperada, depois da temporada de 79 na NCAA quando os dois foram as grandes estrelas e duelaram nas Finais. Mas além disso, os dois eram jogadores que se importavam demais com basquete, jogavam para seu time, eram extremamente divertidos de assistir, dois dos melhores passadores de todos os tempos, e, no caso de Magic, ele ainda fez o que apenas Doc tinha feito antes: transcendeu a barreira da cor. Ninguém pensava em Magic como sendo branco ou negro, e sabendo o que sabemos sobre jogadores como Elgin Baylor e Oscar, isso significava bastante coisa. Mas assim como J, ninguém ligava pra isso com Magic: Ele era divertido, altruísta, jogava pro time e tinha um sorriso contagiante em quadra. A melhor comparação pra Magic que eu já vi, feita pelo Denis do Bola Presa, foi a do Ronaldinho Gaucho nos tempos de Barcelona, quando ele jogava com um sorriso enorme no rosto e genuinamente se divertia com o que fazia. Em outras palavras, Magic e Bird não eram só extremamente bons, eles eram - especialmente Magic - extremamente carismáticos. E a Liga precisava de jogadores assim. E se eles vivessem pra chutar o traseiro um do outro (apesar de serem ótimos amigos fora de quadra), melhor ainda!

E lógico, a dupla deu muito certo logo de cara. Logo no primeiro ano dos dois, 1980, Bird ganhou Rookie of the Year (21-11-5, com quase 2 roubos e 40%3PT) e levou um bom time do Celtics aos playoffs, e Magic - depois de ressuscitar a carreira de Kareem - foi MVP das Finais naquele ano em cima do Sixers de J por causa especialmente do seu jogo 6: 42 pontos, 15 rebotes, 7 assistências jogando o jogo todo de pivô no lugar de Kareem, que ficou em Los Angeles machucado se preparando para o eventual jogo 7, no que Bob Ryan chamou de "A melhor performance individual que eu já vi na vida" (precisa ser citado, Kareem foi o principal jogador do Lakers nos cinco primeiros jogos e anotou 40 pra ganhar o jogo 5 mesmo jogando em uma perna só). No ano seguinte, com Magic batalhando lesōes e problemas de entrosamento com o time (em especial, insatisfeito por dividir a armação com Norm Nixon), Bird assumiu o controle do Celtics após a  aposentadoria de Dave Cowens e levou um bom time com Robert Parish, Tiny Archibald e Cedric Maxwell, e ainda Kevin McHale vindo do banco, para o título da NBA em cima do Rockets de Moses Malone. Em 1982, o Lakers novamente chegou no topo da Liga vencendo o Sixers, com Magic e Kareem (ainda o Alpha Dog do time) liderando um grupo muito bom que ainda tinha Bob McAdoo, Jamaal Wilkes e Nixon (Magic teve um espetacular 18.6 pontos, 9.6 rebotes e 9.5 assistências na temporada regular, o mais perto que alguém já chegou do triple double de Oscar).

(Nota importante demais: Parish e McHale - 3rd pick no Draft - vieram pra Boston do Warriors em troca da 1st pick daquele Draft, que era do Celtics, e futuramente virou Joe Barry Carroll. Sempre que você pode trocar um cara cujo apelido era Joe Barely Cares por Parish e McHale, você tem que fazer a troca. Red Auerbach nem precisou pensar muito nessa)

Ou seja, embora Magic e Bird ainda não tivessem se enfrentado diretamente na NBA, os dois e sua rivalidade já tomavam conta da NBA. Bird tinha sido campeão liderando o Celtics de 81, e Magic bicampeão em 80 e 82, mas ainda como o second banana de Kareem (que, para sermos justos, nunca teria voltado a jogar nesse nível não fosse Magic). Essa dominância e rivalidade dos dois foi a bandeira que a NBA começou a carregar pra atrair cada vez mais torcedores, e funcionou. Mas a Liga queria muito que os dois se enfrentassem diretamente nas Finais pra dar o boom definitivo de audiência. E pra sorte de David Stern, recém-apontado comissário, isso aconteceu não só uma, mas duas vezes, em 1984 e 1985.

Em 1984, depois de um ano conturbado em 83 quando o Celtics desistiu do seu técnico na metade da temporada, e cansado de apanhar do Andrew Toney todo ano, contrataram KC Jones pra técnico e trocaram por Dennis Johnson, o melhor guard defensivo da sua geração. Apesar do Sixers ter feito o favor de perder pro Nets antes de enfrentar o Celtics, Boston viu sua nova aquisição valer a pena quando o time foi pra Final, onde o Lakers esperava na sua terceira final consecutiva para o primeiro Bird vs Magic no profissional. Pra ambos os jogadores e ambos os times, bem como pra NBA e pra televisão, a final não desapontou. Na verdade, considerando que o salary cap entrou em vigor ao final de 1983 e que hoje em dia é impossível para times se manterem tão lotados de talento como aqueles times dos anos 80, e que hoje os jogadores na Liga se gostam demais pra ter rivalidades como aquelas, provavelmente nunca mais veremos uma série com tanta rivalidade, tantos jogadores bons em quadra ao mesmo tempo, tão física e tão disputada. Muita gente até hoje considera as Finais de 1984 como as melhores de todos os tempos: Sete jogos, a falta mais famosa de todos os tempos, muitas faltas duras, muitas prorrogaçōes, um dos maiores jogos de todos os tempos (Jogo 4, com a falta de McHale em Kurt Rambis, Magic errando o game-winner no tempo normal, depois sumindo nos momentos decisivos da prorrogação, Larry acertando o arremesso decisivo em cima de Magic em OT, e o Celtics finalmente ganhando por quatro) alguns game-winners e momentos marcantes... E um time superior do Lakers perdendo um jogo 7 principalmente porque Magic e James Worthy falharam em momentos decisivos dos jogos 4 e 7 pra um time do Celtics que simplesmente queria mais a vitória, nas Finais que finalmente explodiram de audiência e elevaram a NBA ao status "cool".

O Lakers se vingou em 85, quando roubou as Finais de um time do Celtics superior que implodiu por problemas de entrosamento (especialmente um insatisfeito Maxwell) e por causa de Bird ter machucado sua mão em uma briga de bar e ter tido muitos problemas nas Finais. Até hoje, McHale e Danny Ainge ainda reclamam que o Celtics perdeu uma ótima chance de repetir o título de 84, e por melhor que aqueles Lakers fossem, o Celtics ainda provavelmente ainda era melhor. Mas tudo bem, por dois motivos: Primeiro, o Lakers era melhor em 84 e entregou as Finais, o Celtics devolveu o favor em 85. E também, porque sem essa derrota, não teríamos o meu time favorito da história da NBA: O Celtics de 86.

Eu sempre digo que pra um time atingir seu àpice, um dos ingredientes mais importantes que existe é a motivação. Todo time tem alguma coisa que funciona como um motivador, e quanto mais forte, mais o time vai extrair de si mesmo, mais vai atingir aquele nível Keyser Soze, aquela temporada onde o time não quer só ganhar, ele quer massacrar e provar um pouco. E não tem motivador melhor do que o grande time que foi derrubado e quer voltar ao topo, mas não só voltar ao topo, mas também não quer deixar a menor dúvida de quem é o melhor. E pro Celtics de 1986, ele nunca teria atingido esse nível de motivação se não tivesse perdido em 85 para um Lakers inferior.

Antes da temporada começar, o Celtics trocou o infeliz Cedric Maxwell pelo eternamente machucado Bill Walton e liberou, pra mim, a definitiva temporada Keyser Soze de todos os tempos. Com um Bird puto da vida (27-10-6, 2 Steals, 42 3PT%) liderando o caminho, McHale no seu auge e um quinteto ridiculo de DJ, Ainge, Bird, McHale e Parish (com Walton e Scott Wedman vindo do banco) se encaixando perfeitamente em torno da hierarquia da equipe, o Celtics tinha tudo que você poderia querer de um time: Entrosamento e chemestry perfeitos (Todo mundo sabia seu lugar na equipe), um superstar no auge de suas forças, um garrafão espetacular, ótima rotação, uma excelente defesa (DJ e McHale eram dois dos melhores defensores da sua geração, Parish era muito sólido, Ainge era bom, e Bird roubava um bilhão de bolas por jogo), podia arremessar de três (Bird, Ainge e Wedman), dominava os rebotes, todos os jogadores só se preocupavam com a vitória e não com seus números, tinha flexibilidade pra se adaptar a qualquer estilo e qualquer adversário... E, mais importante, era um dos grandes times passadores de todos os tempos. Com Bird e Walton (dois dos maiores da história no quesito) fazendo os passes de costume, seus passes, visão de jogo e altruísmo em quadra contagiavam todos seus companheiros, e logo todos viam os mesmos ângulos e jogavam com a mesma disposição de achar companheiros livres pra cestas, fazendo com que o jogo parecesse mais um show do Globethrotters do que outra coisa pela quantidade de passes espetaculares e enterradas fáceis. Com seus companheiros no auge, Bird começou a explorar mais do que nunca seus passes e sua capacidade de fazer a bola rodar e abrir a defesa, e todo o time seguiu a deixa. Tente assistir um jogo daquele time... É praticamente impossível enxergar os ângulos dos passes daquele time.

Como se fosse pouco, o Celtics tinha o maior inside-outside combo da história da NBA. Com Bird (excelente arremessador, um dos maiores passadores da história do mundo) e McHale (ninguém tinha mais post moves do que McHale, que chutava 60% de quadra e precisava de double teams o jogo todo) combinando pra 51 PPG, 18 RPG, 11 APG e 54FG% e exigindo marcação tripla ou quádrupla, o Celtics vivia achando jogadores livres pra arremessos ou bandejas o tempo todo só com a atenção dada a esses dois (caso a marcação não viesse, eles pontuavam a vontade). Some a isso Parish e Walton combinando pra 25-15-4 e 4 tocos por jogo, e o Celtics simplesmente era invencível no garrafão: Ninguem podia vencê-los nos rebotes ou pontuando perto do aro, e no ataque o Celtics simplesmente ficava rodando o garrafão, pegando rebotes ofensivos e achando arremessadores livres o jogo todo. Como você parava esse time? Era impossível. Além disso, o time podia ir baixo (DJ-Ainge-Wedman-Bird-McHale) ou alto (Ainge/DJ - Bird - McHale - Parish - Walton), o que o tornava um matchup impossível para qualquer time e qualquer estilo.

Números sozinhos não fazem jus à temporada 86 do Celtics, mas eles ajudam: 67-15 na temporada regular, durante o período mais competitivo da história da NBA e indo 18-2 contra times com 49 vitórias ou mais (O problema do time: frequentemente se entediavam contra times fracos, senão teriam passado de 70); um absurdo 40-1 em casa, que sobe pra um recorde da NBA 50-1 se contarmos playoffs, então acreditem quando eu digo que NINGUÉM encostava nesse time em casa; sequências de 14 e 13 vitórias consecutivas ao longo da temporada regular; uma sequência de 11-0 que incluiu vitórias contra Lakers, Sixers, Bucks, Hawks e Rockets (sabe, cinco dos melhores times da NBA); líder em assistências, rebotes, FG%, FT% e 3PT% e com a melhor defesa da Liga; tudo isso na temporada regular. Nos playoffs, o Celtics emendou um 15-3 (10-0 em casa) com o quarto melhor ataque e a melhor defesa, um point-diferential de 10.6; varreu os fortes Bucks e o Bulls de Michael Jordan e meteu um 4-1 no Hawks antes de vencer um fortíssimo Rockets em 6. Além disso, o Celtics jogou o melhor quarto de basquete da história da humanidade conhecida: O terceiro quarto do jogo 5 contra o Hawks, um massacre de 36-6 que terminou com uma sequencia de 24-0. Vendo aquele vídeo 26 anos depois, ainda é surreal: A defesa é espetacular, a intensidade é impar, os passes e os contra-ataques são inacreditáveis, e a alegria dos jogadores do Celtics enquanto acontece é contagiante (em um ponto, depois de uma bandeja, DJ começa a pular e comemorar no meio do jogo, tentando extravasar a alegria). Grandes times sabem reconhecer quando tem algo grande acontecendo, e respondem de acordo... E essa foi a resposta mais definitiva que eu já vi na vida. O único defeito dessa temporada foi não ter acabado com uma vitória sobre os rivais Lakers (algo que emputeceu profundamente um Celtics com sede de vingança), que perdeu para o Rockets numa história que será contada em outro post.

Se a temporada do Celtics de 86 foi tão fantástica, teve um time tão icônico e histórico e a definitiva temporada Keyser Soze de todos os tempos, porque ninguém fala mais dela? Porque a memoria das pessoas é uma droga, eu vivo dizendo! Você tinha cinco dos 100 maiores jogadores de todos os tempos (DJ, Bird, McHale, Parish e Walton) jogando juntos na temporada mais invencível da história da NBA, Bird e McHale no seu auge, um time que era praticamente perfeito em qualquer departamento (defesa, rebotes, pode escolher) e que massacrou toda a competição pelo caminho verdadeiramente gritando "Nós somos os melhores e vamos provar!" na orelha de quem encontrasse... E mesmo assim, de alguma forma, ninguém lembra desse time como deveria. Esse Celtics foi o grande motivo de eu querer fazer alguma coisa pra não deixar isso morrer. Os números são fantásticos e vão continuar chamando a atenção pra toda a eternidade, mas como quase tudo em basquete, números não servem pra capturar exatamente o impacto do que acontece numa quadra de basquete. Nenhum número é capaz de mostrar exatamente o nível de impossibilidade de defender Bird e McHale, a intensidade do garrafão do time, sua flexibilidade, a forma como o time jogava coletivamente, seus espetaculares sempre achando um companheiro livre. .. Nem o sentimento geral de "Holy hell, ninguém ia ganhar desses caras esse ano!" que o time passava, ou a forma como subiam um nível quando sentiam cheiro de sangue. Essas coisas só duram por vídeos e relatos escritos, e é o que eu estou fazendo aqui.

(Tangente rápida: Após essa temporada espetacular, o Celtics ainda tinha a 2nd pick do Draft daquele ano, onde pegou Lenny Bias. Bias era exatamente o que o Celtics precisava: Um ala atlético, que atacava a cesta como ninguém e que teria deixado Bird e McHale descansarem por mais tempo ao longo da temporada. Pense nisso de novo: O Celtics, saido de uma das maiores temporadas de todos os tempos, estava ADICIONANDO Lenny Bias!! Mas claro, Bias morreu de overdose dois dias depois, McHale quebrou o pé por causa do excesso de minutos e falta de um ala reserva, as costas de Bird cederam dois anos depois pelo excesso de minutos sem Bias na reserva, e o Celtics nunca mais foi o mesmo)

E aliás, isso também serve pra um outro time: O Lakers de 87. Depois de uma derrota doloridíssima pro Rockets em 86, e com Kareem cada vez mais velho e incapaz de ser o Alpha Dog do time, Magic percebeu o que tinha que fazer e assumiu a liderança de vez da equipe. Pegou a tocha de Kareem, se reinventou como um pontuador letal e um assassino no final dos jogos, e reergueu o Lakers em torno do trio Magic-Kareem-Worthy e uma identidade mais veloz e mais baixa. Com Mychael Thompson (um defensor de garrafão de elite) vindo de presente de San Antonio (que decidiu jogar a temporada fora por David Robinson), e Magic dando o salto definitivo da sua carreira (24-6-12, 52 FG%), o Lakers se fechou no seu modo Keyser Soze e jogou com a mesma intensidade do Celtics do ano anterior em busca de sangue.

Algum tempo depois, Magic viria a declarar que esse foi seu melhor time... E eu concordo. Nenhum time tinha um ataque tão letal e tão bem montado como o desse Lakers. Seja na transição com Magic comandando o show (nenhum jogador era mais imparável na transição que Magic, ponto) ou seja na meia quadra com Kareem (no garrafão) e Worthy (criando seu arremesso) ajudando Magic, o fato era que nenhum ataque combinou tão bem ataque de meia quadra e transição. Ainda que o Lakers não tivesse o garrafão forte do Celtics, Magic também era um passador tão bom, inteligente e altruísta que isso contagiou todo o time do Lakers, e assim como o Celtics de 86, logo todo mundo estava rodando a bola e achando o jogador livre. Ainda que o Lakers tivesse duas fraquezas (era um time apenas razoável defensivamente, e o pior de toda a NBA em rebotes), eles continuavam ganhando e emendando sequências impressionantes simplesmente porque tinham um ataque imparável, porque tinham Magic e Worthy no seu auge (poucos jogadores na história foram melhores em basquete do que Magic em 87), Kareem ainda capaz de usar seu skyhook, e porque eles tinham uma profundidade incrível.

No final, o Lakers liberou sua melhor temporada: 65-15 (15-3 nos playoffs), 12-6 contra times acima de 50 vitórias, melhor ataque da temporada regular e dos playoffs, point diferential de 11.4 nos playoffs, 28 APG pro time, varreu Denver e Seattle e teria varrido Golden State se não fosse pelo Sleepy Floyd Game (Quando Sleepy anotou 30 pontos no quarto período sozinho pra ganhar o jogo), antes de ganhar do Celtics em 6 nas Finais. Parece bem sólido, mas não transcendental, certo? Fica melhor quando você pega qualquer vídeo desse time num jogo apertado, ligando a quinta marcha e pontuando a vontade, com os adversários com aquela cara de "O que podemos fazer pra parar esses caras??". Imagine o Suns de 07, melhore eles defensivamente (mas não nos rebotes), e agora de a ele um elenco cinco vezes mais profundo e dois jogadores de elite além do Steve Nash capazes de criar seu próprio arremesso (Worthy e Kareem)... E dê ao time PEDs. Aquele Suns foi o melhor basquete ofensivo que eu vi em toda a minha vida, e o Lakers de 87 era uma versão MELHORADA daquele Suns. Quando a defesa e os rebotes começavam a falhar, eles simplesmente ligavam o "Ok, vamos ter simplesmente que fazer mais pontos que vocês"... E não tinham como pará-los. Era simplesmente injusto. Era velocidade no contra ataque, passes maravilhosos em transição e na meia quadra, três ótimas opçōes ofensivas (Magic, Worthy ou Kareem) e mais uma penca de Role Players prontos pra  fazer o que fosse necessário (e um excelente técnico no Pat Rilley). E isso pode ser apenas parcialmente capturado em números ofensivos, que não refletem a capacidade do time de elevar seu nível ofensivo quando sentiam cheiro de sangue, ou a impossibilidade de defender Magic, Big Game James e Kareem ao mesmo tempo, ou seus passes transcendentais.

Enquanto isso, os atuais campeōes Celtics lidavam com uma série de problemas. Com Bill Walton machucando logo no começo da temporada e perdendo o resto do ano, e sem Lenny Bias pra dar a proteção pros alas, a rotação de garrafão do Celtics ficou muito mais magra do que antes e forçou Bird, McHale e Parish a jogarem muito mais minutos do que o ideal. Isso resultou em uma série de lesōes ao longo do ano, culminando na mais grave, McHale quebrando seu pé. Chegando perto dos playoffs, um McHale apressou sua volta porque o time não tinha mais como jogar sem profundidade no garrafão, quebrou o mesmo pé de novo... E decidiu que continuaria jogando com pé quebrado e tudo! Por que? Porque você só tem um certo número de chances de brigar pelo título, e se não aproveitá-las, elas podem não voltar mais. McHale sabia disso, e nunca quis assistir seus companheiros brigando sozinhos pelo título. Então pé quebrado e tudo, continuou jogando pelos playoffs, acabando com o resto da sua carreira e gerando problemas que duram até hoje. E quer saber? Ele mesmo disse que faria de novo e que não se arrepende. Diga o que você quiser de Kevin McHale, mas ele se importava. Ninguém pode questionar a vontade desse cara. E assim o Celtics chegou extremamente baleado nos playoffs: Walton estava fora, Parish, Ainge e Wedman estavam com lesōes o que os teria tirado de quadra se fosse a temporada regular, e McHale estava jogando com a droga de um pé quebrado! E pra piorar, eles enfrentaram o time mais físico, que jogava mais duro e mais sujo da Liga inteira, o fortíssimo Pistons. Foi uma carnificina de sete jogos, com Rick Mahorn repetidamente pisando de propósito no pé de McHale pra piorar a fratura, muitas faltas duras que pioraram lesōes, geraram novas e, em geral, um jogo muito mais físico e contra um adversário muito mais duro do que qualquer outro do Oeste. Embora o Celtics tenha ganho a série com um sabor especial, vencendo o jogo 5 com o famoso roubo de bola de Larry Legend pra cima do Isiah Thomas e vencendo um jogo 7 de forma definitiva, o time chegou nas Finais com vários jogadores machucados, McHale totalmente no sacrifício, e Larry Legend levando o time nas costas. Mesmo com Bird vs Magic III nas Finais, ambos no seu auge, todo mundo sabia que o Lakers era o grande favorito, e confirmou isso fechando a série em 6 em outra final com grande audiência.

Então sim, o Lakers de 87 pegou uma boa série de golpes de sorte: O Rockets, que os derrotou em 86 e era um time feito sob medida pra derrotar o Lakers (e que vai ganhar mais espaço quando falarmos de Hakeem Olajuwon), acabou implodindo sozinho por diversos motivos que não tiveram nada a ver com o Lakers; e mais importante, o Celtics de 87 era um time muito piorado em relação a 86, sem Walton e com vários jogadores machucados (até hoje não entendo como o Lakers demorou seis jogos pra fechar a série, e teriam sido sete se o 3PT desesperado de Bird cai no final do jogo 4, depois do lendário Baby Hook de Magic. Veja o vídeo até o fim, vale a pena). Se o Celtics tivesse saudável, teria ganho do Lakers? Impossível dizer, o Celtics teve seu auge em 86 e o Lakers em 87. Porque ai que está: Esse time do Lakers era simplesmente bom demais!! Mesmo que não tivessem uma grande defesa e pudessem ser acuados por times que dominassem os rebotes, mesmo que tenham tido alguns golpes de sorte, eles tinham uma capacidade de subir de nível e falar "Ok, agora vamos mostrar o que somos capazes, vamos pontuar de todas as formas diferentes que você possa imaginar, transformar cada erro seu em um contra ataque mortal, e dominar você de tantas formas até que vocês abandonem seu jogo e seu autodestruam" que poucos times na história do jogo tiveram. No quesito "invencibilidade", eles provavelmente só perdem pro Bulls de 96 e pro Celtics de 86, e nenhum time era mais completo ofensivamente. Eles tinham um dos cinco maiores jogadores da história no seu absoluto auge. Se isso não faz um time ser excepcional, eu não sei o que mais faz. E os Lakers de 87 eram excepcionais em qualquer sentido.

Por isso tudo, não da pra falar da década de 80 sem falar de Magic e Bird. Eles foram o foco e a bandeira que a Liga carregou durante nove sólidos anos (até o corpo de Bird traí-lo). Com ajuda da TV a cabo, a rivalidade entre os dois acabou levando a Liga a um novo nível de popularidade e achou uma nova forma de conectar com os fãs e lançar a Liga nos grandes mercados. E isso aconteceu porque eram dois jogadores extremamente habilidosos, muito carismáticos, com uma rivalidade intensa e amigável ao mesmo tempo, dois jogadores que eram muito dedicados ao basquete, e dois dos maiores passadores de todos os tempos. Dois jogadores que eram tão bons passadores e tão altruístas dentro de quadra que isso contagiava seus companheiros de time e levava todos a um lugar mais alto, e no fundo, esse é o tipo de coisa que não se captura com estatísticas mas que é uma das formas mais importantes que se pode afetar um time de basquete, e que faz de jogadores como Bird, Magic, Walton, Nash e Jason Kidd (pra citar alguns) tão bons e tão difíceis de medir com números apenas. Entre 1980 e 1989, a NBA não viu NENHUMA final sem Bird ou Magic, e apenas em 83 e 89 (já chegaremos lá) um dos dois não conquistou o título. E por mais importante que Kareem tenha sido, por mais que sua longevidade e sua capacidade de manter um alto nível por tanto tempo sejam inigualáveis na história da Liga (MVP das Finais com 15 anos de distancia?? Sério?), por mais que ele tenha sido o Alpha Dog do Lakers nos três primeiros títulos, e por mais que o Lakers nunca iria ganhar esses cinco títulos sem ele (tirando, talvez, 88)... Os anos 80 pertenceram a Magic e a Bird. E a NBA agradece por isso.

Pra terminar, eu queria falar um pouco mais de Larry Bird, e do que ele era dentro da quadra e do que ele representou (Magic vai ganhar mais espaço no próximo). Eu podia falar de como ele foi a primeira estrela da NBA a adotar a linha de três pontos e de como até hoje é considerado um dos grandes arremessadores de todos os tempos (Bird treinava chutes de três com os olhos fechados no final da carreira). Eu podia falar de como ele foi o maior ala passador que a humanidade já conheceu e de como isso era contagiante para seus times, e os elevou a outro patamar. Eu podia falar do período entre 84 e 88, os cinco melhores anos da história da posição de ala, e de seus três MVPs consecutivos. Eu podia falar de como era impossível capturar o jogo de Bird apenas com estatísticas, mas que ninguém colocava números no boxscore como ele. Eu podia falar que Bird é o único jogador da história da NBA cujas médias da carreira nos três principais quesitos (24.3 PPG, 10.0 RPG, 6.3 APG) está entre as 50 melhores marcas em cada um deles (ninguém mais tem as três dentro do Top125). Mas eu prefiro deixar duas pessoas que entendem muito mais do que eu falarem sobre Bird. Então pra terminar, vou deixar aqui duas frases sobre Larry Legend. A primeira, muito conhecida, é do seu maior rival, Magic Johnson, quando Larry se aposentou. A segunda foi dita por Kevin McHale, alguns anos antes, depois do famoso duelo entre Bird e Dominique Wilkins em 86.

Magic: "Larry, você só me contou uma mentira. Você disse que haveria outro Larry Bird. Larry,  nunca, nunca existirá outro Larry Bird"

McHale: "As vezes, quando Larry tem um jogo assim, isso me faz pensar no futuro... Eu vou estar aposentado em Minnesota e Larry vai estar aposentado em Indiana, e nós provavelmente não vamos ver muito um ao outro. Mas em muitas noites eu simplesmente vou ficar deitado na cama, e vou lembrar de jogos assim, e de como era jogar junto com ele."

Alguém ligue o aquecimento, porque essa deu calafrios!

sábado, 18 de agosto de 2012

Especial NBA - Julius Erving




Pra quem não sabe que Especial é esse e pra que ele serve, leiam esse post antes.
Posts anteriores:
 - Bill Russell e Wilt Chamberlain
 - Jerry West e Oscar Robertson

Julius Erving (Philadelphia 76ers, 1985)


Pois bem, chegou a hora de quebrar algumas das regras que eu mesmo estabeleci três posts atrás. Primeiro, porque o post de hoje vai quebrar o padrão de escolher dois jogadores por post, e vamos ficar apenas com Julius Erving, o Doctor J. Em geral, eu estava tentando pegar jogadores que combinassem de alguma maneira, seja se complementando (Jordan e Scottie Pippen), seja pela rivalidade (Russell e Wilt), ou seja por algum fator em comum ligando os dois jogadores (Como West e Oscar, dois jogadores semelhantes que trilharam caminhos totalmente diferentes). Mas com Doctor J, ele vai ter que ficar sozinho porque nenhum outro jogador dessa lista da 2K12 se encaixa no propósito desse post além do próprio Doc. E também, vamos ter que distorcer um pouco esse J do jogo pra se encaixar nesse propósito, porque a 2K me criou mais um problema com sua seleção de jogadores. Veja a lista abaixo e veja se consegue identificar o problema:

Bill Russell (Boston Celtics, 1965)
Jerry West (Los Angeles Lakers, 1971)
Oscar Robertson (Milwaukee Bucks, 1971)
Wilt Chamberlein (Los Angeles Lakers, 1972)
Julius Erving (Philadelphia 76ers, 1985)
Larry Bird (Boston Celtics, 1986)
Kareem Abdul-Jabaar (Los Angeles Lakers, 1987)
Isiah Thomas (Detroit Pistons, 1989)
Magic Johnson (Los Angeles Lakers, 1991)
Michael Jordan (Chicago Bulls, 1993)
Patrick Ewing (New York Knicks, 1994)
Hakeem Olajuwon (Houston Rockets, 1994)
Scottie Pippen (Chicago Bulls, 1996)
Karl Malone (Utah Jazz, 1998)
John Stockton (Utah Jazz, 1998)

*esperando*

Conseguiram? Reparem de novo nos anos de cada time, em especial nos times de Wilt e Erving, e vocês vão perceber o problema. Nessa série de posts, a idéia acabou ficando de fazer os posts em uma ordem cronológica pra poder ir esclarecendo as mudanças pelas quais a NBA passou, no seu jogo e na sua composição, usando os times e jogadores como pano de fundo. Falamos da era Pre-Shot Clock, a entrada de Russell e Elgin Baylor na Liga, as diferenças entre as estrelas brancas e negras na NBA... Mas pra continuar contando da história da NBA, precisamos passar pela segunda metade da década de 70 e por um dos eventos mais importantes da história da Liga, a rivalidade entre NBA e ABA e o subsequênte Merger, a fusão entre as duas Ligas. Mas não temos nenhum time da época, nenhum time dos anos 70 pra fazer essa ponte. Por isso, vamos dar uma mexida no que o 2K12 nos oferece e usar um dos principais jogadores da ABA pra voltar um pouco no tempo que o jogo nos oferece, e ver como Julius Erving e a ABA se encaixam nessa história, e fazem a ponte entre a primeira grande era da NBA (Anos 60/começo dos 70) e a segunda (Anos 80, com as chegadas de Larry Bird e Magic Johnson).

Vamos voltar um pouco para a segunda metade dos anos 60. A NBA, aos poucos, foi deixando pra trás seus dias tediosos. A Liga estava, após as chegadas e Russell e Elgin Baylor, caminhando em uma direção mais divertida e explosiva. As rivalidades estavam cada vez mais sérias, os campeonatos competitivos, e cada vez mais estrelas estavam entrando na Liga, o que continuava atraindo o público. A NBA deixava de ser alternativa e começava, aos poucos, a expandir sua popularidade, especialmente após assinar um acordo de transmissão para a TV. E, talvez mais importante, a NBA começava a se mostrar um negócio lucrativo. Portanto, não é de surpreender que mais gente estivesse interessada em entrar nesse mercado, como a NBA deixou claro ao criar OITO novas franquias entre 1966 e 1971 (Bulls em 67; San Diego Rockets e Sonics em 68; Bucks e Suns em 69; Buffalo Braves, Cavs e Blazers em 71).

No entanto, nem todo mundo disposto a entrar no mercado emergente do basquete conseguiu - ou quis - lugar na NBA. Em 1967, foi fundada uma Liga alternativa à NBA, chamada de American Basketball Associaton, a ABA, com 11 novas franquias. O objetivo da ABA não era competir com a NBA pelo mesmo mercado a longo prazo, já que eles reconheciam a dificuldade de competir com a Liga já a mais tempo estabelecida e muito mais avançada, com contrato de televisão e tudo mais. O objetivo da ABA, na verdade, era forçar uma fusão com a NBA. Para potenciais donos de time, criar uma franquia na ABA era muito mais fácil e mais barato do que ir atrás de uma na NBA, e portanto eles esperavam forçar uma fusão das duas Ligas pra que suas franquias (ou pelo menos uma parte dessa) pudessem migrar para a Liga que mais rendia dinheiro, retornando com lucros seu investimento.

Naturalmente, se a ABA queria forçar uma fusão, eles precisavam de visibilidade e importância suficiente para forçar a NBA a aceitar essa fusão. O plano da ABA para forçar isso era conseguir um contrato de televisão semelhante ao da NBA, pois isso colocaria as duas Ligas quase em condição de igualdade e competindo pelo mesmo mercado em grande escala. E para conseguir isso em pouco tempo, a ABA sabia o que ela precisava fazer: Atrair o máximo possível de estrelas, especialmente estrelas com um jogo mais chamativo e excitante, para tirá-las da NBA (deixando a rival numa situação mais fraca) e tornar seus times e jogos mais interessantes para o público. Nem que isso significasse pagar preços altos (acima do padrão de mercado) pra esses jogadores, inflacionar o mercado e prejudicar as contas da Liga, já que a esperança da ABA era recuperar o retorno no investimento uma vez que as duas ligas se juntassem.

E embora a ABA tenha perdido em 1970 um grande prêmio em Lew Alcindor - um superstar do College que teria chamado muita atenção pra Liga, garantido um contrato de televisão e forçado uma fusão muito tempo antes do que aconteceu (e o que é pior, que queria ir pra ABA e o comissário George Mikan estragou tudo) - ela teve muito sucesso com sua abordagem. Sabendo que tinha uma certa escassez de recursos, e sabendo que pagando o valor inflacionado que estava tentando pagar pra atrair jogadores não poderiam contratar todos os jogadores que queriam, a ABA focou principalmente em jogadores negros, mais atléticos e mais explosivos, e portanto com um jogo mais divertido para o grande público (nessa linha de raciocínio, a ABA tambeém foi a primeira a adotar uma linha de três pontos). A ABA acabou trazendo algumas das principais estrelas negras que saiam do College no final dos anos 60 e começo dos anos 70, e com isso ela se tornou uma alternativa atraente para os demais jogadores negros que queriam jogar futebol, que mesmo sem receber os salários absurdos pagos às estrelas viam a ABA como um lugar mais acolhedor do que a ainda predominante branca NBA. Entre os principais prospects dos anos 70-74 que foram para a ABA, se destacam Julius Erving, Artis Gilmore, George Gervin, Moses Malone, Marvin Barnes, Maurice Lucas e David Thompson. Os que foram para a NBA incluem Paul Westphal, Doug Collins, Bill Walton, Scott Wedman e Dave Cowens. Adivinhe o que todos de cada Liga tinham em comum?

O problema das duas Ligas é que, com o passar do tempo, acabou se criando uma grande polarização entre as duas, motivado pelos fatores expostos no parágrafo anterior. Não só a NBA acabou virando uma Liga principalmente de brancos e a ABA uma Liga principalmente de negros, o jogo das duas Ligas também sofreu: A NBA ficou sendo uma Liga recheada de jogadores brancos e lentos, era um jogo mais cansativo, mais abaixo do aro e com poucas jogadas explosivas e atrativas para o público. Do outro lado, a ABA, que focou principalmente em ter um jogo mais divertido e empolgante, acabou tornando isso uma prioridade, e acabou virando uma Liga cheia de enterradas e jogadas empolgantes, mas onde ninguém defendia e onde todo mundo se importava mais com a jogada fantástica do que com o que era melhor pro time. Depois de um começo promissor, a ABA perdeu um pouco de apelo lá por 1974, quando a falta de competitividade, o excesso de franquias (que tornavam os times menos competitivos) e a falta de defesa começaram a incomodar mais o público do que as jogadas empolgantes atraíam, especialmente associado aos altos salários (o que gerou a imagem, merecida ou não, de que os jogadores eram overpaids e não liga pro jogo). Embora a ABA ainda tivesse tirando jogadores importantes da NBA e com isso incomodando os seus rivais, a ABA em si começava a dar sinais de desgaste, talvez não podendo continuar se mantendo.

E aí que entra Julius Erving. Draftado em 1971, Erving logo se estabeleceu como um jogador extremamente explosivo, que enterrava como ninguém nunca tinha feito antes, um excelente pontuador e que divertia todo mundo (e que tinha um afro fantástico). E até engraçado descrever, hoje, o alcance da popularidade do Doctor J, porque é basicamente o resumo da maior parte das estrelas da atualidade, mas tente imaginar isso em 1975: J foi a primeira estrela da NBA a transcender a cor, alguém que o público não via como branco ou negro, simplesmente extremamente divertido e jogando com uma alegria e energia contagiante. Se Baylor foi o responsável por trazer o Hang Time pra NBA (sua capacidade de saltar e criar arremessos no ar), Erving foi o responsável por popularizar a enterrada - suas enterradas e jogadas incríveis eram reprisadas na TV, rendeu capas da Sports Illustrated, e virou a imagem de um basquete divertido e explosivo. Erving deixou de ser apenas uma estrela no mundo do basquete e passou a ser uma estrela fora dele: Marcas queriam o Doc pra ser garoto propaganda, ele ganhou espaço nas mídias que não costumavam falar de basquete, ganhou patrocínios... Em outras palavras, ele foi a primeira estrela do basquete a ser marketable. Hoje em dia vemos jogadores como Kobe e Lebron fazendo tudo isso com naturalidade, mas tudo isso começou com Julius Erving numa época onde eles só importavam dentro de quadra e mais nada.

E quando a ABA se viu com problemas de popularidade e financeiros poucos anos antes da fusão, com a NBA segurando as pontas enquanto podia com uma Liga que estava caindo em popularidade esperando a ABA desaparecer pra evitar a fusão, foi o carisma e a popularidade de Doctor J (com ajuda de David Thompson, embora J fosse de longe o maior astro) que manteve a Liga por três anos a mais até a NBA concluir que era prejudicial demais continuar com as duas Ligas e sugerir a fusão, que acabou com quatro franquias da ABA migrando pra NBA. Sem Doc, a ABA não aguenta o periodo entre 74 e 76, a Liga provavelmente acaba e a fusão nunca acontece. O que teria acontecido nesse cenário, se as coisas teriam sido melhores ou piores, não da pra saber, mas com certeza as coisas não teriam acontecido da mesma forma. Quando, antes da temporada 1977, ocorreu o famoso Merger, Doc J foi o principal personagem dessa mudança.

Por isso eu não consigo me ater a uma única temporada pro Doctor J: O impacto dele foi grande demais muito antes dele ir pra NBA, grande demais dentro e fora de quadra, pra limitar apenas à temporada 1985. Doc forçou o momento que definiu a NBA como a conhecemos,  e pavimentou o caminho para todas as estrelas como conhecemos hoje, como personalidades fora de quadra, com patrocinadores, garotos propagandas de diferentes marcas. Dentro de quadra, depois de ir pra NBA, Doc nunca mais atingiu o mesmo sucesso da época da ABA (embora tenha tido uma boa dose de sucesso mesmo assim), machucou o joelho e, apesar de boas temporadas e de ter levado Philly a três finais entre 1977 e 1982, só foi conquistar seu primeiro título quando Moses Malone foi trocado pra lá e se tornou o Alpha Dog do time, deixando Doc ser apenas o principal pontuador sem a responsabilidade de carregar o time toda noite. O período do Doc na NBA nem de longe refletiu sua importância pro jogo de basquete, pra NBA como conhecemos hoje e pra forma como os craques eram vistos pela sociedade em geral: Doc foi um dos jogadores mais importantes da história da NBA, com seu carisma, suas enterradas e momentos históricos (como sua lendária enterrada no campeonato de enterradas de 1976), e a forma como se tornou um ícone tanto dentro como fora de quadra, capaz de transcender cor e mostrar pra todo mundo que, afinal, estrelas negras com suas enterradas fantásticas eram realmente divertidas, independente da cor dos jogadores. Mas não da pra captar isso com nenhuma temporada de Doc na NBA OU da ABA.

Se eu tivesse que escolher uma temporada pro Erving, escolheria a do Sixers de 83, quando Doc ganhou seu primeiro título. Apesar dele já ter passado do seu auge aos 32 anos, Doc teve médias de 23 pontos, 7 rebotes e 4 assistências por jogo (52% FG com quase 2 tocos e 2 roubos por jogo), um pouco pior do que suas melhores marcas na NBA (27-7.5-4.5, 52% FG em 80') e na carreira (27-10-5 pelo Nets na ABA em 79'). Sim, Doc tinha sido melhor mais cedo na sua carreira, ou pelo menos individualmente. Mas o Sixers, após uma boa temporada na chegada de Doc em 1977 (quando perderam nas Finais pra Bill Walton e o Blazers), entrou em decadência, e nem mesmo Erving conseguiu levar o time nas costas em uma Liga com um estilo de jogo muito diferente e defesas mais inteligentes, que fechavam seu caminho até a cesta, faziam falta em qualquer possível enterrada e o obrigavam a arremessar de fora do garrafão. O Sixers e Doc foram salvos pelas chegadas do calouro Andrew Toney em 1980, quando o Sixers conseguiu o talento e a energia jovem que precisava, deu a volta por cima e chegou em mais duas finais em 1980 (quando perderam pro Lakers no lendário 45-13-7 de Magic Johnson, jogando de pivô no lugar do machucado Kareem) e em 1982 (nova derrota pro Lakers nas Finais). O Sixers era um bom time com Toney e Doc (sem falar em Mo Cheeks e Bobby Jones, bons coadjuvantes), mas faltava algo a mais pra eles conseguirem derrubar o Lakers e conquistar seu título.

Antes da temporada 1982 começar, o novo dono do Sixers sabia disso perfeitamente e foi atrás do jogador que seu time precisava. O Sixers assinou o Free Agent restrito Moses Malone de um Rockets em reconstrução em troca de escolhas de Draft, colocando no time exatamente o jogador que eles não tinham: Um pivô capaz de pegar rebotes e dominar o garrafão, e um Alpha Dog em torno do qual o time se encaixasse. Eles tinham Moses no seu auge, Doc e Bobby Jones (All-Star) um pouco passados do auge, Mo Cheeks e Toney Andrew no auge... Enfim, eles eram um excelente time. Apesar das fraquezas, esse time varreu a temporada regular com 65 vitórias (e mais um MVP para Moses), com Malone predizendo antes dos playoffs que o Sixers ia ganhar as três séries em quatro jogos cada, sua famosa declaração "Fo Fo Fo" (Malone, o superstar menos articulado da história da NBA, não conseguiu falar "four" uma vez sequer). Quase funcionou: O Sixers varreu o Knicks na primeira rodada, ganhou do Bucks em cinco e varreu o Lakers na final, com uma pós-temporada Keyser Soze cujo 12-1 foi um recorde até o Lakers de 2001 fazer 15-1. A final foi particularmente dominante, com Malone e seu jogo físico destruindo totalmente Kareem, um pivô finesse que não gostava de contato e já estava com 36 anos.

Embora essa temporada seja realmente impressionante (e os números corroboram isso), esse time também teve um pouco de sorte nessa temporada pra terminar com essa dominância: O Lakers perdeu James Worthy com uma perna quebrada antes do final da temporada regular (e jogou as Finais sem Norm Nixon e Bob McAdoo); o Celtics (campeão em 81) e o Nets implodiram por conta de problemas com os técnicos (o Celtics se rebelou contra seu técnico e só se reagrupou com KC Jones em 84, e o técnico do Nets - Larry Brown - foi pra Kansas quatro jogos antes do final da temporada), tirando do Sixers seus principais rivais no Leste; e o Philly não cruzou com nenhum time que tivesse um garrafão dominante, a fraqueza de Philly (tirando Moses, eles não tinham nenhum outro reboteiro ou big man capaz de segurar as pontas). Essa "sorte" fica mais evidente quando lembramos que o mesmo time em 84 o  Sixers só ganhou 52 jogos e perdeu para o Nets na primeira rodada dos playoffs. Mas mesmo assim, não da pra negar que o Sixers de Doc, Toney e futuramente Moses foram um time icônico na NBA: Foram 4 Finais para Erving, um título, um MVP para Malone, e passaram três bons anos segurando um sensacional time de Boston que teve que trocar por Dennis Johnson para conseguir ganhar do Sixers, já que ninguém era capaz de marcar Toney.

Mas se Moses foi o grande Alpha Dog e melhor jogador do título (e temporada mais icônica e dominante) desses Sixers, porque Erving que recebe as honras do 2K? Porque ambos jogaram juntos nesse time (então não tinha porquê incluir os dois); porque Doc foi um jogador muito mais importante que Moses; porque Doc é um dos poucos jogadores que sobreviveu ao passar das geraçōes e que são conhecidos ainda hoje (ao contrário de Moses, um dos maiores jogadores de todos os tempos mas que acabou escorregando pela história. Ninguém na NBA foi um melhor reboteiro do que Moses. Nem Russell, nem Wilt, nem Rodman); e porque o jogo de Doc é muito mais interessante e atrativo para fãs do que o de Moses ou praticamente qualquer outro na história da NBA. Adequadamente, o mesmo motivo pra ele estar no 2K12 foi o mesmo que marcou toda sua carreira, que fez dele um dos jogadores mais importantes de todos os tempos e um ícone da NBA, e que levou a um dos momentos mais importantes da NBA. Moses foi o melhor jogador, mas Doc foi de longe o que mais teve importância histórica. E pros propósitos desse Especial, isso é mais do que suficiente.