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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Jacksonville Jaguars

Ainda não decidi se o Blaine Gabbert é o Jaime Lannister ou o Encantado de Shrek


Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North e os previews da NFC North, começamos a falar da AFC South pelo seu atual campeão, Houston Texans, pelo divertido Indianapolis Colts e pelo fraco Tennessee Titans. Hoje terminamos a divisão com o chato Jacksonville Jaguars. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Jacksonville Jaguars

2012 Record: 2-14
Ataque ajustado: 29th
Defesa ajustada: 25th


Um dos temas comuns dessa série de previews é usar algumas estatísticas inteligentes para procurar influências ocultas além do controle dos times que influenciam o resultado final da temporada, e ver se essas estatísticas indicam uma melhora ou regressão para o ano seguinte. Temos usado algumas e o Jaguars vai apresentar um bom número delas, mas tem uma muito mais simples que pode indicar que a equipe deva evoluir: como diabos você piora de 2-14? Tem como descer mais no fundo do poço sem dar um tremendo azar? Mesmo o Lions de 2008 que terminou 0-16 teve o Pythagorean Expectations de 3-13 e terminou 0-5 em jogos decididos por uma posse de bola. O Jaguars de 2012 era muito ruim, não se engane, mas do fundo do poço só da para ir para cima. E essa provavelmente vai ser a direção do Jaguars.

É realmente achar algo bom para falar de uma equipe que terminou 2-14 e foi a segunda pior da Liga em eficiência ajustada (per Football Outsiders), mas o fato é que muitas coisas foram contra Jacksonville essa temporada - tirando as que eles mesmos provocaram, é claro. Mas antes de chegar nisso, queria deixar claro porque o Jaguars é tão ruim e não tem um time relevante desde aquele bom grupo de 2007: nenhum time é pior manipulando valores e maximizando seus ativos. Por exemplo, tomemos o Draft de 2010. Em uma primeira rodada que já gerou 14 Pro Bowlers desde então, Jacksonville se apaixonou por um DT chamado Tyson Alualu, que deveria cair para a segunda rodada. Mas como eles avaliaram positivamente o jogador de Cal, acharam ele um jogador que valia ser draftado, e pularam nele na primeira chance que tiveram, com a 10th pick. Já expliquei várias vezes como isso é uma burrice comum: mesmo que Alualu fosse um jogador digno da 10th pick, seu valor como prospect estava muito abaixo disso, então o time gastou uma pick com valor de Top10 para pegar um jogador que poderia ter pego, por exemplo, com a 30th pick. Tem uma diferença grande de valor ai, é muito mais importante maximizar seus ativos na noite do draft do que ir em cima dos jogadores que vocês gostam. Se gostavam tanto de Alualu, porque não trocar para descer na primeira rodada e conseguir escolhas extras mais para o meio? Depois de três anos Alualu é um jogador apenas ok que soma 9.5 sacks em três anos. As escolhas defensivas seguintes de 2010 incluem Earl Thomas, Sean Weatherspoon, Kareem Jackson e claro, o DE mais bem cotado disponível... Jason Pierre-Paul. Se apaixonar por um jogador e ignorar que suas escolhas são ativos que precisam ser maximizados para dar um retorno maior ao time é um engano comum, e saber como manipular isso é o que faz times como Ravens, Patriots e 49ers tão bons no Draft.

Mas espera, tem mais: depois de pegar Alualu, o Jaguars teve que esperar até a terceira rodada para escolher novamente pois não tinha uma 2nd round pick. Isso aconteceu porque, um ano antes, o time tinha trocado essa escolha por uma do final da terceira rodada com o New England Patriots para pegar um DT chamado Terrence Knighton, um jogador decente mas que custou ao time uma escolha muito mais valiosa. Claro que uma escolha de Draft hoje vale mais que uma equivalente ano que vem, mas uma escolha de segunda rodada de um time ruim sempre vai ter mais valor que uma de terceira rodada de um time bom - outro exemplo de erro comum no dia do Draft, supervalorizar o ativo imediato em relação a picks muito mais altas no ano seguinte. Mas espera, tem mais: no ano seguinte, a equipe escolheu Blaine Gabbert com a 10th pick. Não da para criticar essa escolha baseado nos resultados de Gabbert como QB titular porque ele era cotado como o segundo melhor quarterback depois de Cam Newton em 2011, então foi uma decisão inteligente. O que eu POSSO criticar é o que a equipe trocou para subir e pegar Gabbert naquele ano (eu falei ontem sobre a bizarrice que foi aquele Draft em termos de quarterback no post sobre o Titans): a 16th pick e sua escolha de segunda rodada (49th). Usando a calculadora de valor de escolhas de draft do Fotoball Perspective, o valor das escolhas que Jacksonville enviou pela 10th pick foi 35% maior do que o que recebeu em troca. TRINTA E CINCO POR CENTO!! Bela forma de maximizar o valor de seus ativos, Jaguars.

Mas a cereja no topo do bolo aconteceu no último Draft. O começo para o Jaguars foi bom, pagaram um pouco caro (uma escolha de quarta rodada) para subir da 7th pick para a 5th e pegar Justin Blackmon, uma troca inteligente quando consideramos que Jacksonville precisava urgente de um WR e Blackmon era considerado o melhor da posição a entrar no draft em anos. O problema foi quando chegamos na terceira rodada, e o time usou sua escolha - sétima da terceira rodada - em um jogador chamado Bryan Anger. Nunca ouviu falar? Normal: ele é um punter. Pause um segundo para digerir isso: o Jaguars gastou uma escolha de terceira rodada do Draft - da parte de cima da terceira rodada - em um PUNTER?! Quão imbecil é isso?? O ex-GM da equipe defendeu a escolha falando que "prefere pegar um titular a um reserva", o que só escancara o problema do Gene Smith: ele não faz ideia de como funciona a NFL. Ninguém pega punters ou kickers até a sexta rodada pelo menos (Greg Zurlein e Blair Walsh, dois Pro Bowlers em suas temporadas de calouros, saíram só na sexta rodada e isso porque a liga avalia melhor kickers do que punters), porque você - em um time ruim que precisa de mais talentos, ainda por cima - vai gastar uma escolha de terceira em um? Não faz o menor sentido, especialmente o argumento de Smith. Por exemplo, suponhamos que Smith tenha um cérebro e pensasse "Hmm, esse cara provavelmente vai cair até a sexta rodada, posso pegar ele lá e usar essa pick agora para um jogador melhor" (a escolha do Jaguars era a 176th), sabe qual a diferença de valor entre a pick que eles gastaram no Anger e a qual eles deveriam usar? 344%. 344%!!!!! Três escolhas depois, o Seattle usou sua escolha de terceira rodada para pegar um "reserva, não um titular" chamado Russell Wilson. So there.

Então esse é só usando o Draft dos últimos três anos para ilustrar porque o Jaguars é uma piada constante: o seu GM é muito ruim e não faz idéia de como manipular os valores do mundo profissional do futebol americano e tomar boas decisões. (Quer um exemplo em outra área? Smith deu um contrato de quatro anos que tem GARANTIDOS 5,5M por esse ano e mais 5.5 em cada um dos dois próximos para um guard chamado Uche Nwaneri que ninguém na Liga conhecia e ainda não conhece... e que acabou de fazer uma cirurgia no joelho com células tronco que a Food and Drugs Administration chamou de "risco a saúde pública". E esse cara vai ocupar 17M do espaço salarial do Jaguars pelos próximos três anos sendo que ele é um jogador mediano no máximo. Se tivesse ido para o mercado, não teria custado mais que 8M totais, mas Jax quis manter ele antes, então...) Smith nunca entendeu o Draft, free agency, planejar a médio prazo, teto salarial ou tudo mais que faz de um GM um bom GM, e se bons times continuam bons por sua inteligência manipulando o mercado e maximizando seus ativos, o que o Jaguars fez nos últimos quatro anos foi exatamente ignorar tudo isso (meu amigo Snow - sim, tem a ver com Game of Thrones - chamava o Gene Smith de Bizarro Ozzie Newsome). Então se vamos começar a falar das boas notícias para o Jaguars, temos que começar por essa: Gene Smith não é mais o GM da equipe, sendo substituído por David Caldwell. Eu não faço idéia se Caldwell vai ser um bom GM, mas de novo, do fundo do poço só da para ir em uma direção, e os primeiros sinais (ou seu primeiro Draft) foram positivos.

Mas na verdade, existe mais motivos para otimismo na Flórida que não envolvem o Corolário de Tiririca (o famoso "pior do que tá não fica"). A questão é se "otimismo" envolve uma melhora em relação ao patamar ridículo de 2012, ou se envolve uma vaga nos playoffs. Se for o primeiro caso, então ótimo, porque temos fatores positivos para a equipe: sua Pythagorean Expectation foi de 3.5 vitórias, o que ainda é muito ruim mas pelo menos indica uma evolução em relação ao ano anterior. Eles também terminaram 2-5 em jogos decididos por uma posse de bola, outro sinal de evolução em 2013. Mas talvez mais importante, o Jaguars foi o segundo time que mais viu titulares perderem jogos por lesão em 2012 em relação ao "normal" (calculado pelo meu querido Football Outsiders com base em lesões anteriores), um sinal que normalmente indica mais saúde e mais peças importantes jogando em 2013, e se você viu o roster do Jaguars, sabe que profundidade não é o forte alí e então essas lesões são bastante significantes. E embora o calendário do Jaguars não seja exatamente fácil, a divisão tem tudo para ser a pior do futebol americano com Texans e Colts regredindo e o Titans sendo ruim (como já explicamos detalhadamente nos respectivos previews).

No segundo caso, se você está esperando uma vaga nos playoffs, é impossível. É absolutamente impossível que um time 2-14, com um PE de 3.5 e 2-5 em jogos decididos por uma posse de bola consiga em apenas uma temporada mudar seu record tanto de forma a chegar ao número de vitórias suficientes para ir aos playoffs e... Ops, espera, tem um time na divisão do Jaguars que fez exatamente isso ano passado! 2011' Colts terminou o ano exatamente 2-14, com 3.5 de PE e 1-5 em jogos decididos em uma posse de bola, ganhando 9 jogos a mais em 2012 e chegando aos playoffs. Então existe um precedente recente.

Mas é óbvio que isso não quer dizer que o Jaguars consiga fazer o mesmo. Essa reviravolta do Colts envolveu duas coisas que não devem acontecer com Jacksonville: primeiro, um dos anos com mais sorte do que talvez qualquer outro na história da NFL, como falamos extensamente no preview da equipe. É extremamente improvável que o Jaguars consiga terminar o ano 4 jogos acima de sua Pythagorean Expectations ou que termine o ano 9-1 em jogos decididos por uma posse de bola E ainda enfrentar o calendário mais fácil da NFL, um raio tem que cair no mesmo lugar vezes demais, e a prova é que nenhum time fez o que o Colts fez na história da NFL (chegar a 11 vitórias com saldo de pontos negativo).  Mas o segundo motivo é ainda mais importante para que o Jaguars não consiga reproduzir o que Indianapolis fez. Entre 2011 e 2012, o Colts fez a melhor mudança que um time pode fazer na NFL: um upgrade significante de quarterback, passando de Curtis Painter e Dan Orlovsky para Andrew Luck. Não tem nenhum Luck entrando pela porta da frente do EverBank Field tão cedo, então os dois principais fatores da reviravolta do Colts não estão em jogo para o Jaguars.

Ainda assim, a possibilidade de um upgrade na posição de QB está em jogo para o Jaguars, que parece que vai colocar Blaine Gabbert no banco e deixar Chad Henne assumir a posição de titular. Claro que o upgrade não é o mesmo do Colts (Painter e Kerry Collins combinaram para 11 jogos e um QBR abaixo de 20 - com o Colts perdendo os 11 - e entrou um QB com QBR quase nos 65), mas a equipe ainda espera que seja uma melhora significante. Para ver exatamente quão grande essa melhora vai ser, vamos  olhar os números de Henne em 2009 e 2010 (quando foi titular do Dolphins) e compará-los com os números de Gabbert em 2012:


E agora os mesmos números projetados para uma temporada de 16 jogos:



Hmm... a mudança de Gabbert para Henne é tão significativa assim? Henne é mais produtivo, mas Gabbert é melhor evitando interceptações e correndo com a bola. A temporada de 2009 de Henne seria claramente uma grande evolução em relação ao que os QBs do Jaguars apresentaram ano passado, mas se for 2010 Henne (ou mesmo 2012 Henne, que jogou seis jogos pelo Jaguars e terminou com QBR de 29.9 basicamente na mesma situação que Gabbert conseguiu seus 40.9), eu não tenho tanta certeza. E por mais criticado que Gabbert seja (btw, 40.9 QBR é bem ruim), ele evoluiu muito da temporada de calouro para sua segunda, cortando interceptações, aumentando seu aproveitamento e números de jardas por passe e seu índice de touchdowns, e seu QBR dobrou de um ano a outro. Em parte isso aconteceu porque os números dele em 2011 eram tão ruins que não tinha como piorar, mas a evolução foi real. 2010 Henne foi melhor que 2012 Gabbert, mas se a opção for entre 2010 Henne e um Gabbert com mais um ano de evolução... eu não vejo uma mudança tão grande assim. Claro, a temporada 2009 do camisa 7 da mais esperanças para a equipe de Jacksonville, então considerando que uma eventual temporada de 2013 de Henne seria um misto entre as duas (46 QBR, digamos), a evolução na principal posição ofensiva do esporte existe, mas não é nem de longe tão grande.

Mas o fato é que a evolução na posição de QB provavelmente aconteceria não importa qual dos dois fosse o titular. Gabbert deve evoluir com mais um ano, Henne provavelmente é um pouco melhor nesse momento, mas também vale destacar que o time deve ter uma linha ofensiva muito mais sólida com a chegada de Luke Joeckel, segunda escolha do Draft, e principalmente deve contar com a volta do excelente Maurice Jones-Drew, que jogou apenas cinco jogos (com 4.8 jardas por corrida) antes de se machucar e perder o resto do ano, deixando o Jaguars com as 2.8 jardas por corrida de Rashard Jennings. Então as condições ao redor do QB melhoraram, não apenas o homem ocupando a posição: o corpo de recebedores deve ficar melhor com a chegada de Mohamed Massaquoi e um ano a mais de entrosamento com Justin Blackmon (que deve perder quatro jogos por suspensão, mas enfim), Jones-Drew está de volta depois da equipe ter somente o 27th melhor ataque terrestre da Liga, e basicamente o time está melhor do que ano passado desse lado da bola.

Defensivamente, o curioso foi o 28th lugar um ano depois de ter o quinto melhor grupo. Considerando que foi a pior defesa em 2010, os bons números de 2011 provavelmente foram um ano totalmente fora da curva, mas alguma evolução deve ser esperada considerando a chegada de Jason Babin (algo que o time precisava urgente, outro pass rusher) e de Marcus Trufant (um bom CB em Seattle que perdeu espaço com a Geração Aderall por lá) e o bom draft que trouxe dois jogadores que eu gosto para a secundária (Jonathan Cypren e Dwayne Gratz). Então 5th não vão ser com certeza defensivamente, mas vão melhorar consideravelmente em relação ao ano passado especialmente se o ataque fizer sua parte e parar de dar boas posições de campo para todos os ataques adversários (o que deve acontecer com MJD saudável).

Então temos motivos para acreditar que o Jaguars vai ser um time melhor em 2013: o ataque deve evoluir na linha e no QB, o time deve ficar mais saudável, e a defesa trouxe alguns veteranos de impacto para juntar com jovens talentos e desenvolver uma nova base. Eles devem evoluir também por questões naturais quanto ao seu saldo de pontos e jogos decididos por uma posse de bola, sem falar em mais saúde para jogadores chave. Tudo indica que o Jaguars vai ser melhor... o que não quer dizer que o time vai ser bom. Eles ainda provavelmente irão para a temporada com um QB abaixo da média e sua defesa ainda não deve ser boa. Sua tabela não é o inferno considerando que jogam em uma divisão muito ruim, mas ainda colocam a equipe contra quatro times da NFC West. Mas com um dono novo e um GM novo, a direção da franquia é evoluir e parar de ser essa piada a todo custo e apagar a má impressão causada pelos últimos cinco anos. Nesse contexto, qualquer evolução é lucro, especialmente para um time cuja torcida mal vai nos jogos e que é uma ameaça para se mudar para Los Angeles. Essa offseason não vai colocar a equipe nos playoffs ou mesmo acima de 50%, mas subir para 5-11 ou 6-10 é possível e já seria uma vitória para a franquia. Embora sim, a maior vitória tenha sido expulsar Gene Smith.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Tennessee Titans

Chris Johnson é a versão da NFL do Predador
(ou da Tia Dalma de Pirates do Caribe)



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North e os previews da NFC North, começamos a falar da AFC South pelo seu atual campeão, Houston Texans e depois pelo queridinho do pessoal, Indianapolis Colts. Hoje é a vez do Tennessee Titans. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Tennessee Titans

2012 Record: 6-10
Ataque ajustado: 29th
Defesa ajustada: 25th


Sabe quando você vai draftar um time de Fantasy Football, e cria uma estratégia para evitar uma determinada posição (seja qual for) até mais tarde no Draft achando que tem opções suficientes, mas daí alguém se precipita e quer garantir a posição, todo mundo começa a escolher seus melhores jogadores muito mais cedo, você entra em pânico e quando chega sua vez acaba escolhendo também e jogando sua estratégia para o inferno? Foi o que aconteceu no draft de 2011, um dos mais interessantes olhando friamente dois anos depois, e a culpa foi toda do Tennessee Titans.

Em 2011, a NFL já tinha abraçado totalmente seu "a NFL é uma liga de passes e precisa de um grande QB para vencer", com QBs saindo 1st overall nos dois drafts anteriores (Matthew Stafford e Sam Bradford). Mas chegando nesse draft em particular, o problema é que não havia nenhum consenso entre os QBs para a 1st pick. Na verdade, era exatamente o contrário, o consenso era de que não tinha nenhum QB digno da primeira escolha e que o Panthers deveria escolher Marcell Dareus ou Von Miller. Entre os QBs daquele ano, você tinha dois cotados como de primeira rodada (Cam Newton e Blaine Gabbert), um de final de primeira/começo de segunda (Jake Locker), um de segunda rodada (Andy Dalton), dois entre segunda e terceira rodada (Christian Ponder e Colin Kaepernick) e um que ninguém fazia idéia (Ryan Mallett). Lembro especificamente de ter feito um Mock Draft com Newton e Gabbert saindo entre as seis primeiras escolhas, Locker saindo 25th para Seattle e nenhum outro QB entrando na primeira rodada.

(Reler avaliações daquele draft hoje em dia é bastante divertido, especialmente a do 49ers: a escolha de Kaepernick foi a mais criticada com alguns falando que "ele não ajuda o time no curto nem no longo prazo" ou que "um reach para um jogador que provavelmente nunca será titular na NFL". Ooops!) 

Chegando na noite do Draft, Newton saiu em primeiro para Carolina (uma boa escolha, em retrospecto), Cardinals e Bengals passaram a chance de pegar o QB que precisavam... e ai o Titans se precipitou e pegou Locker com a oitava escolha, e os outros times que precisavam de QB entraram em pânico. O Jaguars trocou para subir no Draft e pegar Gabbert, e por algum motivo que nem Freud explica, o Vikings usou sua 12th pick para pegar um QB que poderia cair até a terceira rodada. Dalton e Kaepernick caíram até as primeiras escolhas da segunda rodada (com o 49ers tirando o grande prêmio), e em um draft considerado sem bons QBs, acabaram saindo seis nas primeiras 37 escolhas. E isso tudo começou com o Titans entrando em pânico com sua necessidade de um QB e pulando em um que deveria cair mais 20 picks. A lição, como sempre: não entre em pânico na noite do draft. (Se você torce para o Vikings e quer culpar alguém pelo seu time ter pego Ponder e não JJ Watt, agora já sabe o responsável. De jeito nenhum Ponder deveria ter saído onde saiu, iria cair para o final da segunda rodada.)

Mas esse não é o grande problema do Titans no momento e nessa offseason, apesar do fato de que Locker ainda não rendeu perto do que se esperava dele (mais disso em alguns parágrafos). O problema no momento da equipe é de logística: apesar do time ser uma enorme droga dos dois lados da bola, só existe um número limitado de escolhas de draft disponíveis a cada ano para os times, bem como de free agents. O Titans tinha tantos problemas que não dava para adereçar todos eles de uma vez, então a decisão interessante do time foi de focar seus maiores esforços em um lado da bola e montar uma base para o futuro e deixar a outra para depois. Com seu Franchise QB (ou é o que eles esperam) precisando continuar seu desenvolvimento na liga, eles optaram por cercá-lo com um grupo melhor por enquanto e reforçar sua defesa depois. 

A primeira coisa que chama a atenção no ataque da equipe - tirando o fato de que ele é, bem... horrível (quarto pior da Liga atrás de Jets, Cardinals e Chiefs) - é que o time está pagando um contrato de 55M (com mais de 30M garantidos) para seu running back e em torno tem o 26th melhor ataque terrestre da NFL. Desde sua incrível temporada de 2000 jardas em 2009 quando bateu o recorde de jardas totais da NFL, Chris Johnson tem sido algo como uma decepção: três temporadas seguidas passando de 1000 jardas mas sem passar de 1300 em nenhuma delas, e em geral misturando jogos onde mal passa de 60 jardas em 25 tentativas com jogos onde corre para TDs de 75 jardas. Na verdade, a equipe teve o sexto pior ataque terrestre de 2010, o pior de 2011 e o sétimo pior em 2012 desde a temporada de 2000 jardas de CJ (quando foi a quinta melhor). Em partes, isso acontece porque CJ é muito bom quando tem espaço para usar sua velocidade mas muito ruim quando precisa trombar e quebrar tackles para ganhar esse espaço ou mesmo em conversões curtas - então não ajuda o fato de que a linha ofensiva do Titans é uma das piores (segunda pior, per Football Outsiders) em jogadas de corrida (embora valha destacar que elas são boas em jogadas de curta distância e CJ continua sendo horrível nelas).

Com essa grana absurda comprometida com seu recepcionante RB, era normal que o Titans fosse atrás de reforços para seu jogo terrestre. O primeiro e mais hilário foi ir pagar 11M (quase 5M garantidos) para Shoone Greene numa tentativa de conseguir um segundo RB para jogadas de força, um típico caso de "talento marginal" que comentamos ontem no preview do Colts: o time queria um RB para essas situações curtas onde CJ é menos útil do que Mark Sanchez (ok, pelo menos CJ não sofre fumbles batendo na bunda dos linemans), e foi atrás do primeiro que viu no mercado, pagando a ele uma grana muito maior do que se deveria pagar a um jogador situacional como esse num desespero para garantir o jogador que queria. Três meses depois, o Colts assinou com Ahmad Bradshaw (um jogador melhor que Greene) pelo mínimo de veterano. A lição, como sempre: nunca seja apressado na free agency.

Mas ainda assim, Greene vai ajudar o jogo terrestre da equipe oferecendo uma opção totalmente diversa do CJ, mas não é esse o grande motivo de festa em Nashville. O Titans também correu para reforçar sua fraca linha ofensiva, e o fez em grande estilo, trazendo dois novos guards. Um deles, Andy Levitre, foi importado de Buffalo e tem sido um dos melhores guards da NFL nos últimos anos, e agora ele vai fazer par com o calouro Chance Warmack, um excelente jogador vindo de Alabama. Para um time que tinha dificuldade em abrir espaço pelo meio e que precisava de mais proteção para seu QB - basicamente precisava reforçar a linha de maneira geral - a chegada de Warmack e Levitre é uma IMENSA evolução. CJ não tem mais a desculpa da linha agora, e o jogo terrestre de Tennessee pode finalmente sair do fundo do poço.

Mas proteger Locker (e oferecer um jogo terrestre melhor) não foi a única coisa que a equipe fez em relação ao jovem QB. A diretoria do Titans também se preocupou em aumentar as armas a sua disposição. A equipe já conta com o muito talentoso e problemático Kenny Britt, que é um dos melhores WRs da liga quando está saudável e focado, mas ele não tem ficado nenhuma das duas e Nate Washington é um bom role player mas não é solução. A equipe já conta com o segundo anista Kendall Wright, que deve teve evoluir depois de uma sólida temporada de calouro (64-624-4), mas trouxe dois outros alvos importantes: Delaine Walker, um excelente bloqueador que tem um atleticismo muito interessante para funcionar como recebedor, e o calouro WR Justin Hunter (segunda rodada). Basicamente o Tennessee se apressou para montar um ataque de verdade em torno de seu QB, com uma linha muito melhor (ainda vulnerável nas laterais... mas um passo de cada vez), um jogo terrestre mais sólido de suporto e principalmente mais alvos. Se Britt ficar saudável, um quarteto de Britt, Wright, Hunter e Washington (e mais Kevin Walter, que está na PUP) com Delanie Walker de TE é um excelente grupo, jovem e muito promissor. Não elite, mas um grupo muito bom para Locker desenvolver entrosamento para o futuro.

Claro, isso tudo ainda está atrelado ao desenvolvimento de Jake Locker. A diretoria fez o que pode nessa offseason (e tirando o contrato do Greene, fez bem feito) para colocar ao seu redor o melhor grupo de coadjuvantes que ele já teve. A proteção vai estar melhor, o jogo terrestre vai exigir mais atenção (e portanto o play action vai ter mais espaço), e ele terá alvos mais capazes para abrir mais espaços para seus passes. Se existe um momento para Locker dar um salto no seu desenvolvimento e se estabelecer como o QB da equipe, é esse. O problema é que até agora, ele não deu muitas mostras de que isso vai acontecer. Quando foi draftado, eu lembro que gostava dele, de seu atleticismo e capacidade fora do pocket, mas tinha meus problemas com sua precisão de dentro do pocket, dizendo que era o tipo de QB que seria ideal manter no banco por um ou dois anos arrumando sua mecânica e corrigindo falhas no seu jogo com calma ao invés de ser jogado no fogo e desenvolver maus hábitos. Era o plano do Titans no começo, quando trouxeram Matt Hasselback para ser titular na frente do calouro, mas quando Hasselback machucou colocaram Locker de titular, e tem sido desde então (quando não machuca). Locker teve uma temporada de calouro ruim (44.8 QBR, mas em apenas cinco jogos) e evoluiu um pouco temporada passada mas com um ainda ruim 48.1 QBR (em 11 jogos). Até agora seu maior problema tem sido exatamente sua precisão nos passes, completando apenas 55,5% na carreira. Em seu favor, posso falar que assisti a alguns jogos do Titans ano passado e ele teve que fazer uma grande variedade de jogadas saindo do pocket e sem tempo para pensar com calma por causa da pressão, mas mesmo assim Locker está longe de impressionar. 2013 não é uma temporada tudo ou nada para ele como é para, digamos, Josh Freeman, mas é o melhor ataque que vai ter nesses três anos é sua chance de mostrar serviço. É seu terceiro ano na liga e ele tem 25 anos, então não é como se estivesse atingindo seu limite agora, mas a falta de produção em um terceiro ano seguido no meio de um sólido grupo ofensivo vai começar a levantar questões.

O lado negativo é que montar essa boa, jovem e sólida base no ataque significa que o Titans passou essa offseason sem fazer nenhuma mudança significativa em uma defesa que terminou 25th overall na NFL e foi a mais vazada do campeonato. O time só trouxe reforços para a defesa na terceira rodada do Draft (um CB e um OLB que devem ter pouco impacto como calouros) e mais Bernard Pollard depois de ter sido chutado do Ravens, um bom role player que ajuda mas dificilmente vai ter um grande impacto numa defesa tão ruim (que ainda não enfrenta o Patriots). Embora essa defesa não tenha sido a pior ajustada, vale destacar que foi a unidade que mais cedeu pontos enfrentando um calendário bastante fácil (apesar do azar recuperando fumbles, 37.8%, uma das piores marcas da liga, ainda é bem ruim). Eles foram mal em 2012 e, apesar de uma certa melhora ao longo do ano, ainda é um enorme ponto fraco que um calendário consideravelmente mais forte em 2013 vai expor. A opção do Titans de focar os reforços no ataque foi inteligente considerando a necessidade de desenvolver Locker em um bom titular, mas o custo para isso foi mais um ano com uma defesa ruim.

Outro problema é que existem alguns fatores indicando que o Titans seja ainda pior. Tirando seu grande azar recuperando fumbles (38%, um ponto positivo pelo menos) Tennessee acabou superando boa parte dos indicadores de performance, terminando com uma Pythagorean Expectations de 5-11 e sendo um bom time em jogos decididos por uma posse de bola (4-3). Se quiserem ficar técnicos, o Titans teve a terceira pior eficiência ajustada da Liga (per Football Outsiders), então mesmo sendo um time ruim ano passado, eles foram ainda piores do que seu record indica, e isso sem levar em consideração um calendário bastante fácil que vai ficar mais difícil em 2013. 

Então sim, o Titans teve um plano inteligente nessa offseason de reforçar seu ataque para desenvolver o que esperam que seja o futuro da franquia. Conseguiram, e agora depende de Locker dar o seu salto de produção. O ataque vai ser melhor em 2013, mas eu não tenho certeza se o time vai ser melhor. A defesa continua muito fraca e o time tem um potencial natural de regressão, sem falar um calendário muito mais difícil que inclui jogos contra a NFC West. Simplesmente não vejo o Titans sendo um bom time em 2013, mantendo o 6-10 ou até caindo para 5-11 dependendo das circunstâncias. Mas tudo bem porque Tennessee está montando um time para depois disso, e esse foi um bom começo. E se conta como consolo, vai ser um dos times mais assistidos aqui no Brasil porque possuem (possivelmente) o primeiro brasileiro a jogar na NFL em Maikon Bonani.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Indianapolis Colts

Só assim pra defesa do Colts conseguir derrubar alguém



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North e os previews da NFC North, começamos a falar da AFC South pelo seu atual campeão, Houston Texans. Hoje então é a vez do queridinho de 2012, Indianapolis Colts. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Indianapolis Colts

2012 Record: 11-5
Ataque ajustado: 18th
Defesa ajustada: 31st


O Indianapolis Colts foi um dos times mais carismáticos e atraentes da temporada 2012 da NFL. Um time que simplesmente chamava a atenção e te fazia torcer a favor deles. Eles eram um time ruim, vindo de uma horrível temporada 2-14 com um técnico novo e um QB calouro muito talentoso que parecia ser um time para alguns anos. Daí o seu técnico Chuck Pagano é diagnosticado com câncer e é obrigado a se ausentar da temporada para se tratar, o time se reune em torno disso e começa a ganhar jogo atrás de jogo começando com uma virada espetacular para cima do Packers e eventualmente chegando aos playoffs. Na falta de uma palavra melhor, o  Colts foi o time que se destacava e que fazia você se sentir bem quando os via vencer. Em parte por causa da Chuckstrong, em parte porque Andrew Luck era quase um herói trágico carregando um time horrível nas costas e em parte porque sempre é divertido torcer para uma zebra, Indianapolis virou o time sensação de 2012. E com um time jovem e que contratou forte na última offseason, a expectativa era o que a equipe melhorasse ainda mais, certo?

Acreditem, eu adorei acompanhar o Colts essa temporada. Assisti mais jogos deles do que provavelmente qualquer outro que não fosse meu 49ers, torci por Luck e Pagano e realmente os achava um dos times mais "likeable" da NFL. É por isso que vai ser tão difícil dizer o que eu preciso para os propósitos dessa coluna. Vou até colocar em itálico para tornar menos difícil...

O Colts foi o time mais sortudo e overachiever de toda a NFL.

É triste, mas é a verdade. Lembra quando falamos do Detroit Lions e eu disse que basicamente tudo no universo conspirou contra eles esse ano, foi uma típica temporada onde tudo deu errado, e essa era a maior esperança da equipe de dar a volta por cima em 2013? Para o Colts foi exatamente o oposto. Embora não seja no sentido de "escolha qualquer métrica ou estatística imaginável e ela esteve contra a equipe" (algumas métricas até indicam uma evolução para a equipe), o fato é que nenhum time teve uma diferença tão grande entre seu verdadeiro nível de jogo e seu record como Indianapolis, o que naturalmente indica uma regressão imensa vindo nessa direção. Se a temporada do Lions deu tudo errado, na do Colts tudo deu certo, quase como uma moeda que cai coroa toda hora. Não vai continuar caindo, e por isso o Colts vai sentir os efeitos da regressão.

Se você é do tipo que perde horas na Football Reference analisando diferentes times, provavelmente chamou sua atenção que, apesar de seu excelente record, o Colts teve um saldo de pontos negativo. Pesquisando um pouco, você vai perceber que o Colts foi o único time 11-5 (ou melhor) na história da NFL a ter um saldo negativo, o que naturalmente é algo muito preocupante quando a principal métrica que temos usado nos últimos 18 posts para avaliar times é a Pythagorean Expectations - uma medida que usa o saldo de pontos como base. E de fato, esse foi o grande problema da equipe: seu PE foi de apenas SETE vitórias, quatro a menos do que seu record. Basicamente, então, o Colts foi um time 7-9 de fato que terminou 11-5. Mas espera, fica pior: de acordo com a pesquisa do grande Bill Barnwell, o Colts é apenas o segundo time desde o último lockout a terminar quatro vitórias acima da sua Pythagorean Expectation (o outro? 92' Colts, caiu de 9-7 para 4-12), mas seis outros times superaram sua PE por três ou mais vitórias em uma temporada. Esses times combinaram para cair em média 4 vitórias por temporada no ano seguinte, e embora a amostra seja pequena, o fato dela ser exatamente o que esperamos na teoria é bastante significativo. E o Colts teve uma diferença de uma vitória a mais.

Essa grande diferença aconteceu em parte por conta do seu absurdo record de 9-1 em jogos decididos por uma posse de bola. Como sempre, essa estatística não é sustentável e sempre tende a 50% de aproveitamento, e também como é comum, se tivessem sido "normais" nisso teriam acabado 5-5 e terminado a temporada 7-9 no total.  Essa estatística pode sofrer uma pequena influência para o futuro que é a seguinte: historicamente, esse 50% esperado pode ser distorcido caso um time tenha um QB capaz de controlar a bola, evitar erros, maximizar seu tempo no relógio e garantir mais posses de bola. Na atualidade, três e apenas três QBs possuem um record em jogos assim que são estatísticamente significantes (ou seja, com uma amostra suficientemente grande) para superar os 50-50 esperados (podem se divertir adivinhando quais são os três, a resposta vem semana que vem). A amostra de Luck são apenas 10 jogos e, desnecessário dizer, inútil a esse ponto para qualquer significado estatístico, mas ele é um grande talento que pode vir a mostrar que realmente tem uma influência nesses jogos de uma posse de bola. Mas realmente não da para afirmar nada a esse ponto e são pouquíssimos os QBs (mesmos os grandes) que conseguem influenciar esse tipo de coisa, então ainda tem muito chão para darmos o benefício da dúvida ao Colts.

O terceiro motivo é que o Colts fez tudo isso contando com o calendário mais fácil da NFL, de longe. Vale destacar também que o Colts foi 3-3 contra times acima de 8-8, mas ganhando os dois jogos decididos por uma posse de bola e tendo um saldo nesses jogos de -49 (!!!) nesses seis jogos, indo 8-2 contra o resto dos times abaixo de 8-8 com um saldo de +19 (sem contar a derrota por 15 pontos nos playoffs para o Ravens). Então é fato que o Colts se aproveitou muito do seu calendário facílimo, tendo muita dificuldade contra os bons times. Juntando todas essas coisas, Football Outsiders coloca o Colts com eficiência ajustada (por calendário) com um mísero -16%, oitava pior marca da Liga e atrás de times como Cleveland e Buffalo. Então o Colts não foi tão bom assim como pareceu em 2012 e é um grande candidato a regressão não importa o quão otimista eu tente ser. A expectativa é que esse 11-5 record vire facilmente 6-10 ou algo semelhante sem essa sorte em jogos decididos por uma posse e com um calendário mais competente (e o de 2013 envolve a NFC West).

Embora, é claro, alguns fatores ajam a favor do Colts para o futuro. O primeiro é ter um dos melhores jovens quarterbacks da Liga em Andrew Luck. Luck não só é um dos meus jogadores favoritos por todo seu imenso potencial e inacreditável talento, como é a prova ambulante de como estatísticas normais para QBs são uma péssima maneira de avaliar talentos. Vejam esses números e me digam quem é melhor:

QB A: 339/627, 54,3%, 4373 jardas, 23 TDs, 18 INTs, 7.0 Y/A QB B: 345/565, 61,1%, 4019 jardas, 22 TDs, 14 INTs, 7.1 Y/A

Acho que 90% das pessoas vão concordar que o B foi melhor, certo? Bom, eis o dado que eu omiti dessa linha:

QB A: 64.99 QBR 
QB B: 44.73 QBR

O quarterback A é Luck, o B é Carson Palmer, e acho que não precisava do QBR para saber que Luck é um jogador infinitamente melhor do que Palmer. Por isso eu insisto que estatísticas normais são extremamente limitadas quando tentamos medir o que um QB fez em uma temporada. Luck tem números muito ruins quando olhamos os tradicionais, mas quando colocamos isso no contexto do time - um time basicamente igual ao que foi 2-14 um ano antes, sem nenhum jogador ofensivo bom tirando Reggie Wayne e a segunda pior defesa da Liga - Andrew teve que carregar a equipe nas costas e fazer praticamente tudo sozinho. E ele sempre conseguiu colocar seu time nas melhores situações para vencer dentro desse contexto, decidindos jogos no final e fazendo praticamente todas as funções possíveis nesse ataque. Ele teve que se virar com apenas dois bons WRs (TY Hilton, um calouro que deve evoluir, e o eterno Reggie Wayne) e a pior linha ofensiva de toda a NFL: Football Outsiders coloca Luck como o QB que mais foi atingido durante a temporada, sendo atingido 122 vezes temporada passada (7,6 vezes por partida), 29 vezes a mais que o segundo colocado (Aaron Rodgers). Na verdade, Rodgers ficou mais perto do 20th colocado no quesito do que de alcançar Luck. É um milagre que o calouro tenha conseguido ficar saudável e ainda produzir tanto nessa temporada. Então acreditem quando as estatísticas avançadas mostram que Luck foi na verdade um dos melhores QBs esssa temporada, porque ele fez milagre com esse time.

Claro que a diretoria do Colts, com toneladas de cap space (principalmente porque paga a seu melhor jogador um contrato de calouro sob o novo CBA), não ficou parada vendo o futuro da sua franquia ser jogado para cá e para lá como uma boneca de pano. Foi no mercado e caiu no que alguns chamam de "Talento Marginal". Eu comecei a escrever uma longa explicação econômica envolvendo preço de reserva e acabei apagando para não ficar cansativo, mas basta dizer o seguinte: isso acontece quando seu time precisa de um determinado jogador (digamos, um TE) e vai para a free agency com essa mentalidade, em busca de seu jogador. Ele está disposto a pagar por isso, já que precisa dessa peça. Enfim, durante a free agency, ele se interessa por um certo TE. Ele não é elite, é um jogador mediano, mas é um dos melhores disponíveis e ele realmente precisa dessa posição. Então ele vai lá e, para não arriscar perder o jogador que precisa, oferece a ele um contrato mais caro do que o normal - valor de um sólido titular, até - para garantir. E o jogador assina, a equipe conseguiu o jogador que precisava e pronto. O problema é que você pagou muito caro e acima do valor de mercado por isso, e quando olhamos para seu desempenho em relação ao que ele ganha, ele ganha demais e isso vai contar contra seu teto salarial. Isso acontece demais principalmente nas primeiras fases da free agency, e é por isso que eu disse que times inteligentes como o Ravens não se precipitam e esperam essa poeira baixar antes de ir atrás de jogadores no mercado. E o Colts foi o time que mais gastou em talentos marginais essa temporada.

Mas ainda assim, dentro de campo, os jogadores terão um impacto positivo e muito importante. O Colts gastou muito mal seu dinheiro pela quantidade, mas pelo menos trouxe bons jogadores para posições carentes, de forma que o elenco será de fato melhor esse ano. O maior problema da equipe, a linha ofensiva, tem duas novas importações vindo diretamente da excelente e underrated linha ofensiva de 
Detroit, o guard Donald Thomas e o tackle Gosder Cherilus. Embora eu sempre ache perigoso tirar jogadores de um esquema sólido e mudá-los para uma situação diferente e achar que renderão igual, Thomas e principalmente Cherilus são dois jogadores extremamente sólidos que seriam uma adição a esse ataque simplesmente por tirarem os que já estão ocupando as posições deles. Mas são duas peças importantes para um time que quer ser levado a sério de novo e principalmente para proteger seu Franchise QB, que não vai aguentar tomar 120 pancadas todo ano sem quebrar.

Outra sólida adição foi Ahmad Bradshaw. Embora o Colts não tenha sido um time horrível correndo com a bola (16th overall), boa parte disso foi motivado em parte pelo fato de que seu melhor corredor foi... wait for it... Andrew Luck! É isso aí, apesar dele não ter nem de longe a fama de corredor que os outros três membros da Gang of Four (Wilson, Griffin e Kaepernick), o fato é que Luck é um dos corredores mais eficientes da NFL, um jogador extremamente inteligente que sabe perfeitamente quando correr e quando não. Nenhum corredor foi mais eficiente em toda a liga ano passado nas terceiras descidas entre QBs, nem Griffin, nem Russell Wilson, nem Cam Newton. Então apesar da boa colocação do jogo terrestre da equipe, tire Luck da equação e o resultado é um ataque terrestre bem fraco. Por isso a chegada de Bradshaw - nem de longe tão bom como no seu auge, mas ainda capaz - pode ser um ponto importante para tirar a pressão das costas de Andrew Luck, adicionar mais uma arma na red zone e simplesmente tornar esse ataque melhor (especialmente atrás de uma melhorada linha). Vick Ballard e Donald Brown não são titulares de NFL (os dois combinaram para 3.9 jardas por carregada temporada passada, embora a péssima linha ofensiva tenha atrapalhado) e podem funcionar melhor como uma mudança de estilo em relação a Bradshaw, que sem dúvida vai ser um upgrade nesse ataque.

A defesa também teve seus reforços (em geral todos talentos marginais pagos a preço de titular, mas enfim), com a equipe trazendo Eric Walden, Jean-Ricky François, LaRon Landry (se saudável) e Greg Toler... e acreditem, essa defesa precisa urgente desses reforços. Foi a segunda pior de toda a temporada, na frente apenas da defesa historicamente ruim de New Orleans. A defesa terrestre foi a pior da liga (por isso Françoise e Walden) e a aérea foi "apenas" a sexta pior (por isso Landry e Toler), mas não me parece ser o tipo de contratação que vá causar mudanças drásticas nisso. François era o NT reserva de uma grande defesa e tem apenas dois jogos como titular (curiosamente vai jogar junto com outro NT que sofreu demais quando saiu da fortíssima defesa de San Francisco, Aubrayo Franklin); Walden era um jogador de rotação em um bom time; Landry era um dos melhores safeties da NFL antes das muitas lesões mas que está há dois anos sem uma temporada produtiva; e Toler sempre foi um reserva/special teams que provavelmente vai ter que lidar com uma carga maior do que nunca. Todas são peças que o time precisava em termos de posição e provavelmente vão servir para evoluir certos aspectos da equipe (especialmente em relação aos fraquíssimos jogadores que devem substituir), mas todas me parecem muito longe de serem uma solução para essa defesa que deve continuar muito ruim. Mesmo o principal calouro da equipe, Bjorn Werner, é um DE talentoso mas ainda muito cru e cujo impacto para essa temporada deve ser pequeno. A equipe fez algumas melhoras nesse grupo muito ruim, mas nenhuma de impacto o suficiente para alavancar uma defesa que foi a segunda pior da NFL.

Em resumo, só pela regressão da temporada anterior era possível esperar que Indianapolis caísse para algo como 6-10 com um calendário menos fácil, talvez até pior. A equipe trouxe algumas adições interessantes (especialmente no ataque) mas ainda é um time com diversas falhas e simplesmente com falta de talento na defesa (e um pouco no ataque, embora não tanto). Esses novos jogadores vão ajudar em algumas áreas, mas não é o tipo de contratação que sozinha vai colocar um time medíocre nos playoffs novamente.

O Colts só tem uma área de real otimismo para 2013, e é Andrew Luck. Já falamos de como seus números enganam a primeira vista e de como ele praticamente levou esse time nas costas sem nenhuma ajuda, e também já falamos sobre suas eficiências como corredor. Mas aqui vai mais um dado impressionante sobre Andrew Luck: ano passado, Luck liderou a NFL com sete campanhas para vencer o jogo no quarto período temporada passada, incluindo uma impressionante em 20 segundos contra o Vikings. Apenas dois conseguiram mais desde que o Football Reference começou a manter registro disso, e entre os QBs que conseguiram exatamente sete estão as melhores temporadas da carreira de Tom Brady e Peyton Manning. Meu ponto é o seguinte: Andrew Luck é absurdamente bom, e ele deve melhorar ainda mais para a temporada que vem em relação a última. Ele foi bom em 2012 e deve ser ainda melhor em 2013: seus coadjuvantes melhoraram lhe dando mais opções (tirando Wayne, quase todos seus recebedores eram calouros ou segundo anistas que devem evoluir bastante), sendo um QB que gosta de ficar no pocket vai ser ainda mais ajudado pela sua melhor linha ofensiva, e ele também vai estar um ano melhor. Essa melhora de um QB sensacional vai ser suficiente para colocar o Colts de volta nos 11-5 e nos playoffs? Muito provavelmente não, mas não porque ele não é bom o suficiente e sim porque o time ainda é ruim e vai regredir para o ano que vem. Mas essa melhora pode ser suficiente para colocar esse time que deveria ir 6-10 em um 8-8? Eu acredito que sim. E mesmo que essa temporada seja um passo atrás para a franquia (pelo menos em termos de record quando ignoramos todos os fatores aqui citados), o fato é que o futuro a médio prazo é brilhante com Luck no comando.

E se você ainda não está convencido de como Luck é bom porque não teve bons números essa temporada, me permita colocar um segundo caso aqui:

QB A: 339/627, 54,3%, 4373 jardas, 23 TDs, 18 INTs, 7.0 Y/A
QB B: 326/575, 56,3%, 3739 jardas, 26 TDs, 28 INTs, 6.5 Y/A

Quarterback A é Andrew Luck. Quarterback B é Peyton Manning na sua temporada de calouro. Boa noite e dirijam com cuidado.

(Ps. QBR não tinha sido criado em 1998, por isso não coloquei)