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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A melhor e mais maluca trade deadline

Melhor resumo para ontem a tarde, impossível 



Antes de começar, sirva-se de uma xícara de café. Agora outra. E mais uma, só pra garantir. Estamos prestes a nos embaralhar e confundir falando da mais agitada e mais insana trade deadline que eu me lembro. 38 jogadores (isso da 8% de toda a NBA!) foram trocados, junto com 7 escolhas de primeira rodada de Draft, em um período de 90 minutos. Pelo menos seis (!) times de playoffs estiveram envolvidos em trocas. Foi uma sequência tão grande de trocas, negociações e movimentações que foi praticamente impossível acompanhar em tempo real, ao ponto que até o próprio Woj entregou pra Deus:




Então foi maluco a esse ponto mesmo. A quantidade de jogadores que disse não ter idéia de onde jogava ou quem eram seus companheiros ao final de toda a zona foi incrível. Eu próprio estava na dúvida se tinha sido ou não trocado para o Suns. Então vamos tentar passar rapidamente por todas essas trocas - sim, uma a uma - pra ver o que saiu de bom e o que saiu de ruim dai.



Suns recebe John Salmons (Pelicans) e duas escolhas futuras (2017 e 2021) de primeira rodada (Heat); Pelicans recebe Shawne Williams, Norris Cole e Justin Hamilton (Heat); Heat recebe Goran e Zoran Dragic (Suns)

A mais importante troca da noite envolveu Goran Dragic, que tinha dado essa semana um ultimato para a diretoria do Suns trocá-lo, dizendo que não renovaria com o time ao final da temporada... e ainda destruiu seu próprio valor de troca afirmando que só renovaria contrato se fosse trocado para Knicks, Heat ou Lakers - três times sem nenhum bom ativo para trocar pelo esloveno. Celtics, Kings e Rockets estavam interessados no armador e teriam muito mais a oferecer ao Suns por ele, mas com essa demanda mimada, os três se retiraram da troca e forçaram Phoenix a aceitar a melhor oferta lixo entre as "demandas" de Dragic. O Knicks nada tinha a oferecer, e o Lakers (sabiamente) não iria envolver Randle ou a proteção da sua escolha de primeira rodada que hoje pertence ao Suns, então sobrou para Phoenix aceitar esse pu-pu-platter de Miami por alguém que eu votei como  2nd Team All-NBA em 2014. É um retorno muito fraco por ele, mas é o melhor que Phoenix tinha condições de conseguir nessas circunstâncias.

E Miami aproveitou para roubar a peça que mais precisava nessa trade deadline. Talvez nenhum time o ano todo teve pior produção de seus PGs do que o Heat, onde Norris Cole e Mario Chalmers passaram de "ruins" para "legitimamente prejudiciais" - um problema que ficou ainda mais evidente sem Wade para assumir parte das funções de ball handler. Dragic chega para resolver a questão. Ainda que seus números tenham caído em 2014/15 (16, 4, 4), isso se deve principalmente ao fato de que Dragic tem jogado principalmente como SG, já que o Suns emprega o tempo quase todo lineups com dois armadores diferentes (Bledsoe, Thomas e Dragic), e tanto Bledsoe como Thomas costumam ter mais a bola nas mãos do que Dragic. Mas ano passado todo mundo viu o quanto Dragic pode ser devastador, quando teve 20-6-3 de médias com 50.5 FG% e 40.8 3PT%. Miami precisava de um armador, e agora achou um excelente.

O que é ainda mais interessante é que, em Phoenix, Dragic causou seus maiores estragos no pick and roll e no pick and pop. Aliás, o pick and pop Dragic-Channing Frye foi, em 2014, a jogada com maior eficiência de TODO o basquete, já que Dragic é um especialista em atacar e finalizar perto da cesta (64.8 FG% na zona restrita), abrindo diversas opções de passe no processo. Então é difícil não salivar quando lembramos que agora o eslovêno terá outra máquina de pick and pop em Chris Bosh, e uma excelente opção de pick and roll no novo fenômeno Hassan Whiteside (1.57 PPP em jogadas de pick and roll). Não só é o jogador da posição que Miami mais precisava, mas é alguém que (em teoria) casa perfeitamente com as outras opções já na equipe e que trás exatamente o que o time mais precisa nesse momento.

E a verdade é que, se Wade voltar saudável, o Heat agora vira um dos times mais assustadores do Leste. É verdade que o time perdeu um pouco da sua profundidade para essa troca, mas um quinteto Dragic-Wade-Deng-Bosh-Whiteside é legitimamente assustador, e consolida Miami como um sério candidato ao título do Leste. Agora o Leste tem quatro times legitimamente brigando pelo título da conferência (Miami, Atlanta, Cleveland e Chicago), além de alguns sleepers (Washington e Toronto), e o nível de entretenimento desses playoffs subiu exponencialmente. Aquisição fantástica de Miami. Lembra quando em Setembro tinha muita gente que achava que Miami deveria tankar pós-LeBron?

O Pelicans aqui aproveitou para aumentar suas opções e profundidade, mas nada que vá mudar seu destino. E Phoenix não teve escolha, então pelo menos pegou o melhor retorno possível e abriu espaço pra Isaiah Thomas e Bledsoe jogarem mais tempo juntos e assumirem o comando do...


Suns recebe Marcus Thornton e uma escolha de primeira rodada de 2016 de Cleveland; Boston recebe Isaiah Thomas

Wait, what?! 

Para falar mais dessa troca, precisamos falar de outra do Suns, então por enquanto, vamos focar no Celtics.

Em termos de valor, esse foi um golpe fantástico do Celtics. Thornton era um contrato expirante de pouco valor, e essa escolha do Cavs (que o Celtics pegou para absorver o contrato de Tyler Zeller, que tem jogado bem em Boston) provavelmente não teria muito valor a não ser que LeBron decida que quer voltar pra Miami ou jogar baseball. E em troca pegou um dos melhores armadores reservas da NBA, alguém que consegue atacar a cesta, pontuar a vontade e carregar seu ataque por sólidos minutos - e cujo contrato é uma pequena barganha a 7M ao ano. Então em termos de valor, foi uma grande vitória. 

O que me incomoda aqui é o timing. Boston trocou Rondo e Green, o que em parte poderia indicar que o time queria mais um ano de tanking, mas dai os boatos de que o Celtics estava no mercado atrás de algum bom veterano começaram a surgir. O próprio Dragic era uma opção, mas quando ficou claro que ele não renovaria fora do eixo LA-NY-Miami, Celtics se contentou com Isaiah Thomas. Estando 1.5 jogos apenas atrás de uma vaga de playoffs, Boston começou a pensar que o melhor a fazer era encurtar sua renovação e chegar logo aos playoffs, e fez mudanças para aumentar suas chances disso. Acho que nenhum torcedor racional de Boston acha melhor ser varrido pelo Hawks na primeira rodada dos playoffs do que uma escolha Top12 em um Draft onde, coincidentemente, o Top12 é excelente. A experiência de jogar nos playoffs é importante para um elenco jovem, sem dúvida, mas eu trocaria um ano disso por um Myles Turner ou Mario Hezonja em um piscar de olhos. A partir de 2016, o Celtics não precisa mais ser ruim para ter ótimas escolhas de Draft, graças ao Nets, mas porque não aproveitar mais um ano adicionando talentos antes de perseguir essa vaga nos playoffs? Não é como se o time tivesse qualquer chance de fazer qualquer estrago já esse ano.

Além disso, Boston já não tem em Marcus Smart seu armador do futuro, uma força da natureza na defesa que ainda está aprendendo a forma mais eficiente de conduzir um time no ataque? Smart tem um potencial muito maior que Thomas, mas precisa de tempo, repetições e experiência armando o time para poder se desenvolver. A não ser que Isaiah comece a vir do banco, ele vai tirar tempo de quadra e a bola das mãos de Smart, e ainda que HOJE Thomas seja um jogador ofensivo melhor, isso limita muito o potencial do time no médio prazo. Não da pra culpar um time por querer ganhar logo, mas o time está pensando demais no presente e menos no futuro, mesmo que isso signifique sacrificar o futuro de jogadores como Smart, Young, ou mesmo valores hipotéticos como quem o time pegaria nesse ótimo Draft.

Então o Celtics, em um vácuo, fez um bom negócio, adquirindo um bom jogador em um contrato favorável praticamente de graça. Mas resta ver se essa negociação vai custar ao time uma escolha Top12 e o desenvolvimento de seu armador do futuro - duas coisas muito mais importantes para o Celtics no médio e longo prazo do que o ex-Suns. Bom valor, mas considerável risco aqui.


Suns recebe Brandon Knight (Bucks); Bucks recebe Michael Carter-Williams (Sixers), Tyler Ennis e Miles Plumlee (Suns); 76ers recebe escolha de primeira rodada do Lakers de 2015 (protegida, via Suns).


... SUNS, WHAT ARE YOU DOING?! STAAAAAAPH!!

Antes de mais nada, uma pergunta séria: a gente tem certeza que Brandon Knight é tão bom assim? A primeira vista, é o que parece: o armador tem 18-4-5 de média com 40.8% de 3PT% e um bom PER de 18.5. Mas acontece que eu assisto basquete, e o Bucks desde o começo tem sido meu queridinho do League Pass desse ano. Então eu assisti muito do Bucks, e muito do Brandon Knight. E embora individualmente ele fizesse coisas boas, chamava muito minha atenção o quanto a presença dele atrapalhava a equipe. Ele segurava demais a bola, e parecia ter só duas mentalidades com ela nas mãos: fazer a cesta, ou dar uma assistência. Ele não rodava a bola, não se movimentava bem sem ela, e o time ficava dependente demais do que ele decidisse fazer. Uma quantidade muito irritante de posses de bola do Bucks acabava com Knight driblando a bola por 14 segundos e dando um passe para um mid-range jumper. E assim que ele saia de quadra, o Bucks começava a rodar a bola, achar jogadores livres, jogar de forma rápida e altruísta, e o time era mil vezes mais perigoso. Então não foi nenhuma surpresa alguma entrar ontem no NBA.com e descobrir que, com Brandon Knight em quadra, o Bucks tinha um rating de -0.2 por 100 posses de bola... e com Knight no banco, o Bucks tinha saldo +9.2/100 posses. Só tirando Knight de quadra, Milwaukee deixava de ser o Pelicans pra se tornar 2 pontos por 100 posses melhor que o Hawks. Ainda que boa parte disso se deva ao fato do Bucks ter um excelente banco... é bem significativo, não?

Mas o problema aqui, a meu ver, não é o Suns ter adqurido Knight, e sim ter dado a valiosíssima escolha de primeira rodada do Lakers que tinha no processo. Knight talvez até seja um melhor encaixe em Phoenix, onde jogará mais sem a bola, não vai estagnar tanto o ataque, e pode aproveitar mais seu bom arremesso, mas ele ainda é um jogador questionável, que vai ganhar um salário enorme ao final do ano (quando é FA restrito e alguém vai oferecer um contrato enorme)... e você da em troca uma escolha de Draft que tem tudo para ser Top6, seja esse ano ou no próximo?! Ahn?! Qual a lógica disso?? Porque não pegar Knight ao final da temporada, então? A troca do Dragic foi desfavorável, mas foi inevitável dada a situação que o armador colocou o time. Mas as subsequentes foram horríveis, e cheiram ao pânico de um time desesperado para ir aos playoffs. Trocar Thomas por absolutamente nada, depois trocar seu ativo mais valioso por um armador que é free agent ao final do ano, são duas trocas horríveis para Phoenix.

Eu não faço a melhor idéia do que o Suns estava pensando aqui, e embora eu admire bastante o GM Ryan McDonough, a minha impressão é de que ele está cometendo erro atrás de erro. Knight é comprar alto em um jogador mediano, e não só é um downgrade em relação a Dragic/Thomas, a escolha que mandaram embora por ele é mil vezes mais valiosa do que qualquer uma das três que tenham recebido no dia. O Suns saiu mais fraco dentro de quadra, e muito mais fraco em termos de ativo par ao futuro. Dia horrível de Phoenix. Perder Dragic era inevitável, e ao preço que receberiam, um grande golpe, mas não precisava jogar tudo pra cima e fingir um ataque cardíaco desse jeito.

Enquanto isso, o Bucks conseguiu talvez o roubo do dia. Knight era free agent ao final do ano, e com bons números, era certeza que alguém iria oferecer um contrato máximo para o armador, ou próximo disso. Milwaukee não queria pagar Knight esse valor todo, mas a alternativa de perdê-lo de graça também não era das mais interessantes. Então eles conseguiram a melhor alternativa possível, mandando Knight para Phoenix em troca de um ótimo retorno por um jogador que provavelmente perderiam de graça mesmo. Tyler Ennis e Miles Plumlee são boas peças de rotação para um time cujo grande trunfo na temporada é sua enorme profundidade e versatilidade, e Michael Carter-Williams é um grande talento que estava desperdiçando seus anos formadores em um time horrível que só queria saber de perder. Só de pensar em "MCW, Ennis e Plumlee por Knight", eu já acho que foi um excelente negócio para Milwaukee, mas quando lembramos que Knight era FA ao final do ano e ou iria sair, ou receberia uma bolada que não merecia e entupiria o cap do Bucks, esse negócio fica ainda mais espetacular. Tirando Miami, Milwaukee é o grande time vencedor da noite.

E claro, o maior vencedor em toda essa troca provavelmente foi o próprio Michael Carter-Williams. MCW sempre foi muito talentoso e um tanto quanto complicado, um grande talento com diversas limitações, que estava adquirindo maus hábitos e evoluindo muito lentamente em um time que pouco lhe oferecia de ajuda ou condições de crescer. Agora ele vai para um time extremamente profundo e talentoso onde vai jogar logo de cara em jogos importantes e competitivos, vai ter que evoluir na marra... e talvez mais importante, vai jogar para Jason Kidd, que sabe exatamente como é ser um armador incapaz de arremessar e que é a melhor pessoa não só para moldá-lo em um jogador melhor, como em saber tirar o máximo de suas habilidades. Antes preso no fundo do poço da NBA, de repente MCW foi para um dos times mais jovens, talentosos e promissores da NBA. 

Quanto ao Sixers, bem, essa foi a troca mais Sixers possível, trocando seu melhor jogador por mais uma escolha futura de Draft. Claro, juntando as peças de outras duas trocas...


Sixers recebe JaVale McGee e uma escolha de primeira rodada de 2015 protegida (Thunder) do Nuggets

Sixers recebe Isaiah Canaan e uma escolha de segunda rodada; Rockets recebe KJ McDaniels

...ai é mais fácil ver o conjunto todo, e é hilário. Todo mundo sabia que o Sixers estava em modo "tank" descarado de longo prazo, destruindo seu time o máximo possível para ser ruim durante anos a fio, juntar vários ativos e jovens jogadores, e eventualmente, muito eventualmente, voltar a disputar alguma coisa. E claro, quando já se passaram dois anos e parece que o Sixers está começando a dar alguns passos rumo a ser um time de verdade, eles trocam dois dos seus três melhores jogadores para dar mais três passos para trás. Funhé.

Não que dê para criticar as trocas em si. Aquela escolha protegida do Lakers (Top5 esse ano, Top3 ano que vem e 2017, desprotegida em 2018) é um ativo valiosíssimo, e um excelente retorno por um jogador que já estavam querendo mover faz algum tempo. E McDaniels saiu de graça para um jogador tão bom... mas ele era um free agent restrito ao final do ano, e possivelmente o Sixers não iria querer pagar seu valor de mercado, então pelo menos pegou o talentoso e intrigante Canaan no processo por um jogador que sairia de todo modo. Não foram maus negócios.

Ainda assim, é hilário ver a que ponto vão os esforços do Sixers para continuar reconstruindo e não se importando a mínima em ter um time decente. Agora o time vai afundar ainda mais rumo a pior campanha da NBA (provavelmente o maior objetivo das trocas), e ficar ainda mais longe de ser algo respeitável e decente na liga. E claro, receber JaVale McGee (cujo salário o Nuggets queria se livrar) ajuda ainda mais nesse processo de "ser o pior possível".


Rockets recebe Pablo Prigioni; Knicks recebe Alexey Shved e duas escolhas de segunda rodada

Entre Prigioni e McDaniels, o Rockets fez duas trocas interessantes para reforçar seu elenco e, principalmente, seu banco. Prigioni talvez nem faça tanta diferença assim, mas é uma proteção para os PGs de um time que queria e não conseguiu ficar com Goran Dragic. E KJ McDaniels é uma ótima adição, um bom defensor capaz de jogar (e defender) em três posições e que adiciona habilidade atlética e versatilidade ao Rockets. Nenhum provavelmente é o tipo de troca que sozinha vá mudar o destino do time, mas em dúvida Houston é um time melhor e mais versátil agora com esses dois a bordo. E caso Houston decida por mantê-lo, McDaniels também oferece uma opção jovem e promissora para o futuro da equipe.

Para o Knicks, eles simplesmente se livram de um jogador que não queriam e, embora Shved provavelmente também não faça nenhuma diferença, pelo menos garantem duas escolhas de Draft no processo para aumentar seus limitados ativos.


Nets recebe Thaddeus Young; Timberwolves recebe Kevin Garnett.

Uma troca interessante pra ambos, além das óbvias histórias de "KG voltando pra casa!", ainda que carregue seus riscos.

No caso do Nets, eles ainda estão tentando equilibrar a difícil dualidade de vencer agora com um time ruim, e cortar custos ao mesmo tempo. A troca economiza 3M de dólares esse ano - o que, entre salários, multas e semelhantes, economiza ainda mais para o time, na casa dos 10M - para Brooklyn, mas dentro de quadra, a troca também faz bastante sentido. Garnett agora é basicamente um pivô de tempo integral, mas o time já tem outros dois pivôs (Mason Plumlee e Lopez) produzindo ainda mais, e que dificilmente conseguem jogar juntos. Trocando KG por Young, o time ganha um legítimo PF que teria muito mais facilidade de se encaixar com Lopez e Plumlee, e que torna o time mais barato, mais jovem, e principalmente mais atlético. Economizar uns dólares é bom, mas para um time que não é dono de sua própria 1st round pick, também aumenta as chances do time de conseguir uma vaga nos playoffs.

É claro, eles também assumiram um razoável risco. Young tem uma player option para o ano que vem de quase 10M, e se ele aceitar, a troca vira um tiro no pé. Garnett ganhava mais, mas também era um contrato expirante, e se Young aceitar sua opção, isso significa que o time economizou 3M esse ano (em salary cap) mas gastou 10M a mais em 2016, pagando multas e sem liberar nenhum espaço salarial. Brooklyn provavelmente está apostando que Young vai sair do contrato e tentar ganhar um contrato mais longo e garantido em um mercado inflacionado, mas se ele ficar, essa troca pode dar muito errado. 

Para o Wolves, nada muda dentro de quadra. Mas aceitem de alguém que acompanhou a Era Garnett em Boston: Garnett é o tipo de jogador que faz muita diferença nos companheiros jovens. Rondo e Perkins são dois exemplos, e ter alguém tão competitivo, com tanta liderança e intensidade quanto KG pode mudar a vida de um jogador ainda em formação. Garnett ensina os jovens sobre defesa, sobre se importar, sobre jogar em equipe, sobre apoiar os companheiros. Mesmo velho e no fim da carreira, isso sempre se destacou pra mim em KG: se um colega está se voltando contra o técnico, ou deixando de jogar pro time pra tentar conseguir seus próprios números, ele vai lá arrumar as coisas do seu jeito. Em um time jovem, imaturo e ainda em formação como o Wolves, esse é o tipo de presença que pode fazer toda a diferença para o futuro, acelerar o desenvolvimento dos jovens e ensiná-los a jogar basquete do jeito certo. Os jovens talentos de Minny se beneficiarão de ter KG por perto, e portanto foi uma boa troca.

(Isso significa que o Wolves compensou a grande besteira de trocar uma 1st rounder de Miami pelo Thad Young? NÃO! Mas ameniza um pouco...)


Wizards recebe Ramon Sessions; Kings recebe Andre Miller

Eu gosto dessa troca para ambos. Wizards recebe um armador mil vezes mais jovem e atlético que, embora não venha jogando bem, pelo menos oferece uma opção para o time capaz de atacar a cesta para cavar faltas ou abrir espaços para os passes - o que eles definitivamente não tem quando John Wall está no banco. Então ajuda a reforçar um banco complicado. Embora eu seja suspeito pra falar, sempre fui fã de Sessions e acho que pode contribuir no time certo. Em um papel limitado, este pode ser Washington.

Para o Kings, não só é bom receber uma presença veterana em um vestiário tão complicado e disfuncional, como o time também precisa urgente de alguém capaz de distribuir o jogo. O time não tem nenhum bom passador, e para um time jovem precisando evoluir, é importante ter alguém capaz de dar a bola a todos os jogadores em boas posições e situações. Miller é um encaixe bem melhor nesse time, e ainda que não vá fazer muita diferença prática, pode oferecer o tipo de ajuda que muitos jogadores lá precisam. 


Blazers recebe Alonzo Gee e Aaron Afflalo; Nuggets recebe Victor Claver, Thomas Robinson, Will Barton e uma escolha protegida de Draft de 2016.

Eu estou adorando times do Oeste fazendo trocas para vencer agora enquanto a janela está aberta. E foi o que o Blazers fez. A escolha futura é protegida na loteria, então provavelmente vai para o Nuggets já em 2016 (a não ser que LaMarcus Aldridge saia ou algo muito errado aconteça), mas o Blazers precisava de profundidade no perímetro para competir mais seriamente agora pelo título. E foi o que eles conseguiram em Afflalo. O SG está tendo um ano bastante decepcionante e todos seus números caíram, mas ele joga em um dos mais disfuncionais times de toda a NBA, e uma mudança para um time que joga com velocidade, boa movimentação de bola e de forma coletiva pode ser o que ele precisa para retomar a boa forma. E se retomar, ele é algo que o Blazers precisa, alguém capaz de fazer um pouco de tudo vindo do banco - criar para si e para os outros, arremessar de fora para espaçar a quadra, defender em bom nível, etc. Ele não tem o tamanho e a força física para reproduzir o papel que Batum deveria ter nessa equipe, então ele não resolve os maiores problemas do time... mas ele ajuda e torna o time mais profundo e versátil. Quando você está com a janela totalmente aberta para o título, você tem que fazer o possível para aumentar suas chances, e foi o que o Blazers fez aqui. Uma boa troca.


Celtics recebe Luigi Datome e Jonas Jerebko; Pistons recebe Tyshaun Prince

Contratos expirantes por contratos expirantes, então é uma troca sem grandes consequências. Mas o Pistons trás um jogador que vinha bem em Boston para tentar reforçar a rotação em busca de uma vaga nos playoffs, e trás de volta um antigo herói e ídolo da franquia. Então... hmmm... é basicamente isso. Entre KG e Prince de volta a Wolves e Pistons, respectivamente, a nostalgia foi a maior vencedora dessa trade deadline.


Jazz recebe Kendrick Perkins, Grant Garrett, uma 1st round pick ainda não revelada (Thunder) e uma escolha de segunda rodada (Pistons); Pistons recebe Reggie Jackson (Thunder); Thunder recebe Enes Kanter, Steve Novak (Jazz), Kyle Singler e DJ Augustin (Pistons).

Para analisar essa troca, precisamos olhar os três times envolvidos.

Para o Jazz, manter Enes Kanter não valia mais a pena. Kanter é um jogador talentoso com conjunto de habilidades interessantes e bom potencial, mas que também vinha com várias limitações e que, sendo um free agent, provavelmente seria muito caro de manter no fim do ano. O turco tem bastante potencial, mas hoje, ele pouco oferece na defesa, e no ataque ele - apesar de potencial para ser bastante completo - é apenas um jogador de post up com bom rebote ofensivo que não faz mais nada. Ele é um desastre na defesa, e embora ofereça mais opções ofensivas ao lado de Derrick Favors, a emergência de Rudy Gobert - um defensor infinitamente melhor - tornou Kanter totalmente dispensável. A dupla Favors-Gobert tem sido 3.4 pontos por 100 posses melhor do que Enes-Favors, e considerando a extensão de Favors e o contrato máximo de Gordon Hayward, a última coisa que o Jazz quer nesse momento é acabar com sua flexibilidade salarial dando um contrato gordo a um jogador que, apesar do potencial, é só sua terceira melhor opção no garrafão e provavelmente um reserva. Então ao invés de perder o turco por nada ao final do ano, o Jazz se contentou em receber o que pudesse no mercado por ele, e faturou uma escolha de primeira rodada no processo (ainda não revelada) e Perkins (que terá um buyout para economizar uns cobres).

Para o Pistons, é simples: o time quer ir aos playoffs, e estava caminhando a passos largos para atingir esse objetivo quando perdeu Brandon Jennings, seu armador titular e o cara que deu vida nova ao seu ataque pós-Josh Smith. DJ Augustin vinha jogando bem na sua ausência, mas era claro que o time perdia bastante com essa mudança, então fazia todo o sentido para Detroit buscar um armador novo e melhor no mercado, para tentar salvar a temporada e garantir a vaga nos playoffs. O time gosta de jogar com espaçamento, e Jennings mudou o time sem Smith quando começou a atacar mais a cesta e causar caos no garrafão, e nisso o explosivo Jackson é muito melhor do que Augustin. Sua defesa também é melhor, e em geral, Jackson tem muito mais a oferecer do que Augustin, recolocando o Pistons em condições de brigar por aquela última vaga. Todo mundo lembra o que ele fez no começo do ano com Durant e Westbrook machucados, levando o Thunder nas costas com 19-5-8 de média.

Enfim, chegamos no Thunder, que em valor se saiu bem: Reggie Jackson foi importantíssimo para o time no começo do ano, mas vinha perdendo cada vez mais espaço e parecia ser mais um problema do que uma solução nos últimos tempos, especialmente desde a chegada de Dion Waiters. Além disso, era free agent ao final do ano, então o Thunder provavelmente perderia o jogador por nada. Já Perkins, eternamente mal falado e culpado pelos maus momentos do Thunder, não é um jogador que chama muita atenção e que sempre foi dispensável. Então OKC conseguiu usar os dois para reforçar seu banco, trazendo dois bons arremessadores que devem mofar na reserva (Novak e Singler) mas que ainda podem ter algo a oferecer, o jogador de garrafão que tanto queria em Kanter, e um bom PG reserva em Augustin.

Então em valor foi bom - trouxeram boas opções e rechearam o banco usando um cara que estava encostado faz tempo e um armador que não queriam mais e perderiam de graça. O que eu questiono é o quão melhor o Thunder realmente ficou com essas trocas. Nenhuma das novas adições na equipe sabe defender, para começar. Novak e Singler trazem arremessos de fora e espaçamento, então pelo menos adicionam alguma coisa, nem que seja profundidade. Mas as peças grandes são Augustin e Kanter, e embora no papel sejam boas adições - um PG reserva e um pivô capaz de pontuar perto da cesta - eles são realmente o que OKC precisa agora?

Comecemos por Kanter. O turco tem duas habilidades de nível NBA, os rebotes ofensivos e pontuar de costas para a cesta. A primeira habilidade é sempre útil, mas a segunda é incerto. Claro, jogadores assim são sempre úteis, mas não é como se ele fosse Al Jefferson no fundamento - 60th percentil dos jogadores da NBA apenas - e ele tira coisas demais da mesa. Ele é absolutamente incapaz de passar a bola, então o post up dele tem poucas chances de gerar uma movimentação favorável pro ataque e seria facilmente "anulado" em uma série de playffs, e ele descompensa sendo talvez o pior defensor de garrafão da NBA na atualidade (e é o pior protetor de aro da NBA - adversários chutam 57.6% contra ele na área restrita, pior marca da liga). Pontuação de costas pra cesta é uma habilidade sempre útil, mas o Thunder realmente se beneficiaria de ter mais um pontuador fominha que segura demais a bola, não roda o jogo e não faz os companheiros melhores, e que ainda dobra como um dos piores defensores do mundo? Realmente move tanto a agulha assim em relação mesmo a Perkins, que é um nulo no ataque mas é pelo menos um bom defensor, com o qual OKC é algo como 4 pontos por 100 posses melhor quando está em quadra? Bom lembrar também que Kanter é um free agent restrito ao final do ano, e tem potencial para receber um bom contrato. A não ser que o Thunder decida abrir o cofre para manter o jogador - sabe, dando aquele contrato que não quis dar para James Harden? - também não passa de um aluguel de dois meses.

O mesmo para DJ Augustin. Sim, ele é um bom reserva, mas não é um bom arremessador, é alguém que produz melhor quando tem a bola nas mãos, e que não defende bem. Considerando que o problema do Thunder é justamente a dificuldade de jogar em equipe, rodar a bola e achar jogadores que complemente os seus dominantes ball handlers, Augustin não me parece um bom encaixe. Talvez Jackson não estivesse rendendo por causa da personalidade, mania de querer fazer demais e excesso de toques na bola, mas como exatamente Augustin renderia melhor em uma função secundária? Talvez o pessoal ainda não desgoste dele como desgostava de Jackson, mas o que Augustin trás para quadra que é melhor que Reggie Jackson?

A velha piada: se Enes Kanter é a resposta, então eu não quero saber qual é a pergunta. Não é que o Thunder fez trocas ruins ou se tornou um time pior, nem nada do tipo. Eu só acho que as trocas foram nem de longe tão benéficas e mudam tanta coisa como as pessoas parecem pensar. Elas aumentam o potencial de OKC, e com o relógio correndo contra Oklahoma City, o time tem mais é que correr atrás dessas trocas mesmo na tentativa de conseguir alguma coisa nova. Se eu fosse o GM do time, provavelmente também teria feito ambas as trocas. Eu só acho que, no final do dia, o resultado não vai mudar em nada com os novos jogadores.


Veredito

O Phoenix Suns projetava como um grande perdedor dessa troca, mas muito mais por causa de Dragic ter forçado o time a uma situação sem solução do que por outra coisa. E a inevitável troca ruim aconteceu... só que Phoenix não parou por ai, e ao invés de pisar no estrume, se afundou até a cintura trocando seu melhor ativo por um PG overrated que vai ganhar uma fortuna no final do ano, e se livrando de outro bom PG por nada. Phoenix não fez nada para salvar o resto da sua temporada e tornar-se um time melhor no curto prazo, mas também trocou seu melhor ativo e um contrato muito favorável por um jogador mediano que ficará muito overpaid em três meses. Em outras palavras, também prejudicou em MUITO o valor do time no médio prazo. Um dia para esquecer de Phoenix, que praticamente se destruiu em duas horas.

Os grandes vencedores (pelo menos os times) foram, a meu ver, Heat e Bucks. Miami porque pegou, a baixo custo, um dos melhores PGs da NBA e a peça que faltava para o time voltar a ser competitivo e candidato as Finais em Dragic - ou, melhor dizendo, porque esse armador caiu no seu colo. E Bucks porque, em troca de um jogador overrated que eles não queriam pagar no final do ano (e provavelmente perderiam por nada), conseguiram não só um talentoso, jovem e muito mais barato armador para se juntar a seu jovem e talentoso núcleo, como também roubou junto duas boas peças de rotação em Ennis e Plumlee, e se tem um time na atualidade que sabe aproveitar o valor de um bom banco, é o Bucks. Excelentes negociações para ambos os times.

Para terminar, Celtics e Thunder também fizeram barulho, e conseguiram trocas interessantes a bons valores. Ambas aumentaram o teto da sua equipe, e maximizaram seus ativos. Ainda assim, eu não acho que de para declarar ambos vencedores ainda. OKC porque não estou convencido de que essa troca realmente faz do Thunder um time melhor ou muda a perspectiva da franquia, e Boston porque ainda tem um risco considerável dessa troca custar a Boston (por causa da pick desse ano e do desenvolvimento de Smart) muito mais do que ela adiciona no médio prazo. Ainda esperando para ser avaliado completamente.

E por fim, os grandes vencedores fomos todos nós, que temos um twitter e pudemos acompanhar em tempo real a mais maluca e divertida trade deadline de todos os tempos. E agora que finalmente colocamos toda essa loucura em contexto, é hora para mais café. Com licença. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

O fim (?) do Big Three de Boston

RED - (quase) Aposentados e Perigosos


Sim, as Finais começam amanhã. Sim, eu sei que ela é a prioridade. Mas não consigo fazer um preview sem antes esclarecer tudo sobre o Celtics e o que significou o jogo 7 das Finais do Leste, quando o Heat eliminou o Celtics dos playoffs. Vou guardar as grandes análises táticas pra amanhã no preview, então vou tentar encurtar um pouco mais esse post e ser um pouco mais direto.

O Celtics é, junto com o Lakers, a Franquia com mais história de toda a Liga. São 17 títulos, vários Hall of Famers, jogadores do calibre de Bill Russell (11 títulos em 13 anos, melhor defensor de todos os tempos, maior vencedor da historia dos esportes americanos), Larry Bird (3 MVPs, 3 títulos, um dos cinco maiores jogadores da história), Bob Cousy (dono do meu apelido preferido da NBA - Houdini of the Hardwood) e John Havlicek (Top20 All-Time, 5 títulos), sem falar em Red Auerbach e companhia. Enfim, a Franquia tem mais história do que qualquer time de basquete não chamado Lakers (curiosidade do dia: Sabia que em 1960, o time do Lakers esteve envolvido em um acidente aéreo, quando o avião no qual o time viajava não tinha mais condiçōes de completar o voo por conta de uma falha mecânica e não estava suficientemente perto de nenhuma estação de pouso? O piloto não conseguia um pouso de emergência por causa do grande número de fios elétricos no local, até que enfim conseguiu pousar numa plantação coberta de neve enquanto os bombeiros e funerários locais (sério!) cercavam o avião. Ou seja, por muito pouco não chegamos a ter uma tragédia que possivelmente teria feito o Lakers nunca mais se recuperar. Voce sabia disso? Imaginei que não. Ainda bem que estou aqui!), e é o time mais vitorioso da NBA. Kevin

No entanto, o Celtics chegou a passar anos muito ruins entre os anos 80 e o final dos anos 2000. Depois da geração de Larry Bird, Kevin McHale e Robert Parish ter perdido sua competitividade no final dos anos 80 (Kevin McHale nunca foi o mesmo depois de jogar os playoffs de 1987 com um freaking pé quebrado - uma das histórias mais underrateds da Liga, porque ele estava com uma droga de um pé quebrado os playoffs inteiros! - e o corpo de Larry Bird começou a se quebrar por volta de 88/89), o time do Celtics passou por um periodo de times muito ruins: Depois da aposentadoria de Bird (92) e McHale (93), uns bons tres ou quatro anos depois da dupla parar de ter sido realmente eficiente em quadra por conta das lesōes, o time tentou se montar em torno do ala Reggie Lewis, que infelizmente morreu por conta de problemas cardíacos (vale aqui o parênteses: Em 1987, o Celtics - campeão no ano anterior com aquele que era, pra mim, o maior time de todos os tempos da NBA - tinha a secunda escolha do Draft, e escolheu o ala Lenny Bias. Lenny era um combo-foward muito talentoso, atlético, bom pontuador e reboteiro, e que jogava com muita atitude. Ou seja, um jogador que tinha tudo pra ser a nova cara da Franquia e pegar a tocha de Bird... Se não tivesse morrido de overdose de cocaína dois dias depois do Draft. E assim o Celtics perdeu o jogador que daria a proteção para Bird/McHale em 87 e 88 e seria seu Franchise Player indo pra frente). O Celtics então tentou se remontar com uma cacetada de movimentos pouco inteligentes, como por exemplo assinar com um Dominique Wilkins que estava uns oito anos passado do seu auge pra ser o go-to guy do time, trocar o então calouro Chauncey Billups porque ele não jogou bem nos seus primeiros CINQUENTA jogos como profissional (Nao foi nem uma temporada completa!), e se montar com escolhas fracassadas de Draft e veteranos pouco uteis.

Ainda que o Celtics tenha melhorado com as chegadas de Paul Pierce e Antoine Walker (O famoso "Cabeça-de-Lego - via Bola Presa), e tenha se remontado em cima da sua nova estrela Pierce com um bando de Role Players em volta dele , e mesmo que tenha chegado até a Finais de Conferência, isso se deveu muito mais aà falta de bons times no Leste do que a um time realmente bem montado, e o Celtics em nenhum momento se viu como um grande time na NBA.

Afinal, em 2007, o Celtics estava começando a montar um núcleo jovem em torno de Pierce: Rajon Rondo (muito antes de virar o monstro que é hoje), Sebastian Telfair (na época era considerado uma grande promessa), Ryan Gomes, Gerald Green (Sim, aquele que ta no Nets, na época também era considerado uma promessa vinda do High School), Tony Allen (Apelidado de Trick or Treat Tony. Voces imaginam o porque) e Al Jefferson. Ainda assim, o time ia se desenvolvendo lentamente, sem grandes progressos pra um time que queria tanto voltar ao topo. E acreditem, pra uma franquia tão acostumada a vencer como o Celtics (11 títulos com Russell entre 1957 e 1969, mais dois com Havlicek e Dave Cowens em 74 e 76 - deveria ter ganho em 73 se o Hondo nao machuca, mas enfim - depois mais três com Bird nos anos 80, com times dominantes em todas essas eras), não foi fácil aguentar quase 20 anos de times medíocres, jogadores que não se interessavam em ir jogar na franquia, jogadores jovens sendo trocados por veteranos inuteis só para depois nos assombrarem (Billups e Joe Johnson, alguem?) e estar em um segundo plano no mundo do basquete, sem um time carismático ou capaz de representar algo mais. Não foi fácil pra Boston.

Em 2008, após um começo de ano ruim principalmente por causa do impacto da morte do Red Auerbach no time, o Celtics aproveitou uma pequena lesão do Pierce pra afundá-lo no banco, deixou tempo demais os jogadores jovens pra levarem pancada e, em poucas palavras, fez de tudo pra perder o máximo possível pra ter uma boa posição no Draft e pegar os dois jogadores muito cobiçados daquele draft. Ou seja, Greg Oden e Kevin Durant. Era a chance do Celtics conseguir um jogador que alterasse o destino da Franquia (engraçado como pensavam isso do Oden na época, muito mais do que do Durant). Bom, vocês sabem o que aconteceu depois: O Celtics não só ficou sem Oden e Durant, como terminou com a quinta escolha, alta demais pra pegar um jogador que pudesse mudar o time. Ai o time decidiu jogar tudo pra cima e fingir um ataque cardíaco, e desmontar todo seu estabanado projeto de reconstrução em troca de ajuda imediata enquanto Paul Pierce estava nos seus melhores anos pra tentar uma arrancada rumo a um título.

Assim, o GM Danny Ainge foi atrás de veteranos, caminhando para o final da carreira, que estavam em busca de um título e que jogassem em times medíocres que estivessem prestes a começar uma reconstrução. Então mandou sua quinta escolha do Draft (eventualmente, Jeff Green) junto com Wally Szczerbiak e Delonte West para o então Seattle Supersonics, que nas mãos do genial GM Sam Priesti começava seu processo de reconstrução e já tinha a secunda escolha do Draft, em troca do veterano arremessador Ray Allen. Encorajados com a troca (importantíssima pra Seattle, mas ainda assim desequilibrada em favor do Celtics), e de repente com duas estrelas no time, o Celtics começou a se tornar um local atraente pra mais um All-Star. E o Wolves, que deixou o Kevin Garnett puto ao tentar trocá-lo antes do Draft (ele nunca quis sair), de repente viu um cenário muito mais tentador pro KG com Allen em Boston, e enfim Ainge conseguiu pegar o KG pro Celtics num assalto que eu tenho 99% de certeza que só aconteceu porque o GM do Wolves era, claro, Kevin McHale, que sangrava verde até o ultimo segundo. A troca foi o KG por Al Jefferson (Um legitimo futuro All-Star), Green, Theo Ratliff (Contrato expirante), Ryan Gomes e Sebastian Telfair, mais uma escolha de primeira rodada. Ao final das trocas, o Celtics tinha se livrado de todo seu núcleo jovem e promissor, sobrando apenas Glen Davis (veio junto com Ray), Rondo e Kendrick Perkins pra cercar o seu Big Three. Nos meses seguintes, Ainge tratou de assinar veteranos sem contrato em busca de um título e role players baratos pra cercar o Big Three, e ai o Celtics estava pronto pra 2008.

Dentro de quadra, o impacto dessa troca é relativamente fácil de entender: O Celtics montou um time em torno do Big Three, cercando-os com role players com papel limitado e diversos veteranos em busca de um título, um time com uma defesa fortíssima ancorada pelo intenso Kevin Garnett e ataque baseado em isolaçōes, improvisos e no talento individual dos seus três craques. Um time ultra-competitivo, intenso e com muita atitude, ele basicamente adquiriu as características do seu líder emocional (o recem-chegado  Garnett) e tudo se encaixou em torno disso. O Celtics logo engrenou, tomou a Liga de assalto e, depois de playoffs dificeis, fechou as Finais contra o Lakers com um jogo 6 no qual ganhou por 39 pontos. No ano seguinte (2009), o Celtics viu Rondo evoluir em uma máquina de Triple-Doubles capaz de carregar o time nas costas por longos períodos, mas perdeu a chance de repetir (E provavelmente teria repetido porque era mais time que Lakers e Magic naquele ano) o título do ano passado quando KG estourou o joelho e perdeu os playoffs. Em 2010, depois de uma temporada regular lenta, cheia de jogadores um pouco velhos e lentos, o Celtics pareceu que tinha perdido seu fogo... Quando chegou nos playoffs, engatou a quinta marcha, atropelou Magic e Cavaliers (os favoritos) e levou a Final contra o Lakers a 7 jogos antes de perder mesmo depois de controlar todo o jogo 7 (e ter tomado 28 rebotes ofensivos, algo assim), o que dificilmente teria acontecido se Perkins não se machucasse no Jogo 6 ou se Ron Artest não acerta o mais imbecil arremesso de toda a série (que, lógico, caiu pra três nos minutos decisivos do jogo 7). O resumo do Big Three nos seus primeiros anos, portanto, foi o seguinte: Título em 2008; Deveria ter ganho em 2009 não fosse a lesão do KG; e um vice-campeonato em 2010 contra um bom time do Lakers (sim, com seu pivô titular machucado no jogo 7, no qual tomou mais rebotes ofensivos do que pegou na defesa. Algo me diz que um Perkins saudavel teria ajudado, mas enfim). E ai chegamos a 2011, quando o Danny Ainge entrou em pânico com a falta de um SF para dar descanso ao Pierce e trocou Kendrick Perkins por Jeff Green e apostou que Shaq ia conseguir ficar saudável o suficiente para jogar 30 minutos por jogo nos playoffs. Não só isso deu errado, porque o Shaq machucou e o Celtics perdeu a vantagem da sua altura de garrafão (maior força na temporada) como também destruiu o time psicologicamente ao pisar em tudo que o time acreditava (lealdade, amizade, entrosamento...)  e mandar embora um jogador que servia como a âncora emocional de toda a equipe.  O Celtics não se recuperou, foi massacrado pelo Heat e parecia acabado (Sim, estou deixando a temporada 2012 de fora por enquanto. Segurem um pouco).

Como eu disse, é fácil entender qual foi o impacto que as trocas de Ainge em 2008 tiveram no time e na NBA dentro de quadra: Um titulo, um vice e uma grande chance perdida por lesão. Também nos deram um dos melhores times defensivos de todos os tempos e a chance de ver três (Talvez quatro, dependendo de como a carreira do Rondo continuar) futuros Hall of Famers jogando juntos, em um time histórico. Mas o impacto que esse time teve sobre os torcedores de Boston? Não da pra quantificar isso de jeito nenhum. A chegada de Allen e especialmente Kevin Garnett ressuscitaram o basquete em Boston, e mais importante, ressuscitaram Boston no cenário do basquete nacional. Transformou uma Franquia que tinha amargado quase 20 anos de mediocridade em um Juggernault, extremamente interessante e que jogava com o tipo de atitude, intensidade e paixão pelo jogo e pela vitória que faria Russell, Auerbach, Bird e Dave Cowens sorrirem orgulhosos. Pra uma Franquia e uma fan base tão acostumada a estar sempre brigando, sempre com um time para se orgulharem e com jogadores com os quais a torcida realmente se identificava, era uma tortura ver um time tão insignificante, com jogadores como Antonie Walker e Bassy Telfair, que nunca se identificariam com nenhuma fan base. A chegada do Big Three deu vida nova à cidade (em termos de basquete), deu vida nova à Franquia e se tornou um time extremamente identificado com a torcida. Talvez por esse motivo tenha sido tão dificil aceitar que esse núcleo estava velho e não conseguiria mais brigar por um título. Ate...

Que chegou a segunda metade da temporada 2012 da NBA! O Celtics passou uma primeira metade com jogadores veteranos totalmente sem perna, um time sem nenhuma vibração pós-Perkins e que parecia realmente o quinto ano de um projeto de três destinado a se desmontar (KG e Allen são Free Agents ao final da temporada). Até que passou a Trade Deadline e ninguém foi trocado, o Avery Bradley entrou no time e deu nova vida à equipe com sua defesa e intensidade, Garnett ressuscitou e o time se reinventou como um time veloz, muito agressivo no perímetro que jogava sem um pivô de origem (KG era o Center da equipe) e que acabou se fortalecendo dentro do grupo a cada contratempo que sofria (Os problemas sérios de saúde que acabaram com a temporada de Green e Chris Wilcox, a saída do Jermaine O'Neal, etc) e que, no final da temporada, estava jogando o melhor basquete da NBA de qualquer time que não chamasse Spurs. O time tinha criado uma nova identidade, tinha retomado sua intensidade e competitividade anterior, e estava novamente acreditando no grupo, nos companheiros.

Infelizmente, isso não durou muito. Antes dos playoffs, três dos principais jogadores do Celtics (Bradley, Allen e Pierce) sofreram lesōes importantes, e isso afetou demais a equipe chegando nos playoffs. Ray Allen estava incapacidado de jogar no começo dos playoffs, mas se sacrificou jogando com pedaços de ossos nos fucking tornozelos simplesmente porque o Celtics tinha perdido o Avery Bradley pro resto da temporada com uma séria lesão no ombro (seu melhor defensor de perímetro e as pernas jovens que tanto fizeram falta no jogo 7 das Finais de Conferencia), e Pierce jogou praticamente em uma perna só os playoffs inteiros porque não teve tempo de tratar ou de descansar uma lesão na perna. Pierce jogou no sacrifício e não foi nem de longe o jogador que é, Bradley machucou pra temporada no momento que o Celtics mais precisava dele, e Ray Allen jogou no sacrifício simplesmente porque não tinha mais ninguem pra jogar no seu lugar, ainda que não conseguisse correr, pular ou simplesmente pisar com segurança. O Celtics se arrastou pelos playoffs passando em sete jogos por Hawks e Sixers, depois encontrou uma última reserva de energia pra jogar contra o Heat e colocá-lo contra a parede mesmo com tudo contra Boston... Só que Lebron James teve um jogo épico em Boston pra ganhar o jogo 6 (e o pior, eu não posso dizer que tenha ficado surpreso), e ai no jogo 7 faltou perna, faltou gente pra ajudar vindo do banco e faltou um Pierce ou um Allen saudável pra carregar o ataque do time quando ele estagnou, incapaz de criar nada com Rondo ou acertar arremessos em isolaçōes ou jogadas rápidas. Os destroçados Celtics lutaram até o fim, usaram cada recurso e cada jogada, mas naão foram capazes de parar um time mais atlético, mais saudável e que tem Lebron James no seu auge.

A verdade é que eu, como torcedor do Boston, não podia ficar mais orgulhoso desse time. Mesmo com tantas lesōes, tantos problemas e tantos jogadores no sacrifício, o Celtics chegou a uma vitória das Finais na pura raça, vontade e experiência. Tudo que esse time representava - vontade, fome de vencer, confiança, jogadores se sacrificando pelo time - foi o que levou esse time muito mais longe do que deveria ter ido com tantos jogadores importantes machucados e tantos buracos no elenco. Eu não poderia respeitar mais esse time e esses jogadores, que conseguiram ir muito longe mesmo com tudo contra. Esse foi meu time do Celtics favorito da era do Big Three, simplesmente pela intensidade, pelo entrosament, pela confiança e pela forma como esse time sempre buscou dentro do proprio grupo a força pra superar adversidades, além da forma como Rondo jogou os playoffs todos. Não ver esse time jogar mais vai ser a pior coisa após a derrota pro Heat. Era um time com o qual nos identificavamos e que era muito bom de ver jogar.

Agora, ninguém sabe que rumo as coisas vão tomar com KG e Allen indo pra Free Agency. Garnett termina um contrato de 21 milhōes, e Allen um de 10. Em outras palavras, 31 milhōes estão saindo do Cap do Celtics. O Celtics pode reassinar os dois por muita grana, pode deixar os dois saírem e reconstruir de novo em torno do Rondo, pode tentar convencer os dois a reassinarem por valores muito mais baixos, de forma que o time possa ir atrás de Free Agents e Role Players pra completar o elenco em torno do Big Four. Eu pessoalmente acredito que Garnett volta por um salário baixo, mas não tenho muita certeza quanto ao Allen, especialmente porque arremessadores como ele sempre terão grande demanda e  Allen sabe que pode ir para um time, ganhar mais dinheiro por mais tempo e jogar por mais um título. Eu confio que a lealdade e teimosia do Garnett irão mantê-lo um Celtic, mas o Allen vai ter propostas muito melhores e mais interessantes (especialmente se os boatos dele e do Rondo não estarem nos melhores termos forem verdadeiros). Saudável, ele é o tipo de jogador capaz de dar um grande boost a times como Bulls ou Clippers mesmo nessa idade. E isso significa que o Celtics pode estar muito perto de dar adeus ao seu Big Three. Se Garnett ficar, mesmo sem Allen, o Celtics ainda tem cap space (e Bradley) e jogadores bons o suficiente pra tentar brigar mais uma vez com alguma criatividade na Free Agency (Como eu disse, vai ter cap para tal se Garnett aceitar ganhar pouco). Mas se Garnett e Allen sairem ambos, a coisa complica, porque aí o Celtics fica com pouca base pra se organizar pra tentar algo ainda com Pierce em bom nível. Nesse caso, faria mais sentido trocar Pierce e reconstruir em torno de Rondo... não fosse o fato de que você estaria apunhalando pelas costas um dos maiores Celtics de todos os tempos. Então tudo depende de como KG e Allen vão reagir. Pra mim, KG fica, Allen sai, o Celtics taca tudo que tem pra cima de Eric Gordon e Nicolas Batum na Free Agency, pega meia duzia de role players (chutador de três, defensor de garrafão), talvez até fique criativo com suas duas escolhas de primeira rodada (21 e 22, via Clippers)... Mas pra isso precisa manter Garnett.

Mas mais do que o tiítulo dos proximos anos em jogo, o fim do Big Three (e especialmente de Garnett) seria o fim de uma era do Celtics que trouxe de volta o orgulho da equipe (Celtic Pride), que recolocou o Celtics no cenário da NBA e que finalmente reaproximou a torcida do time. O time pode continuar competitivo, pode vir a ser campeão, mas independente disso tudo eu vou sentir falta do que Garnett, Pierce e Allen trouxeram pra mim como torcedor do Celtics. Tem times que simplesmente conectam com a torcida de uma maneira diferente. Esse era um desses times. Sou grato por ter visto esse time jogar, vou contar para meus filhos. E ainda que eu preferia que acabasse de forma diferente (com um título), a era Big Three do Celtics não poderia acabar de forma mais emblemática: Um time lutando até o final, usando toda a sua força de vontade e garra pra superar a enorme quantidade de adversidades que teve que enfrentar pra chegar mais alto do que deveria... Mesmo que chegasse perto e não atingisse seu objetivo. A imagem que os Celtics de 2008-2012 deixaram é a do time jogando com mais vontade e fome de vencer do que nenhum outro. E foi assim que essa era pode ter terminado.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tenha medo dos velhinhos...

"Pedala, Robinho!"


Em uma das minhas passagens favoritas do excelente livro The Book of Basketball, o autor Bill Simmons usa uma conversa com o Hall of Famer Isiah Thomas pra dissertar sobre como o jogo é profundamente afetado por coisas que NÃO tem a ver com o jogo. Como o segredo do esporte é entender o que afeta o jogo por fora, aquelas coisas que naão tem a ver com basquete mas que um time precisa compreender pra ter sucesso. No caso de Isiah, ele usa como referência seu Pistons campeão de 1989, um time que sempre deixou o ego e o individualismo em segundo plano, jogava um jogo bastante coletivo e cujos jogadores só se preocupavam com a vitória e nada mais - e sobre como isso foi profundamente afetado por uma troca feita logo antes da temporada, trocando o SF/PF titular da equipe (Adrian Dantley) por Mark Aguirre. Dantley era o melhor jogador, mas durante os playoffs de 1988 ele reclamou - continuamente - de ficar no banco nos minutos cruciais das partidas com o segundo-anista Dennis Rodman ganhando seus minutos. Foi trocado assim que a offseason permitiu por Aguirre - um jogador não tão bom mas que não ligava de ficar no banco, não ligava pros seus números e tinha a mentalidade "o time em primeiro lugar" que o seu time e o seu líder - Isiah - sempre pregaram. O resultado? O Pistons de 1989 era muito melhor que o de 1988 e foi campeão com folgas... Sendo que a única mudança foi que o time trocou seu SF titular por um jogador pior (E que o Isiah ficou saudável nos playoffs). Porque? Porque essa troca nunca foi voltada pro lado do basquete - Dantley era melhor, ponto - e sim pro lado que naão tinha a ver com basquete, ou seja, a mentalidade que o time compartilhava e colocava em primeiro lugar encontrava uma peça muito mais disposta a abraça-la em Aguirre que Dantley. Embora muitas vezes negligênciado, esse lado do basquete que não tem a ver com basquete eé o fundamental para os grandes times. 

Um outro exemplo em outro esporte, mas seguindo a mesma abordagem? Quando o Red Sox de 2004 trocou seu Shortstop, o All-Star Nomar Garciaparra, por Orlando Cabrera. Cabrera era um bom SS e foi fundamental nos playoffs, mas Nomar era um jogador muito superior... Só que a presença de Nomar na equipe causava distúrbios por causa do seu enorme ego que não aceitava colocar o time em primeiro lugar e parecia se importar mais com os seus números e nunca aceitou que jogadores como David Ortiz e Kevin Millar eram os novos astros da equipe. Nomar não aceitou o segundo plano, quis um contrato grande demais, e foi trocado por um jogador inferior... Que imediatamente melhorou o ambiente do elenco, fez todo mundo se comprometer ainda mais com o grupo e levou o time a ganhar do Yankees na maior série de playoffs de todos os tempos e conquistar o primeiro título da Franquia em 86 anos. E tudo isso começou quando o Sox trocou seu Shortstop All-Star por razōes que nada tinham a ver com baseball.

Em outras palavras, não é só o talento e a habilidade do time que importa. Importa muito também a mentalidade da equipe em quadra, cada jogador entender seu papel e colocar o time em primeiro lugar, desenvolver uma confiança e um entrosamento... Ou seja, times dependem tanto do que tem a ver com o esporte em si como do que não tem a ver com o que vemos dentro de quadra. Não acabamos todos de ver um time com um All-Star e um bando de role players vencer numa Final de NBA o time com dois dos cinco melhores jogadores da NBA com base no jogo coletivo e na força de vontade?

Quem sabe que eu sou um torcedor do Celtics possivelmente já percebeu aonde essa conversa vai chegar: Na trade deadline de 2011, quando Danny Ainge trocou Kendrick Perkins por Jeff Green. Essa troca era defensável dentro de quadra: O único ala no elenco pra defender Carmelo, Lebron, Deng e possivelmente Durant nos playoffs era Paul Pierce. Com a lesão do Marquis Daniels, o time perdeu depth, defesa e flexibilidade no perímetro, e com tantos SFs de alto nivel ameaçando nos playoffs, o time decidiu que podia trocar seu pivô (um jogador mediano e unidimensional) titular, sendo que tinha dois pivôs veteranos reservas em Shaq e Jermaine O`Neal (o problema desse plano: Contar com a saúde do Shaq aos 38 anos) por um bom ala que podia dar a proteção necessária a Paul Pierce e Kevin Garnett vindo do banco. (Parenteses rápido: Faltava defesa, flexibilidade e intensidade no perimetro do Celtics, e isso motivou essa troca absurda. Ou seja, o pequeno segredo da temporada 2011 do Celtics: Eles sentiram falta DEMAIS do Tony Allen!). Dentro de quadra, a troca fazia sentido.

Fora de campo? Não fazia nenhum. Estritamente sobre basquete, Perkins era apenas um pivô defensivo que era o quinto melhor jogador do time (se tanto). Mas existem coisas que não aparecem em estatísticas, como o fato de Perkins ser a âncora emocional da equipe dentro e fora de quadra e o Celtics ter construído sua identidade com base na palavra Ubuntu, que significa algo como "União" (em inglês a tradução é mais expressiva: Togetherness). O Celtics acreditava de fato que era como uma familia, todos eram amigos, saiam juntos nas ferias, estavam sempre apoiando uns aos outros. Eles não eram colegas, eles realmente eram amigos, e acreditavam - como o técnico Doc Rivers pregava - que sua força em quadra se dava pelo seu coletivo, sua união (ubuntu). E ai o Ainge pega o Perkins - o melhor amigo do Rajon Rondo, o jogador que todos sabiam que estariam la com eles caso de problema, o jogador que tinha "as costas" de todo mundo, e que valorizava o orgulho de ser um Celtic mais do que ninguém - e trocou sem mais nem menos por que fazia sentido no papel! Como o Doc Rivers podia pregar Ubuntu depois do Ainge pegar uma peça essencial da chemestry do time e mandar embora sem cerimonia, provando definitivamente que Ubuntu eé apenas uma palavra e que no esporte a racionalidade eé mais importante que o que os jogadores e o grupo significam uns com os outros? Ele basicamente pegou o "Segredo" do Isiah - e o Celtics se apoiava nisso mais do que qualquer outro time - e jogou pela janela... E isso destruiu completamente o espirito da equipe! (A troca também quebrou o Cs dentro de campo, por causa da incapacidade de deixar o Shaq saudável, e o Celtics acabou perdendo sua principal arma contra o Heat - seu garrafão forte e extremamente defensivo. Sem tamanho, o Celtics não tinha como bater de frente com Heat ou Bulls. Sem a intensidade e a confiança que o Perks trazia... Pior ainda).

O Celtics terminou a temporada um horror e essa temporada começou de onde parou ano passado. Os jogadores pareciam ter perdido seu espiírito com a troca do Perkins. Os jogadores não eram mais os marrentos, ultra-intensos, competitivos e confiantes uns nos outros de antes da troca fatidica, o time parecia assustado, sem confiança, como quem sabe que não tem mais seu irmão mais velho pra cuidar das suas costas. O time perdeu seu pilar de sustentação emocional quando perdeu Perkins e depois viu o seu Ubuntu ser jogado pela janela. Os boatos de troca envolvendo Rondo e o Big Three começaram a explodir, e o começo de temporada de 15-17 mostrava bem o que era esse time: Velho, sem energia, cansado, e sem ninguém pra levantar emocionalmente o grupo. Mesmo o sempre intenso KG, o coração do Celtics, parecia abatido sem Perkins do lado. O Celtics era um grupo destruído - o quinto ano de um projeto de três anos, como disse o Bob Ryan - que parecia só esperar o golpe de misericordia (O fim dos contrados do Ray Allen e do KG no fim da temporada ou alguma troca). A imprensa fez parecer que o time estava desesperadamente querendo trocar o Rondo (O Rondo só foi colocado em negociaçōes UMA vez: Por Chris Paul. E só. O resto foi tudo especulação e boatos da mídia) ou alguém do Big Three, o que não era verdade. Trocas foram discutidas pelo Big Three (Não por Rondo), mas nenhuma foi realmente avançada. Ainge sabia que sua melhor chance era manter o time unido.

Ai de repente, as coisas pareceram que começaram a mudar pro Celtics. Uma sequencia de quatro vitórias antes da Trade Deadline, coroada com a histórica performance de 18-20-17 do Rondo contra o Knicks, pareceu dar vida nova ao time, mas que voltou a sofrer com inconsistência de seus dois principais veteranos (Pierce e Garnett) e lesōes do terceiro (Allen). A falta de pivôs após a lesão do Jermaine obrigou o KG a jogar de pivô, onde ele não parecia render tão bem, e saindo do garrafão pra evitar o contato e as lesōes o Celtics não tinha nenhum jogador que começasse a pontuar dentro do garrafão e atacasse a cesta com intensidade.

Ai de repente passou o All-Star Game... Passou a trade deadline... E o Celtics agora tem um record de 18-7 após o ASG, esta jogando defesa num nível histórico, recobrou a sua intensidade e confiança e, como eu disse no nosso twitter, embora eu não aposte no Celtics pra ser campeão da NBA ainda, ningueém em sã consciência quer cruzar com eles numa série de playoffs! E isso aconteceu... como??

Pra responder essa pergunta, temos que analisar os dois lados da história. A parte que é sobre basquete... E a parte que não é sobre basquete.

A parte que é sobre basquete tem nome e sobrenome. Ainda que ele seja apenas a ponta do iceberg, foi ele quem permitiu que o resto todo aparecesse: Avery Bradley. Bradley foi draftado ano passado como um armador defensivo, mas ganhou poucas chances. Quando ganhou, foi como reserva do Rondo, e sua dificuldade pra controlar a bola e fazer passes acabou fazendo com que ele fosse pouco aproveitado apesar de ser excelente defensor. Mas com a lesão de Ray Allen, Bradley acabou entrando numa posição que eu já tinha cantado para meu amigo Zeca que era a melhor pra ele: Shooting Guard. Apesar da dificuldade nos arremessos - o que nos daria um backcourt que naão arremessa - Bradley se livraria da responsabilidade de armar o jogo e poderia se concentrar na sua defesa, que era excepcional. Ainda que ele não tenha tido muitas chances como SG antes, com a lesão do Allen e o Sasha Pavlovic como alternativa, o Bradley acabou entrando de titular na posição 2, enquanto Garnett continuava jogando de pivô com o Brandon Bass do seu lado. 

O resultado foi que o Avery Bradley trouxe TUDO que o Celtics precisava. Primeiro, o Bradley é um dos melhores defensores de perimetro em TODA a NBA. Ele não só sabe marcar no mano a mano como sabe marcar na cobertura, protege o garrafão com sua habilidade atleética (Como o Wade aprendeu a duras penas) e é muito agressivo nas linhas de passe, forçando uma cacetada de turnovers, que geram contra ataques para o Rondo. Alias, lembra como o Rondo costumava puxar excelentes contra ataques... se não fosse pelo fato de que ninguém no time tinha o fôlego e o atleticismo mais (bando de velhotes) para acompanhá-lo, o que forçava o Rondo a puxar todos os contra ataques praticamente sozinho? Agora ele ganhou um jogador jovem, atlético e que finaliza muito bem perto do aro pra puxar contra ataques com ele. Isso melhorou em muito a eficiencia ofensiva do Celtics: Nao so o time força mais turnovers como esses turnovers são melhores aproveitados agora que o Rondo tem companhia. 

A defesa do Bradley, portanto, era esperada. O que ninguém esperava era o impacto que ele teria no lado ofensivo. O Bradley não é um grande driblador ou passador - um dos motivos pelos quais ele não rendia de PG - então ele não fica com a bola na mão tanto quanto o Rondo. No entanto, o Bradley é um jogador extremamente agressivo cortando em direção à cesta e que finaliza muito bem perto dela. Como o KG, mesmo de pivô, prefere jogar mais longe da cesta pra poupar seu físico, o Celtics não tinha jogadores que criassem pressão perto da cesta (Bass também prefere receber a bola mais longe ou em velocidade), o que forçava o Pierce a jogar lá perto. Com o Bradley jogando o tempo todo perto da cesta, o Celtics começou a criar essa pressão la perto, e permitiu que Garnett voltasse a ser um monstro do pick and pop e que o Pierce jogasse mais no perímetro e se movimentasse mais sem a bola. O Bradley não é um monstro ofensivo como o Wade, por exemplo, mas sua presença trouxe uma dimensão nova ao ataque do Celtics, e ajudado pela espetacular fase do Rondo todo o time se encaixou em torno disso. Pierce voltou a se movimentar com liberdade, Garnett ta tendo uma fase espetacular mais longe da cesta, e até o Ray Allen disse que jogaria vindo do banco para não desmontar o funcionamento do time (lembra aquela parte de deixar de lado a individualidade em nome do time?). Se você não acha que o Bradley - o principal responsável por essa mudança no Celtics - é um bom jogador de basquete, você não assiste NBA.

Claro que o Bradley teve uma grande influência por causa da forma como seu estilo de jogo casou perfeitamente com o grupo do Celtics, mas ele foi apenas o catalizador. Nada adiantaria isso se o resto do time não se adaptasse ao redor dele, no que tem uma grande mão do Doc Rivers. Eu nunca achei o Rivers um grande técnico, em 2008 ele era um cara extremamente medíocre, mas ele tem melhorado de ano pra ano, e agora pra mim ele disputa o  Coach of the Year com o Gregg Popovich, ele tem trabalhado absurdamente bem com esse elenco, soube remontar o time a cada problema e percebeu a importância do Bradley pra esse elenco. Confiou no Rondo (como o Bradley não é um bom criador, esse novo estilo de jogo coloca ainda mais pressão no Rondo pra controlar cada movimento do ataque do Celtics. Eu diria que, depois de 18 jogos seguidos com pelo menos 10 assistências, a sua boa fase é um fator importantíssimo para o sucesso dessa equipe), tornou a unir o time, definiu uma rotação (colocar Allen vindo do banco foi uma excelente leitura da situação, e não seria qualquer tecnico que o faria) e confiou nos seus jogadores para desenvolver novamente sua identidade. E ela esta lá. A grande fase de Pierce e Garnett tem a ver com as mudanças no estilo de ataque do Celtics, mas de nada adiantaria se eles não estivessem calibrados e jogando com intensidade - e eles estão. 

Essas foram as principais mudanças dentro de quadra que o Celtics sofreu, especialmente desde a inclusão do Bradley: Defesa mais forte no perímetro (Rondo e Bradley sao provavelmente a melhor dupla defensiva de perimetro da Liga), mais roubos de bola e contra ataques, um ataque que ocupa melhor os espaços na quadra (especialmente porque recentemente o Bradley deu pra acertar arremessos também!) e a boa fase de seus jogadores. Mas uma grande parte do sucesso da equipe vem da parte fora de quadra. A energia, defesa e intensidade do Bradley, tudo isso trouxe ao Celtics o espírito guerreiro que a equipe perdeu com a saída do Perkins.

O Bradley nunca sera o teammate que o Perkins era, mas ele trouxe de volta alguns elementos que o Perkins trazia e que o time murchou quando pararam de aparecer toda a noite. Por mais importante que fosse o Perkins pra chemestry do time, ele era apenas um jogador no meio de um time. O que o Bradley trouxe fez com que os jogadores recuperassem a sua parte dessa intensidade e energia. Ela contagiou o time, e cada jogador começou a jogar com a mesma intensidade e energia que pareciam ter perdido em algum lugar do ano passado - na trade deadline. O Celtics recuperou sua identidade, o time se uniu novamente (os titulares do time comemoram do banco como se fossem cestas da vitória qualquer boa jogada que os reservas fazem num jogo ganho por 30), começou a jogar com energia e intensidade... E basicamente foi isso que ressuscitou o Garnett. O Garnett sempre foi um cara de grande intensidade e vontade quando jogava no Wolves (e mesmo no Celtics), ele jogava como se sua vida dependesse disso, e isso sempre foi uma fonte de energia e vontade pros seus companheiros. Quando ele perdeu seu parceiro no Perkins, ele pareceu pela primeira vez sem essa energia. A energia que o Bradley trouxe pro time reacendeu a energia do Garnett, e quando o Garnett começa a jogar com sangue nos olhos o Celtics é um time totalmente diferente, muito mais agressivo. A defesa do Celtics, que está em niveis estatisticamente historicos desde o All Star Break, se torna uma força da natureza capaz de engolir qualquer time com farinha, e quando Pierce e Garnett estão calibrados (sabe, como tem estado faz uns 20 dias) o ataque do Celtics funciona como uma máquina em torno do Rondo. Eles ressuscitaram o cara mais problemático (no bom sentido) e essencial na equipe, e a intensidade de Bradley e Garnett, juntos, é o que manteve esse time com sangue nos olhos até o final e causou boa parte dessa mudança de postura. Que levou à reviravolta na temporada dos verdinhos.

Mas também teve um outro fator externo que contribuiu pro time ficar mais focado do que nunca. O fato que me chama a atenção não foi de que o Celtics começou a jogar de forma alucinada depois do All Star Game... E sim depois da Trade Deadline. Com tantos boatos de troca rondando o time do Celtics, tanto Rondo como o Big Three, não era de se espantar que eles estivessem desconcentrados com o rumo das coisas. Lembram de como o Russell Westbrook estava jogando mal, nervoso, e de repente ganhou uma extensão de 80 milhōes, relaxou e começou a jogar que nem um retardado mental metendo 30 pontos todo jogo na cara das pessoas? A extensão deu ao Westbrook a confiança e a segurança que lhe faltavam em meio a tantas criticas, e ai seu jogo apareceu. O mesmo aconteceu com o Celtics. Quando ficou oficial que o Big Three nao iria a lugar nenhum, os jogadores pareceram jogar com um foco muito maior, com mais vontade, como se tivessem entendido qual sua função na temporada. Isso pareceu tirar um peso dos jogadores, que conseguiram jogar com mais confiança e liberdade.

Então temos dois tipos de impactos que se mostraram nessa incrível recuperação do Celtics, um impacto objetivo e um subjetivo. Essa recuperação do Celtics pode se dar por um deles, provavelmente pelos dois, ou até por nenhum. Mas o fato é que o Celtics finalmente se achou na temporada. Taticamente o time esta mais organizado, com um estilo que se adaptou muito bem às caracteristicas do time, e voltou a jogar com aquela intensidade contagiante. As vezes, o que importa não é como um jogador (ou qualquer fator num jogo) afeta o jogo em si, e sim como ele afeta seus companheiros. Jogadores como Bill Russell e Larry Bird eram tão bons porque faziam os companheiros ao seu redor chegarem a niveis mais altos. Times como o Celtics de 86, o Bulls de 96 ou o Lakers de 87 faziam isso coletivamente. O time todo do Celtics de 2012 está fazendo isso, cada jogador se alimentando da energia e da vontade do outro, cada jogador apoiando os companheiros. O time todo está jogando com vontade e com confiança, jogadores como Greg Stiemsma estão sendo muito valiosos (19 mpg, 2 bpg, acertando arremessos de meia distancia (!!), bom defensor, briga dentro do garrafão, joga com intensidade, tudo que um pivô reserva deve fazer), e todos os jogadores sabem seu papel no time. O time titular esta definido (Rondo, Bradley, Pierce, Bass, KG) e os reservas (Stiemsma, Michael Pietrus assim que voltar de lesão, Sasha Pavlovic e, claro, Ray Allen) sabem quais são seus minutos e suas responsabilidades... Ou seja, é um time que se encaixou, arrumou uma identidade e está executando seu plano de jogo com perfeição. Demorou um ano pro Celtics recuperar sua identidade perdida com o Perkins, sua intensidade e confiança, mas isso está acontecendo agora, e no melhor momento possível na temporada. Isso significa que o Celtics será campeão? Não. Isso torna o Celtics um candidato ao título com Derrick Rose batalhando lesōes e um Heat que as vezes parece perdido em quadra? Sem dúvida. Não há certezas nos playoffs, especialmente nessa temporada. Só garantoo seguinte: nenhum time com juizo perfeito quer enfrentar esse time do Celtics nos playoffs.

domingo, 8 de maio de 2011

Intimidação vence jogos

A jogada que garantiu a vitória do Celtics no jogo 3

Pegando emprestada uma das frases clássicas do meu personagem preferido de todos os tempos em qualquer mídia pra ilustrar o jogo três de ontem entre Boston e Miami. Tudo bem, a frase do Hiruma é sobre futebol americano, mas para o Boston Celtics, ela serve - e muito - para basquete.

Para quem perdeu, ontem, faltando sete minutos no terceiro quarto, Rajon Rondo e Dwyane Wade se engancharam e cairam no chão. Rondo, tentando aparar a queda, acabou deslocando seu cotovelo (veja a foto que ilustra o post) em uma imagem realmente assustadora. Rondo saiu de quadra, o próprio Doc Rivers achou que ele não voltava mais, e o Boston jogou com sangue nos olhos pelo seu armador. Mas o que realmente selou a vitória do Boston foi, ao final do quarto, olhar para o canto do ginásio e ver o mesmo Rajon Rondo voltando do vestiário, o cotovelo enfaixado e pronto para jogar. O ginásio pegou fogo, o time do Boston pegou fogo, e a pergunta estampada no rosto de cada jogador do Miami Heat era clara: O que diabos está acontecendo aqui?? Esse cara não tinha perdido um cotovelo??

Falar que a vitória do Boston aconteceu apenas por causa desse retorno a lá Willis Reed é um exagero enorme. Apesar de um primeiro tempo duvidoso, no qual o Boston foi massacrado pelo grande Joel Anthony no garrafão, o Boston jogou com outra postura. Foi agressivo na defesa, congestionou o caminho de Wade e Lebron James até o aro e forçou o Heat a jogar mais do perímetro (Pelo menos até o Anthony pegar um rebote ofensivo). Paul Pierce e Kevin Garnett vieram pro jogo muito mais ligados do que tinham jogado na pós temporada até aqui, Pierce marcou 10 dos primeiros 14 pontos do time no jogo e Garnett teve um jogo digno dos seus melhores anos na Liga, com 28 pontos e 18 rebotes, o que foi fundamental. Eu falei muitas vezes que o Boston ganhou do Heat três vezes porque dominou o garrafão com Shaq e Kendrick Perkins. Como Perkins está em Oklahoma e Shaq - já vamos falar dele - estava machucado, o Garnett precisaria dominar seu duelo com Chris Bosh de forma a compensar a falta de um pivô enorme e trazer novamente a vantagem do garrafão pro seu time. E o Bosh não conseguiu jogar o jogo todo ontem, Garnett comeu ele com chilli, e se o garrafão do Boston não conseguiu dominar o primeiro tempo foi por causa do Joel Anthony.

E por falar em garrafão, eu insisti aqui 300 vezes que a chave para o Celtics virar a série era a volta do Shaq, recuperado da lesão, para aumentar a altura e a força do garrafão do Boston, impedir os pontos fáceis perto da cesta e dominar o garrafão no ataque. E o Shaq realmente voltou, mas ficou muito claro que ele nunca se recuperou da lesão. A entrada do Shaq foi um movimento desesperado de um time desesperado, o Shaq entrou em campo mancando, claramente sentindo, incapaz de jogar 25 minutos que fossem em alto nível, como fez em boa parte da temporada regular. O Shaq recuperado de lesão, jogando 25-30 minutos por jogo, era a chave para o Boston avançar. O Shaq machucado, no sacrifício, jogando menos de 10 minutos por jogo, não vai fazer milagre. O que não quer dizer, também, que ele não vá ajudar o Boston. Mesmo no sacrifício, o Shaq teve um impacto positivo no time do Celtics: A defesa de perímetro ficou mais agressiva sabendo que tinha uma parede no garrafão. Os jogadores do Miami pensavam duas vezes antes de infiltrar. E o Boston ganhou uma presensa de garrafão que não precisa fazer 25 pontos pra se fazer sentida, com apenas uma ou duas cestas, bom posicionamento e bons passes,  ele já fez mais do que o Boston esperava e teve um papel ativo no jogo, mesmo que mais pelo que ele representa do que pelo que ele fez.

Mas não da pra negar que, no final do terceiro período, pronto pra entrar com uma vantagem considerável no quarto período - o que causou muitas dores de cabeça aos torcedores celtas ao longo do ano, inclusive contra o Knicks - a volta do Rajon Rondo, sem um cotovelo, foi o que terminou de definir a partida. Para lembrar de outro momento parecido, temos que voltar ao jogo 1 das Finais de 2008, quando em Boston, contra um time do Lakers que estava endurecendo - e muito - a partida, o Pierce fez a sua famosa e polêmica saida do ginásio em cadeiras de rodas depois de uma queda feia, para voltar à quadra algum tempo depois, levantando o ginásio, acertando duas bolas de três e iniciando uma sequência incrível do Boston que terminou numa vitória. Tudo bem, foi mais um teatro do que uma lesão séria de verdade, mas a volta do seu capitão mudou totalmente o ritmo do Boston na partida, impulsionado por uma torcida pegando fogo.

A lesão do Rondo ontem foi mais séria que a do Pierce, mas teve um efeito parecido e, ao mesmo tempo, diferente. A volta do Rondo fez com a torcida o que a volta do Pierce fez três anos atrás, e o time se energizou da mesma forma que fez em 2008. Mas a volta do Rondo não teve um impacto só nos seus colegas, também teve no Heat. Lembrando mais um momento clássico do grande Hiruma, a volta de um Rondo praticamente sem um braço, entrando em quadra depois de todos acreditarem que ele não tinha mais condições de jogo quem sabe por quanto tempo, não só deu novo ânimo aos seus colegas como abalou psicologicamente os adversários. O Miami Heat não ficou confortável durante todo o quarto período com o Rondo por lá, eles não sabiam como deveriam tratá-lo, como ele iria jogar, o que ele seria capaz de fazer, e isso abriu o caminho pro Boston não só garantir a vitória como garantí-la de forma definitiva, deixando claro que o time ainda tem gás para bater de frente com Miami. Não foram só os quatro pontos, uma assistência, um rebote e um roubo de bola do Rondo no quarto período que fizeram a diferença, foi tudo que ele significou para ambos os times ao fazer seu dramático retorno que definiu a partida no quarto período.

Agora, depois de uma vitória convincente na qual o Heat ficou claramente abalado, o Boston tem que se preocupar. É incerto o quanto dessas performances o Pierce e o Garnett vão ser capazes de repetir no jogo quatro, onde principalmente o Garnett vai ter que se impor no garrafão como fez nessa partida para anular o Chris Bosh e manter os jogadores de Miami afastados do aro. A volta do Shaq - baleado, machucado, no sacrifício, por 10 minutos - da um certo alívio pro Boston, ele jogando assim já torna o garrafão do Boston bem melhor do que o Glen Davis ou o Nenad Krstic, mas eles também tem que ver como o Rondo vai ser capaz de jogar daqui pra frente. Ele é durão o suficiente pra jogar os próximos jogos, mas tem que ver o quanto da sua capacidade de armação vai ser comprometida pelo seu braço esquerdo depois de só 48h de descanso. Se ele conseguir entrar, dar assistências, incomodar qualquer marcador e fazer seu time funcionar como ele sempre faz, o Miami pode se encontrar na mesma situação de ontem - abalado, tentando entender o que estava acontecendo e vendo um time totalmente diferente do Boston dominar o jogo. Ele é, mais do que ninguém, a chave para ganhar o jogo 4 e equilibrar novamente a série.