Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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sexta-feira, 7 de abril de 2017

8 motivos para se animar com a temporada 2017 da MLB




Como você talvez tenha ouvido recentemente, o TM Warning está de volta!

E para meu primeiro post de retorno, eu estava em dúvida se iria fazer um de MLB ou de NBA. Acabei decidindo por MLB por um simples motivo: eu já tenho TRÊS colunas gigantes de NBA prontas para as próximas semanas, e como a MLB começou no último domingo, me parece justo falar um pouco de baseball antes de entrarmos nos playoffs da NBA - época que o basquete vai dominar por aqui.

Então com a temporada ainda cedo demais para tirar conclusões ou fazer qualquer tipo de análise, vamos fazer o contrário: passar rapidamente por alguns pontos de interesse da temporada, e que você pode usar para acompanhar a MLB ao longo do ano. São 162 jogos de temporada, e histórias é o que não vai faltar.

E se você é um leitor antigo que está com saudade dos textos enormes e analíticos, e está decepcionado e/ou preocupado que esse texto foge um pouco desse padrão, não se preocupe: minha ideia nesse começo de retorno é experimentar com formatos e periodicidades diferentes, e para ter semanas com textos gigantes talvez tenhamos que ter semanas com formatos mais curtos e rápidos. Ainda vamos ver. Mas só digo o seguinte: textos gigantes estão vindo por ai.

Então sem mais delongas...

8 Motivos para se animar com a temporada 2017 da MLB


1. A melhor cobertura da MLB

O baseball tem crescido cada vez mais no Brasil, e cada ano parece que a cobertura da Major League Baseball por aqui atinge um novo nível. O que não é de se surpreender: cada vez mais interessados surgem, e é natural que o nível de cobertura vá aumentando conforme mais pessoas e empresas buscam alcançar esse ritmo de crescimento. Nos últimos anos tivemos cada vez mais transmissões televisivas, livros publicados (inclusive o meu favorito, Moneyball), mais blogs e sites especializados, e uma qualidade cada vez maior por parte do público.

Esse ano não é exceção. Para começar, tem algo inédito aqui no Brasil, um trabalho único e extremamente extensivo: estou falando, claro, do Guia da Temporada 2017 da MLB, projeto em formato de e-book que eu lancei junto do Vinicius Veiga, do Casa do Beisebol, e do Erlan Valverde, do Segunda Base. É um guia de mais de 200 páginas que tem tudo que você pode querer saber sobre a temporada 2017, e mais: tem um preview de cada um dos 30 times da MLB, resumo da temporada 2016, textos contando a história do esporte, e muito mais. O livro é um excelente companheiro para se ter ao longo dessa temporada, disponível na Amazon em formato e-book por 19,99.

Além disso, temos hoje muitos blogs de alta qualidade. Eu já citei dois hoje, que são os meus favoritos: o ótimo Segunda Base, tradicional já no mercado, e o novo (mas com experiência de sobra) Casa do Beisebol, ambos com muita qualidade e um acompanhamento excelente para a temporada. Mas não são os únicos: tem vários outros sites e blogs bons, e muitos outros perfis nas redes sociais dedicados a seguir uma liga, um time e até mesmo um bom jogador. Não importa qual seja seu estilo ou sua preferência, seu time ou seu gosto, você vai achar alguma cobertura que se encaixe com o que procura.

E se você está chegando agora e quer conhecer mais, e saber como acompanhar o esporte, não tem problema. Deixo aqui dois textos que vão te ajudar não só a entender as regras e o funcionamento de uma partida, mas também a entender as estatísticas usadas no esporte, e vai te dar uma introdução a esse mundo extremamente interessante das estatísticas avançadas:

Entendendo o jogo de baseball - Um detalhamento para quem está chegando agora e quer entender não só as regras, mas como é o funcionamento de um jogo de baseball;

Baseball e as estatísticas - Um passo a passo explicando a origem e o funcionamento das principais estatísticas avançadas que você encontra disponíveis no baseball hoje

Aproveitem, porque é um momento muito bom para ser fã desse esporte no Brasil.


2. A explosão ofensiva

Se você gosta de bons ataques, jogos com placares altos e muitos Home Runs, ninguém vai te julgar. É muito normal -  a própria MLB sabe desde sempre que nada atrai mais fãs e mais audiência do que placares altos e jogos movimentados.

E se for o caso, eu tenho boas notícias para você.

A verdade é que os ataques da MLB foram minguando aos poucos desde que tiveram seu auge histórico na famosa Era dos Esteroides, no final dos anos 90/começo dos anos 2000, época um tanto quanto controversa na qual a MLB deu seus jeitinhos para facilitar o uso de PEDs pelos seus jogadores, o que resultou em uma geração de jogadores extremamente musculosos e longevos que rebatiam 50 HRs por ano. Com o passar do tempo, o antidoping da MLB foi ficando mais sério, o jogo começou a dar um ênfase maior em defesa e arremessos, e aos poucos as pontuações dos jogos foram caindo cada vez mais, enfim atingindo seu ponto mais baixo em 2014, a 8.13 corridas por jogo.

Até que algo interessante aconteceu. Veja o gráfico abaixo, que mostra a evolução de corridas por jogo nos últimos 11 anos...



Começando em 2015 e dando um salto ainda maior em 2016, os ataques começaram a voltar. E quer saber o principal motivo por trás dessa reviravolta?



É isso mesmo que você viu: não só os HRs da MLB voltaram a aumentar, mas eles atingiram em 2016 um nível ainda superior a 2000, o auge absoluto da Era dos Esteróides. Em 2016 foram rebatidos mais Home Runs do que em qualquer outro momento da história do esporte, eles ajudaram a impulsionar essa retomada dos ataques explosivos na MLB.

Tem alguns motivos para isso ter acontecido, e eu espero com o tempo começar a mostrar a vocês quais são eles. Mas por enquanto, basta dizer o seguinte: os ataques estão voltando com muita força, e vai ser muito interessante ver se essa tendência continua em 2017.


3. Uma nova geração

Ao final da temporada 2016, uma tendência engraçada, que já vinha se desenhando nos últimos anos, parecia se consolidar de uma vez por todas. O AL MVP foi Mike Trout (mais daqui a pouco), de apenas 25 anos, e o NL MVP foi Kris Bryant, de 24. Entre os finalistas de ambos os prêmios, também tivemos Mookie Betts, de 23 anos, terminando em segundo na AL, e Corey Seager, de 22, terminando em terceiro na NL. Manny Machado, de 24 anos, e Nolan Arenado, de 25, foram os quintos colocados.

Entre os arremessadores, dois dos três melhores da NL em 2016 (e os dois líderes em fWAR) foram jovens de 24 anos, Noah Syndergaard e o falecido Jose Fernandez. O líder da AL em ERA foi Aaron Sanchez, também com 24 anos.

A verdade é que a MLB está vendo um movimento sem precedentes na sua história na direção de grandes talentos e estrelas cada vez mais jovens. Os jogadores parecem estar chegando cada vez mais preparados e avançados das ligas menores e até do Draft, e os times estão parecendo perceber isso cada vez mais. Veja o gráfico abaixo:




O motivo é difícil de precisar exatamente: a redução contínua do uso de PEDs reduziu o número de jogadores mais velhos sobrevivendo de doping; o avanço das estatísticas avançadas tornou mais fácil identificar (e de forma mais confiável) jovens talentos no Draft e nas categorias de base; um melhor aproveitamento desses talentos (até em termos físicos) com métodos cada vez mais modernos de condicionamento, desenvolvimento físico e medicina esportiva; o influxo cada vez maior de jogadores estrangeiros; e por que não, talvez até mesmo uma geração excepcionalmente talentosa de novos jogadores.

E esse influxo também tem efeitos muitos positivos sobre a competitividade da liga: não só temos mais bons jogadores, como isso significa que é mais fácil e mais rápido para um time se reconstruir, e isso também tem aumentado a variância das performances dos times ao longo da temporada, tornando a liga ainda mais competitiva. Entre isso, um aumento no nível de jogo, e a chegada de cada vez mais estrelas carismáticas, o efeito é dos mais positivos para quem acompanha o esporte.


4. Mike Trout

Qualquer esporte, em qualquer época, vai ter seus grandes talentos - jogadores que entrarão para a história do esporte. Recordistas, Hall of Famers, ou simplesmente jogadores extremamente memoráveis. O baseball não é exceção, e sempre é importante valorizar aquilo que temos enquanto podemos.

Mike Trout, no entanto, vai um passo além. Em parte por não ser um jogador midiático, e em parte por jogar em um time horrível, mas Trout não recebe o valor que merece. Esqueça ser o melhor jogador do baseball na atualidade, o que Trout é desde sua primeira temporada completa nas grandes ligas em 2012: o CF do Angels talvez seja o melhor jogador de todos os tempos.

Não acredita em mim? Mas a verdade é que nenhum jogador com a idade de Trout nunca foi tão bom quanto ele na história do esporte. Em 5 temporadas, esses são os números de Mike Trout na carreira: 168 wRC+, e 47.7 fWAR. O único outro jogador em 120 anos de história do baseball que conseguiu atingir essas marcas aos 24 anos foi... ninguém! Nunca aconteceu! O que ele está fazendo é sem precedentes na história do esporte.

Um outro exemplo, cortesia de um dos meus autores favoritos, o grande Jonah Keri, em sua fantástica coluna anual sobre os 50 jogadores mais valiosos da MLB:



Essa é uma comparação entre os primeiros anos completos da carreira de Mike Trout com os cinco primeiros anos da carreira do lendário Willie Mays. Em outras palavras, nos seus cinco primeiros anos, Mike Trout tem sido praticamente igual a Mays, que é amplamente considerado um dos 3 melhores rebatedores da história do esporte... e Trout é TRÊS ANOS mais novo do que Mays era, jogando em uma época muito mais competitiva.

Então você pode discordar da minha afirmação sobre Trout ser talvez o melhor jogador da história da MLB, mas não deixe isso fechar seus olhos para o que ele está fazendo, e para a história sendo escrita diante dos seus olhos. Aproveite enquanto pode esse jogador que, na sua curta história na MLB, não está devendo nada para as maiores lendas desse esporte. Não é sempre que temos a chance de ver algo assim. E considerando que jogadores da MLB normalmente tem seu auge em torno dos 27 anos, é muito provável que ainda não vimos o melhor de Mike Trout.


5. O possível surgimento de uma nova dinastia

O Jogo 7 da World Series de 2016 não foi só um dos maiores jogos da história desse esporte, e o final perfeito para uma das suas melhores World Series. Foi também a coroação de uma temporada fantástica do Chicago Cubs, que já tinha dado mostras de se tornar uma potência em 2015, mas deu um salto ainda maior em 2016. Foram 103 vitórias, disparado a maior marca da temporada, e com uma mistura impressionante: segundo melhor ataque da liga, a quarta melhor rotação, e uma defesa que não só foi a melhor da MLB como foi uma das melhores da história do esporte. Embora isso nem sempre aconteça - na verdade, é mais exceção do que regra - a verdade é que a World Series de 2016 coroou aquele que realmente era o melhor time.

E o que é realmente assustador é que esse time do Cubs, além de excelente e dominante, ainda é extremamente jovem. Seu MVP, Kris Bryant, tem 24 anos. Anthony Rizzo, sua segunda estrela, tem 27. Seu campo interno é complementado pelos muito promissores Javier Baez, de 24 anos, e Addison Russell, de 23. Kyle Schwarber, que perdeu o ano de 2016 quase inteiro mas é um excelente rebatedor, e Willson Contreras, possível catcher do futuro, tem 24. O time até mesmo conta com uma ótima categoria de base apesar de todas as promoções, liderado por Ian Happ. É um excesso gigante de jogadores jovens, ao ponto de que o Cubs está até tendo problemas para colocar todos esses jovens talentos em campo ao mesmo tempo.

Em outras palavras, não é só que o Cubs tenha conseguido ser bom durante um ano, mas eles também fizeram isso com um elenco jovem e que ainda jogará junto por um bom tempo. Muitos times são campeões e depois se desmancham com saídas, ou veem seus principais nomes decaírem com a idade, mas Chicago ainda possui a grande maioria desses jovens jogadores sob contrato por mais bons anos, e dada a pouca idade desse núcleo o mais provável é que eles ainda MELHOREM com a idade antes de decair. E se Chicago conseguir usar esse excesso (positivo) de jovens talentos para cobrir as áreas que não são tão jovens do seu time (rotação, principalmente), com a manutenção e evolução esperada desse núcleo, podemos não estar apenas olhando para um campeão em uma temporada histórica, mas por uma nova dinastia na MLB.


6. O ótimo estado das franquias do esporte

Se você acompanha a NBA, você sabe que a liga tem muitas franquias que estão em uma situação muito ruim. Times que não tem bons talentos para o presente, mas também não tem muita perspectiva de melhora com jovens talentos, complementados por uma diretoria de competência questionável - times como Orlando, Nets ou Kings, por exemplo. Na NFL também temos essas franquias que são quase uma piada, como o 49ers ou o Jets. Não são apenas times ruins, mas franquias que parecem presas à estaca zero.

Mas, interessantemente, na MLB isso parece estar em um bom momento. Você sempre, em qualquer liga, vai ter times bons e times ruins, mas os times ruins da MLB não parecem estar tão presos e sem perspectiva como os da NBA ou NFL. Os piores times da liga - como Philadelphia, San Diego, Atlanta, Brewers e White Sox - são aqueles que possuem alguns dos melhores sistemas de base da MLB, e portanto estão no começo de uma reconstrução mas já com boas perspectivas de sucesso - não são times presos e sem futuro.

Os piores times nesse sentido são aqueles que estão presos na mediocridade, como Los Angeles Angels ou Arizona Diamondbacks, times que estão presos no meio da tabela sem perspectiva de melhora, mas mesmo esses não são times horríveis: são times com superestrelas e bons jogadores que com um pouco de sorte podem sonhar com uma vaga nos playoffs. Não é que TODOS os times da liga estejam bem ou em uma boa trajetória, mas nenhum parece ser um modelo de estagnação no fundo do poço, uma piada recorrente para quem acompanha o esporte.

Existe mais de um motivo para isso: o maior sucesso de jogadores jovens (ponto 3) ajuda muito times em reconstrução, pois torna mais seguro e mais valioso os jovens prospectos; uma nova leva de executivos mais analíticos e menos presos às tradições levou a uma melhora no nível coletivo das diretorias ao redor da liga; e talvez pela estrutura financeira nova da MLB times estão com menos medo de aceitar engolir derrotas por alguns anos enquanto acumula prospectos e prepara uma reconstrução. Qualquer que seja o motivo, é um bom sinal para a Major League Baseball e para suas perspectivas de médio prazo.


7. Um esporte com cada vez mais emoção

Baseball é um esporte que tem uma das tradições mais estúpidas da história dos esportes: a ideia de que mostrar algum tipo de emoção dentro de campo é um insulto ao esporte e à sua história. Eu acho que a ideia de que você não pode se divertir jogando o esporte que gosta é uma das coisas mais contraditórias possíveis, já que esporte é para ser divertido, mas é como o baseball viveu por muitos anos. Se algum jogador parasse tempo demais para admirar um Home Run, ou comemorasse de maneira "imprópria" uma jogada, os adversários logo começavam uma briga ou o arremessador adversário jogaria uma bola nele.

Esse tipo de tradição foi perpetuada em parte porque o baseball sempre foi e se orgulhou de ser (muitas vezes, em detrimento próprio) um esporte "separado" dos fãs, onde as pessoas "de dentro" conheciam como o jogo era e se viam como responsáveis por mantê-lo puro - quem leu ou assistiu Moneyball sabe do que estou falando. Como ele era feito é a forma que DEVIA ser feito, ou pelo menos era como seguia o raciocínio.

Felizmente já faz algum tempo que isso começou a mudar. Embora o esporte ainda esteja apenas começando a dar seus passos para eliminar esse tipo de coisa, já é notável a evolução, e até mesmo a própria MLB parece estar empenhada em deixar o jogo mais relaxado e divertido nesse sentido, ficando cada vez mais estrita e sem medo de dar punições a jogadores que começam brigas ou desentendimentos. Isso também foi bastante ajudado por uma nova geração que chegou no baseball, tanto de jogadores (cada vez mais jovens, como já foi dito) como de dirigentes, que não carregam em si esse "compromisso" de manter o jogo "puro" - especialmente se puro significar "sem diversão".

E talvez o principal fator que começou a mudar o esporte foi o influxo cada vez maior de jogadores latinos. A tradição de não permitir emoções ou manifestações pessoais dentro de campo sempre foi uma tradição norte-americana (muitas vezes dos jogadores mais... como dizer isso de forma delicada? Brancos), mas os jogadores recém-chegados da América Latina não tiveram esse tipo de formação. Para eles, o esporte é uma diversão, e é assim que se comportam - fazendo jogadas imprevisíveis e criativas, mostrando suas emoções, gritando e comemorando, e em geral se tornando jogadores muito mais relacionáveis para os torcedores comuns.

O jogador que melhor simbolizava isso, infelizmente, era José Fernandez, o arremessador do Miami Marlins morto ano passado, e um dos meus heróis no esporte. Um refugiado cubano que chegou a estar preso e teve que mergulhar em alto mar para salvar a vida da própria mãe, Fernandez foi até hoje o jogador que mais pareceu se divertir em um campo de baseball que eu já vi na vida, alguém que tinha uma animação e um entusiasmos tão genuínos e sinceros por estar livre e podendo jogar baseball  que era impossível não ficar contagiado.

Fernandez comemorava suas boas jogadas, ria dos seus lances mais incríveis, ria e vibrava quando seus ADVERSÁRIOS faziam uma jogada empolgante, e comemorava Home Runs como se tivesse acabado de ganhar uma World Series, e não ligava para o que os outros pensassem. Fernandez era uma bola de alegria e empolgação que fazia o esporte valer muito mais a pena, e tão genuíno que isso contagiava colegas e adversários igualmente - inclusive muitos que, em outros momentos da carreira, teriam sido os que iriam tirar satisfação com alguém que mostrasse tanta emoção em campo. Fernandez pode ter partido de forma trágica e prematura, mas mais do que o talento fantástico, mais do que os arremessos impossíveis, essa alegria sempre será seu legado para o esporte, para fãs, colegas, técnicos e cartolas.

E isso só faz bem para o esporte. Embora sempre tenha aquela parcela conservadora da torcida que ache isso um absurdo e uma quebra do "decoro" do esporte, existe uma parte muito maior que sabe o quão isso é bom para injetar nova vida em um esporte que parecia "morto" em muitos momentos dos últimos 20 anos. Hoje jogadores estão começando a poder se expressar e se divertir muito mais em quadra, e os torcedores e fãs podem se identificar muito mais com esses seres humanos do que com as máquinas de rebater que o baseball queria vender. A transformação e "libertação" ainda não está completa, claro, e ainda terá seus percalços. Mas ela está fazendo o baseball caminhar em uma direção muito melhor do que antes.


8. Baseball é um esporte muito divertido

Sim, sim, eu sei - o baseball ainda enfrenta bastante preconceito por pessoas que o consideram um esporte "chato", E eu entendo alguns dos motivos: é um esporte lento, onde cada confronto demora vários arremessos, tem muitas pausas nas trocas de entrada ou arremessador, e costuma demorar mais de duas horas. As principais reclamações vem da falta de dinamismo nas partidas, com um jogo que evolui lentamente, e os lances mais empolgantes são muito mais pontuais.

Mas esse ritmo lento, esse jogo que vai parando mesmo durante um confronto, é parte do que torna o baseball tão legal: como ele é um jogo que se desdobra lentamente, isso significa também que é o jogo mais fácil para quem assiste acompanhar o que está acontecendo. E não digo isso no sentido de "tem mais tempo para ir no banheiro", mas sim que essa cadência nos permite acompanhar melhor o que cada jogador está pensando, como está se ajustando, a cada momento. Baseball as vezes funciona como um jogo de probabilidades: com a contagem 0-2, o arremessador é mais provável de lançar uma bola fora da zona de strike para induzir o rebatedor (que por sua vez precisa proteger a zona de strike e não sofrer o strikeout) a ir para uma rebatida ruim... mas o rebatedor também sabe disso. Qual a melhor forma de atacar? Como o rebatedor pode se defender?

O jogo de baseball é composto de milhares de pequenos fatores que mudam essas probabilidades em uma direção ou outra, e ver isso se desdobrando ao longo do jogo é um dos fatores mais legais do esporte: para um arremessador, é importante não cair em um padrão (e se tornar previsível), então ele precisa . E o ritmo lento e candenciado do esporte nos permite acompanhar essas mudanças, acompanhar os desenvolvimentos em tempo real, e nos imergir realmente não só no que está acontecendo, mas no que está por trás do que está acontecendo.. E não é como se o esporte tivesse falta de jogadas atléticas ou impressionantes - é só procurar qualquer vídeo de highlights do Andrelton Simmons, Mike Trout ou Kevin Kiermeyer no YouTube - e essa mistura entre os dois momentos do esporte, o lento e cadenciado com o explosivo e dinâmico, é o que torna o esporte tão atraente.

Além disso, a natureza individual e repetitiva do esporte tem uma outra vantagem: produz as melhores estatísticas. A natureza extremamente individual do baseblal - o confronto entre arremessador e rebatedor, cada jogada sendo isolada em si mesma, etc - é perfeita para isolar cada fator do jogo e consolidar isso em números e análises, e não só a amostra é gigantesca (162 jogos) como pela natureza de repetição do baseball você vê cada situação específica um alto número de vezes, o que te da uma amostra grande o suficiente para tornar as estatísticas significativas, como também consegue quebrá-las em níveis muito pequenos, cada vez menores, para entender o que está acontecendo em quadra. Existe um motivo para a revolução analítica pela qual vários esportes passam ter se originado no baseball.

Então sim, pode ser que baseball realmente não seja o esporte para você, que tenha tentado e desistido. Não tem problema. Mas se não for o caso, você realmente deveria dar uma chance. Existe um número altíssimo de fatores contribuindo para um esporte cada vez mais divertido, cada vez mais empolgante, e as vezes as pessoas não se aproximam disso por um preconceito ou ideia preconcebida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

David Price no Red Sox

Deal with it!



Para quem não sabe, alguns anos atrás eu sofri um sério acidente envolvendo um DeLorean, um cavaleiro medieval, uma cruz de massaranduba (o relatório da polícia diz mogno, mas não acreditem nele) e uma jacuzzi. O trauma me deixou com sérios problemas psicológicos, e entre eles está o surgimento de duas novas personalidades alternativas: Jean, a otimista; e Javert, a pessimista. 

Normalmente, as duas ficam controladas, mas devido ao choque que sofri hoje ao descobrir que meu amado Red Sox ofereceu 217 M de patacas para David Price meu sistema nervoso central achou mais seguro desligar-se por algumas horas. Nesse momento de fraqueza psicológica, meus alter-egos decidiram tomar controle do meu corpo, e aproveitaram para discutir essa contratação tão bombástica antes que eu acordasse. Por sorte, meu assistente Igor escutou todo o diálogo e registrou o dito-cujo aqui. Então descubram o que Jean e Javert tem a dizer sobre David Price no Red Sox.

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Javert: Alguém ai?

Jean: Eu. E holy crap, essa foi feia. Eu não via o chefe apagando assim desde que o 49ers decidiu mandar o Jim Harbaugh embora.

Javert: Melhor, assim não fala besteira. 

Jean: Ei, pelo que eu entendi aqui, parece que o motivo foi uma contratação do Red Sox. Deixa eu ver aqui... DAVID PRICE?!?! YESS!!!!!

Javert: Por 217 milhões de dólares em 7 anos! Porque diabos você está animado com isso?!

Jean: Bem, para começar, por que se o Red Sox teve uma franqueza particularmente gritante no ano passado, foi na rotação titular. O ataque também decepcionou em 2015, mas pelo menos acordou pós-All Star Game e foi um dos 10 melhores da liga na reta final da temporada. O grande problema foi no montinho: o Sox teve a terceira pior rotação da AL em 2015 e nona pior da MLB. E não é como se isso melhorasse ao longo do ano: pós All Star Game foi a quarta pior da AL e de novo nona pior da MLB. O time até tinha vários braços decentes de fim de rotação - o problema foi encher a rotação inteira com eles. Buchholz foi ótimo em meio a lesões (apenas 113 IP), mas entre arremessadores com mais entradas o melhorzinho foi Wade Miley e seu WAR de 2.6. Sólido para o fundo da rotação, mas se esse é seu ás, você não vai muito longe. Boston tem alguma profundidade, mas o que falta é realmente um ás, alguém capaz de ancorar o topo da rotação.

E David Price realmente se encaixa nessa definição. O canhoto é, sem dúvida, um dos melhores arremessadores da MLB faz um bom tempo: nas últimas 3 temporadas, apenas Clayton Kershaw e Max Scherzer tem mais WAR do que o ex-arremessador do Jays. Expandindo o número para cinco anos, apenas Kershaw aparece na frente de Price. Ele consegue mais de um strikeout por entrada, raramente cede walks, e teve 200+ IP em 5 dos últimos 6 anos que jogou. Ficou bem próximo de ganhar o Cy Young desse ano, e teria sido merecido se ganhasse. Então para um time que precisava de um arremessado de topo, é difícil conseguir alguém melhor do que David Price. É a peça que o Sox tanto precisava.

Javert: Acho que ninguém discute que o Sox precisa urgente de um bom arremessador para o topo da rotação, e que o David Price é um excelente pitcher... na temporada regular. Mas ele também é um SP de 30 anos que tem 5.4 de ERA nos playoffs. Então tem isso.

Jean: É verdade, mas eu não estou convencido de que exista alguma evidência sustentável para dizer que Price não pode arremessar bem nos playoffs. Seus números superficiais podem ser ruins - 5.4 ERA, 4.21 FIP - mas a maior parte disso é ruído causado por uma amostra muito pequena (apenas 63 entradas). NADA no baseball é mais perigoso do que tirar conclusões a partir de uma amostra pequena.

Além disso, não existe nenhum parâmetro para indicar que exista uma queda de performance por parte do canhoto: seus strikeouts caem um pouco (23.2% para 22.2%), mas seus walks também diminuem e em proporção ainda maior (6.3% para 4.6%) e nada indica que ele ceda mais rebatidas fortes nos playoffs. Na verdade, sua taxa de ground balls é quase 2 pontos percentuais maior na pós-temporada (44.2% para 46%). A diferença em performance é quase toda resultado de uma variação em HR/FB Ratio (9% para 15.5%), uma estatística que sabemos ser extremamente volátil em amostras pequenas. Então os números não sustentam que Price piore significativamente nos playoffs. É uma amostra pequena. E mesmo que exista alguma pequena piora (seu xFIP nos offs é de 3.45, na regular 3.35), isso é mais do que compensado pela sua capacidade de ajudar o time a chegar nos playoffs. Não da pra vencer na pós-temporada sem chegar lá primeiro, afinal.

Javert: Tudo isso é muito bonito, mas você está só tratando de David Price o jogador em um vácuo. Mas os jogadores não existem em um vácuo - eles custam dinheiro ou ativos para trazer. E Price custou muito, muito caro. 217 milhões de dólares (por 7 anos) é muito dinheiro - na verdade, a figura anual de 31M é a mais alta da história do baseball, empatada com Miguel Cabrera... que também foi um contrato dado pelo mesmo GM, Dave Dombrowski. 

Para colocar isso em contexto, o valor médio de uma "vitória" extra no mercado é de pouco mais de 6M de dólares. Para valer seu contrato, Price teria que ter uma média de 5 WAR por temporada durante os 7 anos do seu contrato, o que é absurdo. Nos últimos 5 anos, Price tem média de 5.2 WAR por temporada, então não é absurdo esperar que ele vá conseguir atingir essa marca nos primeiros anos de seu contrato... mas é ridículo imaginar que ele consiga chegar perto disso nos últimos anos. Nesse tipo de contrato longo e caro, o normal é que jogador supere essa média nos primeiros anos do seu contrato para "compensar" os anos de declínio no final, mas muito dificilmente será o caso de Price. E o Red Sox vai acabar preso a um contrato de 30M por ano para um arremessador de 37 anos de idade. Péssimo contrato.

Jean: O valor realmente é absurdo, mas é errado tratar o contrato como uma coisa só. Embora na superfície ele seja de 7y/217M, ele tem uma peculiaridade: David Price pode sair do contrato depois de apenas três anos, que totalizam 93M. Então é um contrato de 3y/93M com uma opção para Price de mais 4y/124M no final.

Em outras palavras, não está garantido que Price ficará até o final do seu contrato e que o Sox ficará pagando o que sobrar dele 31M ao ano em 2022. Existe um melhor-cenário possível para Boston no qual Price tem três ótimos anos - três anos onde ele é bastante capaz e talvez até provável de fazer jus ao seu valor anual, tendo 6+ de fWAR nos seus dois últimos anos - e depois opta por sair do seu contrato. Price terá apenas 33 anos em 2016, e se estiver jogando em alto nível pode querer garantir sua segurança financeira em um contrato mais longo. É possível.

Javert: É um cenário possível, mas improvável. Pense assim: porque um jogador iria aceitar esse tipo de contrato? Por que ele oferece nenhum risco e toda a segurança do mundo. O time todo assume o risco. Se Price jogar bem, ele pode realmente optar por sair do seu contrato em troca da segurança de um contrato mais longo, mas ele terá 33 anos então, e como eu já disse esse é o contrato com maior valor por ano da história da MLB. É bastante possível que mesmo jogando bem, Price ainda não ache um contrato que pague mais que os 124M que o Sox lhe deveria. 

E claro, tem o reverso da moeda: se por qualquer motivo Price não tiver sucesso, ou pior, sofrer uma lesão (lembrando que arremessadores são bem mais vulneráveis a lesões, ainda mais nessa época de Tommy John Surgery) ele está garantido de qualquer forma. Tudo que tem que fazer é aceitar sua opção que ele tem garantia de 31M por ano até sua possível aposentadoria. Existe sim um cenário positivo para Boston, mas a grande probabilidade é que Price aceite sua opção e Boston acabe com um albatroz na mão.

Ah sim, e fica pior. Boston não acabou de se queimar por sair no mercado e pagar grande dinheiro pelos jogadores errados? Que eu me lembre, na última offseason Boston também botou a mão no cofre e desembolsou 200 milhões em Sandoval e Hanley Ramirez... que combinaram para -3.8 fWAR em 2015, dois dos três piores jogadores da temporada. Agora o time está comprometendo contratos imensos para Hanley, Sandoval, Price e Pedroia, sendo que os dois últimos ainda são bons jogadores mas cujos contratos devem durar até depois do seu valor em campo ser aproveitado. Boston está seguindo por um perigosíssimo caminho, que é o de encher seu elenco de veteranos improdutivos mas que recebem demais e ocupam toda a folha salarial da equipe no longo prazo... que aliás foi EXATAMENTE o que acabou com o Tigers de Dombrowski. 

Jean: Vale a pena apontar, no entanto, que em 3 anos - quando Price tem a sua opt out - acaba o contrato de Ramirez, e Sandoval só tem mais um. Ou seja, é possível que o time limpe dois enormes contratos de uma vez só em 2018, e mesmo se Price ficar, o final dos contratos de Hanley e Sandoval coincide com a parte do contrato de Price que deve começar a ficar problemática. Nesse ponto, a folha salarial de Boston deve dar uma limpada para trazer os novos reforços e assumir o futuro da equipe.

Importante lembrar também que 2018-2019 - esse período onde os contratos de Sandoval, Hanley e talvez Price acabam - é quando os principais jovens talentos do time como Bogaerts e Mookie Betts estarão entrando na free agency, então não é como esses contratos ruins estariam impedindo a renovação dos jovens craques do time. Essa inclusive é a vantagem de montar um bom time pelas minor leagues: como várias posições importantes do time estão ocupadas por jogadores ganhando um mínimo, você tem mais dinheiro sobrando para direcionar a nomes maiores. Os contratos podem ser ruins, mas a timeline da equipe bate. 

Javert: Acabei de escutar um ronco, acho que o chefe está acordando. Alguma consideração final?

Jean: Queria lembrar que, apesar dos contratos ruins em um vácuo, precisa ser lembrado que Boston está querendo vencer agora. E nesse contexto, a chegada de Price faz sentido, um talento de elite que cobre a maior fraqueza do time e reforça as chances da franquia de competir logo - especialmente antes de Ortiz aposentar. 2015 foi um ano péssimo pro Red Sox, mas também foi um ano onde muita coisa deu errado. O time sabe que tem mais talento que isso, tem um núcleo bastante jovem que deve evoluir a alta velocidade, ainda tem boas peças veteranas... é uma boa combinação, tanto que muita gente apostava em Boston como um forte candidato a dar a volta por cima em 2016. E agora eles adicionaram David Price para a mistura. Em contexto, o plano me parece bastante claro, e Price encaixa nessa visão. Mesmo se o contrato, em um vácuo, for bastante... erm... polêmico.

Javert: Sempre habilidoso com as palavras. Eu teria mais fé no Dombrowski se ele não tivesse trocado quatro prospectos, inclusive dois Top50, por um closer semanas depois de chegar em Boston. Mas I digress.

Jean: Bem, acho que nosso tempo acabou. Vou ligar o Netflix e maratonar Jessica Jones. E você?

Javert: Lakers e Sixers está rolando. Preciso me lembrar que existe algo pior no mundo dos esportes nesse momento do que a folha salarial do Red Sox.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Distribuindo prêmios para a temporada 2015 da MLB

Ele não aparece na coluna, mas o prêmio "Pedro Martinez de
Jogador Mais Carismático do Ano" vai para Bartolo Colón!


Apesar do triste fato de que meu Red Sox foi um fiasco desde o primeiro dia da temporada e pagou 205 milhões de dólares (algo como 392 bilhões de reais no câmbio atual) na offseason para dois jogadores que totalizaram -3.7 fWAR (entre jogadores com 400+ passagens pelo bastão, Sandoval é o segundo pior e Hanley o terceiro pior em fWAR, atrás apenas de Victor Martinez) 2015 foi uma das minhas temporadas favoritas da MLB que eu lembro de ter assistido.

Teve de tudo: performances históricas de múltiplos jogadores, trocas bombásticas, grandes surpresas, grandes decepções, uma safra histórica de calouros, grandes jogos, e tudo que você poderia pedir em uma temporada. E, enquanto os playoffs não chegam, não consigo pensar em uma forma melhor de terminar a temporada regular com uma fantástica disputa pelos prêmios individuais da temporada. Ainda que a MLB seja péssima em dar esses prêmios de forma inteligente, eu ainda tenho um estranho fascínio por eles. E, todo final de temporada, não consigo deixar de fazer minha lista pessoal de quem iria no meu ballot que nunca terei.

E eu pessoalmente não lembro de ter visto uma disputa melhor pelos prêmios individuais, de modo geral, do que está acontecendo em 2015. Dos 6 prêmios principais da temporada (e eu estou excluindo Manager of the Year por ser o pior prêmio dos esportes), TRÊS são disputas extremamente parelhas sem um claro favorito, QUATRO ainda estão bem abertas, e duas ou três envolvem performances históricas de pelo menos um jogador. Isso obviamente gera muito chorume na internet, mas também abre espaço para debates muito interessantes. Então vamos fazer nosso giro tradicional pelos prêmios individuais da MLB, começando com o menos disputado.

Colunas escritas e estatísticas válidas até 03/10, exceto a parte do MVP da AL e quando mais for avisado o contrário. 


National League MVP

É, esse é bem óbvio.

Absurdamente, a verdade é que existe uma chance real de Bryce Harper não vencer esse prêmio, o que seria um dos maiores roubos da história da MLB. Infelizmente, alguns dinossauros ainda acham que para ser o MVP seu time precisa ter ido aos playoffs, o que é patético porque você está usando um fator coletivo (vitórias do time) para julgar um prêmio individual. Sim, o Nationals não vai para os playoffs, mas que culpa Bryce Harper tem que seus companheiros não foram bem durante o ano, que o time foi assolado por lesões, e que a troca do Jonathan Papelbon falhou miseravelmente? Ao mesmo tempo, outro grande craque, Andrew McCutchen, teve uma temporada muito boa, ainda que muito inferior à de Harper... só que seu time foi aos playoffs. O fato de Cutchen ter ido aos playoffs e Harper não não tem NADA a ver com suas performances individuais, e sim com a performance do resto da equipe - porque deveria então premiar individualmente McCutchen sobre Harper sendo que a diferença foi ter companheiros melhores?

Claro, eu não digo que não se deve NUNCA olhar a performance da equipe. Entendo o conceito de valor relativo, e não sou contra se considerar tal fator em escalas menores, ou mesmo como critério de desempate entre dois jogadores muito próximos (vejam o próximo prêmio). Mas quando você tem um jogador sendo CLARAMENTE superior por uma grande margem aos demais, você não pode me dizer que ele não é o MVP. E esse é o caso de Bryce Harper.

Então vamos aos números. Harper lidera com folga a NL (e toda a MLB) em fWAR, com 9.5 - duas vitórias inteiras acima do segundo colocado. Harper também está rebatendo ridículos .331/.461/.646 na temporada com 41 HRs (líder da NL), o que da um wRC+ de 197 (ou seja, ajustando para estádio, a produção por at bat de Harper é 97% superior a de um jogador médio da MLB), com folga a melhor marca da liga (Votto é o segundo com 175). Deixe eu tentar colocar isso em contexto...

Bryce Harper: .331/.461/.646, 197 wRC+, 41 HRs.
Jogador B: .356/.499/.648, 209 wRC+, 36 HRs.

Sim, eu sei que o jogador B foi melhor, mas olhe um pouco para esses números. Um pouco mais. Deixe entrar o quão absurdos eles são. Pronto?

Bem, o primeiro obviamente é de Bryce Harper na temporada 2015, com 22 anos. O Jogador B, por outro lado, é ninguém menos que o segundo melhor rebatedor da história do esporte, Ted Williams, na sua temporada 1942 - com 24 anos. Em outras palavras, aos 22 anos Harper acabou de ter uma temporada comparável a uma temporada do auge de Teddy fucking Ballgame!! Eu já mencionei que Harper tem 22 anos? Isso é insano. Legitimamente surreal.

Espere ai, ainda não terminei de falar do quão ridícula está sendo a temporada de Bryce Harper. Desconsiderando o fato de que nenhum jogador em atividade na MLB teve uma temporada com wRC+ que chegue no nível dos 197 de Harper - nem Trout, nem Miguel Cabrera, nem Albert Pujols, nem Joey Votto, nem Alex Rodriguez - porque ele é pouco para o que o canhoto fez essa temporada, vamos tentar olhar um contexto um pouco mais histórico:

1. O único jogador da HISTÓRIA do baseball com wRC+ melhor que o de Bryce Harper em 2015 com 22 anos ou menos foi Ted Williams (221 no ano que rebateu .400). Ninguém mais.

2. Harper está com 9.5 de fWAR na temporada. Com um restinho de temporada pela frente, ainda pode chegar a 10.0 de fWAR em 2015. Os únicos jogadores da Live Ball Era a atingir esse feito com 22 anos ou menos foram Ted Williams e Mike Trout... que é tão ridículo que fez isso DUAS vezes. Se acabar com 9.5 mesmo, fica atrás apenas de Ted, Trout e Stan Musial. Excelente companhia.

Nota: Harper terminou o ano com 9.6 fWAR

3. Ted Ballgame se aposentou em 1960. Desde então, os únicos jogadores a terminarem uma temporada completa com wRC+ superior aos 197 de Harper foram Barry Bonds, Mike Schmidt, George Brett, Mark McGwire e Dick Allen. Ainda é possível que Bryce Harper termine 2015 com a melhor temporada ofensiva não-PEDs de um jogador desde 1960. Leia isso de novo. Eu já disse que Harper tem 22 anos?

Nota: Harper terminou o ano com 198 wRC+, a segunda melhor temporada ofensiva completa sem PEDs desde 1960 atrás apenas de Dick Allen em 1972.

4. Nenhum jogador com 22 anos da história do esporte teve taxa de walks melhor que os 19.2% de Harper. Nunca aconteceu. 

A temporada do Bryce Harper foi tão ridícula que eu não dei conta de compilar fatos suficientes sobre o quão ridículo ele é e/ou tem sido. Então pedi ajuda do mestre das estatísticas históricas de baseball, o fantástico Ryan Spaeder (sigam ele no twitter, sério. Agora!), para me mandar algumas estatísticas divertidas sobre esse monstro mitológico. Eis o que ele tinha a dizer:

1. Bryce Harper agora detém o recorde de bWAR para temporadas de jogadores com 19 anos (5.1) e 22 anos (10.2) na história do esporte

2. Em 2015, Bryce Harper se tornou o jogador mais jovem da história do esporte com 40 HRs e 120 walks em uma temporada. O recordista anterior? Babe Ruth. Com 25 anos. 

3. Bryce Harper tem 10.2 bWAR em 2015. Isso é mais que as melhores temporadas da CARREIRA de Albert Pujols (9.7), Ken Griffey Jr (9.7) e Hank Aaron (9.4). Você sabia que Br... pensando bem, sabe sim.

4. Bryce Harper tem 124 walks essa temporada. Isso é mais que a melhor marca da carreira de Sammy Sosa (116), Albert Pujols (115), Willie Mays (112), A-Fraud (100), Ken Griffen Jr (96) e Hank Aaron (92).

5. Em 114 jogos entre 6 de maio e 21 de setembro, Bryce Harper rebateu .376/.486/.726.

6. Dia 11 de Agosto, Bryce Harper atingiu a marca de 7.2 bWAR na temporada. Isso é igual ao TOTAL que Miguel Cabrera teve na temporada toda no ano que ganhou a tríplice coroa. 

7. Bryce Harper em 2015 lidera a NL em WAR, oWAR, wRC+, OBP, SLG, ISO, OPS, OPS+, wOBA, BB%, R, TB, HR, OffW%, RE24, WPA/LI, REW, WAA e Rbat.

Então a verdade é que Bryce Harper está tendo uma temporada tão superior a todo o resto do baseball que compará-lo com seus colegas não é mais suficiente - para uma comparação justa, precisamos recorrer às maiores ofensivas da história do baseball e seus maiores jogadores. Ele tem sido bom a esse ponto. Bryce Harper fez história em 2015, com uma das melhores temporadas da história do esporte. E qualquer jogador bom a esse ponto é o MVP, não importa se o seu time foi para os playoffs ou não. 

E antes de passar para a próxima categoria, deixo vocês com meu fato favorito, mais uma vez cortesia do grande Ryan Spaeder.

Slash line na carreira depois de 500 jogos:

Jogador A: .255/.345/.465
Jogador B: .299/.365/.488
Jogador C: .296/.385/.507
Jogador D: .291/.386/.521

Jogador A é Barry Bonds. Jogador B é Ken Griffey Jr. Jogador C é Willie Mays.

E o jogador D é Bryce Harper.

NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Arremessador A; 4. Arremessador B (Hold that thought...); 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. AJ Pollock; 9. Andrew McCutchen; 10. Jason Heyward.


American League MVP

Eu não sei o que foi mais difícil nesse prêmio: decidir quem foi o MVP entre Mike Trout e Josh Donaldson, ou decidir o resto do meu ballot. Sério, tente fazer esse exercício: como ficaria o resto do Top10 para AL MVP? É impossível. Por isso eu trapaceei e, diferente do NL MVP (que tem pelo menos uns 15 caras que eu queria citar e acabei colocando 10), vou fazer só um Top6. Minha coluna, minhas regras. Me processem.

De volta ao MVP da AL, acho que é óbvio para qualquer ser humano normal que a disputa só pode ser entre dois jogadores, Trout e Donaldson. Eles tem sido consideravelmente superiores a todos os demais jogadores da liga, com ambos no Top4 em wRC+ na AL (1st e 4th, respectivamente) e  Trout a 2 vitórias inteiras acima do terceiro colocado da AL em fWAR (Manny Machado). Não existe nenhuma alternativa realista ao prêmio de MVP que não esses dois.

Decidir entre Trout e Donaldson, por outro lado, é uma tarefa bastante difícil, pois os dois estão bastante próximos. No bastão, Trout tem uma vantagem considerável sobre Donaldson e qualquer jogador da AL: o OF do Angels tem uma slash line impressionante de .298/.400/.588 que é bastante superior aos (também ótimos) .298/.373/.571, e isso antes de lembrar que Trout joga em um dos estádios mais desfavoráveis para rebatedores da liga, e Donaldson em um dos mais favoráveis. Juntando tudo, Trout tem um wRC+ de 171 (ou seja, foi 71% melhor que um rebatedor médio da MLB por at bat) - a melhor marca da AL - e Donaldson de 155. Incluir baserunning na equação não tira a vantagem de Trout: o OF roubou mais bases mas também foi mais vezes eliminado, e Donaldson é um corredor bastante inteligente, mas a diferença é mínima: BsR diz que Trout gerou 3.3 corridas com as pernas acima da média, e Donaldson 3.9. Diferença pequena.

Do lado defensivo da bola, por outro lado, é que Donaldson tira essa diferença (ou pelo menos uma parte dela). Trout é um sólido defensor no campo externo - +0,4 UZR, +5 DRS e +2.3 Defensive Rating - mas Donaldson (um ex-catcher, btw) é um defensor de elite no canto do infield: +7.9 UZR, +11 DRS, e +9.4 Defensive Rating, a terceira melhor marca entre 3Bs qualificados da American League (Beltre e Machado). Se Trout tem vantagem no ataque, Donaldson tem vantagem na defesa.

Então se queremos decidir quem foi o jogador que mais gerou valor para seu time em 2015, Trout ou Donaldson, tem a questão importante é a seguinte: a vantagem de Donaldson do lado defensivo é o suficiente para compensar a vantagem de Trout no ataque? Eu acho que não, e as estatísticas concordam comigo: Trout tem uma vantagem tanto em fWAR (8.9 a 8.7) como bWAR (9.3 a 8.9), ainda que pequena. Se você me obrigar a dizer quem foi o melhor jogador da AL em 2015, eu direi que foi Mike Trout.

Nota: Trout terminou o ano com 9.0 de fWAR, e Donaldson com 8.6.

Ainda assim, pelo fato de que as estatísticas defensivas ainda não tem uma precisão perfeita, não é uma boa idéia levar WAR de forma absoluta para pequenas diferenças - uma pequena mudança em DRS ou UZR já seria suficiente para cobrir essa diferença. Por mais que eu acredite que Trout tenha sido o melhor jogador em 2015, não acho que essa diferença pequena em WAR (especialmente em fWAR, que eu confio muito mais) seja suficiente para dizer que Trout foi comprovadamente melhor. Pode-se dizer que os dois estão quase em empate técnico - com a diferença entre eles dentro da margem de erro.

Então se o valor absoluto dos dois foi igual - ou pelo menos muito próximo - precisamos procurar novas formas de decidir nosso MVP. Não existe escolha errada entre esses dois, é uma questão de opinião. E então podemos começar a usar alguns fatores mais abrangentes para separar os dois - como por exemplo, o contexto dos times nos quais jogam.

Eu acho ridículo, absurdo e patético - como eu disse acima - a idéia de que a campanha da equipe tem que ter um peso grande na votação para MVP. Sendo um prêmio individual, essa idéia de que você só pode vencer o prêmio se seu time foi para os playoffs é de um nível de mente pequena assustador. Não existe um esporte coletivo mais individual que baseball, e a performance coletiva não deveria ser usada quase que como uma "condição" para um jogador disputar o MVP: se seu time foi, está dentro, se não foi, está fora. Eu sei que o prêmio é para o mais "valioso", não para o "melhor" jogador, mas que valor um jogador tem pelo nível dos seus companheiros?!

No entanto, isso não quer dizer que você não possa aplicar um pouco de análise contextual - ou seja, falar um pouco do time - como um critério menor, por exemplo como desempate entre dois jogadores praticamente empatados, como é o caso em questão. Então se você quiser me falar que seu voto vai para Donaldson porque sua temporada fantástica veio para um time melhor e que vai aos playoffs, e portanto o valor adicionado pelo jogador teve um peso mais significativo na big picture da temporada... eu não tenho um problema com isso. Na verdade, é o que eu acho que vai acontecer, e se for verdade, eu estarei tranquilo. Donaldson seria um vencedor merecedor do prêmio de MVP.

Mas eu olho por outro ponto de vista. Hoje (domingo) é o último dia da temporada regular da MLB, e o Angels ainda está jogando para chegar aos playoffs - ou seja, mesmo se acabarem fora dos offs, definitivamente, não é como se a temporada do Angels não tivesse sido competitiva, ou não tivesse valor no big picture da temporada. Eles chegaram até o último dia com chances. Só você já viu o resto do time do Angels ao redor de Mike Trout?! É um milagre que tenham chegado até aqui tão próximos ainda com chances!!

O rebatedor de leadoff do Angels, Erick Aybar, teve OBP de .303 na temporada. Seu rebatedor de cleanup, Albert Pujols, rebateu 40 HRs, mas também perdeu tempo com lesões e teve OBP de .310. O único jogador do time além de Trout com fWAR acima de 2.5 foi Kole Calhoum... que você não vai acreditar nisso, mas teve OBP de .310. O Angels até jogou com Matt Joyce por incríveis 93 jogos (!!) pela falta de opção melhor. Mike Trout tem 8.9 de fWAR - todo o resto dos rebatedores do time SOMADOS tem 11.2 fWAR. Leia isso de novo. É um desastre de lineup, um dos piores da MLB uma vez que se tira Trout da equação.

E não é como se as coisas ficassem melhores do outro lado da bola. O melhor arremessador do time em 2015 foi Garrett Richards, que teve um FIP abaixo da média (ajustando por estádio) para titulares da AL com 3.83 (2.5 fWAR). Dois três pitchers seguintes com mais entradas arremessadas pelo Angels em 2015 (Hector Santiago, Matt Shoemaker, e notório lançador de pudim Jered Weaver), NENHUM DELES teve fWAR acima de 1. UM! O Angels termina a temporada com a terceira PIOR rotação titular de toda a American League. Nenhuma ajuda desse lado da bola também.

Então é, Donaldson teve a chance de brilhar por um Blue Jays que vai aos playoffs com certeza e foi o melhor time da AL em 2015. Mas o Jays também teve Edwin Encarnacion (12h em fWAR na AL), Jose Bautista (16th), Kevin Pillar (19h), Russell Martin (30th, com ótima defesa e bom pitch framing) e David Price (provável Cy Young da AL), enquanto o Angels não teve ninguém além de Trout. Tire Donaldson do Jays e eles certamente perdem muito, mas provavelmente ainda é um time que vai aos playoffs. Tire Trout do Angels e o time de Anaheim se torna um time abaixo de .500, que não chegaria nem PERTO dos playoffs e teria trocado seus principais jogadores muito tempo atrás pensando no futuro. Só por causa de Trout eles se mantiveram o ano todo na briga, e chegam nesse último dia de temporada regular com chances de playoffs. Você não vai encontrar outro jogador com maior impacto nesse sentido do que Mike Trout.

Junte isso ao fato de que, a meu ver ele, foi melhor do que Donaldson - por muito pouco, mas foi -  e você tem que Trout não foi só o melhor jogador da AL em 2015, mas também o mais valioso. Mike Trout é o meu AL MVP de 2015.

(Só para não deixar batido, mas Kevin Kiermaier, CF do Rays, teve possivelmente a melhor temporada defensiva de um OF na era das estatísticas defensivas, desde 2002: 41 DRS - o recorde anterior era 35 do Franklin Gutierrez em 2009 em 200 entradas a mais - e 29.3 UZR com 40.2 UZR por 150 jogos - melhor marca para um mínimo de 1000 entradas antes era 32 (!!!) do Brett Gardner em 2011. Esses 41 DRS também são a melhor marca para QUALQUER posição em uma temporada desde que a estatística foi criada. Adicione a essa defesa histórica um bastão médio e sólido baserunning, e Kiermaier é um muito merecido candidato a entrar em qualquer ballot de MVP. Ele não vai, porque ninguém presta atenção na defesa na hora de dar esses prêmios, mas ele merece.)

NL MVP Ballot: 1. Mike Trout; 2. Josh Donaldson; 3. Manny Machado; 4. Lorenzo Cain; 5. Kevin Kiermaier; 6. Chris Davis.


National League Cy Young

Uma das melhores corridas para Cy Young que eu lembro nos últimos anos. Entre Clayton Kershaw, Jake Arrieta e Zack Greinke, temos três arremessadores com temporadas fantásticas que disputam esse prêmio a unhas e dentes.

E dependendo do critério que você usar para definir seu Cy Young, você vai chegar em um resultado diferente. Se for por FIP, Kershaw é o claro favorito e líder da liga na categoria.. Se for por ERA, vai chegar em Greinke, líder da categoria que aliás também é o melhor rebatedor dos três. E se for por algum meio termo entre os dois, vai chegar em Jake Arrieta, que é #2 em ambos. Na verdade, eis a colocação dos três jogadores entre arremessadores da NL para diferentes categorias:


Bem parelho. Dependendo do ponto de vista, cada um tem um caso a ser feito.

Então como vamos escolher um sobre os demais? Bem, vamos por partes...

Embora ainda seja a estatística mais popular e mais usada, a verdade é que ERA é uma estatística útil, mas insuficiente. Já foi há muito provado que ERA é uma estatística influenciada por diversos fatores que estão além do controle de um arremessador, de forma que julgar um pitcher por ERA significa estar dando (ou tirando) crédito ao jogador por fatores externos a sua performance. Não que não possa existir nenhum mérito do arremessador em um ERA mais baixo, mas 95% (btw, não é figura de linguagem, esse é um número real de estudos sobre o assunto) da diferença entre o ERA e o FIP de um pitcher vem de BABIP e LOB% - duas estatísticas que os jogadores tem pouquíssimo controle sobre. FIP não é perfeito de modo algum, mas é uma forma melhor de avaliar sua performance.

Se você não acredita em mim, vamos dar uma olhada em Greinke, considerado por muitos o favorito ao prêmio. Seu ERA de 1.68 é ridículo e histórico, e Greinke merece ser celebrado por isso. Mas será que todo o mérito disso vem do arremessador? Usando FIP - que usa apenas elementos que o SP controla, como walks, strikeouts e HRs cedidos - Greinke tem 2.75, uma enorme diferença para seu ERA. E embora você possa argumentar que a diferença é mérito do jogador, é difícil sustentar esse argumento com fatos. Ao longo de sua carreira, Greinke nunca mostrou uma capacidade de gerar esse tipo de diferença entre ERA e FIP - na verdade, na sua carreira, Greinke tem um ERA MAIOR que seu FIP por 4 pontos (3.36 contra 3.32). Seu ERA extremamente baixo vem de dois fatores: um BABIP de .232 (média da liga é de .298) e um LOB% (porcentagem de jogadores que chegam em base e que não anotam corrida) de 86% (média da liga: 72.3%).

E, de novo, Greinke nunca foi capaz na sua carreira de controlar esses arremessos de forma diferenciada (nem nenhum arremessador da história, mas I digress): seu BABIP da carreira é de exatos .298, e seu LOB% de 74.9%. Então a não ser que o seu argumento seja que de repente, aos 31 anos, sem nunca ter mostrado nenhuma tendência disso na vida, Greinke descobriu uma forma milagrosa de controlar dois fatores que nenhum pitcher da história conseguiu controlar, é meio difícil argumentar que o ERA de Greinke seja realmente seu mérito e que isso faça dele o Cy Young. Não que o destro não esteja tendo uma temporada fantástica por seus próprios méritos, ele está... só não tão boa quanto parece a primeira vista.

Kershaw, por outro lado, tem um ERA de 2.16 mas sustentado por um FIP de 2.04, o melhor da liga de longe... e que aliás é o melhor da MLB para um arremessador com 200+ IP desde Pedro Martinez em 1999. Mesmo ajustando para o ambiente menos prolífico para rebatedores de hoje e as dimensões muito favoráveis do seu estádio, ainda é o quinto melhor FIP desde 2000, perdendo apenas para Pedro e Randy Johnson, os dois maiores SP da história do esporte.

E isso é fácil de identificar olhando para os números certos: Kershaw conseguiu strikeouts em 33.5% de seus confrontos (de novo, desde 2000 perdendo apenas para Pedro e Randy) - muito superior aos 23.6% de Greinke - e ainda cedeu walks em apenas 4.8%, o mesmo número do seu companheiro de time. Greinke tem obtido sucesso limitando o contato forte feito pelos rebatedores, cedendo bolas rebatidas classificadas como "forte" apenas em 27% das passagens pelo bastão... mas Kershaw cedeu em apenas 25.2%. Não importa onde você olhe, canhoto continua sendo o melhor arremessador do time. 

Mas se você quer achar uma disputa para Kershaw pelo prêmio, não é para Zack Greinke que deveria olhar. É para Jake Arrieta. 

O FIP do destro do Cubs é o segundo melhor da NL atrás apenas de Kershaw, com 2.35, e a diferença é menor do que parece quando lembramos que Kershaw joga em um dos estádios mais favoráveis da MLB. E, assim como Greinke, Arrieta tem um ERA superior ao astro do Dodgers, com 1.77. E se você quer argumentar que existe um arremessador na NL que poderia ter uma chance de ter um impacto real nessa diferença entre ERA e FIP, esse é Arrieta: o astro do Cubs tem cedido bolas rebatidas de forma "forte" à menor taxa da NL, e tem induzido contatos "fracos" com a terceira maior frequência da liga, estando em ambas as categorias melhor do que Greinke e Kershaw. 

Então vamos deixar ERA e FIP de lado por um instante e olhar uma terceira variável que tem se tornado cada vez mais usada no meio analítico para avaliar arremessadores: a performance dos rebatedores quando enfrentam-no. Não é um método perfeito, assim como FIP, mas é melhor do que ERA e um ponto de vista diferente. Para isso, vamos usar wOBA ajustado por estádio. E, para minha surpresa, quem lidera a NL com alguma folga é Jake Arrieta: rebatedores tem um wOBA ajustado de .225 quando enfrentam o destro do Cubs. Greinke (.234) e Kershaw (.242) tem ótimos números por mérito próprio que são inclusive inferiores aos do PIOR rebatedor qualificado da temporada (Chris Owings, com .258), mas Arrieta deixa os dois para trás na categoria. Claro, isso não é uma medida final: wOBA é mais interessante do que ERA por tirar LOB% da equação, mas ainda é influenciado por BABIP, ainda que em menor medida que ERA. Mas é um bom parâmetro para se olhar quando tentamos separar três arremessadores tão próximos.

E ainda tem o seguinte: Arrieta tem sido insano na segunda metade da temporada. Desde o All Star Game, Arrieta tem FIP de 2.00, ERA de 0.75 e um wOBA dos oponentes de .186 em 107.1 entradas arremessadas. Esse ERA de 0.75 na verdade é o melhor ERA da segunda metade de uma temporada na história do baseball. Entre Agosto, Setembro e Outubro, o destro tem 0.43 de ERA - isso da QUATRO corridas merecidas em dois meses e uma semana. Eu não sei o quanto isso deveria considerar na hora de avaliar o Cy Young - que afinal é um prêmio para a temporada inteira - mas os seres humanos tem um certo viés para eventos mais recentes, e acho que será algo que acabará mandando alguns votos na direção de Arrieta na hora de preencher os ballots.

No final, eu acabei chegando muito, muito perto de dar o Cy Young para Jake Arrieta. Mas no fundo, a questão Kershaw vs Arrieta se resumia à especulação e às possibilidades sobre o controle que Arrieta poderia ter sobre seu ERA contra os fatos que são os periféricos de outro mundo de Kershaw. E por mais que eu tenha adorado assistir Arrieta arremessando mais do que qualquer outro pitcher da MLB em 2015 e ache sua temporada fantástica, eu não consigo colocar a especulação na frente dos fatos. A diferença é muito, muito pequena e Arrieta será um vencedor digno se ficar com o prêmio. Mas meu voto vai para Clayton Kershaw. De novo.

NL Cy Young Ballot: 1. Clayton Kershaw; 2. Jake Arrieta; 3. Zack Greinke; 4. Madison Bumgarner; 5. Max Scherzer.


E, para deixar claro, Arremessadores A e B do meu Ballot para MVP são, naturalmente, Kershaw e Arrieta. Eu só não queria estragar a surpresa. Então oficializando:


NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Clayton Kershaw; 4. Jake Arrieta; 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. Andrew McCutchen; 9 Jason Heyward; 10. Anthony Rizzo.


American League Cy Young

A disputa Kershaw vs Arrieta pelo Cy Young da NL seja a melhor disputa desse prêmio que eu lembro de ter visto em anos. Mas embora a disputa pelo Cy Young da AL não envolva esses números e performances históricas, a disputa ainda está muito parelha e interessante.

Assim como na NL, a meu ver, a corrida pelo prêmio envolve três jogadores: David Price, Dallas Keuchel e Chris Sale. Cada um tem um caso diferente a ser feito, e bastante convincente. Então me permitam fazer rapidamente (ok, talvez nem tão rápido assim) o caso para cada um dos três canhotos.

Para David Price, que começou o ano no Tigers e encerrou no Blue Jays, o caso é bastante simples e direto: o canhoto lidera a liga americana tanto em ERA (2.45) como fWAR (6.4), é o segundo em entradas arremessadas (220.1), e ainda recebe pontos bônus por ter mantido sua dominância (e até melhorado, na verdade) mesmo trocando de time no meio do ano e tendo que se adaptar a um estádio novo e companheiros novos. Price é também o segundo da AL em FIP, oitavo em K% e sexto em BB%. Price é quem tem o caso mais fácil e mais claro para ser o Cy Young.

Keuchel, por outro lado, é um caso mais interessante e que precisa ser esmiuçado mais a fundo. Superficialmente, sua temporada já parece bem boa: terceiro em fWAR (6.1), segundo em ERA (2.48), sexto em FIP (2.91)... e, se você gosta dessa estatística imbecil, é o líder em vitórias (20). Mas tem outras duas estatísticas menos olhadas que falam mais sobre Keuchel: é o líder em entradas arremessadas (232) E em induzir groundballs (61.7%). Sobre a primeira, eu não preciso dizer a importância - se você arremessa mais entradas, você tem a chance de contribuir mais com seu time, manter seu bullpen mais fresco (melhorando sua performance), e por ai vai. A segunda é um ponto mais complicado, mas vamos começar com o seguinte: groundballs não viram home runs. Em outras palavras, se você está induzindo ground balls, você está limitando as oportunidades do adversário de mandar HRs. E ai você olha que Keuchel induz GBs 61.7% do tempo, e Price 40.4%... e ainda assim ambos estão quase empatados em HR/9 entradas: .66 para Keuchel, e .69 para Price.

O que acontece é que Price está cedendo HRs em 7.8% das suas fly balls, e Keuchel em 13.6%. Ainda que arremessadores tenham algum controle sobre essa proporção, fato é que a taxa de Price está bastante abaixo sua média da carreira (9.1%), e isso antes de considerar que o canhoto passou 2/3 da sua temporada arremessando em Detroit, um estádio muito mais favorável para conter HRs do que o Minute Maid Park onde Keuchel arremessou o ano todo. Em outras palavras, ainda que Price esteja sendo mais dominante em um nível per-inning, a dominância de Keuchel (especialmente no que tange aos Home Runs) é mais sustentável pelos parâmetros, e portanto mais mérito individual do arremessador e menos dependente de fatores externos. Some isso ao seu maior número de entradas arremessadas e o impacto que isso teve em preservar um dos bullpens mais eficientes da temporada, e o total da temporada de Keuchel pode muito bem ser superior à temporada de Price. Eu não gosto de bWAR para pitchers, mas é por essas e outras que ele lidera a AL com folga no quesito a 7.3.

Por fim, temos Chris Sale, que lamentavelmente está praticamente fora da discussão atualmente por Cy Young. O que é ridículo, porque Sale certamente tem as credenciais para isso. Lembra que Price é o segundo em FIP, sexto em K% e oitavo em BB% da liga? Acontece que Sale é o líder da AL em FIP (2.74), K% (32.1%, a segunda melhor marca na AL desde Pedro Martinez em 2000) e é segundo em BB% (4.9%), e isso tudo antes de considerar que Sale joga no terceiro pior estádio para arremessadores da AL. Sale tem sido mais dominante do que qualquer outro arremessador da AL essa temporada.

Então porque diabos Sale está sendo excluído das conversas para Cy Young? Por causa do seu ERA de 3.41, quase uma corrida inteira acima de Price e Keuchel. E isso é ridículo, porque o motivo para esse ERA alto é muito óbvio, e em nada culpa de Sale: o Chicago White Sox tem a pior defesa da temporada. De acordo com UZR, a defesa do White Sox custou ao time 39.9 corridas a mais que uma defesa média, a pior marca da temporada de longe, e DRS diz que foram 37 corridas - terceira pior marca da liga e segunda pior da AL. Do outro lado, as defesas de Astros, Tigers e Blue Jays foram a segunda, terceira e sexta melhores da AL na temporada (por DRS). Então por DRS, a diferença entre as defesas do time de Sale e dos de Keuchel e Price foi de 60 corridas. E ai, ficou mais fácil entender porque o ERA alto do Sale não é realmente um fator relevante para tirá-lo da disputa do prêmio, e sim um fator externo sobre o qual o canhoto não teve nenhum controle? E isso, claro, antes de entrar nos outros problemas de ERA, como impacto de fatores além do controle dos arremessadores. Então se você conseguir olhar além de ERA, vai enxergar que Sale foi por uma boa margem o mais dominante arremessador da MLB em 2015.

Em resumo, a verdade é que os três arremessadores tem excelentes argumentos para vencer esse prêmio, e estão separados por muito pouco. A questão é menos qual deles merece mais que os outros, e sim quais critérios cada pessoa decide olhar para tomar uma decisão. Se for olhar para os resultados, Price é a escolha fácil. Se olhar para a questão da dominância, então Sale é a melhor escolha. E se considerar sustentabilidade e impacto total para seu time, então Keuchel possivelmente tem o melhor caso dos três. No final do dia, depende muito mais do critério usado para avaliar. Eu pessoalmente valorizo mais dominação e uma performance individualmente superior para o prêmio de Cy Young, e por isso, fico com Chris Sale. Mas qualquer um dos três se ganhar o prêmio será um vencedor digno e terá feito por merecer. Excelente disputa.


AL Cy Young Ballot: 1. Chris Sale; 2. David Price; 3. Dallas Keuchel; 4. Corey Kluber; 5. Chris Archer.


National League Rookie of the Year

A segunda e última disputa sem muita graça da temporada, porque tem um claro vencedor. Kris Bryant não é só o melhor calouro da temporada, ele foi um dos melhores JOGADORES da temporada, ponto. Tanto que, se você prestou atenção, ele ficou em sétimo no meu ballot para MVP. 

O engraçado é que, no começo da temporada, parecia que essa seria a melhor disputa da temporada. Bryant e Joc Pederson chegaram tomando a liga de assalto e estavam pescoço a pescoço disputando o posto de melhor calouro do ano... até que Bryant começou a rebater HRs monstruosos e Pederson esqueceu de como se acertar uma bola de baseball. Bryant termina a temporada com 26 HRs (melhor marca entre calouros), uma slash line de .277/.368/.492 e um wRC+ que é segundo entre calouros (só Grichuk foi melhor, por 1 ponto, mas com 45 jogos a menos), sólida defesa e excelente produção nas bases. Isso tudo totalizou um fWAR de 6.3 que não só é 1.4 vitórias acima do segundo melhor calouro da temporada, como também é 10th entre TODOS os rebatedores do baseball. Kris Bryant é um monstro. Eu não posso resumir isso de forma mais direta. E como essa coluna já é longa o suficiente, vamos parar por aqui nesse prêmio, porque sinceramente acho que não tem muito a justificar nessa escolha.

NL Rookie of the Year Ballot: 1. Kris Bryant; 2. Matt Duffy; 3. Jung-ho Kang; 4. Noah Syndergaard; 5. Randal Grichuk.


American League Rookie of the Year

Outra disputa muito boa entre dois jogadores muito parecidos. Carlos Correa e Francisco Lindor são ambos shortstops, ambos tem 21 anos e fazem 22 ainda esse ano e jogaram exatamente 97 jogos nas grandes lidas. Ambos foram draftados no Top10 (Lindor #8 em 2011, Correa #1 em 2012), estrearam na MLB em um espaço de uma semana (08/06 para Correa, 14/06 para Lindor), e inclusive estiveram em colocações muito próximas na nossa lista dos Top100 prospectos do baseball (Correa era #3, e Lindor #5) antes da temporada começar.

Dentro de campo, no entanto, os estilos dos dois são bem diferentes. Leia a nossa coluna e você vai ver as diferenças: Corrêa é um rebatedor de grande potência, com um físico impressionante e que deve acabar jogando na 3B com o tempo, enquanto Lindor é um jogador mais ágil, um excelente defensor e um rebatedor mais "leve". 

E até agora na MLB a maior parte dessas afirmações parecem ter acertado em cheio. Corrêa tem 22 HRs em apenas 97 jogos, uma slash line de .282/.348/.520 (136 wRC+) e um controle surreal da zona de strike, mas também tem tido algumas dificuldades na defesa (-5.2 UZR) principalmente pela falta de alcance, mas mostrou boa inteligência e um bom braço que me fazem acreditar que um dia será um defensor acima da média na 3B. Do outro lado, a defesa de Lindor - seu principal atrativo como prospecto - brilhou na MLB também, já se estabelecendo como um defensor de elite e eterno candidato a Gold Gloves: apesar de ter jogado apenas 97 jogos, seu UZR de +9.6 já é o sexto melhor da AL inteira e melhor entre shortstops, seu rating defensivo de +14 é quarto entre jogadores e segundo entre shortstops, e seu UZR por 150 jogos de 17.9 está no nível de jogadores como Adam Hechavarria e Andrelton Simmons. 

O único quesito que na prática tem destoado das previsões até agora tem sido o bastão de Lindor. Um jogador de muito contato mas pouta potência nas ligas menores, Lindor tem rebatido excepcionalmente bem na sua curta carreira nas grandes ligas, com 12 HRs e uma slash line de .317/.357/.487, bom para um wRC+ de 131. E isso tem sido uma grande surpresa, não só pela boa potência demonstrada como pelo alto OBP, cortesia de um ótimo aproveitamento no bastão (cortesia, por sua vez, de um BABIP de .353. Mais sobre isso daqui a pouco). A idéia de Correa e Lindor era que Correa era um defensor aceitável que produziria muito com seu bastão, e Lindor um rebatedor aceitável que produziria muito na defesa. Mas até agora na temporada, Lindor tem produzido muito no bastão E na defesa, e por isso seu WAR é superior ao do calouro do Astros por uma boa margem (4.7 a 3.5). Corrêa é o melhor rebatedor, sem dúvida, mas não está sendo TÃO melhor assim, e defensivamente Lindor tem sido consideravelmente superior, mais do que suficiente para tirar a pequena diferença da produção ofensiva.

Mas como estamos falando de calouros, sempre estamos pensando no futuro, e por isso acho que vale a pena pegar um parágrafo aqui para dizer que, embora Lindor esteja jogando melhor que Correa em 2015, isso não significa que ele seja um jogador melhor ou o será no futuro. E eu digo isso porque a performance de Lindor não me parece muito sustentável. Seus números esse ano dependem de um BABIP de .353 que me parece alto demais para o tipo de rebatidas que Lindor da. Não que jogadores com seu perfil - boa velocidade e boa quantidade de rebatidas em linha - não costumem ter bons BABIPs, mas .353 é algo nível Joey Votto. Meu modelo pessoal para xBABIP estima, dado a distribuição de rebatidas do calouro, que esse número deveria estar muito mais próximo dos .335 (que já é bom, by the way), quase 20 pontos abaixo e que naturalmente derrubaria bastante seus números.

Analogamente, Carlos Correa é alguém que faz muito contato sólido e rebate uma tonelada de line drives, mas que tem um BABIP relativamente baixo de .298. Olhando seu perfil de rebatidas, esse número deveria ser bem melhor, e meu modelo corrobora essa idéia: ele aponta um xBABIP (ou seja, BABIP estimado) de .340 para Correa. Alguns parâmetros não devem se manter tão altos, claro, mas mostra como Correa tem sido ainda melhor do que os números mostram.

Eu também questiono essa repentina força de Lindor (12 HRs e .170 de ISO), um tanto quanto destoantes do que mostrou nas ligas menores. Mais especificamente, muitos de seus HRs tem cruzado por muito pouco as cercas do campo externo, e metade deles foram extremamente rentes à linha de foul ball, onde a cerca é ainda mais próxima do home plate. Pode ser que Lindor tenha apenas excelente mira, mas mostra que a força do jogador não é tão grande assim, e que seus números devem regredir conforme esses HRs mais "fáceis" param de encaixar. Só um de seus HRs viajou mais de 400 feet, apenas dois deles teriam sido HRs em qualquer estádio da MLB, e sua distância média de HR foi de 372 feet - para efeito de comparação, a média da AL é de 394,6 e nenhum rebatedor com 18+ HRs (sua projeção para uma temporada de 150 jogos) teve média inferior a essa. E não é como se Lindor rebatesse a bola com força frequentemente: sua taxa de bolas rebatidas classificadas como "fortes" é de 25.7%, o que seria a 25h pior marca da MLB entre rebatedores qualificados e igual ao número de notórios rebatedores sem potência como Yadier Molina e Nick Markakis (ambos .080 de ISO). Isso não é para dizer que Lindor não é um bom rebatedor, mas é muito provável que não será capaz de sustentar seus números atuais em uma amostra maior.  

Considerando que o prêmio de Rookie of the Year é um prêmio para a produção na temporada 2015 apenas, eu estou tranquilo entregando o prêmio a Lindor - sua produção no bastão foi ótima e sua defesa é de outro mundo, e a combinação dessas duas coisas fez dele o melhor calouro de 2015. Mas isso não quer dizer que ele vá manter esse nível nos próximos anos, ou mesmo que seja um jogador melhor do que Correa.

AL Rookie of the Year Ballot: 1. Francisco Lindor; 2. Carlos Correa; 3. Lance McCullers; 4. Miguel Sano; 5. Billy Burns


As estatísticas nessa coluna vieram de Fangraphs, Baseball-Reference, Baseball Prospectus, Elias Sports Bureal, ESPN Stats & Info, Hit Tracker Online e Brooks Baseball. Agradecimento especial ao Mark Simon, da ESPN, pela ajuda com os dados sobre os HRs do Francisco Lindor. 

E um grande agradecimento especial a Ryan Spaeder pelas estatísticas do Bryce Harper que ele tão gentilmente separou e compartilhou comigo para essa coluna. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A ciência por trás do bunt

Hora de descobrir se você deve usar ou não essa camisa fantástica


Vamos falar hoje de estatísticas. Por falar em estatísticas, já conhece nossa promoção para ganhar o livro Moneyball?! Sua última chance de concorrer a duas edições de um dos livros mais importantes da história do esporte!!!
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Um dos maiores preconceitos que eu vejo as pessoas do baseball tendo em relação a "Sabermetrics" vem do fato de que elas não fazem ideia do que sabermetrics é de verdade. A maior parte delas acha que é sobre criar estatísticas bonitinhas com um nome cheio de letras maiúsculas, como WAR ou SIERA, dai colocar elas em prática e pronto. É um erro grosseiro. Sabermetrics sequer trata de criar estatísticas, especificamente, embora isso seja um subproduto do processo. Você quer saber exatamente do que se trata sabermetrics? Ok, eu te conto.

Sabermetrics é sobre aplicar métodos analíticos científicos ao baseball. 

Viu? Simples, no papel. No fundo, sabermetrics é isso: parar de tratar o baseball como um "achismo" e começar a analisá-lo como uma ciência. Você acha que aproveitamento no bastão é a melhor medida da performance ofensiva de um jogador? Ótimo, então vamos analisar isso cientificamente para descobrir se é verdade ou não. Hmm, não é, acontece que OBP é um indicador melhor. E SLG ainda mais. E nesse processo você acaba tentando criar um indicador que seja ainda melhor do que esses. Foi nisso que criamos OPS, Runs Created, OPS+, e eventualmente, wRC+. Sempre querendo melhorar o indicador anterior, achar algum que - de acordo com as evidências científicas, não por palpites - seja o mais próxima possível de uma relação perfeita.

Então sim, pessoas criarão estatísticas em sabermetrics. Sempre queremos achar uma forma mais precisa de medir algo do que a que já temos. E, quando alguém inventa uma estatística nova, ele não simplesmente joga ela na internet e ela começa a ser usada - ela passa por um processo intenso de análise e escrutínio da comunidade científica associada ao assunto (incluindo, sim, as maiores universidades do mundo como Harvard e MIT). Ela será testada, analisada e testada novamente. E, como em qualquer universo científico, ela não vai sobreviver se não for sustentada por evidências fortes. Assim como na medicina ninguém vai levar a sério se eu falar que, digamos, comer grama aumenta a expectativa de vida a não ser que eu consiga sustentar esse argumento com análises, estudos e evidências sólidas, no baseball ninguém vai levar uma estatística a sério se ela não for sustentada por evidências científicas, técnicas e estatísticas - e mesmo ai ela vai estar sujeita a todo tipo de revisão para achar falhas e melhorá-la ainda mais. É inocente - ou ignorante - achar que sabermetrics se limita a ficar inventando fórmulas bonitinhas no computador e jogar na marra, e não são coisas com provas concretas e científicas sustentando-as. 

Então sim, criar novas estatísticas é parte do processo envolvido com a ciência sabermetrics. Mas não se limita a isso. Analisar o esporte de maneira científica também significa descobrir a verdade por trás de certos eventos. Na nossa vida, tomamos "verdades" com muita facilidade. Sua avó deve ter te falado sobre como comer, sei lá, leite com manga faz mal. Nos esportes não é diferente. São criados "dogmas" com muita facilidade: canhotos são mais dotados para o baseball que destros; jogador que da muitos tocos é um bom defensor; Wide Receivers precisam ser rápidos para ter sucesso na NFL; etc. Baseball tem mais desses velhos dogmas do que qualquer outro esporte, talvez por estar ai a mais tempo. E parte dessa revolução analítica tratou de olhar para essas "verdades" do esporte e ver se, no final das contas, eram verdades mesmo ou se estavam atrapalhando a vida dos times.

Bem, aonde eu quero chegar em toda essa discussão? Nos bunts. Especificamente, nos bunts de sacrifício, quando você intencionalmente cede uma eliminação para avançar os corredores em base (quando eu falar em bunts ao longo do texto, estou me referindo especificamente ao de sacrifício, não a fazer bunt para conseguir uma rebatida contra o shift, por exemplo. Espero que fique claro).

Você provavelmente já ouviu em algum lugar sobre como a mentalidade "analítica" despreza bunts, enquanto a "velha escola" adora. Você provavelmente já ouviu algum narrador ou comentarista na TV falando que tal jogador "tem que ir pro bunt" um número absurdo de vezes, ou viu alguém (tipo eu) surtando quando algum jogador bom foi para o bunt sem necessidade. Então ao invés de ficar no "achismo" - eu acho que bunt é bom, eu acho que bunt é ruim - vamos olhar as evidências, e ver em que direção as provas empíricas apontam.

Para começar, precisamos de um conceito que chama Expected Runs.


Expected Runs

Expected Runs é muito simples: em baseball, você tem 27 "estados" diferente nas quais o ataque pode se encontrar antes de uma jogada começar. Elas dependem de dois fatores: quantas pessoas estão em base, e quantos já foram eliminados. Então, ao começar uma jogada, você pode ter as seguintes situações nas bases: Ninguém nas bases; um na primeira base; um na segunda base; um na terceira base; homens na primeira e segunda bases; homens na primeira e terceira bases; homens na segunda e terceira bases; e bases lotadas. São 9 ao todo, e cada uma delas pode acontecer com 0, 1 ou 2 eliminados. Cruzando ambas você tem ao todo 27 estados ofensivos

Expected Runs nada mais é do que calcular quantas corridas um ataque tende a anotar em cada um desses 27 "estados". Um exemplo, para ilustrar: ao iniciar uma entrada, com ninguém em base e nenhum eliminado, um time tende a anotar 0.47 entradas em média. Se o primeiro jogador vem e acerta uma rebatida dupla, então seu novo "estado" é zero eliminados e um homem na segunda base. Nesse "estado", os times tendem a anotar em média 1.1 corridas no resto dessa entrada. Se esse jogador fosse eliminado, então no novo "estado" (um eliminado, zero em base) os times tendem a anotar 0.26 corridas. E por ai vai.

Como isso é calculado? Empiricamente, é claro. Pegando uma amostra suficientemente grande, mas com distribuição suficientemente semelhante para evitar grandes flutuações, calculando em média quando time anota em cada "estado", e depois testando se esse valor se sustenta cientificamente. Tem diferentes modelos para Expected Runs no mundo, e você pode fazer a mesma análise a seguir com cada um deles. Eu estou usando o mais aceito, que abrange um período de quase 56 anos de dados cuidadosamente selecionados, conforme descrito por Jeff Zimmerman, do Fangraphs. Esse modelo é o mais usado por apresentar os valores estatísticos mais significativos, e por ser o que mais se aproxima dos valores atuais do esporte, também de forma estatisticamente significativa. Então ele tem maior utilidade prática para nós no momento. 

Agora que temos as Expected Runs para os 27 cenários ofensivos do baseball, podemos ver exatamente os efeitos práticos do bunt em um jogo de baseball.


A matemática por trás do bunt

O ataque no baseball tem uma única função em um jogo: anotar o máximo de corridas possível para dar ao seu time o máximo de chances possíveis de ganhar. Existe uma óbvia e sustentável correlação entre corridas anotadas e a chance de você vencer um jogo. Então cada decisão no ataque tem que ser tomada de forma a maximizar as chances do time anotar o máximo de corridas possível. 

Então vamos começar da situação básica do esporte. O homem de leadoff conseguiu chegar em base, então com um homem na primeira base e zero eliminados, você tem uma expectativa de anotar 0.86 corridas nessa entrada. 

Então agora o técnico chama um bunt, e ele é bem sucedido. O novo estado ofensivo agora é um homem na segunda base, e um eliminado. Nesse novo cenário, a expectativa de corridas a serem anotadas pelo ataque agora é de... 0.68 corridas.

Pare para pensar um pouco nisso por um minuto. Você chamou uma jogada (o bunt), ela deu CERTO... e você custou ao seu time cerca de 0.18 corridas no processo. E a verdade é que mesmo esse número pode enganar, porque isso é o resultado de um bunt bem sucedido, o que nem sempre acontece. A taxa de sucesso de bunts na MLB nos últimos três anos foi de 84%, o que significa que tem 16% de chance de você nem acabar com esse cenário, e sim com um pior, uma eliminação e um homem na primeira base (estou deixando de lado queimadas duplas e erros defensivos por enquanto porque eles pouco mudam nos cálculos). Encorporando no cálculo a chance de que o bunt acabe dando errado, e considerando os dois "cenários" pós-bunt (e suas chances de acontecerem), então a expectativa de corridas anotadas pós-bunt é de 0.65 - 0.23 abaixo do que era antes. Simplesmente por chamar uma jogada de bunt, o técnico custou ao seu time 0.23 corridas em média. Só por empregar essa estratégia nesse cenário. Então os dados apontam que, nesse cenário, ir para o bunt é algo que prejudica o seu time, e portanto não deveria ser feito. 

É importante lembrar que o técnico não controla o que vai acontecer durante um at bat normal. Esse segundo jogador pode rebater um HR e anotar duas corridas (mais os 0.47 da nova situação de bases vazias e zero eliminados), ou pode sofrer uma queimada dupla ou um strikeout. Se ele for eliminado, certamente que alguém pode pensar "puxa, se era pra ser eliminado, então era melhor ter feito o bunt", mas isso é estúpido porque o técnico não tem como saber disso de antemão. Ele tem que analisar as chances de cada coisa acontecer, e decidir pela ação que vai trazer maior retorno para o time. Nesse caso, decidindo pelo bunt ele custou ao seu time, em média, 0.23 corridas. O que é muito. 

Vamos ver então para outros cenários, ver se essa situação se inverte. Talvez com um homem na segunda base e nenhum eliminado.

Bem, se o jogador de leadoff chegou na segunda base, a expectativa agora é de 1.1 corridas. Se um bunt for feito, e o jogador impulsionado até a terceira base (agora com 1 eliminado), o novo estado tem média de... 0.94 corridas. .016 mais baixo do que antes do bunt. E isso, de novo, se o bunt der certo. Não consegui achar se a taxa de sucesso nessa situação segue aqueles 84% (eu assumo que seja maior, já que não tem a possibilidade do forceout), mas podemos estimar: se a taxa for de 84%, então ir para o bunt vai gerar em média 0.90 corridas; se for um pouco acima (digamos, 90%), fica em .91. Então, indo para o bunt nessa situação, você custou ao seu time .19 ou .20 corridas. 

Você vai ver que essa situação se repete em qualquer "estado": ir para o bunt sempre vai diminuir a expectativa de corridas anotadas daquela entrada. Em outras palavras, ir para o bunt praticamente SEMPRE (espere as próximas seções) vai fazer seu time anotar, em média, menos corridas do que teria anotado se tivesse deixado o time rebater normalmente. Para deixar isso mais claro, eu fiz as duas tabelas abaixo. Nelas, temos os seis cenários que os times fazem rebatidas de sacrifício, a expectativa de corridas anotadas naquele "estado", a nova expectativa de corridas anotadas quando o time vai para o bunt (usando aquele aproveitamento de 84% antes descrito), e por fim quantas corridas essa decisão custou ao ataque.

Se você acha que esses 84% não são muito precisos (e não são mesmo, já que o número é uma média de todas as situações. O número, imagino eu, deve ser maior quando você não tiver uma oportunidade de forceout, e menores quando tiver), não tem problema. Logo abaixo, você tem a segunda tabela, que ao invés de usar a expectativa na hora do bunt (considerando os cenários de sucesso e fracasso) considera a expectativa no caso de um bunt bem sucedido. 

Eis então as tabelas que mostram o resultado no total de corridas esperadas de uma entrada ao usar o bunt:








Como você pode ver, ir para o bunt não é uma estratégia boa. Na verdade, ela é bastante prejudicial. 0.2 corridas pode não parecer muita coisa, mas em uma temporada de 162 jogos, é coisa pra cacete. Em 162 jogos, isso somaria 34 corridas, o que da mais de 3 vitórias (10 corridas, em média, equivalem a uma vitória). Então só por ir para um bunt todos os jogos, você está basicamente jogando três vitórias na temporada no lixo. É muita coisa, e uma diferença bastante significativa. 

Então pessoas da área mais "analítica" do esporte não desgostam de bunts por princípios, ou por que acham algo ruim. Elas desgostam porque em algum momento alguém decidiu questionar se o bunt - algo usado no baseball desde o começo - era realmente algo que valia a pena ser usado e que ajudava o time, e usando métodos científicos e analíticos, obteve evidências suficientes para concluir que não, que é uma estratégia que na verdade atrapalha a equipe. Nós acabamos de passar por um processo semelhante, usando evidências empíricas para calcular e mostrar na prática o impacto negativo de usar tal manobra. Claro, é uma forma mais simples e rústica de mostrar isso - se procurar na internet vai achar exemplos mais complexos que chegam à mesma conclusão - mas a ideia é essa: usar dados para achar evidências que comprovam ou desmentem alguma coisa. Mesmo que sejam dados pouco refinados, ainda são evidências concretas de um ponto de vista: de que bunts são prejudiciais. A diferença é grande e significativa demais, e outros estudos já entraram em cenários mais complexos e situações para diferentes times/jogadores, e chegaram no mesmo resultado de forma conclusiva.

Então quando você ouvir um narrador ou comentarista falar sobre a importância dos bunts, ou que todo jogador tem que saber fazer bunt, ele está simplesmente repetindo algo que ouviu, e que muitas pessoas já provaram que ele estava errado. Isso não é conhecimento, é ignorância. Nunca acredite cegamente no que for dito a você, sempre questione, procure a verdade, busque provas ou evidências do que aquele cara está falando. Esse é o espirito científico que, para o desespero de muitos, tem tomado cada vez mais conta do mundo esportivo. 

(Nota importante: esse mesmo raciocínio numérico tem o mesmo resultado se você separar entre AL e NL as Expected Runs, então mesmo em um ambiente como o da NL onde se anota menos corridas de maneira geral, o resultado ainda é o mesmo)


Quando devemos usar bunts?

"Espere um pouco", você está provavelmente pensando, "isso quer dizer que não tem NENHUMA situação onde um bunt possa ou deva ser usado?!". Bem, não, e é nisso que vamos entrar agora.

Você provavelmente, ao perguntar isso, estava pensando em pitchers rebatendo. Se for o caso, vou pedir que espere mais um pouco. No momento, quero falar de outra coisa: existe alguma situação normal (ou seja, que não envolva um extremo como um pitcher rebatendo) que as evidências mostrem que ir para o bunt é uma estratégia vantajosa?

Na verdade, existe sim. Uma.

Voltando ao cenário mostrado anteriormente, se você está na segunda base com nenhum eliminado, a tendência é que anote 1.1 corridas na entrada. Se você faz o bunt, agora tem um jogador na terceira base e um eliminado, e a tendência é que anote 0.94. Obviamente, em uma situação normal de jogo, isso é prejudicial, pois agora seu ataque vai anotar, em média, menos corridas do que antes. Então você não deveria fazê-lo.

No entanto, imagine que agora está na parte de baixo da nona entrada, e o jogo está empatado. Nesse cenário, não importa QUANTAS corridas você anote - o jogo acaba no momento que você anotar a primeira. Nesse caso, a nova variável mais importante não é anotar o máximo de corridas possível, e sim maximizar sua chance de anotar pelo menos uma corrida (ou, analogamente, minimizar a chance de não anotar nenhuma corrida). E nesse cenário, é o que acontece. A chance de sair sem nenhuma corrida com um homem na segunda base e zero eliminados é de 38.3%. Avançando o corredor para a terceira base às custas de uma eliminação, a chance de anotar 0 corridas agora é de 34.9%. Então nesse cenário ultra-específico (que até pode ser "extrapolado" pra outras situações onde o time busque anotar apenas uma corrida, como por exemplo tentando empatar um jogo de uma corrida na entrada final), o resultado do bunt é positivo, e não negativo.

O problema é aquele velho: nem todo bunt funciona. Você pode tentar fazer o bunt e sofrer um pop up, pode rebater forte demais e o corredor não conseguir correr até a terceira base, pode sofrer um strikeout, ou pode até mesmo acabar eliminando o corredor na terceira base. A taxa de sucesso de bunts na MLB é de 84%. Calculando a diferença entre a chance de anotar uma corrida nos diferentes estados envolvidos - homem na segunda e zero eliminados; homem na segunda com um eliminado; homem na terceira e um eliminado - você vai obter que só é vantajoso ir para o bunt nessa situação se conseguir convertê-lo a uma taxa de sucesso de 85.7%, um número ainda maior que a média do esporte em geral. Não é tão simples assim, então.

Eu tentei longamente achar a taxa de sucesso para bunts nessa situação específica, e até recrutei a ajuda de um pesquisador profissional, mas infelizmente não consegui chegar a um resultado confiável para qual seria essa taxa específica. Usando os 84% como base, eu diria que provavelmente a taxa de sucesso do bunt com um jogador na segunda base, mas nenhum na primeira, é maior do que 84%, pela não-existência da possibilidade do forceout, o que torna mais difícil eliminar alguém que não seja o rebatedor (da mesma forma, espero que a probabilidade com homens na primeira e segunda base seja inferior a 84%). O melhor que eu consegui achar foi um estudo que colocou em 88% a taxa de sucesso nessa situação, mas usando dados do baseball universitário, não profissional, e de modo geral as taxas de sucesso da NCAA são mais altas que na MLB.

Então é difícil usar como base para qualquer conclusão sem uma evidência mais significativa. O verdadeiro número possivelmente está na casa dos 85.7% exigidos para que exista uma vantagem.

Mas a verdade é que, nesse caso, a diferença é pequena demais para ser significativa. Isso significa que, estatisticamente, não é possível provar que ir para o bunt ou não ir para o bunt tenha alguma diferença nesse cenário. Os números são próximos o suficiente para justificar o bunt como sendo uma estratégia válida nessa situação, mas não grande o suficiente para justificá-la como sendo vantajosa. Em outras palavras, não temos evidência de que ir para o sacrifício nesse cenário é bom, mas também não temos para dizer que não é. Acaba se tornando uma questão mais situacional - você obviamente não vai mandar alguém como, digamos, Joey Votto para o bunt, mas se for Juan Lagares, é outra questão. 


O que fazer com um rebatedor ruim?

Enfim, chegamos aonde todo mundo deve ter imaginado. É muito comum em jogos na National League os times preferirem por mandar um arremessadores, quando sobe ao bastão, fazer um bunt se possível ao invés de rebater normalmente. A ideia por trás é muito simples: Expected Runs opera na média, mas se você tem um rebatedor muito abaixo da média, ele pode desequilibrar os cenários o suficiente (com menos probabilidade de algo bom acontecer) para tornar a opção do out construtivo (o bunt) mais vantajosa para a equipe. Isso não se aplicaria apenas para pitcher, mas também para rebatedores ruins de modo geral. Ou pelo menos é o que dizem na teoria.

Então vamos passar da teoria para a prática, e ver como isso funciona estatisticamente. Vou usar OBP (On Base Percentage) para esse cálculo, pois ela não só é mais fácil de calcular na prática (envolve menos cenários), como também um walk pode fazer o papel de um "bunt" e impulsionar o jogador uma base a mais (sem o custo da eliminação). Com base nos três diferentes cenários - quando o jogador sobe ao bastão, indo para o bunt, e rebatendo normalmente - vamos tentar calcular qual o limite do OBP que esse jogador precisa ter para que ir para o bunt passe a ser a estratégia mais vantajosa para a equipe.

Começando do nosso cenário base: zero eliminados, homem na primeira base. Corridas esperadas: 0.86. Nós já vimos que, indo para o bunt (e assumindo aquela taxa de sucesso de 84%), a expectativa de corridas para a entrada que esse novo estado gera é de 0.65 corridas. Se o jogador conseguir chegar em base, no novo cenário (1st and 2nd, zero eliminados) o ataque tende a anotar 1.47 corridas em média. Se o jogador for eliminado sem impulsionar o companheiro (homem na primeira, 1 eliminado), esse valor cai para 0.52 (por enquanto estou considerando apenas o cenário chegar em base vs ser eliminado).

Usando esses dados, para justificar ir para o bunt ao invés de deixar o jogador rebater, seu OBP teria que ser abaixo de .170.

Para começar, essa é uma figura patética para um rebatedor de MLB. Nenhum rebatedor qualificado no baseball na história da Live Ball Era teve uma temporada com OBP abaixo de .220, bem acima dos .170 que precisaria ter para o bunt começar a valer a pena estatisticamente. Isso praticamente já serve para eliminar o bunt para qualquer rebatedor normal.

No entanto, para pitchers a história é diferente. Dos 90 pitchers que entre 2010 e 2015 tiveram pelo menos 70 at bats em uma temporada, apenas 43 deles tiveram OBP acima de .170. O OBP coletivo dos pitchers rebatendo em 2015 é de .157, abaixo desse limite. Então no caso de pitchers indo ao bastão, realmente é - na média - mais vantajoso mandar o cara ir para o sacrifício... mas não sempre.

No entanto, não é da eliminação que os times tem medo quando um arremessador sobe ao bastão em situação de bunt - é da queimada dupla. Então para ter um valor mais preciso desse OBP, vamos incorporar a queimada dupla no nosso modelo, computando o valor de corridas esperadas em caso de uma DP - dois eliminados e ninguém em base geram na média 0.1 corridas por entrada. Esse modelo ainda não incorpora outros eventos comparativamente positivos na ida do rebatedor ao bastão (como rebatidas multi-base, uma eliminação além do bunt que avance o corretor, ou uma rebatida simples que impulsiona o corredor até a 3B), mas é o mais próximo que podemos chegar sem entrar em cálculos excessivamente complicados.

Tentando chegar em um número confiável, cheguei a alguns valores para a porcentagem de queimadas duplas em situações como essa. Através de pesquisas empíricas, cheguei em 8% a taxa da MLB em double plays em situações semelhantes (menos de 2 eliminados, homem na primeira base) nas últimas duas temporadas. No entanto, usando alguns dados do Baseball Prospectus com pesos lineares, o grande Ben Lindbergh chegou algo mais próximo de 13% em situações gerais de double plays (incluindo a situação descrita antes, mas não se limitando a ela). Como não da pra saber exatamente qual desses números é o mais certo, vamos usar os dois separadamente para chegar em um resultado mais preciso para o OBP mínimo a partir do qual o bunt não se justifica mais.




Ainda é muito pouco. Eu inclui a figura de 20% de DPs - um número bem mais alto do que eu consegui achar para qualquer rebatedor qualificado - para mostrar que você precisaria de uma taxa de DPs extremamente alta simplesmente para chegar no nível dos PIORES OBPs da história do esporte. Você precisaria de uma taxa de OBPs de quase 40% para chegar perto do nível médio de OBP da MLB hoje em dia, e isso antes de você lembrar que esse exercício inclui só OBP e não SLG - em outras palavras, ele ignora uma série de fatores favoráveis (rebatidas multibase, principalmente). Em outras palavras, a evidência é extremamente forte de que é impossível achar um jogador qualificado na MLB ruim no bastão o suficiente para justificar para ir para o bunt, você precisaria ser historicamente ruim em termos de OBP E ainda não adicionar muito valor em termos de SLG para justificar. Não existe um rebatedor qualificado na história do esporte que corresponda a esses critérios, então a evidência é bastante forte de que mandar para o bunt rebatedores "fracos" ainda é bastante danoso para o time.

No caso de pitchers, obviamente, é diferente. Em geral, pitchers são extremamente mais fracos rebatendo do que jogadores de campo, e portanto não só é muito mais fácil achar arremessadores com OBPs baixos que se encaixem nesse critério, como também a taxa de DPs para eles seria muito maior do que para rebatedores normais. Infelizmente, não consegui achar a taxa de queimadas duplas para arremessadores rebatendo, provavelmente porque na grande maioria dessas situações o jogador iria para o bunt.

Então vamos fazer uma estimativa desse número, usando as taxas anteriores (8% e 13%). Vou ajustar a taxa dos rebatedores "normais" para pitchers considerando dois números: a taxa de groundballs (afinal, a grande maioria das DPs vem em bolas rasteiras) e a taxa de infield hits de ambos (uma noção da capacidade do jogador de conseguir chegar na primeira base a tempo com as pernas). No caso, a taxa média de groundballs para rebatedores de campo na MLB foi de 45.4% esse ano e 44.8% ano passado, e de infield hits, 6.7% e 6.5%, respectivamente. Para pitchers, esses números foram de 61.9% e 5.6% esse ano, e 63.4% e 4.4% ano passado. Então usando os últimos dois anos de amostra e considerando a proporção entre infield hits e GB%, fizemos as estimativas abaixo, que nos levaram aos seguintes OBPs:



Ou seja, dependendo de qual dos dois números que achamos vocês acham que é o "certo" para índice de queimadas duplas na liga, o ajuste leva a 15% ou 25%, aproximadamente (como sempre, imagino que o número "real" esteja em algum lugar entre os dois).

De cara, é bem fácil perceber que o OBP "mínimo" nessas condições subiu bastante, e considerando o nível mais baixo dos pitchers no bastão fica claro que mandar seu arremessador fazer um bunt não é algo ruim. Dos 90 arremessadores com 70+ at bats em uma temporada desde 2010, apenas 8 tiveram OBP acima de .249, e 22 tiveram mais que .208. Nessa temporada até aqui (min. 20 at bats), apenas 7 (10%) pitchers tem OBP superior a .249.

Então realmente temos evidências de que, na maior parte do tempo, é realmente melhor você mandar seu arremessador para o bunt... mas não em todos os casos, certamente. Considerando que esse "modelo" não inclui outs "produtivos", esses números (.208 ou .249) provavelmente superestimam o OBP necessário para tornar o bunt algo prejudicial, e isso antes de lembrar que não estamos incluindo slugging. Mesmo que essa figura de .249 seja a real, você não vai mandar para o bunt alguém como Madison Bumgarner ou Travis Wood, jogadores cujo OBP nos últimos três anos está nessa faixa (.249 para MadBum, .248 para Wood) mas que possuem um ótimo SLG% (acima de .340 ambos) e que portanto tem melhores condições de impulsionar jogadores mais do que o normal. E DEFINITIVAMENTE não deveria mandar para o bunt Zack Greinke, que tem uma linha de .241/.299/.321 nesse período.

As evidências apontam que de fato é benéfico ao seu ataque ir para o bunt com um rebatedor no bastão na maioria do tempo, mas também sugerem fortemente que existe alguns casos de rebatedores que NÃO deveriam ir para o bunt quando sobem ao bastão (o que está alinhado com o resultado de pesquisas recentes feitas pelos sites Beyond the Box Score e Baseball Prospectus). Só porque é um rebatedor no bastão não quer dizer que o bunt seja automaticamente a melhor jogada - depende do manager saber com quais pitchers adotar essa estratégia, e quais deve deixar rebater normalmente.


Um desafio

Para finalizar, o meu amigo Vinicius Veiga, do SpinballNet, me propôs um desafio para essa coluna. Ele me ofereceu uma situação de jogo específica, que ele achava que o bunt seria uma opção vantajosa, e queria que eu testasse para descobrir o que uma análise científica diz sobre a questão. O cenário era o seguinte:

Parte de baixo da nona entrada, perdendo por um. O time tem zero eliminados, e homens na primeira e na segunda base. No bastão, um rebatedor abaixo da média, com alta taxa de groundballs, o que aumentaria a chance de uma queimada dupla (ele citou Nori Aoki, mas acabamos mudando para Ben Revere). Considerando que o bunt permitira que o jogo fosse empatado com um sac fly, e a maior probabilidade de um evento negativo com um rebatedor fraco no bastão, ele disse que nesse cenário um bunt provavelmente seria melhor para o time. E então é esse cenário que iremos agora testar.

Para começar, vocês devem ter reparado que esse cenário é semelhante ao descrito algumas seções atrás como um cenário favorável de bunt - homem na segunda base, zero eliminados, precisando de uma corrida. Eu propositalmente deixei de entrar demais nos méritos do cenário com homens na primeira e segunda base por ser um cenário mais complexo, que envolve mais fatores. Mas a matemática é igual, e o resultado (taxa de sucesso acima de 85% para ser vantajoso) é o mesmo. Então nessa situação do Vinicius, o resultado provavelmente seria o mesmo - ir para o bunt tenderia a aumentar a chance do time de empatar o jogo, especialmente com um caso mais "extremo" de ground balls no bastão.

No entanto, ainda é um cenário bastante interessante porque envolve uma variável diferente: ir para o bunt diminuiria suas chances de anotar de sair da entrada zerado (ou seja, aumenta as chances de anotar uma única corrida), mas também diminui suas chances de anotar mais de uma corrida na entrada. Anotar uma única corrida evita sua derrota, mas você ainda precisa ganhar no resto das entradas extras, enquanto anotar duas corridas já te venceria o jogo imediatamente. Então ao invés de focar nas corridas esperadas, vou olhar algo diferente: a chance de você vencer o jogo ou não.

Então para começar, temos 2 em base e 0 eliminados. Nessa situação, em média, um time vai anotar zero corridas 37.2% do tempo, e nesse caso o time seria derrotado. O time vai anotar mais do que uma corrida 40% do tempo, então nesse caso o time sairia vencedor. E anotaria apenas uma corrida nos 22.8% do tempo restantes, e nesse caso o jogo iria para entradas extras. Estou assumindo que, se o jogo for para entradas extras, a chance de cada time sair com a vitória é de 50%. Dadas essas circunstâncias, podemos chegar nas probabilidades de cada resultado para a equipe nesse cenário:




Bem próximo a 50%, como vocês podem ver.

Agora vamos supor um bunt. Vamos usar nossa velha conhecida, 84%, como taxa de sucesso. Nesse caso, eis nosso novo cenário:



Bem, você na verdade diminuiu suas chances de vitória... mas bem pouco, o suficiente para a situação específica provavelmente ter um grande impacto na sua decisão de ir ou não para o bunt, já que é bem 50-50 (importante observar que, caso de um bunt bem sucedido, o adversário poderia lotar as bases com um walk intencional, o que diminuiria ainda mais as chances de vitória da equipe, mas a diferença é pequena).

Agora vamos incluir na equação nosso bravo Ben Revere, um rebatedor abaixo da média com tendências extremas de GB%. Usando seus números de 2014, Revere conseguiu strikeouts em 7.9% das suas passagens pelo bastão; chegou em base sem uma rebatida em 4%; conseguiu rebatidas simples em 26.2%; rebatidas multibase em 3.6%; e o resto envolveu eliminações normais. Através dessa distribuição, vamos calcular exatamente qual a chance de cada cenário acontecer depois do at bat do jogador e, a partir disso, a chance de vitória esperada ao deixar o jogador rebater.

Para padronizar, estou considerando algumas coisas:

- uma rebatida simples vai impulsionar a primeira corrida, e o homem atualmente na primeira base só vai chegar até a segunda
- uma rebatida dupla vai impulsionar ambos os jogadores, vencendo o jogo automaticamente. Assim como uma rebatida tripla ou um Home Run
- no caso de uma eliminação que não seja double-play, estou considerando que nenhum jogador avançou base para facilitar as contas
- no caso de uma DP, os eliminados foram os jogadores na segunda e primeira base.

Para incluir as double plays no cálculo, voltei em cada at bat dele dos últimos dois anos e calculei a média do jogador em situações de DP, e o resultado foi de 11% - consideravelmente superior à média de 8% da MLB. Então vamos ver agora como fica nossa chance de vitória se Revere rebater normalmente:



Um pouco pior do que indo para o bunt, mas por muito pouco - apenas um ponto percentual. Considerando os ajustes e simplificações que tivemos que fazer no modelo, e considerando que a taxa de sucesso de bunt nessa ocasião fosse de 84% (eu imagino que seria menos), e que Ben Revere é um rebatedor abaixo da média. É um exemplo extremo (Revere liderou a liga em GB%), é seguro afirmar que essa diferença não é estatisticamente significativa. Ou seja, nesse cenário específico, a diferença estatística entre ir para o bunt e não ir é pequena o suficiente para ser irrelevante. Nesse caso, não existe uma resposta certa - depende muito mais do contexto (jogadores envolvidos, por exemplo) do que de uma diferença na situação em si. Um exemplo bastante interessante e instrutivo.


Conclusão

Então deixando o achismo para trás e aplicando métodos de análise científicos em situações de bunt, chegamos a algumas conclusões.

Primeiro, e mais importante, o bunt é bastante prejudicial em situações normais de jogo, e não deve ser feito exceto em situações muito específicas. Mesmo com as simplificações e trabalhando com menos cenários, a diferença ainda é muito grande e bastante significativa mesmo considerando diferentes times e jogadores envolvidos - muitos outros estudos já foram por caminhos menos simplificado e mais complexos, ajustando por outros fatores, e chegaram aos mesmos resultados.

Além disso, vimos que, mesmo no caso de um rebatedor bastante ruim no bastão, ainda não é vantajoso ir para o bunt. O nível de OBP de um jogador para justificar ir para o bunt ao invés de rebater normalmente é baixo demais para qualquer rebatedor qualificado da história do baseball, e é virtualmente impossível achar um jogador de campo ruim o bastante para justificar essa ação. Excesso em situações muito específicas, sempre é melhor ir para a rebatida do que para o bunt com rebatedores usuais.

No entanto, com pitchers o assunto é diferente. Temos evidências de que, dado que pitchers costumam ser muito inferiores no bastão (e mais propensos a DPs), de modo geral é vantajoso mandar seu rebatedor fazer um bunt do que deixar que ele rebata. E, ainda assim, nossos resultados também indicam que isso não é verdade para todos os casos, e que existe pitchers que tendem a ajudar mais o time rebatendo normalmente do que indo para o bunt - algo que também está alinhado a estudos recentes.

Por fim, encontramos algumas situações específicas que funcionam como exceções, nas quais os bunts não são prejudiciais. No caso de situações extremas de fim de jogo onde você precisa anotar especificamente uma corrida por algum motivo, por exemplo, vimos que o bunt pode aumentar ligeiramente suas chances de anotar essa uma corrida. Também analisamos um exemplo extremo de fim de jogo com uma corrida, de um rebatedor abaixo da média com tendências extremas de GB%, onde verificamos que ir para o bunt poderia ter um efeito positivo mínimo.

Nesses casos, as evidências e as diferenças numéricas são pequenas demais para serem consideradas estatisticamente significantes, então não podemos dizer que nessas situações especificas ir para o bunt é vantajoso, mas nossos dados também não dizem que seja prejudicial - em outras palavras, são duas situações extremamente específicas onde nossos dados apontam que não existe uma diferença quantitativa entre ir para o bunt ou não. Mas, como dissemos, são exceções muito específicas.

Em suma, o que fizemos aqui foi pegar um tópico de debate - a validade ou não do bunt - e aplicar métodos científicos para tentar chegar a uma resposta. É um estudo preliminar e rústico - estudos muito mais profundos e refinados foram feitos por outras pessoas ou instituições, e se tiverem interesse, recomendo que corram atrás dessas pesquisas - mas que deu resultados que estão de acordo com os achados da comunidade científica e que são baseados em evidências empíricas sólidas.

Se você discorda, ou se quiser aprofundar a questão, recomendo totalmente que corra atrás de suas próprias evidências e dados, porque é essa a essência das sabermetrics, e é isso que torna o debate muito mais rico e próximo da verdade. Quanto mais pessoas pesquisando e estudando o baseball de forma séria e competente, mais temos de base para falar com propriedade sobre o assunto, e chegamos cada vez mais longe em entender esse esporte - ou qualquer outro. Porque, como eu disse, sabermetrics se trata de aplicar métodos científicos no esporte, e esse mesmo pensamento pode ser aplicado em qualquer área que você quiser. Mantenha a cabeça aberta e uma mentalidade inquisitiva  e científica voltada para fatos e evidências, e um novo mundo se abre a sua frente. No caso em questão, um mundo dentro baseball, pronto para ser explorado e descoberto.


Os dados desse estudo vieram dos seguintes sites: Fangraphs, Baseball-Reference, Baseball Prospectus, Beyond the Box Score, Baseball Savant, gregstoll.com e Brooks Baseball. O alfa usado para os testes de significância foi de 5%. 

Agradecimentos especiais ao meu amigo Vinicius Veiga, pelo desafio e pela ajuda de modo geral, e aos meus ídolos Ben Lindbergh, do Grantland, e Daren Willman, fundador do excelente Baseball Savant, que me ajudaram com a pesquisa e com alguns dos dados mais trabalhosos dessa coluna.