Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

Mostrando postagens com marcador Mike Trout. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mike Trout. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de abril de 2017

8 motivos para se animar com a temporada 2017 da MLB




Como você talvez tenha ouvido recentemente, o TM Warning está de volta!

E para meu primeiro post de retorno, eu estava em dúvida se iria fazer um de MLB ou de NBA. Acabei decidindo por MLB por um simples motivo: eu já tenho TRÊS colunas gigantes de NBA prontas para as próximas semanas, e como a MLB começou no último domingo, me parece justo falar um pouco de baseball antes de entrarmos nos playoffs da NBA - época que o basquete vai dominar por aqui.

Então com a temporada ainda cedo demais para tirar conclusões ou fazer qualquer tipo de análise, vamos fazer o contrário: passar rapidamente por alguns pontos de interesse da temporada, e que você pode usar para acompanhar a MLB ao longo do ano. São 162 jogos de temporada, e histórias é o que não vai faltar.

E se você é um leitor antigo que está com saudade dos textos enormes e analíticos, e está decepcionado e/ou preocupado que esse texto foge um pouco desse padrão, não se preocupe: minha ideia nesse começo de retorno é experimentar com formatos e periodicidades diferentes, e para ter semanas com textos gigantes talvez tenhamos que ter semanas com formatos mais curtos e rápidos. Ainda vamos ver. Mas só digo o seguinte: textos gigantes estão vindo por ai.

Então sem mais delongas...

8 Motivos para se animar com a temporada 2017 da MLB


1. A melhor cobertura da MLB

O baseball tem crescido cada vez mais no Brasil, e cada ano parece que a cobertura da Major League Baseball por aqui atinge um novo nível. O que não é de se surpreender: cada vez mais interessados surgem, e é natural que o nível de cobertura vá aumentando conforme mais pessoas e empresas buscam alcançar esse ritmo de crescimento. Nos últimos anos tivemos cada vez mais transmissões televisivas, livros publicados (inclusive o meu favorito, Moneyball), mais blogs e sites especializados, e uma qualidade cada vez maior por parte do público.

Esse ano não é exceção. Para começar, tem algo inédito aqui no Brasil, um trabalho único e extremamente extensivo: estou falando, claro, do Guia da Temporada 2017 da MLB, projeto em formato de e-book que eu lancei junto do Vinicius Veiga, do Casa do Beisebol, e do Erlan Valverde, do Segunda Base. É um guia de mais de 200 páginas que tem tudo que você pode querer saber sobre a temporada 2017, e mais: tem um preview de cada um dos 30 times da MLB, resumo da temporada 2016, textos contando a história do esporte, e muito mais. O livro é um excelente companheiro para se ter ao longo dessa temporada, disponível na Amazon em formato e-book por 19,99.

Além disso, temos hoje muitos blogs de alta qualidade. Eu já citei dois hoje, que são os meus favoritos: o ótimo Segunda Base, tradicional já no mercado, e o novo (mas com experiência de sobra) Casa do Beisebol, ambos com muita qualidade e um acompanhamento excelente para a temporada. Mas não são os únicos: tem vários outros sites e blogs bons, e muitos outros perfis nas redes sociais dedicados a seguir uma liga, um time e até mesmo um bom jogador. Não importa qual seja seu estilo ou sua preferência, seu time ou seu gosto, você vai achar alguma cobertura que se encaixe com o que procura.

E se você está chegando agora e quer conhecer mais, e saber como acompanhar o esporte, não tem problema. Deixo aqui dois textos que vão te ajudar não só a entender as regras e o funcionamento de uma partida, mas também a entender as estatísticas usadas no esporte, e vai te dar uma introdução a esse mundo extremamente interessante das estatísticas avançadas:

Entendendo o jogo de baseball - Um detalhamento para quem está chegando agora e quer entender não só as regras, mas como é o funcionamento de um jogo de baseball;

Baseball e as estatísticas - Um passo a passo explicando a origem e o funcionamento das principais estatísticas avançadas que você encontra disponíveis no baseball hoje

Aproveitem, porque é um momento muito bom para ser fã desse esporte no Brasil.


2. A explosão ofensiva

Se você gosta de bons ataques, jogos com placares altos e muitos Home Runs, ninguém vai te julgar. É muito normal -  a própria MLB sabe desde sempre que nada atrai mais fãs e mais audiência do que placares altos e jogos movimentados.

E se for o caso, eu tenho boas notícias para você.

A verdade é que os ataques da MLB foram minguando aos poucos desde que tiveram seu auge histórico na famosa Era dos Esteroides, no final dos anos 90/começo dos anos 2000, época um tanto quanto controversa na qual a MLB deu seus jeitinhos para facilitar o uso de PEDs pelos seus jogadores, o que resultou em uma geração de jogadores extremamente musculosos e longevos que rebatiam 50 HRs por ano. Com o passar do tempo, o antidoping da MLB foi ficando mais sério, o jogo começou a dar um ênfase maior em defesa e arremessos, e aos poucos as pontuações dos jogos foram caindo cada vez mais, enfim atingindo seu ponto mais baixo em 2014, a 8.13 corridas por jogo.

Até que algo interessante aconteceu. Veja o gráfico abaixo, que mostra a evolução de corridas por jogo nos últimos 11 anos...



Começando em 2015 e dando um salto ainda maior em 2016, os ataques começaram a voltar. E quer saber o principal motivo por trás dessa reviravolta?



É isso mesmo que você viu: não só os HRs da MLB voltaram a aumentar, mas eles atingiram em 2016 um nível ainda superior a 2000, o auge absoluto da Era dos Esteróides. Em 2016 foram rebatidos mais Home Runs do que em qualquer outro momento da história do esporte, eles ajudaram a impulsionar essa retomada dos ataques explosivos na MLB.

Tem alguns motivos para isso ter acontecido, e eu espero com o tempo começar a mostrar a vocês quais são eles. Mas por enquanto, basta dizer o seguinte: os ataques estão voltando com muita força, e vai ser muito interessante ver se essa tendência continua em 2017.


3. Uma nova geração

Ao final da temporada 2016, uma tendência engraçada, que já vinha se desenhando nos últimos anos, parecia se consolidar de uma vez por todas. O AL MVP foi Mike Trout (mais daqui a pouco), de apenas 25 anos, e o NL MVP foi Kris Bryant, de 24. Entre os finalistas de ambos os prêmios, também tivemos Mookie Betts, de 23 anos, terminando em segundo na AL, e Corey Seager, de 22, terminando em terceiro na NL. Manny Machado, de 24 anos, e Nolan Arenado, de 25, foram os quintos colocados.

Entre os arremessadores, dois dos três melhores da NL em 2016 (e os dois líderes em fWAR) foram jovens de 24 anos, Noah Syndergaard e o falecido Jose Fernandez. O líder da AL em ERA foi Aaron Sanchez, também com 24 anos.

A verdade é que a MLB está vendo um movimento sem precedentes na sua história na direção de grandes talentos e estrelas cada vez mais jovens. Os jogadores parecem estar chegando cada vez mais preparados e avançados das ligas menores e até do Draft, e os times estão parecendo perceber isso cada vez mais. Veja o gráfico abaixo:




O motivo é difícil de precisar exatamente: a redução contínua do uso de PEDs reduziu o número de jogadores mais velhos sobrevivendo de doping; o avanço das estatísticas avançadas tornou mais fácil identificar (e de forma mais confiável) jovens talentos no Draft e nas categorias de base; um melhor aproveitamento desses talentos (até em termos físicos) com métodos cada vez mais modernos de condicionamento, desenvolvimento físico e medicina esportiva; o influxo cada vez maior de jogadores estrangeiros; e por que não, talvez até mesmo uma geração excepcionalmente talentosa de novos jogadores.

E esse influxo também tem efeitos muitos positivos sobre a competitividade da liga: não só temos mais bons jogadores, como isso significa que é mais fácil e mais rápido para um time se reconstruir, e isso também tem aumentado a variância das performances dos times ao longo da temporada, tornando a liga ainda mais competitiva. Entre isso, um aumento no nível de jogo, e a chegada de cada vez mais estrelas carismáticas, o efeito é dos mais positivos para quem acompanha o esporte.


4. Mike Trout

Qualquer esporte, em qualquer época, vai ter seus grandes talentos - jogadores que entrarão para a história do esporte. Recordistas, Hall of Famers, ou simplesmente jogadores extremamente memoráveis. O baseball não é exceção, e sempre é importante valorizar aquilo que temos enquanto podemos.

Mike Trout, no entanto, vai um passo além. Em parte por não ser um jogador midiático, e em parte por jogar em um time horrível, mas Trout não recebe o valor que merece. Esqueça ser o melhor jogador do baseball na atualidade, o que Trout é desde sua primeira temporada completa nas grandes ligas em 2012: o CF do Angels talvez seja o melhor jogador de todos os tempos.

Não acredita em mim? Mas a verdade é que nenhum jogador com a idade de Trout nunca foi tão bom quanto ele na história do esporte. Em 5 temporadas, esses são os números de Mike Trout na carreira: 168 wRC+, e 47.7 fWAR. O único outro jogador em 120 anos de história do baseball que conseguiu atingir essas marcas aos 24 anos foi... ninguém! Nunca aconteceu! O que ele está fazendo é sem precedentes na história do esporte.

Um outro exemplo, cortesia de um dos meus autores favoritos, o grande Jonah Keri, em sua fantástica coluna anual sobre os 50 jogadores mais valiosos da MLB:



Essa é uma comparação entre os primeiros anos completos da carreira de Mike Trout com os cinco primeiros anos da carreira do lendário Willie Mays. Em outras palavras, nos seus cinco primeiros anos, Mike Trout tem sido praticamente igual a Mays, que é amplamente considerado um dos 3 melhores rebatedores da história do esporte... e Trout é TRÊS ANOS mais novo do que Mays era, jogando em uma época muito mais competitiva.

Então você pode discordar da minha afirmação sobre Trout ser talvez o melhor jogador da história da MLB, mas não deixe isso fechar seus olhos para o que ele está fazendo, e para a história sendo escrita diante dos seus olhos. Aproveite enquanto pode esse jogador que, na sua curta história na MLB, não está devendo nada para as maiores lendas desse esporte. Não é sempre que temos a chance de ver algo assim. E considerando que jogadores da MLB normalmente tem seu auge em torno dos 27 anos, é muito provável que ainda não vimos o melhor de Mike Trout.


5. O possível surgimento de uma nova dinastia

O Jogo 7 da World Series de 2016 não foi só um dos maiores jogos da história desse esporte, e o final perfeito para uma das suas melhores World Series. Foi também a coroação de uma temporada fantástica do Chicago Cubs, que já tinha dado mostras de se tornar uma potência em 2015, mas deu um salto ainda maior em 2016. Foram 103 vitórias, disparado a maior marca da temporada, e com uma mistura impressionante: segundo melhor ataque da liga, a quarta melhor rotação, e uma defesa que não só foi a melhor da MLB como foi uma das melhores da história do esporte. Embora isso nem sempre aconteça - na verdade, é mais exceção do que regra - a verdade é que a World Series de 2016 coroou aquele que realmente era o melhor time.

E o que é realmente assustador é que esse time do Cubs, além de excelente e dominante, ainda é extremamente jovem. Seu MVP, Kris Bryant, tem 24 anos. Anthony Rizzo, sua segunda estrela, tem 27. Seu campo interno é complementado pelos muito promissores Javier Baez, de 24 anos, e Addison Russell, de 23. Kyle Schwarber, que perdeu o ano de 2016 quase inteiro mas é um excelente rebatedor, e Willson Contreras, possível catcher do futuro, tem 24. O time até mesmo conta com uma ótima categoria de base apesar de todas as promoções, liderado por Ian Happ. É um excesso gigante de jogadores jovens, ao ponto de que o Cubs está até tendo problemas para colocar todos esses jovens talentos em campo ao mesmo tempo.

Em outras palavras, não é só que o Cubs tenha conseguido ser bom durante um ano, mas eles também fizeram isso com um elenco jovem e que ainda jogará junto por um bom tempo. Muitos times são campeões e depois se desmancham com saídas, ou veem seus principais nomes decaírem com a idade, mas Chicago ainda possui a grande maioria desses jovens jogadores sob contrato por mais bons anos, e dada a pouca idade desse núcleo o mais provável é que eles ainda MELHOREM com a idade antes de decair. E se Chicago conseguir usar esse excesso (positivo) de jovens talentos para cobrir as áreas que não são tão jovens do seu time (rotação, principalmente), com a manutenção e evolução esperada desse núcleo, podemos não estar apenas olhando para um campeão em uma temporada histórica, mas por uma nova dinastia na MLB.


6. O ótimo estado das franquias do esporte

Se você acompanha a NBA, você sabe que a liga tem muitas franquias que estão em uma situação muito ruim. Times que não tem bons talentos para o presente, mas também não tem muita perspectiva de melhora com jovens talentos, complementados por uma diretoria de competência questionável - times como Orlando, Nets ou Kings, por exemplo. Na NFL também temos essas franquias que são quase uma piada, como o 49ers ou o Jets. Não são apenas times ruins, mas franquias que parecem presas à estaca zero.

Mas, interessantemente, na MLB isso parece estar em um bom momento. Você sempre, em qualquer liga, vai ter times bons e times ruins, mas os times ruins da MLB não parecem estar tão presos e sem perspectiva como os da NBA ou NFL. Os piores times da liga - como Philadelphia, San Diego, Atlanta, Brewers e White Sox - são aqueles que possuem alguns dos melhores sistemas de base da MLB, e portanto estão no começo de uma reconstrução mas já com boas perspectivas de sucesso - não são times presos e sem futuro.

Os piores times nesse sentido são aqueles que estão presos na mediocridade, como Los Angeles Angels ou Arizona Diamondbacks, times que estão presos no meio da tabela sem perspectiva de melhora, mas mesmo esses não são times horríveis: são times com superestrelas e bons jogadores que com um pouco de sorte podem sonhar com uma vaga nos playoffs. Não é que TODOS os times da liga estejam bem ou em uma boa trajetória, mas nenhum parece ser um modelo de estagnação no fundo do poço, uma piada recorrente para quem acompanha o esporte.

Existe mais de um motivo para isso: o maior sucesso de jogadores jovens (ponto 3) ajuda muito times em reconstrução, pois torna mais seguro e mais valioso os jovens prospectos; uma nova leva de executivos mais analíticos e menos presos às tradições levou a uma melhora no nível coletivo das diretorias ao redor da liga; e talvez pela estrutura financeira nova da MLB times estão com menos medo de aceitar engolir derrotas por alguns anos enquanto acumula prospectos e prepara uma reconstrução. Qualquer que seja o motivo, é um bom sinal para a Major League Baseball e para suas perspectivas de médio prazo.


7. Um esporte com cada vez mais emoção

Baseball é um esporte que tem uma das tradições mais estúpidas da história dos esportes: a ideia de que mostrar algum tipo de emoção dentro de campo é um insulto ao esporte e à sua história. Eu acho que a ideia de que você não pode se divertir jogando o esporte que gosta é uma das coisas mais contraditórias possíveis, já que esporte é para ser divertido, mas é como o baseball viveu por muitos anos. Se algum jogador parasse tempo demais para admirar um Home Run, ou comemorasse de maneira "imprópria" uma jogada, os adversários logo começavam uma briga ou o arremessador adversário jogaria uma bola nele.

Esse tipo de tradição foi perpetuada em parte porque o baseball sempre foi e se orgulhou de ser (muitas vezes, em detrimento próprio) um esporte "separado" dos fãs, onde as pessoas "de dentro" conheciam como o jogo era e se viam como responsáveis por mantê-lo puro - quem leu ou assistiu Moneyball sabe do que estou falando. Como ele era feito é a forma que DEVIA ser feito, ou pelo menos era como seguia o raciocínio.

Felizmente já faz algum tempo que isso começou a mudar. Embora o esporte ainda esteja apenas começando a dar seus passos para eliminar esse tipo de coisa, já é notável a evolução, e até mesmo a própria MLB parece estar empenhada em deixar o jogo mais relaxado e divertido nesse sentido, ficando cada vez mais estrita e sem medo de dar punições a jogadores que começam brigas ou desentendimentos. Isso também foi bastante ajudado por uma nova geração que chegou no baseball, tanto de jogadores (cada vez mais jovens, como já foi dito) como de dirigentes, que não carregam em si esse "compromisso" de manter o jogo "puro" - especialmente se puro significar "sem diversão".

E talvez o principal fator que começou a mudar o esporte foi o influxo cada vez maior de jogadores latinos. A tradição de não permitir emoções ou manifestações pessoais dentro de campo sempre foi uma tradição norte-americana (muitas vezes dos jogadores mais... como dizer isso de forma delicada? Brancos), mas os jogadores recém-chegados da América Latina não tiveram esse tipo de formação. Para eles, o esporte é uma diversão, e é assim que se comportam - fazendo jogadas imprevisíveis e criativas, mostrando suas emoções, gritando e comemorando, e em geral se tornando jogadores muito mais relacionáveis para os torcedores comuns.

O jogador que melhor simbolizava isso, infelizmente, era José Fernandez, o arremessador do Miami Marlins morto ano passado, e um dos meus heróis no esporte. Um refugiado cubano que chegou a estar preso e teve que mergulhar em alto mar para salvar a vida da própria mãe, Fernandez foi até hoje o jogador que mais pareceu se divertir em um campo de baseball que eu já vi na vida, alguém que tinha uma animação e um entusiasmos tão genuínos e sinceros por estar livre e podendo jogar baseball  que era impossível não ficar contagiado.

Fernandez comemorava suas boas jogadas, ria dos seus lances mais incríveis, ria e vibrava quando seus ADVERSÁRIOS faziam uma jogada empolgante, e comemorava Home Runs como se tivesse acabado de ganhar uma World Series, e não ligava para o que os outros pensassem. Fernandez era uma bola de alegria e empolgação que fazia o esporte valer muito mais a pena, e tão genuíno que isso contagiava colegas e adversários igualmente - inclusive muitos que, em outros momentos da carreira, teriam sido os que iriam tirar satisfação com alguém que mostrasse tanta emoção em campo. Fernandez pode ter partido de forma trágica e prematura, mas mais do que o talento fantástico, mais do que os arremessos impossíveis, essa alegria sempre será seu legado para o esporte, para fãs, colegas, técnicos e cartolas.

E isso só faz bem para o esporte. Embora sempre tenha aquela parcela conservadora da torcida que ache isso um absurdo e uma quebra do "decoro" do esporte, existe uma parte muito maior que sabe o quão isso é bom para injetar nova vida em um esporte que parecia "morto" em muitos momentos dos últimos 20 anos. Hoje jogadores estão começando a poder se expressar e se divertir muito mais em quadra, e os torcedores e fãs podem se identificar muito mais com esses seres humanos do que com as máquinas de rebater que o baseball queria vender. A transformação e "libertação" ainda não está completa, claro, e ainda terá seus percalços. Mas ela está fazendo o baseball caminhar em uma direção muito melhor do que antes.


8. Baseball é um esporte muito divertido

Sim, sim, eu sei - o baseball ainda enfrenta bastante preconceito por pessoas que o consideram um esporte "chato", E eu entendo alguns dos motivos: é um esporte lento, onde cada confronto demora vários arremessos, tem muitas pausas nas trocas de entrada ou arremessador, e costuma demorar mais de duas horas. As principais reclamações vem da falta de dinamismo nas partidas, com um jogo que evolui lentamente, e os lances mais empolgantes são muito mais pontuais.

Mas esse ritmo lento, esse jogo que vai parando mesmo durante um confronto, é parte do que torna o baseball tão legal: como ele é um jogo que se desdobra lentamente, isso significa também que é o jogo mais fácil para quem assiste acompanhar o que está acontecendo. E não digo isso no sentido de "tem mais tempo para ir no banheiro", mas sim que essa cadência nos permite acompanhar melhor o que cada jogador está pensando, como está se ajustando, a cada momento. Baseball as vezes funciona como um jogo de probabilidades: com a contagem 0-2, o arremessador é mais provável de lançar uma bola fora da zona de strike para induzir o rebatedor (que por sua vez precisa proteger a zona de strike e não sofrer o strikeout) a ir para uma rebatida ruim... mas o rebatedor também sabe disso. Qual a melhor forma de atacar? Como o rebatedor pode se defender?

O jogo de baseball é composto de milhares de pequenos fatores que mudam essas probabilidades em uma direção ou outra, e ver isso se desdobrando ao longo do jogo é um dos fatores mais legais do esporte: para um arremessador, é importante não cair em um padrão (e se tornar previsível), então ele precisa . E o ritmo lento e candenciado do esporte nos permite acompanhar essas mudanças, acompanhar os desenvolvimentos em tempo real, e nos imergir realmente não só no que está acontecendo, mas no que está por trás do que está acontecendo.. E não é como se o esporte tivesse falta de jogadas atléticas ou impressionantes - é só procurar qualquer vídeo de highlights do Andrelton Simmons, Mike Trout ou Kevin Kiermeyer no YouTube - e essa mistura entre os dois momentos do esporte, o lento e cadenciado com o explosivo e dinâmico, é o que torna o esporte tão atraente.

Além disso, a natureza individual e repetitiva do esporte tem uma outra vantagem: produz as melhores estatísticas. A natureza extremamente individual do baseblal - o confronto entre arremessador e rebatedor, cada jogada sendo isolada em si mesma, etc - é perfeita para isolar cada fator do jogo e consolidar isso em números e análises, e não só a amostra é gigantesca (162 jogos) como pela natureza de repetição do baseball você vê cada situação específica um alto número de vezes, o que te da uma amostra grande o suficiente para tornar as estatísticas significativas, como também consegue quebrá-las em níveis muito pequenos, cada vez menores, para entender o que está acontecendo em quadra. Existe um motivo para a revolução analítica pela qual vários esportes passam ter se originado no baseball.

Então sim, pode ser que baseball realmente não seja o esporte para você, que tenha tentado e desistido. Não tem problema. Mas se não for o caso, você realmente deveria dar uma chance. Existe um número altíssimo de fatores contribuindo para um esporte cada vez mais divertido, cada vez mais empolgante, e as vezes as pessoas não se aproximam disso por um preconceito ou ideia preconcebida.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Distribuindo prêmios para a temporada 2015 da MLB

Ele não aparece na coluna, mas o prêmio "Pedro Martinez de
Jogador Mais Carismático do Ano" vai para Bartolo Colón!


Apesar do triste fato de que meu Red Sox foi um fiasco desde o primeiro dia da temporada e pagou 205 milhões de dólares (algo como 392 bilhões de reais no câmbio atual) na offseason para dois jogadores que totalizaram -3.7 fWAR (entre jogadores com 400+ passagens pelo bastão, Sandoval é o segundo pior e Hanley o terceiro pior em fWAR, atrás apenas de Victor Martinez) 2015 foi uma das minhas temporadas favoritas da MLB que eu lembro de ter assistido.

Teve de tudo: performances históricas de múltiplos jogadores, trocas bombásticas, grandes surpresas, grandes decepções, uma safra histórica de calouros, grandes jogos, e tudo que você poderia pedir em uma temporada. E, enquanto os playoffs não chegam, não consigo pensar em uma forma melhor de terminar a temporada regular com uma fantástica disputa pelos prêmios individuais da temporada. Ainda que a MLB seja péssima em dar esses prêmios de forma inteligente, eu ainda tenho um estranho fascínio por eles. E, todo final de temporada, não consigo deixar de fazer minha lista pessoal de quem iria no meu ballot que nunca terei.

E eu pessoalmente não lembro de ter visto uma disputa melhor pelos prêmios individuais, de modo geral, do que está acontecendo em 2015. Dos 6 prêmios principais da temporada (e eu estou excluindo Manager of the Year por ser o pior prêmio dos esportes), TRÊS são disputas extremamente parelhas sem um claro favorito, QUATRO ainda estão bem abertas, e duas ou três envolvem performances históricas de pelo menos um jogador. Isso obviamente gera muito chorume na internet, mas também abre espaço para debates muito interessantes. Então vamos fazer nosso giro tradicional pelos prêmios individuais da MLB, começando com o menos disputado.

Colunas escritas e estatísticas válidas até 03/10, exceto a parte do MVP da AL e quando mais for avisado o contrário. 


National League MVP

É, esse é bem óbvio.

Absurdamente, a verdade é que existe uma chance real de Bryce Harper não vencer esse prêmio, o que seria um dos maiores roubos da história da MLB. Infelizmente, alguns dinossauros ainda acham que para ser o MVP seu time precisa ter ido aos playoffs, o que é patético porque você está usando um fator coletivo (vitórias do time) para julgar um prêmio individual. Sim, o Nationals não vai para os playoffs, mas que culpa Bryce Harper tem que seus companheiros não foram bem durante o ano, que o time foi assolado por lesões, e que a troca do Jonathan Papelbon falhou miseravelmente? Ao mesmo tempo, outro grande craque, Andrew McCutchen, teve uma temporada muito boa, ainda que muito inferior à de Harper... só que seu time foi aos playoffs. O fato de Cutchen ter ido aos playoffs e Harper não não tem NADA a ver com suas performances individuais, e sim com a performance do resto da equipe - porque deveria então premiar individualmente McCutchen sobre Harper sendo que a diferença foi ter companheiros melhores?

Claro, eu não digo que não se deve NUNCA olhar a performance da equipe. Entendo o conceito de valor relativo, e não sou contra se considerar tal fator em escalas menores, ou mesmo como critério de desempate entre dois jogadores muito próximos (vejam o próximo prêmio). Mas quando você tem um jogador sendo CLARAMENTE superior por uma grande margem aos demais, você não pode me dizer que ele não é o MVP. E esse é o caso de Bryce Harper.

Então vamos aos números. Harper lidera com folga a NL (e toda a MLB) em fWAR, com 9.5 - duas vitórias inteiras acima do segundo colocado. Harper também está rebatendo ridículos .331/.461/.646 na temporada com 41 HRs (líder da NL), o que da um wRC+ de 197 (ou seja, ajustando para estádio, a produção por at bat de Harper é 97% superior a de um jogador médio da MLB), com folga a melhor marca da liga (Votto é o segundo com 175). Deixe eu tentar colocar isso em contexto...

Bryce Harper: .331/.461/.646, 197 wRC+, 41 HRs.
Jogador B: .356/.499/.648, 209 wRC+, 36 HRs.

Sim, eu sei que o jogador B foi melhor, mas olhe um pouco para esses números. Um pouco mais. Deixe entrar o quão absurdos eles são. Pronto?

Bem, o primeiro obviamente é de Bryce Harper na temporada 2015, com 22 anos. O Jogador B, por outro lado, é ninguém menos que o segundo melhor rebatedor da história do esporte, Ted Williams, na sua temporada 1942 - com 24 anos. Em outras palavras, aos 22 anos Harper acabou de ter uma temporada comparável a uma temporada do auge de Teddy fucking Ballgame!! Eu já mencionei que Harper tem 22 anos? Isso é insano. Legitimamente surreal.

Espere ai, ainda não terminei de falar do quão ridícula está sendo a temporada de Bryce Harper. Desconsiderando o fato de que nenhum jogador em atividade na MLB teve uma temporada com wRC+ que chegue no nível dos 197 de Harper - nem Trout, nem Miguel Cabrera, nem Albert Pujols, nem Joey Votto, nem Alex Rodriguez - porque ele é pouco para o que o canhoto fez essa temporada, vamos tentar olhar um contexto um pouco mais histórico:

1. O único jogador da HISTÓRIA do baseball com wRC+ melhor que o de Bryce Harper em 2015 com 22 anos ou menos foi Ted Williams (221 no ano que rebateu .400). Ninguém mais.

2. Harper está com 9.5 de fWAR na temporada. Com um restinho de temporada pela frente, ainda pode chegar a 10.0 de fWAR em 2015. Os únicos jogadores da Live Ball Era a atingir esse feito com 22 anos ou menos foram Ted Williams e Mike Trout... que é tão ridículo que fez isso DUAS vezes. Se acabar com 9.5 mesmo, fica atrás apenas de Ted, Trout e Stan Musial. Excelente companhia.

Nota: Harper terminou o ano com 9.6 fWAR

3. Ted Ballgame se aposentou em 1960. Desde então, os únicos jogadores a terminarem uma temporada completa com wRC+ superior aos 197 de Harper foram Barry Bonds, Mike Schmidt, George Brett, Mark McGwire e Dick Allen. Ainda é possível que Bryce Harper termine 2015 com a melhor temporada ofensiva não-PEDs de um jogador desde 1960. Leia isso de novo. Eu já disse que Harper tem 22 anos?

Nota: Harper terminou o ano com 198 wRC+, a segunda melhor temporada ofensiva completa sem PEDs desde 1960 atrás apenas de Dick Allen em 1972.

4. Nenhum jogador com 22 anos da história do esporte teve taxa de walks melhor que os 19.2% de Harper. Nunca aconteceu. 

A temporada do Bryce Harper foi tão ridícula que eu não dei conta de compilar fatos suficientes sobre o quão ridículo ele é e/ou tem sido. Então pedi ajuda do mestre das estatísticas históricas de baseball, o fantástico Ryan Spaeder (sigam ele no twitter, sério. Agora!), para me mandar algumas estatísticas divertidas sobre esse monstro mitológico. Eis o que ele tinha a dizer:

1. Bryce Harper agora detém o recorde de bWAR para temporadas de jogadores com 19 anos (5.1) e 22 anos (10.2) na história do esporte

2. Em 2015, Bryce Harper se tornou o jogador mais jovem da história do esporte com 40 HRs e 120 walks em uma temporada. O recordista anterior? Babe Ruth. Com 25 anos. 

3. Bryce Harper tem 10.2 bWAR em 2015. Isso é mais que as melhores temporadas da CARREIRA de Albert Pujols (9.7), Ken Griffey Jr (9.7) e Hank Aaron (9.4). Você sabia que Br... pensando bem, sabe sim.

4. Bryce Harper tem 124 walks essa temporada. Isso é mais que a melhor marca da carreira de Sammy Sosa (116), Albert Pujols (115), Willie Mays (112), A-Fraud (100), Ken Griffen Jr (96) e Hank Aaron (92).

5. Em 114 jogos entre 6 de maio e 21 de setembro, Bryce Harper rebateu .376/.486/.726.

6. Dia 11 de Agosto, Bryce Harper atingiu a marca de 7.2 bWAR na temporada. Isso é igual ao TOTAL que Miguel Cabrera teve na temporada toda no ano que ganhou a tríplice coroa. 

7. Bryce Harper em 2015 lidera a NL em WAR, oWAR, wRC+, OBP, SLG, ISO, OPS, OPS+, wOBA, BB%, R, TB, HR, OffW%, RE24, WPA/LI, REW, WAA e Rbat.

Então a verdade é que Bryce Harper está tendo uma temporada tão superior a todo o resto do baseball que compará-lo com seus colegas não é mais suficiente - para uma comparação justa, precisamos recorrer às maiores ofensivas da história do baseball e seus maiores jogadores. Ele tem sido bom a esse ponto. Bryce Harper fez história em 2015, com uma das melhores temporadas da história do esporte. E qualquer jogador bom a esse ponto é o MVP, não importa se o seu time foi para os playoffs ou não. 

E antes de passar para a próxima categoria, deixo vocês com meu fato favorito, mais uma vez cortesia do grande Ryan Spaeder.

Slash line na carreira depois de 500 jogos:

Jogador A: .255/.345/.465
Jogador B: .299/.365/.488
Jogador C: .296/.385/.507
Jogador D: .291/.386/.521

Jogador A é Barry Bonds. Jogador B é Ken Griffey Jr. Jogador C é Willie Mays.

E o jogador D é Bryce Harper.

NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Arremessador A; 4. Arremessador B (Hold that thought...); 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. AJ Pollock; 9. Andrew McCutchen; 10. Jason Heyward.


American League MVP

Eu não sei o que foi mais difícil nesse prêmio: decidir quem foi o MVP entre Mike Trout e Josh Donaldson, ou decidir o resto do meu ballot. Sério, tente fazer esse exercício: como ficaria o resto do Top10 para AL MVP? É impossível. Por isso eu trapaceei e, diferente do NL MVP (que tem pelo menos uns 15 caras que eu queria citar e acabei colocando 10), vou fazer só um Top6. Minha coluna, minhas regras. Me processem.

De volta ao MVP da AL, acho que é óbvio para qualquer ser humano normal que a disputa só pode ser entre dois jogadores, Trout e Donaldson. Eles tem sido consideravelmente superiores a todos os demais jogadores da liga, com ambos no Top4 em wRC+ na AL (1st e 4th, respectivamente) e  Trout a 2 vitórias inteiras acima do terceiro colocado da AL em fWAR (Manny Machado). Não existe nenhuma alternativa realista ao prêmio de MVP que não esses dois.

Decidir entre Trout e Donaldson, por outro lado, é uma tarefa bastante difícil, pois os dois estão bastante próximos. No bastão, Trout tem uma vantagem considerável sobre Donaldson e qualquer jogador da AL: o OF do Angels tem uma slash line impressionante de .298/.400/.588 que é bastante superior aos (também ótimos) .298/.373/.571, e isso antes de lembrar que Trout joga em um dos estádios mais desfavoráveis para rebatedores da liga, e Donaldson em um dos mais favoráveis. Juntando tudo, Trout tem um wRC+ de 171 (ou seja, foi 71% melhor que um rebatedor médio da MLB por at bat) - a melhor marca da AL - e Donaldson de 155. Incluir baserunning na equação não tira a vantagem de Trout: o OF roubou mais bases mas também foi mais vezes eliminado, e Donaldson é um corredor bastante inteligente, mas a diferença é mínima: BsR diz que Trout gerou 3.3 corridas com as pernas acima da média, e Donaldson 3.9. Diferença pequena.

Do lado defensivo da bola, por outro lado, é que Donaldson tira essa diferença (ou pelo menos uma parte dela). Trout é um sólido defensor no campo externo - +0,4 UZR, +5 DRS e +2.3 Defensive Rating - mas Donaldson (um ex-catcher, btw) é um defensor de elite no canto do infield: +7.9 UZR, +11 DRS, e +9.4 Defensive Rating, a terceira melhor marca entre 3Bs qualificados da American League (Beltre e Machado). Se Trout tem vantagem no ataque, Donaldson tem vantagem na defesa.

Então se queremos decidir quem foi o jogador que mais gerou valor para seu time em 2015, Trout ou Donaldson, tem a questão importante é a seguinte: a vantagem de Donaldson do lado defensivo é o suficiente para compensar a vantagem de Trout no ataque? Eu acho que não, e as estatísticas concordam comigo: Trout tem uma vantagem tanto em fWAR (8.9 a 8.7) como bWAR (9.3 a 8.9), ainda que pequena. Se você me obrigar a dizer quem foi o melhor jogador da AL em 2015, eu direi que foi Mike Trout.

Nota: Trout terminou o ano com 9.0 de fWAR, e Donaldson com 8.6.

Ainda assim, pelo fato de que as estatísticas defensivas ainda não tem uma precisão perfeita, não é uma boa idéia levar WAR de forma absoluta para pequenas diferenças - uma pequena mudança em DRS ou UZR já seria suficiente para cobrir essa diferença. Por mais que eu acredite que Trout tenha sido o melhor jogador em 2015, não acho que essa diferença pequena em WAR (especialmente em fWAR, que eu confio muito mais) seja suficiente para dizer que Trout foi comprovadamente melhor. Pode-se dizer que os dois estão quase em empate técnico - com a diferença entre eles dentro da margem de erro.

Então se o valor absoluto dos dois foi igual - ou pelo menos muito próximo - precisamos procurar novas formas de decidir nosso MVP. Não existe escolha errada entre esses dois, é uma questão de opinião. E então podemos começar a usar alguns fatores mais abrangentes para separar os dois - como por exemplo, o contexto dos times nos quais jogam.

Eu acho ridículo, absurdo e patético - como eu disse acima - a idéia de que a campanha da equipe tem que ter um peso grande na votação para MVP. Sendo um prêmio individual, essa idéia de que você só pode vencer o prêmio se seu time foi para os playoffs é de um nível de mente pequena assustador. Não existe um esporte coletivo mais individual que baseball, e a performance coletiva não deveria ser usada quase que como uma "condição" para um jogador disputar o MVP: se seu time foi, está dentro, se não foi, está fora. Eu sei que o prêmio é para o mais "valioso", não para o "melhor" jogador, mas que valor um jogador tem pelo nível dos seus companheiros?!

No entanto, isso não quer dizer que você não possa aplicar um pouco de análise contextual - ou seja, falar um pouco do time - como um critério menor, por exemplo como desempate entre dois jogadores praticamente empatados, como é o caso em questão. Então se você quiser me falar que seu voto vai para Donaldson porque sua temporada fantástica veio para um time melhor e que vai aos playoffs, e portanto o valor adicionado pelo jogador teve um peso mais significativo na big picture da temporada... eu não tenho um problema com isso. Na verdade, é o que eu acho que vai acontecer, e se for verdade, eu estarei tranquilo. Donaldson seria um vencedor merecedor do prêmio de MVP.

Mas eu olho por outro ponto de vista. Hoje (domingo) é o último dia da temporada regular da MLB, e o Angels ainda está jogando para chegar aos playoffs - ou seja, mesmo se acabarem fora dos offs, definitivamente, não é como se a temporada do Angels não tivesse sido competitiva, ou não tivesse valor no big picture da temporada. Eles chegaram até o último dia com chances. Só você já viu o resto do time do Angels ao redor de Mike Trout?! É um milagre que tenham chegado até aqui tão próximos ainda com chances!!

O rebatedor de leadoff do Angels, Erick Aybar, teve OBP de .303 na temporada. Seu rebatedor de cleanup, Albert Pujols, rebateu 40 HRs, mas também perdeu tempo com lesões e teve OBP de .310. O único jogador do time além de Trout com fWAR acima de 2.5 foi Kole Calhoum... que você não vai acreditar nisso, mas teve OBP de .310. O Angels até jogou com Matt Joyce por incríveis 93 jogos (!!) pela falta de opção melhor. Mike Trout tem 8.9 de fWAR - todo o resto dos rebatedores do time SOMADOS tem 11.2 fWAR. Leia isso de novo. É um desastre de lineup, um dos piores da MLB uma vez que se tira Trout da equação.

E não é como se as coisas ficassem melhores do outro lado da bola. O melhor arremessador do time em 2015 foi Garrett Richards, que teve um FIP abaixo da média (ajustando por estádio) para titulares da AL com 3.83 (2.5 fWAR). Dois três pitchers seguintes com mais entradas arremessadas pelo Angels em 2015 (Hector Santiago, Matt Shoemaker, e notório lançador de pudim Jered Weaver), NENHUM DELES teve fWAR acima de 1. UM! O Angels termina a temporada com a terceira PIOR rotação titular de toda a American League. Nenhuma ajuda desse lado da bola também.

Então é, Donaldson teve a chance de brilhar por um Blue Jays que vai aos playoffs com certeza e foi o melhor time da AL em 2015. Mas o Jays também teve Edwin Encarnacion (12h em fWAR na AL), Jose Bautista (16th), Kevin Pillar (19h), Russell Martin (30th, com ótima defesa e bom pitch framing) e David Price (provável Cy Young da AL), enquanto o Angels não teve ninguém além de Trout. Tire Donaldson do Jays e eles certamente perdem muito, mas provavelmente ainda é um time que vai aos playoffs. Tire Trout do Angels e o time de Anaheim se torna um time abaixo de .500, que não chegaria nem PERTO dos playoffs e teria trocado seus principais jogadores muito tempo atrás pensando no futuro. Só por causa de Trout eles se mantiveram o ano todo na briga, e chegam nesse último dia de temporada regular com chances de playoffs. Você não vai encontrar outro jogador com maior impacto nesse sentido do que Mike Trout.

Junte isso ao fato de que, a meu ver ele, foi melhor do que Donaldson - por muito pouco, mas foi -  e você tem que Trout não foi só o melhor jogador da AL em 2015, mas também o mais valioso. Mike Trout é o meu AL MVP de 2015.

(Só para não deixar batido, mas Kevin Kiermaier, CF do Rays, teve possivelmente a melhor temporada defensiva de um OF na era das estatísticas defensivas, desde 2002: 41 DRS - o recorde anterior era 35 do Franklin Gutierrez em 2009 em 200 entradas a mais - e 29.3 UZR com 40.2 UZR por 150 jogos - melhor marca para um mínimo de 1000 entradas antes era 32 (!!!) do Brett Gardner em 2011. Esses 41 DRS também são a melhor marca para QUALQUER posição em uma temporada desde que a estatística foi criada. Adicione a essa defesa histórica um bastão médio e sólido baserunning, e Kiermaier é um muito merecido candidato a entrar em qualquer ballot de MVP. Ele não vai, porque ninguém presta atenção na defesa na hora de dar esses prêmios, mas ele merece.)

NL MVP Ballot: 1. Mike Trout; 2. Josh Donaldson; 3. Manny Machado; 4. Lorenzo Cain; 5. Kevin Kiermaier; 6. Chris Davis.


National League Cy Young

Uma das melhores corridas para Cy Young que eu lembro nos últimos anos. Entre Clayton Kershaw, Jake Arrieta e Zack Greinke, temos três arremessadores com temporadas fantásticas que disputam esse prêmio a unhas e dentes.

E dependendo do critério que você usar para definir seu Cy Young, você vai chegar em um resultado diferente. Se for por FIP, Kershaw é o claro favorito e líder da liga na categoria.. Se for por ERA, vai chegar em Greinke, líder da categoria que aliás também é o melhor rebatedor dos três. E se for por algum meio termo entre os dois, vai chegar em Jake Arrieta, que é #2 em ambos. Na verdade, eis a colocação dos três jogadores entre arremessadores da NL para diferentes categorias:


Bem parelho. Dependendo do ponto de vista, cada um tem um caso a ser feito.

Então como vamos escolher um sobre os demais? Bem, vamos por partes...

Embora ainda seja a estatística mais popular e mais usada, a verdade é que ERA é uma estatística útil, mas insuficiente. Já foi há muito provado que ERA é uma estatística influenciada por diversos fatores que estão além do controle de um arremessador, de forma que julgar um pitcher por ERA significa estar dando (ou tirando) crédito ao jogador por fatores externos a sua performance. Não que não possa existir nenhum mérito do arremessador em um ERA mais baixo, mas 95% (btw, não é figura de linguagem, esse é um número real de estudos sobre o assunto) da diferença entre o ERA e o FIP de um pitcher vem de BABIP e LOB% - duas estatísticas que os jogadores tem pouquíssimo controle sobre. FIP não é perfeito de modo algum, mas é uma forma melhor de avaliar sua performance.

Se você não acredita em mim, vamos dar uma olhada em Greinke, considerado por muitos o favorito ao prêmio. Seu ERA de 1.68 é ridículo e histórico, e Greinke merece ser celebrado por isso. Mas será que todo o mérito disso vem do arremessador? Usando FIP - que usa apenas elementos que o SP controla, como walks, strikeouts e HRs cedidos - Greinke tem 2.75, uma enorme diferença para seu ERA. E embora você possa argumentar que a diferença é mérito do jogador, é difícil sustentar esse argumento com fatos. Ao longo de sua carreira, Greinke nunca mostrou uma capacidade de gerar esse tipo de diferença entre ERA e FIP - na verdade, na sua carreira, Greinke tem um ERA MAIOR que seu FIP por 4 pontos (3.36 contra 3.32). Seu ERA extremamente baixo vem de dois fatores: um BABIP de .232 (média da liga é de .298) e um LOB% (porcentagem de jogadores que chegam em base e que não anotam corrida) de 86% (média da liga: 72.3%).

E, de novo, Greinke nunca foi capaz na sua carreira de controlar esses arremessos de forma diferenciada (nem nenhum arremessador da história, mas I digress): seu BABIP da carreira é de exatos .298, e seu LOB% de 74.9%. Então a não ser que o seu argumento seja que de repente, aos 31 anos, sem nunca ter mostrado nenhuma tendência disso na vida, Greinke descobriu uma forma milagrosa de controlar dois fatores que nenhum pitcher da história conseguiu controlar, é meio difícil argumentar que o ERA de Greinke seja realmente seu mérito e que isso faça dele o Cy Young. Não que o destro não esteja tendo uma temporada fantástica por seus próprios méritos, ele está... só não tão boa quanto parece a primeira vista.

Kershaw, por outro lado, tem um ERA de 2.16 mas sustentado por um FIP de 2.04, o melhor da liga de longe... e que aliás é o melhor da MLB para um arremessador com 200+ IP desde Pedro Martinez em 1999. Mesmo ajustando para o ambiente menos prolífico para rebatedores de hoje e as dimensões muito favoráveis do seu estádio, ainda é o quinto melhor FIP desde 2000, perdendo apenas para Pedro e Randy Johnson, os dois maiores SP da história do esporte.

E isso é fácil de identificar olhando para os números certos: Kershaw conseguiu strikeouts em 33.5% de seus confrontos (de novo, desde 2000 perdendo apenas para Pedro e Randy) - muito superior aos 23.6% de Greinke - e ainda cedeu walks em apenas 4.8%, o mesmo número do seu companheiro de time. Greinke tem obtido sucesso limitando o contato forte feito pelos rebatedores, cedendo bolas rebatidas classificadas como "forte" apenas em 27% das passagens pelo bastão... mas Kershaw cedeu em apenas 25.2%. Não importa onde você olhe, canhoto continua sendo o melhor arremessador do time. 

Mas se você quer achar uma disputa para Kershaw pelo prêmio, não é para Zack Greinke que deveria olhar. É para Jake Arrieta. 

O FIP do destro do Cubs é o segundo melhor da NL atrás apenas de Kershaw, com 2.35, e a diferença é menor do que parece quando lembramos que Kershaw joga em um dos estádios mais favoráveis da MLB. E, assim como Greinke, Arrieta tem um ERA superior ao astro do Dodgers, com 1.77. E se você quer argumentar que existe um arremessador na NL que poderia ter uma chance de ter um impacto real nessa diferença entre ERA e FIP, esse é Arrieta: o astro do Cubs tem cedido bolas rebatidas de forma "forte" à menor taxa da NL, e tem induzido contatos "fracos" com a terceira maior frequência da liga, estando em ambas as categorias melhor do que Greinke e Kershaw. 

Então vamos deixar ERA e FIP de lado por um instante e olhar uma terceira variável que tem se tornado cada vez mais usada no meio analítico para avaliar arremessadores: a performance dos rebatedores quando enfrentam-no. Não é um método perfeito, assim como FIP, mas é melhor do que ERA e um ponto de vista diferente. Para isso, vamos usar wOBA ajustado por estádio. E, para minha surpresa, quem lidera a NL com alguma folga é Jake Arrieta: rebatedores tem um wOBA ajustado de .225 quando enfrentam o destro do Cubs. Greinke (.234) e Kershaw (.242) tem ótimos números por mérito próprio que são inclusive inferiores aos do PIOR rebatedor qualificado da temporada (Chris Owings, com .258), mas Arrieta deixa os dois para trás na categoria. Claro, isso não é uma medida final: wOBA é mais interessante do que ERA por tirar LOB% da equação, mas ainda é influenciado por BABIP, ainda que em menor medida que ERA. Mas é um bom parâmetro para se olhar quando tentamos separar três arremessadores tão próximos.

E ainda tem o seguinte: Arrieta tem sido insano na segunda metade da temporada. Desde o All Star Game, Arrieta tem FIP de 2.00, ERA de 0.75 e um wOBA dos oponentes de .186 em 107.1 entradas arremessadas. Esse ERA de 0.75 na verdade é o melhor ERA da segunda metade de uma temporada na história do baseball. Entre Agosto, Setembro e Outubro, o destro tem 0.43 de ERA - isso da QUATRO corridas merecidas em dois meses e uma semana. Eu não sei o quanto isso deveria considerar na hora de avaliar o Cy Young - que afinal é um prêmio para a temporada inteira - mas os seres humanos tem um certo viés para eventos mais recentes, e acho que será algo que acabará mandando alguns votos na direção de Arrieta na hora de preencher os ballots.

No final, eu acabei chegando muito, muito perto de dar o Cy Young para Jake Arrieta. Mas no fundo, a questão Kershaw vs Arrieta se resumia à especulação e às possibilidades sobre o controle que Arrieta poderia ter sobre seu ERA contra os fatos que são os periféricos de outro mundo de Kershaw. E por mais que eu tenha adorado assistir Arrieta arremessando mais do que qualquer outro pitcher da MLB em 2015 e ache sua temporada fantástica, eu não consigo colocar a especulação na frente dos fatos. A diferença é muito, muito pequena e Arrieta será um vencedor digno se ficar com o prêmio. Mas meu voto vai para Clayton Kershaw. De novo.

NL Cy Young Ballot: 1. Clayton Kershaw; 2. Jake Arrieta; 3. Zack Greinke; 4. Madison Bumgarner; 5. Max Scherzer.


E, para deixar claro, Arremessadores A e B do meu Ballot para MVP são, naturalmente, Kershaw e Arrieta. Eu só não queria estragar a surpresa. Então oficializando:


NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Clayton Kershaw; 4. Jake Arrieta; 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. Andrew McCutchen; 9 Jason Heyward; 10. Anthony Rizzo.


American League Cy Young

A disputa Kershaw vs Arrieta pelo Cy Young da NL seja a melhor disputa desse prêmio que eu lembro de ter visto em anos. Mas embora a disputa pelo Cy Young da AL não envolva esses números e performances históricas, a disputa ainda está muito parelha e interessante.

Assim como na NL, a meu ver, a corrida pelo prêmio envolve três jogadores: David Price, Dallas Keuchel e Chris Sale. Cada um tem um caso diferente a ser feito, e bastante convincente. Então me permitam fazer rapidamente (ok, talvez nem tão rápido assim) o caso para cada um dos três canhotos.

Para David Price, que começou o ano no Tigers e encerrou no Blue Jays, o caso é bastante simples e direto: o canhoto lidera a liga americana tanto em ERA (2.45) como fWAR (6.4), é o segundo em entradas arremessadas (220.1), e ainda recebe pontos bônus por ter mantido sua dominância (e até melhorado, na verdade) mesmo trocando de time no meio do ano e tendo que se adaptar a um estádio novo e companheiros novos. Price é também o segundo da AL em FIP, oitavo em K% e sexto em BB%. Price é quem tem o caso mais fácil e mais claro para ser o Cy Young.

Keuchel, por outro lado, é um caso mais interessante e que precisa ser esmiuçado mais a fundo. Superficialmente, sua temporada já parece bem boa: terceiro em fWAR (6.1), segundo em ERA (2.48), sexto em FIP (2.91)... e, se você gosta dessa estatística imbecil, é o líder em vitórias (20). Mas tem outras duas estatísticas menos olhadas que falam mais sobre Keuchel: é o líder em entradas arremessadas (232) E em induzir groundballs (61.7%). Sobre a primeira, eu não preciso dizer a importância - se você arremessa mais entradas, você tem a chance de contribuir mais com seu time, manter seu bullpen mais fresco (melhorando sua performance), e por ai vai. A segunda é um ponto mais complicado, mas vamos começar com o seguinte: groundballs não viram home runs. Em outras palavras, se você está induzindo ground balls, você está limitando as oportunidades do adversário de mandar HRs. E ai você olha que Keuchel induz GBs 61.7% do tempo, e Price 40.4%... e ainda assim ambos estão quase empatados em HR/9 entradas: .66 para Keuchel, e .69 para Price.

O que acontece é que Price está cedendo HRs em 7.8% das suas fly balls, e Keuchel em 13.6%. Ainda que arremessadores tenham algum controle sobre essa proporção, fato é que a taxa de Price está bastante abaixo sua média da carreira (9.1%), e isso antes de considerar que o canhoto passou 2/3 da sua temporada arremessando em Detroit, um estádio muito mais favorável para conter HRs do que o Minute Maid Park onde Keuchel arremessou o ano todo. Em outras palavras, ainda que Price esteja sendo mais dominante em um nível per-inning, a dominância de Keuchel (especialmente no que tange aos Home Runs) é mais sustentável pelos parâmetros, e portanto mais mérito individual do arremessador e menos dependente de fatores externos. Some isso ao seu maior número de entradas arremessadas e o impacto que isso teve em preservar um dos bullpens mais eficientes da temporada, e o total da temporada de Keuchel pode muito bem ser superior à temporada de Price. Eu não gosto de bWAR para pitchers, mas é por essas e outras que ele lidera a AL com folga no quesito a 7.3.

Por fim, temos Chris Sale, que lamentavelmente está praticamente fora da discussão atualmente por Cy Young. O que é ridículo, porque Sale certamente tem as credenciais para isso. Lembra que Price é o segundo em FIP, sexto em K% e oitavo em BB% da liga? Acontece que Sale é o líder da AL em FIP (2.74), K% (32.1%, a segunda melhor marca na AL desde Pedro Martinez em 2000) e é segundo em BB% (4.9%), e isso tudo antes de considerar que Sale joga no terceiro pior estádio para arremessadores da AL. Sale tem sido mais dominante do que qualquer outro arremessador da AL essa temporada.

Então porque diabos Sale está sendo excluído das conversas para Cy Young? Por causa do seu ERA de 3.41, quase uma corrida inteira acima de Price e Keuchel. E isso é ridículo, porque o motivo para esse ERA alto é muito óbvio, e em nada culpa de Sale: o Chicago White Sox tem a pior defesa da temporada. De acordo com UZR, a defesa do White Sox custou ao time 39.9 corridas a mais que uma defesa média, a pior marca da temporada de longe, e DRS diz que foram 37 corridas - terceira pior marca da liga e segunda pior da AL. Do outro lado, as defesas de Astros, Tigers e Blue Jays foram a segunda, terceira e sexta melhores da AL na temporada (por DRS). Então por DRS, a diferença entre as defesas do time de Sale e dos de Keuchel e Price foi de 60 corridas. E ai, ficou mais fácil entender porque o ERA alto do Sale não é realmente um fator relevante para tirá-lo da disputa do prêmio, e sim um fator externo sobre o qual o canhoto não teve nenhum controle? E isso, claro, antes de entrar nos outros problemas de ERA, como impacto de fatores além do controle dos arremessadores. Então se você conseguir olhar além de ERA, vai enxergar que Sale foi por uma boa margem o mais dominante arremessador da MLB em 2015.

Em resumo, a verdade é que os três arremessadores tem excelentes argumentos para vencer esse prêmio, e estão separados por muito pouco. A questão é menos qual deles merece mais que os outros, e sim quais critérios cada pessoa decide olhar para tomar uma decisão. Se for olhar para os resultados, Price é a escolha fácil. Se olhar para a questão da dominância, então Sale é a melhor escolha. E se considerar sustentabilidade e impacto total para seu time, então Keuchel possivelmente tem o melhor caso dos três. No final do dia, depende muito mais do critério usado para avaliar. Eu pessoalmente valorizo mais dominação e uma performance individualmente superior para o prêmio de Cy Young, e por isso, fico com Chris Sale. Mas qualquer um dos três se ganhar o prêmio será um vencedor digno e terá feito por merecer. Excelente disputa.


AL Cy Young Ballot: 1. Chris Sale; 2. David Price; 3. Dallas Keuchel; 4. Corey Kluber; 5. Chris Archer.


National League Rookie of the Year

A segunda e última disputa sem muita graça da temporada, porque tem um claro vencedor. Kris Bryant não é só o melhor calouro da temporada, ele foi um dos melhores JOGADORES da temporada, ponto. Tanto que, se você prestou atenção, ele ficou em sétimo no meu ballot para MVP. 

O engraçado é que, no começo da temporada, parecia que essa seria a melhor disputa da temporada. Bryant e Joc Pederson chegaram tomando a liga de assalto e estavam pescoço a pescoço disputando o posto de melhor calouro do ano... até que Bryant começou a rebater HRs monstruosos e Pederson esqueceu de como se acertar uma bola de baseball. Bryant termina a temporada com 26 HRs (melhor marca entre calouros), uma slash line de .277/.368/.492 e um wRC+ que é segundo entre calouros (só Grichuk foi melhor, por 1 ponto, mas com 45 jogos a menos), sólida defesa e excelente produção nas bases. Isso tudo totalizou um fWAR de 6.3 que não só é 1.4 vitórias acima do segundo melhor calouro da temporada, como também é 10th entre TODOS os rebatedores do baseball. Kris Bryant é um monstro. Eu não posso resumir isso de forma mais direta. E como essa coluna já é longa o suficiente, vamos parar por aqui nesse prêmio, porque sinceramente acho que não tem muito a justificar nessa escolha.

NL Rookie of the Year Ballot: 1. Kris Bryant; 2. Matt Duffy; 3. Jung-ho Kang; 4. Noah Syndergaard; 5. Randal Grichuk.


American League Rookie of the Year

Outra disputa muito boa entre dois jogadores muito parecidos. Carlos Correa e Francisco Lindor são ambos shortstops, ambos tem 21 anos e fazem 22 ainda esse ano e jogaram exatamente 97 jogos nas grandes lidas. Ambos foram draftados no Top10 (Lindor #8 em 2011, Correa #1 em 2012), estrearam na MLB em um espaço de uma semana (08/06 para Correa, 14/06 para Lindor), e inclusive estiveram em colocações muito próximas na nossa lista dos Top100 prospectos do baseball (Correa era #3, e Lindor #5) antes da temporada começar.

Dentro de campo, no entanto, os estilos dos dois são bem diferentes. Leia a nossa coluna e você vai ver as diferenças: Corrêa é um rebatedor de grande potência, com um físico impressionante e que deve acabar jogando na 3B com o tempo, enquanto Lindor é um jogador mais ágil, um excelente defensor e um rebatedor mais "leve". 

E até agora na MLB a maior parte dessas afirmações parecem ter acertado em cheio. Corrêa tem 22 HRs em apenas 97 jogos, uma slash line de .282/.348/.520 (136 wRC+) e um controle surreal da zona de strike, mas também tem tido algumas dificuldades na defesa (-5.2 UZR) principalmente pela falta de alcance, mas mostrou boa inteligência e um bom braço que me fazem acreditar que um dia será um defensor acima da média na 3B. Do outro lado, a defesa de Lindor - seu principal atrativo como prospecto - brilhou na MLB também, já se estabelecendo como um defensor de elite e eterno candidato a Gold Gloves: apesar de ter jogado apenas 97 jogos, seu UZR de +9.6 já é o sexto melhor da AL inteira e melhor entre shortstops, seu rating defensivo de +14 é quarto entre jogadores e segundo entre shortstops, e seu UZR por 150 jogos de 17.9 está no nível de jogadores como Adam Hechavarria e Andrelton Simmons. 

O único quesito que na prática tem destoado das previsões até agora tem sido o bastão de Lindor. Um jogador de muito contato mas pouta potência nas ligas menores, Lindor tem rebatido excepcionalmente bem na sua curta carreira nas grandes ligas, com 12 HRs e uma slash line de .317/.357/.487, bom para um wRC+ de 131. E isso tem sido uma grande surpresa, não só pela boa potência demonstrada como pelo alto OBP, cortesia de um ótimo aproveitamento no bastão (cortesia, por sua vez, de um BABIP de .353. Mais sobre isso daqui a pouco). A idéia de Correa e Lindor era que Correa era um defensor aceitável que produziria muito com seu bastão, e Lindor um rebatedor aceitável que produziria muito na defesa. Mas até agora na temporada, Lindor tem produzido muito no bastão E na defesa, e por isso seu WAR é superior ao do calouro do Astros por uma boa margem (4.7 a 3.5). Corrêa é o melhor rebatedor, sem dúvida, mas não está sendo TÃO melhor assim, e defensivamente Lindor tem sido consideravelmente superior, mais do que suficiente para tirar a pequena diferença da produção ofensiva.

Mas como estamos falando de calouros, sempre estamos pensando no futuro, e por isso acho que vale a pena pegar um parágrafo aqui para dizer que, embora Lindor esteja jogando melhor que Correa em 2015, isso não significa que ele seja um jogador melhor ou o será no futuro. E eu digo isso porque a performance de Lindor não me parece muito sustentável. Seus números esse ano dependem de um BABIP de .353 que me parece alto demais para o tipo de rebatidas que Lindor da. Não que jogadores com seu perfil - boa velocidade e boa quantidade de rebatidas em linha - não costumem ter bons BABIPs, mas .353 é algo nível Joey Votto. Meu modelo pessoal para xBABIP estima, dado a distribuição de rebatidas do calouro, que esse número deveria estar muito mais próximo dos .335 (que já é bom, by the way), quase 20 pontos abaixo e que naturalmente derrubaria bastante seus números.

Analogamente, Carlos Correa é alguém que faz muito contato sólido e rebate uma tonelada de line drives, mas que tem um BABIP relativamente baixo de .298. Olhando seu perfil de rebatidas, esse número deveria ser bem melhor, e meu modelo corrobora essa idéia: ele aponta um xBABIP (ou seja, BABIP estimado) de .340 para Correa. Alguns parâmetros não devem se manter tão altos, claro, mas mostra como Correa tem sido ainda melhor do que os números mostram.

Eu também questiono essa repentina força de Lindor (12 HRs e .170 de ISO), um tanto quanto destoantes do que mostrou nas ligas menores. Mais especificamente, muitos de seus HRs tem cruzado por muito pouco as cercas do campo externo, e metade deles foram extremamente rentes à linha de foul ball, onde a cerca é ainda mais próxima do home plate. Pode ser que Lindor tenha apenas excelente mira, mas mostra que a força do jogador não é tão grande assim, e que seus números devem regredir conforme esses HRs mais "fáceis" param de encaixar. Só um de seus HRs viajou mais de 400 feet, apenas dois deles teriam sido HRs em qualquer estádio da MLB, e sua distância média de HR foi de 372 feet - para efeito de comparação, a média da AL é de 394,6 e nenhum rebatedor com 18+ HRs (sua projeção para uma temporada de 150 jogos) teve média inferior a essa. E não é como se Lindor rebatesse a bola com força frequentemente: sua taxa de bolas rebatidas classificadas como "fortes" é de 25.7%, o que seria a 25h pior marca da MLB entre rebatedores qualificados e igual ao número de notórios rebatedores sem potência como Yadier Molina e Nick Markakis (ambos .080 de ISO). Isso não é para dizer que Lindor não é um bom rebatedor, mas é muito provável que não será capaz de sustentar seus números atuais em uma amostra maior.  

Considerando que o prêmio de Rookie of the Year é um prêmio para a produção na temporada 2015 apenas, eu estou tranquilo entregando o prêmio a Lindor - sua produção no bastão foi ótima e sua defesa é de outro mundo, e a combinação dessas duas coisas fez dele o melhor calouro de 2015. Mas isso não quer dizer que ele vá manter esse nível nos próximos anos, ou mesmo que seja um jogador melhor do que Correa.

AL Rookie of the Year Ballot: 1. Francisco Lindor; 2. Carlos Correa; 3. Lance McCullers; 4. Miguel Sano; 5. Billy Burns


As estatísticas nessa coluna vieram de Fangraphs, Baseball-Reference, Baseball Prospectus, Elias Sports Bureal, ESPN Stats & Info, Hit Tracker Online e Brooks Baseball. Agradecimento especial ao Mark Simon, da ESPN, pela ajuda com os dados sobre os HRs do Francisco Lindor. 

E um grande agradecimento especial a Ryan Spaeder pelas estatísticas do Bryce Harper que ele tão gentilmente separou e compartilhou comigo para essa coluna. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Distribuindo prêmios da temporada 2014 da MLB

E o prêmio de pior roubada de base da temporada vai para...


Com a temporada regular da MLB finalmente acabando, me parece uma boa hora para olhar para  essa ótima temporada regular e distribuir alguns prêmios. Eu particularmente adoro esses prêmios, especialmente no baseball, porque eles são ao mesmo tempo simples e complexos: temos estatísticas e métricas extremamente avançadas a nossa disposição, mas tem muita gente que insiste em olhar para os números errados e superficiais sem olhar para os que realmente nos trazem a verdadeira performance. Ao mesmo tempo, podemos ter duas pessoas que usam os mesmos métodos de análise, mas valorizam coisas diferentes de forma diferente. São múltiplas possibilidades.

Então vamos dar uma passada pelos três prêmios principais da MLB e ver quem deveria (e quem provavelmente vai) levar cada um deles: MVP, Cy Young e Rookie of the Year. Deixo de fora Manager of the Year porque é o prêmio mais subjetivo de todos os tempos, depende demais de termos que não podemos observar e normalmente vai para o time que deu a melhor mudança de record de um ano para outro.

Ao final da minha explicação e análise, eu acrescentei duas categorias: "Também mereceriam o prêmio", para jogadores que, embora não sejam as minhas escolhas, também seriam escolhas válidas para o prêmio, e "menções honrosas", jogadores que não seriam escolhas válidas por estarem abaixo dos demais, mas que também merecem ser lembrados pelas boas temporadas que fizeram.

Antes de começarmos, aviso que vamos falar bastante de estatísticas por aqui. Então se não as conhece e quer conhecê-las, recomendo uma passada por esse post antes, onde eu explico praticamente todas as sabermetrics mais usadas (e que usaremos aqui hoje) de forma bastante longa e didática. Então vamos começar, por...


AL MVP : Mike Trout

Parece que foi ontem - mas na verdade foi em 2012 - que um calouro chamado Mike Trout tomou a liga de assalto e se tornou, da noite para o dia, uma das maiores estrelas dos esportes americanos. O recém-chegado de 20 anos não precisou de muito tempo para se estabelecer como o melhor jogador do mundo, e terminou o ano com números históricos: ele rebateu .326/.399/.564 para um wRC+ de 167 - a melhor marca da MLB na temporada - roubando 49 bases (melhor marca da MLB), sendo um dos melhores defensores do ano e, se você gosta dessas coisas, ainda rebateu 30 HRs e anotou 123 corridas. A temporada do garoto foi tão histórica que se tornou o primeiro jogador em toda a história do baseball a ter uma temporada com WAR de 10.0 ou acima com menos de 21 anos (e ele tinha 20), também de longe a melhor marca da temporada. Sem dúvida foi o melhor jogador de 2012, e teve a melhor temporada de um jogador de 20 anos da história do baseball, mas ainda assim Trout não ganhou o MVP - ganhou Miguel Cabrera, um excelente rebatedor que ganhou a Tríplice Coroa naquele ano... e que terminou com números ofensivos quase idênticos a Trout (167 a 166 em wRC+), mas o CF do Angels estava em outra estratosfera como corredor e defensor (duas áreas onde Trout foi um dos melhores e Cabrera um dos piores do ano) e portanto foi um jogador muito melhor. A justificativa de muitos era que Cabrera levou o Tigers aos playoffs enquanto o Angels não chegou na pós-temporada, mas até essa justificativa foi patética: o Angels na verdade ganhou mais jogos naquela temporada que Detroit (89 a 88), e o time de Michigan só foi aos playoffs porque jogava em uma divisão fraquíssima. Então se você está acompanhando, o principal motivo para Trout não ter vencido o troféu que mereceu em 2012 foi "o time dele joga em uma divisão mais difícil que o time de Miguel Cabrera". E é um péssimo motivo. Trout foi roubado.

Em 2013, tivemos mais do mesmo: de novo Trout foi o melhor jogador do baseball por quilômetros, rebatendo .323/.432/.557 (177 de wRC+, segunda melhor marca da MLB), roubando 33 bases, jogando sua boa defesa de costume, e novamente terminando o ano com o melhor WAR do baseball (10.5, mais de 2 acima do segundo melhor). Novamente, a temporada fez história: foi apenas a segunda vez na história do baseball que um jogador de 21 anos ou menos teve 10+ de WAR em uma temporada (o primeiro, claro, foi ele mesmo em 2012), e apenas a quarta vez desde Ted Williams que um jogador teve 10+ de WAR em dois anos consecutivos (os outros três? Mantle, Mays e Bonds). De novo, Trout era o melhor jogador do baseball, e o melhor jogador de 21 anos da história... e de novo ele perdeu o MVP para Miguel Cabrera. Ainda que Trout novamente merecesse o prêmio, dessa vez a vitória de Cabrera foi mais justificável: ele teve uma temporada histórica em seu próprio direito,  com uma das melhores performances ofensivas da história do baseball (.348/.442/.636, 192 wRC+, 44 HRs), e o Tigers dessa vez realmente foi um time muito superior ao Angels. Trout merecia ter ganho, de novo, mas não foi um absurdo tão grande como foi em 2012.

Mas agora, em 2014, não tem nada que tire o prêmio das mãos do fenômeno do Angels. Ele novamente lidera a MLB com seu bastão, rebatendo .291/.382/.567 com wRC+ de 170 e 35 HRs. Sua defesa e velocidade nas bases pioraram nesse ano quando Trout deu mais ênfase em seu jogo aos home runs, mas ele ainda gera valor suficiente com eles para liderar a MLB em WAR confortavelmente (8.1 - nenhum outro jogador passa de 6.6). Em outras palavras, ele ainda é o melhor jogador do baseball com folga, como foi nos últimos dois anos. Mas dessa vez, não tem nenhum argumento que justifique dar o prêmio a outra pessoa: o seu Angels é o melhor time da MLB com 96 vitórias, e Trout seu melhor jogador, então não tem a desculpa dos playoffs. Também não tem nenhum outro jogador como Cabrera em 2013 colocando uma temporada histórica, ou mesmo colocando ótimos números superficiais como em 2012. E se você não gosta de estatísticas avançadas e inteligentes, mesmo assim Trout tem um caso para ser o MVP: ele lidera a MLB em corridas  anotadas (113) e é segundo (primeiro na AL) em corridas impulsionadas (110), sem falar que é o quarto em Home Runs e o melhor jogador do melhor time do baseball. Tudo aponta para Trout como o melhor jogador do baseball, e esse é finalmente o ano que ele receberá o troféu que deveria ter sido seu por direito em 2012 e 2013.

Também mereceriam o prêmio: Ninguém, de verdade.
Menções honrosas: Corey Kluber (espere um pouco); Michael Brantley (temporada espetacular quando menos se esperava); Alex Gordon (talvez o jogador mais completo de 2014); Jose Bautista (lidera MLB em OBP); Jose Abreu (segundo melhor bastão da MLB).


NL MVP: Clayton Kershaw

Para falar do MVP da National League, primeiro temos que responder a duas perguntas que são feitas desde que o prêmio de MVP existe. A primeira é: pitchers podem ser MVPs? E a segunda é: a performance de um time deveria afetar a escolha do MVP? Vamos por partes, então, como diria Simon Blackquill.

Vamos começar pela primeira: pitchers podem ser MVPs? Essa é uma discussão muito antiga, que ganhou muita força em 1999 e 2000, quando Pedro Martinez submeteu o melhor biênio de um arremessador da história do universo conhecido... mas não ganhou o MVP, porque alguns votantes (curiosamente, de New York, sendo que Pedro jogava em Boston. Hmm....) estupidamente declararam que arremessadores não poderiam ganhar o prêmio, e o deixaram totalmente de fora de seus ballots.

O argumento dessas pessoas é simples: um arremessador joga apenas uma vez a cada cinco dias, enquanto um rebatedor joga todo dia, então um arremessador não tem tanto impacto quanto um jogador de "linha" ao longo de uma temporada. Mas esse argumento não é bem verdade. Um arremessador pode jogar apenas um quinto dos jogos de um rebatedor normal, mas ele impacta esses jogos muito mais. Por exemplo, David Price enfrentou 947 rebatedores nessa temporada, maior marca da MLB. Mas o jogador que mais foi ao bastão esse ano, Ian Kinsler, o fez apenas 700 vezes. Se voce considerar que metade de um at bat é o arremessador e metade o rebatedor, então na verdade um arremessador vai afetar a temporada bem mais do que alguém que vai ao bastão rebater. É claro, um jogador "de linha" afeta o jogo em outras maneiras além de ir ao bastão - o que ele faz correndo nas bases, e principalmente, jogando na defesa. Ian Kinsler, por exemplo, jogou 1362 entradas como defensor, participando de 350 jogadas e vendo 412 bolas sendo rebatidas para sua região do campo. Então é verdade que, no total - entre suas 350 jogadas como defensor, 700 idas ao bastão, mais 190 vezes em base (onde afetaria com sua velocidade) - Ian Kinsler teve uma influência total maior do que David Price enfrentando 947 rebatedores, mas a diferença não é tão grande assim a ponto de você automaticamente excluir um arremessador da comparação com um rebatedor. Se um pitcher é superior aos rebatedores ao ponto de tirar essa diferença que existe entre a posição de ambos, então é totalmente natural que ele ganhe o prêmio de MVP. Então um pitcher PODE ser MVP, e deve ser considerado nessa conversa se foi bom o bastante.

O segundo ponto é mais controverso, e depende apenas da opinião de cada um: a performance coletiva (em particular, se ele vai ou não aos playoffs) de um time deveria influenciar a votação de MVP? Minha resposta pessoal, e o critério que eu adoto: sim, deve influenciar. Mas não sendo, como muitos usam, um fator limitante, ou maior do que os outros - ou seja, o fato de um jogador não estar indo aos playoffs não deveria automaticamente excluí-lo de concorrer ao prêmio. Eu vejo a performance coletiva como um dos muitos fatores que influenciam a escolha do MVP, sem ser mais importante do que os outros. Isso pode, de certa forma parecer injusto com um jogador, já que baseball é um esporte onde um único jogador influencia muito menos do que na NFL ou NBA, por exemplo. Mas eu encaro desse modo: um jogador que adicionou 7 vitórias ao total do seu time foi melhor, claro, que um que adicionou 6.5. Ele é o melhor jogador. Mas um cara que, ao adicionar 6.5, fez seu time passar de 82 vitórias para 88.5 e uma vaga de wild card teve um peso maior no resultado final do que um jogador que, digamos, fez seu time passar de 72 para 79. Esse jogador foi mais valioso, por assim dizer. Claro, não existe nenhuma forma de precisar exatamente quanto isso deveria pesar, mas ai que entra o bom senso e o fator humano da questão. Então sim, o record final do seu time importa, embora não seja um fator determinante.

Tendo respondido essas duas perguntas, para sabermos quem é o MVP da NL, precisamos começar com quem foi o melhor jogador lá esse ano. Para mim, o melhor jogador foi Jonathan Lucroy. O catcher do Brewers não tem os números ofensivos espetaculares que seus concorrentes Giancarlo Stanton e Andrew McCutchen tem (e que compõem seu principal argumento pelo prêmio), mas ainda assim tem números excelentes no bastão, rebatendo .303/.372/.472 com wRC+ de 134 que ainda é o sexto maior da NL inteira entre jogadores com pelo menos 600 idas ao bastão (ele também é o primeiro catcher da história da MLB com 50+ rebatidas duplas). Mas Lucroy tem uma coisa ao seu favor que Cutch e Stanton não podem dizer: ele é um fantástico jogador do outro lado da bola, um dos melhores Cs defensivos de todo o baseball, enquanto que Cutch e Stanton, enquanto não são defensores ruins, não estão tendo boas temporadas com suas luvas. Além disso, Lucroy é um catcher - não existe posição mais difícil de se jogar no baseball do que essa, e portanto ter um exímio defensor E rebatedor na posição é muito mais importante do que tê-lo em um OF ou 1B. 

Quando consideramos seu impacto enorme dos dois lados da bola mais sua posição, onde rebatedores como ele são raros e a prêmio (e os que são raramente são tão bons defensivamente), eu considero Lucroy o melhor jogador da NL em 2014. E embora seu WAR (6.2) está abaixo de Kershaw (6.8) e Cutch (6.4), tem um motivo para isso: WAR ainda não inclui uma "descoberta" recente das sabermetrics, que é o pitch framing. Pitch framing é a capacidade de um catcher de, quando está recebendo bolas atrás do home plate, transformar balls em strikes, e evitar que o contrário aconteça. É uma habilidade extremamente importante, e Lucroy é o melhor no quesito: depois de liderar todos os catchers em 2013, StatCorner (pioneiro no desenvolvimento dessa estatística) coloca Lucroy em segundo em corridas "salvas" com framing na temporada 2014, "salvando" 21.3 corridas em relação a um jogador médio na posição. WAR não inclui framing pela dificuldade em quantificar isso que ainda temos (como eu disse, é um campo de pesquisa muito recente), mas se pelo menos 10 dessas 21.3 corridas fossem computadas como "Above Replacement" em WAR, isso já seria suficiente para colocar o WAR de Lucroy acima dos 7 e como o melhor da MLB. Ainda que não vá entrar em detalhes numéricos porque, afinal, hoje em dia ainda não sabemos como, para mim isso tudo é suficiente para colocar Lucroy como o melhor jogador da NL em 2014, um pouco a frente de Kershaw que, apesar de estar tendo uma temporada inacreditável em um nível "por jogo", perdeu bastante tempo machucado e tem apenas 190 IP e 718 rebatedores enfrentados, muito abaixo dos principais arremessadores da temporada.

Mas ai entra a questão: o Brewers não vai para os playoffs apesar da temporada fantástica de Lucroy, enquanto o Dodgers está ganhando a divisão apertado nas costas de Kershaw. Se a diferença entre os dois fosse considerável - digamos, se Lucroy fosse um jogador nível Mike Trout - eu estaria argumentando a favor de Lucroy como o MVP apesar da performance de seu time. Mas para mim, a diferença na temporada entre os dois é bem pequena - na verdade, é principalmente pelo tempo que Kershaw perdeu machucado, pois o arremessador do Dodgers é superior como jogador - então eu prefiro dar o prêmio para Kershaw (sem ele, o Dodgers estaria lutando desesperadamente pela segunda vaga do Wild Card) do que para Lucroy (sem ele, o Brewers não teria sido uma surpresa na temporada, mas no final acabaria fora dos playoffs da mesma maneira). É um pouco injusto, talvez, mas não é uma disputa fácil. Lucroy ou Kershaw, para mim os dois estão tão próximos que qualquer um deles poderia tranquilamente vencer o prêmio. Mas fico com Clayton Kershaw.

Também mereceriam o prêmio: Jonathan Lucroy; Andrew McCutchen; Buster Posey (demorou para pegar fogo); Giancarlo Stanton (se não machucasse...)
Menções honrosas: Anthony Rendon (vai ser uma estrela); Carlos Gomes (o Alex Gordon da NL); Johnny Peralta (PEDs!); Jason Heyward (se pelo menos a força no bastão voltasse...).


AL Cy Young: Corey Kluber

Eu sei que Felix Hernandez muito provavelmente vai ganhar esse prêmio. Mas ele não devia, porque o melhor arremessador de 2014 da AL está sendo Corey Kluber, o fenômeno do Indians que surgiu de onde ninguém esperava. O caso a favor de Kluber é simples: ele e Felix lançaram quase o mesmo número de entradas na temporada (Kluber tem até 1.2 a mais, mas enfim), então essa disputa depende apenas de qual dos dois foi melhor, mais individualmente dominante, em um nível "por jogo", ou "por entrada".

A primeira vista, pode parecer que esse foi Felix, porque ele possui o melhor ERA, 2.07 contra 2.53. Mas isso é besteira. Já faz muito tempo que se descobriu que ERA não é a melhor estatística para medir o quão bem um arremessador tem arremessado. ERA mede o resultado final apenas das jogadas, e é altamente influenciado por fatores que não tem nada a ver como a habilidade e atuação do arremessador em questão, como a atuação da sua defesa, o estádio onde jogam, ou mesmo sorte. Sendo assim, não é a toa que o ERA de Kluber é pior, já que ele joga em frente a pior defesa de todo o baseball: "Defensive Rating" do Fangraphs coloca o Indians como a segunda pior defesa da MLB, enquanto tanto UZR como DRS (duas estatísticas diferentes para defesa) colocam a do Indians como a pior do baseball por uma distância enorme. Para efeito de comparação, DRS diz que a defesa do Mariners (onde Felix joga) "custou" ao seu time 12 corridas ao longo do ano... enquanto a do Indians custou 78 corridas (!!). UZR diz que a do Mariners, por outro lado, "salvou" 9 corridas acima da média... enquanto que a do Indians "custou" 70 corridas abaixo da média. Supondo que a falta de ajuda da defesa tenha custado igualmente para cada arremessador (ou seja, dividindo por cinco), a incompetência da defesa sozinha explicaria a diferença de ERA entre os arremessadores. Então não podemos culpar Kluber pela defesa horrível que joga atrás dele.

Ao invés disso, podemos e devemos olhar para as coisas que um arremessador de fato controla: walks, strikeouts, HR e FIP. (FIP, em particular, é uma estatística interessante que pega apenas esses fatores e projeta quanto seria o ERA do jogador considerando apenas o que um arremessador de fato controla, desconsiderando defesa, sorte, e parte dos efeitos de estádio. Desnecessário dizer, ele é muito melhor do que ERA em termos de correlação com resultados futuros). Kluber da um show em todas essas: ele é o terceiro melhor arremessador da MLB em K%, eliminando 28% dos rebatedores que enfrenta, e 22nd melhor evitando walks (apenas 4 lugares atrás de Felix). Seu FIP é o melhor entre os arremessadores da AL, com 2.39, superior aos 2.54 de Felix, e isso antes de considerar que Felix joga em um estádio mais favorável a arremessadores que Kluber. E embora eu não seja tão fã de WAR com pitchers, ele lidera todos os arremessadores no quesito com 7.0. Não a AL. Toda a MLB, acima até de Kershaw e seus 6.8 (Felix tem 6.1).

Então Felix é o favorito a ganhar o prêmio, está tendo uma temporada incrível em seu próprio mérito, e tem mais nome. Mas Kluber tem sido um arremessador melhor do que ele nessa temporada, mais dominante, e deveria ganhar o Cy Young por direito.

(Na noite que eu termino essa coluna, Felix cede 8 ER em 4.2 IP para elevar seu ERA para 2.34 e dar ainda mais legitimidade ao argumento "Kluber para Cy Young"? Claro que sim. Perdão, torcedores do Mariners.)

Também mereceriam o prêmio: Felix Hernandez
Menções honrosas: Jon Lester (ponto alto de duas temporadas conturbadas); Chris Sale (machucou e não jogou entradas suficientes); Garrett Richards (idem); Phil Hughes (melhor K/BB ratio da história do baseball, mais um vitimado por uma defesa horrível).


NL Cy Young: Clayton Kershaw

Quer dizer... eu preciso mesmo explicar essa? Nem vou perder meu tempo. Mas vou aproveitar para falar de outro ponto.

Enquanto a temporada histórica de Kershaw dispensa explicações, um ponto rápido para ajudar a colocar a temporada de Kershaw (e de todos os outros muitos arremessadores que estão tendo o melhor ano da carreira em 2014) em perspectiva, para ajudar a entender porque de repente todos os arremessadores estão dando saltos enormes.

O fato é que, desde os anos 60, a MLB nunca esteve tão favorável a arremessadores como é hoje em dia. Os números de rebatedores vem regredindo continuamente, e esse ano atingiu seu ponto mais baixo - desde 1973, quando foi criado o Designated Hitter, a MLB não apresentava números tão ruins em AVG, OBP, e mesmo o slugging, mais alto hoje do que nos anos 70, está em seu patamar mais baixo desde 1992. Os rebatedores estão andando menos (7.6%) E sofrendo strikeouts mais frequentemente (20.3%) do que em qualquer outro ponto desde 73. Hoje, ser arremessador é muito mais fácil do que o era a 10, 20, mesmo 30 anos, e esse é um forte motivo pelo qual tantos arremessadores (incluindo Kershaw) de repente viram um salto nos seus números.

Entre os motivos temos alguns mais simples (maior difusão e proficiência de arremessos difíceis como splitter, slider e cutter; estatísticas avançadas que permitem ao arremessador maior estudo sobre os adversários; maior uso de shifts e estratégias defensivas mais avançadas; zona de strike muito maior) e alguns não tanto (estatísticas defensivas muito mais avançadas fazem com que seja mais fácil para times acharem grandes defensores ou eliminarem os péssimos; menor uso de esteróides; maior compreensão sobre BABIP por parte dos times; muito mais pitch framing).

Para colocar em perspectiva, que tal isso: hoje, a slash line média dos rebatedores da MLB é de .251/.314/.387. Em 2000, quando Pedro Martinez teve sua lendária temporada de 1.67 ERA, a slash line média era de .270/.345/.437. Quando teve 1.39 de FIP em 1999, recorde da MLB, a slash line média era de ..271/.345/.434. Em 2014, essa é quase a slash line de Kyle Seager (.273/.340/.467), 11th da MLB em WAR, e melhor que a slash line do candidato a MVP da AL Alex Gordon (.264/.345/.430), 9th em WAR. E isso era um rebatedor MÉDIO da MLB na época (hoje seria algo como Dionner Navarro piorado um rebatedor médio). É um simples fato, mas hoje tem muito mais agindo em favor dos arremessadores do que em qualquer outro ponto dos últimos 40 anos, o que explica os números anormais que estamos vendo em 2014.

Sabendo disso tudo, ainda está impressionado pela temporada histórica de Clayton Kershaw? Sem dúvida. Mas faz muito mais sentido agora, certo?

Também mereceriam o prêmio: Ninguém chega perto
Menções honrosas: Jordan Zimmerman (tão underrated); Adam Wainwright (a consistência em pessoa); Johnny Cueto (um pouco overrated por ERA); Stephen Strasburg (melhor changeup da MLB); Madison Bumgarner (mais novo que Matt Harvey, 2 anéis, 15 IP e 0 ER em World Series)


AL Rookie of the Year: Jose Abreu

Se Masahiro Tanaka estivesse ficado saudável, talvez teríamos alguma disputa ou alguma discussão por aqui. Talvez. Mas sem ele, não existe ninguém para sequer desafiar Jose Abreu, que rebateu 35 HRs (#4 da MLB) com  .318/.384/.587 de slash line que é a segunda melhor da MLB (166 wRC+) depois de Trout. Ele não foi só o melhor rookie como um dos melhores jogadores de todo o baseball em 2014. Ponto.

Mas e se não incluíssemos no ROY jogadores que tiveram carreira profissional fora da MLB (ou seja, Tanaka e Abreu), quem seria o favorito ao prêmio? Os arremessadores Colin McHugh (mais consistente) e Marcus Stroman (mais dominante), ou até mesmo Yordano Ventura, teriam bons argumentos para levar o prêmio para casa. Mas meu voto iria para Kevin Kiermaier, OF do Rays, que em 103 jogos foi absolutamente dominante por um decepcionante time de Tampa Bay. Ele rebateu sólidos .262/.314/.445 em um estádio desfavorável, e dobrou como um dos melhores defensores de campo externo do baseball em 2014, e tem o maior WAR entre calouros não-Abreus com 3.7. Ele teria meu voto em um ano decepcionante para rebatedores calouros.

Também mereceriam o prêmio: Nope, nenhum outro
Menções honrosas: Kevin Kiermaier (ver acima); Masahiro Tanaka (maldito cotovelo!); Dellin Betances (uma das performances de bullpen mais dominantes dos últimos anos); Colin McHugh (ótima temporada perdida em um time ruim); Brock Holt (defensor mais versátil do baseball); Yordano Ventura (segunda fastball mais rápida de 2014).


NL Rookie of the Year: Jacob deGrom

O prêmio de MVP, a meu ver, tem uma preposição simples: você tem que escolher o jogador que, ao longo do ano, mais agregou valor ao seu time. Em outras palavras, tempo de jogo importa - é melhor você afetar um time por 160 jogos do que por 120, ainda que o que o fez por 120 tenha sido um pouco melhor em um nível "por jogo". É a natureza do prêmio.

Para calouro do ano? Não existe uma direção clara. Apenas diz para votar no melhor calouro da temporada, mas o que isso significa exatamente isso? Votar no jogador que, ao longo do ano, foi o melhor no somatório da sua temporada, naquele que gerou mais valor total para sua equipe? Ou votar em um jogador que foi mais individualmente dominante no tempo que jogou, ainda que não tenha jogado tanto (como acontece frequentemente com calouros) e agregado tanto valor total como outros? É uma decisão pessoal, sem uma diretriz clara.

Digo isso porque, na disputa pelo ROY da NL, temos dois jogadores que se enquadram nos dois casos, e qualquer um pode muito bem ser o calouro do ano: Billy Hamilton, o velocista do Reds que foi titular desde o primeiro dia, jogou 150 jogos e foi um dos melhores corredores (56 bases roubadas) E defensores da liga inteira (ainda que não consiga rebater ou chegar em base), agregando mais valor total do que qualquer outro calouro da NL; ou Jacob deGrom, o arremessador do Mets que jogou apenas 22 jogos e arremessou 140 entradas, mas que foi absolutamente dominante nesse tempo  limitado?

Eu particularmente sou um grande fã do Corolário de Bill Walton - eu prefiro um jogador que atingiu um nível muito alto por menos tempo a um jogador que foi consistentemente bom por um período de tempo maior mas sem nunca ter atingido aquele nível especial. Então eu fico com deGrom, porque no tempo que jogou, ele foi realmente especial: se qualificasse com entradas o suficiente, deGrom seria 6th na NL em ERA, quarto em FIP, e até 13th em WAR apesar de ser um dos dois únicos jogadores do Top30 (Jake Arrieta o outro) a lançar menos de 150 entradas). Só Kershaw, Strasburg e Arrieta conseguiram melhor aproveitamento nos strikeouts que deGrom (25.5%), e isso antes de entrar no mérito de que deGrom não era esperado que fosse nada demais na MLB depois de passagens sem destaque pelas ligas menores durante quatro anos. Ele ganhou esse prêmio pelas suas atuações, mas digamos que não atrapalha ter uma história tão improvável de sucesso.

Então Hamilton foi o jogador melhor na totalidade do ano, e se fosse um prêmio de MVP, ele teria meu voto. Mas ele nunca foi tão bom quanto deGrom foi em nenhum momento, e como o ROY nos permite escolher qual dos dois preferimos, meu voto fica com deGrom, o melhor arremessador calouro do Mets desde Doc Gooden. Nada má essa companhia.

Também mereceriam o prêmio: Billy Hamilton
Menções honrosas: Chris Owing (começou bem o ano, depois caiu); Travis D'Arnaud (irregular, mas rebatendo .266/.314/.469 desde que voltou da AAA); Kolten Wong (foi um ano bem fraco para calouros da NL...).


Prêmio de honra por conjunto da obra: Derek Jeter

Esse não é um prêmio pelo que Derek Jeter fez em 2014, quando aliás está tendo uma temporada ruim. Mas assim como o Oscar tem um prêmio de honra por contribuições totais ao longo da carreira, a MLB também deveria ter um prêmio anual para premiar jogadores (se aposentando ou já aposentados) de forma a honrar jogadores que fizeram muito pelo jogo, e carreiras importantes. Eu deveria ter pensado nisso em 2013, quando dava tempo de honrar Mariano Rivera ou Todd Helton com esse prêmio, mas 2014 é a hora perfeita para criar esse prêmio e dá-lo para Derek Jeter.

Acho que todo mundo conhece as credenciais de Derek Jeter como jogador - ele é o sexto jogador com mais rebatidas válidas da história do baseball, um dos cinco melhores shortstops da história do baseball, um dos melhores jogadores da sua geração. Ele foi o capitão de uma das maiores dinastias do baseball (os Yankees do final dos anos 90) e tem anéis de campeão suficientes para encher uma mão, sem falar em uma enorme coleção de rebatidas e momentos (até defensivos!) decisivos e importantes ao longo de sua carreira de playoffs. Ele se aposenta como um líder e um grande vencedor, alguém que mostrou incrível consistência e longevidade ao longo da sua carreira. Vou contar para meus netos que vi Derek Jeter jogar.

Mas mais do que o jogador que Jeter era dentro de campo, o que vamos mais sentir falta é de quem ele era fora de campo. Jeter era o perfeito profissional, o perfeito jogador: muita classe dentro e fora de campo, entrevistas interessantes, muito carisma, alguém que nunca desceu ao nível dos Barry Bonds e Alex Rodriguez em termos de esteróides e que sempre se conduziu com imensa compostura e classe ao longo da carreira. O tipo de jogador que imediatamente virou a cara do baseball, o símbolo do jogo em um nível cultural, um verdadeiro embaixador - e mais, o embaixador respeitável, de cara limpa, que o jogo precisava urgentemente durante uma era turbulenta marcada por rebatedores de 130kg de músculo e duas testas rebatendo 60 home runs. Eu digo isso como um torcedor fanático do Red Sox que odeia o Yankees quase religiosamente: poucos jogadores eram mais fáceis de gostar, de respeitar e de admirar do que Derek Jeter. Eu sentirei falta de vê-lo rebatendo line drives e correndo as bases, mas eu REALMENTE sentirei falta de saber que você pode contar com ele para falar a coisa certa na hora certa, elogiar um adversário que merece, e nos lembrar do lado bom do baseball, longe dos Bud Seligs, longe dos A-Rods que atrapalham o esporte.

Minhas memórias favoritas de Derek Jeter são duas (sim, duas) que os torcedores do Yankees certamente gostarão de esquecer, pois ambas são da lendária ALCS de 2004, quando NYY abriu 3-0 na série, e estava ganhando por 4-3 com 2 eliminados e Mariano Rivera no pontinho no G4, e o Red Sox de alguma forma (não me pergunte, até hoje eu não sei) conseguiu reverter a situação, se tornou o primeiro time a virar uma série 0-3 na história do baseball, enfim derrotou seus amargos inimigos e venceu sua primeira World Series em 86 anos algumas semanas depois. E sim, minhas memórias favoritas de Jeter são da mais amarga derrota da história da franquia, porque embora Jeter se aposente como um dos maiores vencedores da história do esporte, é na adversidade e na derrota que você conhece os jogadores pelo que realmente são.

Voltem comigo então para o G6 daquela fatídica ALCS. O Red Sox reagiu contra Rivera em dois jogos seguidos, e Ortiz duas vezes deu a vitória ao Red Sox na prorrogação. A maré é toda a favor de Boston, e o time tem a vantagem (3-1) no G6 graças a um esforço sobre-humano de Curt Schilling, e o Yankees está começando a encarar a real perspectiva da maior humilhação da história da franquia. Foi ai que A-Rod, com Jeter na primeira base, mostra sua verdadeira face, tentando trapacear para chegar em base - no caso, dando um golpe de karate na mão de Bronson Arroyo para evitar o tag e a eliminação. A bola sai voando com seu golpe, A-Fraud chega na segunda base e Jeter anota a corrida... até que os juízes voltam atrás, eliminam Fraud e obrigam Jeter a voltar para a primeira base, custando uma corrida ao time da casa. Depois de algum debate e chuva de copos dos torcedores, o telão do estádio enfim mostra a jogada e a trapaça de A-Rod, e nesse momento a TV filma o rosto de Jeter. Ele estava fixamente olhando para seu companheiro, e a expressão no seu rosto dizia apenas uma coisa, muito clara: "O que diabos você pensa que está fazendo?! O que você acha que acabou de fazer?!" Ele está mais incrédulo do que qualquer outro, absolutamente revoltado que um jogador do seu time tenha tentado fazer algo tão sujo. A decisão dos juízes pode ter custado a derrota histórica ao seu time, e ele não desgruda o olhar do camisa 13 que ousou profanar o jogo daquela maneira. Ele continha com aquele olhar de horror e nojo, e quando Fraud senta no dugout, Jeter fica de pé do outro lado, o mais longe possível. Podemos fazer piada com o histórico de jogadores dopados do Yankees (e eu faço), mas eles tinham em Babe Ruth um jogador que era sinônimo supremo de espirito esportivo e jogo limpo, e era exatamente esse espirito de Ruth que Jeter mostrou com aquela cara de incredulidade total em relação ao seu companheiro. Ele não ligava se era um Yankee ou não, ele só ligava para aquela demonstração suprema de falta de espirito esportivo.

O Red Sox venceu o jogo, e no G7, já era óbvio o que iria acontecer. Não tinha como segurar o Red Sox naquele ponto, e de fato eles abriram 8-1 logo no começo da partida com dois Home Runs de Johnny Damon. Mesmo com quatro entradas por jogar, o jogo parece que acabou. Os jogadores do Red Sox estão felizes e relaxados, e os jogadores do Yankees no dugout estão cabisbaixos e entregues. A exceção? Jeter. Ele foi o único jogador que continuou de pé, aplaudindo os companheiros, incentivando seu time, gritando, berrando e torcendo até o final. Talvez ele fosse o único que percebesse a importância dessa derrota para sua franquia, ou talvez ele fosse o único que se importasse. Eu não sei. Mas hoje, 10 anos depois, eu ainda consigo ver a cena: Jeter de pé, debruçado na grade, tentante chamar seus companheiros para um ultimo rally, uma tentativa inútil de salvar a série. Ele não salvou, e o Red Sox venceu a World Series oito dias depois. Ninguém parecia mais devastado que ele.

Para mim, essas sempre serão as imagens definitivas de Derek Jeter. A gente sabe como é bom ganhar, e as vezes como é fácil ganhar, mas como era Jeter perdendo, Jeter na adversidade? Sempre acreditando, sempre tentando, o jogador que se importava mais que todos os outros com a camisa que vestia. O mesmo jogador que já tinha quatro anéis de World Series era quem mais queria a vitória, quem mais se importava com o resultado final, que acreditava até o último out, e ao mesmo tempo, alguém que respeitava demais o jogo para perdoar um companheiro que tentou trapacear flagrantemente para conseguir a vitória. Derek Jeter foi um grande jogador, mais mais do que isso, foi uma grande figura e um grande profissional na Major League Baseball. Alguém que viverá por muitos anos mesmo depois que nós dois tenhamos partido. Eu agradeço por ter visto esse cara jogar e acompanhado sua carreira, e se um jogador símbolo do Yankees inspirou esses últimos 7 parágrafos de um torcedor fanático do Red Sox, você sabe que ele conseguiu algo realmente especial na sua vida. Como disse Bryce Harper, Derek Jeter é o capitão de todo o baseball. Sentiremos sua falta, Capitão.



Antes de terminar, alguns outros prêmios que me deu vontade de criar:

AL Surprise Performance of the Year: Michael Brantley
NL Surprise Performance of the Year: Josh Harrison

AL Mariano Rivera (Best Reliever): Wade Davis
NL Mariano Rivera: Aroldis Chapman

AL Defensive Player of the Year: Alex Gordon
NL Defensive Player of the Year: Juan Lagares

AL Breakout Player of the Year: Jose Altuve
NL Breakout Player of the Year: Anthony Rizzo

AL Non-Qualified Player of the Year: Steve Pearce
NL Non-Qualified Player of the Year: Russell Martin