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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Distribuindo prêmios da temporada 2014 da MLB

E o prêmio de pior roubada de base da temporada vai para...


Com a temporada regular da MLB finalmente acabando, me parece uma boa hora para olhar para  essa ótima temporada regular e distribuir alguns prêmios. Eu particularmente adoro esses prêmios, especialmente no baseball, porque eles são ao mesmo tempo simples e complexos: temos estatísticas e métricas extremamente avançadas a nossa disposição, mas tem muita gente que insiste em olhar para os números errados e superficiais sem olhar para os que realmente nos trazem a verdadeira performance. Ao mesmo tempo, podemos ter duas pessoas que usam os mesmos métodos de análise, mas valorizam coisas diferentes de forma diferente. São múltiplas possibilidades.

Então vamos dar uma passada pelos três prêmios principais da MLB e ver quem deveria (e quem provavelmente vai) levar cada um deles: MVP, Cy Young e Rookie of the Year. Deixo de fora Manager of the Year porque é o prêmio mais subjetivo de todos os tempos, depende demais de termos que não podemos observar e normalmente vai para o time que deu a melhor mudança de record de um ano para outro.

Ao final da minha explicação e análise, eu acrescentei duas categorias: "Também mereceriam o prêmio", para jogadores que, embora não sejam as minhas escolhas, também seriam escolhas válidas para o prêmio, e "menções honrosas", jogadores que não seriam escolhas válidas por estarem abaixo dos demais, mas que também merecem ser lembrados pelas boas temporadas que fizeram.

Antes de começarmos, aviso que vamos falar bastante de estatísticas por aqui. Então se não as conhece e quer conhecê-las, recomendo uma passada por esse post antes, onde eu explico praticamente todas as sabermetrics mais usadas (e que usaremos aqui hoje) de forma bastante longa e didática. Então vamos começar, por...


AL MVP : Mike Trout

Parece que foi ontem - mas na verdade foi em 2012 - que um calouro chamado Mike Trout tomou a liga de assalto e se tornou, da noite para o dia, uma das maiores estrelas dos esportes americanos. O recém-chegado de 20 anos não precisou de muito tempo para se estabelecer como o melhor jogador do mundo, e terminou o ano com números históricos: ele rebateu .326/.399/.564 para um wRC+ de 167 - a melhor marca da MLB na temporada - roubando 49 bases (melhor marca da MLB), sendo um dos melhores defensores do ano e, se você gosta dessas coisas, ainda rebateu 30 HRs e anotou 123 corridas. A temporada do garoto foi tão histórica que se tornou o primeiro jogador em toda a história do baseball a ter uma temporada com WAR de 10.0 ou acima com menos de 21 anos (e ele tinha 20), também de longe a melhor marca da temporada. Sem dúvida foi o melhor jogador de 2012, e teve a melhor temporada de um jogador de 20 anos da história do baseball, mas ainda assim Trout não ganhou o MVP - ganhou Miguel Cabrera, um excelente rebatedor que ganhou a Tríplice Coroa naquele ano... e que terminou com números ofensivos quase idênticos a Trout (167 a 166 em wRC+), mas o CF do Angels estava em outra estratosfera como corredor e defensor (duas áreas onde Trout foi um dos melhores e Cabrera um dos piores do ano) e portanto foi um jogador muito melhor. A justificativa de muitos era que Cabrera levou o Tigers aos playoffs enquanto o Angels não chegou na pós-temporada, mas até essa justificativa foi patética: o Angels na verdade ganhou mais jogos naquela temporada que Detroit (89 a 88), e o time de Michigan só foi aos playoffs porque jogava em uma divisão fraquíssima. Então se você está acompanhando, o principal motivo para Trout não ter vencido o troféu que mereceu em 2012 foi "o time dele joga em uma divisão mais difícil que o time de Miguel Cabrera". E é um péssimo motivo. Trout foi roubado.

Em 2013, tivemos mais do mesmo: de novo Trout foi o melhor jogador do baseball por quilômetros, rebatendo .323/.432/.557 (177 de wRC+, segunda melhor marca da MLB), roubando 33 bases, jogando sua boa defesa de costume, e novamente terminando o ano com o melhor WAR do baseball (10.5, mais de 2 acima do segundo melhor). Novamente, a temporada fez história: foi apenas a segunda vez na história do baseball que um jogador de 21 anos ou menos teve 10+ de WAR em uma temporada (o primeiro, claro, foi ele mesmo em 2012), e apenas a quarta vez desde Ted Williams que um jogador teve 10+ de WAR em dois anos consecutivos (os outros três? Mantle, Mays e Bonds). De novo, Trout era o melhor jogador do baseball, e o melhor jogador de 21 anos da história... e de novo ele perdeu o MVP para Miguel Cabrera. Ainda que Trout novamente merecesse o prêmio, dessa vez a vitória de Cabrera foi mais justificável: ele teve uma temporada histórica em seu próprio direito,  com uma das melhores performances ofensivas da história do baseball (.348/.442/.636, 192 wRC+, 44 HRs), e o Tigers dessa vez realmente foi um time muito superior ao Angels. Trout merecia ter ganho, de novo, mas não foi um absurdo tão grande como foi em 2012.

Mas agora, em 2014, não tem nada que tire o prêmio das mãos do fenômeno do Angels. Ele novamente lidera a MLB com seu bastão, rebatendo .291/.382/.567 com wRC+ de 170 e 35 HRs. Sua defesa e velocidade nas bases pioraram nesse ano quando Trout deu mais ênfase em seu jogo aos home runs, mas ele ainda gera valor suficiente com eles para liderar a MLB em WAR confortavelmente (8.1 - nenhum outro jogador passa de 6.6). Em outras palavras, ele ainda é o melhor jogador do baseball com folga, como foi nos últimos dois anos. Mas dessa vez, não tem nenhum argumento que justifique dar o prêmio a outra pessoa: o seu Angels é o melhor time da MLB com 96 vitórias, e Trout seu melhor jogador, então não tem a desculpa dos playoffs. Também não tem nenhum outro jogador como Cabrera em 2013 colocando uma temporada histórica, ou mesmo colocando ótimos números superficiais como em 2012. E se você não gosta de estatísticas avançadas e inteligentes, mesmo assim Trout tem um caso para ser o MVP: ele lidera a MLB em corridas  anotadas (113) e é segundo (primeiro na AL) em corridas impulsionadas (110), sem falar que é o quarto em Home Runs e o melhor jogador do melhor time do baseball. Tudo aponta para Trout como o melhor jogador do baseball, e esse é finalmente o ano que ele receberá o troféu que deveria ter sido seu por direito em 2012 e 2013.

Também mereceriam o prêmio: Ninguém, de verdade.
Menções honrosas: Corey Kluber (espere um pouco); Michael Brantley (temporada espetacular quando menos se esperava); Alex Gordon (talvez o jogador mais completo de 2014); Jose Bautista (lidera MLB em OBP); Jose Abreu (segundo melhor bastão da MLB).


NL MVP: Clayton Kershaw

Para falar do MVP da National League, primeiro temos que responder a duas perguntas que são feitas desde que o prêmio de MVP existe. A primeira é: pitchers podem ser MVPs? E a segunda é: a performance de um time deveria afetar a escolha do MVP? Vamos por partes, então, como diria Simon Blackquill.

Vamos começar pela primeira: pitchers podem ser MVPs? Essa é uma discussão muito antiga, que ganhou muita força em 1999 e 2000, quando Pedro Martinez submeteu o melhor biênio de um arremessador da história do universo conhecido... mas não ganhou o MVP, porque alguns votantes (curiosamente, de New York, sendo que Pedro jogava em Boston. Hmm....) estupidamente declararam que arremessadores não poderiam ganhar o prêmio, e o deixaram totalmente de fora de seus ballots.

O argumento dessas pessoas é simples: um arremessador joga apenas uma vez a cada cinco dias, enquanto um rebatedor joga todo dia, então um arremessador não tem tanto impacto quanto um jogador de "linha" ao longo de uma temporada. Mas esse argumento não é bem verdade. Um arremessador pode jogar apenas um quinto dos jogos de um rebatedor normal, mas ele impacta esses jogos muito mais. Por exemplo, David Price enfrentou 947 rebatedores nessa temporada, maior marca da MLB. Mas o jogador que mais foi ao bastão esse ano, Ian Kinsler, o fez apenas 700 vezes. Se voce considerar que metade de um at bat é o arremessador e metade o rebatedor, então na verdade um arremessador vai afetar a temporada bem mais do que alguém que vai ao bastão rebater. É claro, um jogador "de linha" afeta o jogo em outras maneiras além de ir ao bastão - o que ele faz correndo nas bases, e principalmente, jogando na defesa. Ian Kinsler, por exemplo, jogou 1362 entradas como defensor, participando de 350 jogadas e vendo 412 bolas sendo rebatidas para sua região do campo. Então é verdade que, no total - entre suas 350 jogadas como defensor, 700 idas ao bastão, mais 190 vezes em base (onde afetaria com sua velocidade) - Ian Kinsler teve uma influência total maior do que David Price enfrentando 947 rebatedores, mas a diferença não é tão grande assim a ponto de você automaticamente excluir um arremessador da comparação com um rebatedor. Se um pitcher é superior aos rebatedores ao ponto de tirar essa diferença que existe entre a posição de ambos, então é totalmente natural que ele ganhe o prêmio de MVP. Então um pitcher PODE ser MVP, e deve ser considerado nessa conversa se foi bom o bastante.

O segundo ponto é mais controverso, e depende apenas da opinião de cada um: a performance coletiva (em particular, se ele vai ou não aos playoffs) de um time deveria influenciar a votação de MVP? Minha resposta pessoal, e o critério que eu adoto: sim, deve influenciar. Mas não sendo, como muitos usam, um fator limitante, ou maior do que os outros - ou seja, o fato de um jogador não estar indo aos playoffs não deveria automaticamente excluí-lo de concorrer ao prêmio. Eu vejo a performance coletiva como um dos muitos fatores que influenciam a escolha do MVP, sem ser mais importante do que os outros. Isso pode, de certa forma parecer injusto com um jogador, já que baseball é um esporte onde um único jogador influencia muito menos do que na NFL ou NBA, por exemplo. Mas eu encaro desse modo: um jogador que adicionou 7 vitórias ao total do seu time foi melhor, claro, que um que adicionou 6.5. Ele é o melhor jogador. Mas um cara que, ao adicionar 6.5, fez seu time passar de 82 vitórias para 88.5 e uma vaga de wild card teve um peso maior no resultado final do que um jogador que, digamos, fez seu time passar de 72 para 79. Esse jogador foi mais valioso, por assim dizer. Claro, não existe nenhuma forma de precisar exatamente quanto isso deveria pesar, mas ai que entra o bom senso e o fator humano da questão. Então sim, o record final do seu time importa, embora não seja um fator determinante.

Tendo respondido essas duas perguntas, para sabermos quem é o MVP da NL, precisamos começar com quem foi o melhor jogador lá esse ano. Para mim, o melhor jogador foi Jonathan Lucroy. O catcher do Brewers não tem os números ofensivos espetaculares que seus concorrentes Giancarlo Stanton e Andrew McCutchen tem (e que compõem seu principal argumento pelo prêmio), mas ainda assim tem números excelentes no bastão, rebatendo .303/.372/.472 com wRC+ de 134 que ainda é o sexto maior da NL inteira entre jogadores com pelo menos 600 idas ao bastão (ele também é o primeiro catcher da história da MLB com 50+ rebatidas duplas). Mas Lucroy tem uma coisa ao seu favor que Cutch e Stanton não podem dizer: ele é um fantástico jogador do outro lado da bola, um dos melhores Cs defensivos de todo o baseball, enquanto que Cutch e Stanton, enquanto não são defensores ruins, não estão tendo boas temporadas com suas luvas. Além disso, Lucroy é um catcher - não existe posição mais difícil de se jogar no baseball do que essa, e portanto ter um exímio defensor E rebatedor na posição é muito mais importante do que tê-lo em um OF ou 1B. 

Quando consideramos seu impacto enorme dos dois lados da bola mais sua posição, onde rebatedores como ele são raros e a prêmio (e os que são raramente são tão bons defensivamente), eu considero Lucroy o melhor jogador da NL em 2014. E embora seu WAR (6.2) está abaixo de Kershaw (6.8) e Cutch (6.4), tem um motivo para isso: WAR ainda não inclui uma "descoberta" recente das sabermetrics, que é o pitch framing. Pitch framing é a capacidade de um catcher de, quando está recebendo bolas atrás do home plate, transformar balls em strikes, e evitar que o contrário aconteça. É uma habilidade extremamente importante, e Lucroy é o melhor no quesito: depois de liderar todos os catchers em 2013, StatCorner (pioneiro no desenvolvimento dessa estatística) coloca Lucroy em segundo em corridas "salvas" com framing na temporada 2014, "salvando" 21.3 corridas em relação a um jogador médio na posição. WAR não inclui framing pela dificuldade em quantificar isso que ainda temos (como eu disse, é um campo de pesquisa muito recente), mas se pelo menos 10 dessas 21.3 corridas fossem computadas como "Above Replacement" em WAR, isso já seria suficiente para colocar o WAR de Lucroy acima dos 7 e como o melhor da MLB. Ainda que não vá entrar em detalhes numéricos porque, afinal, hoje em dia ainda não sabemos como, para mim isso tudo é suficiente para colocar Lucroy como o melhor jogador da NL em 2014, um pouco a frente de Kershaw que, apesar de estar tendo uma temporada inacreditável em um nível "por jogo", perdeu bastante tempo machucado e tem apenas 190 IP e 718 rebatedores enfrentados, muito abaixo dos principais arremessadores da temporada.

Mas ai entra a questão: o Brewers não vai para os playoffs apesar da temporada fantástica de Lucroy, enquanto o Dodgers está ganhando a divisão apertado nas costas de Kershaw. Se a diferença entre os dois fosse considerável - digamos, se Lucroy fosse um jogador nível Mike Trout - eu estaria argumentando a favor de Lucroy como o MVP apesar da performance de seu time. Mas para mim, a diferença na temporada entre os dois é bem pequena - na verdade, é principalmente pelo tempo que Kershaw perdeu machucado, pois o arremessador do Dodgers é superior como jogador - então eu prefiro dar o prêmio para Kershaw (sem ele, o Dodgers estaria lutando desesperadamente pela segunda vaga do Wild Card) do que para Lucroy (sem ele, o Brewers não teria sido uma surpresa na temporada, mas no final acabaria fora dos playoffs da mesma maneira). É um pouco injusto, talvez, mas não é uma disputa fácil. Lucroy ou Kershaw, para mim os dois estão tão próximos que qualquer um deles poderia tranquilamente vencer o prêmio. Mas fico com Clayton Kershaw.

Também mereceriam o prêmio: Jonathan Lucroy; Andrew McCutchen; Buster Posey (demorou para pegar fogo); Giancarlo Stanton (se não machucasse...)
Menções honrosas: Anthony Rendon (vai ser uma estrela); Carlos Gomes (o Alex Gordon da NL); Johnny Peralta (PEDs!); Jason Heyward (se pelo menos a força no bastão voltasse...).


AL Cy Young: Corey Kluber

Eu sei que Felix Hernandez muito provavelmente vai ganhar esse prêmio. Mas ele não devia, porque o melhor arremessador de 2014 da AL está sendo Corey Kluber, o fenômeno do Indians que surgiu de onde ninguém esperava. O caso a favor de Kluber é simples: ele e Felix lançaram quase o mesmo número de entradas na temporada (Kluber tem até 1.2 a mais, mas enfim), então essa disputa depende apenas de qual dos dois foi melhor, mais individualmente dominante, em um nível "por jogo", ou "por entrada".

A primeira vista, pode parecer que esse foi Felix, porque ele possui o melhor ERA, 2.07 contra 2.53. Mas isso é besteira. Já faz muito tempo que se descobriu que ERA não é a melhor estatística para medir o quão bem um arremessador tem arremessado. ERA mede o resultado final apenas das jogadas, e é altamente influenciado por fatores que não tem nada a ver como a habilidade e atuação do arremessador em questão, como a atuação da sua defesa, o estádio onde jogam, ou mesmo sorte. Sendo assim, não é a toa que o ERA de Kluber é pior, já que ele joga em frente a pior defesa de todo o baseball: "Defensive Rating" do Fangraphs coloca o Indians como a segunda pior defesa da MLB, enquanto tanto UZR como DRS (duas estatísticas diferentes para defesa) colocam a do Indians como a pior do baseball por uma distância enorme. Para efeito de comparação, DRS diz que a defesa do Mariners (onde Felix joga) "custou" ao seu time 12 corridas ao longo do ano... enquanto a do Indians custou 78 corridas (!!). UZR diz que a do Mariners, por outro lado, "salvou" 9 corridas acima da média... enquanto que a do Indians "custou" 70 corridas abaixo da média. Supondo que a falta de ajuda da defesa tenha custado igualmente para cada arremessador (ou seja, dividindo por cinco), a incompetência da defesa sozinha explicaria a diferença de ERA entre os arremessadores. Então não podemos culpar Kluber pela defesa horrível que joga atrás dele.

Ao invés disso, podemos e devemos olhar para as coisas que um arremessador de fato controla: walks, strikeouts, HR e FIP. (FIP, em particular, é uma estatística interessante que pega apenas esses fatores e projeta quanto seria o ERA do jogador considerando apenas o que um arremessador de fato controla, desconsiderando defesa, sorte, e parte dos efeitos de estádio. Desnecessário dizer, ele é muito melhor do que ERA em termos de correlação com resultados futuros). Kluber da um show em todas essas: ele é o terceiro melhor arremessador da MLB em K%, eliminando 28% dos rebatedores que enfrenta, e 22nd melhor evitando walks (apenas 4 lugares atrás de Felix). Seu FIP é o melhor entre os arremessadores da AL, com 2.39, superior aos 2.54 de Felix, e isso antes de considerar que Felix joga em um estádio mais favorável a arremessadores que Kluber. E embora eu não seja tão fã de WAR com pitchers, ele lidera todos os arremessadores no quesito com 7.0. Não a AL. Toda a MLB, acima até de Kershaw e seus 6.8 (Felix tem 6.1).

Então Felix é o favorito a ganhar o prêmio, está tendo uma temporada incrível em seu próprio mérito, e tem mais nome. Mas Kluber tem sido um arremessador melhor do que ele nessa temporada, mais dominante, e deveria ganhar o Cy Young por direito.

(Na noite que eu termino essa coluna, Felix cede 8 ER em 4.2 IP para elevar seu ERA para 2.34 e dar ainda mais legitimidade ao argumento "Kluber para Cy Young"? Claro que sim. Perdão, torcedores do Mariners.)

Também mereceriam o prêmio: Felix Hernandez
Menções honrosas: Jon Lester (ponto alto de duas temporadas conturbadas); Chris Sale (machucou e não jogou entradas suficientes); Garrett Richards (idem); Phil Hughes (melhor K/BB ratio da história do baseball, mais um vitimado por uma defesa horrível).


NL Cy Young: Clayton Kershaw

Quer dizer... eu preciso mesmo explicar essa? Nem vou perder meu tempo. Mas vou aproveitar para falar de outro ponto.

Enquanto a temporada histórica de Kershaw dispensa explicações, um ponto rápido para ajudar a colocar a temporada de Kershaw (e de todos os outros muitos arremessadores que estão tendo o melhor ano da carreira em 2014) em perspectiva, para ajudar a entender porque de repente todos os arremessadores estão dando saltos enormes.

O fato é que, desde os anos 60, a MLB nunca esteve tão favorável a arremessadores como é hoje em dia. Os números de rebatedores vem regredindo continuamente, e esse ano atingiu seu ponto mais baixo - desde 1973, quando foi criado o Designated Hitter, a MLB não apresentava números tão ruins em AVG, OBP, e mesmo o slugging, mais alto hoje do que nos anos 70, está em seu patamar mais baixo desde 1992. Os rebatedores estão andando menos (7.6%) E sofrendo strikeouts mais frequentemente (20.3%) do que em qualquer outro ponto desde 73. Hoje, ser arremessador é muito mais fácil do que o era a 10, 20, mesmo 30 anos, e esse é um forte motivo pelo qual tantos arremessadores (incluindo Kershaw) de repente viram um salto nos seus números.

Entre os motivos temos alguns mais simples (maior difusão e proficiência de arremessos difíceis como splitter, slider e cutter; estatísticas avançadas que permitem ao arremessador maior estudo sobre os adversários; maior uso de shifts e estratégias defensivas mais avançadas; zona de strike muito maior) e alguns não tanto (estatísticas defensivas muito mais avançadas fazem com que seja mais fácil para times acharem grandes defensores ou eliminarem os péssimos; menor uso de esteróides; maior compreensão sobre BABIP por parte dos times; muito mais pitch framing).

Para colocar em perspectiva, que tal isso: hoje, a slash line média dos rebatedores da MLB é de .251/.314/.387. Em 2000, quando Pedro Martinez teve sua lendária temporada de 1.67 ERA, a slash line média era de .270/.345/.437. Quando teve 1.39 de FIP em 1999, recorde da MLB, a slash line média era de ..271/.345/.434. Em 2014, essa é quase a slash line de Kyle Seager (.273/.340/.467), 11th da MLB em WAR, e melhor que a slash line do candidato a MVP da AL Alex Gordon (.264/.345/.430), 9th em WAR. E isso era um rebatedor MÉDIO da MLB na época (hoje seria algo como Dionner Navarro piorado um rebatedor médio). É um simples fato, mas hoje tem muito mais agindo em favor dos arremessadores do que em qualquer outro ponto dos últimos 40 anos, o que explica os números anormais que estamos vendo em 2014.

Sabendo disso tudo, ainda está impressionado pela temporada histórica de Clayton Kershaw? Sem dúvida. Mas faz muito mais sentido agora, certo?

Também mereceriam o prêmio: Ninguém chega perto
Menções honrosas: Jordan Zimmerman (tão underrated); Adam Wainwright (a consistência em pessoa); Johnny Cueto (um pouco overrated por ERA); Stephen Strasburg (melhor changeup da MLB); Madison Bumgarner (mais novo que Matt Harvey, 2 anéis, 15 IP e 0 ER em World Series)


AL Rookie of the Year: Jose Abreu

Se Masahiro Tanaka estivesse ficado saudável, talvez teríamos alguma disputa ou alguma discussão por aqui. Talvez. Mas sem ele, não existe ninguém para sequer desafiar Jose Abreu, que rebateu 35 HRs (#4 da MLB) com  .318/.384/.587 de slash line que é a segunda melhor da MLB (166 wRC+) depois de Trout. Ele não foi só o melhor rookie como um dos melhores jogadores de todo o baseball em 2014. Ponto.

Mas e se não incluíssemos no ROY jogadores que tiveram carreira profissional fora da MLB (ou seja, Tanaka e Abreu), quem seria o favorito ao prêmio? Os arremessadores Colin McHugh (mais consistente) e Marcus Stroman (mais dominante), ou até mesmo Yordano Ventura, teriam bons argumentos para levar o prêmio para casa. Mas meu voto iria para Kevin Kiermaier, OF do Rays, que em 103 jogos foi absolutamente dominante por um decepcionante time de Tampa Bay. Ele rebateu sólidos .262/.314/.445 em um estádio desfavorável, e dobrou como um dos melhores defensores de campo externo do baseball em 2014, e tem o maior WAR entre calouros não-Abreus com 3.7. Ele teria meu voto em um ano decepcionante para rebatedores calouros.

Também mereceriam o prêmio: Nope, nenhum outro
Menções honrosas: Kevin Kiermaier (ver acima); Masahiro Tanaka (maldito cotovelo!); Dellin Betances (uma das performances de bullpen mais dominantes dos últimos anos); Colin McHugh (ótima temporada perdida em um time ruim); Brock Holt (defensor mais versátil do baseball); Yordano Ventura (segunda fastball mais rápida de 2014).


NL Rookie of the Year: Jacob deGrom

O prêmio de MVP, a meu ver, tem uma preposição simples: você tem que escolher o jogador que, ao longo do ano, mais agregou valor ao seu time. Em outras palavras, tempo de jogo importa - é melhor você afetar um time por 160 jogos do que por 120, ainda que o que o fez por 120 tenha sido um pouco melhor em um nível "por jogo". É a natureza do prêmio.

Para calouro do ano? Não existe uma direção clara. Apenas diz para votar no melhor calouro da temporada, mas o que isso significa exatamente isso? Votar no jogador que, ao longo do ano, foi o melhor no somatório da sua temporada, naquele que gerou mais valor total para sua equipe? Ou votar em um jogador que foi mais individualmente dominante no tempo que jogou, ainda que não tenha jogado tanto (como acontece frequentemente com calouros) e agregado tanto valor total como outros? É uma decisão pessoal, sem uma diretriz clara.

Digo isso porque, na disputa pelo ROY da NL, temos dois jogadores que se enquadram nos dois casos, e qualquer um pode muito bem ser o calouro do ano: Billy Hamilton, o velocista do Reds que foi titular desde o primeiro dia, jogou 150 jogos e foi um dos melhores corredores (56 bases roubadas) E defensores da liga inteira (ainda que não consiga rebater ou chegar em base), agregando mais valor total do que qualquer outro calouro da NL; ou Jacob deGrom, o arremessador do Mets que jogou apenas 22 jogos e arremessou 140 entradas, mas que foi absolutamente dominante nesse tempo  limitado?

Eu particularmente sou um grande fã do Corolário de Bill Walton - eu prefiro um jogador que atingiu um nível muito alto por menos tempo a um jogador que foi consistentemente bom por um período de tempo maior mas sem nunca ter atingido aquele nível especial. Então eu fico com deGrom, porque no tempo que jogou, ele foi realmente especial: se qualificasse com entradas o suficiente, deGrom seria 6th na NL em ERA, quarto em FIP, e até 13th em WAR apesar de ser um dos dois únicos jogadores do Top30 (Jake Arrieta o outro) a lançar menos de 150 entradas). Só Kershaw, Strasburg e Arrieta conseguiram melhor aproveitamento nos strikeouts que deGrom (25.5%), e isso antes de entrar no mérito de que deGrom não era esperado que fosse nada demais na MLB depois de passagens sem destaque pelas ligas menores durante quatro anos. Ele ganhou esse prêmio pelas suas atuações, mas digamos que não atrapalha ter uma história tão improvável de sucesso.

Então Hamilton foi o jogador melhor na totalidade do ano, e se fosse um prêmio de MVP, ele teria meu voto. Mas ele nunca foi tão bom quanto deGrom foi em nenhum momento, e como o ROY nos permite escolher qual dos dois preferimos, meu voto fica com deGrom, o melhor arremessador calouro do Mets desde Doc Gooden. Nada má essa companhia.

Também mereceriam o prêmio: Billy Hamilton
Menções honrosas: Chris Owing (começou bem o ano, depois caiu); Travis D'Arnaud (irregular, mas rebatendo .266/.314/.469 desde que voltou da AAA); Kolten Wong (foi um ano bem fraco para calouros da NL...).


Prêmio de honra por conjunto da obra: Derek Jeter

Esse não é um prêmio pelo que Derek Jeter fez em 2014, quando aliás está tendo uma temporada ruim. Mas assim como o Oscar tem um prêmio de honra por contribuições totais ao longo da carreira, a MLB também deveria ter um prêmio anual para premiar jogadores (se aposentando ou já aposentados) de forma a honrar jogadores que fizeram muito pelo jogo, e carreiras importantes. Eu deveria ter pensado nisso em 2013, quando dava tempo de honrar Mariano Rivera ou Todd Helton com esse prêmio, mas 2014 é a hora perfeita para criar esse prêmio e dá-lo para Derek Jeter.

Acho que todo mundo conhece as credenciais de Derek Jeter como jogador - ele é o sexto jogador com mais rebatidas válidas da história do baseball, um dos cinco melhores shortstops da história do baseball, um dos melhores jogadores da sua geração. Ele foi o capitão de uma das maiores dinastias do baseball (os Yankees do final dos anos 90) e tem anéis de campeão suficientes para encher uma mão, sem falar em uma enorme coleção de rebatidas e momentos (até defensivos!) decisivos e importantes ao longo de sua carreira de playoffs. Ele se aposenta como um líder e um grande vencedor, alguém que mostrou incrível consistência e longevidade ao longo da sua carreira. Vou contar para meus netos que vi Derek Jeter jogar.

Mas mais do que o jogador que Jeter era dentro de campo, o que vamos mais sentir falta é de quem ele era fora de campo. Jeter era o perfeito profissional, o perfeito jogador: muita classe dentro e fora de campo, entrevistas interessantes, muito carisma, alguém que nunca desceu ao nível dos Barry Bonds e Alex Rodriguez em termos de esteróides e que sempre se conduziu com imensa compostura e classe ao longo da carreira. O tipo de jogador que imediatamente virou a cara do baseball, o símbolo do jogo em um nível cultural, um verdadeiro embaixador - e mais, o embaixador respeitável, de cara limpa, que o jogo precisava urgentemente durante uma era turbulenta marcada por rebatedores de 130kg de músculo e duas testas rebatendo 60 home runs. Eu digo isso como um torcedor fanático do Red Sox que odeia o Yankees quase religiosamente: poucos jogadores eram mais fáceis de gostar, de respeitar e de admirar do que Derek Jeter. Eu sentirei falta de vê-lo rebatendo line drives e correndo as bases, mas eu REALMENTE sentirei falta de saber que você pode contar com ele para falar a coisa certa na hora certa, elogiar um adversário que merece, e nos lembrar do lado bom do baseball, longe dos Bud Seligs, longe dos A-Rods que atrapalham o esporte.

Minhas memórias favoritas de Derek Jeter são duas (sim, duas) que os torcedores do Yankees certamente gostarão de esquecer, pois ambas são da lendária ALCS de 2004, quando NYY abriu 3-0 na série, e estava ganhando por 4-3 com 2 eliminados e Mariano Rivera no pontinho no G4, e o Red Sox de alguma forma (não me pergunte, até hoje eu não sei) conseguiu reverter a situação, se tornou o primeiro time a virar uma série 0-3 na história do baseball, enfim derrotou seus amargos inimigos e venceu sua primeira World Series em 86 anos algumas semanas depois. E sim, minhas memórias favoritas de Jeter são da mais amarga derrota da história da franquia, porque embora Jeter se aposente como um dos maiores vencedores da história do esporte, é na adversidade e na derrota que você conhece os jogadores pelo que realmente são.

Voltem comigo então para o G6 daquela fatídica ALCS. O Red Sox reagiu contra Rivera em dois jogos seguidos, e Ortiz duas vezes deu a vitória ao Red Sox na prorrogação. A maré é toda a favor de Boston, e o time tem a vantagem (3-1) no G6 graças a um esforço sobre-humano de Curt Schilling, e o Yankees está começando a encarar a real perspectiva da maior humilhação da história da franquia. Foi ai que A-Rod, com Jeter na primeira base, mostra sua verdadeira face, tentando trapacear para chegar em base - no caso, dando um golpe de karate na mão de Bronson Arroyo para evitar o tag e a eliminação. A bola sai voando com seu golpe, A-Fraud chega na segunda base e Jeter anota a corrida... até que os juízes voltam atrás, eliminam Fraud e obrigam Jeter a voltar para a primeira base, custando uma corrida ao time da casa. Depois de algum debate e chuva de copos dos torcedores, o telão do estádio enfim mostra a jogada e a trapaça de A-Rod, e nesse momento a TV filma o rosto de Jeter. Ele estava fixamente olhando para seu companheiro, e a expressão no seu rosto dizia apenas uma coisa, muito clara: "O que diabos você pensa que está fazendo?! O que você acha que acabou de fazer?!" Ele está mais incrédulo do que qualquer outro, absolutamente revoltado que um jogador do seu time tenha tentado fazer algo tão sujo. A decisão dos juízes pode ter custado a derrota histórica ao seu time, e ele não desgruda o olhar do camisa 13 que ousou profanar o jogo daquela maneira. Ele continha com aquele olhar de horror e nojo, e quando Fraud senta no dugout, Jeter fica de pé do outro lado, o mais longe possível. Podemos fazer piada com o histórico de jogadores dopados do Yankees (e eu faço), mas eles tinham em Babe Ruth um jogador que era sinônimo supremo de espirito esportivo e jogo limpo, e era exatamente esse espirito de Ruth que Jeter mostrou com aquela cara de incredulidade total em relação ao seu companheiro. Ele não ligava se era um Yankee ou não, ele só ligava para aquela demonstração suprema de falta de espirito esportivo.

O Red Sox venceu o jogo, e no G7, já era óbvio o que iria acontecer. Não tinha como segurar o Red Sox naquele ponto, e de fato eles abriram 8-1 logo no começo da partida com dois Home Runs de Johnny Damon. Mesmo com quatro entradas por jogar, o jogo parece que acabou. Os jogadores do Red Sox estão felizes e relaxados, e os jogadores do Yankees no dugout estão cabisbaixos e entregues. A exceção? Jeter. Ele foi o único jogador que continuou de pé, aplaudindo os companheiros, incentivando seu time, gritando, berrando e torcendo até o final. Talvez ele fosse o único que percebesse a importância dessa derrota para sua franquia, ou talvez ele fosse o único que se importasse. Eu não sei. Mas hoje, 10 anos depois, eu ainda consigo ver a cena: Jeter de pé, debruçado na grade, tentante chamar seus companheiros para um ultimo rally, uma tentativa inútil de salvar a série. Ele não salvou, e o Red Sox venceu a World Series oito dias depois. Ninguém parecia mais devastado que ele.

Para mim, essas sempre serão as imagens definitivas de Derek Jeter. A gente sabe como é bom ganhar, e as vezes como é fácil ganhar, mas como era Jeter perdendo, Jeter na adversidade? Sempre acreditando, sempre tentando, o jogador que se importava mais que todos os outros com a camisa que vestia. O mesmo jogador que já tinha quatro anéis de World Series era quem mais queria a vitória, quem mais se importava com o resultado final, que acreditava até o último out, e ao mesmo tempo, alguém que respeitava demais o jogo para perdoar um companheiro que tentou trapacear flagrantemente para conseguir a vitória. Derek Jeter foi um grande jogador, mais mais do que isso, foi uma grande figura e um grande profissional na Major League Baseball. Alguém que viverá por muitos anos mesmo depois que nós dois tenhamos partido. Eu agradeço por ter visto esse cara jogar e acompanhado sua carreira, e se um jogador símbolo do Yankees inspirou esses últimos 7 parágrafos de um torcedor fanático do Red Sox, você sabe que ele conseguiu algo realmente especial na sua vida. Como disse Bryce Harper, Derek Jeter é o capitão de todo o baseball. Sentiremos sua falta, Capitão.



Antes de terminar, alguns outros prêmios que me deu vontade de criar:

AL Surprise Performance of the Year: Michael Brantley
NL Surprise Performance of the Year: Josh Harrison

AL Mariano Rivera (Best Reliever): Wade Davis
NL Mariano Rivera: Aroldis Chapman

AL Defensive Player of the Year: Alex Gordon
NL Defensive Player of the Year: Juan Lagares

AL Breakout Player of the Year: Jose Altuve
NL Breakout Player of the Year: Anthony Rizzo

AL Non-Qualified Player of the Year: Steve Pearce
NL Non-Qualified Player of the Year: Russell Martin

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Distribuindo prêmios na MLB


Clayton Kershaw comemora o prêmio ganho no nosso post


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Com a temporada regular da MLB finalmente no passado e enquanto os playoffs começam a esquentar, é hora de olhar para uma ótima temporada regular e distribuir alguns prêmios. Eu particularmente adoro esses prêmios, especialmente no baseball, porque eles são ao mesmo tempo simples e complexos: temos estatísticas e métricas extremamente avançadas a nossa disposição, mas tem muita gente que insiste em olhar para os números errados e superficiais sem olhar para os que realmente nos trazem a verdadeira performance. Então vamos dar uma passada pelos três prêmios principais da MLB e ver quem deveria (e quem provavelmente vai) levar cada um deles: MVP, Cy Young e Rookie of the Year. Deixo de fora Manager of the Year porque é o prêmio mais subjetivo de todos os tempos e depende demais de termos que não podemos observar e normalmente vai para o time que deu a melhor mudança de record de um ano para outro.

Antes de começarmos, aviso que vamos falar bastante de estatísticas por aqui. Então se não as conhece e quer conhecê-las, recomendo uma passada por esse post antes, onde eu explico praticamente todas as sabermetrics mais usadas (e que usaremos aqui hoje) de forma bastante longa e didática. Então vamos começar, por...

AL MVP: Miguel Cabrera


O AL MVP é um prêmio bastante complicado e polêmico que coloca em debate exatamente o que significa isso de "Mais valioso". O melhor jogador da AL (e da MLB inteira), de longe, é Mike Trout. Vamos chegar nisso, mas basta saber que Trout está jogando em um nível que o último jogador a atingir nessa idade... hm, verdade, ninguém nunca fez isso antes aos 21/22 anos. Mas enquanto Mike Trout é claramente o melhor jogador da MLB, seu time como um todo é um lixo e não vai a lugar nenhum, enquanto que outro jogador tendo uma temporada histórica, Miguel Cabrera, joga em um time que ganhou a sua divisão e foi aos playoffs. Então o debate furioso que acontece a partir dai é: o MVP tem que ser o melhor jogador, ou tem que ser o melhor jogador que conseguiu levar o time aos playoffs? Em outras palavras, quando escolhemos o MVP, deveria importar a campanha coletiva do time em um jogo tão individual?

A diretriz oficial para escolher o prêmio de MVP não nos ajuda em nada. Segundo as regras oficiais da MLB, a interpretação de "mais valioso" depende exclusivamente de quem for votar e não existe uma recomendação clara sobre como interpretar isso. Por esse motivo, acaba sendo algo totalmente pessoal. Você pode acreditar que Trout foi o MVP porque ninguém adicionou mais vitórias ao seu time do que ele, ou você pode acreditar que foi Miguel Cabrera ou Josh Donaldson porque adicionaram menos vitórias mas elas tiveram um impacto maior no resultado final de seus respectivos times. É totalmente aberto a interpretações.

A minha interpretação: o contexto de time deve importar, mas não deve ser absoluto. Existe um conceito de valor absoluto (o total que um jogador contribui para seu time, ou seja, o melhor jogador) e um de valor relativo (aquela contribuição que teve um impacto maior no resultado) que precisam ser levado em conta. Eis o que eu escrevi ano passado sobre isso, justificando meu voto de 2011 para Justin Verlander como MVP da MLB:

Por exemplo, vamos pegar a temporada passada da MLB como exemplo. Os dois melhores jogadores da temporada individualmente foram Jacoby Ellsbury e Jose Bautista, mas tanto Red Sox como Blue Jays perderam os playoffs (O Red Sox depois de um colapso nos jogos finais da temporada regular, o Jays ficou nos 50% a temporada toda). Enquanto isso, você tinha Justin Verlander tendo uma temporada ligeiramente inferior a esses dois, mas sendo o melhor e mais importante jogador de um time do Tigers que arrancou uma vaga na AL Central e chegou nos playoffs com status de candidato ao título. Então individualmente, Bautista e Ellsb foram melhores que Verlander. Mas se tirassemos Ellsb e Bautista dos seus times antes da temporada (ou na metade), o destino de Sox e Jays não teria mudado (e o Red Sox provavelmente não teria sido tão bom a temporada inteira pra ter um colapso histórico pra sofrer em Setembro) e ambos os times continuariam de fora dos playoffs. Mas sem Verlander, o Tigers estaria condenado ao quarto lugar na AL Central e total esquecimento. Por causa de Verlander, o Tigers ganhou a divisão, chamou a atenção da Liga inteira e virou o time que ninguém queria enfrentar em uma série. Pra mim, isso significa que ele foi mais valioso pro Tigers do que Ellsb e Bautista pra Sox e Jays - A presença dele teve um efeito muito maior no destino do seu time na temporada.

Por esse motivo, eu votei em Verlander pra MVP em primeiro, Ellsbury em segundo, e Evan Longoria em terceiro (perdeu boa parte da temporada, mas quando voltou foi o maior responsável por levar o Rays aos playoffs). O que não significa que as temporadas de Ellsbury e Bautista não foram valiosas ou não tiveram valor, é claro. As duas tiveram um grande valor, com certeza, mas a presença de Bautista fazendo o Jays ser 81-81 ao invés de 72-90 fez uma diferença muito menor do que Verlander levando o Tigers de 81-81 a 92-70, ganhando a divisão e transformando o Tigers em uma força na AL. Por mais que dois jogadores valham, digamos, 9 vitórias a mais pros seus respectivos times, essas 9 vitórias fazem uma diferença muito maior em um time que vai de 85 vitórias pra 94 e um que vai de 71 pra 80 vitórias. Por isso pra mim a diferença entre "melhor" e "mais valioso". É injusto "penalizar" um jogador pela performance do seu time, mas essa é minha interpretação, e afinal o que vale no final é aonde o time chegou: Ellsbury foi o "Melhor Jogador da MLB" em 2011... Mas Verlander foi o Jogador Mais Valioso da MLB em 2011.

Em outras palavras, Ellsbury adicionou 9 vitórias (em WAR) ao Red Sox em 2011, enquanto Verlander adicionou pouco mais de sete a Detroit. Mas as sete vitórias de Verlander significaram para o  Tigers a diferença entre o primeiro lugar na conferência e o ostracismo, e as nove de Jacoby Ellsbury só mudariam o número de vitórias mas não o resultado da temporada do Red Sox, e então eu me vi forçado a concluir que as sete vitórias de Verlander tiveram um valor maior para sua equipe que as 9 de Ellsbury.

Eslcarecido isso, minha lógica não quer dizer que um jogador que não foi aos playoffs não possa ganhar o MVP. Ano passado, respondendo a um email do leitor Luciano Diaz, escrevi uma coluna inteira sobre o prêmio de MVP, suas dificuldades e sobre quem deveria ganhar em 2012. Nessa coluna, eu escolhi Mike Trout para ganhar o prêmio de MVP sobre Miguel Cabrera, mesmo Cabrera tendo ido aos playoffs e Trout não. Minha justificativa foi a seguinte: 

Nesse contexto, e ainda de acordo com minha opinião, o MVP pode ir para um jogador de um time que não foi aos playoffs (afinal, sua temporada também teve seu valor) ou um time inferior de acordo com duas situaçōes: a) caso esse jogador tenha sido claramente muito superior  a todo o resto; e b) caso não haja um claro candidato num time que foi aos playoffs e que possa reclamar o prêmio. O peso de cada um desses pontos depende, claro, da situação em questão e é subjetivo a cada pessoa.

E isso definitivamente aconteceu em 2012. Mike Trout foi tão superior a Cabrera, Robinson Cano e ao resto dos candidatos ao prêmio, especialmente considerando que seus dois concorrentes jogavam em times extremamente lotados de talento que poderiam sobreviver com uma lesão a um deles, que não via como não votar no cara que tinha acabado de submeter uma das melhores temporadas da história da MLB... sendo um calouro. 

Mas em 2013, em uma situação bastante semelhante, eu optei por votar em Cabrera e não em Trout dessa vez. O que mudou entre 2012 e 2013 para fazer meu voto mudar?

Em primeiro lugar, Trout continua o melhor jogador da MLB inteira por uma LARGA margem. Isso definitivamente não mudou. Considere o seguinte sobre Mike Trout: ao terminar 2013 com um fWAR de 10.4, ele se tornou o quarto jogador dos últimos 70 anos a ter duas temporadas consecutivas com WAR acima de 10. Os outros três? Willie Mays, Mickey Mantle e Barry Bonds. Trout conseguiu isso com 22 anos. Nenhum jogador na história da MLB chegou aos 22 anos com temporadas melhores, e nenhum jogador estreou na MLB com duas temporadas melhores do que o OF do Angels. Seu WAR de 10.4 também liderou a liga por uma larga margem, com 2.2 de vantagem para o segundo colocado (Andrew McCutchen) e 2.7 e 2.8 sobre os segundo e terceiro colocados na AL (Donaldson e Cabrera, respectivamente).

Hmm, você não gosta ou não confia em WAR? Certo, vamos olhar por outro ângulo então. A slash line de Mike Trout esse ano foi de .323/.432/.557, e ajustando isso para as dimensões favoráveis a arremessadores (e não rebatedores) do estádio onde jogou metade de suas partidas, isso nos dá um wRC+ de 178 - em outras palavras, isso significa que ajustando pelo estádio onde joga, Trout criou 78% a mais de corridas do que um jogador médio da MLB com suas rebatidas. Essa marca é, na verdade, a segunda melhor da liga em 2013, atrás apenas de Miguel Cabrera (e na frente de Chris Davis, Paul Goldschmidt, Joey Votto e companhia). Expandindo o contexto, desde 2000 apenas dois OFs tiveram uma temporada mais produtiva no bastão do que Trout sem a ajuda de esteróides pesados (cof Barry Bonds cof cof): Manny Ramirez em 2000 e 2002, e Jose Bautista em 2011. E isso é apenas considerando o que fez com o seu bastão em mãos, mas Trout também é um dos melhores corredores da MLB, roubando 33 bases em 40 tentativas na temporada. Juntando então sua produtividade incrível no bastão com o estrago que Trout faz com as pernas (roubando bases e conseguindo bases extras em rebatidas de colegas), suas 69.6 corridas geradas no total ofensivamente são a melhor marca de um OF nos últimos 33 anos não chamado Bonds, 0.5 corridas na frente do lendário Rickey Henderson em 1980. 

Sinceramente, não tem nada que Trout não seja praticamente perfeito fazendo. Ele possui incrível disciplina no bastão e chega com facilidade em base, conseguindo walks 15.4% de suas idas ao bastão, terceira melhor marca da MLB depois de Joey Votto e Shin-Soo Choo. Seus HRs caíram em relação a 2012, mas ele rebateu mais doubles e triples do que antes, mantendo sua força no bastão alta. Suas rebatidas tem um grande aproveitamento porque ele consegue um enorme número de line drives e infield singles. Seu tempo correndo do home plate até a primeira base (não oficial) é o menor da MLB, o que é incrível considerando que ele é destro e rebate do lado esquerdo do home plate (e portanto tem caminho maior a percorrer que um canhoto), e ele é um dos mais prolíficos base runners da liga. Sua defesa desceu em relação aos níveis históricos de 2012 mas ainda é acima da média da MLB. O garoto é a coisa mais próxima de um jogador perfeito que você vai ver na MLB, e os números refletem isso: nas suas duas primeiras temporadas de MLB, ele conseguiu um feito que lendas como Mays e Mantle só conseguiram no auge absoluto de suas carreiras. E eu já disse que Trout fez 22 anos DURANTE a temporada? Me parece relevante. Então não é como se Mike Trout fosse apenas um pouco melhor que seus contemporâneos: ele é significantemente melhor do que qualquer outro jogador na Terra nesse momento, e sinceramente, possivelmente melhor do que qualquer jogador da história da MLB foi nessa idade.

Então porque dar o prêmio para Cabrera e não para Trout, se ano passado eu defendi os méritos de Trout? Porque a temporada 2013 de Cabrera foi muito melhor do que a 2012. As pessoas se perdem olhando para estatísticas inúteis como a Triple Crown que Miggy ganhou ano passado e assumem que isso faz dela a melhor temporada do slugger, mas isso passa muito longe da verdade. A temporada 2012 de Cabrera (.330/.393/.606, 166 wRC+) foi inferior, por exemplo, a sua temporada 2011 (.344/.448/.586, 177 wRC+), mas ninguém percebeu porque só ele ganhou a TC um ano depois. E em 2013, Miguelito subiu ainda mais um nível em relação a um patamar já bastante elevado: .348/.442/.638 e um wRC+ de 192 que é absolutamente IMPOSSÍVEL! E isso porque depois da lesão ele não tem sido o mesmo jogador, em Setembro conseguiu apensa duas rebatidas extra-base no mês inteiro, e mesmo assim terminou com um wRC+ de 192, o melhor da MLB de longe (chegou a ter 201 de wRC+ antes de machucar). Colocando em contexto, os únicos jogadores que chegaram a 200 wRC+ sem a ajuda de esteróides foram Ted Williams e Mickey Mantle, e mesmo o seu 192 coloca Miguel Cabrera na companhia de temporadas como 1967 Carl Yaztremski (seu triple crown) e 1980 George Brett, alguma das melhores e mais famosas temporadas de todos os tempos. Desconsiderando as temporadas de 81 e 94 porque não foram jogadas até o final por motivos de greve, esse número é o 20th maior de uma temporada na história da MLB desde 1950, e isso considerando que sete das que estão na sua frente foram de Bonds ou Mark McGwire em seu auge de esteróides. Chamar a temporada do Cabrera de "histórica" não lhe faz justiça.

Claro, Cabrera não tem como ser melhor do que Mike Trout considerando que é um dos piores defensores e um dos piores corredores da MLB, enquanto Trout é um sólido defensor e um dos melhores corredores. E mesmo assim, a diferença entre o bastão dos dois (pelo menos ao final da temporada) não era tão grande assim porque Trout ainda teve uma temporada história ele mesmo, e considerando o tempo perdido com lesões de Miggy e a diferença entre ambos como corredores, Trout acabou tendo uma temporada ofensiva total ainda melhor do que Cabrera gerando corridas (69.6 contra 63.5). Mas eu acho que dessa vez Cabrera é um vencedor digno do prêmio de MVP porque, ao contrário do ano passado, individualmente Cabrera TEVE uma temporada historicamente boa. Trout ainda é o melhor jogador, Cabrera teve um impacto maior no resultado final da temporada por ter ajudado seu time a ir aos playoffs... mas mais importante, a temporada de Cabrera FOI espetacular o suficiente para bater de frente com a de Trout e se manter de pé. Trout é o melhor jogador da MLB, e não é por pouco, mas Cabrera foi o MVP dessa temporada.

Uma última menção honrosa antes de irmos para as menções honrosas: Josh Donaldson, a única estrela de Oakland Athletics. Donaldson acabou a temporada, na verdade, a frente de Cabrera em WAR (7.7 contra 7.6) e jogou em um time que precisava ainda mais de uma estrela (que não tinha um Mark Scherzer). Donaldson definitivamente seria um vencedor merecido desse prêmio, embora eu o coloque em terceiro porque a) seu WAR acima de Cabrera veio por causa de 10 jogos a mais e da grande diferença em defesa, mesmo que Donaldson nunca tenha tido um histórico como um grande defensor e seu UZR provavelmente foi um pequeno outlier; e b) Donaldson não tem os números históricos de Cabrera para justificar ficar a frente de Trout. Mas ainda assim, foi uma temporada brilhante e espetacular sobre todos os aspectos que merece ser reconhecida.

Menções honrosas, em ordem: Mike Trout; Josh Donaldson; Evan Longoria; Chris Davis.


NL MVP: Andrew McCutchen


Se Mike Trout é o jogador mais completo da MLB, Cutch é o segundo colocado. Não tem nada que McCutchen não consiga fazer em um campo de baseball: ele rebate por contato (.317 de AVG) e por força (.508 de SLG), ele chega em base a um ótimo nível (11.5 das idas ao bastão acabando em walk e um OBP de .404), é um baserunner acima da média (5.1 corridas geradas com as pernas, top20 na MLB) e um sólido defensor (6.9 em UZR). O resultado é que, juntando tudo isso, você tem um jogador espetacular: 155 wRC+ (7th na MLB, 4th na NL) já seriam ótimos pelo seu bastão, mas juntando ainda com defesa e baserunning superiores (algo que poucos jogadores possuem junto de um bom bastão) você chega a 8.2 de WAR (segundo na MLB, primeiro na NL) e 46.9 corridas totais geradas ofensivamente, quarto na MLB e primeiro na NL. Em resumo, você não vai encontrar um jogador all-around melhor na NL do que Andrew McCutchen nesse momento.

A vantagem de McCutchen em relação a Mike Trout é que Cutch também é apoiado pela narrativa. Cutchen é o melhor jogador de um time que vai aos playoffs assim como Cabrera, mas não só isso como ele também é o melhor jogador de um time que vai aos playoffs pela primeira vez em 21 fucking anos!!! As pessoas adoram narrativas quando olham para esses jogadores, e o Pirates sem dúvida foi a história mais legal da MLB em 2013. Então não apenas Cutchen foi o melhor jogador da NL em 2013, como jogou em um time que foi aos playoffs E fez parte da melhor história da temporada? Existe alguma chance dele NÃO ganhar esse MVP?

Quando olhamos para sua competição, fica ainda mais fácil lhe dar esse prêmio. Seu perseguidor mais próximo é Carlos Gomes, que explodiu nessa temporada com uma excelente performance ofensiva (24 HRs, 130 de wRC+) para juntar a sua já conhecida capacidade na defesa (24.4 em UZR, terceiro da NL atrás de Gerardo Parra e Andrelton Simmons - créditos do GIF a Michael Baumann da Grantland) e roubando bases (40, sétimo na MLB), de forma que seu valor correndo e na defesa superam até mesmo de McCutchen rumo a um WAR de 7.6. Mas Gomes não tem chance considerando que jogou em um dos piores times da NL. Goldschmidt e Joey Votto tiveram temporadas ofensivas ligeiramente superiores a Cutchen no bastão, mas não conseguem igualar o impacto do OF do Pirates com suas pernas ou na defesa. E embora Matt Carpenter tenha tido uma excelente temporada all-around, ele não foi melhor do que Cutch em um quesito sequer e jogou em um time mais lotado de grandes talentos, não tendo a importância individual de um jogador como Cutch para seu time. Então esse aqui é o mais fácil da coluna.

Menções honrosas, em ordem: Matt Carpenter; Carlos Gomes; Clayton Kershaw; Joey Votto; Paul Goldschmidt.

AL Rookie of the Year: Wil Myers


A corrida para ROY da AL esse ano foi surpreendentemente fraca. Meu candidato durante parte da temporada foi o brasileiro Yan Gomes, que tinha feito menos do que as 130 idas ao bastão para deixar ser considerado rookie pelo Blue Jays e foi listado pelo Fangraphs como calouro o ano inteiro. Mas acontece que, como o Thiago Kayano me lembrou ontem, ele também deixa de ser calouro se tiver passado 45 dias no plantel principal da MLB, e isso de fato aconteceu em 2012. Sem o meu favorito, tive que me voltar para os demais candidatos, e Myers foi o que mais se destacou.

Wil Myers, considerado pela Baseball America o melhor prospect da MLB em 2012, virou notícia quando seu time (Kansas City Royals) decidiu trocá-lo para o Tampa Bay Rays por James Shields, em busca de um arremessador para âncorar sua nova rotação, desastrosa um ano antes. Eu achei que era uma troca ruim na época e ainda acho agora: Myers era considerado um dos melhores prospects da MLB dos últimos anos, um jovem que ainda iria ficar muitos e muitos anos sob o controle da equipe... e o pior, que entraria na posição mais carente (RF) do time em 2012! Em troca, o time ganhou um muito bom mas não espetacular arremessador de 31 anos que estaria sob controle do time por apenas duas temporadas, o que me pareceu um preço alto demais a pagar por um OF que tinha tudo para dominar a AL por mais 10 anos. 

Deixando de lado por um instante os efeitos da troca para o Kansas City Chiefs (que funcionou bem por enquanto, com Shields ancorando uma boa rotação e tendo sua primeira temporada com record positivo em muitos anos), o fato é que Myers tem jogado muito bem desde que subiu, embora por apenas 88 jogos, tendo sido chamado quase na metade da temporada. O que acontece é o seguinte: quando um prospect normal (ou seja, que foi escolhido no draft e assinou um contrato como calouro recém-draftado) sobe para a MLB, seu contrato dura cerca de sete anos a um valor muito pequeno anualmente, um contrato de calouro. No entanto, depois de algum tempo de serviço na MLB, esse jogador pode pedir "arbitration", ou seja, ele pede uma revisão do seu contrato e um mediator independente vai olhar para seus números e determinar qual seria seu novo salário pelo resto da duração do contrato vigente. Claro que um time pode (e muitas vezes de fato o faz) assinar o jogador para um novo contrato antes de chegar até a arbitration, e certamente é o plano do Rays, mas a questão é que o Rays é um time pobre e que quer aproveitar ao máximo esses anos de mão de obra barata antes de chegar na arbitration. Por isso o Rays tinha uma escolha: como Myers era um prospect considerado "Super Two" e com sete anos de contrato pela frente, se ele jogasse mais do que um determinado tempo na MLB esse ano ele teria três anos do seu salário normal e mais quatro após a arbitration, enquanto se ele jogasse menos do que esse certo tempo, ele só entraria em arbitration após quatro anos de salário normal. Por isso o Rays optou por deixá-lo mais tempo nas ligas menores e aproveitar apenas metade da temporada com  Myers, já que isso lhes dava um ano a mais de controle sobre o jogador antes de seu salário subir.

Desde que subiu, Myers tem feito juz ao hype: defesa um pouco abaixo da média (já que a mudança do infield pra RF ainda é recente e está se adaptando a nova posição), mas um ótimo desempenho no bastão, rebatendo .293/.353/.478 e um wRC+ de 131 com 13 HRs em 88 jogos, liderando todos os calouros da AL em OBP, SLG e OPS ( e wRC+). Ele ainda comete muitos strikeouts (24.8%) e seu BABIP certamente vai cair em relação aos .364 dessa temporada, mas foi um começo promissor para um talento promissor que ainda deve se desenvolver com o tempo. Não foi uma grande temporada, foi apenas uma boa e em pouco tempo, mas que lhe gerou um WAR de 2.4. Essa é a melhor marca em um grupo de calouros bastante decepcionante da AL, onde apenas David Lough passou dos 2.0 (os mesmos 2.4 de Myers) mas com mais jogos (96). Não foi uma temporada individualmente brilhante e que talvez não lhe rendesse o ROY em outro ano ou mesmo se ele jogasse na NL, mas esse ano não tem opção melhor.

Mençoes honrosas, em ordem: Jose Iglesias, David Lough, Dan Strailey.

NL Rookie of the Year: Jose Fernandez


Primeiro eu queria tirar logo isso das minhas costas: não tem a menor chance de Yasiel Puig continuar rebatendo .319/.391/.534 (160 wRC+) por muito tempo. Esse número absurdamente alto vem nas costas de um BABIP também absurdamente alto de .383, uma figura que é praticamente impossível de se sustentar. Seu HR/FB Ratio também está na casa dos 21.8% e vai decair muito possivelmente, já que é um nível quase Miguel Cabrera de produção. Desconsiderando por um momento esse provável declínio no seu HR/FB Ratio (ou seja, supondo que mantenha), me parece uma boa hora para usar um modelo que eu desenvolvi a algum tempo. Ele utiliza o perfil de rebatidas de cada jogador (ou seja, pega quantas bolas rebatidas por ele são line drive, fly balls, ground balls ou infield fly balls) e cruza com a com a probabilidade de cada uma dessas rebatidas resultar em uma rebatida válida para projetar um xBABIP, ou Expected BABIP (BABIP esperado), de acordo com a forma calculada pelo ótimo Frangraphs. A partir desse xBABIP meu modelo ajusta a slash line para refletir um cenário mais preciso e menos dependente do acaso, usando o xBABIP para criar um cenário mais "preciso" da habilidade real do jogador e separar o que é sua performance real e do que está sendo influenciado por fatores além do seu controle. Eis o resultado desse modelo para Puig:


Meu modelo ajusta slugging por três fórmulas diferentes, por isso SLG aparece três vezes no modelo. Não vou entrar nos detalhes sobre cada um, mas o meu favorito é o SLGc - sintam-se a vontade para usar o que preferirem. Então a slash line ficaria:

2013 Puig: .319/.391/534
xBABIP Puig: .290/.365/.498

Ainda são bons números, mas nem de longe tão sobre-humanos como os atuais - seu wRC+ estaria na casa dos 130, 132. Isso faz de Puig ainda um bom jogador, especialmente considerando que ele chegou na MLB jovem e cru e ainda tem muito espaço para evoluir (um defensor abaixo da média e corredor muito abaixo dela, duas coisas que provavelmente vão melhorar com tempo e experiência já que as ferramentas estão lá para tal). Isso é só uma maneira de dizer que, mesmo que Puig seja realmente um jogador muito bom e divertido (e ele é), os números dele em 2013 não refletem adequadamente o jogador que ele é pois tiveram influência de fatores que não devem se repetir em uma amostra maior.

Mas não foi por isso que Puig não ganha meu voto para ROY. Influenciado pelo acaso ou não, Puig ainda teve uma temporada espetacular e totalmente vindo do nada, que colocou a MLB em fogo e logo elevou o cubano ao status de "não se atreva a mudar o canal quando ele está no bastão ou em base!". Quando consideramos esse tipo de prêmio, é muito mais importante olhar para o que o jogador fez no passado, não o que vai acontecer no futuro. Em qualquer ano normal, Puig seria não só meu candidato ao ROY, como um candidato sem a menor sombra de dúvida a ganhar o prêmio. A temporada dele foi boa demais, e merece ser reconhecida.

O problema de Puig é que ele deu azar de concorrer a esse prêmio logo na mesma temporada que um calouro chamado Jose Fernandez começou a arremessar pelo Miami Marlins. O calouro de (alegados) 20 anos que surgiu do nada depois de chegar a Miami em uma balsa clandestina - e tendo que voltar e arriscar sua vida nadando para salvar sua mãe que se afogava - logo se estabeleceu como um dos melhores arremessadores - não calouros, arremessadores - da MLB. Ao final da temporada, mesmo com um limite de entradas e não arremessando tanto quanto poderia, Fernandez termina a temporada com o sexto melhor FIP e o segundo melhor ERA de toda a liga. Ele termina a temporada 2013 com o arremesso mais devastador lançado por qualquer arremessador essa temporada (per PITCH f/x), um arremesso bastante particular que parece uma mistura de slider com slurve e que foi simplesmente impossível de se rebater na temporada inteira. Meu tidbit favorito de Jose Fernandez: nos jogos em casa da temporada 2013, Jose Fernandez teve mais strikeouts (108) do que bases totais cedidas MAIS WALKS (105). Nao rebatidas cedidas... bases totais mais walks!! Isso é impossível.

Se você nao acredita, tente isso. Desde 1940, a data que meu computador para de travar para compilar os dados, sabe qual o arremessador que teve o MENOR ERA- da MLB (uma estatística que ajusta o ERA por época, estádio, liga e afins) como calouro? Não foi Hideo Nomo, não foi Dwight Gooden, não foi Fernando Valenzuela. Foi Jose Fernandez. Se você preferir usar -FIP como estatística, ótimo: Gooden assume o topo e Fernandez aparece em quinto na lista, virtualmente empatado com o segundo colocado (mas a uma distância grande de Gooden). E isso considerando apenas calouros, o que é um pouco injusto com Fernandez já que isso aconteceu não apenas como um calouro, mas como um de apenas 20 anos. Considerando apenas arremessadores com 20 anos ou menos (calouros ou não), a única temporada que chega perto de 2013 Jose Fernandez foi a de 1985 por Dwight Gooden... e considerando que essa foi possivelmente a melhor temporada da história de um arremessador não chamado Pedro Martinez, eu diria que Fernandez está em excelente companhia. Ajustando por -FIP ao invés de -ERA, Fernandez cai para terceiro... atrás das temporadas 84 e 85 de Gooden apenas e mais nada. E Gooden nunca gerou um gif tão bom como esse aqui. Acho que deu para ter uma noção do absurdo que foi esse ano do garoto, especialmente quando a única comparação histórica possível é um dos arremessadores mais lendários da MLB.

Colocando de forma mais simples e direta: Puig teve uma temporada espetacular, mas Jose Fernandez teve uma das melhores (talvez a melhor) temporada de um calouro E de um arremessador da sua idade na história da MLB. Não vamos ver outra temporada como essa tão cedo. Tenho certeza disso.

Menções honrosas, em ordem: Yasiel Puig, Shelby Miller, Hyun-Jin Ryu.

AL Cy Young: Felix Hernandez


Max Scherzer provavelmente vai ganhar tranquilamente esse prêmio porque as pessoas, por algum motivo obscuro, ainda valorizam demais a segunda estatística mais estúpida do baseball, "wins". Ela é uma estatística extremamente estúpida por uma diversidade de motivos, mas principalmente porque ela é uma das que mais dependem do contexto do time e menos dizem sobre um jogador individual. Então vamos ver como isso funciona olhando para estatísticas de verdade e que dizem mais sobre o jogador.

Em uma situação normal, Anibal Sanchez seria a escolha fácil desse prêmio. Sanchez lidera a AL em ERA, em FIP e é terceiro em strikeouts por entrada. Quando arremessou, Sanchez foi o arremessador mais dominante da liga e isso deveria ser suficiente para vencer o Cy Young. Eu digo em situações normais porque Sanchez foi para o departamento médico cedo na temporada e passou lá parte do ano, não o suficiente para tirá-lo da disputa mas o suficiente para reduzir seu impacto na temporada. Nas 170 entradas que arremessou, Sanchez foi o melhor da AL, mas eu prefiro um jogador que tenha sido 90% tão dominante quanto mas tenha arremessado 30 entradas a mais, e portanto teve maior impacto no seu time. Sanchez merece ser lembrado, mas é difícil dar o prêmio para alguém que perdeu tanto tempo.

Olhando então em outra direção, e olhando por FIP e não por ERA, só tem quatro candidatos lógicos a esse prêmio: Scherzer, Chris Sale, Yu Darvish, e Felix Hernandez.

Entre eles, meu voto vai para Felix por três motivos. Primeiro, porque ele foi o arremessador individualmente mais dominante dos quatro: seu FIP (2.61) e -FIP (66) são os melhores da AL depois de Sanchez, e seu -xFIP é de longe o melhor da conferência (67), arremessando 30 entradas a mais que Sanchez. Segundo, porque existe no baseball uma estatística chamada SIERA que eu gosto bastante, que é basicamente uma tentativa de criar um FIP menos extremo (FIP considera apenas Ks, walks e HRs cedidos e mais nada) associando algumas jogadas a diferentes efeitos dentro de campo (por exemplo, pitchers com muitos Ks tendem a gerar contato mais fraco e SLG menor, ou groundball pitchers que geral mais queimadas duplas) - eu considero menos confiável do que FIP porque é uma estatística ainda em evolução, mas gosto dela para uma segunda opinião... e depois de Darvish, o SIERA de Felix é o menor da AL. E terceiro porque, junto de Sale, Felix enfrentou o calendário mais difícil desse grupo: Felix joga em uma divisão que lhe fez enfrentar diversas vezes Angels, Athletics e Rangers, três bons ataques, e Chris Sale teve que enfrentar dois dos três melhores da MLB em uma base regular com Tigers e Cleveland na divisão. Enquanto isso, Scherzer substituiu todos os jogos de Sale contra o forte Tigers por jogos contra os horríveis White Sox e Darvish não precisou, naturalmente, enfrentar o ataque do Ragers na divisão. Os adversários enfrentados por Felix somam um OPS de .751, enquanto os de Sanchez e Scherzer somam .730. 

Por isso meu voto vai para Felix. Mas em uma corrida tão apertada e cheia de jogadores dignos e interessantes, qualquer um deles pode fazer um bom caso para o prêmio. 

Menções honrosas, em ordem: Yu Darvish, Max Scherzer, Chris Sale, Anibal Sanchez, Bartolo Colon, Hisashi Iwakuma

NL Cy Young: Clayton Kershaw


Para mim Clayton Kershaw é o melhor arremessador da MLB na atualidade e um jogador historicamente bom. Quando o Vinicius, do Spinballnet, me pediu para fazer meu Top10 de arremessadores da história da MLB, eu terminei com uma nota que dizia "Tem uma boa chance de adicionarmos Clayton Kershaw a essa lista em alguns anos" (eu fiz um adendo na dos Top10 rebatedores também que dizia "tem uma chance de 95% de adicionarmos Mike Trout a ela algum dia"). Eu ADORO Kershaw, ele é a perfeita mistura de eficiência e dominação que eu tanto gostava no auge de Roy "Doc" Halladay, e as comparações com os lendários Sandy Koufax e Greg Maddux parecem menos absurdas a cada dia. 

Dito isso, Kershaw não foi o arremessador mais dominante dessa temporada. Foi Matt Harvey. Harvey terminou o ano com um FIP de exatamente 2.0, se juntando a uma seleta lista de arremessadores que conseguiram terminar uma temporada com 2.0 de FIP ou menos: Pedro Martinez, Sandy Koufax (2x), Doc Gooden, Bob Gibson, Tom Seaver e Tom Newhouser (com Steve Carlton abaixo com 2.01). Brilhante companhia para Harvey, hein? Colocando em termos de -FIP, a temporada de Harvey é a 16th melhor de todos os tempos e virtualmente empatado com até o 11th lugar. Entre os jogadores na frente de Harvey estão Pedro, Randy Johnson, Roger Clemens, Gooden, Curt Schilling e Zach Greinke: dois locks para o Hall da Fama (Pedro e Randy), um que deveria estar não fossem os problemas com PEDs (Clemens), um que algum dia estará lá (Schilling) e um que pode não entrar pela curta duração da carreira mas teve o maior auge de um pitcher fora Pedro Martinez (Gooden). Eu sei que o ERA de Kershaw foi menor (1.83 a 2.27), mas isso se deveu principalmente a uma diferença em BABIP de 3.5% (algo além do controle de ambos) e de um 80% de LOB para Kershaw que nao só é de longe a maior marca da sua carreira como é totalmente insustentável. Os fatores aleatórios favorecem Kershaw na disputa de ERA, mas em termos de pura dominância, ninguém foi mais do que Harvey essa temporada. Eu só não me sinto bem votando em Harvey pelo menos motivo de Sanchez: Harvey machucou e perdeu uma boa parte da temporada e arremessou 60 entradas a menos que Kershaw, então meu voto vai para o fenômeno do Dodgers.

O que não quer dizer, de jeito nenhum, que Kershaw não seja um vencedor digno ou que tenha recebido um prêmio apenas porque alguém melhor não estava na briga. O fato é que a temporada de Kershaw foi também um ano espetacular, que viu o fenômeno arremessar quase 240 IP, liderar a liga com um ERA de 1.83 (com ajuda de fatores aleatórios, mas que seja), terminar com o melhor WAR entre arremessadores com 6.5 e ficar atrás apenas de Harvey em FIP, tudo isso com um repertório de arremessos que inclui a mais valiosa fastball E a mais dominante curveball de toda a MLB. Matt Harvey pode ter sido o arremessador mais dominante de 2013 e ganharia meu voto se jogasse a temporada completa, mas Clayton Kershaw é o melhor arremessador na Terra.

(Gif cortesia do Estefano Souza e SB Nation)

Menções honrosas, em ordem: Adam Wainwright, Matt Harvey, Jose Fernandez, Cliff Lee

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Podcast de MLB, versão 2.0

Pessoal, hoje tou trazendo aqui mais um podcast, esse de novo sobre MLB, por causa da proximidade dos playoffs.

Infelizmente, eu estive muito ocupado essa semana, então esse podcast - gravado quinta passada - só conseguiu ser editado hoje. Pelo mesmo motivo naão tivemos posts essa semana, mas semana que vem retomamos o ritmo.

Do podcast, participamos eu, o Vinicius do blog Spinballnet (http://spinballnet.blogspot.com/) e o João, do MLB Brasil (http://mlb-br.blogspot.com/) - cliquem nos nomes para o twitter dos referidos. Tocamos em todos os assuntos relevantes no momento: A suspensão do Melky Cabrera, o jogo perfeito do Felix Hernandez, as decepçōes e surpresas da temporada, Stephen Strasburg e, claro, playoffs.

Aqui voces podem acessar os links que citamos no podcast: Para o post do TM Warning sobre estatiísticas avançadas, é só clicar aqui

E para ver o incidente o envolvendo o Torii Hunter e o umpire, clique aqui.

Finalmente, para acessar o podcast, é só entrar no link abaixo. Nele da pra escutar online e também está disponível para download. Espero que gostem!

Clique aqui para acessar o podcast