Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Prêmios da temporada 2016 da NBA

Curry comemora ao saber do voto do TMW para MVP


Mais uma temporada da NBA chegou ao fim, e com estilo: Golden State quebrou o recorde de mais vitórias em uma temporada (73-9) e tenta completar a temporada mais vitoriosa da história da NBA; San Antonio teve uma própria temporada histórica, igualou o recorde de vitórias em casa do Celtics de 1986 (40-1) e continua o eterno legado de Duncan e Pop; e Kobe Bryant fez sua emocionante e histórica despedida em Utah. Uma temporada para se lembrar.

Mas ela acabou, e enquanto esperamos o começo dos playoffs, enfim chegou aquele tão esperado momento: é hora de distribuir os prêmios de fim de temporada para a NBA.

Como eu e o Vinicius já falamos amplamente dos prêmios individuais na edição 9 do nosso Hack a Cast, e eu já expliquei em muitos mais detalhes a maior parte desses votos, eu vou passar mais rapidamente por estes, falar apenas de alguns pontos que ficaram faltando ou de eventuais mudanças, e então me aprofundar mais nos times All-NBA que não foram comentados anteriormente.

Vale lembrar também que saiu eu e o Vinicius já fizemos a Edição #10 do Hack a Cast, com o preview de todas as séries de playoff! 

Então sentem, relaxem, sigam o Hack a Cast no seu aplicativo de podcasts favorito, e aproveitem a coluna.


Most Valuable Player: Steph Curry

De novo: esse prêmio deveria ser unânime. Não será, porque SEMPRE tem alguém que quer aparecer. Assim como Jordan não ganhou unanimemente em 1996, assim como LeBron não foi unânime em 2013, e por ai vai. Mais um motivo pelo qual esses votos deveriam ser públicos: se você faz um voto tão imbecil assim, todo mundo tem que saber quem você é. Curry se tornou o primeiro membro da história do 50-40-90 club (pra quem arremessa 50% de quadra, 45% de três e 90% nos lances livres) a ter média de 30 pontos por jogo, e fez isso chutando 50-45-90 (só Nash, entre jogadores qualificados, teve números assim antes)! Curry acertou 400 bolas de três em uma temporada, quando ninguém nunca antes tinha chegado em 300. E ele é o melhor jogador da NBA E o melhor jogador do time que acabou de bater o recorde de vitórias da história da NBA. Então tem isso.

Regardless, esse foi de longe o prêmio que a gente mais discutiu no podcast, por isso só queria falar de um último aspecto.

A maior parte da estranheza do meu ballot veio de eu ter colocado Russell Westbrook na frente de Kevin Durant. Em parte, existe uma dificuldade natural de você julgar o MVP de dois jogadores no mesmo time - se ambos são "Mais valiosos", então nenhum é, certo? Faz parte da natureza idiota desse prêmio, e é uma dificuldade a ser contornada. 

Então sim, Kevin Durant é um jogador melhor que Westbrook. O motivo para eu ter votado no armador primeiro e no ala depois é simples: esquema tático. Esse ano, pela primeira vez, o Thunder mudou seu ataque para tornar Westbrook, e não KD, o centro do ataque e o seu organizador (escrevi sobre isso nessa coluna). E por causa disso eu vejo Westbrook como tendo sido um pouco mais importante para a totalidade do que o Thunder fez nessa temporada, controlando a bola, criando e facilitando para seus companheiros. Sem Westbrook, eles poderiam ter mantido KD como centro do ataque e continuado eficientes? Possível. Mas não o fizeram. E por isso eu tenho Westbrook rankeado um pouquínho acima para MVP, embora admitindo que Durant é o melhor jogador do time.

Algumas menções honrosas: Paul Millsap, Kemba Walker, Al Horford, Gordon Heyward, Paul George, James Harden.

Ballot (Top10): 1. Steph Curry; 2. LeBron James; 3. Kawhi Leonard; 4. Russell Westbrook; 5. Chris Paul; 6. Kevin Durant; 7. Kyle Lowry; 8. Damian Lillard; 9. Draymond Green; 10. Isaiah Thomas.


Defensive Player of the Year: Kawhi Leonard

Esse eu mudei um pouco em relação ao que eu falei no podcast. No Hack, eu citei seis jogadores: Kawhi e Dray os indiscutíveis 1-2;  a dupla Gobert/Favors que eu mudei entre #3, #4 e #6 ao longo do podcast; Millsap, #4; e Tim Duncan, #5. 

E entre as menções honrosas, eu citei Avery Bradley, que fez um trabalho fantástico esse ano em Boston, defendendo (e dominando) três posições para a quarta melhor defesa da temporada. Na verdade, eu tinha Bradley no meu Top5 antes das etapas finais, e deixei o SG de Boston de fora por achar que era meu lado torcedor falando mais alto e que não era uma decisão válida.

Mas desde então eu tive mais tempo para pensar e reavaliar essas escolhas, bem como consultar outros especialistas e pegar mais opiniões. E eu percebi que não, escolher Bradley não era fruto de clubismo: ele fez por merecer, e foi de fato um dos melhores defensores da temporada. Então ele volta para onde estava originalmente, #4 no meu ballot. E se você quer ver mais de perto os motivos que fizeram de Bradley um dos melhores defensores da temporada, recomendo fortemente essa genial coluna do ótimo Scott Rafferty.

Infelizmente, isso derrubou Duncan do meu ballot, o que é uma grande pena porque pouquíssimos jogadores foram tão bons defensivamente em um nível por-minutos. O único motivo para ter colocado Duncan fora foram os minutos: Duncan perdeu 22 jogos e jogou apenas 1500 minutos, 400 a menos do que Derrick Favors, meu #5, e Rudy Gobert, meu #7. Acabei dando a margem para Favors pelo maior papel que foi forçado a assumir ao longo do ano, sua versatilidade e maiores minutos que o pivô do Spurs, mas isso de forma alguma apaga o que Duncan fez nessa temporada fantástica. Aos 39 anos, ele continua um dos melhores defensores da liga e é parte fundamental do que o Spurs faz, dentro e fora de quadra.

Por fim, acabei colocando Millsap #3, porque realmente não da para deixar Millsap - que foi um fantástico defensor o ano todo, lider da segunda melhor defesa da liga, versátil e dominante - atrás de jogadores que tiveram 20 jogos e 800 minutos a menos. Foi um erro grave meu que corrijo aqui no meu ballot final.

Então nossa ordem ficou: Kawhi, Dray, Millsap, Bradley e Favors. Com meus eternos perdões a Duncan, eu gostei do resultado final. Algumas menção honrosas: Paul George, Tim Duncan, Rudy Gobert.

Ballot: 1. Kawhi Leonard; 2. Draymond Green; 3. Paul Millsap; 4. Avery Bradley; 5. Derrick Favors.


Rookie of the Year: Karl-Anthony Towns

Vou guardar a maior parte do que eu penso para os All-Rookie Teams, e já falamos muito desse prêmio no podcast, mas queria deixar isso claro: Towns deveria ser unânime. Ele não é o melhor calouro, já é um dos melhores JOGADORES da posição na NBA. Ele é fantástico.

Ballot: 1. Karl-Anthony Towns; 2. Kristaps Porzingis; 3. Nikola Jokic; 4. Justise Winslow; 5. Myles Turner.


6th Man of The Year: Andre Iguodala

No podcast, eu disse que votava em Jamal Crawford em quinto para 6th Man of the Year porque não queria causar uma revolta, mas que eu preferia Ed Davis pelo melhor impacto all-around em um time que dependia mais dele.

Bom, quer saber? Ed Davis entra no meu ballot oficial. Adeus, Crawford. Me processem!

Eu sei que esse prêmio acaba geralmente indo para o jogador que vem do banco, arremessa muito e faz muitos pontos, mas eu acho um jeito idiota de dar esse prêmio. Para mim, é um prêmio para o jogador que vindo do banco mais contribuiu em geral para seu time, da forma como tiver sido. Por isso votei em Iguodala, alguém que não só tem enormes contribuições defensivas e como ballhandler, mas que também é essencial para a identidade versátil e de small ball do Warriors. As estatísticas de Iggy podem não saltar aos olhos, mas seu impacto é imenso no melhor time da NBA.

O caso para tirar Crawford da lista é simples: apesar do alto número de pontos e highlights, ele é um jogador extremamente ineficiente (40 FG%) que dobra como um dos piores defensores da NBA, alguém que literalmente entra só para arremessar a vontade e que pouco contribui em outras áreas. Seus números parecem bons, mas não é difícil ver que as vezes Crawford prejudica tanto quanto ajuda seu time, especialmente na defesa. Por isso prefiro valorizar jogadores mais completos e que tem um impacto coletivo maior como Patrick Patterson e Ed Davis. Qualquer um desses dois faria muito mais falta aos seus respectivos times em caso de lesão do que caras como Crawford.

Embora seja um prêmio que eu não goste, o 6MOY pode ser bastante instrutivo quando trás a tona esse debate, o impacto real de um jogador contra o impacto que acham que ele tem. Algumas menções honrosas: Crawford, Tristan Thompson, Enes Kanter.

Ballot: 1. Andre Iguodala; 2. Evan Turner; 3. Patrick Patterson; 4. Will Barton; 5, Ed Davis


Most Improved Player: Stephen Curry

Em geral, minha política para esse prêmio é não votar em jogadores nos seus três primeiros anos de NBA -  afinal, para jogadores tão jovens é totalmente esperado que mostrem evolução. Mas McCollum e Giannis mostraram muita evolução, e não eram escolhas tão altas assim. Eu estava na dúvida sobre o que fazer com eles até lembrar que esse é o prêmio mais idiota da NBA e eu não deveria perder tempo com ele. Então entram os dois e ponto.

Sobre Manhimi, sua evolução provavelmente foi a mais "real", e não apenas um aumento de minutos e responsabilidade: antes um pivô brucutu que não sabia fazer muitas coisas, esse ano Manhimi foi a ótima âncora de garrafão do Pacers, fazendo passes difíceis, leituras inteligentes em alta velocidade e mostrando um muito evoluído jogo de meia distãncia. Foi realmente impressionante, um jogador que realmente mudou sua skill set, e merece ser reconhecido.

Mas meu voto ainda é de Curry, por um simples motivo: é muito mais difícil evoluir quando você já é talvez o melhor jogador da NBA e o MVP. Marginalmente, a evolução é muito mais difícil. Curry fez exatamente isso, e por isso tem meu voto. 

Ballot: 1. Stephen Curry; 2. CJ McCollum; 3. Jae Crowder; 4. Ian Manhimi; 5. Giannis Antetokounmpo; 6. Draymond Green.


Coach of the Year: Brad Stevens

Para os preguiçosos que NÃO ouvirão o podcast, eu tenho duas regras para o prêmio esse ano:

1. Greg Popovich é o melhor técnico da NBA. Ponto. Ninguém é melhor mantendo um time junto, fazendo ajustes e vencendo jogos. Ele deveria ganhar todo ano. Então, por esse motivo, eu parei completamente de considerá-lo nos meus ballots. Ele será o Coach of the Year de fato todo ano, então eu o considerarei como hour concour para efeitos de discussão.

2. Eu não faço ideia do que fazer com Steve Kerr e Luke Walton. Cada um foi técnico por só metade da temporada, de um time que não perde nada com um ou outro, mas que por outro lado pode ter sido o melhor da história da temporada regular da NBA. Então, como não sei o que fazer aqui, vou deixar os dois de fora da lista e incluí-los nessa nota para admirar a temporada fantástica que ambos tiveram no comando do melhor time da NBA.

Ditos esses dois pontos, o fato desse prêmio é que qualquer um dos três primeiros dessa lista seria um merecedor do título. Stevens, Stotts e Clifford todos fizeram trabalhos magníficos com times limitados, tiveram grandes campanhas, superaram as expectativas e foram dos melhores da liga fazendo ajustes diariamente e adaptando a diversas situações. Meu voto por Stevens possivelmente tem um ligeiro viés de Boston - afinal, eu vi quase todos os jogos de Boston no ano e acompanhei mais de perto o seu trabalho - mas também é o técnico do melhor time dos três. Mas qualquer um deles teria sido uma ótima opção.

Menção válida também para Carlisle, que ano sim, ano não ta lá tirando 40 vitórias e uma vaga nos playoffs de times cada vez mais limitados de Dallas. Você poderia cercar Dirk de quatro blogueiros brasileiros que Carlisle ainda arrancaria uma vaga nos playoffs. Ele é um gênio.

Casey também teve ótimo trabalho, mas cai para quinto pela força dos outros candidatos e por eu ter achado que sua abordagem na reta final da temporada vai custar ao time nos playoffs.

Ballot: 1. Brad Stevens; 2. Terry Stotts; 3. Steve Clifford; 4. Rick Carlisle; 5. Dwayne Casey.


Teams All-NBA

1st Team: Stephen Curry, Russell Westbrook, LeBron James, Kawhi Leonard, Draymond Green

2nd Team: Kyle Lowry, CP3, Kevin Durant, Paul Millsap, Al Horford

3rd Team: Damian Lillard, James Harden, Paul George, LaMarcus Aldridge, DeAndre Jordan


A NBA recentemente liberou que os votantes de times All-NBA votassem em Draymond Green como um Center, o que me evitou do extremo incômodo de derrubá-lo para o 2nd Team All NBA e ter que colocar Horford ou Jordan no 1st Team - ambos bons jogadores, mas não de 1st Team All NBA.

O problema é que as opções de costume não estavam disponíveis: Cousins perdeu muito tempo, jogou em segunda marcha (especialmente na defesa) durante muito tempo, e foi um dos grandes responsáveis pelo caos que foi o Kings dessa temporada; e Marc Gasol perdeu a maior parte do ano machucado. Então colocando Green de Center - onde ele jogou durante boa parte da temporada, inclusive na famosa Lineup of Death, a mais devastadora da NBA moderna (Curry, Klay, Iggy, Barnes e Draymond) - resolve os dois problemas: achar um Center para o 1st Team All-NBA, e achar um lugar para Draymond Green (um dos dois melhores defensores da NBA, 14-9-7 de médias, quase tão importante quanto Steph Curry para um time que acabou de vencer 73 jogos) no 1st Team All-NBA que ele merece.

Mas, infelizmente, não teve gambiarra posicional que me salvasse da cruel decisão de deixar de fora do 1st Team um do trio LeBron, Kawhi e Durant, já que o time só nos permite 2 Forwards,

No final, eu decidi por deixar Durant de fora, com dor no coração. LeBron foi meu #2 para MVP e é para mim o segundo melhor jogador da liga com uma boa margem ainda, mas entre Kawhi e Durant foi uma briga boa. Eu acho KD o melhor jogador dos dois, mais capaz de carregar diariamente um time como alpha dog, mas na totalidade do ano, eu acho que Leonard foi ligeiramente melhor pelo seu impacto imenso nos dois lados da quadra por um time superior, enquanto o fantástico Durant ainda teve alguma adaptação de dividir cada vez mais as chaves do ataque com Westbrook. Mas, realmente, é uma decisão marginal, e mais uma questão de opinião. Não tem como ir errado nela.

Então Durant acabou escorregando para o 2nd Team All-NBA junto de Paul, Lowry (#5 e #7 no meu ballot para MVP, respectivamente) e Paul Millsap, que foi #3 na minha votação para melhor defensor da temporada e foi meu último corte no ballot para MVP. 

No terceiro time, junto de Lillard (#8 para MVP), Paul George (penúltimo corte antes de Millsap) e Aldridge (excelente impacto dos dois lados da quadra para um time que venceu 67 jogos), eu coloquei James Harden ao invés de Isaiah Thomas, que foi #10 no meu ballot para MVP.

Por mais estranho que isso pareça, eu achei uma conclusão válida. Meu argumento para Isaiah na corrida para MVP se baseava no conceito de "Mais valioso": o ataque inteiro de Boston era baseado em uma quebra inicial da defesa, e Isaiah era praticamente o único jogador do time capaz de fazer isso, o que significa que toda a responsabilidade de iniciar as ações ofensivas do time dependiam do baixinho, fazendo dele um jogador extremamente valioso para o Celtics. Mas individualmente, Harden ainda é superior. Sua candidatura a jogador "mais valioso" cai por conta da falta de vontade e fraca liderança, que acaba tendo um efeito dominó pelo plantel, mas também é preciso ver o outro lado da moeda: Harden jogou minutos sobre humanos (liderou a NBA com 3125 no ano) e é o único jogador de criar no ataque de Houston, o que significa que ele teve que criar o tempo todo (e por mais tempo que qualquer outro) para que seu time pudesse sequer sobreviver. De certa forma, da até uma certa justificada em sua falta de dedicação e energia na defesa e nos contra ataques. Harden tem sua culpa na temporada abismal de Houston, mas também foi alguém que segurou as potnas muitas vezes, teve 29-7.5-6 de médias e precisou fazer muito mais do que seria ideal pedir dele. Achei que mereceu a última vaga.

Quanto aos pivôs, depois de Green no 1st Team All NBA, eu tive três nomes para as últimas duas vagas: Al Horford, provavelmente o melhor Center all-around da temporada; DeAndre Jordan, cuja defesa se tornou tão overrated que fez as pessoas esquecerem do quão destrutivo o pivô é ofensivamente cortando na direção do aro; e o calouro, Karl-Anthony Towns, que teve 19-10 de média, arremessou de meia distância e de três, e já é um bom defensor.

No final, eu acabei optando pelo maior impacto em times bons de Horford e DeAndre. É mais fácil jogar em times ruins e com mais liberdade, mas para manter a mesma atuação se mantendo fiel a um esquema de jogo mais consolidado e precisando desse impacto para vencer jogos é mais difícil e merece mais créditos. Horford acabou ficando no 2nd Team (junto de Millsap foram os pilares da segunda melhor defesa da temporada, além de ser um dos mais completos jogadores de garrafão ofensivamente da NBA, capaz de jogar perto e longe da cesta, passar e arremessar), e DeAndre e suas enterradas ficaram no 3rd Team. Por mais que eu quisesse valorizar a temporada incrível de Towns, essa me pareceu a montagem mais justa dos times. 

Cortes finais e mais difíceis: Isaiah Thomas; Klay Thompson; Kemba Walker; John Wall; Gordon Heyward; Jimmy Butler; Derrick Favors; Anthony Davis; Andre Drummond; DeMarcus Cousins; Tim Duncan; Hassan Whitesite.


Teams All-Defense

1st Team: Ricky Rubio; Avery Bradley; Kawhi Leonard; Paul Millsap, Draymond Green

2nd Team: Chris Paul, Jimmy Butler, Paul George, Derrick Favors, Tim Duncan


Eu já falei bastante em outros momentos - em especial no podcast - sobre 4 dos 5 membros do 1st Team All-Defense: Bradley, Kawhi, Millsap e Draymond Green, todos no meu Top5 para Defensive Player of the Year. Então vamos falar do quinto membro: Ricky Rubio.

Até hoje, Rubio continua criminalmente underrated, especialmente na defesa. Talvez por ele ser branco, europeu e pouco atlético, mas as pessoas parecem ter algum bloqueio para enxergar o defensor incrível que Rubio é. A verdade é que o espanhol talvez seja o melhor PG defensivo da NBA quando saudável, um defensor extremamente físico e inteligente que consegue acompanhar mesmo os mais velozes armadores da NBA. Rubio usa sua inteligência e capacidade de antecipação para ficar um passo à frente do ataque, sempre chegando na hora ou até antecipado nos lugares certos, atrapalhando os ataques e conseguindo diversos roubos de bola no processo. Já passou da hora de Rubio ser reconhecido por sua fantástica defesa.

No 2nd Team temos defensores mais chamativos: Butler e George são consagrados defensores de perímetro; Favors o último membro do meu ballot para DPOY; e Duncan é só um dos melhores defensores da história da NBA que consegue manter um altíssimo nível mesmo aos 39 anos e ainda é a âncora interior da melhor defesa da temporada e uma das melhores da história. Paul é um exemplo de jogador que entrou no time ano passado baseado em reputação e não em produção, já que sua temporada defensiva deixou a desejar em 2015, mas voltou a jogar em altíssimo nível desse lado da quadra em 2016 e poderia até mesmo ter um argumento para desbancar Rubio do 1st Team.

A posição de guard, inclusive, foi a mais difícil (além de decidir entre Duncan e Gobert para 2nd Team Center). Tony Allen teve um ano irregular e perdeu jogos, mas ainda é um dos 3 melhores defensores de perímetro da  NBA quando joga a 100%;  Kentavious Caldwell-Pope emergiu essa temporada como um dos melhores guards defendendo PGs da liga; e Marcus Smart é uma mistura de um pitbull com uma bola de boliche. Todos eles poderiam ter roubado a vaga de Paul nesse 2nd Team All Defense, mas no final optei pelo maior impacto cumulativo e consistente de CP3. Todos seriam boas opções.

Ausências mais difíceis: Marcus Smart; Tony Allen; Kentavious Caldwell-Pope; Jae Crowder; Al Horford; Rudy Gobert.


Teams All-Rookie

1st Team: Justise Winslow; Myles Turner; Nikola Jokic; Kristaps Porzingis; Karl-Anthony Towns

2nd Team: Emmanuel Mudiay; D'Angelo Russell; Devin Booker; Jahlil Okafor; Willie Cauley-Stein


Se você quer saber se seu amigo acompanha NBA de verdade e/ou entende alguma coisa de basquete, pergunte pra ele casualmente se Nikola Jokic deveria entrar no 1st Team All-Rookie. Se a resposta for não - ou até se ela demorar para vir, na verdade - então você sabe que esse seu amigo não está acompanhando NBA assim tão de perto. Jokic teve um ano fantástico, e não só é um no-brainer para 1st Team como o europeu tem até mesmo um caso para roubar o #2 de Porzingis, embora não serei eu a fazê-lo. Mas Jokic - que caiu para a segunda rodada do Draft por "falta de atleticismo" - se mostrou o pivô perfeito para a NBA moderna, um grandalhão capaz de proteger o aro (adversários tiveram o mesmo aproveitamento arremessando perto do aro contra Jokic que contra Towns) e defender em alto nível (compensando a falta de atleticismo com mobilidade e inteligência) e espaçar a quadra no ataque: bom arremessador com alcance até a linha dos 3Pt, passador de elite para seu tamanho, extremamente versátil. Não é coincidência que Denver foi um time -7.5/100 posses com o sérvio no banco, e +1.2/100 posses com ele em quadra. Jokic foi um monstro em 2016 e, talvez pelo preconceito com calouros europeus, talvez por jogar em um esquecido time do Nuggets, não recebeu o reconhecimento que merecia do grande público.

Sobre Towns, eu já falei bastante no podcast e na coluna: sua combinação de defesa, tamanho, arremesso, capacidade de atacar o aro e passe é única e faz dele um dos ativos mais valiosos da NBA. Não é exagero dizer que Towns talvez já seja um dos 20, 25 melhores jogadores da liga hoje.

Porzingis é outro no-brainer, embora tenha acabado sendo ligeiramente overrated pela mídia, em parte por jogar em New York. Sua defesa, mobilidade e versatilidade foram ainda superiores ao que esperávamos, mas seu arremesso de fora não mostrou a evolução esperada, e sua produtividade foi caindo ao longo do ano. Não é nenhum problema para um calouro, claro, e seu ano ainda foi excelente e o potencial é de ser uma estrela na NBA, mas sempre é importante lembrar de ter calma.

Esses três eram as escolhas óbvias, que não podem faltar em nenhum time digno de nota.

Depois desses, ainda faltavam dois lugares, e é quando entramos naquele interessante e difícil debate: como valorizar devidamente jogadores em situações tão extremas e diferentes? Por um lado, você tem jogadores como Devin Booker, que tem números melhores e maior destaque individual, mas por jogarem em times ruins e sem nenhuma aspiração, que tem liberdade para fazerem o que bem entenderem. Por outro, tem jogadores como Justise Winslow, que não tem os números e muito menos liberdade para produzirem individualmente, mas que tem que se adaptar a um esquema mais "sério" e jogar não com liberdade, mas se adaptando e produzindo dentro de um esquema específico voltado para vencer jogos.

Eu pessoalmente valorizo mais o segundo: vários calouros talentosos tem condições de postar números impressionantes se deixados livres para produzir e errar sem compromisso, mas conseguir produzir (para si e para o time) dentro de um contexto específico, contribuindo para um time vencedor em busca de resultados, é muito mais difícil. Por isso que minhas duas últimas vagas no 1st Team All-Rookie foram para Myles Turner e Justise Winslow, dois calouros com números individuais apenas sólidos mas que tiveram enorme impacto dos dois lados da quadra e foram cruciais para dois times de playoffs na temporada (para mais detalhes, escutem o podcast).

E isso não é para diminuir Booker, que teve uma boa temporada e mostrou um jogo de pick and roll muito mais avançado do que se esperava, e que não teve a chance de mostrar em Kentucky (embora, para ser justo, sua defesa foi péssima). Nos seus últimos 22 jogos, Booker teve médias de 21 pontos e 5 assistências. Bastante impressionante mesmo considerando os 4 turnovers e 18 arremessos por jogo. É só que é mais fácil fazer isso em um time como Phoenix, que já tinha desistido da temproada e não tinha intenção de ganhar jogos mais, o que permitiu a Booker fazer o que bem entendesse.

Mudiay foi uma decisão difícil, pois a produção do armador do Nuggets deixou a desejar: seu arremesso foi péssimo (36.4 FG%) e foram 3.2 turnovers por jogo para alguém que as vezes pareceu genuinamente perdido. Ainda assim, Mudiay ganha o benefício da dúvida por um motivo semelhante a Winslow e Turner: desde o primeiro dia, Mudiay teve que aguentar uma responsabilidade enorme e conduzir o show para um time que estava seriamente tentando vencer jogos e mudar a cultura. Mudiay não tinha a liberdade de errar como outros, ele precisava jogar para o time e produzir resultados coletivos, e dado esse cenário ele foi até bastante produtivo.

Outro armador difícil de julgar é D'Angelo Russell, especialmente depois do escândalo envolvendo ter vazado um áudio no qual Nick Young confessou ter traído sua esposa/noiva (sim, eu estou por fora das fofocas do mundo da NBA). Seus pontos altos na temporada foram ótimos, mas os baixos também foram bastante baixos, e sua temporada provavelmente ficará mais marcada pelos problemas com o técnico e Young do que pela sua produção. Ao mesmo tempo, no entanto, eu sinto que precisamos dar um desconto a Russell, que se encontrava na pior situação possível: seu técnico era o pior da história recente da NBA, jogando junto de vários outros ballhandlers em um elenco fraquíssimo, por uma franquia incompetente que estava mais interessada em promover a despedida de Kobe do que em desenvolver algo semelhante a um time. Era uma situação sem saída, e dadas as circunstâncias, Russell até que jogou muito bem.

Okafor também é um caso difícil, tendo perdido boa parte da temporada, se envolvido em problemas extra campo, perdido totalmente sua habilidade nos passes e mostrado talvez a pior defesa de qualquer jogador que eu vi na temporada. Then again, sua capacidade de pontuar é incrível, sua média de pontos foi a segunda melhor entre calouros, e existe um limite para as coisas que um homem consegue fazer jogando no desastre que foi o Sixers desse ano. Considerando a total falta de espaçamento, ajuda ofensiva e defensiva, falta de um armador puro para ajudar a conseguir bons arremessos, os 17.5 pontos por jogo em 50.8 FG% de Okafor parecem quase milagres.

A última vaga então ficou entre alguns bons jogadores que tiveram menos espaço no ano: Willie Cauley-Stein, Josh Richardson (infelizmente não teve os minutos), Trey Lyles (demorou para ganhar espaço, inconsistente na defesa), Frank Kaminsky e mais alguns. No final, acabei optando por Stein, que também teve que superar uma péssima situação (um Kings extremamente disfuncional com um técnico mais interessado em atrapalhar que ajudar) para brilhar, especialmente na defesa, onde ele é surreal. Mas qualquer um seria uma opção válida nessa última vaga. Simplesmente uma classe fantástica de calouros.



Ausências mais difíceis: Trey Lyles, Frank Kaminsky, Josh Richardson, TJ McConnell, Bobby Portis.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Distribuindo prêmios para a temporada 2015 da MLB

Ele não aparece na coluna, mas o prêmio "Pedro Martinez de
Jogador Mais Carismático do Ano" vai para Bartolo Colón!


Apesar do triste fato de que meu Red Sox foi um fiasco desde o primeiro dia da temporada e pagou 205 milhões de dólares (algo como 392 bilhões de reais no câmbio atual) na offseason para dois jogadores que totalizaram -3.7 fWAR (entre jogadores com 400+ passagens pelo bastão, Sandoval é o segundo pior e Hanley o terceiro pior em fWAR, atrás apenas de Victor Martinez) 2015 foi uma das minhas temporadas favoritas da MLB que eu lembro de ter assistido.

Teve de tudo: performances históricas de múltiplos jogadores, trocas bombásticas, grandes surpresas, grandes decepções, uma safra histórica de calouros, grandes jogos, e tudo que você poderia pedir em uma temporada. E, enquanto os playoffs não chegam, não consigo pensar em uma forma melhor de terminar a temporada regular com uma fantástica disputa pelos prêmios individuais da temporada. Ainda que a MLB seja péssima em dar esses prêmios de forma inteligente, eu ainda tenho um estranho fascínio por eles. E, todo final de temporada, não consigo deixar de fazer minha lista pessoal de quem iria no meu ballot que nunca terei.

E eu pessoalmente não lembro de ter visto uma disputa melhor pelos prêmios individuais, de modo geral, do que está acontecendo em 2015. Dos 6 prêmios principais da temporada (e eu estou excluindo Manager of the Year por ser o pior prêmio dos esportes), TRÊS são disputas extremamente parelhas sem um claro favorito, QUATRO ainda estão bem abertas, e duas ou três envolvem performances históricas de pelo menos um jogador. Isso obviamente gera muito chorume na internet, mas também abre espaço para debates muito interessantes. Então vamos fazer nosso giro tradicional pelos prêmios individuais da MLB, começando com o menos disputado.

Colunas escritas e estatísticas válidas até 03/10, exceto a parte do MVP da AL e quando mais for avisado o contrário. 


National League MVP

É, esse é bem óbvio.

Absurdamente, a verdade é que existe uma chance real de Bryce Harper não vencer esse prêmio, o que seria um dos maiores roubos da história da MLB. Infelizmente, alguns dinossauros ainda acham que para ser o MVP seu time precisa ter ido aos playoffs, o que é patético porque você está usando um fator coletivo (vitórias do time) para julgar um prêmio individual. Sim, o Nationals não vai para os playoffs, mas que culpa Bryce Harper tem que seus companheiros não foram bem durante o ano, que o time foi assolado por lesões, e que a troca do Jonathan Papelbon falhou miseravelmente? Ao mesmo tempo, outro grande craque, Andrew McCutchen, teve uma temporada muito boa, ainda que muito inferior à de Harper... só que seu time foi aos playoffs. O fato de Cutchen ter ido aos playoffs e Harper não não tem NADA a ver com suas performances individuais, e sim com a performance do resto da equipe - porque deveria então premiar individualmente McCutchen sobre Harper sendo que a diferença foi ter companheiros melhores?

Claro, eu não digo que não se deve NUNCA olhar a performance da equipe. Entendo o conceito de valor relativo, e não sou contra se considerar tal fator em escalas menores, ou mesmo como critério de desempate entre dois jogadores muito próximos (vejam o próximo prêmio). Mas quando você tem um jogador sendo CLARAMENTE superior por uma grande margem aos demais, você não pode me dizer que ele não é o MVP. E esse é o caso de Bryce Harper.

Então vamos aos números. Harper lidera com folga a NL (e toda a MLB) em fWAR, com 9.5 - duas vitórias inteiras acima do segundo colocado. Harper também está rebatendo ridículos .331/.461/.646 na temporada com 41 HRs (líder da NL), o que da um wRC+ de 197 (ou seja, ajustando para estádio, a produção por at bat de Harper é 97% superior a de um jogador médio da MLB), com folga a melhor marca da liga (Votto é o segundo com 175). Deixe eu tentar colocar isso em contexto...

Bryce Harper: .331/.461/.646, 197 wRC+, 41 HRs.
Jogador B: .356/.499/.648, 209 wRC+, 36 HRs.

Sim, eu sei que o jogador B foi melhor, mas olhe um pouco para esses números. Um pouco mais. Deixe entrar o quão absurdos eles são. Pronto?

Bem, o primeiro obviamente é de Bryce Harper na temporada 2015, com 22 anos. O Jogador B, por outro lado, é ninguém menos que o segundo melhor rebatedor da história do esporte, Ted Williams, na sua temporada 1942 - com 24 anos. Em outras palavras, aos 22 anos Harper acabou de ter uma temporada comparável a uma temporada do auge de Teddy fucking Ballgame!! Eu já mencionei que Harper tem 22 anos? Isso é insano. Legitimamente surreal.

Espere ai, ainda não terminei de falar do quão ridícula está sendo a temporada de Bryce Harper. Desconsiderando o fato de que nenhum jogador em atividade na MLB teve uma temporada com wRC+ que chegue no nível dos 197 de Harper - nem Trout, nem Miguel Cabrera, nem Albert Pujols, nem Joey Votto, nem Alex Rodriguez - porque ele é pouco para o que o canhoto fez essa temporada, vamos tentar olhar um contexto um pouco mais histórico:

1. O único jogador da HISTÓRIA do baseball com wRC+ melhor que o de Bryce Harper em 2015 com 22 anos ou menos foi Ted Williams (221 no ano que rebateu .400). Ninguém mais.

2. Harper está com 9.5 de fWAR na temporada. Com um restinho de temporada pela frente, ainda pode chegar a 10.0 de fWAR em 2015. Os únicos jogadores da Live Ball Era a atingir esse feito com 22 anos ou menos foram Ted Williams e Mike Trout... que é tão ridículo que fez isso DUAS vezes. Se acabar com 9.5 mesmo, fica atrás apenas de Ted, Trout e Stan Musial. Excelente companhia.

Nota: Harper terminou o ano com 9.6 fWAR

3. Ted Ballgame se aposentou em 1960. Desde então, os únicos jogadores a terminarem uma temporada completa com wRC+ superior aos 197 de Harper foram Barry Bonds, Mike Schmidt, George Brett, Mark McGwire e Dick Allen. Ainda é possível que Bryce Harper termine 2015 com a melhor temporada ofensiva não-PEDs de um jogador desde 1960. Leia isso de novo. Eu já disse que Harper tem 22 anos?

Nota: Harper terminou o ano com 198 wRC+, a segunda melhor temporada ofensiva completa sem PEDs desde 1960 atrás apenas de Dick Allen em 1972.

4. Nenhum jogador com 22 anos da história do esporte teve taxa de walks melhor que os 19.2% de Harper. Nunca aconteceu. 

A temporada do Bryce Harper foi tão ridícula que eu não dei conta de compilar fatos suficientes sobre o quão ridículo ele é e/ou tem sido. Então pedi ajuda do mestre das estatísticas históricas de baseball, o fantástico Ryan Spaeder (sigam ele no twitter, sério. Agora!), para me mandar algumas estatísticas divertidas sobre esse monstro mitológico. Eis o que ele tinha a dizer:

1. Bryce Harper agora detém o recorde de bWAR para temporadas de jogadores com 19 anos (5.1) e 22 anos (10.2) na história do esporte

2. Em 2015, Bryce Harper se tornou o jogador mais jovem da história do esporte com 40 HRs e 120 walks em uma temporada. O recordista anterior? Babe Ruth. Com 25 anos. 

3. Bryce Harper tem 10.2 bWAR em 2015. Isso é mais que as melhores temporadas da CARREIRA de Albert Pujols (9.7), Ken Griffey Jr (9.7) e Hank Aaron (9.4). Você sabia que Br... pensando bem, sabe sim.

4. Bryce Harper tem 124 walks essa temporada. Isso é mais que a melhor marca da carreira de Sammy Sosa (116), Albert Pujols (115), Willie Mays (112), A-Fraud (100), Ken Griffen Jr (96) e Hank Aaron (92).

5. Em 114 jogos entre 6 de maio e 21 de setembro, Bryce Harper rebateu .376/.486/.726.

6. Dia 11 de Agosto, Bryce Harper atingiu a marca de 7.2 bWAR na temporada. Isso é igual ao TOTAL que Miguel Cabrera teve na temporada toda no ano que ganhou a tríplice coroa. 

7. Bryce Harper em 2015 lidera a NL em WAR, oWAR, wRC+, OBP, SLG, ISO, OPS, OPS+, wOBA, BB%, R, TB, HR, OffW%, RE24, WPA/LI, REW, WAA e Rbat.

Então a verdade é que Bryce Harper está tendo uma temporada tão superior a todo o resto do baseball que compará-lo com seus colegas não é mais suficiente - para uma comparação justa, precisamos recorrer às maiores ofensivas da história do baseball e seus maiores jogadores. Ele tem sido bom a esse ponto. Bryce Harper fez história em 2015, com uma das melhores temporadas da história do esporte. E qualquer jogador bom a esse ponto é o MVP, não importa se o seu time foi para os playoffs ou não. 

E antes de passar para a próxima categoria, deixo vocês com meu fato favorito, mais uma vez cortesia do grande Ryan Spaeder.

Slash line na carreira depois de 500 jogos:

Jogador A: .255/.345/.465
Jogador B: .299/.365/.488
Jogador C: .296/.385/.507
Jogador D: .291/.386/.521

Jogador A é Barry Bonds. Jogador B é Ken Griffey Jr. Jogador C é Willie Mays.

E o jogador D é Bryce Harper.

NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Arremessador A; 4. Arremessador B (Hold that thought...); 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. AJ Pollock; 9. Andrew McCutchen; 10. Jason Heyward.


American League MVP

Eu não sei o que foi mais difícil nesse prêmio: decidir quem foi o MVP entre Mike Trout e Josh Donaldson, ou decidir o resto do meu ballot. Sério, tente fazer esse exercício: como ficaria o resto do Top10 para AL MVP? É impossível. Por isso eu trapaceei e, diferente do NL MVP (que tem pelo menos uns 15 caras que eu queria citar e acabei colocando 10), vou fazer só um Top6. Minha coluna, minhas regras. Me processem.

De volta ao MVP da AL, acho que é óbvio para qualquer ser humano normal que a disputa só pode ser entre dois jogadores, Trout e Donaldson. Eles tem sido consideravelmente superiores a todos os demais jogadores da liga, com ambos no Top4 em wRC+ na AL (1st e 4th, respectivamente) e  Trout a 2 vitórias inteiras acima do terceiro colocado da AL em fWAR (Manny Machado). Não existe nenhuma alternativa realista ao prêmio de MVP que não esses dois.

Decidir entre Trout e Donaldson, por outro lado, é uma tarefa bastante difícil, pois os dois estão bastante próximos. No bastão, Trout tem uma vantagem considerável sobre Donaldson e qualquer jogador da AL: o OF do Angels tem uma slash line impressionante de .298/.400/.588 que é bastante superior aos (também ótimos) .298/.373/.571, e isso antes de lembrar que Trout joga em um dos estádios mais desfavoráveis para rebatedores da liga, e Donaldson em um dos mais favoráveis. Juntando tudo, Trout tem um wRC+ de 171 (ou seja, foi 71% melhor que um rebatedor médio da MLB por at bat) - a melhor marca da AL - e Donaldson de 155. Incluir baserunning na equação não tira a vantagem de Trout: o OF roubou mais bases mas também foi mais vezes eliminado, e Donaldson é um corredor bastante inteligente, mas a diferença é mínima: BsR diz que Trout gerou 3.3 corridas com as pernas acima da média, e Donaldson 3.9. Diferença pequena.

Do lado defensivo da bola, por outro lado, é que Donaldson tira essa diferença (ou pelo menos uma parte dela). Trout é um sólido defensor no campo externo - +0,4 UZR, +5 DRS e +2.3 Defensive Rating - mas Donaldson (um ex-catcher, btw) é um defensor de elite no canto do infield: +7.9 UZR, +11 DRS, e +9.4 Defensive Rating, a terceira melhor marca entre 3Bs qualificados da American League (Beltre e Machado). Se Trout tem vantagem no ataque, Donaldson tem vantagem na defesa.

Então se queremos decidir quem foi o jogador que mais gerou valor para seu time em 2015, Trout ou Donaldson, tem a questão importante é a seguinte: a vantagem de Donaldson do lado defensivo é o suficiente para compensar a vantagem de Trout no ataque? Eu acho que não, e as estatísticas concordam comigo: Trout tem uma vantagem tanto em fWAR (8.9 a 8.7) como bWAR (9.3 a 8.9), ainda que pequena. Se você me obrigar a dizer quem foi o melhor jogador da AL em 2015, eu direi que foi Mike Trout.

Nota: Trout terminou o ano com 9.0 de fWAR, e Donaldson com 8.6.

Ainda assim, pelo fato de que as estatísticas defensivas ainda não tem uma precisão perfeita, não é uma boa idéia levar WAR de forma absoluta para pequenas diferenças - uma pequena mudança em DRS ou UZR já seria suficiente para cobrir essa diferença. Por mais que eu acredite que Trout tenha sido o melhor jogador em 2015, não acho que essa diferença pequena em WAR (especialmente em fWAR, que eu confio muito mais) seja suficiente para dizer que Trout foi comprovadamente melhor. Pode-se dizer que os dois estão quase em empate técnico - com a diferença entre eles dentro da margem de erro.

Então se o valor absoluto dos dois foi igual - ou pelo menos muito próximo - precisamos procurar novas formas de decidir nosso MVP. Não existe escolha errada entre esses dois, é uma questão de opinião. E então podemos começar a usar alguns fatores mais abrangentes para separar os dois - como por exemplo, o contexto dos times nos quais jogam.

Eu acho ridículo, absurdo e patético - como eu disse acima - a idéia de que a campanha da equipe tem que ter um peso grande na votação para MVP. Sendo um prêmio individual, essa idéia de que você só pode vencer o prêmio se seu time foi para os playoffs é de um nível de mente pequena assustador. Não existe um esporte coletivo mais individual que baseball, e a performance coletiva não deveria ser usada quase que como uma "condição" para um jogador disputar o MVP: se seu time foi, está dentro, se não foi, está fora. Eu sei que o prêmio é para o mais "valioso", não para o "melhor" jogador, mas que valor um jogador tem pelo nível dos seus companheiros?!

No entanto, isso não quer dizer que você não possa aplicar um pouco de análise contextual - ou seja, falar um pouco do time - como um critério menor, por exemplo como desempate entre dois jogadores praticamente empatados, como é o caso em questão. Então se você quiser me falar que seu voto vai para Donaldson porque sua temporada fantástica veio para um time melhor e que vai aos playoffs, e portanto o valor adicionado pelo jogador teve um peso mais significativo na big picture da temporada... eu não tenho um problema com isso. Na verdade, é o que eu acho que vai acontecer, e se for verdade, eu estarei tranquilo. Donaldson seria um vencedor merecedor do prêmio de MVP.

Mas eu olho por outro ponto de vista. Hoje (domingo) é o último dia da temporada regular da MLB, e o Angels ainda está jogando para chegar aos playoffs - ou seja, mesmo se acabarem fora dos offs, definitivamente, não é como se a temporada do Angels não tivesse sido competitiva, ou não tivesse valor no big picture da temporada. Eles chegaram até o último dia com chances. Só você já viu o resto do time do Angels ao redor de Mike Trout?! É um milagre que tenham chegado até aqui tão próximos ainda com chances!!

O rebatedor de leadoff do Angels, Erick Aybar, teve OBP de .303 na temporada. Seu rebatedor de cleanup, Albert Pujols, rebateu 40 HRs, mas também perdeu tempo com lesões e teve OBP de .310. O único jogador do time além de Trout com fWAR acima de 2.5 foi Kole Calhoum... que você não vai acreditar nisso, mas teve OBP de .310. O Angels até jogou com Matt Joyce por incríveis 93 jogos (!!) pela falta de opção melhor. Mike Trout tem 8.9 de fWAR - todo o resto dos rebatedores do time SOMADOS tem 11.2 fWAR. Leia isso de novo. É um desastre de lineup, um dos piores da MLB uma vez que se tira Trout da equação.

E não é como se as coisas ficassem melhores do outro lado da bola. O melhor arremessador do time em 2015 foi Garrett Richards, que teve um FIP abaixo da média (ajustando por estádio) para titulares da AL com 3.83 (2.5 fWAR). Dois três pitchers seguintes com mais entradas arremessadas pelo Angels em 2015 (Hector Santiago, Matt Shoemaker, e notório lançador de pudim Jered Weaver), NENHUM DELES teve fWAR acima de 1. UM! O Angels termina a temporada com a terceira PIOR rotação titular de toda a American League. Nenhuma ajuda desse lado da bola também.

Então é, Donaldson teve a chance de brilhar por um Blue Jays que vai aos playoffs com certeza e foi o melhor time da AL em 2015. Mas o Jays também teve Edwin Encarnacion (12h em fWAR na AL), Jose Bautista (16th), Kevin Pillar (19h), Russell Martin (30th, com ótima defesa e bom pitch framing) e David Price (provável Cy Young da AL), enquanto o Angels não teve ninguém além de Trout. Tire Donaldson do Jays e eles certamente perdem muito, mas provavelmente ainda é um time que vai aos playoffs. Tire Trout do Angels e o time de Anaheim se torna um time abaixo de .500, que não chegaria nem PERTO dos playoffs e teria trocado seus principais jogadores muito tempo atrás pensando no futuro. Só por causa de Trout eles se mantiveram o ano todo na briga, e chegam nesse último dia de temporada regular com chances de playoffs. Você não vai encontrar outro jogador com maior impacto nesse sentido do que Mike Trout.

Junte isso ao fato de que, a meu ver ele, foi melhor do que Donaldson - por muito pouco, mas foi -  e você tem que Trout não foi só o melhor jogador da AL em 2015, mas também o mais valioso. Mike Trout é o meu AL MVP de 2015.

(Só para não deixar batido, mas Kevin Kiermaier, CF do Rays, teve possivelmente a melhor temporada defensiva de um OF na era das estatísticas defensivas, desde 2002: 41 DRS - o recorde anterior era 35 do Franklin Gutierrez em 2009 em 200 entradas a mais - e 29.3 UZR com 40.2 UZR por 150 jogos - melhor marca para um mínimo de 1000 entradas antes era 32 (!!!) do Brett Gardner em 2011. Esses 41 DRS também são a melhor marca para QUALQUER posição em uma temporada desde que a estatística foi criada. Adicione a essa defesa histórica um bastão médio e sólido baserunning, e Kiermaier é um muito merecido candidato a entrar em qualquer ballot de MVP. Ele não vai, porque ninguém presta atenção na defesa na hora de dar esses prêmios, mas ele merece.)

NL MVP Ballot: 1. Mike Trout; 2. Josh Donaldson; 3. Manny Machado; 4. Lorenzo Cain; 5. Kevin Kiermaier; 6. Chris Davis.


National League Cy Young

Uma das melhores corridas para Cy Young que eu lembro nos últimos anos. Entre Clayton Kershaw, Jake Arrieta e Zack Greinke, temos três arremessadores com temporadas fantásticas que disputam esse prêmio a unhas e dentes.

E dependendo do critério que você usar para definir seu Cy Young, você vai chegar em um resultado diferente. Se for por FIP, Kershaw é o claro favorito e líder da liga na categoria.. Se for por ERA, vai chegar em Greinke, líder da categoria que aliás também é o melhor rebatedor dos três. E se for por algum meio termo entre os dois, vai chegar em Jake Arrieta, que é #2 em ambos. Na verdade, eis a colocação dos três jogadores entre arremessadores da NL para diferentes categorias:


Bem parelho. Dependendo do ponto de vista, cada um tem um caso a ser feito.

Então como vamos escolher um sobre os demais? Bem, vamos por partes...

Embora ainda seja a estatística mais popular e mais usada, a verdade é que ERA é uma estatística útil, mas insuficiente. Já foi há muito provado que ERA é uma estatística influenciada por diversos fatores que estão além do controle de um arremessador, de forma que julgar um pitcher por ERA significa estar dando (ou tirando) crédito ao jogador por fatores externos a sua performance. Não que não possa existir nenhum mérito do arremessador em um ERA mais baixo, mas 95% (btw, não é figura de linguagem, esse é um número real de estudos sobre o assunto) da diferença entre o ERA e o FIP de um pitcher vem de BABIP e LOB% - duas estatísticas que os jogadores tem pouquíssimo controle sobre. FIP não é perfeito de modo algum, mas é uma forma melhor de avaliar sua performance.

Se você não acredita em mim, vamos dar uma olhada em Greinke, considerado por muitos o favorito ao prêmio. Seu ERA de 1.68 é ridículo e histórico, e Greinke merece ser celebrado por isso. Mas será que todo o mérito disso vem do arremessador? Usando FIP - que usa apenas elementos que o SP controla, como walks, strikeouts e HRs cedidos - Greinke tem 2.75, uma enorme diferença para seu ERA. E embora você possa argumentar que a diferença é mérito do jogador, é difícil sustentar esse argumento com fatos. Ao longo de sua carreira, Greinke nunca mostrou uma capacidade de gerar esse tipo de diferença entre ERA e FIP - na verdade, na sua carreira, Greinke tem um ERA MAIOR que seu FIP por 4 pontos (3.36 contra 3.32). Seu ERA extremamente baixo vem de dois fatores: um BABIP de .232 (média da liga é de .298) e um LOB% (porcentagem de jogadores que chegam em base e que não anotam corrida) de 86% (média da liga: 72.3%).

E, de novo, Greinke nunca foi capaz na sua carreira de controlar esses arremessos de forma diferenciada (nem nenhum arremessador da história, mas I digress): seu BABIP da carreira é de exatos .298, e seu LOB% de 74.9%. Então a não ser que o seu argumento seja que de repente, aos 31 anos, sem nunca ter mostrado nenhuma tendência disso na vida, Greinke descobriu uma forma milagrosa de controlar dois fatores que nenhum pitcher da história conseguiu controlar, é meio difícil argumentar que o ERA de Greinke seja realmente seu mérito e que isso faça dele o Cy Young. Não que o destro não esteja tendo uma temporada fantástica por seus próprios méritos, ele está... só não tão boa quanto parece a primeira vista.

Kershaw, por outro lado, tem um ERA de 2.16 mas sustentado por um FIP de 2.04, o melhor da liga de longe... e que aliás é o melhor da MLB para um arremessador com 200+ IP desde Pedro Martinez em 1999. Mesmo ajustando para o ambiente menos prolífico para rebatedores de hoje e as dimensões muito favoráveis do seu estádio, ainda é o quinto melhor FIP desde 2000, perdendo apenas para Pedro e Randy Johnson, os dois maiores SP da história do esporte.

E isso é fácil de identificar olhando para os números certos: Kershaw conseguiu strikeouts em 33.5% de seus confrontos (de novo, desde 2000 perdendo apenas para Pedro e Randy) - muito superior aos 23.6% de Greinke - e ainda cedeu walks em apenas 4.8%, o mesmo número do seu companheiro de time. Greinke tem obtido sucesso limitando o contato forte feito pelos rebatedores, cedendo bolas rebatidas classificadas como "forte" apenas em 27% das passagens pelo bastão... mas Kershaw cedeu em apenas 25.2%. Não importa onde você olhe, canhoto continua sendo o melhor arremessador do time. 

Mas se você quer achar uma disputa para Kershaw pelo prêmio, não é para Zack Greinke que deveria olhar. É para Jake Arrieta. 

O FIP do destro do Cubs é o segundo melhor da NL atrás apenas de Kershaw, com 2.35, e a diferença é menor do que parece quando lembramos que Kershaw joga em um dos estádios mais favoráveis da MLB. E, assim como Greinke, Arrieta tem um ERA superior ao astro do Dodgers, com 1.77. E se você quer argumentar que existe um arremessador na NL que poderia ter uma chance de ter um impacto real nessa diferença entre ERA e FIP, esse é Arrieta: o astro do Cubs tem cedido bolas rebatidas de forma "forte" à menor taxa da NL, e tem induzido contatos "fracos" com a terceira maior frequência da liga, estando em ambas as categorias melhor do que Greinke e Kershaw. 

Então vamos deixar ERA e FIP de lado por um instante e olhar uma terceira variável que tem se tornado cada vez mais usada no meio analítico para avaliar arremessadores: a performance dos rebatedores quando enfrentam-no. Não é um método perfeito, assim como FIP, mas é melhor do que ERA e um ponto de vista diferente. Para isso, vamos usar wOBA ajustado por estádio. E, para minha surpresa, quem lidera a NL com alguma folga é Jake Arrieta: rebatedores tem um wOBA ajustado de .225 quando enfrentam o destro do Cubs. Greinke (.234) e Kershaw (.242) tem ótimos números por mérito próprio que são inclusive inferiores aos do PIOR rebatedor qualificado da temporada (Chris Owings, com .258), mas Arrieta deixa os dois para trás na categoria. Claro, isso não é uma medida final: wOBA é mais interessante do que ERA por tirar LOB% da equação, mas ainda é influenciado por BABIP, ainda que em menor medida que ERA. Mas é um bom parâmetro para se olhar quando tentamos separar três arremessadores tão próximos.

E ainda tem o seguinte: Arrieta tem sido insano na segunda metade da temporada. Desde o All Star Game, Arrieta tem FIP de 2.00, ERA de 0.75 e um wOBA dos oponentes de .186 em 107.1 entradas arremessadas. Esse ERA de 0.75 na verdade é o melhor ERA da segunda metade de uma temporada na história do baseball. Entre Agosto, Setembro e Outubro, o destro tem 0.43 de ERA - isso da QUATRO corridas merecidas em dois meses e uma semana. Eu não sei o quanto isso deveria considerar na hora de avaliar o Cy Young - que afinal é um prêmio para a temporada inteira - mas os seres humanos tem um certo viés para eventos mais recentes, e acho que será algo que acabará mandando alguns votos na direção de Arrieta na hora de preencher os ballots.

No final, eu acabei chegando muito, muito perto de dar o Cy Young para Jake Arrieta. Mas no fundo, a questão Kershaw vs Arrieta se resumia à especulação e às possibilidades sobre o controle que Arrieta poderia ter sobre seu ERA contra os fatos que são os periféricos de outro mundo de Kershaw. E por mais que eu tenha adorado assistir Arrieta arremessando mais do que qualquer outro pitcher da MLB em 2015 e ache sua temporada fantástica, eu não consigo colocar a especulação na frente dos fatos. A diferença é muito, muito pequena e Arrieta será um vencedor digno se ficar com o prêmio. Mas meu voto vai para Clayton Kershaw. De novo.

NL Cy Young Ballot: 1. Clayton Kershaw; 2. Jake Arrieta; 3. Zack Greinke; 4. Madison Bumgarner; 5. Max Scherzer.


E, para deixar claro, Arremessadores A e B do meu Ballot para MVP são, naturalmente, Kershaw e Arrieta. Eu só não queria estragar a surpresa. Então oficializando:


NL MVP Ballot: 1. Bryce Harper; 2. Joey Votto; 3. Clayton Kershaw; 4. Jake Arrieta; 5. Paul Goldschmidt 6. Buster Posey; 7. Kris Bryant; 8. Andrew McCutchen; 9 Jason Heyward; 10. Anthony Rizzo.


American League Cy Young

A disputa Kershaw vs Arrieta pelo Cy Young da NL seja a melhor disputa desse prêmio que eu lembro de ter visto em anos. Mas embora a disputa pelo Cy Young da AL não envolva esses números e performances históricas, a disputa ainda está muito parelha e interessante.

Assim como na NL, a meu ver, a corrida pelo prêmio envolve três jogadores: David Price, Dallas Keuchel e Chris Sale. Cada um tem um caso diferente a ser feito, e bastante convincente. Então me permitam fazer rapidamente (ok, talvez nem tão rápido assim) o caso para cada um dos três canhotos.

Para David Price, que começou o ano no Tigers e encerrou no Blue Jays, o caso é bastante simples e direto: o canhoto lidera a liga americana tanto em ERA (2.45) como fWAR (6.4), é o segundo em entradas arremessadas (220.1), e ainda recebe pontos bônus por ter mantido sua dominância (e até melhorado, na verdade) mesmo trocando de time no meio do ano e tendo que se adaptar a um estádio novo e companheiros novos. Price é também o segundo da AL em FIP, oitavo em K% e sexto em BB%. Price é quem tem o caso mais fácil e mais claro para ser o Cy Young.

Keuchel, por outro lado, é um caso mais interessante e que precisa ser esmiuçado mais a fundo. Superficialmente, sua temporada já parece bem boa: terceiro em fWAR (6.1), segundo em ERA (2.48), sexto em FIP (2.91)... e, se você gosta dessa estatística imbecil, é o líder em vitórias (20). Mas tem outras duas estatísticas menos olhadas que falam mais sobre Keuchel: é o líder em entradas arremessadas (232) E em induzir groundballs (61.7%). Sobre a primeira, eu não preciso dizer a importância - se você arremessa mais entradas, você tem a chance de contribuir mais com seu time, manter seu bullpen mais fresco (melhorando sua performance), e por ai vai. A segunda é um ponto mais complicado, mas vamos começar com o seguinte: groundballs não viram home runs. Em outras palavras, se você está induzindo ground balls, você está limitando as oportunidades do adversário de mandar HRs. E ai você olha que Keuchel induz GBs 61.7% do tempo, e Price 40.4%... e ainda assim ambos estão quase empatados em HR/9 entradas: .66 para Keuchel, e .69 para Price.

O que acontece é que Price está cedendo HRs em 7.8% das suas fly balls, e Keuchel em 13.6%. Ainda que arremessadores tenham algum controle sobre essa proporção, fato é que a taxa de Price está bastante abaixo sua média da carreira (9.1%), e isso antes de considerar que o canhoto passou 2/3 da sua temporada arremessando em Detroit, um estádio muito mais favorável para conter HRs do que o Minute Maid Park onde Keuchel arremessou o ano todo. Em outras palavras, ainda que Price esteja sendo mais dominante em um nível per-inning, a dominância de Keuchel (especialmente no que tange aos Home Runs) é mais sustentável pelos parâmetros, e portanto mais mérito individual do arremessador e menos dependente de fatores externos. Some isso ao seu maior número de entradas arremessadas e o impacto que isso teve em preservar um dos bullpens mais eficientes da temporada, e o total da temporada de Keuchel pode muito bem ser superior à temporada de Price. Eu não gosto de bWAR para pitchers, mas é por essas e outras que ele lidera a AL com folga no quesito a 7.3.

Por fim, temos Chris Sale, que lamentavelmente está praticamente fora da discussão atualmente por Cy Young. O que é ridículo, porque Sale certamente tem as credenciais para isso. Lembra que Price é o segundo em FIP, sexto em K% e oitavo em BB% da liga? Acontece que Sale é o líder da AL em FIP (2.74), K% (32.1%, a segunda melhor marca na AL desde Pedro Martinez em 2000) e é segundo em BB% (4.9%), e isso tudo antes de considerar que Sale joga no terceiro pior estádio para arremessadores da AL. Sale tem sido mais dominante do que qualquer outro arremessador da AL essa temporada.

Então porque diabos Sale está sendo excluído das conversas para Cy Young? Por causa do seu ERA de 3.41, quase uma corrida inteira acima de Price e Keuchel. E isso é ridículo, porque o motivo para esse ERA alto é muito óbvio, e em nada culpa de Sale: o Chicago White Sox tem a pior defesa da temporada. De acordo com UZR, a defesa do White Sox custou ao time 39.9 corridas a mais que uma defesa média, a pior marca da temporada de longe, e DRS diz que foram 37 corridas - terceira pior marca da liga e segunda pior da AL. Do outro lado, as defesas de Astros, Tigers e Blue Jays foram a segunda, terceira e sexta melhores da AL na temporada (por DRS). Então por DRS, a diferença entre as defesas do time de Sale e dos de Keuchel e Price foi de 60 corridas. E ai, ficou mais fácil entender porque o ERA alto do Sale não é realmente um fator relevante para tirá-lo da disputa do prêmio, e sim um fator externo sobre o qual o canhoto não teve nenhum controle? E isso, claro, antes de entrar nos outros problemas de ERA, como impacto de fatores além do controle dos arremessadores. Então se você conseguir olhar além de ERA, vai enxergar que Sale foi por uma boa margem o mais dominante arremessador da MLB em 2015.

Em resumo, a verdade é que os três arremessadores tem excelentes argumentos para vencer esse prêmio, e estão separados por muito pouco. A questão é menos qual deles merece mais que os outros, e sim quais critérios cada pessoa decide olhar para tomar uma decisão. Se for olhar para os resultados, Price é a escolha fácil. Se olhar para a questão da dominância, então Sale é a melhor escolha. E se considerar sustentabilidade e impacto total para seu time, então Keuchel possivelmente tem o melhor caso dos três. No final do dia, depende muito mais do critério usado para avaliar. Eu pessoalmente valorizo mais dominação e uma performance individualmente superior para o prêmio de Cy Young, e por isso, fico com Chris Sale. Mas qualquer um dos três se ganhar o prêmio será um vencedor digno e terá feito por merecer. Excelente disputa.


AL Cy Young Ballot: 1. Chris Sale; 2. David Price; 3. Dallas Keuchel; 4. Corey Kluber; 5. Chris Archer.


National League Rookie of the Year

A segunda e última disputa sem muita graça da temporada, porque tem um claro vencedor. Kris Bryant não é só o melhor calouro da temporada, ele foi um dos melhores JOGADORES da temporada, ponto. Tanto que, se você prestou atenção, ele ficou em sétimo no meu ballot para MVP. 

O engraçado é que, no começo da temporada, parecia que essa seria a melhor disputa da temporada. Bryant e Joc Pederson chegaram tomando a liga de assalto e estavam pescoço a pescoço disputando o posto de melhor calouro do ano... até que Bryant começou a rebater HRs monstruosos e Pederson esqueceu de como se acertar uma bola de baseball. Bryant termina a temporada com 26 HRs (melhor marca entre calouros), uma slash line de .277/.368/.492 e um wRC+ que é segundo entre calouros (só Grichuk foi melhor, por 1 ponto, mas com 45 jogos a menos), sólida defesa e excelente produção nas bases. Isso tudo totalizou um fWAR de 6.3 que não só é 1.4 vitórias acima do segundo melhor calouro da temporada, como também é 10th entre TODOS os rebatedores do baseball. Kris Bryant é um monstro. Eu não posso resumir isso de forma mais direta. E como essa coluna já é longa o suficiente, vamos parar por aqui nesse prêmio, porque sinceramente acho que não tem muito a justificar nessa escolha.

NL Rookie of the Year Ballot: 1. Kris Bryant; 2. Matt Duffy; 3. Jung-ho Kang; 4. Noah Syndergaard; 5. Randal Grichuk.


American League Rookie of the Year

Outra disputa muito boa entre dois jogadores muito parecidos. Carlos Correa e Francisco Lindor são ambos shortstops, ambos tem 21 anos e fazem 22 ainda esse ano e jogaram exatamente 97 jogos nas grandes lidas. Ambos foram draftados no Top10 (Lindor #8 em 2011, Correa #1 em 2012), estrearam na MLB em um espaço de uma semana (08/06 para Correa, 14/06 para Lindor), e inclusive estiveram em colocações muito próximas na nossa lista dos Top100 prospectos do baseball (Correa era #3, e Lindor #5) antes da temporada começar.

Dentro de campo, no entanto, os estilos dos dois são bem diferentes. Leia a nossa coluna e você vai ver as diferenças: Corrêa é um rebatedor de grande potência, com um físico impressionante e que deve acabar jogando na 3B com o tempo, enquanto Lindor é um jogador mais ágil, um excelente defensor e um rebatedor mais "leve". 

E até agora na MLB a maior parte dessas afirmações parecem ter acertado em cheio. Corrêa tem 22 HRs em apenas 97 jogos, uma slash line de .282/.348/.520 (136 wRC+) e um controle surreal da zona de strike, mas também tem tido algumas dificuldades na defesa (-5.2 UZR) principalmente pela falta de alcance, mas mostrou boa inteligência e um bom braço que me fazem acreditar que um dia será um defensor acima da média na 3B. Do outro lado, a defesa de Lindor - seu principal atrativo como prospecto - brilhou na MLB também, já se estabelecendo como um defensor de elite e eterno candidato a Gold Gloves: apesar de ter jogado apenas 97 jogos, seu UZR de +9.6 já é o sexto melhor da AL inteira e melhor entre shortstops, seu rating defensivo de +14 é quarto entre jogadores e segundo entre shortstops, e seu UZR por 150 jogos de 17.9 está no nível de jogadores como Adam Hechavarria e Andrelton Simmons. 

O único quesito que na prática tem destoado das previsões até agora tem sido o bastão de Lindor. Um jogador de muito contato mas pouta potência nas ligas menores, Lindor tem rebatido excepcionalmente bem na sua curta carreira nas grandes ligas, com 12 HRs e uma slash line de .317/.357/.487, bom para um wRC+ de 131. E isso tem sido uma grande surpresa, não só pela boa potência demonstrada como pelo alto OBP, cortesia de um ótimo aproveitamento no bastão (cortesia, por sua vez, de um BABIP de .353. Mais sobre isso daqui a pouco). A idéia de Correa e Lindor era que Correa era um defensor aceitável que produziria muito com seu bastão, e Lindor um rebatedor aceitável que produziria muito na defesa. Mas até agora na temporada, Lindor tem produzido muito no bastão E na defesa, e por isso seu WAR é superior ao do calouro do Astros por uma boa margem (4.7 a 3.5). Corrêa é o melhor rebatedor, sem dúvida, mas não está sendo TÃO melhor assim, e defensivamente Lindor tem sido consideravelmente superior, mais do que suficiente para tirar a pequena diferença da produção ofensiva.

Mas como estamos falando de calouros, sempre estamos pensando no futuro, e por isso acho que vale a pena pegar um parágrafo aqui para dizer que, embora Lindor esteja jogando melhor que Correa em 2015, isso não significa que ele seja um jogador melhor ou o será no futuro. E eu digo isso porque a performance de Lindor não me parece muito sustentável. Seus números esse ano dependem de um BABIP de .353 que me parece alto demais para o tipo de rebatidas que Lindor da. Não que jogadores com seu perfil - boa velocidade e boa quantidade de rebatidas em linha - não costumem ter bons BABIPs, mas .353 é algo nível Joey Votto. Meu modelo pessoal para xBABIP estima, dado a distribuição de rebatidas do calouro, que esse número deveria estar muito mais próximo dos .335 (que já é bom, by the way), quase 20 pontos abaixo e que naturalmente derrubaria bastante seus números.

Analogamente, Carlos Correa é alguém que faz muito contato sólido e rebate uma tonelada de line drives, mas que tem um BABIP relativamente baixo de .298. Olhando seu perfil de rebatidas, esse número deveria ser bem melhor, e meu modelo corrobora essa idéia: ele aponta um xBABIP (ou seja, BABIP estimado) de .340 para Correa. Alguns parâmetros não devem se manter tão altos, claro, mas mostra como Correa tem sido ainda melhor do que os números mostram.

Eu também questiono essa repentina força de Lindor (12 HRs e .170 de ISO), um tanto quanto destoantes do que mostrou nas ligas menores. Mais especificamente, muitos de seus HRs tem cruzado por muito pouco as cercas do campo externo, e metade deles foram extremamente rentes à linha de foul ball, onde a cerca é ainda mais próxima do home plate. Pode ser que Lindor tenha apenas excelente mira, mas mostra que a força do jogador não é tão grande assim, e que seus números devem regredir conforme esses HRs mais "fáceis" param de encaixar. Só um de seus HRs viajou mais de 400 feet, apenas dois deles teriam sido HRs em qualquer estádio da MLB, e sua distância média de HR foi de 372 feet - para efeito de comparação, a média da AL é de 394,6 e nenhum rebatedor com 18+ HRs (sua projeção para uma temporada de 150 jogos) teve média inferior a essa. E não é como se Lindor rebatesse a bola com força frequentemente: sua taxa de bolas rebatidas classificadas como "fortes" é de 25.7%, o que seria a 25h pior marca da MLB entre rebatedores qualificados e igual ao número de notórios rebatedores sem potência como Yadier Molina e Nick Markakis (ambos .080 de ISO). Isso não é para dizer que Lindor não é um bom rebatedor, mas é muito provável que não será capaz de sustentar seus números atuais em uma amostra maior.  

Considerando que o prêmio de Rookie of the Year é um prêmio para a produção na temporada 2015 apenas, eu estou tranquilo entregando o prêmio a Lindor - sua produção no bastão foi ótima e sua defesa é de outro mundo, e a combinação dessas duas coisas fez dele o melhor calouro de 2015. Mas isso não quer dizer que ele vá manter esse nível nos próximos anos, ou mesmo que seja um jogador melhor do que Correa.

AL Rookie of the Year Ballot: 1. Francisco Lindor; 2. Carlos Correa; 3. Lance McCullers; 4. Miguel Sano; 5. Billy Burns


As estatísticas nessa coluna vieram de Fangraphs, Baseball-Reference, Baseball Prospectus, Elias Sports Bureal, ESPN Stats & Info, Hit Tracker Online e Brooks Baseball. Agradecimento especial ao Mark Simon, da ESPN, pela ajuda com os dados sobre os HRs do Francisco Lindor. 

E um grande agradecimento especial a Ryan Spaeder pelas estatísticas do Bryce Harper que ele tão gentilmente separou e compartilhou comigo para essa coluna. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Relatório dos calouros da NBA

LaVine mostrando o quão alto pode ir o potencial desses dois jovens da foto.


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Para ler os meus pensamentos sobre essa classe de calouros antes do Draft, clique aqui

Eu não lembro de uma classe de calouros que tenha sido tão hypeada quanto a de 2014 (talvez por não lembrar muito do pré-Draft de 2003). Três jovens jogadores (Wiggins, Parker e Julius Randle) foram celebrados como "futuros franchise players" antes de terem jogado um minuto sequer de basquete universitário; um misterioso grande talento australiano (Dante Exum) foi ganhando mais e mais atenção conforme o Draft foi se aproximando; e de repente tínhamos um pivô camaronês com potencial absurdo e pés problemáticos evoluindo a um nível inacreditável (e fazendo Dream Shakes no processo) antes de se tornar o prospecto mais polarizador do ano. Times passaram o ano todo tentando tankar mais que os outros por Wiggins (Riggin' for Wiggins!) ou Embiid (Low Seed for Embiid era o melhor nome, pena que nunca pegou). Especialistas em basquete universitário passaram a maior parte da pré-temporada falando sobre o quão boa era essa classe de calouros, para depois passarem a maior parte da temporada propriamente dita desconstruindo esses mesmos jogadores (em especial Wiggins, que sofreu críticas por "não se impor" ou "ser passivo demais"), para depois voltarem a hypear os jogadores quando o Draft foi se aproximando. Se você acompanhava basquete - e não só o universitário, mas também a NBA - você certamente ouviu muito sobre os jogadores que estariam disponíveis no Draft de 2014, e como eles iriam impactar o futuro da liga. 

No entanto, alguns meses mais tarde, o impacto imediato dessa classe de calouros não foi exatamente o esperado. Múltiplos jogadores perderam tempo significativo com lesões, enquanto outros tiveram dificuldade para corresponder às expectativas ou conseguir tempo de jogo. Dos quatro melhores calouros da temporada 2014/15 da NBA, um era do Draft de 2013 (Nerlens Noel), e outro era um europeu selecionado em 2011 (Mirotic). Isso levou a muitos observadores e fãs a rotularem essa classe como sendo "decepcionante", "fraca", ou algo assim. Mas na verdade, qual foi o problema aqui: a expectativa exagerada em cima de garotos de 18 anos? Má sorte em uma amostra pequena (apenas uma temporada)? Ou uma classe de calouros que, pra começar, não era tão boa assim?

Nós não sabemos, e não saberemos até termos mais informações sobre esses jogadores. Nas últimas décadas, a NBA tem visto um influxo de jogadores mais jovens sem precedente, e os calouros de hoje em dia são, na média, mais jovens e menos desenvolvidos do que os de 10, 15 anos atrás. Não acredita em mim? Então olhe isso aqui...




E isso antes de lembrar que a NBA proibiu jogadores colegiais de entrar direto no Draft a partir de 2006. Olha na coluna dos "Freshmen" (calouros universitários) de novo. Expandindo esse ponto, e incluindo agora freshmen E jogadores colegiais...




E isso sem incluir Dante Exum (#5) e Bruno Caboclo (#20), dois jogadores que são ainda mais jovens do que um calouro universitário normal, e que iriam expandir os totais desse Draft para 7/11. E antes de levar em consideração o menor número de Juniors (terceiro ano) ou Seniors (quarto ano) selecionados alto no Draft (no Top10, só Elfrid Payton era Junior ou acima, e mesmo ele era jovem para um veterano).

A verdade é que é essencialmente injusto culpar os calouros de hoje em dia pelo seu menor impacto imediato na NBA. A grande maioria dos calouros escolhidos no topo do Draft hoje em dia são garotos de 19 anos, que ainda não são maduros (física ou mentalmente) suficientes para competir por 82 jogos em alto nível contra atletas do calibre que encontram na NBA. Eles simplesmente não chegam na liga em uma idade ou ponto em seu desenvolvimento para entrar e dominar desde o começo. É injusto julgá-los - ou ao seu futuro profissional - com base em uma amostra tão pequena quanto uma temporada, especialmente em uma idade tão nova e com tanto desenvolvimento ainda pela frente (um exemplo: lembra quando todo mundo estava decepcionado com a temporada de calouro do Anthony Davis?). Então ainda que o impacto dessa classe não tenha correspondido às expectativas em 2014/15, isso não quer dizer que a classe seja ruim, ou que não seja tão boa quanto antecipado. 

Então vamos dar uma olhada mais a fundo nos principais calouros dessa classe, como foram nessa temporada, o que nos mostraram (de bom e de ruim), e o que esperamos para o futuro. Vamos falar dos 14 jogadores selecionados na loteria, e mais alguns que me deram vontade. Começando, é claro, com a escolha #1...  


Andrew Wiggins
A enorme atenção midiática em torno de Wiggins foi um dos subplots mais engraçados (e eu digo isso no mau sentido) do Draft de 2014. O superatlético Wiggins foi chamado de "próximo LeBron/Durant/McGrady" antes de ter jogado um minuto sequer de basquete universitário, e elevado a status de "salvador" antes de completar 18 anos. Isso levou a muitas críticas durante seu tempo em Kansas, com pessoas reclamando que ele era muito passivo, muito cru, e por ai vai. Ainda assim, apesar de tudo isso, Wiggins entrou na NBA como um prospect de elite, em meio a imensas expectativas.

E, na maior parte, correspondeu a elas. Claro, Wiggins ainda é cru -  seu arremesso de fora ainda precisa melhorar (31% de 3PT, 32% de meia distância), e ainda está aprendendo a ler e a reagir a defesas de nível NBA. O canadense ainda não enxerga bem as linhas de passe para aproveitar ao máximo suas infiltrações, e seu domínio de bola ainda é fraco, limitando suas opções na hora de criar um arremesso. No entanto, isso é esperado de um calouro de 19 anos, especialmente de um que chegou na liga tão cru quanto Wiggins.

Mas o calouro também mostrou que, apesar de todo aquele papo furado sobre não se impor o suficiente, ele era capaz de entrar e assumir a responsabilidade como "o cara" para um time (ainda que um muito ruim). Apesar de jogar para um time ruim, com nenhum espaçamento ou (durante a maior parte do ano) um bom armador que pudesse ajudá-lo a conseguir arremessos melhores (mais sobre isso daqui a pouco), Wiggins se tornou apenas o quinto jogador de 19 anos a ter média de 16 pontos por jogo na NBA (junto de LeBron, Melo, Durant e Irving). Depois dos dois veteranos que mais seguram a bola no time saírem do time com lesões (Kevin Martin e Petkovic), Wiggins aproveitou a oportunidade para se tornar o centro ofensivo da equipe, tendo média de 20 pontos por jogo com 45.5% de aproveitamento nos últimos 56 jogos da temporada. O canadense não teve medo de atacar a partir do drible, e até começou a abusar de defensores menores de costas para a cesta (com um jogo de garrafão surpreendentemente bom)  depois que Flip Saunders começou a usá-lo mais como SG (teve média de 0.85 pontos por posse de bola no post, ótimo número para um calouro de perímetro). Wiggins ainda é muito mais eficiente em transição (onde está no 62.5th percentil de jogadores da NBA) ou em cortes para a cesta (77th percentil), onde seu domínio de bola limitado não atrapalha e pode aproveitar melhor sua enorme capacidade atlética (para efeitos de comparação, Wiggins tem média de 0.65 pontos por posse de bola no pick and roll, um número péssimo), mas ainda foi melhor do que o antecipado driblando pelo meio da quadra e finalizando perto do aro, e sua explosão, primeiro passo e capacidade atlética em geral dão a Wiggins enorme potencial do lado ofensivo da bola - especialmente se Minnesota conseguir cercá-lo com melhor espaçamento e, bem, um Ricky Rubio saudável (O Wolves, um time com saldo de -9.8 por 100 posses de bola, foi um time com -2.2 pontos por 100 posses quando Wiggins e Rubio estavam juntos em quadra, um número muito melhor).

A defesa de Wiggins também boa como se esperava, e apesar de alguns erros de calouro (atraso nas rotações, bolas nas costas, algumas faltas de concentração), ele também teve algumas sequências extremamente dominantes que mostram o quanto já pode contribuir desse lado da bola com seus braços longos, agilidade e atleticismo. Quer dizer, eu sei que é só uma posse de bola, mas dê uma olhada nesse lance. Essa defesa é quase obscena. Eu não vou nem tentar descrever para essa coluna não passar a ser 13+. 

No fim das contas, foi uma temporada muito boa, e muito consistente que acabou com Wiggins - merecidamente - ganhando o prêmio de Calouro do Ano de 2015. Ainda tem muito espaço para evoluir - especialmente melhorar a seleção de arremessos, pois muitas de suas posses de bola ainda acabam em arremessos ruins de meia distância (em geral step backs); seu arremesso de fora (sua forma de arremesso é boa); e seu domínio de bola, de forma a permitir que crie arremessos melhores - mas o ala já mostrou o suficiente para nos deixar genuinamente animados, e se estabelecer como um legítimo franchise player e um dos melhores jovens jogadores da liga. O céu é o limite. 


Jabari Parker
Mesmo sem o imenso potencial e capacidade atlética de Wiggins, Parker também tinha altas expectativas para sua temporada de calouro por causa de seu jogo, mais desenvolvido e pronto para a NBA. Infelizmente, uma lesão no joelho acabou a temporada de Parker depois de apenas 25 jogos, tirando-o de quadra antes daquela parte da temporada onde os calouros começam a dar saltos de produtividade. NA época da lesão (15 de Dezembro), Parker era #2 entre calouros em pontos por jogo (12.3, meio ponto atrás de Wiggins) enquanto chutava 49%, e #3 em rebotes (5.5, Noel liderando com 6.5). Então ainda que tenha sido um sólido começo de temporada, ainda é difícil analisar o jogo de Parker quando passou tão pouco tempo em quadra, e antes de poder realmente se adaptar a esse novo nível de basquete. 

Entretanto, a área onde Parker mais mostrou (de novo, em uma amostra pequena) em 2015 foi aquela que era considerada sua maior força: versatilidade no ataque. Parker não foi muito usado (normal para calouros no começo da temporada), mas foi bem eficiente pontuando de diferentes formas. O ala se movimentou bem longe da bola, foi muito inteligente cortando para a cesta, foi para o post up contra defensores menores, e até conduziu alguns pick and rolls laterais com bons resultados. E ele foi devastador em transição, com média de 1.31 pontos por posse de bola e tendo alguns contra ataques lindos junto de Giannis. Mesmo em uma amostra pequena, esse é um repertório ofensivo muito bom, e alguém capaz de pontuar eficientemente de tantas formas diferentes tem enorme potencial desse lado da bola. E ainda que o arremesso de Parker tenha sido bem ruim nesses 25 jogos (foi um ponto forte no universitário, então não tem motivos para se preocupar ainda), ele mostrou se excelente próximo ao aro, convertendo 70% das suas oportunidades na área restrita. 

Tudo é obviamente uma amostra pequena, e os números não são muito confiáveis. Precisamos ver muito mais de Jabari Parker antes de poder fazer uma análise séria e sustentável. Mas a principal característica de Parker saindo de Duke era seu ataque, e ele mostrou flashes promissores o suficiente para nos dar ainda mais expectativas quanto ao que ele fará com experiência suficiente - e uma temporada inteira, saudável, jogando com um dos melhores jovens times da NBA.


Joel Embiid
Embiid foi talvez o jogador que mais rápido subiu de valor (em termos de Draft) que eu já vi na vida. O camaronês era considerado um prospecto de interesse antes da temporada, cru mas com muito potencial... e só levou alguns meses até que pessoas começassem a chamá-lo de "O novo Hakeem". Deixando as hipérboles de lado, seu valor no Draft subiu tão rápido porque o jogo de Embiid evoluiu em uma velocidade surreal. No começo o pivô era só um bom e atlético protetor de aro, mas logo começou a acertar arremessos de fora, fazer ótimos passes de dentro e fora do garrafão, destruindo adversários de costas para a cesta, e até mesmo fez um Dream Shake contra New Mexico! Eu sei que é um clichê, mas no caso de Embiid, é totalmente verdade: ele simplesmente melhorava a cada vez que jogava. Todo jogo que eu assistia dele, o pivô mostrava uma grande evolução em alguma habilidade, alguma habilidade nova, ou algum novo macete no seu jogo, ao ponto que - glup! - as comparações com Hakeem (não necessariamente o talento, mas no estilo de jogo) começaram a fazer sentido!

Não demorou muito para que Embiid se tornasse o melhor jogador em um bom time de Kansas (que incluía a futura #1 pick, Andrew Wiggins) e uma estrela nacional... até que lesões começaram a atrapalhar, tirando-o da parte final da temporada (e do torneio da NCAA). Um Embiid saudável teria muito provavelmente sido a primeira escolha do Draft, mas preocupações médicas quanto aos seus pés e suas costas fizeram com que caísse para o Sixers no #3. E o Sixers selecionou o pivô sabendo que tinha grande chances de que ele perdesse a temporada toda - o que aconteceu de fato - então não tem muito que eu possa falar aqui. Claro, todo tipo de rumor sobre sua recuperação apareceu durante a temporada - que ele estava muito gordo, que estava arremessando de três, que tinha faltado a uma seção médica, que na verdade ele era o Godzilla - mas nenhum digno de ser discutido aqui.

Ainda assim, o 2014/15 de Embiid provavelmente será lembrado por uma coisa: sua fantástica conta no twitter. Ele é o nosso Calouro do Ano das Redes Sociais de 2015.


Aaron Gordon
Outro calouro que teve sua temporada atrapalhada por conta de lesões, que o limitaram a apenas 47 jogos e 797 minutos no total. E talvez seja por não ter ficado muito saudável (as vezes jogando com lesões menores) e ter perdido uma boa parte da temporada (o que torna mais difícil a adaptação ao basquete NBA), mas fato é que Aaron Gordon não teve um papel muito grande na sua primeira passagem pelo basquete profissional. O ala teve apenas 17 minutos por jogo de tempo de quadra dando menos de 5 arremessos, e teve um papel bastante secundário no ataque.

E a verdade é que, apesar de seus problemas com lesões (que certamente contribuíram), o maior problema é que Gordon é um calouro extremamente cru jogando para um time ruim cercado de jogadores que não se encaixam. Gordon é extremamente atlético - as comparações com Blake Griffin não eram a toa - e consegue causar algum estrago finalizando pontes aéreas ou dando enterradas (seus números finalizando em transição foram bons, por exemplo), mas sofre bastante quando precisa criar seu próprio arremesso. 57.3% de seus arremessos vieram sem nenhum drible antes, e sua shot chart (via NBA.com/stats) ajuda a mostrar o problema:



A amostra é pequena, mas a maior parte dos seus arremessos (49%) vieram próximos ao aro - um número alto para um ala - e, mais importante, Gordon não consegue acertar muita coisa longe dele (próximo ao aro arremessou 61.8%, bem próximo da média da NBA apesar de toda sua habilidade atlética). Ainda assim, você tem que dar algum desconto ao garoto-  Gordon jogou para um time péssimo ofensivamente, com pouco espaçamento, armadores que ficam muito com a bola nas mãos, e nada que lembrasse um esquema ofensivo coerente. Refinar esse arremesso de fora é uma prioridade, e apesar de um controle de bola decente (especialmente em transição), Gordon provavelmente nunca vai ser um cara que crie muito seus próprios arremessos. O ala vai continuar fazendo a maior parte do seu estrago fora da bola - ele é particularmente perigoso cortando em direção a cesta - mas isso pode ser difícil em um time que tem tanta dificuldade para criar no ataque, ainda mais se defensores continuarem marcando Gordon a distância. Fazer uma análise completa sobre Gordon precisaríamos de uma amostra maior e mais tempo de jogo, mas é seguro dizer que o novo técnico do Magic vai ter trabalho para incorporá-lo no ataque. 

Defensivamente, Gordon foi muito bem em defesa homem-a-homem, onde fez um excelente trabalho contra adversários maiores no garrafão ou fechando o caminho de ballhandlers até a cesta. Isso era esperado dele, e mostrou bastante promessa nesse sentido. O problema foi quando Gordon precisou defender fora do lance de bola - ficou frequentemente perdido no meio de lugar nenhum quando times o envolviam em muitos pick and rolls, e perdia seu marcador quando precisava atravessar muitas screens. Mas esse é o tipo de coisa com que muitos calouros tem problemas, e não é nada inesperado. Gordon já é um bom defensor individual, e provavelmente vai ser um defensor completo a seu tempo. Seu ataque já é uma questão mais delicada, especialmente em um time sem bons arremessadores (e portanto sem espaçamento), e vai apresentar o maior obstáculo ao seu desenvolvimento.


Dante Exum
Tudo que sabíamos sobre Exum antes do Draft é que ele era extremamente cru, nunca tendo jogado em uma universidade ou uma boa liga profissional, mas a verdade é que o garoto impressionou em seus primeiros jogos na NBA. Não pelo que ele FEZ, já que ele ainda tinha um papel pequeno em minutos limitados, mas por ter mostrado um entendimento bastante avançado do jogo para alguém tão cru. Exum sabia quando hesitar por um segundo a mais esperando abrir um espaçø que ele queria, ao invés de abaixar a cabeça e tentar forçar passagem, ou quando desacelerar uma transição que não era tão promissora assim enquanto esperava um companheiro chegar depois em velocidade... coisas pequenas, mas não tão comum em jogadores tão jovens. O australiano parecia mais maduro do que deveria ser em quadra, e combinado com seu físico impressionante e capacidade atlética, deixou todo mundo bastante animado para o que viria a seguir. Nós não podíamos esperar pelo resto do seu desenvolvimento e o papel maior que iria assumir em Utah.

No entanto, conforme a temporada foi passando, Exum nunca realmente mostrou uma evolução ofensiva. Ele ainda não consegue arremessar direito, teve dificuldade conseguindo bons arremessos no ataque (Exum foi particularmente ruim conduzindo pick and rolls), e pareceu perdido como o jogador de 19 anos que ele é. Seu alcance e habilidade permitem que o armador finalize muito bem próximo ao aro (67.2% na área restrita, excelente para um armador calouro), mas sofreu para aproveitar os espaços que tinha e chegar até o aro eficientemente, e muitas de suas infiltrações acabavam em um arremesso ou floater difícil por cima de um defensor (para ser justo, Utah costuma ter um garrafão um pouco atulhado demais). E talvez isso tudo fosse esperado de um jogador tão jovem e cru, mas a falta de evolução ao longo do ano foi o que mais preocupou.

Mas Exum compensou com uma boa atuação do outro lado da quadra. O australiano ainda tem seus lapsos de atenção e concentração onde é pego focado demais na bola ou atrasado suas rotações, mas Exum foi impressionante na defesa. O calouro é alto e forte para a posição, com braços longos, e não tem medo de usar essa combinação. Ele vai te pressionar, atacar a bola, e atrapalhar qualquer passe que você tente fazer. Exum é atlético o suficiente para arriscar um roubo de bola e recuperar sua posição a tempo, e seu longo alcance faz com que seja fácil para ele atrapalhar a movimentação de bola do ataque. Depois que Exum entrou como titular e Enes Kanter foi mandado para OKC, lineups com Exum e o mastodôntico pivô Rudy Gobert jogando juntos segurou os adversários a 94.6 pontos por 100 posses de bola - uma marca que teria liderado a liga em defesa por quase 4 pontos - e teve um diferencial de pontos em relação aos adversários de +7.9 por 100 posses de bola (para efeitos de comparação, o Clippers teve o segundo melhor saldo por 100 posses da temporada a 6.9). Então Exum ainda tem muito a oferecer, e Utah ainda vê o australiano como seu armador do futuro. Mas seu ataque terá que evoluir se o Jazz quiser dar o próximo passo. 


Marcus Smart
É possível argumentar que Marcus Smart foi vítima de uma situação desfavorável. Não só por causa das lesões no começo da temporada que tornaram sua adaptação ao time e a liga mais difícil, mas também porque Smart foi para um time com vários jogadores que jogam com a bola nas mãos (primeiro Rondo, depois Isaiah Thomas, Avery Bradley, Phil Pressey, Evan Turner) - o que significou que Smart teve menos oportunidades para jogar com a bola nas mãos e teve que se adaptar para jogar longe dela - e também para um time que estava realmente interessado em vencer jogos no curto prazo, e portanto o ex-jogador de Oklahoma State teve que se adaptar aos veteranos do time e não teve a oportunidade de errar e aprender por experiência a partir de seus próprios erros. Smart teve que assumir um papel específico para se adaptar a equipe, e nunca teve a maior margem de erro que tantos outros calouros tem. Isso tudo realmente limitou seu ataque e seu desenvolvimento desse lado da bola. Tirando seu arremesso de três, que ainda precisa melhorar mas já foi MUITO melhor do que o antecipado, nada sobre seu ataque realmente funcionou em 2015.

Onde Smart realmente brilhou foi na defesa, onde foi basicamente um monstro. Ele atacou ballhandlers que traziam a bola quadra acima, usou seu jogo físico para tirar pontuadores da sua zona de conforto, e foi simplesmente impossível de bloquear com uma screen mesmo usando uma parede de tijolos. Ball handlers finalizando a partir do pick and roll tiveram média de 0.64 pontos por posse de bola contra Marcus Smart - a quarta melhor marca em toda a NBA entre jogadores que defenderam pelo menos 150 posses - e não era uma coincidência que Boston foi 4 pontos por 100 posses melhor na defesa com ele em quadra. Vale citar também que ele liderou todos os calouros da NBA esse ano em Win Shares, com 2.9. Smart já é um grande defensor, e deve estar entre os melhores defensores de perímetro da NBA em pouco tempo. O Celtics provavelmente esperava - e ainda espera - mais dele ofensivamente, mas sua defesa foi ainda melhor que o esperado.


Julius Randle
Randle quebrou a perna em seu primeiro jogo de NBA, o que encerrou sua temporada. Então se você está acompanhando, esse é o terceiro calouro até aqui a perder sua temporada por conta de uma lesão, e o quinto (incluindo Smart e Gordon) a perder tempo considerável com uma. Simplesmente horrível.


Nik Stauskas
Stauskas ser escolhido tão alto foi um choque na época, e embora você tenha que dar alguma folga para o garoto porque afinal ele joga no Kings, bem, ele foi muito mal como calouro. Sua principal característica saindo do college era seu arremesso de fora, mas o calouro arremessou apenas 32.2% de três, incluindo 33.9% em catch and shoots e 25% em pull ups. Stauskas foi mal em situações de spot up - 0.9 pontos por posse, uma marca abaixo da média, especialmente para alguém que deveria ser excelente arremessando - e também criando a partir do pick and roll, onde teve 0.72 pontos por posse e eFG% de 37.5%. Muito ruim. 

De novo, você tem que lembrar que Stauskas joga no Kings - uma franquia disfuncional que teve três técnicos diferentes essa temporada, uma diretoria fora da realidade que realmente acha que o time deve mirar nos playoffs no curto prazo, e pouco talento ou um bom esquema ofensivo (pelo menos na maior parte do ano). É um time bagunçado, e as vezes você não consegue mostrar seu talento em um ambiente tão nocivo. Mas o Kings escolheu Stauskas alto por um motivo, e até agora ele fez muito pouco para mostrar que estavam certos. Muito vai ter que melhorar para o ano que vem. 


Noah Vonleh
Eu ainda estou tentando entender o que diabos aconteceu com Noah Vonleh. Minha principal hipótese é que ele foi abduzido por aliens e o Hornets não quis causar pânico. Quer dizer, ok, ele se machucou e perdeu as Summer Leagues e o começo da temporada, um período crítico para os calouros se adaptarem à NBA, aprenderem o playbook do time, e acharem seu espaço na equipe. Vonleh era MUITO cru quando saiu da faculdade, e perder esse tempo tão importante com o time certamente atrapalhou. Eu sei disso. Mas ainda assim, como é possível que um calouro tão talentoso e promissor tenha jogado apenas 25 partidas e 259 minutos no total para uma franquia mediocre que desesperadamente precisava de talentos (e pior, precisava MUITO de um reboteiro/protetor de aro atlético como Vonleh) sem uma lesão séria? E não é como se o calouro tivesse passado muito tempo se desenvolvendo na D-League - jogou apenas dois jogos para o Fort Wayne Mad Ants (a falta de uma afiliada na D-League provavelmente atrapalhou o Hornets nessa). A não ser que Vonleh tenha dado em cima da mulher do Steve Clifford ou coisa assim, eu não vejo um bom motivo aqui.

Ok, brincadeiras a parte, o motivo provavelmente foi que Charlotte queria ir aos playoffs, e nessa mentalidade de curto prazo, Clifford não quis dar muitos minutos a um calouro tão cru, especialmente depois de dificuldades no começo do ano. E eu entendo isso. Ainda assim, só 25 jogos? Com Jason Maxiel e Marvin Williams como suas outras opções vindas do banco na posição de PF? Isso é um pouco demais. Eu sei que Vonleh foi uma escolha para o futuro e que o Hornets está tentando ganhar agora, mas você ainda poderia dar ao calouro minutos para ajudar no seu desenvolvimento - especialmente considerando o quão medíocre Charlotte era em primeiro lugar. Então o pobre Vonleh passou a maior parte do seu ano sentado no banco assistindo o Hornets jogar. Não é uma experiência feliz.

O pouco que eu posso te dizer sobre a produção de Vonleh dentro de quadra é que mostrou, em uma amostra muito pequena, boa atuação nos rebotes. Sua capacidade nos rebotes era considerada sua maior força vindo do College, e o fato de que pegou 12 rebotes por 36 minutos (para um time que gosta de jogar lento, ainda por cima - Vonleh pegou 18.3% dos rebotes disponíveis quando em quadra, marca melhor do que Nikola Vucevic, famoso como reboteiro) é encorajador. Claro, amostra pequena com quase nenhum valor analítico, mas foi bom ver qualquer coisa boa quando Clifford finalmente tirou Vonleh da sua prisão (ele também protegeu bem o aro, mas de novo, amostra pequena). Eu espero ver um aumento considerável de minutos para Vonleh no ano que vem, depois de finalmente passar por uma pré-temporada completa. 


Elfrid Payton
Tirando o Calouro do Ano de 2015, Andrew Wiggins, Payton foi o melhor calouro da classe de 2014 (ou seja, sem considerar Noel/Mirotic) nessa temporada. Payton chegou na liga como um armador passador e de mentalidade defensiva, e de modo geral, foi exatamente o que ele foi.

A maior força de Payton é seu passe. Ele se move muito bem pela quadra, e sempre parece saber aonde os companheiros estão todo o tempo. O armador liderou todos os calouros em assistências com 6.5 por jogo, e depois de voltar ao time titular no final de Dezembro contra o Sixers, teve média de 7.3 assistências e 2.6 turnovers por jogo nos seus últimos 53 jogos - para colocar em contexto, os únicos calouros nos últimos 8 anos a ter média de 7+ assistências por jogo em uma temporada completa foram Ricky Rubio (em apenas 43 jogos) e John Wall (6.5 em uma temporada completa de calouro foram apenas Rubio, Wall e Damian Lillard). Sua capacidade atlética, controle de bola e habilidade no passe fazem de Payton um monstro na transição, ele lê bem a quadra no pick and roll/pop, e é o tipo de passador criativo que consegue colocar a bola em espaços mínimos quando ninguém espera. E isso jogando para um time com zero espaçamento ou um técnico competente. Sua capacidade de conduzir o time é incrível.

Sua defesa, por outro lado, não foi tão boa quanto antecipado. Não é que ele tenha ido mal na defesa, é que também não mostrou nada espetacular. O Magic foi muito ruim defensivamente tanto com Payton em quadra (105.5 por 100 posses) como com ele no banco (105 por 100 posses), então a defesa coletiva (em especial a falta de um protetor de aro) certamente não ajudou. Eu não vi nada fundamentalmente errado com a defesa de Payton, e ele mostrou boa agilidade lateral e reações rápidas, então ele vai ficar bem desse lado, mesmo que tenha decepcionado um pouco nesse primeiro ano. 

O elefante na sala para Payton é seu arremesso. É horrível. Muito ruim mesmo. O armador arremessou 26% de três, 42% de quadra, e 55% (argh!!) nos lances livres. Seu arremesso de longa distância é simplesmente quebrado, e não consegue finalizar perto do aro também (49% na área restrita). Payton sabe das suas limitações, então foca em arremessos de maior aproveitamento (50% de seus arremessos vieram na área restrita) para que seu FG% não caia tanto, e ele até adicionou um floater passável para seu jogo... mas ainda assim, é muito pouco para um PG titular da NBA. Payton conduz bem o pick and roll e tem boa visão de jogo, mas com defesas desafiando-o a arremessar e fechando linhas de passe, os resultados podem ser horríveis. Entre os 85 jogadores que finalizaram (seja através de um arremesso, de um turnover, ou sofrendo uma falta) pelo menos 150 pick and rolls na temporada, Payton teve a sétima PIOR eficiência da NBA, anotando apenas 0.66 pontos por posse de bola e cometendo turnovers 23% das vezes (geralmente por tentar forçar um passe sem espaço ao invés de arremessar).

É muito difícil ser um bom armador na NBA sem um arremesso pelo menos decente - times vão ir por trás de screens no pick and roll, marcar a distância, lotar o garrafão e fechar linhas de passe - e isso é duplamente mais problemático se você não consegue apostar corrida e finalizar bem perto do aro. No momento que o seu armador não é uma ameaça a pontuar, fica muito mais difícil manipular defesas a abrir as linhas de passe que você precisa, e isso fica ainda pior considerando que Orlando tem problemas de espaçamento em primeiro lugar.

Payton é muito habilidoso, e deve ser um bom armador na NBA por anos a fio. Mas essa interrogação quanto aos arremessos abaixa consideravelmente o seu teto como jogador de basquete, e é um obstáculo considerável para Payton poder levar seu jogo - e seu time - ao próximo nível.


Doug McDermott
Um veterano de baixo potencial, McDermott foi escolhido no #11 por ter sido um fantástico arremessador e pontuador no basquete universitário. A expectativa era que ele pudesse entrar e contribuir logo de cara, especialmente nas bolas longas, mas todo mundo sabia que seu jogo tinha limitações.

E o grande problema para McDermott foi que que não acertou essas bolas longas (14 de 41 na temporada), e o resto do seu jogo pouco fez para lhe garantir tempo de quadra em Chicago - jogou apenas 9 minutos por jogo, em 36 jogos. Se não estiver espaçando a quadra e acertando as bolas de longe, McDermott não é muito útil como jogador de NBA.

É claro, ele também jogou para Tom Thibodeau em Chicago, um cara que não é exatamente famoso por saber usar bem seus calouros. Esse foi o mesmo cara que afundou Nikola Mirotic nos playoffs apesar das muitas evidências de que o time jogava melhor com ele (mais sobre isso mais tarde), e realmente usou Kirk Hinrich sobre Tony Snell (segundanista, mas você entende o ponto) na rotação dos playoffs. Eu ainda acho que existe um lugar para McDermott no time e na liga, e caras no Top10 de pontuação da história da NCAA não desaprendem a arremessar da noite pro dia. Talvez um novo técnico e esquema ofensivo sejam o que ele precisa para dar a volta por cima em 2016.


Dario Saric
Como todo mundo já sabia antes do Draft - principalmente Sam Hinkie - Saric não virá para a NBA até pelo menos 2016. Então não tem muito do que falar aqui. Ao invés disso, deixo vocês com esse mix sensacional do Saric para aumentar as expectativas:





Zach LaVine
Essa talvez seja minha estatística "HOLY SHIT!" favorita dos calouros da temporada 2015 da NBA, mas você sabia que nos últimos 18 jogos da temporada, Zach LaVine teve média de 19 pontos, 5 rebotes e 5 assistências por jogo enquanto arremessava 39% de três pontos?! Fiquei um pouco chocado quando descobri.

Agora, eu sei o que você vai dizer. É um ponto inicial arbitrário e uma amostra muito pequena; seus números estão inflados por jogar em um time ruim, com a bola nas mãos o tempo todo e muita liberdade para tentar e errar sem repercussões; esse é um ponto da temporada onde vários times começam a desacelerar, descansar titulares, ou aumentar o tanking (portanto enfrentou adversários piores nessa sequência); e teve média de 4 turnovers nesse mesmo período.

E são todos bons pontos. Aliás, são todos verdade. Eu não estou tentando dizer que LaVine é bom nesse nível, que seja o novo James Harden ou algo assim. É só que, para um jogador que chegou na NBA tão absurdamente cru e com análises semi-sérias como "tem muito talento, só precisa aprender a jogar basquete", foi realmente uma experiência muito divertida ver LaVine jogando com confiança, acumulando bons números e aprendendo com seus erros. Quando chegou na NBA, as pessoas achavam que ele só era um cara ultra atlético que dava enterradas fenomenais. E a verdade é que ele É um cara ultra atlético que da enterradas fenomenais. Quer dizer, olha só pra isso...




E isso...




Oh Deus, tem esse aqui também...




... do que eu estava falando, mesmo?

Ah sim, LaVine. Apesar da capacidade atlética e enterradas sensacionais, LaVine jogou pouco por UCLA, nunca mostrou um conjunto de habilidades bem definido, e na maior parte do tempo nem sabia o que estava fazendo na quadra. Muitas pessoas pensavam que, apesar do seu enorme potencial, ainda demoraria um ou dois anos até que o armador estivesse pronto para jogar em uma partida de NBA. E pode acreditar, ele REALMENTE mostrou todo esse seu lado cru e inexperiente na sua temporada de calouro. O calouro frequentemente errava rotações ou movimentações e sair do lugar onde deveria estar no ataque ou na defesa, teve dificuldades para ler o jogo e tomar boas decisões, e sua seleção de arremessos foi horrível. LaVine cometeu turnovers em um nível alarmante (20% das suas posses), e as vezes parecia perdido em quadra. Mas, de novo, isso tudo já era esperado dele, especialmente pelo Timberwolves. O time permitiu que ele jogasse mesmo com todos esses problemas e dificuldades de adaptação, e ajudou o jogador a crescer. E, em retrospecto, LaVine realmente pareceu muito melhor em sua primeira passagem pelo basquete profissional do que todo mundo antecipava.

E LaVine também mostrou muitas coisas boas. Seu aproveitamento de 34% em bolas de três parece ruim a primeira vista, mas isso é em grande parte um subproduto de uma seleção ruim de arremessos - o calouro foi muito eficiente arremessando em situações de spot up, arremessando 40% de 3PT em situações de catch and shoot, e até evoluiu nos pull ups ao longo do ano, tendo 39% de aproveitamento nas bolas longas depois do All Star Game. Sua mobilidade ao redor da quadra lhe deu algumas cestas fáceis perto do aro, e todos sabemos o quão atlético ele é. O principal problema foi quando LaVine teve a bola nas mãos para criar alguma coisa, quando cometeu muitos turnovers. LaVine teve eFG% de 65.4 finalizando posses nas quais não deu nenhum drible, e cerca de 41% eFG% finalizando depois de pelo menos um. É claro, o Wolves deu a ele liberdade para fazer as coisas do seu jeito, mas ainda é uma diferença considerável. 

Seu desenvolvimento vai exigir muitos sacrifícios e más atuações, e eu não tenho certeza se vejo LAVine como um point guard, como alguns na organização do Wolves dizem. Para mim, ele é mais um combo guard para vir do banco, mudar o ritmo do jogo, correr em transição e espaçar a quadra - e talvez carregar seu ataque enquanto os titulares descansam. Ainda tem muito chão até atingir seu enorme potencial. Mas honestamente, apesar do fato de que no primeiro ano de LaVine na NBA ele não foi exatamente bom em basquete, ele ainda foi muito melhor do que todo mundo esperava, e mostrou muitas coisas boas para um time que, francamente, estava mais do que contente em deixá-lo errar e aprender pela experiência (um dos motivos que seus números de eficiência são tão ruins a primeira vista). Eu acredito em Zach LaVine, e acho que vai ser muito bom em alguns anos.


TJ Warren
É difícil saber o que fazer com TJ Warren, considerando quão pouco ele jogou em 2014/15 na NBA. O ala chegou a jogar na D-League, onde dominou pelo Baskerfield Jam nos 9 jogos onde atuou (27-7, 54 FG%), mas passou a maior parte do ano sentando no banco do Suns, com dificuldade para conseguir minutos em um time decente brigando por uma vaga difícil nos playoffs. Warren jogou principalmente em garbage time ao longo do ano, finalmente ganhando minutos nas últimas semanas da temporada depois que o destino de Phoenix já estava selado na temporada, e terminou esses 21 jogos com médias de 8 pontos e 3 rebotes em 20 minutos. Não é muito para se basear. 

O problema com Warren é que ele é um pontuador que não consegue arremessar de fora nem é abençoado com uma grande capacidade atlética. O ala sobrevive principalmente com um jogo de meia distância baseado em hesitações, dribles curtos, post ups, cortes para a cesta, floaters e arremessos de meia distância - não exatamente o repertório de uma estrela na NBA, e o tipo de jogo que a liga parece estar marginalizando cada vez mais nos últimos anos. Mesmo com grande QI de basquete e performances fenomenais na NCAA e na D-League (e, segundo algumas fontes, nos treinos pré-Draft) que fazem de Warren um daqueles jogadores "da conta do recado na hora do vamos ver", você tem que ser muuuuuito bom nesse conjunto de habilidades pouco sexy para ser um bom jogador na NBA. E talvez isso seja isso que Warren é. Em um volume e amostra muito pequenos, ele foi muito eficiente nos seus minutos de NBA, arremessando 68% na área restrita (e 50% na parte não-restrita do garrafão), pontuando eficientemente no pick and roll (como ball handler), em transição, ou cortando para a cesta (onde teve média de 1.44 pontos por posse de bola, 88th percentil de jogadores da NBA). A amostra é pequena demais para significar qualquer coisa, mas era o que se esperava de Warren, e é o tipo de eficiência que o ala terá que mostrar no futuro se quiser corresponder às expectativas. Mas, por enquanto, ainda não podemos concluir nada de Warren.


Jusuf Nurkic
Nurkic é o mais próximo que um dia chegaremos de respoder à pergunta "Como seria se um urso jogasse de pivô na NBA?". Ele é tão grande, forte e intimidador a esse ponto.

Nurkic era uma grande incógnita vindo para a NBA, um talento bastante cru que teve ótimos números por-minuto na Europa, mas vindo do banco e em uma liga menor. O pivô ainda tem dificuldade com leituras de jogo, especialmente no ataque, e as vezes parece um pouco (ou muito) fora de controle em quadra. Isso, seu jogo ainda cru, e o fato de que o Nuggets foi um time triste e disfuncional em 2014/15 ajudam a explicar seu pouco tempo de quadra (17 minutos por jogo). Mas nada de inesperado para um calouro, especialmente um sem tanta experiência de alto nível na Europa.

E Nurkic também mostrou MUITAS coisas boas para deixar os torcedores de Denver empolgados. Seu jogo ofensivo ainda é cru, e os números não foram muito bons, mas uma grande parte disso foi energia em excesso. O bósnio frequentemente tentava finalizar posses de bola muito rapidamente, forçar um arremesso assim que pegasse na bola, e apressar as coisas mais do que deveria. Era comum ver Nurkic com uma boa oportunidade, em boa posição, mas tentava fazer tudo muito rápido, ao invés de se preparar e ler rapidamente a quadra antes de reagir. De novo, o pivô tende a jogar um pouco fora de controle as vezes. Mas também teve sequências fantásticas, cortando com força para a cesta em um pick and roll, estabelecendo boa posição no garrafão, e usando sua força bruta e enorme físico para pontuar na área pintada. Nurkic ainda é bem cru desse lado da bola, mas tem as ferramentas para ser muito bom.

Mas onde Nurkic realmente impressionou foi na defesa. O pivô usa muito bem seu tamanho para ocupar espaços e fechar os caminhos dos jogadores até a cesta, e se deu muito bem protegendo o aro, segurando adversários a 48.5 FG% na área restrita (para efeito de comparação, arremessaram 48.6% contra Anthony Davis). Nurkic também foi um monstro defendendo jogadas de post up, já que os adversários descobriram que é muito difícil mover esse mastodonte de costas para a cesta: adversários anotaram apenas 0.72 pontos por posse de bola no post up contra ele, a sétima melhor marca da NBA entre jogadores que defenderam pelo menos 100 posses. Claro, Nurkic ainda está aprendendo a fazer as rotações certas para o basquete da NBA e vai ter seus erros (especialmente defendendo o pick and roll), e ainda tivemos aquelas posses de bola onde o bósnio é agressivo demais e acaba permitindo uma cesta fácil nas costas, mas de modo geral foi muito bem desse lado da bola, e não é uma coincidência que o Nuggets teve uma defesa acima da média com ele em quadra, e uma das piores da NBA com ele no banco. E Nurkic também se mostrou um excelente reboteiro (12.5 rebotes por 36 minutos), recolhendo 18.7% dos rebotes disponíveis quando em quadra - 8th melhor marca da NBA inteira entre jogadores com pelo menos 1000 minutos.

Eu sei que parece estranho dizer isso, mas Nurkic me lembra um pouco de Marc Gasol. Sabe, pivôzão, enorme, maciço, assustador que parece uma parede de tijolos mas também se move com incrível agilidade? Claro, Gasol é um dos jogadores mais técnicos e cerebrais da liga, enquanto a palavra para descrever Nurkic ainda seria "maluco". Mas é um maluco bom. Eu gostei muito do que vi do pivô nessa primeira temporada, e acho que tem tudo para ser um dos melhores pivôs da NBA dos dois lados da bola a seu tempo. Uma situação melhor em termos de técnico também não faria mal.


Rodney Hood
Hood não foi exatamente um calouro dominante, terminando o ano com médias de 9-2-2 em 21 minutos por jogo (50 jogos) com 41 FG% e 36 3PT%. Mas o que faz dele tão interessante é o que fez de Utah tão interessante em 2015: a ascenção na segunda metade da temporada. Depois de trocar Enes Kanter, Utah terminou o ano com record de 19-10, tendo a melhor defesa da liga (por um quilômetro) e o quarto melhor Net Rating. Foi uma sequência fantástica de basquete que nos mostra o futuro brilhante dessa equipe.

E Hood foi uma peça importante dessa ascenção. O ala jogou esporadicamente no começo do ano, e não voltou ao time até o primeiro jogo depois do All Star Game... e desse ponto até o fim da temporada, teve média de 12 pontos, 2 rebotes e 2 assistências enquanto arremessava 42% de 3PT por esse time dominante de Utah. Eventualmente, Hood acabou ganhando a vaga no time titular do Jazz para os últimos 20 jogos da temporada, e nesses jogos (perdeu 3 deles com lesão) teve média de 14 pontos por jogo e 40% de três pontos. Bem impressionante. Com Hood em quadra durante esse período, o Jazz anotou 104.6 pontos por 100 posses de bola e superou os adversários por 8.8 pontos por 100 posses; em contrapartida, Utah anotou apenas 100.9/100 e superou os adversários por 2.2/100 com ele no banco. Sua shot chart pós-All Star Game é uma coisa linda:



A lineup titular que terminou a temporada e recebeu mais minutos do que todas as outras após a troca de Kanter - Exum, Hood, Hayward, Favors e Gobert, uma lineup que inclui dois calouros e um segundanista - superou os adversários por 11.8 pontos por 100 posses de bola, e não é difícil ver a importância de Hood nisso. Essa é uma lineup que usa dois jogadores de garrafão que gostam de jogar próximos ao aro, e um armador que não arremessa. O espaçamento fica bem apertado, e o time precisa abrir espaços como puder. E se você adiciona a isso um ala arremessando 40% de três pontos e com criatividade a partir do drible, de repente você tem um ingrediente para fazer o ataque desse time funcionar sem tirar nada de sua fantástica defesa (Hood não é um grande defensor, mas é bom o suficiente, consegue marcar tanto SGs como SFs, tem braços longos para atrapalhar linhas de passe, e trabalha bem dentro do esquema defensivo da equipe). E Hood se saiu muito bem atacando closeouts, criando bons arremessos e aceitando o que a defesa oferece a cada jogada. Foi uma injeção extremamente necessária de arremesso de fora e criatividade ofensiva a um monstro defensivo em construção, e uma peça importante do quebra-cabeça.

Talvez Hood nunca seja mais do que um role player, como muitos disseram durante o Draft. Mas um role player capaz de arremessar 40% de três, segurar as pontas defensivamente, atacar closeouts ou missmatches quando aparecer a chance, e até funcionar como um ball handler secundário (Hood foi incrivelmente bom usando pick and rolls, com média de 0.94 pontos por posse em mais de 100 pick and rolls ano passado) as vezes... é um role player muito bom! E ele tem potencial para ser ainda melhor em meio a esse tão promissor time de Utah.


Jordan Clarkson
Minha história com Clarkson: algumas semanas antes do Draft, meu amigo Ricardo Stabolito me pediu para rankear os 10 melhores PGs do Draft para uma coluna. Ele precisava de uma resposta rápida para soltar logo a coluna, então fiz minha lista na hora mesmo sem ter estudado alguns dos PGs do Draft tanto quanto eu gostaria. No dia seguinte a coluna foi publicada e eu, insatisfeito com o resultado da minha lista, decidi me focar nos armadores, em especial em estudar aqueles que tinha considerado sem ter estudado tão a fundo. Dois dias depois, mandei uma mensagem pro Ricardo: "Como diabos você me deixou colocar o Clarkson tão baixo?! Eu achei que você era meu amigo!". Eu tinha me tornado um fã de Jordan Clarkson. Tinha Clarkson como uma escolha de primeira rodada, coloquei o armador na minha lista de sleepers do Draft (os outros: KJ McDaniels, Spencer Dinwiddie e Nick Johnson), e lembro especificamente de ficar bravo quando vi que ele caiu até o #46.

Então como você pode imaginar, fiquei muito feliz quando Clarkson estourou na segunda metade da temporada, depois que o Lakers fez dele titular (últimos 39 jogos da temporada): 16 pontos, 5 assistências e 4 rebotes por jogo arremessando 45.6% de quadra. Apesar de não ter uma grande habilidade como a defesa de Smart ou os passes de Payton, Clarkson tem um jogo bem completo, fazendo um pouco de tudo em uma quadra de basquete. O armador é um defensor capaz quando envolvido na jogada, e mostrou várias coisas diferentes no ataque, criando arremessos para os companheiros ou pontuando de diferentes formas.

Clarkson pode ser bastante agressivo com a bola nas mãos, atacando o aro e criando bons arremessos. O armador consegue chegar bem até a cesta e finalizar ao seu redor em um bom nível. Muitas das suas posses de bola ainda terminam em floaters ou arremessos de meia distância, arremessos de pouca eficiência, mas Clarkson acerta essas bolas com bom aproveitamento, e toma conta da bola, com turnovers em apenas 12.9% dos seus pick and rolls. Seus números arremessando não foram tão bons - especialmente de três pontos, 31.4% - mas parte disso vem de tentar muitos arremessos difíceis a partir do drible que o Lakers estava mais do que satisfeito em deixá-lo tentar. Clarkson acertou seus arremessos de meia distância a um bom nível, e seus 0.83 pontos por posse de bola no pick and rolls o colocam no 74th percentil de jogadores da NBA.

Embora Clarkson seja capaz de criar para os companheiros e seja um passador capaz, ele ainda é um armador que pensa primeiro em pontuar. Clarkson sabe utilizar os espaços gerados por suas infiltrações para achar seus companheiros, mas não é sua prioridade. Ele não é o tipo de armador que vê as movimentações dois passos adiantadas e manipula a defesa até abrir as linhas de passe e os arremessos mais eficientes, e provavelmente nunca será - o ataque do Lakers as vezes ficava estagnado (mais que de costume, quero dizer) quando Clarkson que estava conduzindo o jogo, já que muitas vezes demorava pra tomar decisões ou segurava a bola tentando criar seu arremesso antes de soltar para um companheiro. Mas, de novo,  o Lakers deu a ele bastante espaço para tentar, errar e aprender na marra na segunda metade da temporada, então isso tem que ser levado em conta.

Eu lembro de comparar Clarkson a Reggie Jackson antes do Draft - não necessariamente pelo conjunto de habilidades, mas por conta dessa flexibilidade que pode trazer a um time a partir do banco, carregando o ataque em períodos curtos quando os titulares descansam, atacando a cesta e envolvendo os companheiros, mas também assumindo um papel secundário ou complementar quando necessário. Ainda é incerto se Clarkson será um PG titular de longa data na NBA - eu particularmente vejo o armador como alguém versátil para vir do banco, mudar o ritmo do jogo e pontuar um pouco - mas ainda foi uma ótima temporada de calouro para um jogador que inexplicavelmente caiu até a segunda metade da segunda rodada do Draft.


Nerlens Noel
Sim, sim, eu sei  - essa coluna era para ser sobre os calouros da classe do Draft 2014. E foi... na maior parte do tempo. Mas eu me empolguei aqui, e queria aproveitar para falar um pouco de dois calouros de outros Drafts que brilharam em 2014/15. Minha coluna, minhas regras. Então vamos começar com Noel, que era considerado o prospecto #1 da classe de 2013 antes de uma lesão no joelho encerrasse sua temporada 2013 (em Kentucky) e colocasse em dúvida seu status para a temporada 2013/14, motivo pelo qual o pivô eventualmente caiu até o Pelicans no #6 (que trocaram essa escolha, mais sua escolha de primeira rodada de 2014 - eventualmente Elfrid Payton, que foi trocado por Dario Saric e uma 1st rounder futura - por Jrue Holiday). E como Noel perdeu de fato a temporada 2013/14, o pivô só foi estrear como um calouro em 2014/15.

A primeira coisa que sabíamos sobre Noel saindo da universidade é que ele era um bom defensor. E a verdade é que, na sua temporada como calouro, Noel não foi um bom defensor - ele foi um ótimo defensor. O pivô usou sua capacidade atlética, alcance e incrível agilidade para dominar a área perto do aro na defesa, dando tocos e alterando muitos outros arremessos. Noel liderou todos os calouros com 1.9 tocos por jogo, e adversários arremessaram apenas 45% perto do aro contra ele - a sétima melhor marca de toda a NBA. Noel também usou sua velocidade e alcance para fechar linhas de passe e impedir passes para o garrafão, terminando o ano com média de 1.8 roubos por jogo, tornando-se assim o oitavo jogador da história da NBA com médias de 1.9 tocos e 1.8 roubos por jogo em uma temporada, e o único jogador com menos de 22 anos a atingir essa marca (Noel tem 20). Eu sei que roubos e tocos não são um grande parâmetro para boa defesa, mas te dão um bom exemplo da sua capacidade de causar estragos no lado defensivo do jogo. Noel foi um monstro no garrafão defensivo o ano todo, e o grande motivo pelo qual o fraco Sixers ficou no Top10 de defesa durante boa parte da temporada. Eventualmente (e especialmente depois que Michael Carter-Williams e seus longos braços foram trocados) times começaram a atrair Noel para mais longe do aro envolvendo-o em mais pick and rolls, e o pivô sofreu para defender mais próximo ao perímetro, onde frequentemente se encontrava fora de posição e lento para entender aonde ir e o que fazer, enquanto também minimizava sua maior força (defesa no garrafão). Mas esse tipo de dificuldade é normal para jovens pivôs, demora um pouco para entender as movimentações no nível NBA, e Noel foi tão impressionante no garrafão o ano todo que não tem motivo para se preocupar com ele desse lado da bola.

A outra coisa que sabíamos sobre Noel é que ele era incapaz de pontuar. E isso também se mostrou muito verdade na sua temporada de calouro. O pivô do Sixers não tem nenhum jogo ofensivo fora da área restrita, terminando o ano como o terceiro pior arremessador de meia distância da NBA (entre jogadores com 100+ arremessos) a 30.8%, e também foi o PIOR jogador de post up da liga (mínimo de 120 posses), com 0.64 pontos por posse e 32 FG% nesses arremessos. Noel sobreviveu basicamente em enterradas e rebotes ofensivos, e não era capaz de fazer nada bom quando tinha a bola nas mãos (Noel chutou 51% em arremessos que vieram sem nenhum drible antes, e menos de 40% quando deu pelo menos um). Jogadores com esse tipo de capacidade atlética e limitação ofensiva geralmente fazem seu estrago cortando para a cesta em pick and rolls, atraindo defensores e pulando para completar passes altos, mas Noel também esteve entre os piores finalizadores de pick and roll da liga.

É verdade que Noel não jogou com um bom armador que lhe ajudasse a conseguir arremessos melhores, e o Sixers era um péssimo time ofensivo com zero de bons passes ou espaçamento de quadra, então ainda não da pra saber com certeza se Noel pode ou não sobreviver naquela função Tyson Chandler-esca de pick and roll/corte para a cesta, mas os primeiros sinais não foram muito encorajadores desse lado da bola. Por enquanto, Noel talvez seja o jogador mais extremo da NBA, um monstro dominante protegendo o garrafão na defesa, e um dos piores jogadores da liga (pelo menos entre os de alto uso) no ataque. Ele também foi um dos quatro melhores calouros de 2015 e uma certeza para o 1st Team All Rookie. Então tem isso.


Nikola Mirotic
Mirotic não tem números individuais impressionantes além de um ótimo Março (mais em um instante), já que teve médias de 10 pontos e 5 rebotes, arremessando 40% de quadra e 31% de três pontos enquanto tinha dificuldades para conseguir minutos consistentes no Bulls. Mas essa é a estatística verdadeiramente impressionante da temporada de calouro de Nikola Mirotic:




Essas são as diferenças em Rating Ofensivo (pontos anotados por 100 posses) e Net Rating (saldo de pontos por 100 posses) do Bulls com e sem Mirotic na temporada regular, playoffs, e na série contra Cleveland.

Foi surreal o quão melhor Mirotic fez Chicago toda vez que pisava em quadra. O calouro de 24 anos é um ala de força com alcance até a linha dos 3 pontos, e o que por si só já é uma valiosa arma na NBA. Mesmo que Mirotic não exatamente acertasse esses arremessos de fora (31% em 3PTs), já era suficiente para fazer defesas pensarem duas vezes antes de deixá-lo livre para dobrar uma marcação, então só isso já oferecia um valioso espaçamento para o Bulls. Mas Mirotic não é só um cara grande que arremessa de longe - ele também é um bom ball handler e excelente passador para um cara de garrafão, duas habilidades que dão ao ataque de Chicago uma dinâmica totalmente diferente com o montenegrino em quadra. Seus arremessos tiram um big man do garrafão e abrem espaço para as infiltrações de Rose ou Butler e os post ups de Pau Gasol, e Mirotic também tem um bom jogo de costas para a cesta para punir defensores menores, mas também é muito bom atacando espaços e closeouts - seu bom domínio de bola, visão de jogo, passes e criatividade fazendo do PF um jogador perigoso criando a partir do seu drible, e permitem que o ataque de Chicago continue fluindo depois da ação inicial (o grande problema de Chicago as vezes é o quão estagnado o ataque fica). Essa dimensão não pode ser oferecida por nenhum outro dos jogadores de garrafão do Bulls, e foi um dos motivos pelos quais Chicago foi tão melhor com o montenegrino em quadra. Mirotic também é um bom defensor em espaço (apesar de ser incapaz de proteger o aro), com pés surpreendentemente ágeis que lhe permitem defender jogadores longe do garrafão ou até fazer a troca em alguns pick and rolls. Essa versatilidade faz dele um jogador muito valioso: não importa qual fosse o parceiro de garrafão de Mirotic, o time se saía bem - lineups com Mirotic e Gasol superavam os adversários por 4.4 pontos por 100 posses, e lineups com Mirotic e Gibson ou Mirotic e Noah superavam por 4.8 pontos por 100 posses.

Os grandes problemas aqui foram o excesso de jogadores de garrafão do Bulls, e Tom Thibodeau, que não é realmente um grande fã de usar rookies e não conseguiu achar os minutos adequados para Mirotic na sua temporada de calouro. Com Noah (o líder da equipe e seu melhor defensor quando saudável), Gibson (reserva de qualidade) e Gasol (aquisição cara da free agency) já exigindo muitos minutos, Mirotic foi apenas a quarta opção de garrafão para o Bulls essa temporada, apesar de ser o  mais valioso deles. Thibodeau tentou até usar Mirotic de Small Forward as vezes para mantê-lo em quadra, mas apesar de bons resultados não era o ideal, já que ela minimizava as principais forças de Mirotic (passes e arremessos que trás para a posição de PF) e deixava o montenegrino exposto na defesa contra jogadores mais rápidos. A situação ficou genuinamente bizarra nos playoffs, quando o ataque do Bulls estava estagnado e com espaçamento péssimo, mas Thibodeau continuava se negando a dar os minutos que Mirotic merecia. Ainda assim, seu mês de Março - quando múltiplos jogadores de Chicago perderam tempo com lesões e Thibs foi forçado a usar Mirotic 30 minutos por jogo - é um testamento ao quão bom o ala-pivô pode ser quando bem utilizado: 21-7 com +6.7 Net Rating em quadra (24-9-2 com 1.4 tocos por 36 minutos).

Mirotic não é perfeito, é claro: sua eficiência deixou muito a desejar na temporada, seu aproveitamento nas bolas de fora precisa melhorar se quiser continuar atraindo tanta atenção das defesas, e sua proteção de aro foi péssima (Chicago inteligentemente mantinha-o defendendo mais perto do perímetro, onde ele é bom). Mas ainda liderou todos os calouros do ano em PER (17.9), e parece ser o complemento perfeito para a NBA moderna, jogador de garrafão bastante móvel capaz de espaçar a quadra, defender em espaço, manter o ataque fluindo, fazer os passes certos, e basicamente preencher diversas funções diferentes no ataque. Talvez um novo técnico seja o que Mirotic realmente precisa para explodir em 2015/16.
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No final das contas, eu não vejo motivos para se preocupar com essa classe de calouros. Wiggins parece uma superestrela em ascenção, e na maior parte do tempo, o problema com a classe do Draft 2014 (ou pelo menos seus principais talentos) foi ou lesões, ou extrema juventude. Dos nove primeiros jogadores escolhidos (e dos oito mais bem cotados antes do Draft), três perderam a temporada com lesões (Embiid, Parker e Randle), e outros três jovens de alto potencial tiveram dificuldade para ganhar minutos e/ou toques por causa de lesões menores, ainda serem muito crus, ou ambos (Exum, Gordon e Vonleh). Esses são seis dos oito melhores jogadores dessa classe (ou pelo menos antes do Draft)! E o fim da loteria/meio da primeira rodada também nos deu alguns bons talentos, como LaVine, Nurkic e Payton. O fim da primeira rodada ainda não fez muito até aqui, mas Clint Capela está jogando muito bem por Houston nos playoffs e Hood foi excelente para Utah, então não é como se não tivesse nada de bom pra mostrar.

Então em geral, foi uma combinação de dois fatores: alguns dos principais jogadores do Draft perderam o ano por conta de lesões; e o fato de que, com jogadores cada vez mais jovens entrando na NBA, fica cada vez mais difícil avaliar esses jogadores em seus primeiros anos, quando ainda não são desenvolvidos o suficiente para ganhar muitos minutos ou um papel central em bons times. Em uns dois anos, eles terão um futuro muito mais bem definido... e as vezes nem ASSIM a gente vai saber exatamente o que vem pela frente (ver: Whiteside, Hassan). Então por enquanto, vamos deixar de lado essa besteira sobre uma classe de calouros "decepcionante" e nos concentrar no que temos no momento - e, como vocês viram acima, tem muita coisa para nos deixar excitados para o futuro.