Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pensamentos rápidos e aleatórios sobre o Super Bowl XLIX

Malcolm Butler, para a história


O Super Bowl XLIX agora é passado. New England, que da última vez saiu de Arizona com uma das mais surpreendentes derrotas da história da NFL, agora sai coroado com seu quarto título, depois de 10 anos do último. Tom Brady se juntou a Joe Montana e Terry Bradshaw como os únicos QBs a vencerem quatro anéis, Bill Belichick se juntou a Chuck Noll como os únicos técnicos com quatro Super Bowls (em títulos totais ainda ficam atrás de Vince Lombardi e George Halas) e Malcolm Butler virou uma celebridade da noite para o dia. 

A noite de ontem foi intensa demais para escrever uma coluna séria e coerente sobre o Super Bowl, e o tempo também está em falta no momento. Ainda assim, tem algumas coisas que precisam ser ditas - ou melhor, que eu quero dizer - sobre esse Super Bowl que não podem passar de hoje. Então deixo aqui alguns pensamentos e considerações curtos sobre esse magnífico Super Bowl.


- Antes de mais nada, parabéns ao New England Patriots e aos seus muitos torcedores. O Patriots tem alguns dos torcedores mais chatos que eu já conheci, mas também tem os mais fanáticos e mais apaixonados, e a franquia em si é um exemplo ímpar de consistência e excelência no futebol americano. Nos últimos 14 anos, New England foi a seis Super Bowls, venceu quatro, e só deixou de ir aos playoffs duas vezes. Eles venceram 76% de seus jogos (170) de temporada regular nesse período, de longe a melhor marca da NFL (Colts, 150 e 67%, em segundo). Eles venceram 21 jogos de playoffs nesses 14 anos, quase o dobro de Colts e Steelers (12 cada), os segundo colocados. Ter um QB histórico como Tom Brady - especialmente nessa era que cada vez mais protege os QBs e os passes, fazendo um QB ter condições de impactar mais um jogo do que a 20 anos atrás - sem dúvida que ajuda, mas mesmo além dele, a organização sempre foi um exemplo de eficiência, maximizando seus ativos no Draft, achando valor em jogadores menores, sempre se reinventando e retomando o topo. Bob Kraft é o melhor dono da NFL, e Belichick o melhor técnico, e não a toa sempre trabalharam juntos, tirando o melhor um do outro. Sabe, ao contrário de outra franquia que tinha um dos melhores técnicos da NFL mas cujo dono quis demiti-lo para contratar alguém que fosse seu pau mandado. Uma boa franquia começa de cima, e o Patriots tem isso mais que qualquer um. Uma vitória merecida, para o time e a sua torcida, e com sabor extra depois que muita gente correu para descartar New England quando perdeu do Chiefs na semana 4.


- Na minha vida, o melhor Super Bowl de todos foi em 2009 (mas o da temporada 2008), entre Arizona Cardinals e Pittsburgh Steelers. Em termos de jogo bem jogado, emoção, reviravoltas e puro e simples nível de entretenimento, eu não tenho certeza que um dia algum Super Bowl superará aquele. Ele foi perfeito demais. 

Mas o Super Bowl XLIX foi um dos melhores de todos os tempos em seu próprio mérito. O primeiro tempo foi feio e cansativo, e o jogo não pegou fogo até o quarto período. Mas foi um quarto período para a história. Duas campanhas perfeitas de um dos maiores QBs da história do esporte para virar um jogo que muitos deram como perdido, a quase virada de Seattle, a recepção absolutamente bizarra do Jermaine Kearse (qualquer torcedor do Pats que disse que não teve flashbacks pra recepção do David Tyree ou está mentindo ou não assistia NFL na época), Seattle praticamente garantindo o jogo, dois erros técnicos grosseiros em um espaço de 30 segundos (chegaremos neles), e uma jogada improvável (e isso é um understatement) para uma das maiores reviravoltas da história do Super Bowl. Considerando quanto tempo faltava, onde a bola estava, o que estava em jogo, o fato do Seahawks ter Marshawn Lynch pronto para entrar na end zone - tinha três tentativas para isso - e quem fez a jogada (um calouro não-draftado da divisão II da NCAA), acho que não caio em hipérbole ao dizer que foi uma das jogadas mais improváveis da história do futebol americano. Foi tão maluca, tão surreal, que eu fiquei dois segundos parado tentando processar o que aconteceu antes de finalmente cair a grande ficha. É exatamente assim que você quer que seu domingo termine.


- Eu não sei se foi Darrell Bevell ou Pete Carroll que chamou a jogada final de Seattle - supostamente foi Carroll - mas, considerando situação, conjuntura, alternativas e que era o freaking Super Bowl, foi a pior chamada de um técnico da história do futebol americano. Você tem Marshawn Lynch - talvez o melhor RB da NFL e sem dúvida o melhor da liga em termos de força física e de conseguir jardas extras, o cara que é seu melhor jogador ofensivo e foi a alma do seu time por três anos - você tem um tempo pra pedir, você ainda tem tempo no relógio, e três jogadas para conseguir UMA JARDA. Um touchdown te da 99% de chance de vencer, e New England não tem esperanças de segurar Marshawn Lynch (4.4 YPC, 102 jardas na partida), tendo a pior defesa da temporada contra o jogo terrestre em situações de "força", per Football Outsiders. A única esperança - mínima - do Patriots ali era conseguir um turnover milagroso, mas Seattle nunca chamaria uma jogada para dar essa chance sendo que dar a bola nas seguras mãos de seu RB tem uma chance maior de sucesso.

Mas ao invés de dar a bola para Lynch, inexplicavelmente, Seattle decidiu ir para um passe, que Malcolm Butler interceptou. Não existe NENHUM motivo cabível pro Seahawks ir pro passe ali. Considerando que só precisava de uma jarda e que a única esperança do Patriots era um turnover, não tem porque ir para uma jogada onde você coloca a bola no ar e arrisca essa interceptação. Sim, ir para a corrida pode ter um fumble, mas indo para o passe você pode sofrer um sack (que dificultaria consideravelmente as ultimas tentativas), um fumble ou uma interceptação, muito mais opções negativas. Além disso, a corrida também tem muito mais chance de sucesso: nos últimos dois anos, dentro da linha de uma jarda, times converteram 57% de suas jogadas de corrida em touchdowns (e sofreram fumbles em 0.9% delas), enquanto que só 49% de suas jogadas de passe viraram TDs (com 6.2% das jogadas virando um turnover e/ou um sack, as duas jogadas que Seattle absolutamente devia evitar). E isso antes de entrar no mérito que você tem MARSHAWN LYNCH, seu melhor jogador e RB mais imparável da NFL, para correr com a bola, que você teve o melhor ataque terrestre da temporada, e que o Patriots foi o pior time de 2014 defendendo a corridas em situações de curtas distâncias. Então não só você tirou a bola das mãos do seu craque, mas fez isso para ir atrás de uma jogada de maior risco e menor chance de sucesso, em um lance onde você ABSOLUTAMENTE devia evitar um turnover a todo custo. Foi uma decisão historicamente estúpida, que custou um Super Bowl ao seu time nos segundos finais. É verdade que uma interceptação ali não é um cenário provável e a INT foi um pior cenário possível, mas porque ir para uma jogada que te da esse pior cenário possível? Em um vácuo, a decisão ja foi ruim, mas considerando os times e os jogadores envolvidos, ela se torna genuinamente horrível. Adicione que ela foi a jogada decisiva de um Super Bowl, na linha de 1 jarda, faltando 30 segundos e que causou uma mudança de mais de 80 pontos percentuais na expectativa de vitória das equipes, e você tem a pior chamada da história da NFL.

O TM Warning conseguiu vídeos exclusivos do que se passava na cabeça do Pete Carroll naquele momento.




- Pior do que a decisão de ir para o passe naquela situação foram as desculpas que Carroll e Bevell deram depois do jogo para explicá-la. Bevell disse que ainda tinha muito tempo no relógio e o time queria gastá-lo até o fim, o que é uma explicação que faz sentido só se você estava em Seattle e consumiu 1 kg da maconha "Marshawn Lynch". Esqueça a interceptação - qual o upside disso? Se é TD, tem exatamente o mesmo efeito de uma corrida, e New England ainda recebe a bola com 30s e dois tempos pra tentar um FG. Se o passe é incompleto, você para o relógio sem queimar um tempo do Pats. Porque diabos então você chamaria essa jogada para gastar o relógio?!

As de Carroll não foram muito melhores. Embora ele tenha assumido a responsabilidade pela chamada e pela derrota, ele disse que o fez porque o Patriots estava em formação de goal-line, o que simplesmente não era verdade (o próprio Darrelle Revis confirmou o que a gente viu). E depois, para piorar, defendeu a chamada dizendo que, como o Pats estava em sua formação de goal-line (não estava), achou que não era um bom matchup para correr e que portanto chamou um passe para "queimar uma jogada" ou "jogar a jogada fora". Não, sério, eis o que ele disse no original, via Ian O'Connor da ESPN: "It [the goal-line defense] is not the right matchup for us to run the football, so on second down we were throwing the ball to kind of waste the play". 

... oh, God. Isso é muito ruim. 2nd and goal, 30 segundos no relógio, no freaking SUPER BOWL, perdendo de 4, você não confia na sua maior força e chama uma jogada para jogar uma descida fora?! É a pior explicação de uma chamada ruim que eu vi nos últimos tempos. Para usar uma analogia do Michael Lewis, parece uma rotina dos irmãos Marx, onde um está pegando fogo e o outro tenta apagar jogando nele um balde escrito "QUEROSENE".



- Quanto de culpa teve Russell Wilson na interceptação decisiva?

Como sempre, é muito difícil dizer com certeza, mas podemos tentar. Primeiro de tudo, a chamada do passe não foi dele - veio do banco, e ele não me pareceu fazer nenhum grande ajuste na linha a não ser talvez redistribuir os jogadores. Então o maior erro da jogada já passa por fora de Wilson.

Dada que a jogada chamada já era um passe, então a primeira coisa que chama a atenção é que Wilson fez a leitura certa na linha de scrimmage. Eis a situação da jogada antes do snap.



Considerando que o Hawks vai para o passe, Wilson olha para a parte de baixo do campo e ve Kearse e Lockette no mano a mano com Browner (marcando Kearse próximo a linha) e Butler (marcando Lockette a distância). Identificando o elo fraco da defesa do Pats (Butler, o quinto CB do time), a jogada ainda vai tirar vantagem desse matchup. Kearse vai "atacar" Browner, bloqueando-o próximo a linha, e com o DB que marca a linha fora da jogada, Lockette vai usar essa liberdade para cortar em direção ao espaço no meio sem ninguém acompanhando-o. A jogada, no primeiro momento, funciona como esperado - Kearse tira o CB da jogada, e Lockette corta para o meio com muito espaço próximo a linha. Wilson vê que Browner não conseguiu acompanhar Lockette no slant, vê o camisa 83 sem acompanhamento, e lança o passe na direção do espaço para onde ele se dirige. É a jogada que Seattle queria.



Eis o grande problema do passe: Wilson joga para Lockette porque viu que Browner está fora do lance, abrindo espaço no meio, mas em nenhum momento ele vê Butler se aproximando da jogada. Não sei se ele literalmente não vê Butler (que estava atrás de Browner no seu campo de visão) ou se achou que ele não chegaria no lance, mas é um erro grave de leitura, especialmente porque Butler não está acompanhando Lockette - ele está cortando diretamente para o mesmo lugar que ele e se colocando na mesma zona para "receber" o passe. E o passe sai ruim - não é um passe baixo ou um passe próximo ao corpo de Lockette onde ele possa usar o corpo de "escudo" e pelo menos evitar uma interceptação, mas um passe alto e na frente do seu corpo, onde Butler tem espaço de sobra para fazer uma jogada na bola.

A minha impressão é que ele não viu Butler, seja porque estava fora do seu campo de visão ou por um erro de leitura mesmo. Se visse o DB do Patriots, ele possivelmente ainda teria ido atrás de Lockette - que era sua primeira leitura em uma jogada rápida, e que conseguiu a separação na linha que ele esperava, a jogada que eles queriam desde o começo - mas certamente teria feito um passe mais próximo do seu corpo, e não um tão longe e tão pendurado para o defensor fazer uma jogada. Então foi um erro de leitura, e um passe ruim que permitiu ao defensor fazer a jogada. Mas ainda assim, é difícil colocar demais no prato dele: ele fez a leitura certa antes da jogada, conseguiu a separação do WR que queria, e ninguém esperava que um calouro não-Draftado de West Alabama fizesse uma jogada fantástica dessas. Cada um pode tirar as próprias conclusões a partir dos fatos que eu mostrei acima, mas a meu ver, embora tenhamos que reconhecer que Wilson (que fez ótima partida) fez uma jogada ruim (especialmente na leitura da defesa), na hierarquia isso só vem depois de dar muitos méritos ao Butler por uma jogada fantástica e improvável e de dar os devidos pescotapas no Carroll por essa chamada atroz. 


- A péssima, SB-losing decisão do Carroll acabou tirando o foco de uma inexplicável e péssima decisão do Bill Belichick de não pedir um tempo depois a primeira descida de Seattle. A jogada de Seattle acabou com pouco mais de 1m no relógio, e New England tinha dois tempos para pedir. Inexplicavelmente, Belichick não pediu tempo, e o relógio correu para 25 segundos antes da jogada seguinte de Seattle. 

É uma decisão horrível. New England estava com vantagem de 4 pontos, então mesmo se tomasse um TD, ainda poderia empatar com um field goal. O problema é que deixar o relógio correr esses 40 segundos praticamente tirava todo o tempo que o Patriots poderia ter para empatar. Se New England pede um tempo e toma um TD na jogada seguinte, teria quase 1 minuto e um tempo pra empatar o jogo com um FG. Como não pediu, se Lockette faz o TD ali, o time teria 20, 15 segundos e dois tempos pra empatar, muito menos e uma situação infinitamente mais difícil. Caso ele peça tempo, o pior cenário que poderia acontecer em termos de tempo no relógio seria caso Seattle corresse 2x e não anotasse o TD, forçando New England a usar o último TO e depois gastarem mais 40s do relógio... mas dai teriam uma quarta descida, e se é pra ter 20 segundos no relógio, tenho certeza que é bem melhor uma 4th down do que uma 2nd and 1. Não usar o timeout ali poderia ter custado o jogo ao Pats. Belichick é o melhor técnico da NFL e um dos melhores da história da liga, mas foi um erro grosseiro da parte dele. 


- Quer dizer que até mesmo o Imperador Palpatine da NFL tem um lado sentimental? Talvez minha foto favorita do Super Bowl. Aliás, Greg Popovich - outro técnico histórico famoso pelo mal humor e pela fama de durão - também chorou um monte ano passado quando foi campeão da NBA. É o outro lado de ser um filha da mãe ultracompetitivo. Quando você alcança o seu objetivo final depois de tanta superação, é ainda mais gostoso e emocionante. 




- Por falar em Popovich, é coincidência que Spurs e Patriots - os dois times mais vitoriosos e consistentes dos EUA no milênio - finalmente deram a volta por cima e ganharam títulos em 2014 (tecnicamente o do Pats foi 2015, mas você entendeu. A temporada era 2014) com suas estrelas aos 37 anos e no final de suas carreiras? A do Patriots foi mais sofrida, a do Spurs mais dominante, mas ambas incrivelmente memoráveis. 


- O primeiro tempo, em particular, foi uma aula de tática da parte do Patriots. Seattle dominou o ano todo usando sua tática habitual, e seu jogo de sempre, mas New England sabe que não tem tanto talento em campo como seu adversário, mas tem muito mais técnico. E uma das coisas que fez de New England tão bom o ano todo foi sua capacidade de se adaptar e se preparar para cada adversário que enfrentou.

Ontem não foi exceção. Sabendo que Seattle tinha mais talento, New England se propôs a vencer o jogo na tática, e no primeiro tempo deu uma aula disso. Seattle gosta de jogar com os safeties no fundo do campo, tirando a opção das bolas longas e protegendo as costas de seus CBs, enquanto confia no físico de seus cornerbacks para controlar a linha de scrimmage por conta própria. Mas Sherman, Thomas e Chancellor estavam jogando com lesões, e New England começou o jogo disposto a explorar isso, fazendo passes curtos e laterais e forçando os defensores um tanto baleados de Seattle a fazer tackles em campo aberto, tendo algum sucesso em jardas após a recepção. Mas depois que Jeremy Lane saiu com uma fratura feia no braço, o Seahawks foi forçado a usar seu reserva, Tharold Simon. Era o que o Pats precisava.

New England imediatamente começou a atacar Simon, claramente o elo fraco da defesa do time de Washington. Aproveitando que os safeties de Seattle jogam em profundidade e que Simon não tinha condição de marcar próximo a linha os WRs de New England, o ataque do Patriots começou a explorá-lo e os espaços atrás dele em rotas curtas, slants e passes a partir do backfield para Shane Vereen. Simon não teve condições de aguentar a atenção - 7 passes, 96 jardas e 2 TDs para Brady lançando na sua direção - e foi batido várias vezes seguidas. Simon não conseguia marcar Edelman sem ajuda de um safety, mas deslocar um safety iria tirar Seattle da sua zona de conforto, e era o que New England queria. Quando o Hawks tentava deslocar algum jogador do meio para ajudar Simon, Brady fazia-os pagar com Vereen ou uma rota cruzando pelo meio. Até que por fim, Seattle cedeu e em uma jogada colocou Earl Thomas próximo a linha de scrimmage para marcar os passes curtos. Era a oportunidade que New England esperava. Brady alinhou Gronkowski aberto no mano a mano contra KJ Wright, pela primeira vez sem ajuda do safety nas costas, e um duelo que sem uma cobertura atrás Gronk vai vencer 95% das vezes. Gronk facilmente bateu Wright para um TD longo, na coroação de uma sequência perfeita do ataque de New England. O outro TD do Patriots no primeiro tempo veio, claro, em um slant de LaFell em cima de Simon, que continuou a ser atacado com os safeties em profundidade.

O primeiro tempo foi uma aula tática do Patriots pra cima do Seahawks, e só não conseguiu abrir vantagem por causa dos próprios erros. A interceptação besta de Brady na red zone, a facemask de Arrington, a corrida cedida num draw do Seattle que deveria encerrar o primeiro tempo que foi para 17 jardas - sem os dois primeiros erros, New England vai para o vestiário vencendo por 7 pontos, e sem o terceiro, por 10 pontos. Ao invés disso, errou e o jogo permaneceu apertado. 

No segundo tempo, Seattle retomou o controle do jogo mesmo sem um grande ajuste tático, mas simplesmente porque começou a executar muito melhor. A única mudança foi passar Michael Bennett para o interior da linha, e deu muito certo - ele demoliu os linemen inexperientes do Patriots no interior, e ele e Cliff Avril fizeram do Patriots a vida miserável, destruindo a linha ofensiva e deixando Brady sem tempo nem ritmo no pocket para fazer seus passes, que dependem tanto de timing, funcionarem (a saída de Cliff Avril com uma concussão foi um fator chave para o ataque do Patriots voltar a funcionar no quarto período). A saída de Avril fez o Patriots retomar o domínio da linha (aumentando as atenções sobre Bennett) e ganhar tempo para Brady no pocket, e assim pode voltar a executar seu esquema bem pensado: atacar Simon (que foi absolutamente abusado por Edelman na red zone), e explorar o meio do campo quando os linebackers de Seattle se deslocavam para cobrir os CBs batidos de Seattle. Mesmo que a jogada decisiva da partida tenha sido na defesa, foi uma performance fabulosa de Belichick e da comissão técnica montando e adaptando um plano de jogo perfeito para o ataque que levou a melhor sobre a excelente defesa do Seahawks.


- Por falar em decisões técnicas, Pete Carroll recebeu críticas totalmente merecidas por sua ridícula chamada no passe decisivo, mas ele também cometeu um outro erro crucial na partida que pode ter custado seu time. No começo do terceiro quarto, Seattle chegou na linha de 8 jardas do Patriots, mas viu Lynch ser pego em uma jogada de option que deu errado para nenhum ganho. Com uma 4th and 1 da linha de 8 jardas, Carroll decidiu chutar um FG. Mike McCarthy ficaria orgulhoso.

Algumas pessoas dirão que o era cedo no jogo para arriscar, que o jogo estava empatado, e que ele fez bem em ficar com os pontos. Essas pessoas também estão erradas. New England estava destruindo a defesa do Seahawks taticamente desde a entrada de Simon, e embora a defesa fosse eventualmente achar seu pass rush e dominar o terceiro período, Seattle ainda não sabia disso porque era a primeira campanha do segundo tempo. Ninguém realmente podia esperar que o jogo terminaria 17-14 com esse FG sendo o da vitória. Contra um grande ataque contra o Patriots, que estava tendo grande sucesso porque sabia exatamente como atacar sua defesa, você quer garantir o máximo possível de pontos, e estando DENTRO da linha de 10 do adversário só precisando de uma jarda para ganhar uma nova série de descidas, esse é o tipo de chance que você precisa converter. Mas não. Carroll se contentou com um FG, assim como Mike McCarthy antes dele. E assim como Mike McCarthy antes dele, chutar esse FG ao invés de anotar um TD custou pontos que, eventualmente, lhe custariam a vitória.

Se você quer ficar técnico, o modelo probabilístico do Football Analysis diz que Seattle devia tentar a quarta descida se tivesse 45% de chance ou mais de converter o first down. Nos dois anos que Seattle chegou ao Super Bowl, a equipe converteu 62% de suas tentativas em jogadas que faltavam uma jarda para primeira descidas, inclusive 64% das tentativas correndo. Considerando esse dado, que o Seahawks tem o melhor RB de força da NFL, o ataque terrestre #1 da liga, e que New England teve a PIOR defesa terrestre da NFL em situações curtas, é seguro dizer que a chance do Seahawks converterem essa quarta descida era bem superior a 45%. Carroll tomou uma decisão ruim que, embora sozinha não tenha custado o jogo ao seu time, diminuiu as chances de vitória da equipe e fez bastante falta no final. Carroll não tem como saber como o jogo se desenrolará até o final, para saber que aqueles quatro pontos seriam a diferença fatal da partida, mas justamente por não saber ele tem que pensar em tomar a decisão que da o máximo de pontos possíveis ao seu time. Se fosse uma 4th and 20, a chance de converter seria mínima, então o FG geraria mais pontos do que a probabilidade mínima de converter a descida e ficar com o TD. Mas dentro da linha de 10, precisando de só uma jarda e com Lynch, a chance de converter era altíssima e teria aumentado em muito a chance de 7 pontos. Carroll tomou a decisão errada, a primeira e menos custosa das duas, mas não menos digna de nota.

Coloque da seguinte maneira: se Carroll tentasse a conversão de quarta descida, falhasse, e perdesse o jogo por 3 pontos, todos os tradicionalistas iriam correndo apontar que essa decisão custou o jogo. Agora que o time perdeu por os 4 pontos da sua covardia de tentar um FG ao invés de tentar um FG, você não ouvirá uma palavra na mídia tradicional a respeito porque Carroll tomou a decisão "comum". Mas deveria. É muito pior ter um resultado ruim a partir de uma má decisão do que ter um resultado ruim a partir de uma boa decisão, porque o resultado o técnico não controla. O processo sim. Ele tem que tomar a decisão cujo processo da ao time a melhor chance de vencer, e não foi isso que ele fez.


- Esses playoffs foram absolutamente sensacionais em praticamente todos os aspectos, tirando imprevisibilidade. Mas o que eu mais gostei deles, de longe, foi que eles funcionaram como um ecossistema extremamente impiedoso com técnicos. Não só porque o melhor de todos ficou com o título, Belichick, mas porque um a um os técnicos conservadores, covardes e incompetêntes (e mesmo técnicos que não são nenhum deles, mas simplesmente tiveram decisões que foram) foram caindo justamente por causa de seus próprios erros. Um a um, os playoffs foram eliminando-os através de seus próprios erros.

O primeiro a cair foi o mais covarde e conservador de todos, Jim Caldwell, que aterrorizou torcedores do Lions o ano todo com sua paixão por field golas e um conservadorismo quase amador. Os torcedores do Lions reclamarão da amadora arbitragem que não marcou a falta em Brandon Pettigrew em uma 3rd down crucial, e com razão, mas a verdade é que mesmo depois disso o time ainda tinha uma 4th and 1 no campo de ataque, que poderia converter para manter o ataque vivo, continuar com a bola e eventualmente anotar pontos. Detroit conseguiu 1st downs em 66% de suas conversões de uma jarda nos últimos dois anos, e a defesa de Dallas é abaixo da média. Mas Caldwell foi pelo livro, e optou por devolver a bola para um dos melhores ataques da NFL sem nenhuma outra ação ofensiva - ganhando por apenas 4 pontos. Dallas pegou a bola, anotou o touchdown, e o Lions teve que fazer uma campanha desesperada para anotar um FG que poderia ter anotado uma campanha antes. Eventualmente, a temporada do Lions acabou em uma 4th and 3 - uma conversão que Detroit só conseguiu em 51% das tentativas nos últimos dois anos, bem abaixo dos 66% daquela 4th and 1 de antes. Detroit falhou, e foi eliminado.

Caldwell passou o bastão a Jason Garrett, que corajosamente arriscou duas quartas descidas contra Detroit e foi premiado por isso. Mas contra Green Bay, foi conservador na hora errada, e isso lhe custou caro. Com o final do primeiro tempo chegando ao fim, Dallas teve uma 4th and 1 no campo de ataque faltando pouco mais de 30 segundos no relógio e um tempo para pedir. Garrett optou por tentar um FG de 45 jardas, um FG bastante difícil em um dia ventoso e de baixíssima temperatura, ao invés de tentar uma conversão (que Dallas converteu 69% das vezes, inclusive) para pelo menos aproximar o FG ou mesmo sonhar com um TD. O time se complicou na hora de formar o FG, fez uma falta, errou o FG subsequente, e viu o Packers aproveitar a ótima posição de campo para anotar um FG antes do intervalo. Um erro de 6 pontos. A temporada de Dallas acabou - surpresa! - com eles desesperadamente tentando converter uma 4th and 2 no território do Packers, que acabou na infame recepção que não valeu (corretamente) do Dez Bryant.

Mas o bastão dos técnicos tomando decisões covardes e conservadores passou para Mike McCarthy, que determinado a superar seus adversários, teve o jogo mais medroso, covarde, conservador, irracional, inconsequente... enfim, o pior jogo que eu já vi de um técnico em 14 anos de NFL. Basicamente, ele não confiou no jogo terrestre em duas 4th and 1 da linha de 1 jarda após turnovers de Seattle, preferindo chutar FGs em ambas as vezes, mas preferiu confiar no jogo terrestre ao invés de dar a bola nas mãos do seu QB MVP em duas conversões curtas e importantes no campo adversário, e correu 5 das 6 jogadas finais da partida (em duas campanhas diferentes) quando o time precisava de uma primeira descida. É muita burrice pra comentar todas aqui, mas ele foi o grande culpado em uma das maiores entregadas da história da NFL.

Por fim, Pete Carroll e seu FG (e sua chamada na 2nd down, mas essa não tenha sido causada por conservadorismo) no Super Bowl também caíram. Eu sempre defendi que técnicos na NFL são conservadores demais - seja pelo medo de errar e ser execrado na mídia, falta de confiança, ou pura burrice - e deixam ótimas oportunidades de melhorar suas chances de vitória na mesa, oportunidades essas que não passam por técnicos melhores como Sean Payton, Bill Belichick, e os irmãos Harbaugh. Esse playoff expôs vários desses conservadorismos e puniu cada um deles de forma exemplar. Quem sabe agora os técnicos não começam a agir com alguma inteligência ao invés de sempre seguir o manual.


- Temporada fantástica de Seattle apesar da derrota. Mas vai ser interessante como esse time vai se virar agora que perdeu o benefício salarial de pagar contratos de calouros para alguns de seus melhores jogadores. Sherman e Thomas já foram pagos, Wilson e Lynch receberão gigantescos aumentos essa offseason, e contribuidores como Bruce Irvin, Bobby Wagner e Cliff Avril logo exigirão novos contratos. Vai ser dificílimo manter todo o time junto, ainda mais manter a profundidade que faz de Seattle tão temível, e esse SB mostrou algumas limitações que Seattle poderia adereçar se tivesse condições (principalmente WR e TE). Vai ser um desafio interessante para John Schneider, um dos melhores e mais low-profile GMs da NFL, manter esse time junto ou mesmo reconstruí-lo conforme seguem se agrupando em torno de Wilson e dessa jovem e talentosa defesa.

By the way, Richard Sherman deve fazer mesmo Tommy John Surgery, e possivelmente perderá a temporada 2015 da NFL já que o tempo de recuperação dessa cirurgia na MLB é entre 12 e 18 meses (por outro lado, a MLB tem testes decentes pra PEDs. Na NFL recupera-se disso em duas semanas).


- Eu ia deixar esse ponto final fora da coluna, porque não queria gerar polêmica. Mas considerando o quanto a questão é apertada e vira uma questão de opinião, eu decidi que quero dar a minha. Ela existe, e não tem nada que você pode fazer a respeito além de concordar, discordar, debater, argumentar. Ela é minha opinião e ponto.

Mas, para mim, Tom Brady recuperou o cinturão de "Melhor QB da sua geração".

O debate Brady-Manning é muito mais apertado e parelho do que as pessoas que querem argumentar um dos lados parecem pensar. Não é nem um pouco fácil achar uma vantagem, e a verdade é que esse cinturão vai passando de um para o outro conforme o tempo avança. Brady começou melhor com seus três títulos; daí Manning bateu recordes, venceu seu primeiro título, e dominou a NFL por alguns anos; dai Brady teve a incrível temporada 18-1 e quase encerrou o debate de vez; dai Brady machucou e Manning carregou mais alguns times medíocres a ótimas temporadas ganhando alguns MVPs no processo; dai Brady voltou com tudo e ganhou mais um MVP e chegou a mais um Super Bowl enquanto Manning se machucava; dai Manning voltou ao Broncos, quebrou mais recordes, e depois mais alguns recordes, e depois ainda achou mais recordes para quebrar, chegando ao Super Bowl mais uma vez; e agora Brady ganha seu quarto anel e terceiro Super Bowl MVP, igualando os recordes de Joe Montana, seu ídolo de infância e melhor QB de todos os tempos. É uma batalha mais disputada e com mais viradas e reviravoltas do que Federer vs Nadal em Wimbledon em 2008. No fundo, quem ganha somos nós, que vimos esses dois titãs do esporte, dois dos 5 melhores QBs da história, disputando um contra o outro e contra o resto do mundo durante 16 anos.

Mas pra mim, Brady recuperou - talvez em definitivo se Manning realmente aposentar - o cinturão depois do que ele fez. Não só no Super Bowl, mas em todo o ano, mantendo junto e funcionando mais um ataque remendado e cheio de jogadores que ninguém mais quis e levando mais uma vez esse time ao topo do pódio. New England venceu 13 dos últimos 15 jogos do campeonato, de forma muito dominante, e Brady foi o centro de tudo. Ele inclusive adicionou mais dois jogos icônicos para seu invejável currículo - a incrível atuação contra o Ravens, onde venceu o jogo sozinho com exatamente zero corridas de seu ataque no segundo tempo, e um Super Bowl fantástico. O Super Bowl foi a coroação de uma temporada fantástica, aos 37 anos, e um jogo para ficar marcado no seu currículo ao lado de tantos outros, uma demolição fantástica e sistemática do poderoso time do Seahawks. Eu ligo zero para recordes como passes, TDs ou jardas em Super Bowls, porque não da pra levar a sério as estatísticas de passe da atualidade, mas a forma como ele fez contra uma excelente defesa que chamou a atenção. Tirando aquele terceiro período onde sua linha entrou em colapso e uma interceptação ruim no primeiro tempo, Brady foi simplesmente imparável e cirúrgico, achando falha atrás de falha na fortíssima defesa de Seattle. Revendo hoje as 4 campanhas de touchdown, é desmoralizador de se assistir como ele continuava movendo as correntes com passes curtos, e isso com zero ajuda do jogo terrestre, seus RBs totalizando para 53 jardas a 2.9 jardas por corrida. Merecidamente ganhou o MVP.

E assim como aqueles que acham que ter 4 títulos faz de você automaticamente melhor que quem tem 2 estão muito errados, também estão aqueles que acham que essa diferença não tem importância alguma. Tudo depende de contexto, e embora Brady tenha sido secundário nos primeiros títulos a uma grande defesa com um playbook conservador, ele também foi quem apareceu em horas decisivas ao longo de sua carreira. Um QB não ganha títulos sozinho, sem a menor dúvida, mas o New England Patriots não teria ganho esse título se não fosse Thomas Edward Patrick Brady. E isso é bom o suficiente pra mim. Mais uma vez. E pensar que teve gente que achava que ele tinha que ir pro banco na semana 4 em favor do Jimmy Garoppolo... 


- Essa foi de longe a mais desgastante temporada de NFL que eu já cobri. Dentro de campo, fora de campo. Foi uma das mais mal conduzidas, e aconteceram coisas que me fizeram questionar minha dedicação ao esporte. Em campo, foi uma das mais intensas, movimentadas, com playoffs fantásticos e muitas coisas acontecendo rapidamente. E acabou em um excelente Super Bowl, muitos gritos, e uma namorada que me deixou profundamente orgulhoso chorando pelo seu time, que enfim ganhava um título. Eu preciso de férias da NFL pela primera vez na minha vida, recarregar as baterias antes de assistir vídeos e analisar o próximo Draft, estudar fantasy e lineups, e lembrar de todas as besteiras que meu SF fez nessa offseason. A temporada foi ótima, acabou de forma ainda mais fantástica possível, e aqui me despeço da temporada 2014 da NFL.

Ou melhor, nas palavras do grande Bill Belichick:

On to the offseason...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os pontos importantes na semana da NFL - Week 2

Uma cena que tem se repetido bastante até aqui


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Bom, como recepção foi boa, vamos fazer novamente na Semana 2 da NFL nossos "Pontos Importantes da Semana". Para quem perdeu esse post da semana 1, a idéia aqui é a seguinte: isso aqui NÃO é um recap da rodada, e o nosso intuito não é passar por todos os jogos ou falar de todos os jogadores, bons ou não. Outras pessoas podem fazer isso, mais rápido e melhor do que eu, e eu também não acho que isso se enquadre na proposta do blog. A proposta aqui é para dar uma olhada nos fatores, dentro de cada jogo, que são relevantes ao maior cenário da NFL. Vamos olhar a performances que foram importantes mas receberam pouco crédito, fatores pouco observados que estão influenciando alguns pontos importantes, e por ai vai. Então de novo, o objetivo não é passar por todos os jogos e falar alguma coisa relevante: muitas vezes teremos dois ou mais pontos sobre um mesmo jogo, e jogos sem comentário nenhum.

Novamente, ainda estamos fazendo alguns testes com esse formado de coluna e tudo mais, então queria muito saber a opinião de vocês leitores sobre a coluna: se está funcionando, se não está, o que gostam e o que não gostam, como melhorar, etc.

Então dito isso, vamos começar.

Briga de cachorro grande


Se na primeira semana da NFL o jogo mais importante (do ponto de vista de rivalidade, confronto entre candidatos ao título e importância para o cenário geral da liga) foi entre San Francisco 49ers e Green Bay Packers, na semana 2 era claro qual duelo ocuparia seria o de maior destaque e importância: San Francisco 49ers e Seattle Seahawks, os dois melhores times da NFC e rivais de divisão se enfrentando no incrível Century Link Field. Além dos fatores óbvios que estavam em jogo nessa partida - orgulho, rivalidade, a chance de sair na frente na briga pelo título da NFC West e eventualmente por mando de quadra nos playoffs - esse jogo era a forma mais fácil e orgânica de responder a questão que todo mundo sempre se faz no começo de temporada: quem é o melhor time da NFC (normalmente eu diria NFL, mas o Denver Broncos pode ter algo a dizer a esse respeito)? Basicamente "coloque os dois num ringue e deixem os dois decidirem", versão NFL. 

(Ou, nas palavras do meu seriado favorito...
"Patos são melhores que coelhos!"
"Coelhos são melhores do que patos!"
"A gente devia colocar os dois numa caixa e deixar eles decidirem entre eles!"
"Isso é ilegal!!"
"Só se a gente apostar dinheiro!!")

Vocês sabem qual foi o resultado. O Seahawks dominou o jogo do começo ao fim, massacrou seus rivais com uma vitória por 29 a 3 e saiu de lá com o cinturão de "Melhor time da NFC". Foi realmente uma performance dominante, especialmente da sua defesa: segurou o forte ataque do 49ers a apenas 207 jardas totais, a pior performance ofensiva da equipe desde o duelo contra o Ravens no Thanksgiving de 2011 (179). Colin Kaepernick, depois de passar para mais de 400 jardas e 3 TDs contra uma boa defesa de Green Bay, foi limitado a apenas 127 jardas e 3 interceptações (apesar de 87 correndo). Para uma equipe cujo jogo se baseia tanto na sua atitude e jogo físico, Seattle provavelmente ficou muito satisfeito com o que conseguiu nessa partida: mais do que uma vitória contra um adversário direito, foi realmente um statement, uma mensagem que a equipe passou. Seu jogo físico dominou o adversário - um adversário cuja marca registrada é justamente esse tipo de jogo - e, no final, ainda aproveitou as chances para continuar judiando e provocando com cada jogada, cada TD e cada desafio. Foi realmente uma performance espetacular de futebol americano.

Claro que vocês provavelmente já imaginam o que isso significa: vamos ter que aguentar mais uma semana de overreactions - ou como eu disse no twitter e o pessoal gostou, de pessoas correndo para tirar as conclusões fáceis. Vocês vão ler bastante nos próximos dias coisas como "Seattle está um nível acima do resto da NFL!" ou coisas do tipo, simplesmente porque é mais fácil correr, olhar o resultado e colocar uma manchete bombástica do que peneirar tudo, olhar os momentos chaves e ver o que está nas entrelinhas.

Não existe para mim a menor dúvida de que o Seattle Seahawks foi um time muito superior durante a partida. A equipe executou seu plano de jogo muito bem, e sua defesa entregou uma das performances mais dominantes que eu lembro de ter assistido nos últimos anos, segurando um ataque muito bom a apenas três pontos e cinco turnovers. Mas olhando com cuidado, o placar final de 29-3 engana o que foi na verdade um jogo bem mais apertado decidido - ou pelo menos "expandido", em termos de placar - em alguns detalhes que poderiam facilmente ter sido diferentes.

Sabe quando você para e pensa "entre todas as coisas que poderiam ter dado errado, todas deram errado"? Foi basicamente o que aconteceu com o 49ers nessa partida. Enfrentando um adversário extremamente forte, fora de casa, no estádio mais difícil para um visitante jogar, e contra um time que é um matchup ruim desde o começo, eles ainda tiveram as seguintes coisas coisas contra eles: a equipe não recuperou nenhum dos quatro fumbles da partida, todos eles indo parar nas mãos do Seahawks (e como já dissertamos longamente por aqui, recuperação de fumbles é acaso e não competência); o Niners viu três jogadores seus (Ian Williams, Vernon Davis e Eric Reid) saíram da partida machucados, com o mais importante deles sendo Reid - o calouro saiu na última jogada antes do intervalo com o jogo 5-0, e o ataque de Seattle imediatamente começou a direcionar todo seu ataque (aéreo e terrestre) na direção do buraco deixado pelo camisa 35, um dos fatores que contribuiu para a evolução ofensiva da equipe no segundo tempo (para ser justo, Seattle também perdeu Russell Okung); Colin Kaepernick teve uma interceptação na red zone logo no começo da partida que veio em uma bola desviada e que espirrou nas mãos do defensor, uma jogada que pode ter alterado o curso do jogo.

Mas talvez mais importante, os dois primeiros TDs de Seattle - os dois TDs que explodiram a diferença e colocaram de vez o jogo fora do alcance, obrigando o ataque adversário a jogar em alta velocidade e de forma unidimensional, um suicídio contra essa defesa e nesse estádio - vieram como consequência de duas faltas que transformaram o que deveriam ter sido dois FGs (e portanto um placar de 11-3, não 19-3) em dois TDs e que tiveram absolutamente zero a ver com a performance do ataque (por exemplo, se um CB faz uma pass interference de 20 jardas porque era a forma de impedir um TD certeiro, é uma falta que é consequência direta da performance do ataque naquela jogada). No primeiro TD, Ahmad Brooks ia conseguindo o sack em cima de Russell Wilson para colocar o ataque adversário em uma 3rd and 20 (e provavelmente um FG), só que por puro azar, quando Wilson se jogou no chão para evitar a trombada a mão de Brooks se enroscou na facemask, totalmente sem querer, totalmente inútil para o resultado da jogada, mas ainda assim uma falta de 15 jardas e uma primeira descida automática. No segundo TD, depois de uma 3rd down que virou uma 4th and 15, a arbitragem ridiculamente marcou uma falta pessoal de 15 jardas (e uma primeira descida automática) de Aldon Smith por um encontrão em cima de um OL adversário, o tipo de coisa que acontece 3000 vezes em um jogo desses e deixaram para marcar logo em uma jogada tão crucial (de alguma forma, essa não foi nem a pior falta marcada no jogo: Sidney Rice recebeu uma de 15 jardas no final do primeiro tempo por RODAR a bola no chão depois de uma recepção. É sério. Tentem não rir). Não fossem essas duas faltas totalmente aleatórias, o placar teria ficado em apenas uma posse (e meia) de bola - 8 pontos - e o jogo poderia ser diferente, ou pelo menos não teria terminado em um placar tão elástico. O Seattle foi o melhor time em campo do começo ao fim, só um lunático iria dizer o contrário, mas não foi exatamente o abismo o que o placar final indica.

Para o 49ers, o problema é menos a derrota e o placar, e muito mais que o Seahawks expos sua grande fraqueza, e ainda levantou mais uma grande questão. No primeiro caso, foi simples: o 49ers não possui no momento bons WRs além de Anquan Boldin (Mario Manningham e Michael Crabtree estão machucados), e enquanto a defesa secundária muito profunda de Green Bay não era um bom matchup para enfrentar o jogo físico de Boldin, o jogo extremamente físico de Richard Sherman era o pior matchup possível para o camisa 81, que praticamente o tirou da partida e deixou Kaepernick sem nenhum bom alvo para receber passes (especialmente com Vernon Davis machucado), especialmente contra essa excelente secundária. Esse foi um problema que não apareceu na primeira semana, mas foi totalmente exposto contra Seattle, e levanta questões sobre o quão longe esse ataque aéreo pode ir nessa temporada. Mas talvez mais preocupante, é o que está acontecendo com o jogo terrestre de San Francisco: depois de ser a sua maior força em 2012, o jogo terrestre da equipe está totalmente sumido em 2013, com Frank Gore e Kendall Hunter combinando para apenas 77 jardas e 2.1 jardas por corrida. Contra Green Bay e sua defesa que sobrecarregou a linha de scrimmage, isso não foi exatamente uma surpresa, mas contra uma defesa como Seattle que não colocou nenhuma atenção extra no jogo terrestre, essa falta de produtividade é extremamente preocupante, especialmente considerando a necessidade disso para abrir o jogo aéreo com essa escassez de opções. Duas rodadas é uma amostra muito pequena e os adversários foram dois dos melhores times da NFL, então obviamente é cedo para qualquer pânico, mas é uma questão que pode fazer a diferença no resto da temporada.

Então sim, é um erro tirar conclusões tão cedo na temporada e com tão pouca amostra. Ambos os times ainda tem mais 14 jogos para jogar na temporada, incluindo uma revanche em San Francisco em Dezembro. Enquanto não tivermos mais para nos basearmos, não podemos concluir absolutamente nada. Mas pelo menos por enquanto, o Seahawks pode se gabar de ser o melhor time da NFC no momento depois de mais uma vitória contundente sobre seus maiores rivais.

(Quão impressionante foi essa vitória de Seattle? Hoje de manhã abriram os spreads de Vegas para o jogo de domingo, quando o Seahawks recebe o Jaguars. A linha abriu em -16.5 hoje cedo, e em algumas horas já chegou a -20 em algumas casas de aposta. Vai passar dos 24 até domingo, e eu AINDA apostaria em Seattle)

Quarterback a venda


Por algum motivo, ainda persiste o mito muito comum na NFL de que para ganhar na NFL de hoje (ou seja, após as mudanças de regra que favorecem em muito o jogo aéreo), você precisa de um QB de elite. Isso é um pouco irreal: o Ravens ganhou em 2012 com um QB acima da média mas não espetacular que pegou fogo na hora certa; o mesmo acontece com o Giants de 2007 e talvez com o Giants de 2011, um QB decente (em 2011 ele era melhor do que isso, mas enfim) amparado por uma grande defesa; o Steelers de 2005 tinha um Big Ben que ainda não era Big Ben no comando do ataque e venceu. Desde 2005, Joe Flacco e Jamarcus Russell tem tantos títulos quanto Peyton Manning e Tom Brady. Então de certa forma é um mito de que você PRECISA de um QB de elite para vencer um título.

A questão é que mesmo que você não precise de um Tom Brady ou de um Aaron Rodgers para ser campeão, você também não vai ser campeão se tiver um Brandon Weeden. E embora seja possível montar um campeão em torno de um QB apenas bom, é também um fato de que o caminho mais rápido para dar um salto na NFL é dar um upgrade no seu QB, seja de "atroz" para "bom" ou de "bom" para "ótimo", então a questão do QB virou quase sagrada na NFL. E embora isso signifique que sempre temos discussões sobre os jogadores que ocupam essa posição de destaque, eu não lembro uma temporada de NFL onde tantas polêmicas estavam rondando a liga tão cedo no ano!

A mais inexplicável e talvez mais importante de todas elas diz respeito ao Tampa Bay Bucs. Digo "importante" porque, entre todas as que estão acontecendo, ela é talvez a que mais pode afetar um time de playoffs - ou pelo menos que muita gente acreditava que poderia chegar lá se não tivesse perdido dois jogos seguidos por causa de faltas pessoais bestas. Mas por algum motivo, o técnico Greg Schianno parece determinado a fazer tudo que pode para criar problemas com seu QB, Josh Freeman. Freeman certamente não tem contribuído dentro de campo, começando o ano completando 45% dos seus passes (6.3 jardas por passe) com tantas interceptações como TDs, e jogando menos do que o esperado nas duas derrotas da equipe (embora as duas tenham sido decididas por fatores que pouco tiveram a ver com ele no final - embora claro, se Freeman tivesse sido melhor, provavelmente esses fatores não teriam importado). Eu entendo a frustração dos torcedores do Bucs e sua comissão técnica, mas eu acho incrível o quanto Schianno tem feito para piorar a situação. Ao invés de oferecer confiança e apoio ao seu QB e ao seu time, ou então desistir logo dele e ir para seu reserva Mike Glennon, Schianno manteve Freeman como seu QB enquanto o destruía na imprensa e durante os jogos, ao ponto de colocar Glennon para aquecer com os titulares antes da partida contra o Saints e Freeman para aquecer com os auxiliares. Qual exatamente é o benefício que ele espera tirar disso, destruíndo a confiança do jogador que ocupa a posição mais importante do jogo, e também destruíndo a confiança do resto da sua equipe nele? Se ele acha que Freeman não rende mais como titular e que a equipe precisa ir em outra direção (Freeman é free agent após a temporada, então não tem nenhuma questão salarial segurando a franquia), porque não simplesmente ir com Glennon ao invés de ficar criando esse caos todo? Vamos falar mais de Schianno na última seção do post, mas por enquanto ficamos nessa inexplicável situação Freeman-Schianno.

Freeman não é um QB brilhante e seus altos e baixos provavelmente incomodam demais os times que eventualmente queiram tê-lo. Mas ainda assim, ele teve alguns períodos excelentes em Tampa, em particular em 2010 e antes de Carl Nicks se machucar temporada passada. Em um ambiente totalmente disfuncional e com um técnico que claramente não gosta dele, Freeman provavelmente é meu candidato número 1 a "jogador talentoso que precisa urgente de uma mudança de ares", um cara que pode render na situação adequada e com um novo time. Para o Bucs, a troca faria sentido já que eu duvido demais que Freeman volte ao final do ano, e assim seria uma forma de conseguir algo em troca. O que me leva a perguntar: algum time teria interesse em eventualmente trocar uma escolha de draft (5th round?) por Josh Freeman para ser seu QB essa temporada - ou, eventualmente, para o futuro?

Eu consigo pensar em dois, duas equipes que possuem problemas com seu QB e que estão segurando uma equipe com potencial por esse motivo. As duas gastaram escolhas recentes de primeira rodada em um QB - estupidamente, devo acrescentar - e agora não conseguem se livrar desse problema. O primeiro e talvez mais óbvio seria o Cleveland Browns, seguido por um sleeper interessante no Minnesota Vikings. No caso do Browns, eu já disse isso e volto a repetir: é um time muito sólido que está a um bom quarterback de se tornar competitivo e quem sabe voltar aos playoffs. A defesa fez um bom trabalho nessas duas primeiras semanas, segurando bons times de Ravens e Miami a jogos de placares baixos mesmo com seu ataque incapaz de controlar o relógio, pontuar, ou garantir pelo menos boas posições de campo para a defesa. Esse jogo contra Baltimore, fora de casa, foi um muito interessante porque a defesa fez tudo que podia, manteve o jogo apertado esperando o ataque aparecer com alguma coisa... que nunca aconteceu. O jogo terrestre deveria ser bom com Trent Richardson, mas não se realiza porque todas as defesas dedicam uma atenção extra ao chão e obrigam Weeden a vencê-los com o braço, algo que ele se mostra absolutamente incapaz. Normalmente eles poderiam esperar mais um ano e draftar algum jogador (Manziel?) dessa boa classe, mas considerando que gastaram uma escolha de primeira rodada em um calouro de 28 anos, eles claramente estão preocupados em vencer imediatamente. Trocando uma escolha tardia de draft (e portanto de menor consequência) por Freeman da a equipe de testar com um QB decente por essa temporada junto de seu excelente grupo de apoio (especialmente na defesa, mas o ataque tem Josh Gordon, Davone Bess, Jordan Cameron, Joe Thomas e Trent Richardson). Se não funcionar, é só não renovar o contrato dele no final do ano (ou seja, nenhuma obrigação financeira a médio prazo) e ir atrás de outro QB. Para mim parece a melhor situação para ambos os casos. Isso deveria ocorrer e logo.

O Vikings é uma opção mais interessante e mais arriscada. Ao contrário de Weeden, o Viks não está preso a um QB que atrapalha todo o resto de um bom time. O problema de Christian Ponder é um pouco diferente: ele é o gargalo que limita esse que poderia ser um bom ataque de Minnesota. Depois do que Adrian Peterson fez ano passado, minha preocupação com o Viks era que os adversários iriam sobrecarregar a linha de scrimmage com sete ou oito jogadores para tirar o jogo terrestre, manter as descidas longas, e obrigar Ponder a vencê-los com seu braço de espaguetti. Depois de duas rodadas, esse parece ser exatamente o caso: Detroit foi um pouco mais radical, realmente colocando oito homens na linha em algumas jogadas e praticamente brincando de "derrube o MVP" o jogo todo, o que abriu o jogo aéreo e levou a alguns passes longos, mas também a muitos erros e basicamente ao plano de jogo do Lions ser um sucesso. A defesa do Bears, por outro lado, não sentiu tanta necessidade de sobrecarregar a linha com oito ou nove jogadores como fez Detroit, mas também em nenhum momento sentiu necessidade de modificar seu esquema 4-3 para se preparar contra o passe. Um lance que chamou minha atenção aconteceu no final do segundo quarto: jogo apertado, 3rd and 8 para o Vikings, uma situação clara de passe na qual a maior parte das defesas usaria uma defesa nickel como base (especialmente com o Viks usando três WRs). Nop. Mesma defesa 4-3 de sempre, nenhum defensor extra sequer, passe incompleto. Então a situação de QB em Minnesota obviamente não é desesperadora como a de Cleveland, Ponder tem seus benefícios e o time (com bastante sorte e um enorme outlier, mas enfim) conseguiu chegar aos playoffs com ele ano passado. Mas tendo em suas mãos o auge do melhor RB de sua geração e um dos melhores de todos os tempos, a equipe não consegue utilizar essa dádiva ao seu máximo potencial porque Ponder não consegue castigar as defesas que não o respeitarem. O QB do time poderia ser um Eli Manning da vida que o foco principal das defesas ainda ia ser o jogo terrestre de Peterson, mas elas pelo menos iriam ter que pensar duas vezes. E se Ponder não for capaz de abrir esse espaço para seu RB, o Vikings pode precisar de um jogador mais forte para a posição antes que a carreira de Peterson entre na sua fase de declínio.

Oh, você está se perguntando porque não falei do Jaguars entre os times que poderiam trocar por Freeman? Bom...

Teeeeeeebooooooow!


Por um simples motivo: tanto Vikings como Browns são dois bons, sólidos times que poderiam competir agora mesmo com um boost na posição de QB. O Jaguars não: depois de tantos anos de más decisões, trocas ruins e contratos ridículos, a equipe da Flórida precisa de mais uns dois anos só para conseguir se livrar de tudo isso e poder olhar em frente. Eles precisam urgente de um Franchise QB para ser a cara dessa reconstrução e dar esperança a torcida, não um upgrade imediato para competir por nada.

Vocês sabem qual é a solução para o Jaguars em termos de QB no momento, certo? Tim Tebow, é claro!! Eu não consigo pensar em um bom motivo para que essa contratação não ocorra.

Antes de todo mundo começar a dar risada e a reclamar indiscriminadamente do ex-QB da Flórida, que é o que todo mundo faz quando o nome aparece em uma conversa, vamos aos motivos.

Em primeiro lugar e mais importante, fica o que eu disse: o Jaguars não está perto de competir por nada nesse momento ou em um momento próximo. Eles ainda estão na fase da desintoxicação de tudo de ruim que a diretoria fez pelo time nos últimos anos, e não vai ser agora que conseguirão sair desse buraco só com uma adição interessante aqui ou ali. Como eu disse, a equipe precisa urgente achar um QB para seu futuro, para parar de gastar dinheiro e escolhas em jogadores para a posição que impedem o time de melhorar em outras áreas e ainda assim não dão resultados. O problema é que esse jogador não está no elenco atual: não é Blaine Gabbert, não é Chad Henne, não é ninguém que lá esteja no momento. Então não é como se a chegada de Tebow fosse tirar minutos de um jogador que seria o futuro do time. E já que Jacksonville tem tudo para ser um time bem ruim ou mesmo horrível essa temporada,  e com Teddy Bridgewater e Johnny Manziel (entre outros) esperando no próximo draft, adereçar esse problema de quarterback certamente não vai acontecer até o próximo verão. Então porque não trazer Tim Tebow para ser seu QB na temporada 2013 da NFL?? Claro, ele não consegue fazer bons passes, mas até ai ninguém no elenco do Jaguars consegue. O time seria ruim com ele, mas não é como se fossem bons sem ele. Não tem muito mais para onde cair quando se está no fundo do poço.

E ai que está a questão: o Jaguars vai ser ruim de qualquer forma, independente se o QB for Henne, Gabbert, Tebow ou eu. Mas enquanto isso, Jacksonville é um dos times de pior relação com sua torcida, uma torcida que não vai ao estádio, não se empolga com o time mais e está muito traumatizada de todos esses anos de pura incompetência. E Tim Tebow, com todas suas falhas como QB, é um jogador muito divertido de se assistir, que fez sua lendária carreira na NCAA na Flórida, e que é absolutamente IDOLATRADO por lá. Se seu time vai ser horrível, porque não fazer isso de uma forma que divirta a torcida, encha o estádio, venda camisas e melhore sua relação com a cidade? Você pode criticar o quanto quiser esse lado que não é futebol americano "puro", mas no mundo dos negócios, isso é tão importante quanto qualquer outra coisa, criar uma boa relação com seus consumidores. Ao invés de emissoras locais se desculpando por mostrarem seu jogo, todo mundo vai correr para assistir Tebow em provavelmente seu último ano como um QB da NFL. Gabbert provavelmente será dispensado ao final da temporada, Henne não é mais do que um reserva, e o Jags tem talvez a melhor chance de toda a NFL a ficar com Teddy Bridgewater nesse draft. Então se você vai ser horrível essa temporada e recomeçar ano que vem, a pergunta que fica é a seguinte: porque você vai ser uma droga e irritar a torcida se você pode ainda ser uma droga, mas pelo menos agradar a torcida, ganhar atenção na mídia nacional e ganhar dinheiro com isso? Me de o segundo cenário qualquer dia da semana e duas no domingo. Tebow não é melhor do que Gabbert ou Henne, mas ele atrai mais gente ao estádio, vende mais camisa e da um nome famoso a suas ações de marketing. E sinceramente, agora, é disso que o Jaguars precisa. It's Tebow Time.

Alterando suas chances de vitória


Vocês já provavelmente sabem, porque eu martelei isso durante 33 previews, mas jogos decididos por uma posse de bola são, em geral, aleatórios. Ou seja, tirando alguns casos especiais (alguns poucos QBs conseguem mudar um pouco isso), quando temos uma amostra grande o suficiente o número desses jogos vencidos por cada time tende a 50% do total. Não vou repetir isso aqui porque já passei muito tempo falando disso (se quiser relembrar esse é o post), mas esses jogos são aleatórios porque dependem demais de uma ou outra jogada além do controle dos times, e é um fato estatístico de que na "big picture", esses jogos estão sujeitos a todo tipo de acaso e por isso tendem a 50%.

Mas se isso é verdade (e é) num cenário maior, com uma amostra grande, ainda é interessante olhar os pequenos casos, ou seja, cada jogo separadamente e ver os fatores que levaram a essa derrota apertada. Embora em uma amostra significativa esses jogos tendam a ser 50-50, quando olhamos para cada jogo em particular podemos observar uma série de detalhes em ambos os times - detalhes não necessariamente técnicos - que me fazem perguntar se, naquela partida, um certo time maximizou suas chances de vitória.

Para ficar mais claro o que eu quero dizer, vamos pegar dois exemplos de times que começaram a temporada 0-2 em record e 0-2 em jogos decididos por uma posse de bola: o já mencionado Bucs, e o Carolina Panthers. A primeira vista, ambos os times tiveram azar nesse começo de jogo: o Tampa Bay perdeu dois jogos nos segundos finais para FGs, e o Panthers perdeu também com um TD nos segundos finais essa semana depois de uma derrota por apenas cinco pontos para Seattle. Mas quando esmiuçamos cada um desses jogos, observamos que muitos dos fatores que fizeram a diferença em decidir o resultado da partida - seja em uma jogada chave, seja no cumulativo ao longo da partida - muitas vezes não veio de coisas dentro de campo, e sim de decisões estúpidas dos jogadores ou da comissão técnica. Então embora exista um fator imenso de aleatoriedade nesses jogos, também é verdade que esses dois times não estão tomando decisões inteligentes que maximizem suas chances de vitória.

No caso do Panthers, eu não vou me estender demais nisso porque o Bill Barnwell, do Grantland, já fez um post sobre isso ontem bem melhor e mais detalhado que o meu (não tenho o link aqui, mas está na página principal do site), mas o problema é que a comissão técnica não tem metade de um cérebro quando se trata de ataque. Apesar de possuírem um bom grupo de RBs, e um QB que não tem muita precisão nos passes mas é um corredor destrutivo, o playbook ofensivo da equipe é extremamente conservador no que diz respeito a corridas, especialmente usando seu QB. Isso é algo que se nota principalmente em conversões curtas: ao invés de deixar seu QB correr pelo meio, ou mesmo soltar seus RBs no meio da linha de scrimmage, ele tem um preconceito esquisito com isso, preferindo o passe ou pelo menos segurar seu QB apesar do seu time ser muito eficiente pelo chão em conversões de 2 jardas ou menos.

Em particular, a falta de agressividade do time é o que mais lhe atrapalha. Mesmo possuindo Cam Newton e um forte jogo terrestre, Ron Rivera é extremamente conservador convertendo jogadas assim ou mesmo chamando jogadas de passe, algo que não maximiza as chances da equipe. Por exemplo, vamos olhar o jogo contra Seattle, um jogo no qual o Panthers enfrentava um time superior que era claramente favorito, e portanto faria sentido ser mais agressivo e aproveitar cada chance. Nesse jogo, Carolina enfrentou cinco (ou seis, já chegamos lá) situações diferentes de 3rd ou 4th descidas para 3 jardas ou menos:


  • A primeira aconteceu logo no primeiro quarto: em uma 3rd and 2 no campo adversário (Seattle 41), Rivera chamou uma jogada de passe ao invés de uma corrida na tentativa de conversão - o passe foi incompleto, e a equipe chutou a bola na quarta descida. A decisão foi duplamente burra de passar a bola: primeiro, porque com o estilo e os jogadores da equipe, eles possuem muito mais probabilidade de converter essas 2 jardas pelo chão que pelo ar, e segundo que mesmo caso a terceira descida corrida falhasse, ela ainda tinha uma boa chance de encurtar a jogada seguinte para uma 4th and 1 ou 4th and inches, situações onde o Panthers é extremamente eficiente, e considerando a posição de campo, era uma conversão que tinha grandes chances de render pontos se concretizada. Ao invés disso, a burrice em chamar o passe e a covardia em não tentar 4th down possivelmente custou ao time uma boa chance de anotar pontos, especialmente no que era, repito, um jogo onde eram as zebras e deveriam ser agressivos.
  • No terceiro quarto, o Panthers enfrentou uma 3rd-and-1 no seu próprio campo (Carolina 31). Era uma situação claríssima na qual Cam Newton deveria correr: ele está 16-18 na sua carreira convertendo situações de corrida de uma jarda. Ao invés disso, Rivera continua com seu preconceito de não querer seu melhor jogador correndo com a bola, bem, correndo com a bola! Ele chama uma corrida lateral do seu fullback que não consegue a conversão, e o time vai (dessa vez corretamente, dada a posição de campo) para o punt, matando a campanha.
  • Ainda no terceiro período, o Panthers se ve em uma situação de 2-and-3 no seu próprio campo (CAR 38). A primeira jogada chamada é um passe lateral, incompleto. Na segunda, pela única vez no jogo, o Panthers chama uma corrida pelo meio de seu QB: 4 jardas e a conversão da descida para o Panthers. Quem diria, não?
  • Na sequência dessa mesma campanha (agora no quarto período), a equipe enfrenta uma 4-and-2 do meio do campo. Rivera imediatamente vai para o punt. Não foi exatamente a pior decisão do mundo porque a equipe estava ganhando 7-6, mas ainda tinha 15 minutos no relógio e, novamente, eles eram os azarões e ser agressivo poderia ter colocado a equipe em uma posição melhor. Mas aqui foi até que justificável.
  • Ainda no quarto período, o Panthers novamente se coloca numa 3rd-and-1. Novamente, Newton não é chamado a correr, mas pelo menos a jogada chamada é uma corrida com Mike Tolbert, que converte a jogada.
Ou seja, se você está acompanhando, não houve uma jogada que foi um erro gritante que custou ao seu time o jogo por parte de Ron Rivera. Mas é uma série de tomadas de decisões que não levam em conta as condições da sua equipe e que deixam de maximizar as condições de vitória do time. Não estou falando que se tivesse tomado as decisões corretas nessas duas primeiras jogadas teriam vencido o jogo, mas teriam se colocado em uma situação mais favorável, com maiores chances. Mas calma, fica pior. Essa semana, a equipe vencia o Bills por três pontos quando enfrentou uma 4th and 1 na linha de 21 jardas do adversário. Era o quarto período, 1:47 no relógio e o adversário tinha queimado seus três tempos, e Rivera se viu diante da seguinte opção: chutar um FG, aumentar a diferença para seis, mas dar ao adversário tempo de sobra para um TD da virada contra sua fraca secundária, ou então tentar converter uma situação na qual seu time é excelente e selar de vez a vitória com três ajoelhadas. Rivera obviamente escolheu a mais conservadora, chutando o FG e dando ao Bills tempo para anotar um TD da vitória... que de fato aconteceu! Então Rivera novamente tomou a decisão conservadora e que não levou em considerações as forças (jogo terrestre, QB excelente corredor, muito bom convertendo jogadas curtas) e fraquezas (secundária) da equipe, e foi castigado para isso. Mas o pior é que essa mesma situação exata JÁ TINHA ACONTECIDO ANO PASSADO!! No jogo contra o Falcons fora de casa, a equipe vencia e teve uma 4th and 1 no campo de ataque dentro do two-minute warning e que teria selado o jogo com uma conversão e três ajoelhadas. Ao invés de usar as forças da sua equipe e conseguir a conversão, ele optou por ser conservador, chutar a bola, e viu o Falcons marcar para um TD da vitória! Então não é como se Rivera estivesse enfrentando uma situação nova: ele já tinha enfrentado uma igual antes, e já tinha tomado a decisão conservadora que não maximizava as chances de vitória do seu time... e pela segunda vez, ele foi queimado. 

No caso do Bucs, é ainda mais ridículo porque quando falamos do Ron Rivera, pelo menos temos que dar uma peneirada e achar um tipo de situação (recorrente) na qual ele não está tomando as decisões ótimas que maximizam as chances de vitória. Quando falamos de Tampa Bay não, são situações óbvias de descontrole e estupidez individual que comprometem o resultado da equipe: na primeira rodada, uma falta pessoal de 15 jardas por atingir o QB fora de campo transformou o que seria um FG de 63 jardas (ou um hail mary, mas de qualquer forma, baixa chance de sucesso) em um de 48 jardas que acabou dando a vitória ao Jets. A equipe não foi brilhante, mas tinha uma chance de sucesso enorme no final, e só precisava manter o controle para não deixar escapar, mas um lapso de concentração ou de julgamento ou o que quer que seja colocou tudo isso a perder. No jogo contra o Saints, outro jogo perdido nos segundos finais por um FG, a equipe não teve nenhuma falta óbvia que resultou num FG como no último jogo... mas a equipe ainda totalizou 10 faltas para 118 jardas, totalizando agora 16 faltas para 163 jardas em dois jogos. Considerando que essa partida foi decidida por um FG nos segundos finais, acho possível supor que todas essas faltas fizeram muito para diminuir a pontuação esperada das campanhas da equipe.

Enquanto isso não é exatamente resultado de uma má decisão ou de um processo equivocado como é o caso do Rivera, isso também tem a ver com o técnico e com a cultura criada na equipe. Assistir jogos do Tampa é como assistir um time nervoso, o que não é uma surpresa considerando todas as histórias sobre como Greg Schianno é o técnico da NFL para o qual você menos iria querer jogar. O clima no vestiário não é bom, o que não surpreende dada a mania de Schianno de reclamar publicamente de seus jogadores, e quando nem ele tem confiança no QB da equipe dessa maneira, como você espera que o resto da equipe confie? Times da NFL costumam assumir a personalidade de seus líderes e/ou seus técnicos, e quando seu técnico age dessa maneira, não passa confiança e deixa todo mundo desconfortável, como você pode esperar que eles mantenham o controle no meio de um jogo crítico? Como eu disse nos previews de sexta feira, Schianno não é o pior técnico da NFL em termos de Xs e Os, mas talvez nenhum outro técnico esteja sendo tão prejudicial a sua equipe nesse momento. Nem mesmo Ron Rivera.