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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Jimmy Garoppolo e o dilema de encontrar um quarterback

Mirou no WR, acertou em nossos corações

Essa é uma coluna que eu escrevi semana passada para o site Pick Six, a pedido de um amigo. Eu acabei achando a coluna tão interessante que pedi para postar aqui também. Ela fala um pouco sobre os caminhos e as dificuldades para times acharem seus QBs na NFL; como o 49ers encarou essa situação ao longo do último ano; o que significa a troca do time por Jimmy Garoppolo - e se ele é o QB que o time procurou para seu futuro.

Os números da parte final estão, claro, desatualizados por causa do jogo de domingo, mas tudo que aconteceu na vitória do 49ers sobre o Titans só reforça o sentimento e as avaliações passadas em todo esse texto.

Então trouxe a coluna para cá também. Espero que gostem, e não deixem de prestigiar o trabalho do Pick Six, e de seguir o site no Twitter e/ou Facebook!

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Existe uma questão que praticamente todo time da NFL que passa por uma reconstrução precisa cedo ou tarde responder. E a resposta para essa pergunta, muitas vezes, pode determinar o sucesso ou fracasso de um período inteiro de reconstrução, e definir o futuro da franquia.

Como conseguir o seu quarterback para o futuro?

Querendo ou não, a posição de QB é de longe a mais importante do futebol americano, e muitas vezes o diferencial entre o sucesso e o fracasso. Existe um motivo pra 90% dos vencedores do prêmio de MVP sejam quarterbacks. Então se você é um time ruim que quer ser bom, a melhor forma de atingir essa virada – e, talvez mais importante, de garantir que essa virada seja sustentável no médio e longo prazo – é conseguir acertar em cheio no jogador que você escolhe para comandar o ataque da sua franquia. Times como Jets e Texans tentaram se reconstruir muitas vezes nos últimos anos, mas sem achar uma solução para a posição, sempre dependeram de um sucesso pontual em meio a diversos anos decepcionantes (o Texans, claro, parece enfim ter encontrado seu QB). Browns nunca conseguiu uma reconstrução em parte por nunca ter achado o seu quarterback. Times como o Jaguars – que deve finalmente voltar aos playoffs esse ano e está 9-4 – podem conseguir um bom ano atrás de uma dominante defesa apesar de começar com Blake Bortles de titular, mas pense em quantos anos não foram desperdiçados de boas defesas em Jacksonville, Chicago, Saint Louis (RIP) e Minnesota nos últimos anos devido à incerteza na principal posição do jogo.

Então times que estão em reconstrução precisam, em algum momento, encarar essa mesma questão e decidir de onde vão tirar o quarterback para chamar de seu. E, como todo jogador, existe três formas de se adquirir um: por troca, pelo Draft, ou assinando um agente livre. E o pior, ou talvez mais interessante, é que não existe uma resposta certa. Todos os três meios tem seus prós e contras, e não existe uma maneira segura de garantir que seu time vai encontrar uma solução para os próximos 10 anos. GMs inteligentes em reconstruções são os que mantém as três vias abertas e manipulam seus ativos de forma a maximizar suas chances, e se colocam assim em uma boa situação para aproveitar as oportunidades que aparecem.

O Draft costuma ser a via mais utilizada por tais times em busca de um Franchise QB, o que faz bastante sentido. Times em reconstrução costumam ser ruins e ganhar poucos jogos, o que significa que escolhem perto do topo do Draft com frequência – o lugar onde costumam se encontrar os melhores QBs. Dos 32 QBs “ideais” para começar de titular nesse ano para as franquias da NFL, 20 deles foram selecionados na primeira rodada, e 5 outros na segunda rodada. Uma escolha alta no Draft é, em tese, a melhor maneira de garantir que esses jogadores estejam no seu time.

Outro benefício de encontrar esse jogador no Draft é que isso garante a você 5 anos baratos para a posição mais cara do time, economizando assim um valioso dinheiro que pode ser usado em outras posições importantes (Russell Wilson, escolha de 3ª rodada, é o melhor exemplo disso: durante 4 anos o Seahawks teve seu Franchise QB ganhando 1 MM por ano, e pode gastar esse dinheiro para ir na free agency contratar estrelas e renovar com seus melhores jogadores, montando assim a espinha dorsal do time campeão de 2013). Escolher um QB jovem no Draft também significa que esse jogador estará na mesma "linha do tempo" do resto do seu elenco.

Mas o Draft também é de certa forma uma loteria. O índice de acertos não é grande o suficiente para essa ser uma opção de baixo risco, e escolher o QB errado no topo do Draft é uma coisa que pode atrasar sua reconstrução em anos enquanto a franquia fica comprometida com um QB ruim. O Rams escolheu Sam Bradford, não deu certo, e demorou 8 anos até voltar a ser um time competitivo. Titans, Jaguars e Vikings escolheram Jake Locker, Blaine Gabbert e Christian Ponder no mesmo Draft, e demoraram anos para se recuperar da decisão. O Broncos parece ter errado feio com Paxton Lynch, e agora tem talvez a pior situação de QBs da NFL segurando o que deveria ser um ótimo time. E, para compor o problema, tem o seguinte: muito do sucesso no Draft envolve a forma como os times desenvolvem os jovens talentos que adquiriram, e um time em reconstrução normalmente não tem grandes peças para colocar em volta de um jovem QB e auxiliar seu desenvolvimento (pense Alex Smith, escolha #1 de 2005, com os 49ers), o que pode diminuir as chances de sucesso de uma escolha desse tipo. É uma opção de alto risco.

Buscar esse QB na free agency não tem o mesmo risco, mas também é uma oportunidade infinitamente mais limitada por um simples motivo: Franchise QBs simplesmente não chegam no mercado. A estrutura de salários da NFL – em especial a Franchise Tag – geram incentivos muito maiores para os times manterem suas grandes estrelas, e como QB é a posição mais importante do time, esses são os jogadores que concentrarão os esforços das franquias para manterem. Situações como as de Drew Brees e Peyton Manning são enormes outliers – contextos muito únicos com questões complicadas de lesões para adicionar – que times em reconstrução dificilmente podem prever ou se apoiar como uma estratégia confiável. Os QBs que normalmente se encontram no mercado são os QBs medianos (como Tyrod Taylor ou Jay Cutler) que podem servir na função certa, mas estão longe de serem uma garantia – caso contrário não estariam disponíveis. Certo, Brock Osweiller?

Geralmente os melhores resultados na free agency vêm para times que fazem compras baratas e apostam em um jogador que floresce em um contexto favorável e específico, com o Vikings encontrou esse ano com Case Keenum ou o Cardinals com Carson Palmer. Mas também são minoria, e ambos tiveram sucesso em parte porque encontraram uma situação muito favorável e um time extremamente completo e bem montado ao seu redor, situação que um time ruim em reconstrução dificilmente vai propiciar. Além disso, não é como se fossem apostas de alto índice de sucesso – Keenum foi contratado para ser a terceira opção atrás de Bradford e um Teddy Bridgewater em recuperação, e se o Vikings tivesse a menor ideia de que Keenum iria explodir em Minnesota, com certeza teria oferecido a ele um contrato mais longo que mantivesse-o sob controle da franquia por mais tempo (e a um baixo custo).

Por fim, as trocas são as situações mais imprevisíveis das três. Franchise QBs raramente ficam disponíveis por troca, e os jogadores que ficam muitas vezes são os que enfrentam muitas dúvidas ou que dependiam muito de um esquema tático específico. A melhor situação é algo como aconteceu com Alex Smith – um bom QB “forçado” ao banco por uma opção melhor – e ainda assim são situações que costumam envolver um alto preço, muitas vezes em escolhas de Draft, que um time em reconstrução pode hesitar em pagar sem ser por uma certeza em uma janela que costuma fechar rapidamente. É talvez a opção mais interessante por oferecer maior variedade de situações, e a que os GMs mais precisam estar alertas para aproveitar quando aparece, mas também é uma via bastante escassa.

Então considerando a imprevisibilidade e alto custo da primeira opção, e a baixa oferta das últimas duas, não é de se espantar que tantos times emperrem na dificuldade de achar um bom quarterback para seu time, especialmente um que faça sentido com a timeline do resto do seu elenco. Cometa um erro com a opção errada, e seu time pode se atrasar em anos até voltar a ser competitivo. Deixe passar uma boa opção, e seu emprego estará em xeque com sua cabeça sendo pedida por boa parte da mídia e dos torcedores (como aconteceu com o Browns, por exemplo). É uma situação delicada, uma fina linha entre explorar o máximo de vias possíveis enquanto não compromete os recursos de forma apressada, e saber exatamente a hora (e o custo) certo para se fazer uma aposta. Paciência, pensamento de longo prazo e - sejamos sinceros - uma boa dose de sorte costumam fazer a diferença nessas horas.




A reconstrução do 49ers

O 49ers era um dos times que estava nessa situação no ano passado. Com Jed York finalmente admitindo o erro passado e aceitando que a franquia precisava recomeçar quase do zero, San Francisco dispensou os resquícios da antiga gestão (incluindo seu QB titular, Colin Kaepernick), trouxe um novo técnico e um novo GM, e anunciou sua intenção em enfim focar no longo prazo (a decisão correta com dois anos de atraso). E, claro, parte importante desse processo (especialmente tendo dispensado um QB que te levou ao Super Bowl quatro anos antes) era descobrir quem seria o novo quarterback de uma franquia com uma longa tradição na posição.

E o interessante é que o novo GM John Lynch tinha à sua frente múltiplas opções para tomar na busca pelo novo QB do futuro da franquia, e sendo seu primeiro cargo executivo na NFL, muitas pessoas especulavam se essa falta de experiência levaria Lynch a querer ir para o Home Run logo de cara com alguma grande movimentação nesse sentido. No entanto, Lynch fez aquilo que, a meu ver, foi a decisão mais correta no momento: ele não fez nada.

Com a escolha #2 do Draft, San Francisco estava em boas condições de ir atrás de um QB como Mitch Trubsky ou Deshaun Watson, consideradas as duas melhores opções do ano na posição. No entanto, a avaliação de Lynch era de que nenhum dos dois valeria essa escolha – uma avaliação partilhada por mim e grande parte dos analistas – então Lynch inteligentemente foi na direção oposta, trocando suas escolhas para descer no Draft e acumular seleções extras (como times em reconstrução deveriam fazer).

Enxergando (novamente de forma correta) que não teria à sua disposição como adereçar a questão do QB de forma satisfatória e ao preço certo no momento (e, talvez, que não fosse a hora para isso), o GM do Niners se preocupou em manter as opções em aberto para o ano seguinte. A classe de QBs de 2018 prometia ser bastante intrigante com Josh Rosen e Sam Darnold. As escolhas de Draft extras que Lynch acumulou no seu primeiro recrutamento como GM deram ao 49ers um rico baú de ativos que poderia usar caso quisesse entrar em alguma negociação de troca, ou até para subir no próximo Draft. E, no horizonte, Kirk Cousins estava ameaçando virar free agent depois de dois anos jogando sob a Franchise Tag e múltiplos dissabores com a diretoria de Washington.

Ao invés de tentar resolver tudo de uma vez só, Lynch enxergou no horizonte possibilidades muito melhores se desenhando para ano que vem, e posicionou o time de forma a explorar todas elas conforme fossem aparecendo. Enquanto isso, manteve a pólvora seca: trouxe Brian Hoyer na free agency, um QB veterano que já tinha trabalhado com o novo técnico Kyle Shanahan e iria ajudar a implementar seu esquema tático, e usou uma escolha de terceira rodada (luxo que poderia se dar com tantas escolhas adicionais) em CJ Beathard. Nenhuma das duas era um movimento que fosse provável resolver a posição para o futuro, mas foram dois movimentos de baixo custo que poderiam dar resultados modestos no médio prazo, apostas inteligentes de baixa probabilidade, mas baixo custo – e, afinal, ALGUÉM precisava jogar de QB para esse time.




Lynch faz o sua jogada

Agora todos já sabemos como essa história terminou. Depois de passar boa parte do ano esperando o mercado se desenhar enquanto Beathard e Hoyer não funcionaram como titulares, o 49ers eventualmente acabou enviando sua escolha de segunda rodada de 2018 (um preço bastante em conta considerando que San Francisco tem escolhas extras de segunda e terceira em 2018, rodada graças às trocas do Draft passado) para New England em troca de Jimmy Garoppolo, o promissor QB que não encontrou espaço para jogar graças a um tal de Tom Brady.

O preço de uma escolha de segunda rodada por Jimmy G é bastante modesto comparado ao que New England supostamente estava pedindo ano passado e até no Draft desse ano, que variava entre múltiplas escolhas de primeira rodada ou uma escolha alta de primeira rodada. E isso é um testamente ao quão bem o 49ers jogou o jogo da paciência. A impressão que da, entre tudo que é reportado vindo de Foxborough, é que a vontade de Bill Belichick sempre foi manter Brady E Garoppolo (o que, de certa forma, já é um elogio imenso à capacidade do camisa 10) no time. Belichick tentou caminhar a linha de manter os dois jogadores até que concluiu que não seria possível, e acabou aceitando a proposta do 49ers.

Lynch lidou com a situação de forma perfeita. Se essa troca fosse feita no começo do ano, teria custado bem mais ao 49ers, pois o Patriots ainda estava com a força das negociações e tentando manter os dois QBs. Ao invés disso, Lynch esperou até o momento que o Patriots enfraqueceu sua posição e chegou a um bom acordo com um dos GMs mais difíceis de negociar da NFL.

Claro que o Niners poderia ter simplesmente esperado acabar o ano e tentar pegar Garoppolo então, mas isso também envolveria muitos riscos. New England ainda poderia usar a Franchise Tag em Garoppolo (e nesse caso dificilmente o preço cairia mais), e mesmo se ele chegasse ao mercado, isso significaria que o 49ers teria que entrar em uma provável batalha financeira com outros times interessados, o que aumentaria consideravelmente o preço financeiro do negócio, e aumenta também as chances do Niners NÃO conseguir o jogador. E se conseguisse, provavelmente seria em um contrato longo e muito custoso, para um jogador que o 49ers teria apenas DOIS jogos como titular em New England (ambos ano passado, em um esquema tático diferente e conhecido por “proteger” seu QBs e fazer jogadores medianos parecerem muito melhores) para avaliar. É o tipo de jogada all-in de altíssimo risco que o 49ers deveria evitar (e vem evitando), e trocando por Garoppolo agora não só San Francisco se coloca com todas as cartas para manter o jogador no time no longo prazo por um contrato menor do que daria no mercado, como também San Francisco agora ganha meia temporada para avaliar Garoppolo, seja jogando como titular, seja nos treinos e como se relaciona com a comissão técnica, antes de tomar a decisão se quer apostar seu futuro no jogador.

E o mais interessante é o seguinte: com o contrato expirante de Garoppolo, essa troca em nenhum momento compromete as outras possibilidades para o 49ers de conseguir um QB. Se Garoppolo não fosse bem ou o time avaliasse que não valeria a pena seguir e investir no jogador, San Francisco poderia simplesmente deixar Garoppolo ir embora, aceitar a escolha compensatória pelo jogador (inferior à que o time pagou por ele, sem dúvida, mas um preço que o time pode se dar ao luxo de pagar), e voltar sua atenção para as opções no topo do Draft ou para Kirk Cousins. Isso teria um custo, mas a informação e a posição de força nas negociações adquirida teriam valido a pena, e San Francisco poderia não se comprometer com uma opção sub-ótima, mantendo ainda as opções muito abertas.

Mas, claro, até aqui parece muito improvável que vá chegar a isso.




Jimmy Garoppolo em campo

Dois jogos não fazem uma carreira, sem dúvida. É impossível avaliar um jogador por tão pouco, e mesmo em cinco jogos (a quantidade de jogos que Garoppolo pode ter de titular antes de virar free agent) muita coisa ainda será um mistério. Quase qualquer QB ruim da NFL pode pegar dois jogos da carreira e apontar para eles como sendo uma amostra de que é um bom jogador. Então sempre temos que tomar cuidado para não ler demais em informações de menos.

Mas é humanamente impossível não se empolgar com o que Jimmy Garoppolo está mostrando em suas duas primeiras partidas como titular. Não é a questão da sua produção, embora essa também esteja sendo ótima: 66,7%, 9.0 Y/A, 8,3 AY/A, 645 jardas, 2 TDs, 2 INTs. Seu QBR seria 6º na NFL inteira, e seu DVOA seria #2, logo na frente de Tom Brady. Mas vocês não vão me ver referenciando esses números de novo nessa coluna, simplesmente porque eles não importam. 2 jogos é uma amostra pequena demais, e nenhuma estatística tem valor com uma amostra insignificante dessas. Não são os números que estão enchendo os olhos. É como Jimmy está jogando.

O 49ers teve uma abordagem cautelosa com seu novo QB. Ao invés de jogar Garoppolo no fogo de cara, mantiveram o camisa 10 no banco enquanto ele aprendia o playbook e o Niners esperava sua boa dupla de tackles (Trent Brown e Joe Staley) voltarem do departamento médico. Ainda assim, Jimmy entrou em uma situação bastante complicada após a lesão de Beathard, conhecendo apenas uma parte pequena do playbook, e com um elenco de apoio bem abaixo da média em termos de alvos e linha ofensiva.

E apesar disso, nesses dois jogos Garoppolo mostrou que estava mais do que pronto para o desafio. Apesar do conhecimento limitado do playbook e o pouco entrosamento com o resto do ataque, a simples presença de um QB capaz de ler e executar as jogadas já abriu muito esse ataque. Kyle Shanahan está conseguindo chamar mais jogadas e explorar mais jogadores e movimentações do que jamais conseguiu com Beathard e Hoyer, e o comando sobre esse ataque que Garoppolo já tem é surreal para alguém com tão pouco tempo de casa. Seu entendimento do jogo e da posição permitiu que isso fosse possível, e sua entrada já destravou mais o ataque do que poderíamos imaginar.

Mas o que mais chama a atenção em Garoppolo é sua capacidade de lidar com a pressão. Na semana 14, desfalcado de seu RT e sofrendo pressão em incríveis 47% das jogadas de passe (maior marca da rodada), Garoppolo mostrou todo seu repertório depois de alguns arremessos ruins no começo do jogo. Em parte por sua força no braço, Jimmy tem no seu currículo o arremesso patenteado do Aaron Rodgers em movimento, que consegue lançar a bola com velocidade e precisão impressionantes só com o movimento do pulso, e o QB sabe usar isso muito bem. Ele espera até o último segundo para soltar a bola (e seu lançamento é incrivelmente rápido) e tem a combinação de conseguir sentir e lidar com o jogador de defesa no seu cangote enquanto mantém os olhos na secundária para continuar achando as jogadas, fazendo com que repetidamente vença a blitz em conversões cruciais e transforme situações negativas em ganhos. Nos seus dois jogos como titular (contra duas defesas acima da média) Garoppolo continuou mantendo campanhas vivas com conversões longas em terceiras descidas apesar de jogar com um defensor pendurado nele o tempo todo. Essa é uma das habilidades mais importantes de um QB no nível NFL, e Garoppolo está mostrando ser um dos melhores no negócio.

A verdade é que nesses dois jogos Garoppolo mostrou todas as habilidades que você procura em um Franchise QB. Sua inteligência em campo e sua leitura de jogo são excelentes. Ele consegue jogar em alto nível tanto dentro do pocket como saindo dele. Tem uma excelente precisão e ótima força no braço, e está se mostrando capaz de executar praticamente todos os passes que o ataque de Shanahan exige. Sua capacidade de lidar com a pressão é ainda mais impressionante. E se você acredita que para ser QB na NFL você precisa de uma certa qualidade quase “mística” de incentivar e motivar os companheiros, você não precisa ir muito longe para tropeçar em algum jogador do 49ers derramando elogios sobre o novo QB da franquia. Até agora, Jimmy G parece ser o pacote completo.

Novamente, é importante frisar o quanto dois jogos não servem para fazer uma avaliação exaustiva e completa de nenhum jogador. Nós só podemos avaliar o que nós vimos nesses dois jogos, mas não necessariamente Garoppolo será sempre o que foi neles. Nossa avaliação é limitada a esse respeito, graças a uma amostra pequena.

Mas também é importante lembrar que a avaliação do 49ers sobre Garoppolo não se limita apenas aos jogos. Além do que vemos em campo, o Niners tem Garoppolo nos treinos, aprendendo o playbook, lidando com jogadores e comissão técnica. Essa também é uma valiosa fonte de informações e muito maior e mais rica em qualidade do que nós, observadores externos, podemos captar. E é esse conhecimento agregado que só o Niners possui é o que vai fazer a diferença na hora do time decidir o que fazer com a situação do seu QB para 2018.

Por enquanto, o que podemos dizer é que tudo indica que o 49ers achou o seu QB do futuro, e que ele é realmente muito bom – o tipo do jogador em torno do qual você constrói algo maior. O 49ers até aqui jogou todas as suas cartas com perfeição, maximizando suas avenidas para achar esse jogador, e os primeiros retornos indicam que o time conseguiu cumprir essa complicadíssima tarefa com bastante sucesso.


Ainda temos que ver como o 49ers vai dar os próximos passos nessa situação, e qual vai ser sua abordagem para 2018. Mas é difícil não se animar com o que estamos vendo do casamento entre Garoppolo e Kyle Shanahan, e com uma offseason inteira para se reforçar pela frente (na qual San Francisco deve ter mais salary cap do que qualquer time da NFL tirando o Browns), esse ataque pode começar a fazer barulho muito antes do que o esperado. Dedos cruzados.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pensamentos rápidos e aleatórios sobre o Super Bowl XLIX

Malcolm Butler, para a história


O Super Bowl XLIX agora é passado. New England, que da última vez saiu de Arizona com uma das mais surpreendentes derrotas da história da NFL, agora sai coroado com seu quarto título, depois de 10 anos do último. Tom Brady se juntou a Joe Montana e Terry Bradshaw como os únicos QBs a vencerem quatro anéis, Bill Belichick se juntou a Chuck Noll como os únicos técnicos com quatro Super Bowls (em títulos totais ainda ficam atrás de Vince Lombardi e George Halas) e Malcolm Butler virou uma celebridade da noite para o dia. 

A noite de ontem foi intensa demais para escrever uma coluna séria e coerente sobre o Super Bowl, e o tempo também está em falta no momento. Ainda assim, tem algumas coisas que precisam ser ditas - ou melhor, que eu quero dizer - sobre esse Super Bowl que não podem passar de hoje. Então deixo aqui alguns pensamentos e considerações curtos sobre esse magnífico Super Bowl.


- Antes de mais nada, parabéns ao New England Patriots e aos seus muitos torcedores. O Patriots tem alguns dos torcedores mais chatos que eu já conheci, mas também tem os mais fanáticos e mais apaixonados, e a franquia em si é um exemplo ímpar de consistência e excelência no futebol americano. Nos últimos 14 anos, New England foi a seis Super Bowls, venceu quatro, e só deixou de ir aos playoffs duas vezes. Eles venceram 76% de seus jogos (170) de temporada regular nesse período, de longe a melhor marca da NFL (Colts, 150 e 67%, em segundo). Eles venceram 21 jogos de playoffs nesses 14 anos, quase o dobro de Colts e Steelers (12 cada), os segundo colocados. Ter um QB histórico como Tom Brady - especialmente nessa era que cada vez mais protege os QBs e os passes, fazendo um QB ter condições de impactar mais um jogo do que a 20 anos atrás - sem dúvida que ajuda, mas mesmo além dele, a organização sempre foi um exemplo de eficiência, maximizando seus ativos no Draft, achando valor em jogadores menores, sempre se reinventando e retomando o topo. Bob Kraft é o melhor dono da NFL, e Belichick o melhor técnico, e não a toa sempre trabalharam juntos, tirando o melhor um do outro. Sabe, ao contrário de outra franquia que tinha um dos melhores técnicos da NFL mas cujo dono quis demiti-lo para contratar alguém que fosse seu pau mandado. Uma boa franquia começa de cima, e o Patriots tem isso mais que qualquer um. Uma vitória merecida, para o time e a sua torcida, e com sabor extra depois que muita gente correu para descartar New England quando perdeu do Chiefs na semana 4.


- Na minha vida, o melhor Super Bowl de todos foi em 2009 (mas o da temporada 2008), entre Arizona Cardinals e Pittsburgh Steelers. Em termos de jogo bem jogado, emoção, reviravoltas e puro e simples nível de entretenimento, eu não tenho certeza que um dia algum Super Bowl superará aquele. Ele foi perfeito demais. 

Mas o Super Bowl XLIX foi um dos melhores de todos os tempos em seu próprio mérito. O primeiro tempo foi feio e cansativo, e o jogo não pegou fogo até o quarto período. Mas foi um quarto período para a história. Duas campanhas perfeitas de um dos maiores QBs da história do esporte para virar um jogo que muitos deram como perdido, a quase virada de Seattle, a recepção absolutamente bizarra do Jermaine Kearse (qualquer torcedor do Pats que disse que não teve flashbacks pra recepção do David Tyree ou está mentindo ou não assistia NFL na época), Seattle praticamente garantindo o jogo, dois erros técnicos grosseiros em um espaço de 30 segundos (chegaremos neles), e uma jogada improvável (e isso é um understatement) para uma das maiores reviravoltas da história do Super Bowl. Considerando quanto tempo faltava, onde a bola estava, o que estava em jogo, o fato do Seahawks ter Marshawn Lynch pronto para entrar na end zone - tinha três tentativas para isso - e quem fez a jogada (um calouro não-draftado da divisão II da NCAA), acho que não caio em hipérbole ao dizer que foi uma das jogadas mais improváveis da história do futebol americano. Foi tão maluca, tão surreal, que eu fiquei dois segundos parado tentando processar o que aconteceu antes de finalmente cair a grande ficha. É exatamente assim que você quer que seu domingo termine.


- Eu não sei se foi Darrell Bevell ou Pete Carroll que chamou a jogada final de Seattle - supostamente foi Carroll - mas, considerando situação, conjuntura, alternativas e que era o freaking Super Bowl, foi a pior chamada de um técnico da história do futebol americano. Você tem Marshawn Lynch - talvez o melhor RB da NFL e sem dúvida o melhor da liga em termos de força física e de conseguir jardas extras, o cara que é seu melhor jogador ofensivo e foi a alma do seu time por três anos - você tem um tempo pra pedir, você ainda tem tempo no relógio, e três jogadas para conseguir UMA JARDA. Um touchdown te da 99% de chance de vencer, e New England não tem esperanças de segurar Marshawn Lynch (4.4 YPC, 102 jardas na partida), tendo a pior defesa da temporada contra o jogo terrestre em situações de "força", per Football Outsiders. A única esperança - mínima - do Patriots ali era conseguir um turnover milagroso, mas Seattle nunca chamaria uma jogada para dar essa chance sendo que dar a bola nas seguras mãos de seu RB tem uma chance maior de sucesso.

Mas ao invés de dar a bola para Lynch, inexplicavelmente, Seattle decidiu ir para um passe, que Malcolm Butler interceptou. Não existe NENHUM motivo cabível pro Seahawks ir pro passe ali. Considerando que só precisava de uma jarda e que a única esperança do Patriots era um turnover, não tem porque ir para uma jogada onde você coloca a bola no ar e arrisca essa interceptação. Sim, ir para a corrida pode ter um fumble, mas indo para o passe você pode sofrer um sack (que dificultaria consideravelmente as ultimas tentativas), um fumble ou uma interceptação, muito mais opções negativas. Além disso, a corrida também tem muito mais chance de sucesso: nos últimos dois anos, dentro da linha de uma jarda, times converteram 57% de suas jogadas de corrida em touchdowns (e sofreram fumbles em 0.9% delas), enquanto que só 49% de suas jogadas de passe viraram TDs (com 6.2% das jogadas virando um turnover e/ou um sack, as duas jogadas que Seattle absolutamente devia evitar). E isso antes de entrar no mérito que você tem MARSHAWN LYNCH, seu melhor jogador e RB mais imparável da NFL, para correr com a bola, que você teve o melhor ataque terrestre da temporada, e que o Patriots foi o pior time de 2014 defendendo a corridas em situações de curtas distâncias. Então não só você tirou a bola das mãos do seu craque, mas fez isso para ir atrás de uma jogada de maior risco e menor chance de sucesso, em um lance onde você ABSOLUTAMENTE devia evitar um turnover a todo custo. Foi uma decisão historicamente estúpida, que custou um Super Bowl ao seu time nos segundos finais. É verdade que uma interceptação ali não é um cenário provável e a INT foi um pior cenário possível, mas porque ir para uma jogada que te da esse pior cenário possível? Em um vácuo, a decisão ja foi ruim, mas considerando os times e os jogadores envolvidos, ela se torna genuinamente horrível. Adicione que ela foi a jogada decisiva de um Super Bowl, na linha de 1 jarda, faltando 30 segundos e que causou uma mudança de mais de 80 pontos percentuais na expectativa de vitória das equipes, e você tem a pior chamada da história da NFL.

O TM Warning conseguiu vídeos exclusivos do que se passava na cabeça do Pete Carroll naquele momento.




- Pior do que a decisão de ir para o passe naquela situação foram as desculpas que Carroll e Bevell deram depois do jogo para explicá-la. Bevell disse que ainda tinha muito tempo no relógio e o time queria gastá-lo até o fim, o que é uma explicação que faz sentido só se você estava em Seattle e consumiu 1 kg da maconha "Marshawn Lynch". Esqueça a interceptação - qual o upside disso? Se é TD, tem exatamente o mesmo efeito de uma corrida, e New England ainda recebe a bola com 30s e dois tempos pra tentar um FG. Se o passe é incompleto, você para o relógio sem queimar um tempo do Pats. Porque diabos então você chamaria essa jogada para gastar o relógio?!

As de Carroll não foram muito melhores. Embora ele tenha assumido a responsabilidade pela chamada e pela derrota, ele disse que o fez porque o Patriots estava em formação de goal-line, o que simplesmente não era verdade (o próprio Darrelle Revis confirmou o que a gente viu). E depois, para piorar, defendeu a chamada dizendo que, como o Pats estava em sua formação de goal-line (não estava), achou que não era um bom matchup para correr e que portanto chamou um passe para "queimar uma jogada" ou "jogar a jogada fora". Não, sério, eis o que ele disse no original, via Ian O'Connor da ESPN: "It [the goal-line defense] is not the right matchup for us to run the football, so on second down we were throwing the ball to kind of waste the play". 

... oh, God. Isso é muito ruim. 2nd and goal, 30 segundos no relógio, no freaking SUPER BOWL, perdendo de 4, você não confia na sua maior força e chama uma jogada para jogar uma descida fora?! É a pior explicação de uma chamada ruim que eu vi nos últimos tempos. Para usar uma analogia do Michael Lewis, parece uma rotina dos irmãos Marx, onde um está pegando fogo e o outro tenta apagar jogando nele um balde escrito "QUEROSENE".



- Quanto de culpa teve Russell Wilson na interceptação decisiva?

Como sempre, é muito difícil dizer com certeza, mas podemos tentar. Primeiro de tudo, a chamada do passe não foi dele - veio do banco, e ele não me pareceu fazer nenhum grande ajuste na linha a não ser talvez redistribuir os jogadores. Então o maior erro da jogada já passa por fora de Wilson.

Dada que a jogada chamada já era um passe, então a primeira coisa que chama a atenção é que Wilson fez a leitura certa na linha de scrimmage. Eis a situação da jogada antes do snap.



Considerando que o Hawks vai para o passe, Wilson olha para a parte de baixo do campo e ve Kearse e Lockette no mano a mano com Browner (marcando Kearse próximo a linha) e Butler (marcando Lockette a distância). Identificando o elo fraco da defesa do Pats (Butler, o quinto CB do time), a jogada ainda vai tirar vantagem desse matchup. Kearse vai "atacar" Browner, bloqueando-o próximo a linha, e com o DB que marca a linha fora da jogada, Lockette vai usar essa liberdade para cortar em direção ao espaço no meio sem ninguém acompanhando-o. A jogada, no primeiro momento, funciona como esperado - Kearse tira o CB da jogada, e Lockette corta para o meio com muito espaço próximo a linha. Wilson vê que Browner não conseguiu acompanhar Lockette no slant, vê o camisa 83 sem acompanhamento, e lança o passe na direção do espaço para onde ele se dirige. É a jogada que Seattle queria.



Eis o grande problema do passe: Wilson joga para Lockette porque viu que Browner está fora do lance, abrindo espaço no meio, mas em nenhum momento ele vê Butler se aproximando da jogada. Não sei se ele literalmente não vê Butler (que estava atrás de Browner no seu campo de visão) ou se achou que ele não chegaria no lance, mas é um erro grave de leitura, especialmente porque Butler não está acompanhando Lockette - ele está cortando diretamente para o mesmo lugar que ele e se colocando na mesma zona para "receber" o passe. E o passe sai ruim - não é um passe baixo ou um passe próximo ao corpo de Lockette onde ele possa usar o corpo de "escudo" e pelo menos evitar uma interceptação, mas um passe alto e na frente do seu corpo, onde Butler tem espaço de sobra para fazer uma jogada na bola.

A minha impressão é que ele não viu Butler, seja porque estava fora do seu campo de visão ou por um erro de leitura mesmo. Se visse o DB do Patriots, ele possivelmente ainda teria ido atrás de Lockette - que era sua primeira leitura em uma jogada rápida, e que conseguiu a separação na linha que ele esperava, a jogada que eles queriam desde o começo - mas certamente teria feito um passe mais próximo do seu corpo, e não um tão longe e tão pendurado para o defensor fazer uma jogada. Então foi um erro de leitura, e um passe ruim que permitiu ao defensor fazer a jogada. Mas ainda assim, é difícil colocar demais no prato dele: ele fez a leitura certa antes da jogada, conseguiu a separação do WR que queria, e ninguém esperava que um calouro não-Draftado de West Alabama fizesse uma jogada fantástica dessas. Cada um pode tirar as próprias conclusões a partir dos fatos que eu mostrei acima, mas a meu ver, embora tenhamos que reconhecer que Wilson (que fez ótima partida) fez uma jogada ruim (especialmente na leitura da defesa), na hierarquia isso só vem depois de dar muitos méritos ao Butler por uma jogada fantástica e improvável e de dar os devidos pescotapas no Carroll por essa chamada atroz. 


- A péssima, SB-losing decisão do Carroll acabou tirando o foco de uma inexplicável e péssima decisão do Bill Belichick de não pedir um tempo depois a primeira descida de Seattle. A jogada de Seattle acabou com pouco mais de 1m no relógio, e New England tinha dois tempos para pedir. Inexplicavelmente, Belichick não pediu tempo, e o relógio correu para 25 segundos antes da jogada seguinte de Seattle. 

É uma decisão horrível. New England estava com vantagem de 4 pontos, então mesmo se tomasse um TD, ainda poderia empatar com um field goal. O problema é que deixar o relógio correr esses 40 segundos praticamente tirava todo o tempo que o Patriots poderia ter para empatar. Se New England pede um tempo e toma um TD na jogada seguinte, teria quase 1 minuto e um tempo pra empatar o jogo com um FG. Como não pediu, se Lockette faz o TD ali, o time teria 20, 15 segundos e dois tempos pra empatar, muito menos e uma situação infinitamente mais difícil. Caso ele peça tempo, o pior cenário que poderia acontecer em termos de tempo no relógio seria caso Seattle corresse 2x e não anotasse o TD, forçando New England a usar o último TO e depois gastarem mais 40s do relógio... mas dai teriam uma quarta descida, e se é pra ter 20 segundos no relógio, tenho certeza que é bem melhor uma 4th down do que uma 2nd and 1. Não usar o timeout ali poderia ter custado o jogo ao Pats. Belichick é o melhor técnico da NFL e um dos melhores da história da liga, mas foi um erro grosseiro da parte dele. 


- Quer dizer que até mesmo o Imperador Palpatine da NFL tem um lado sentimental? Talvez minha foto favorita do Super Bowl. Aliás, Greg Popovich - outro técnico histórico famoso pelo mal humor e pela fama de durão - também chorou um monte ano passado quando foi campeão da NBA. É o outro lado de ser um filha da mãe ultracompetitivo. Quando você alcança o seu objetivo final depois de tanta superação, é ainda mais gostoso e emocionante. 




- Por falar em Popovich, é coincidência que Spurs e Patriots - os dois times mais vitoriosos e consistentes dos EUA no milênio - finalmente deram a volta por cima e ganharam títulos em 2014 (tecnicamente o do Pats foi 2015, mas você entendeu. A temporada era 2014) com suas estrelas aos 37 anos e no final de suas carreiras? A do Patriots foi mais sofrida, a do Spurs mais dominante, mas ambas incrivelmente memoráveis. 


- O primeiro tempo, em particular, foi uma aula de tática da parte do Patriots. Seattle dominou o ano todo usando sua tática habitual, e seu jogo de sempre, mas New England sabe que não tem tanto talento em campo como seu adversário, mas tem muito mais técnico. E uma das coisas que fez de New England tão bom o ano todo foi sua capacidade de se adaptar e se preparar para cada adversário que enfrentou.

Ontem não foi exceção. Sabendo que Seattle tinha mais talento, New England se propôs a vencer o jogo na tática, e no primeiro tempo deu uma aula disso. Seattle gosta de jogar com os safeties no fundo do campo, tirando a opção das bolas longas e protegendo as costas de seus CBs, enquanto confia no físico de seus cornerbacks para controlar a linha de scrimmage por conta própria. Mas Sherman, Thomas e Chancellor estavam jogando com lesões, e New England começou o jogo disposto a explorar isso, fazendo passes curtos e laterais e forçando os defensores um tanto baleados de Seattle a fazer tackles em campo aberto, tendo algum sucesso em jardas após a recepção. Mas depois que Jeremy Lane saiu com uma fratura feia no braço, o Seahawks foi forçado a usar seu reserva, Tharold Simon. Era o que o Pats precisava.

New England imediatamente começou a atacar Simon, claramente o elo fraco da defesa do time de Washington. Aproveitando que os safeties de Seattle jogam em profundidade e que Simon não tinha condição de marcar próximo a linha os WRs de New England, o ataque do Patriots começou a explorá-lo e os espaços atrás dele em rotas curtas, slants e passes a partir do backfield para Shane Vereen. Simon não teve condições de aguentar a atenção - 7 passes, 96 jardas e 2 TDs para Brady lançando na sua direção - e foi batido várias vezes seguidas. Simon não conseguia marcar Edelman sem ajuda de um safety, mas deslocar um safety iria tirar Seattle da sua zona de conforto, e era o que New England queria. Quando o Hawks tentava deslocar algum jogador do meio para ajudar Simon, Brady fazia-os pagar com Vereen ou uma rota cruzando pelo meio. Até que por fim, Seattle cedeu e em uma jogada colocou Earl Thomas próximo a linha de scrimmage para marcar os passes curtos. Era a oportunidade que New England esperava. Brady alinhou Gronkowski aberto no mano a mano contra KJ Wright, pela primeira vez sem ajuda do safety nas costas, e um duelo que sem uma cobertura atrás Gronk vai vencer 95% das vezes. Gronk facilmente bateu Wright para um TD longo, na coroação de uma sequência perfeita do ataque de New England. O outro TD do Patriots no primeiro tempo veio, claro, em um slant de LaFell em cima de Simon, que continuou a ser atacado com os safeties em profundidade.

O primeiro tempo foi uma aula tática do Patriots pra cima do Seahawks, e só não conseguiu abrir vantagem por causa dos próprios erros. A interceptação besta de Brady na red zone, a facemask de Arrington, a corrida cedida num draw do Seattle que deveria encerrar o primeiro tempo que foi para 17 jardas - sem os dois primeiros erros, New England vai para o vestiário vencendo por 7 pontos, e sem o terceiro, por 10 pontos. Ao invés disso, errou e o jogo permaneceu apertado. 

No segundo tempo, Seattle retomou o controle do jogo mesmo sem um grande ajuste tático, mas simplesmente porque começou a executar muito melhor. A única mudança foi passar Michael Bennett para o interior da linha, e deu muito certo - ele demoliu os linemen inexperientes do Patriots no interior, e ele e Cliff Avril fizeram do Patriots a vida miserável, destruindo a linha ofensiva e deixando Brady sem tempo nem ritmo no pocket para fazer seus passes, que dependem tanto de timing, funcionarem (a saída de Cliff Avril com uma concussão foi um fator chave para o ataque do Patriots voltar a funcionar no quarto período). A saída de Avril fez o Patriots retomar o domínio da linha (aumentando as atenções sobre Bennett) e ganhar tempo para Brady no pocket, e assim pode voltar a executar seu esquema bem pensado: atacar Simon (que foi absolutamente abusado por Edelman na red zone), e explorar o meio do campo quando os linebackers de Seattle se deslocavam para cobrir os CBs batidos de Seattle. Mesmo que a jogada decisiva da partida tenha sido na defesa, foi uma performance fabulosa de Belichick e da comissão técnica montando e adaptando um plano de jogo perfeito para o ataque que levou a melhor sobre a excelente defesa do Seahawks.


- Por falar em decisões técnicas, Pete Carroll recebeu críticas totalmente merecidas por sua ridícula chamada no passe decisivo, mas ele também cometeu um outro erro crucial na partida que pode ter custado seu time. No começo do terceiro quarto, Seattle chegou na linha de 8 jardas do Patriots, mas viu Lynch ser pego em uma jogada de option que deu errado para nenhum ganho. Com uma 4th and 1 da linha de 8 jardas, Carroll decidiu chutar um FG. Mike McCarthy ficaria orgulhoso.

Algumas pessoas dirão que o era cedo no jogo para arriscar, que o jogo estava empatado, e que ele fez bem em ficar com os pontos. Essas pessoas também estão erradas. New England estava destruindo a defesa do Seahawks taticamente desde a entrada de Simon, e embora a defesa fosse eventualmente achar seu pass rush e dominar o terceiro período, Seattle ainda não sabia disso porque era a primeira campanha do segundo tempo. Ninguém realmente podia esperar que o jogo terminaria 17-14 com esse FG sendo o da vitória. Contra um grande ataque contra o Patriots, que estava tendo grande sucesso porque sabia exatamente como atacar sua defesa, você quer garantir o máximo possível de pontos, e estando DENTRO da linha de 10 do adversário só precisando de uma jarda para ganhar uma nova série de descidas, esse é o tipo de chance que você precisa converter. Mas não. Carroll se contentou com um FG, assim como Mike McCarthy antes dele. E assim como Mike McCarthy antes dele, chutar esse FG ao invés de anotar um TD custou pontos que, eventualmente, lhe custariam a vitória.

Se você quer ficar técnico, o modelo probabilístico do Football Analysis diz que Seattle devia tentar a quarta descida se tivesse 45% de chance ou mais de converter o first down. Nos dois anos que Seattle chegou ao Super Bowl, a equipe converteu 62% de suas tentativas em jogadas que faltavam uma jarda para primeira descidas, inclusive 64% das tentativas correndo. Considerando esse dado, que o Seahawks tem o melhor RB de força da NFL, o ataque terrestre #1 da liga, e que New England teve a PIOR defesa terrestre da NFL em situações curtas, é seguro dizer que a chance do Seahawks converterem essa quarta descida era bem superior a 45%. Carroll tomou uma decisão ruim que, embora sozinha não tenha custado o jogo ao seu time, diminuiu as chances de vitória da equipe e fez bastante falta no final. Carroll não tem como saber como o jogo se desenrolará até o final, para saber que aqueles quatro pontos seriam a diferença fatal da partida, mas justamente por não saber ele tem que pensar em tomar a decisão que da o máximo de pontos possíveis ao seu time. Se fosse uma 4th and 20, a chance de converter seria mínima, então o FG geraria mais pontos do que a probabilidade mínima de converter a descida e ficar com o TD. Mas dentro da linha de 10, precisando de só uma jarda e com Lynch, a chance de converter era altíssima e teria aumentado em muito a chance de 7 pontos. Carroll tomou a decisão errada, a primeira e menos custosa das duas, mas não menos digna de nota.

Coloque da seguinte maneira: se Carroll tentasse a conversão de quarta descida, falhasse, e perdesse o jogo por 3 pontos, todos os tradicionalistas iriam correndo apontar que essa decisão custou o jogo. Agora que o time perdeu por os 4 pontos da sua covardia de tentar um FG ao invés de tentar um FG, você não ouvirá uma palavra na mídia tradicional a respeito porque Carroll tomou a decisão "comum". Mas deveria. É muito pior ter um resultado ruim a partir de uma má decisão do que ter um resultado ruim a partir de uma boa decisão, porque o resultado o técnico não controla. O processo sim. Ele tem que tomar a decisão cujo processo da ao time a melhor chance de vencer, e não foi isso que ele fez.


- Esses playoffs foram absolutamente sensacionais em praticamente todos os aspectos, tirando imprevisibilidade. Mas o que eu mais gostei deles, de longe, foi que eles funcionaram como um ecossistema extremamente impiedoso com técnicos. Não só porque o melhor de todos ficou com o título, Belichick, mas porque um a um os técnicos conservadores, covardes e incompetêntes (e mesmo técnicos que não são nenhum deles, mas simplesmente tiveram decisões que foram) foram caindo justamente por causa de seus próprios erros. Um a um, os playoffs foram eliminando-os através de seus próprios erros.

O primeiro a cair foi o mais covarde e conservador de todos, Jim Caldwell, que aterrorizou torcedores do Lions o ano todo com sua paixão por field golas e um conservadorismo quase amador. Os torcedores do Lions reclamarão da amadora arbitragem que não marcou a falta em Brandon Pettigrew em uma 3rd down crucial, e com razão, mas a verdade é que mesmo depois disso o time ainda tinha uma 4th and 1 no campo de ataque, que poderia converter para manter o ataque vivo, continuar com a bola e eventualmente anotar pontos. Detroit conseguiu 1st downs em 66% de suas conversões de uma jarda nos últimos dois anos, e a defesa de Dallas é abaixo da média. Mas Caldwell foi pelo livro, e optou por devolver a bola para um dos melhores ataques da NFL sem nenhuma outra ação ofensiva - ganhando por apenas 4 pontos. Dallas pegou a bola, anotou o touchdown, e o Lions teve que fazer uma campanha desesperada para anotar um FG que poderia ter anotado uma campanha antes. Eventualmente, a temporada do Lions acabou em uma 4th and 3 - uma conversão que Detroit só conseguiu em 51% das tentativas nos últimos dois anos, bem abaixo dos 66% daquela 4th and 1 de antes. Detroit falhou, e foi eliminado.

Caldwell passou o bastão a Jason Garrett, que corajosamente arriscou duas quartas descidas contra Detroit e foi premiado por isso. Mas contra Green Bay, foi conservador na hora errada, e isso lhe custou caro. Com o final do primeiro tempo chegando ao fim, Dallas teve uma 4th and 1 no campo de ataque faltando pouco mais de 30 segundos no relógio e um tempo para pedir. Garrett optou por tentar um FG de 45 jardas, um FG bastante difícil em um dia ventoso e de baixíssima temperatura, ao invés de tentar uma conversão (que Dallas converteu 69% das vezes, inclusive) para pelo menos aproximar o FG ou mesmo sonhar com um TD. O time se complicou na hora de formar o FG, fez uma falta, errou o FG subsequente, e viu o Packers aproveitar a ótima posição de campo para anotar um FG antes do intervalo. Um erro de 6 pontos. A temporada de Dallas acabou - surpresa! - com eles desesperadamente tentando converter uma 4th and 2 no território do Packers, que acabou na infame recepção que não valeu (corretamente) do Dez Bryant.

Mas o bastão dos técnicos tomando decisões covardes e conservadores passou para Mike McCarthy, que determinado a superar seus adversários, teve o jogo mais medroso, covarde, conservador, irracional, inconsequente... enfim, o pior jogo que eu já vi de um técnico em 14 anos de NFL. Basicamente, ele não confiou no jogo terrestre em duas 4th and 1 da linha de 1 jarda após turnovers de Seattle, preferindo chutar FGs em ambas as vezes, mas preferiu confiar no jogo terrestre ao invés de dar a bola nas mãos do seu QB MVP em duas conversões curtas e importantes no campo adversário, e correu 5 das 6 jogadas finais da partida (em duas campanhas diferentes) quando o time precisava de uma primeira descida. É muita burrice pra comentar todas aqui, mas ele foi o grande culpado em uma das maiores entregadas da história da NFL.

Por fim, Pete Carroll e seu FG (e sua chamada na 2nd down, mas essa não tenha sido causada por conservadorismo) no Super Bowl também caíram. Eu sempre defendi que técnicos na NFL são conservadores demais - seja pelo medo de errar e ser execrado na mídia, falta de confiança, ou pura burrice - e deixam ótimas oportunidades de melhorar suas chances de vitória na mesa, oportunidades essas que não passam por técnicos melhores como Sean Payton, Bill Belichick, e os irmãos Harbaugh. Esse playoff expôs vários desses conservadorismos e puniu cada um deles de forma exemplar. Quem sabe agora os técnicos não começam a agir com alguma inteligência ao invés de sempre seguir o manual.


- Temporada fantástica de Seattle apesar da derrota. Mas vai ser interessante como esse time vai se virar agora que perdeu o benefício salarial de pagar contratos de calouros para alguns de seus melhores jogadores. Sherman e Thomas já foram pagos, Wilson e Lynch receberão gigantescos aumentos essa offseason, e contribuidores como Bruce Irvin, Bobby Wagner e Cliff Avril logo exigirão novos contratos. Vai ser dificílimo manter todo o time junto, ainda mais manter a profundidade que faz de Seattle tão temível, e esse SB mostrou algumas limitações que Seattle poderia adereçar se tivesse condições (principalmente WR e TE). Vai ser um desafio interessante para John Schneider, um dos melhores e mais low-profile GMs da NFL, manter esse time junto ou mesmo reconstruí-lo conforme seguem se agrupando em torno de Wilson e dessa jovem e talentosa defesa.

By the way, Richard Sherman deve fazer mesmo Tommy John Surgery, e possivelmente perderá a temporada 2015 da NFL já que o tempo de recuperação dessa cirurgia na MLB é entre 12 e 18 meses (por outro lado, a MLB tem testes decentes pra PEDs. Na NFL recupera-se disso em duas semanas).


- Eu ia deixar esse ponto final fora da coluna, porque não queria gerar polêmica. Mas considerando o quanto a questão é apertada e vira uma questão de opinião, eu decidi que quero dar a minha. Ela existe, e não tem nada que você pode fazer a respeito além de concordar, discordar, debater, argumentar. Ela é minha opinião e ponto.

Mas, para mim, Tom Brady recuperou o cinturão de "Melhor QB da sua geração".

O debate Brady-Manning é muito mais apertado e parelho do que as pessoas que querem argumentar um dos lados parecem pensar. Não é nem um pouco fácil achar uma vantagem, e a verdade é que esse cinturão vai passando de um para o outro conforme o tempo avança. Brady começou melhor com seus três títulos; daí Manning bateu recordes, venceu seu primeiro título, e dominou a NFL por alguns anos; dai Brady teve a incrível temporada 18-1 e quase encerrou o debate de vez; dai Brady machucou e Manning carregou mais alguns times medíocres a ótimas temporadas ganhando alguns MVPs no processo; dai Brady voltou com tudo e ganhou mais um MVP e chegou a mais um Super Bowl enquanto Manning se machucava; dai Manning voltou ao Broncos, quebrou mais recordes, e depois mais alguns recordes, e depois ainda achou mais recordes para quebrar, chegando ao Super Bowl mais uma vez; e agora Brady ganha seu quarto anel e terceiro Super Bowl MVP, igualando os recordes de Joe Montana, seu ídolo de infância e melhor QB de todos os tempos. É uma batalha mais disputada e com mais viradas e reviravoltas do que Federer vs Nadal em Wimbledon em 2008. No fundo, quem ganha somos nós, que vimos esses dois titãs do esporte, dois dos 5 melhores QBs da história, disputando um contra o outro e contra o resto do mundo durante 16 anos.

Mas pra mim, Brady recuperou - talvez em definitivo se Manning realmente aposentar - o cinturão depois do que ele fez. Não só no Super Bowl, mas em todo o ano, mantendo junto e funcionando mais um ataque remendado e cheio de jogadores que ninguém mais quis e levando mais uma vez esse time ao topo do pódio. New England venceu 13 dos últimos 15 jogos do campeonato, de forma muito dominante, e Brady foi o centro de tudo. Ele inclusive adicionou mais dois jogos icônicos para seu invejável currículo - a incrível atuação contra o Ravens, onde venceu o jogo sozinho com exatamente zero corridas de seu ataque no segundo tempo, e um Super Bowl fantástico. O Super Bowl foi a coroação de uma temporada fantástica, aos 37 anos, e um jogo para ficar marcado no seu currículo ao lado de tantos outros, uma demolição fantástica e sistemática do poderoso time do Seahawks. Eu ligo zero para recordes como passes, TDs ou jardas em Super Bowls, porque não da pra levar a sério as estatísticas de passe da atualidade, mas a forma como ele fez contra uma excelente defesa que chamou a atenção. Tirando aquele terceiro período onde sua linha entrou em colapso e uma interceptação ruim no primeiro tempo, Brady foi simplesmente imparável e cirúrgico, achando falha atrás de falha na fortíssima defesa de Seattle. Revendo hoje as 4 campanhas de touchdown, é desmoralizador de se assistir como ele continuava movendo as correntes com passes curtos, e isso com zero ajuda do jogo terrestre, seus RBs totalizando para 53 jardas a 2.9 jardas por corrida. Merecidamente ganhou o MVP.

E assim como aqueles que acham que ter 4 títulos faz de você automaticamente melhor que quem tem 2 estão muito errados, também estão aqueles que acham que essa diferença não tem importância alguma. Tudo depende de contexto, e embora Brady tenha sido secundário nos primeiros títulos a uma grande defesa com um playbook conservador, ele também foi quem apareceu em horas decisivas ao longo de sua carreira. Um QB não ganha títulos sozinho, sem a menor dúvida, mas o New England Patriots não teria ganho esse título se não fosse Thomas Edward Patrick Brady. E isso é bom o suficiente pra mim. Mais uma vez. E pensar que teve gente que achava que ele tinha que ir pro banco na semana 4 em favor do Jimmy Garoppolo... 


- Essa foi de longe a mais desgastante temporada de NFL que eu já cobri. Dentro de campo, fora de campo. Foi uma das mais mal conduzidas, e aconteceram coisas que me fizeram questionar minha dedicação ao esporte. Em campo, foi uma das mais intensas, movimentadas, com playoffs fantásticos e muitas coisas acontecendo rapidamente. E acabou em um excelente Super Bowl, muitos gritos, e uma namorada que me deixou profundamente orgulhoso chorando pelo seu time, que enfim ganhava um título. Eu preciso de férias da NFL pela primera vez na minha vida, recarregar as baterias antes de assistir vídeos e analisar o próximo Draft, estudar fantasy e lineups, e lembrar de todas as besteiras que meu SF fez nessa offseason. A temporada foi ótima, acabou de forma ainda mais fantástica possível, e aqui me despeço da temporada 2014 da NFL.

Ou melhor, nas palavras do grande Bill Belichick:

On to the offseason...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma coluna nível Hall da Fama

Não basta ser bom, tem que ser bom e ter estilo


Hoje, dia 28 de Outubro de 2014 (ou pelo menos foi o dia que eu comecei a escrever a coluna), no dia da trade deadline da temporada 2014, o veteraníssimo cornerback Champ Bailey anunciou sua aposentadoria, depois de quinze temporadas muito bem sucedidas na NFL. Ele não tinha conseguido um emprego essa temporada - fez pré-temporada com o Saints mas acabou cortado - e decidiu pendurar as chuteiras.

A ironia de Bailey se aposentar logo em um trade deadline é notável, já que Bailey esteve envolvido em uma das mais famosas e importantes trocas entre jogadores da história da NFL, quando o então Pro-Bowler Bailey foi trocado pelo Redskins pelo RB Clinton Portis - saindo de duas temporadas seguidas com 1500+ jardas terrestres - do Denver Broncos, em 2003. Tanto Bailey como Portis tiveram amplo sucesso em suas novas equipes, e até hoje é dificílimo encontrar uma outra troca jogador-por-jogador tão importante e envolvendo dois jogadores no auge como foi o caso dessa. 

Mas não foi isso que chamou minha atenção nessa aposentadoria, e sim o quanto o termo "Hall of Famer" parece ter surgido. E ainda mais notável, como ninguém parece ter a menor dúvida de que Bailey pertence ao Hall. Não é uma discussão, é uma simples constatação. Champ Bailey vai entrar no Hall da Fama, cedo ou tarde. 

Então essa me pareceu uma excelente desculpa para finalmente escrever uma coluna que eu planejo a meses e nunca tive motivação para sentar a bunda e começar. Muitas pessoas adoram perguntar se jogador X ou Y da NFL vai para o Hall da Fama quando se aposentar, então é a hora de sentarmos e decidirmos isso de uma vez por todas: entre os jogadores ativos, quais estarão no Hall da Fama?

Essa é a pergunta que essa coluna vai responder - vamos pegar todos os jogadores da NFL em atividade e separar qual deles merecem pelo menos entrar na conversa pelo Hall da Fama. Depois de muito deliberar, acabei separando os jogadores selecionados em quatro (mais uma extra) categorias diferentes, de acordo com o que eu imagino que seja a relação atual deles com o Hall da Fama, e o quão perto estão de lá entrarem. 

Antes de começar a falar sobre quais são os jogadores que entram nas quatro (tecnicamente cinco) categorias, eu criei duas regras para essa coluna: primeiro, só jogadores que jogaram pelo menos cinco ou seis temporadas completas na NFL. Acho que não preciso explicar o porquê dessa regra, mas enfim, é para evitar especulação muito aleatória sobre jogadores jovens que estão apenas começando suas carreiras (também fui muito mais crítico com jogadores que estão no sexto ou sétimo ano de suas carreiras). E segundo, eu acabei deixando de fora todos os lineman ofensivos, porque não existe uma posição mais aleatória e difícil para se avaliar na NFL. 

Por fim, um último comentário: na hora de separar os jogadores entre as categorias, eu tentei levar em consideração os critérios adotados pelo Hall da Fama real da NFL, não apenas minha opinião. Por exemplo, eu não acho que Eli Manning mereça entrar no Hall, mas tenho certeza de que o comitê vai considerá-lo quando chegar a hora por causa de seus dois títulos. Então usei o ponto de vista do Hall da Fama na hora de classificar o QB do Giants, e tantos outros. Tenham isso em mente antes de sair me xingando, lembrem-se de que a classificação é de acordo como eu acho que o Hall da Fama vai avaliar esses jogadores, não de como EU avaliaria esses jogadores.

Enfim, começamos com nossa primeira categoria...


Sure-fire Hall of Famers
Aqueles que não tem dúvida de que entrarão no Hall da Fama. Jogadores excepcionais que, se aposentassem hoje com Champ Bailey,  entrariam no Hall mesmo assim.

  • Peyton Manning, Quarterback
  • Tom Brady, Quarterback

Os dois nomes mais óbvios e mais fáceis dessa lista. Peyton Manning é um dos cinco melhores quarterbacks da história do jogo, junto de Montana, Elway, Marino e Unitas, uma rara mistura de talento excepcional e longevidade. Ele detém quase todos os recordes entre quarterbacks da história da NFL, e é o recordista de MVPs. Seu eterno rival Brady não está nesse nível, mas não está muito para trás, outro lendário QB que figura entre os melhores de todos os tempos. Ele e Brady combinam para quatro Super Bowls, seis MVPs (e contanto), lideraram os ataques mais produtivos da história da NFL, e lideraram os dois times mais consistentemente bons dos anos 2000 (junto do Steelers). Não tem como sequer supor que um deles POSSA ficar de fora do Hall da Fama. Sua rivalidade foi tão central e importante para a NFL que seus bustos em Canton deveriam ficar um do lado do outro.

  • Drew Brees, Quarterback

Brees não está no nível Manning/Brady, mas é um Hall of Famer em seu próprio mérito. Entre consistência, durabilidade, produção e sua campanha de título de 2009, ele tem de sobra o que é preciso para ser eleito ao Hall da Fama. Suas quatro temporadas com 5000 jardas na carreira são um recorde da NFL, e mais do que Brady e Manning tem JUNTOS, e ele tem sido incrivelmente durável ao longo da sua carreira: nos últimos 11 anos, Brees não jogou em apenas DOIS jogos. Excelente no seu auge, excelente na totalidade da carreira. Estará em Canton um dia.

  • Champ Bailey, Cornerback
  • Charles Woodson, Cornerback

Woodson foi o melhor cornerback que eu vi jogar - Bailey foi o segundo. Dois jogadores diferentes, mas igualmente destrutivos na posição e que tiveram sua chance de brilhar nos playoffs (ainda que só Woodson se aposente com um anel). Juntos eles somam 32 temporadas, 110 interceptações, e 20 Pro Bowls. Desde o Merger, em 1970, Woodson e Bailey estão em 7th e 16th, respectivamente, em interceptações, e 1st e 2nd entre jogadores em atividade. Woodson ainda é segundo em retornos de interceptações para touchdowns com 11 desde 1970.

Não sei se da para fazer muito melhor do que isso. Dois jogadores com carreiras longas e espetaculares, com múltiplos anos de sucesso e auges espetaculares. Dois jogadores diferentes - Bailey era um corner cover mais tradicional, Woodson era um pouco mais híbrido e gostava de jogar perto da linha de scrimmage - mas foram ambos jogadores memoráveis que estão entre os grandes da história nas suas respectivas posições.

  • Ed Reed, Free Safety
  • Troy Polamalu, Strong Safety

Dois dos melhores safeties de todos os tempos, Reed e Polamalu foram a espinha dorsal das duas principais defesas dos anos 2000, e tem entre eles três anéis de Super Bowl, dois Defensive Players of the Year, 17 Pro Bowls, e 9 1st Team All-Pro. Não é um exagero dizem que Reed e Polamalu podem ser, respectivamente, o segundo melhor Free Safety e o segundo melhor Strong Safety da história da NFL (atrás de Rod Woodson e Ronnie Lott, respectivamente).

Foram também dois jogadores bastante únicos e memoráveis. Duvido que algum dia verei um ball hawk melhor do que Ed Reed na NFL, alguém capaz de enganar e ler quarterbacks e cortar linhas de passe melhor do que todos os outros na história da NFL tirando Rod Woodson. Ed Reed sabia ler os olhos dos QBs adversários ao ponto que parecia injusto, ele sempre sabia antes do passe aonde a bola ia e tinha a explosão e velocidade para chegar na bola antes dos recebedores - não a toa se aposentará como o segundo jogador com mais interceptações na era moderna da NFL. Polamalu, por outro lado, era um safety mais físico que gostava de jogar na linha de scrimmage, um jogador com um instinto sobre-humano que ficou famoso por antecipar as jogadas mesmo antes delas começarem a se desenvolver... e claro, pelo seus famosos pulos na linha de scrimmage. Era um pouco surreal ver Polamalu jogar, o tipo de jogador de quem você sempre espera alguma coisa especial a cada jogada. Dois jogadores únicos na história da NFL, que figuram entre os grandes.


  • Jared Allen, Defensive End
  • John Abraham, Defensive End
  • Julius Peppers, Defensive End

De certa forma, podemos dizer que vivemos na era do sack. Depois que Lawrence Taylor revolucionou o que conhecemos por pass rush, a NFL tem gravitado cada vez mais para o jogador que coloca pressão loucamente no quarterback, algo que tem virado ainda mais importante nos últimos 10 anos, quando novas regras favorecendo o ataque começaram a tornar quase impossível para defensive backs pararem o jogo aéreo sozinhos. Então não é a toa que temos três jogadores que estão aqui principalmente porque executaram essa função em altíssimo nível durante um bom tempo.

Abraham, Allen e Peppers rankeiam, respectivamente, 9th, 12th e 16th na NFL em sacks desde que a estatistica foi criada em 1982, e são três dos quatro melhores da NFL no quesito ainda em atividade (o quarto vai aparecer mais para baixo). Em uma era onde a capacidade de pressionar o QB foi ficando cada vez mais importante, esses foram três dos mais destrutivos jogadores defensivos que você pode imaginar, jogadores capazes tanto de afetar o jogo terrestre como consistentemente atrapalhar o jogo aéreo, seja com sacks, seja forçando arremessos piores, seja apenas com sua presença. Allen, Abraham e Peppers foram três dos mais destrutivos pass rushers da sua geração E jogadores versáteis capazes de influenciar jogos mesmo quando não estavam conseguindo chegar no quarterback.

  • Antonio Gates, Tight End
  • Jason Witten, Tight End

Você pode fazer um argumento de que Antonio Gates é o segundo melhor Tight End de todos os tempos depois de Tony Gonzalez, uma máquina de bloqueios e recepções pelo meio que, aos 34 anos, está com números e atuações semelhantes aos que tinha aos 24. Ele é nono na história da NFL recebendo touchdowns (segundo entre TEs), e mesmo isso não descreve o quão inigualável Gates era no seu auge, pulando sobre defensores, atraindo marcações duplas e triplas no meio do campo, e servindo como o principal alvo de um ataque que esteve entre os melhores da NFL por anos a fio.

Witten não é/era tão explosivo e tão dominante quanto Gates, mas a totalidade da sua carreira é uma obra prima de consistência e estabilidade. Em seus 11 anos como titular, Witten perdeu apenas DOIS jogos, e ano após ano lá estava ele tendo temporadas de 90 recepções, 950 jardas e 6 touchdowns. Ele agora é 16th na história (pós-Merger) da NFL em recepções, segundo entre TEs. Sua estabilidade e consistência na posição, tanto recebendo como bloqueando, fazem dele um pilar de sustentação no ataque frequentemente turbulento de Dallas, e embora aos 32 anos Witten ainda lenha para queimar e não pareça estar perto do fim da carreira, acho que ele já fez o suficiente para merecer um lugar no Hall da Fama mesmo se sua carreira acabasse agora.

  • Reggie Wayne, Wide Receiver
  • Calvin Johnson, Decepticon Wide Receiver

Desnecessário justificar porque Wayne - 7th post-Merger em recepções e 9th em jardas, sem falar na participação de alguns dos melhores ataques de todos os tempos em Indianapolis - está aqui. Mas Johnson é mais complicado - ele tem apenas 29 anos, e está apenas na sua oitava temporada.

Talvez seja precipitado para colocar Megatron aqui, mas para mim, ele já mereceu esse lugar. Ele é o segundo ou terceiro WR mais imparável da história da NFL (depois de Jerry Rice e disputando com Randy Moss), e nenhum WR não-Rice consegue igualar o que Megatron fez no biênio 2011-2012 (21 TDs, 3645 jardas, recorde de jardas em uma temporada na história da NFL em 2012). Em termos de dominação, ele não deve nada para o Hall da Fama. Nas costas desse impossível biênio, seu recorde de jardas recebidas, e do nível de dominação histórico que ele alcançou (e, para ser sincero, o fato de ser um dos jogadores mais divertidos e populares da liga), acho que já tem lugar garantido.

O lado negativo de Megatron HOJE seria seu pouco tempo de NFL (apenas 8 anos), lesões e falta de acumulo de estatísticas ao longo da sua temporada, mas acho que se fosse para decidir, ele estaria dentro - ele já tem mais jardas, touchdowns E mais recepções na carreira do que o Hall da Fama John Stallworth, por exemplo. Sua carreira ainda é jovem, mas poucos na história atingiram o nível que Megatron atingiu.

  • Adam Vinatieri, Kicker

Yeah, tem gente que vai reclamar de kickers entrando no Hall da Fama. Azar delas. Vinatieri foi um kicker de elite durante toda sua carreira, 6th kicker com mais field goals da história da NFL com mais de 20 jogos a menos que todos os jogadores na sua frente e com aproveitamento melhor (83.5%). Ele também é quarto na história com mais pontos anotados. Sua consistência é lendária, e isso antes de entrar nos seus chutes heróicos que mudaram o destino de mais de um título - muitos para anotar todos, mas pense no Field Goal na neve para enviar o Patriots ao Super Bowl, e seus dois chutes no estouro do cronômetro para vencer Super Bowls. Em termos de consistência, eficiência, volume e jogadas decisivas por grandes times, não existe nenhum kicker na história da NFL melhor que Adam Vinatieri. Ele merece um lugar no Hall da Fama - é só um fato.



Borderline Hall of Famers
Jogadores que estarão na discussão para o Hall da Fama quando suas carreiras acabarem, mas que não tem um lugar garantido.

  • Eli Manning, Quarterback

Quero deixar isso bem claro: eu não acho que Eli Manning mereça estar nesse grupo. Mas considerando que estamos pensando no ponto de vista do Hall da Fama, Eli precisa ser incluído porque, quando se aposentar, a discussão sobre se ele entrará ou não será real.

Isso acontece principalmente porque Eli atingiu alguns "pontos arbitrários" na sua carreira que, em geral, o comitê do Hall da Fama gosta de olhar. Ele tem dois títulos E dois Super Bowls MVP, que dão credencial a fama (bastante exagerada) de que Eli é um grande jogador "clutch" ou grande jogador de playoffs, o tipo de narrativa que pode colocar um jogador no Hall. Além disso, suas duas campanhas de Super Bowl tiveram um "bônus": na primeira, o Giants venceu os invictos e invencíveis 18-0 Patriots e evitaram uma temporada perfeita, e em 2011 Eli Manning bateu vários recordes de playoffs como jardas e passes completos (em grande parte porque não teve bye na primeira rodada, mas enfim). O número de anéis e Super Bowl MVPs, junto das narrativas exageradas, vai acabar levando muita gente a achar que ele REALMENTE merece um lugar lá.

Quando você examina a carreira de Eli como um todo, no entanto, você percebe que ele foi entre medíocre e apenas bom durante a maior parte da sua carreira (inclusive muitas vezes nos playoffs), que ele é o terceiro QB ativo com maior número de interceptações (os dois na sua frente tem pelo menos 1.800 passes a mais na carreira), e que seus dois títulos de Super Bowl vieram nas costas de defesas extremamente dominantes na linha de scrimmage e muitos erros cruciais dos adversários. No final, somando tudo, Eli foi um bom quarterback com uma boa carreira que merece seu crédito por dois títulos, mas não mais que isso. Não importa - alguém vai olhar para os Super Bowl MVPs e para as histórias e colocar Manning nessa conversa... e o pior, tem boas chances de acabar entrando.

  • Robert Mathis, Defensive End
  • Dwight Freeney, Defensive End

A dominante dupla de pass rushers do Colts nos anos 2000 são o quinto e o sexto jogadores da atualidade com mais sacks (111 e 110, respectivamente), e Mathis ainda tem o maior número de fumbles forçados entre todos os jogadores da história da NFL com pelo menos 100 sacks (55) e uma temporada com 19.5 sacks em 2013. Eles foram muito dominantes por muito tempo, e jogaram em times importantes, inclusive nos playoffs.

No entanto, Mathis e Freeney ainda estão um degrau abaixo de Abraham, Allen e Peppers quando falamos na totalidade das suas carreiras. Apesar de seus números impressionantes e estrago causado ao longo do tempo como pass rushers, eles tem um problema: eles foram um pouco unidimensionais demais, não afetando a totalidade do jogo com o mesmo brilhantismo de seus colegas.

Freeney, por exemplo, é de longe o jogador com menos tackles entre todos os jogadores com 100+ sacks na carreira, um jogador devastador caçando o quarterback mas que pouco afetava jogadas de corrida ou mesmo quando tinha que recuar em cobertura. Mathis, por outro lado, foi um pass rusher situacional durante grande parte da sua carreira, tendo começado apenas 99 partidas como titular, e também sendo mais um pass-rusher do que um brilhante jogador all-around como os três que estão uma categoria acima. Mathis ainda tem um problema recente de uso de PEDs, que pode atrapalhar suas chances.

Ainda assim, como pass rushers eles foram MUITO dominantes, e considerando o quanto o Hall da Fama gosta de números cumulativos, a quantidade de sacks da carreira desses dois vai acabar sendo suficiente para colocá-los na conversa por um lugar no Hall da Fama. Mas não foram os jogadores que Abraham, Allen e Peppers foram, e terão um caminho um pouco mais difícil até Canton.

  • Charles Tillman, Cornerback
Entre os líderes da história da NFL em fumbles forçados, Peanut Tillman aparece em sétimo com 42... o que é incrível quando você lembra que Tillman era um cornerback. Seus 42 fumbles forçados são mais do que Peppers, DeMarcus Ware, Derrick Thomas, Reggie White, Jared Allen, Jevon Kearse, Simeon Rice, Derrick Brooks e Michael Straham conseguiram nas suas carreiras. O defensive back mais bem colocado na lista depois de Tillman é Brian Dawkins, em 12th... que tem 70 jogos na carreira a mais que Tillman. Isso faz de Peanut um dos jogadores mais únicos da história da NFL, um cornerback que não só podia te causar dano na cobertura, como era mortal mesmo depois que os jogadores já tinham a bola nas mãos, com seu famoso "Knuckle punch".

O problema de Tillman é que ele foi um ótimo jogador com uma caraterística única, mas que não teve exatamente uma grande carreira na sua totalidade. Ele foi um defensor chave em uma série de grandes defesas, mas jogou 14 jogos ou mais apenas nove temporadas diferentes, tendo outras três cortadas por lesões. Ele também foi a apenas 2 Pro-Bowls. Tillman certamente jogou em nível HoF ao longo da sua carreira, mas a TOTALIDADE da sua carreira deixa a desejar nesse sentido. Por outro lado, também vale citar que Tillman deve receber uma "ajuda" extra por ser um jogador tão querido, alguém muito profissional dentro e fora de campo que fez muitas obras importantes na sua vida pessoal. Isso acaba influenciando, querendo ou não. No final, acho que Tillman tem chances por ser um jogador tão único e tão querido.


  • Larry Fitzgerald, Wide Receiver

O problema com Larry Fitzgerald: ele passou a maior parte da sua carreira jogando com QBs como Matt Leinart, John Skelton, Kevin Kolb, Ryan Lindley, Drew Stanton e Carson Palmer em fim de carreira. Holy hell, que lista horrorosa! A grande tragédia para Larry foi o quão pouco ele jogou com um saudável Kurt Warner, mas quando o QB jogou pelo menos 10 partidas pelo Cardinals, pudemos ver o quão ridículo é Larry Fitzgerald com um bom quarterback. Em 2005, Warner jogou 10 partidas, e foi suficiente para Larry terminar o ano com 103 recepções, 1409 jardas e 10 touchdowns. Em 2007, Warner jogou 11 partidas, e Larry teve 100 recepções, 1409 jardas e 10 touchdowns. E quando Warner finalmente assumiu a titularidade definitiva em 2008, Fitz imediatamente teve um dos melhores biênios da história moderna da NFL, com 193 recepções,  2523 jardas e 25 touchdowns. Sua carreira foi muito prejudicada pelos anos nos quais teve que fazer milagre com QBs ruins, e isso impediu mais números monstruosos na totalidade da sua carreira, mas quando ele teve ajuda... holy crap, ele era bom. Se Randy Moss é o melhor WR que eu vi jogar, Megatron e Fitzgerald disputam o segundo lugar. Entre os WRs em atividade, ele é #5 em recepções, #4 em jardas recebidas, e #1 em touchdowns, e isso jogando metade da carreira com QBs que provavelmente seriam reservas do time do seu bairro.

Mas não é por isso que eu acho que Larry muito provavelmente vai acabar no Hall da Fama. O principal motivo são os playoffs de 2008, quando Larry liberou o inferno na Terra. Eu assisti cada jogo daqueles playoffs, e lembro de estar em choque vendo o que Fitz fazia. Assistir ele era uma experiência de vida, alguém que parecia estar em outro nível e jogando outro esporte em relação ao resto das pessoas em campo. Ele acabou aquela pós-temporada com 30 recepções, 549 jardas e 7 touchdowns, os três recordes de playoffs da história da NFL. Foi uma das seqüências mais dominantes da história da NFL por um WR, e mesmo sem título, acho que vai acabar sendo suficiente para empurrar o camisa 11 até o Hall da Fama.

Eu queria colocar Larry na categoria anterior, mas decidi colocá-lo aqui por dois motivos. Primeiro, porque o Hall da Fama da NFL é bastante rígido com WR, com vários bons WRs chegando perto mas não conseguindo ultrapassar a votação final. Segundo, porque eu tenho certeza que, quando for a vez dele, alguém vai olhar para seus números com caras como Leinart e Lindley e falar "hmm, esses números não são tão impressionantes assim" sem lembrar quem são Leinart e Lindley. Todo mundo na primeira categoria qualificam para "se a carreira desse cara terminar amanhã por algum motivo, ele ainda assim vai entrar no Hall da Fama ou chegar muito perto", e eu acho que Larry não está exatamente lá ainda. Mas quando tudo estiver terminado, eu com certeza acredito que Fitzgerald terá um lugar em Canton. Ele é de longe o melhor WR do resto dessa lista.


  • Wes Welker, Wide Receiver
  • Steve Smith, Wide Receiver
Dois dos mais consistentes WRs da NFL dos últimos anos: entre jogadores em atividade, Smith é 3rd em recepções e 4th em jardas recebidas, e 5th em touchdowns, enquanto Welker é 6th, 9th e 14th, respectivamente.

Steve Smith, indiscutivelmente o maior Panther de todos os tempos, é um jogador que baseia seu argumento na totalidade da sua carreira: sete temporadas com 1000+ jardas, mais sete com 6+ touchdowns recebendo - sem contar suas contribuições como retornador. Na história da NFL, ele está no top20 (entre todas as posições) tanto em recepções como em jardas, e 23rd em touchdowns - melhor do que jogadores como Michael Irvin e Art Monk, que estão no Hall. Falta a ele talvez aquele auge espetacular ou mesmo um anel de campeão, mas considerando seus números, sua longevidade, eo enorme respeito que ele comanda dentro da NFL - um cara durão e ultra-competitivo que você não quer cruzar o caminho sob hipótese alguma - e seu valor para uma jovem franquia, e acho que Smith merece pelo menos estar na conversa.

Wes Welker, por outro lado, explodiu muito mais recentemente, quando foi ao Patriots em 2007. Mas desde então, ele tem sido talvez o melhor WR da NFL inteira, liderando a NFL em recepções nesse período. Mas acho que mais incrível para mim é o seguinte dado: lembra que eu disse que Wes Welker é 6th entre jogadores em atividade em recepções? Bom, ele fez isso recebendo 70% (!!!) das bolas lançadas na sua direção - nenhum outro WR no Top90 consegue chegar perto disso (Jordy Nelson é #2 com 67%). Sua consistência e produção ao longo dos últimos anos é quase lendária, e vale lembrar que ele fez parte de dois dos ataques mais produtivos da história da NFL. Suas chances diminuem pela falta de um título (0-3 em Super Bowls) e pela carreira relativamente mais curta (em auge), e pela percepção negativa de só ter explodido quando foi jogar com dois QBs Hall of Fame, mas ao final do dia, acho que Welker é um jogador que vai merecer consideração.


  • Anquan Boldin, Wide Receiver
Se eu pedisse para você listar os WRs mais dominantes da NFL ainda em atividade (em termos de carreira), Boldin provavelmente não seria um nome na ponta da sua língua. E eu não sei porque, já que ele definitivamente tem as credenciais: ele é o quarto WR em atividade com mais recepções, e quinto em jardas e touchdowns. Na história da NFL (post-merger), ele é 15th em recepções e provavelmente entrará no top12 (talvez top10) até o fim da carreira. Não tem nenhum motivo legítimo para Boldin não aparecer entre os grandes WRs da sua geração.

O "problema" de Boldin é que seu estilo de jogo não é particularmente chamativo. Ele não é o cara das recepções impossíveis ou das jogadas explosivas, ele é o cara eficiente e seguro que garante as recepções em terceiras descidas e mantém as correntes em movimento. Eficiência e consistência não são as coisas que chamam a atenção, mas são as que te garantem vitórias. Boldin é sub-apreciado ao ponto de que ele foi trocado DUAS VEZES na sua carreira por migalhas, e nas duas vezes, o time que o trocou imediatamente piorou muito ofensivamente e o time novo deu um salto. Boldin pode ser pouco apreciado, mas poucos WRs eram tão seguros e tão eficientes como ele.

Porque colocar Boldin nessa categoria e não na próxima, se todo mundo sabe o quanto o Hall da Fama se preocupa muito com a imagem? Por causa das suas atuações espetaculares em playoffs. Ele foi fantástico ao lado de Fitzgerald levando o Cardinals ao Super Bowl em 2008, e foi de longe o melhor jogador do Ravens no título de 2012 (impressionante considerando o quão bem Joe Flacco jogou aquela pós-temporada). Em 2012 em particular ele foi imparável, com 22 recepções, 4 touchdowns e 390 jardas, e mesmo isso não diz o quão importante ele foi: sempre que o Ravens precisava de uma conversão chave, a bola era nele. Sempre que não tinha uma jogada a ser feita, Flacco simplesmente jogava a bola na direção dele e ele conseguia uma recepção por cima de dois defensores. No final, a totalidade da sua carreira, sua consistência e suas performances em playoffs pesarão o suficiente para que o comitê não tenha escolha senão levá-lo em consideração. Eu acho que ele não vai conseguir entrar, no final das contas, mas ele vai receber a atenção merecida e um muito atrasado reconhecimento. Anquan Boldin foi muito, muito bom.


  • Kevin Williams, Defensive Tackle
Nenhum defensive tackle na atualidade consegue chegar perto de igualar os 63 sacks que Williams totalizou em sua carreira - Cullen Jenkins, o segundo colocado, tem 43.5. E mesmo que DT geralmente seja uma posição pouco valorizada, Williams recebeu muita (merecida) atenção ao longo da carreira como membro da Williams Wall, o pilar defensivo durante tanto tempo do Minnesota Vikings. Ele até conseguiu dois retornos de interceptação para touchdown... no mesmo ano (2007!)! Ele foi 1st-Team All-Pro por quatro anos seguidos, uma legítima estrela de linha defensiva dos dois lados da quadra, e a definição de excelência entre DTs durante toda uma geração. Sua posição de pouco glamour e muitas vezes difícil de ser avaliada dificulta sua entrada no Hall da Fama, mas muito provavelmente terá um busto em Canton algum dia.



Not-quite-there Hall of Famers
Jogadores que tiveram uma ótima carreira, mas que provavelmente falta alguma coisa para que eles sejam considerados como sérios candidatos ao Hall da Fama

  • Andre Johnson, Wide Receiver

Senhoras e senhores, a maior injustiça dessa coluna inteira.

Se estamos avaliando jogadores de acordo com o que eles foram individualmente, não resta dúvida de que Andre Johnson merece fortíssima consideração para um lugar no Hall da Fama. Entre jogadores (não Wide Receivers, jogadores) em atividade, Johnson é o segundo com mais recepções e jardas aéreas na carreira, atrás apenas do futuro HoF Reggie Wayne. Na história da NFL, Johnson é 11th em recepções e 13th em jardas (50th em touchdowns). Ele liderou a NFL em jardas duas temporadas seguidas (2008 e 2009), totalizando 213 recepções e 3140 jardas aéreas (!!!) no biênio. Johnson definitivamente merece um lugar em Canton.

Então porque colocar Johnson aqui e não na categoria acima? Por um motivo besta - glamour. O Hall da Fama adora glamour, adora histórias, adora grandes feitos, grandes partidas de playoffs, jogadores que tiveram carreiras marcantes e que ganharam um lugar nas canções (ops, por um momento achei que estava falando sobre Game of Thrones. Falha minha). E infelizmente, Johnson dificilmente vai ganhar pontos nesse quesito com o júri: ele passou a carreira inteira jogando por uma franquia de pouca expressão, muitas vezes em times ruins. O Texans nunca fez estrago nos playoffs, nunca foi um candidato ao título, nunca foi um time que chamasse atenção. De certa forma, Johnson nunca teve a chance de ser relevante em uma temporada da NFL, em termos da big picture. Isso é uma enorme injustiça, porque não é culpa dele o quão bom o time dele não era, ou que Matt Schaub tenha se machucado logo que o Texans finalmente parecia ter chance de algo a mais. Mas infelizmente, o Hall leva isso em conta.

Eu realmente espero estar errado, e espero que um dia Johnson possa ser reconhecido pelo quão bom ele foi, não pelo que seu time deixou de fazer. Mas por enquanto, acho que vai ficar faltando esse "algo a mais", nos olhos do comitê, para que ele assuma seu lugar por direito.

  • Ben Roethlisberger, Quarterback

Se Johnson é o maior injustiçado dessa coluna, Big Ben tem um bom argumento para ser o segundo. De forma alguma Big Ben não foi um QB melhor do que Eli Manning: ambos foram draftados juntos em 2004, e desde então, os números certamente favorecem Big Ben, bem como o teste visual de ver os dois jogando a posição. Ambos estão muito próximos em jardas (36918 a 36485 para Eli) e touchdowns (250 a 248 para Ben), mas o QB do Steelers destrói seu colega em todo o resto: aproveitamento nos passes (63.6% a 58.8%), jardas por passe (7.7 contra 6.5) e interceptações (125 contra 176). Na totalidade das suas carreiras, Big Ben tem ampla vantagem em rating (91.4 a 81.9) e DVOA. Ambos tem, inclusive, dois anéis de Super Bowl com boas atuações, mas cujo principal trunfo da equipe era uma forte defesa. Sob hipótese alguma Eli Manning foi um jogador melhor do que Big Ben.

Ainda assim, quando falamos em Hall da Fama, o nome de Manning sempre aparece primeiro e o de Roethlisberger depois. Em parte isso pode ser porque ninguém sabe soletrar "Roethlisberger". Mas o principal motivo é que, apesar de Ben ser um jogador melhor, Manning tem dois Super Bowl MVPs e Big Ben não. Esse é o único motivo, na verdade, e é um péssimo motivo. Big Ben foi o melhor jogador, o mais consistente, e o mais talentoso, mas por causa de um parâmetro arbitrário desses, ele fica um nível abaixo na busca pelo Hall da Fama, aguardando quem sabe um terceiro anel ou mais algumas temporadas espetaculares para tentar subir um degrau mais próximo de Canton.


  • Phillip Rivers, Quarterback

Se você quiser saber, em um vácuo (ou seja, considerando apenas os jogadores individualmente, ignorando o resultado dos times) quem é o melhor QB da classe de 2004, é bem fácil: Philip Rivers. Alias, é possível argumentar que Rivers é um dos cinco melhores QBs dos últimos 10 anos na NFL depois de Brady, Manning, Brees e Aaron Rodgers. Inclusive, desde 2005, ele é 5th em jardas e passes completos, 4th em TDs, 5th em aproveitamento, 2nd em jardas por passe (min: 1500 passes) e 5th em QB Rating. Na carreira, Rivers tem 64.6% de aproveitamento, 7.9 jardas por passe, e 96.8 de QB Rating. Para efeito de comparação, futuro Hall of Famer e melhor QB da sua geração Manning tem 65.6% de aproveitamento, 7.7 jardas por passe e 97.9 QB Rating na carreira. Muito bom, não?

Apesar de seu brilhantismo individual, é bem improvável que Rivers chegue a ganhar séria consideração para o Hall da Fama como as coisas estão agora, simplesmente porque não tem um título de Super Bowl. Para Quarterbacks - a posição que de longe tem maior influencia individual em um jogo de futebol americano - o número de titulos tem um papel ainda mais crucial para determinar o status da sua carreira. Tem alguma parte válida nesse argumento, tem uma parte um pouco injusta (ninguém ganha título sozinho, ou perde), mas o fato é que a não ser que algo especial aconteça - um MVP, uma temporada com múltiplos recordes, ou ainda melhor, um título de campeão - Rivers deve acabar mais longe do Hall da Fama do que seus colegas de Draft, que ainda que inferiores possuem mais títulos no currículo.


  • Frank Gore, Running Back
  • Steven Jackson, Running Back

Frank Gore e Steven Jackson tem muito em comum: são dois dos melhores RBs da sua geração, e 2nd e 1st em jardas terrestres entre RBs ainda em atividade. Ambos gastaram seu auge em times fracos, embora Gore ainda tenha tido a chance de brilhar em times candidatos ao título no final de sua carreira. Jackson é 17th em jardas terrestres na história da NFL, e Gore deve entrar no Top20 até o fim do ano. Em jardas de scrimmage entre RBs, Jackson é 16th e Gore deve chegar a 17th ainda esse ano. Não importa como você olhe, Jackson e Gore são dois dos melhores RBs que tivemos na NFL, duas máquinas consistentes de carregadas que carregaram nas costas franquias tristes por quase toda a carreira.

O problema com eles? Eles foram muito bons por muito tempo e tiveram ótimas carreiras... mas nunca foram realmente fantásticos. Tirando uma temporada de Steven Jackson (2006), nenhum dos dois teve uma temporada no qual foi inquestionavelmente um dos dois ou três melhores RBs da NFL, nenhum liderou a liga em jardas terrestres durante uma temporada, ou tem um anel de campeão, coisas que pesam na votação. Consistência e durabilidade levam a uma carreira boa na sua totalidade, mas falta a eles aquele "alto a mais" para colocá-los na discussão. Jackson jogou apenas dois jogos de playoffs na carreira (totalizando 68 jardas apenas), por exemplo. Frank Gore teve mais oportunidades, e aproveitou-as muito bem (ele foi espetacular nos playoffs de 2012 por San Fran), e se tivesse sido campeão, esse anel e sua performance como principal jogador ofensivo da equipe provavelmente seriam o argumento que empurrariam Gore um degrau acima. Por enquanto, os dois ficam no grupo de bons jogadores que tiveram ótimas carreiras, mas não foram dominantes ou relevantes o suficiente para valer uma vaga na discussão.

(Se Frank Gore ficar saudável mais dois anos, totalizando mais 2000 jardas e entrando no Top10 de jardas terrestres na carreira da história da NFL? Ai a coisa muda de figura, especialmente com mais algumas aparições de playoffs e quem sabe um Super Bowl para empurrar. Um anel e passar Edgerrin James pelo 10th lugar na lista certamente colocariam Gore no Hall da Fama. Mas aos 31 anos e no último ano de contrato, as chances parecem estar contra ele)


  • Lance Briggs, Linebacker
Outro exemplo de um bom jogador que foi bom durante muito tempo e totalizou uma boa carreira, mas que nunca foi realmente dominante individualmente. Apenas um 1st Team All-Pro, e em parte por sempre ter jogado a sombra de seu parceiro Hall of Famer Brian Urlacher, nunca uma figura que recebia grande consideração para Defensive Player of the Year. De novo, um jogador que foi consistentemente muito bem por um período longo de tempo, mas que nunca teve aquele algo a mais  no seu jogo e que nunca atingiu aquele nível especial para garantir a ele um lugar no Hall. O famoso jogador do Hall of Very Good. 


  • Justin Smith, Defensive End

Deixa eu deixar isso bastante claro: Justin Smith muito provavelmente não vai para o Hall da Fama, e dificilmente vai receber muita consideração quando chegar sua vez. Em parte, por ele jogar em uma das posições menos apreciadas da NFL, Defensive End de uma defesa 3-4, um jogador que na maior parte do tempo suas contribuições são importantíssimas para o time mas não aparecem como estatísticas: ocupar dois bloqueadores para liberar seus companheiros, fechar um buraco com o corpo para interromper a trajetória de um corredor, forçar um QB para fora do pocket, etc. Funções cruciais, mas pouco sexys, e difíceis de serem avaliadas.

Mas eis o que eu sei, porque vi Smith jogar por tanto tempo: ele é uma das mais consistentes e destrutivas forças defensivas que a NFL viu nos últimos 12 anos, um jogador que faz todas essas pequenas coisas em altíssimo nível para facilitar o jogo de todos os seus companheiros E ainda consegue ser individualmente dominante. Apesar de jogar em uma posição de menor expressão individual, ele ainda conseguiu somar 85 sacks na carreira - isso é mais do que os totais de Osi Umeniyora, Mario Williams, Shaun Phillips, Andre Carter, James Harrison, Justin Tuck... e claro, Kevin Williams.

O problema é que é realmente difícil medir e avaliar como um jogador como Smith impacta o jogo. Se a NFL tivesse uma versão como WAR - uma estatística capaz de compilar todas as coisas que um jogador faz em campo e juntar em um número só - Smith seria um dos lideres da NFL sem a menor sombra de dúvida. O mais próximo que temos disso na NFL é o Aproximate Value, do PFR. E claro, entre todos os jogadores defensivos da atualidade, Justin Smith é o quarto colocado em AV, atrás apenas de Ed Reed, Julius Peppers e Charles Woodson, e mais do que John Abraham, Williams, Jared Allen, Troy Polamalu, DeMarcus Ware, Dwight Freeney - todos jogadores que receberam (ou receberão) elogios nessa coluna. Mas ninguém olha para AV, assim como ninguém consegue dizer exatamente o quanto Smith foi essencial para suas defesas ocupando bloqueadores, forçando mudanças de trajetórias de RB, e liberando seus companheiros para se moverem com liberdade.

Justin Smith deveria entrar no Hall da Fama um dia. Provavelmente não vai acontecer, mas ele merece um lugar. Ele é um dos melhores e mais dominantes defensores da sua geração.


  • James Harrison, Outside Linebacker

A maior parte dos jogadores dessa categoria são ótimos jogadores que tiveram ótimas carreiras, mas nunca foram dominantes o suficiente. James Harrison, por outro lado, é o oposto: um jogador que começou tarde, teve um auge extremamente dominante, mas que não conseguiu sustentar isso por muito tempo.

Harrison virou titular apenas em 2007, aos 28 anos, depois de três anos medíocres na NFL, e imediatamente se estabeleceu como uma força da natureza: durante as próximas cinco temporadas, Harrison foi um dos melhores defensores da NFL, totalizando cinco Pro Bowls, dois 1st Team All-Pro, um DPOY, um Super Bowl, um ano com 16 sacks, e 54 sacks no total - sem falar da sua habilidade dando tackles e parando o jogo corrido (nenhum jogador entre 2007 e 2011 com pelo menos 22 sacks chegou perto dos 321 tackles que Harrison deu no período). E dai, talvez pela idade, Harrison caiu de novo: foram apenas seis sack em uma decepcionante campanha de 2012, depois da qual ele foi dispensado. Sua temporada 2013 foi esquecível, e 2014 tem sido igualmente decepcionante.

Então sim, Harrison foi um jogador extremamente dominante e temido no seu auge, mas foi um auge que durou cinco anos, praticamente, e isso com poucos complementos nos anos seguintes (ou passados) para a totalidade da sua carreira. Seu auge certamente foi nível Hall da Fama, bem como sua história (não draftado, entrou na NFL já com 25 anos, etc) mas não a sua carreira como um todo, e por isso ele provavelmente vai estar olhando de fora o Hall em alguns anos (o fato de muitos enxergarem Harrison como um jogador sujo e violento também não ajuda).


  • Chris Johnson, Running Back

Menção honrosa por sua temporada de 2000 jardas E que quebrou o recorde de jardas totais da história da NFL em 2009. Ainda assim, ele nunca conseguiu chegar perto desse padrão no resto da carreira e certamente tem sido uma das maiores decepções desde então. Uma temporada só não coloca ninguém no Hall da Fama, e embora ele tenha outros anos sendo um sólido RB, é muito pouco para considerá-lo seriamente sem que algo muito grande mude no resto da carreira.



Possíveis futuros Hall of Famers
Jogadores que ainda tem chão pela frente e que, se conseguirem manter a trajetória da carreira, devem conseguir um lugar no Hall da Fama

  • Aaron Rodgers, Quarterback

Eu fiquei na dúvida se colocava Rodgers aqui ou no nível 1. Ele jogou sua carreira em altíssimo nível, teve um campanha de título espetacular em 2010, uma temporada histórica  em 2011 (4643 jardas, 45 TDs, 6 INTs, 68.3%, 9.2 Y/A, MVP), e é um dos melhores QBs da sua geração. Tudo nele parece gritar "HALL DA FAMA". Eu acabei decidindo colocar ele nesse quarto grupo por outro motivo: ele teve apenas cinco temporadas completas na NFL, um número muito pequeno. Mesmo que tenha sido historicamente bom nessas cinco, para a totalidade de uma carreira é bem pouco para chegar no Hall da Fama. Ele ainda precisa de mais alguns anos jogando em alto nível para se garantir.

Ainda assim, não existe nenhum motivo para acreditar que Rodgers possa não ir ao Hall da Fama. Ele é um dos melhores QBs do mundo, joga em um eterno candidato ao título, e já tem seu MVP/SuperBowl/SuperBowl MVP no currículo. Tudo indica que Rodgers deve continuar dominando a NFL, e quando se aposentar, vai ocupar seu lugar de direito em Canton.


  • Patrick Willis, Middle Linebacker

Pat Willis jogou apenas sete anos na NFL, mas nesses sete anos ele não deve absolutamente nada para nenhum outro linebacker da história do futebol americano. Desde que entrou na liga ele tem sido um dos três melhores (se não o melhor) MLB da NFL. Ele absolutamente imparável no jogo terrestre, uma força implacável indo atrás do QB (20 sacks apesar de raramente ir para blitz) quando necessário, e alguém excelente na cobertura capaz de cobrir TEs e mesmo WRs sem precisar de ajuda da secundária. A coleção de jogadores de secundária e linebackers que jogam bem do lado de Willis e nunca mais consegue atingir o mesmo nível depois que saem de San Francisco é incrível, e se você não acha que a presença de Willis no meio da defesa não é uma das grandes causas disso, você não assiste NFL.

É difícil achar estatísticas sobre MLB, mas me permitam uma curiosidade: Pro Football Focus é um site cuja especialidade é dar notas para os jogadores de acordo com o que eles fazem em campo. É realmente uma coisa jogada-a-jogada, eles pegam todos os snaps de um certo jogador e veem o que eles fizeram a cada jogada - mesmo as que não participaram diretamente - e dão nota por cada coisa que aconteceu - seja um tackle for loss, um sack, ou algo menos palpável, como impedir o avanço de um RB fechando seu caminho, desviando um bloqueador para longe de seu lugar na jogada, etc. Não é, obviamente, perfeito ou definitivo, mas é um ótimo parâmetro para avaliar jogadores cujo impacto no jogo é mais sutil. Bom, nos sete anos que Willis esteve na NFL, ele foi o #1 MLB da NFL três anos, o #2 outros três, e o #3 no outro. E mais impressionante ainda, em três desses quatro anos que não foi o número 1, seu colega ILB em San Fran que foi, inclusive Takeo Spikes (que nunca foi grande coisa antes ou depois de sua estadia em SF). Willis não é só o melhor MLB em atividade na NFL (em termos de carreira), ele já é um dos melhores de todos os tempos, e só uma tragédia tira Willis do HoF.


  • Haloti Ngata, Defensive Tackle

Você pode fazer um sólido argumento que Ngata já poderia concorrer ao Hall da Fama no momento, tendo sido um dos melhores e mais destrutivos defensive linemen da NFL por oito anos, inclusive com cinco Pro Bowls e dois 1st Team All-Pro nos últimos cinco. Ele faz um pouco de tudo - pressionar o QB, parar o jogo terrestre (sua especialidade), ou simplesmente ocupar bloqueadores e liberar seus companheiros - em altíssimo nível, e tem sido o segredo por trás das excelentes defesas que o Ravens tem conseguido montar nos últimos anos.

Ainda assim, Ngata tem apenas 30 anos, então tem chão pela frente para consolidar sua candidatura ao Hall. Ngata pode acabar caindo no mesmo problema de Justin Smith (um jogador ainda melhor), de jogar em uma posição sub-valorizada com menos estatísticas contáveis para medir seu impacto, mas por algum motivo (talvez por ter passado a maior parte de sua carreira jogando em candidatos ao título, talvez por ter um anel de Super Bowl) ele recebe mais crédito e atenção do que Smith, e em geral é merecidamente reconhecido como um dos defensores mais dominantes da NFL. Entre o que ele faz em campo por merecer e o reconhecimento que recebe por isso, Ngata deve se aposentar recebendo nomeações antecipadas para o Hall.



  • DeMarcus Ware, Outside Linebacker
  • Terrell Suggs, Outside Linebacker

Ware é um dos melhores pass rushers da sua geração (e da história da NFL), e poderia facilmente estar junto de Abraham, Allen e Peppers na primeira categoria, ou de Freeney e Mathis na segunda. Em geral, eu acho que ele está entre esses dois grupos, e embora isso seja muito bom para seu futuro no Hall da Fama, acho que ele ainda tem chão na sua carreira que eventualmente o levarão até o primeiro grupo. Terceiro em sacks entre jogadores em atividade e com uma temporada de 20 sacks no currículo, Ware tem apenas 32 anos e joga em uma defesa com muito talento, o que lhe permite descansar mais e se manter mais fresco durante os jogos. Isso é o tipo de coisa que pode aumentar a duração da sua carreira, e espero que, com o tempo, Ware entre definitivamente (se já não estiver) na categoria de certezas do Hall da Fama.

Suggs, por outro lado, nunca foi tão dominante como Ware, e não está tão perto do Hall como seu colega. Ainda assim, ele merece consideração: é sétimo em sacks entre jogadores em atividade (embora a uma distância razoável de Freeney, o sexto) e tem um Defensive Player of the Year no currículo, sem falar em um anel de campeão. Ainda assim, Suggs nunca foi aquele jogador extremamente dominante (tirando 2011) e tem só um 1st Team All-Pro na carreira, mas teve um auge bom o suficiente para não cair no conto de "ótima carreira, nunca algo a mais". O júri ainda está indeciso em Suggs, e suas credenciais para o HoF dependerão muito do que ele fizer no resto da sua carreira, mas ele é alguém que andou uma boa parte do caminho já.


  • Darrelle Revis, Cornerback
Três 1st Team-All Pros seguidos, quatro Pro Bowls seguidos (e um quinto logo que voltou de lesão), um auge digno dos melhores dias dos grandes CBs da história da NFL e apenas 29 anos, Darrelle Revis definitivamente merece uma menção nesse espaço. Infelizmente uma seria lesão no joelho atrapalhou sua carreira, tirando-lhe um ano do seu auge, e ele não tem sido o mesmo desde que voltou aos campos. Ainda assim, ele ainda é um ótimo CB que foi historicamente bom no seu auge e o melhor jogador em dois times que conseguiram chegar nas Finais de Conferência com MARK SANCHEZ de QB. Mesmo se nunca voltar a ser AQUELE Revis do Jets, se ele conseguir manter esse alto nível por mais algum tempo, ele deve ser um forte candidato ao Hall quando tudo estiver encerrado. Não lembro de ter visto algo semelhante a Revis no seu auge jogando - ele simplesmente escolhia um jogador e o tirava do jogo de forma impossível. Ainda depende do resto da sua carreira, mas está em um bom caminho até Canton.




Adrian Peterson
Adrian Peterson

  • Adrian Peterson, Running Back

Eu não tenho a menor idéia do que fazer com Peterson nessa coluna. Quando eu primeiro tive a idéia dessa coluna, antes da temporada começar, minha discussão era se Peterson já poderia ser incluído na primeira categoria ou não. E eu tendia a sim - apesar de ter sido draftado em 2007, ele já era terceiro entre jogadores em atividades em jardas terrestres (atrás de Gore/Jackson), e 27th em toda a história post-merger da NFL (e 13th em touchdowns terrestres). Além disso, ele é o melhor RB da sua geração (acho que ninguém chega perto, na verdade) e o melhor RB do mundo desde que foi draftado. Junte a isso seus recordes (maior número de jardas terrestres em um jogo na história da NFL), sua lendária temporada de 2012 que talvez tenha sido a melhor de um RB na história do jogo, seu prêmio de MVP, e sua incrível recuperação de uma lesão no joelho, e parecia impossível que Adrian Peterson NÃO fosse ao Hall da Fama algum dia.

Agora... eu não sei o que pensar. Ninguém sabe. Peterson foi afastado por supostamente agredir um filho durante uma sessão de "disciplina", e ninguém sabe se algum dia ele vai conseguir sequer salvar sua carreira, quanto mais fazer o suficiente para apagar essa má impressão e recuperar seu status histórico. É possível que, em algum momento, Adrian Peterson peça desculpas, reconheça seu erro, trabalhe para reparar esse erro e virar um embaixador contra o abuso infantil, sua carreira possa continuar, e ele volte a ser o grande atleta que ele é. Mas hoje, 30 de Outubro de 2014? Eu não faço idéia do que vai acontecer com a sua carreira, e com suas chances de Hall da Fama. Mas não estão parecendo boas.



E esses são os jogadores em atividade (que cumprem meus pré-requisitos) que eu vejo associados em Hall da Fama, de uma forma ou de outra. Eu tenho certeza que esqueci de alguém, então por favor façam suas nomeações nos comentários. Também tenho certeza que muita gente discorda de onde eu coloquei alguns desses jogadores (e tentem se lembrar de que estou classificando do ponto de vista do Hall da Fama), e se forem educados, sintam-se livres para expressar o porquê nos comentários.

E agora é ficar de olho nos jovens talentos que temos ai - JJ Watt, AJ Green, Earl Thomas, Andrew Luck, Rob Gronkowski - e imaginar quais desses, em alguns anos, estarão nessa mesma conversa. Porque essa é a beleza dos esportes: eles estão frequentemente se renovando, e quando um Champ Bailey se aposenta, sempre tem um Patrick Petterson surgindo.