Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pensamentos rápidos e aleatórios sobre o Super Bowl XLIX

Malcolm Butler, para a história


O Super Bowl XLIX agora é passado. New England, que da última vez saiu de Arizona com uma das mais surpreendentes derrotas da história da NFL, agora sai coroado com seu quarto título, depois de 10 anos do último. Tom Brady se juntou a Joe Montana e Terry Bradshaw como os únicos QBs a vencerem quatro anéis, Bill Belichick se juntou a Chuck Noll como os únicos técnicos com quatro Super Bowls (em títulos totais ainda ficam atrás de Vince Lombardi e George Halas) e Malcolm Butler virou uma celebridade da noite para o dia. 

A noite de ontem foi intensa demais para escrever uma coluna séria e coerente sobre o Super Bowl, e o tempo também está em falta no momento. Ainda assim, tem algumas coisas que precisam ser ditas - ou melhor, que eu quero dizer - sobre esse Super Bowl que não podem passar de hoje. Então deixo aqui alguns pensamentos e considerações curtos sobre esse magnífico Super Bowl.


- Antes de mais nada, parabéns ao New England Patriots e aos seus muitos torcedores. O Patriots tem alguns dos torcedores mais chatos que eu já conheci, mas também tem os mais fanáticos e mais apaixonados, e a franquia em si é um exemplo ímpar de consistência e excelência no futebol americano. Nos últimos 14 anos, New England foi a seis Super Bowls, venceu quatro, e só deixou de ir aos playoffs duas vezes. Eles venceram 76% de seus jogos (170) de temporada regular nesse período, de longe a melhor marca da NFL (Colts, 150 e 67%, em segundo). Eles venceram 21 jogos de playoffs nesses 14 anos, quase o dobro de Colts e Steelers (12 cada), os segundo colocados. Ter um QB histórico como Tom Brady - especialmente nessa era que cada vez mais protege os QBs e os passes, fazendo um QB ter condições de impactar mais um jogo do que a 20 anos atrás - sem dúvida que ajuda, mas mesmo além dele, a organização sempre foi um exemplo de eficiência, maximizando seus ativos no Draft, achando valor em jogadores menores, sempre se reinventando e retomando o topo. Bob Kraft é o melhor dono da NFL, e Belichick o melhor técnico, e não a toa sempre trabalharam juntos, tirando o melhor um do outro. Sabe, ao contrário de outra franquia que tinha um dos melhores técnicos da NFL mas cujo dono quis demiti-lo para contratar alguém que fosse seu pau mandado. Uma boa franquia começa de cima, e o Patriots tem isso mais que qualquer um. Uma vitória merecida, para o time e a sua torcida, e com sabor extra depois que muita gente correu para descartar New England quando perdeu do Chiefs na semana 4.


- Na minha vida, o melhor Super Bowl de todos foi em 2009 (mas o da temporada 2008), entre Arizona Cardinals e Pittsburgh Steelers. Em termos de jogo bem jogado, emoção, reviravoltas e puro e simples nível de entretenimento, eu não tenho certeza que um dia algum Super Bowl superará aquele. Ele foi perfeito demais. 

Mas o Super Bowl XLIX foi um dos melhores de todos os tempos em seu próprio mérito. O primeiro tempo foi feio e cansativo, e o jogo não pegou fogo até o quarto período. Mas foi um quarto período para a história. Duas campanhas perfeitas de um dos maiores QBs da história do esporte para virar um jogo que muitos deram como perdido, a quase virada de Seattle, a recepção absolutamente bizarra do Jermaine Kearse (qualquer torcedor do Pats que disse que não teve flashbacks pra recepção do David Tyree ou está mentindo ou não assistia NFL na época), Seattle praticamente garantindo o jogo, dois erros técnicos grosseiros em um espaço de 30 segundos (chegaremos neles), e uma jogada improvável (e isso é um understatement) para uma das maiores reviravoltas da história do Super Bowl. Considerando quanto tempo faltava, onde a bola estava, o que estava em jogo, o fato do Seahawks ter Marshawn Lynch pronto para entrar na end zone - tinha três tentativas para isso - e quem fez a jogada (um calouro não-draftado da divisão II da NCAA), acho que não caio em hipérbole ao dizer que foi uma das jogadas mais improváveis da história do futebol americano. Foi tão maluca, tão surreal, que eu fiquei dois segundos parado tentando processar o que aconteceu antes de finalmente cair a grande ficha. É exatamente assim que você quer que seu domingo termine.


- Eu não sei se foi Darrell Bevell ou Pete Carroll que chamou a jogada final de Seattle - supostamente foi Carroll - mas, considerando situação, conjuntura, alternativas e que era o freaking Super Bowl, foi a pior chamada de um técnico da história do futebol americano. Você tem Marshawn Lynch - talvez o melhor RB da NFL e sem dúvida o melhor da liga em termos de força física e de conseguir jardas extras, o cara que é seu melhor jogador ofensivo e foi a alma do seu time por três anos - você tem um tempo pra pedir, você ainda tem tempo no relógio, e três jogadas para conseguir UMA JARDA. Um touchdown te da 99% de chance de vencer, e New England não tem esperanças de segurar Marshawn Lynch (4.4 YPC, 102 jardas na partida), tendo a pior defesa da temporada contra o jogo terrestre em situações de "força", per Football Outsiders. A única esperança - mínima - do Patriots ali era conseguir um turnover milagroso, mas Seattle nunca chamaria uma jogada para dar essa chance sendo que dar a bola nas seguras mãos de seu RB tem uma chance maior de sucesso.

Mas ao invés de dar a bola para Lynch, inexplicavelmente, Seattle decidiu ir para um passe, que Malcolm Butler interceptou. Não existe NENHUM motivo cabível pro Seahawks ir pro passe ali. Considerando que só precisava de uma jarda e que a única esperança do Patriots era um turnover, não tem porque ir para uma jogada onde você coloca a bola no ar e arrisca essa interceptação. Sim, ir para a corrida pode ter um fumble, mas indo para o passe você pode sofrer um sack (que dificultaria consideravelmente as ultimas tentativas), um fumble ou uma interceptação, muito mais opções negativas. Além disso, a corrida também tem muito mais chance de sucesso: nos últimos dois anos, dentro da linha de uma jarda, times converteram 57% de suas jogadas de corrida em touchdowns (e sofreram fumbles em 0.9% delas), enquanto que só 49% de suas jogadas de passe viraram TDs (com 6.2% das jogadas virando um turnover e/ou um sack, as duas jogadas que Seattle absolutamente devia evitar). E isso antes de entrar no mérito que você tem MARSHAWN LYNCH, seu melhor jogador e RB mais imparável da NFL, para correr com a bola, que você teve o melhor ataque terrestre da temporada, e que o Patriots foi o pior time de 2014 defendendo a corridas em situações de curtas distâncias. Então não só você tirou a bola das mãos do seu craque, mas fez isso para ir atrás de uma jogada de maior risco e menor chance de sucesso, em um lance onde você ABSOLUTAMENTE devia evitar um turnover a todo custo. Foi uma decisão historicamente estúpida, que custou um Super Bowl ao seu time nos segundos finais. É verdade que uma interceptação ali não é um cenário provável e a INT foi um pior cenário possível, mas porque ir para uma jogada que te da esse pior cenário possível? Em um vácuo, a decisão ja foi ruim, mas considerando os times e os jogadores envolvidos, ela se torna genuinamente horrível. Adicione que ela foi a jogada decisiva de um Super Bowl, na linha de 1 jarda, faltando 30 segundos e que causou uma mudança de mais de 80 pontos percentuais na expectativa de vitória das equipes, e você tem a pior chamada da história da NFL.

O TM Warning conseguiu vídeos exclusivos do que se passava na cabeça do Pete Carroll naquele momento.




- Pior do que a decisão de ir para o passe naquela situação foram as desculpas que Carroll e Bevell deram depois do jogo para explicá-la. Bevell disse que ainda tinha muito tempo no relógio e o time queria gastá-lo até o fim, o que é uma explicação que faz sentido só se você estava em Seattle e consumiu 1 kg da maconha "Marshawn Lynch". Esqueça a interceptação - qual o upside disso? Se é TD, tem exatamente o mesmo efeito de uma corrida, e New England ainda recebe a bola com 30s e dois tempos pra tentar um FG. Se o passe é incompleto, você para o relógio sem queimar um tempo do Pats. Porque diabos então você chamaria essa jogada para gastar o relógio?!

As de Carroll não foram muito melhores. Embora ele tenha assumido a responsabilidade pela chamada e pela derrota, ele disse que o fez porque o Patriots estava em formação de goal-line, o que simplesmente não era verdade (o próprio Darrelle Revis confirmou o que a gente viu). E depois, para piorar, defendeu a chamada dizendo que, como o Pats estava em sua formação de goal-line (não estava), achou que não era um bom matchup para correr e que portanto chamou um passe para "queimar uma jogada" ou "jogar a jogada fora". Não, sério, eis o que ele disse no original, via Ian O'Connor da ESPN: "It [the goal-line defense] is not the right matchup for us to run the football, so on second down we were throwing the ball to kind of waste the play". 

... oh, God. Isso é muito ruim. 2nd and goal, 30 segundos no relógio, no freaking SUPER BOWL, perdendo de 4, você não confia na sua maior força e chama uma jogada para jogar uma descida fora?! É a pior explicação de uma chamada ruim que eu vi nos últimos tempos. Para usar uma analogia do Michael Lewis, parece uma rotina dos irmãos Marx, onde um está pegando fogo e o outro tenta apagar jogando nele um balde escrito "QUEROSENE".



- Quanto de culpa teve Russell Wilson na interceptação decisiva?

Como sempre, é muito difícil dizer com certeza, mas podemos tentar. Primeiro de tudo, a chamada do passe não foi dele - veio do banco, e ele não me pareceu fazer nenhum grande ajuste na linha a não ser talvez redistribuir os jogadores. Então o maior erro da jogada já passa por fora de Wilson.

Dada que a jogada chamada já era um passe, então a primeira coisa que chama a atenção é que Wilson fez a leitura certa na linha de scrimmage. Eis a situação da jogada antes do snap.



Considerando que o Hawks vai para o passe, Wilson olha para a parte de baixo do campo e ve Kearse e Lockette no mano a mano com Browner (marcando Kearse próximo a linha) e Butler (marcando Lockette a distância). Identificando o elo fraco da defesa do Pats (Butler, o quinto CB do time), a jogada ainda vai tirar vantagem desse matchup. Kearse vai "atacar" Browner, bloqueando-o próximo a linha, e com o DB que marca a linha fora da jogada, Lockette vai usar essa liberdade para cortar em direção ao espaço no meio sem ninguém acompanhando-o. A jogada, no primeiro momento, funciona como esperado - Kearse tira o CB da jogada, e Lockette corta para o meio com muito espaço próximo a linha. Wilson vê que Browner não conseguiu acompanhar Lockette no slant, vê o camisa 83 sem acompanhamento, e lança o passe na direção do espaço para onde ele se dirige. É a jogada que Seattle queria.



Eis o grande problema do passe: Wilson joga para Lockette porque viu que Browner está fora do lance, abrindo espaço no meio, mas em nenhum momento ele vê Butler se aproximando da jogada. Não sei se ele literalmente não vê Butler (que estava atrás de Browner no seu campo de visão) ou se achou que ele não chegaria no lance, mas é um erro grave de leitura, especialmente porque Butler não está acompanhando Lockette - ele está cortando diretamente para o mesmo lugar que ele e se colocando na mesma zona para "receber" o passe. E o passe sai ruim - não é um passe baixo ou um passe próximo ao corpo de Lockette onde ele possa usar o corpo de "escudo" e pelo menos evitar uma interceptação, mas um passe alto e na frente do seu corpo, onde Butler tem espaço de sobra para fazer uma jogada na bola.

A minha impressão é que ele não viu Butler, seja porque estava fora do seu campo de visão ou por um erro de leitura mesmo. Se visse o DB do Patriots, ele possivelmente ainda teria ido atrás de Lockette - que era sua primeira leitura em uma jogada rápida, e que conseguiu a separação na linha que ele esperava, a jogada que eles queriam desde o começo - mas certamente teria feito um passe mais próximo do seu corpo, e não um tão longe e tão pendurado para o defensor fazer uma jogada. Então foi um erro de leitura, e um passe ruim que permitiu ao defensor fazer a jogada. Mas ainda assim, é difícil colocar demais no prato dele: ele fez a leitura certa antes da jogada, conseguiu a separação do WR que queria, e ninguém esperava que um calouro não-Draftado de West Alabama fizesse uma jogada fantástica dessas. Cada um pode tirar as próprias conclusões a partir dos fatos que eu mostrei acima, mas a meu ver, embora tenhamos que reconhecer que Wilson (que fez ótima partida) fez uma jogada ruim (especialmente na leitura da defesa), na hierarquia isso só vem depois de dar muitos méritos ao Butler por uma jogada fantástica e improvável e de dar os devidos pescotapas no Carroll por essa chamada atroz. 


- A péssima, SB-losing decisão do Carroll acabou tirando o foco de uma inexplicável e péssima decisão do Bill Belichick de não pedir um tempo depois a primeira descida de Seattle. A jogada de Seattle acabou com pouco mais de 1m no relógio, e New England tinha dois tempos para pedir. Inexplicavelmente, Belichick não pediu tempo, e o relógio correu para 25 segundos antes da jogada seguinte de Seattle. 

É uma decisão horrível. New England estava com vantagem de 4 pontos, então mesmo se tomasse um TD, ainda poderia empatar com um field goal. O problema é que deixar o relógio correr esses 40 segundos praticamente tirava todo o tempo que o Patriots poderia ter para empatar. Se New England pede um tempo e toma um TD na jogada seguinte, teria quase 1 minuto e um tempo pra empatar o jogo com um FG. Como não pediu, se Lockette faz o TD ali, o time teria 20, 15 segundos e dois tempos pra empatar, muito menos e uma situação infinitamente mais difícil. Caso ele peça tempo, o pior cenário que poderia acontecer em termos de tempo no relógio seria caso Seattle corresse 2x e não anotasse o TD, forçando New England a usar o último TO e depois gastarem mais 40s do relógio... mas dai teriam uma quarta descida, e se é pra ter 20 segundos no relógio, tenho certeza que é bem melhor uma 4th down do que uma 2nd and 1. Não usar o timeout ali poderia ter custado o jogo ao Pats. Belichick é o melhor técnico da NFL e um dos melhores da história da liga, mas foi um erro grosseiro da parte dele. 


- Quer dizer que até mesmo o Imperador Palpatine da NFL tem um lado sentimental? Talvez minha foto favorita do Super Bowl. Aliás, Greg Popovich - outro técnico histórico famoso pelo mal humor e pela fama de durão - também chorou um monte ano passado quando foi campeão da NBA. É o outro lado de ser um filha da mãe ultracompetitivo. Quando você alcança o seu objetivo final depois de tanta superação, é ainda mais gostoso e emocionante. 




- Por falar em Popovich, é coincidência que Spurs e Patriots - os dois times mais vitoriosos e consistentes dos EUA no milênio - finalmente deram a volta por cima e ganharam títulos em 2014 (tecnicamente o do Pats foi 2015, mas você entendeu. A temporada era 2014) com suas estrelas aos 37 anos e no final de suas carreiras? A do Patriots foi mais sofrida, a do Spurs mais dominante, mas ambas incrivelmente memoráveis. 


- O primeiro tempo, em particular, foi uma aula de tática da parte do Patriots. Seattle dominou o ano todo usando sua tática habitual, e seu jogo de sempre, mas New England sabe que não tem tanto talento em campo como seu adversário, mas tem muito mais técnico. E uma das coisas que fez de New England tão bom o ano todo foi sua capacidade de se adaptar e se preparar para cada adversário que enfrentou.

Ontem não foi exceção. Sabendo que Seattle tinha mais talento, New England se propôs a vencer o jogo na tática, e no primeiro tempo deu uma aula disso. Seattle gosta de jogar com os safeties no fundo do campo, tirando a opção das bolas longas e protegendo as costas de seus CBs, enquanto confia no físico de seus cornerbacks para controlar a linha de scrimmage por conta própria. Mas Sherman, Thomas e Chancellor estavam jogando com lesões, e New England começou o jogo disposto a explorar isso, fazendo passes curtos e laterais e forçando os defensores um tanto baleados de Seattle a fazer tackles em campo aberto, tendo algum sucesso em jardas após a recepção. Mas depois que Jeremy Lane saiu com uma fratura feia no braço, o Seahawks foi forçado a usar seu reserva, Tharold Simon. Era o que o Pats precisava.

New England imediatamente começou a atacar Simon, claramente o elo fraco da defesa do time de Washington. Aproveitando que os safeties de Seattle jogam em profundidade e que Simon não tinha condição de marcar próximo a linha os WRs de New England, o ataque do Patriots começou a explorá-lo e os espaços atrás dele em rotas curtas, slants e passes a partir do backfield para Shane Vereen. Simon não teve condições de aguentar a atenção - 7 passes, 96 jardas e 2 TDs para Brady lançando na sua direção - e foi batido várias vezes seguidas. Simon não conseguia marcar Edelman sem ajuda de um safety, mas deslocar um safety iria tirar Seattle da sua zona de conforto, e era o que New England queria. Quando o Hawks tentava deslocar algum jogador do meio para ajudar Simon, Brady fazia-os pagar com Vereen ou uma rota cruzando pelo meio. Até que por fim, Seattle cedeu e em uma jogada colocou Earl Thomas próximo a linha de scrimmage para marcar os passes curtos. Era a oportunidade que New England esperava. Brady alinhou Gronkowski aberto no mano a mano contra KJ Wright, pela primeira vez sem ajuda do safety nas costas, e um duelo que sem uma cobertura atrás Gronk vai vencer 95% das vezes. Gronk facilmente bateu Wright para um TD longo, na coroação de uma sequência perfeita do ataque de New England. O outro TD do Patriots no primeiro tempo veio, claro, em um slant de LaFell em cima de Simon, que continuou a ser atacado com os safeties em profundidade.

O primeiro tempo foi uma aula tática do Patriots pra cima do Seahawks, e só não conseguiu abrir vantagem por causa dos próprios erros. A interceptação besta de Brady na red zone, a facemask de Arrington, a corrida cedida num draw do Seattle que deveria encerrar o primeiro tempo que foi para 17 jardas - sem os dois primeiros erros, New England vai para o vestiário vencendo por 7 pontos, e sem o terceiro, por 10 pontos. Ao invés disso, errou e o jogo permaneceu apertado. 

No segundo tempo, Seattle retomou o controle do jogo mesmo sem um grande ajuste tático, mas simplesmente porque começou a executar muito melhor. A única mudança foi passar Michael Bennett para o interior da linha, e deu muito certo - ele demoliu os linemen inexperientes do Patriots no interior, e ele e Cliff Avril fizeram do Patriots a vida miserável, destruindo a linha ofensiva e deixando Brady sem tempo nem ritmo no pocket para fazer seus passes, que dependem tanto de timing, funcionarem (a saída de Cliff Avril com uma concussão foi um fator chave para o ataque do Patriots voltar a funcionar no quarto período). A saída de Avril fez o Patriots retomar o domínio da linha (aumentando as atenções sobre Bennett) e ganhar tempo para Brady no pocket, e assim pode voltar a executar seu esquema bem pensado: atacar Simon (que foi absolutamente abusado por Edelman na red zone), e explorar o meio do campo quando os linebackers de Seattle se deslocavam para cobrir os CBs batidos de Seattle. Mesmo que a jogada decisiva da partida tenha sido na defesa, foi uma performance fabulosa de Belichick e da comissão técnica montando e adaptando um plano de jogo perfeito para o ataque que levou a melhor sobre a excelente defesa do Seahawks.


- Por falar em decisões técnicas, Pete Carroll recebeu críticas totalmente merecidas por sua ridícula chamada no passe decisivo, mas ele também cometeu um outro erro crucial na partida que pode ter custado seu time. No começo do terceiro quarto, Seattle chegou na linha de 8 jardas do Patriots, mas viu Lynch ser pego em uma jogada de option que deu errado para nenhum ganho. Com uma 4th and 1 da linha de 8 jardas, Carroll decidiu chutar um FG. Mike McCarthy ficaria orgulhoso.

Algumas pessoas dirão que o era cedo no jogo para arriscar, que o jogo estava empatado, e que ele fez bem em ficar com os pontos. Essas pessoas também estão erradas. New England estava destruindo a defesa do Seahawks taticamente desde a entrada de Simon, e embora a defesa fosse eventualmente achar seu pass rush e dominar o terceiro período, Seattle ainda não sabia disso porque era a primeira campanha do segundo tempo. Ninguém realmente podia esperar que o jogo terminaria 17-14 com esse FG sendo o da vitória. Contra um grande ataque contra o Patriots, que estava tendo grande sucesso porque sabia exatamente como atacar sua defesa, você quer garantir o máximo possível de pontos, e estando DENTRO da linha de 10 do adversário só precisando de uma jarda para ganhar uma nova série de descidas, esse é o tipo de chance que você precisa converter. Mas não. Carroll se contentou com um FG, assim como Mike McCarthy antes dele. E assim como Mike McCarthy antes dele, chutar esse FG ao invés de anotar um TD custou pontos que, eventualmente, lhe custariam a vitória.

Se você quer ficar técnico, o modelo probabilístico do Football Analysis diz que Seattle devia tentar a quarta descida se tivesse 45% de chance ou mais de converter o first down. Nos dois anos que Seattle chegou ao Super Bowl, a equipe converteu 62% de suas tentativas em jogadas que faltavam uma jarda para primeira descidas, inclusive 64% das tentativas correndo. Considerando esse dado, que o Seahawks tem o melhor RB de força da NFL, o ataque terrestre #1 da liga, e que New England teve a PIOR defesa terrestre da NFL em situações curtas, é seguro dizer que a chance do Seahawks converterem essa quarta descida era bem superior a 45%. Carroll tomou uma decisão ruim que, embora sozinha não tenha custado o jogo ao seu time, diminuiu as chances de vitória da equipe e fez bastante falta no final. Carroll não tem como saber como o jogo se desenrolará até o final, para saber que aqueles quatro pontos seriam a diferença fatal da partida, mas justamente por não saber ele tem que pensar em tomar a decisão que da o máximo de pontos possíveis ao seu time. Se fosse uma 4th and 20, a chance de converter seria mínima, então o FG geraria mais pontos do que a probabilidade mínima de converter a descida e ficar com o TD. Mas dentro da linha de 10, precisando de só uma jarda e com Lynch, a chance de converter era altíssima e teria aumentado em muito a chance de 7 pontos. Carroll tomou a decisão errada, a primeira e menos custosa das duas, mas não menos digna de nota.

Coloque da seguinte maneira: se Carroll tentasse a conversão de quarta descida, falhasse, e perdesse o jogo por 3 pontos, todos os tradicionalistas iriam correndo apontar que essa decisão custou o jogo. Agora que o time perdeu por os 4 pontos da sua covardia de tentar um FG ao invés de tentar um FG, você não ouvirá uma palavra na mídia tradicional a respeito porque Carroll tomou a decisão "comum". Mas deveria. É muito pior ter um resultado ruim a partir de uma má decisão do que ter um resultado ruim a partir de uma boa decisão, porque o resultado o técnico não controla. O processo sim. Ele tem que tomar a decisão cujo processo da ao time a melhor chance de vencer, e não foi isso que ele fez.


- Esses playoffs foram absolutamente sensacionais em praticamente todos os aspectos, tirando imprevisibilidade. Mas o que eu mais gostei deles, de longe, foi que eles funcionaram como um ecossistema extremamente impiedoso com técnicos. Não só porque o melhor de todos ficou com o título, Belichick, mas porque um a um os técnicos conservadores, covardes e incompetêntes (e mesmo técnicos que não são nenhum deles, mas simplesmente tiveram decisões que foram) foram caindo justamente por causa de seus próprios erros. Um a um, os playoffs foram eliminando-os através de seus próprios erros.

O primeiro a cair foi o mais covarde e conservador de todos, Jim Caldwell, que aterrorizou torcedores do Lions o ano todo com sua paixão por field golas e um conservadorismo quase amador. Os torcedores do Lions reclamarão da amadora arbitragem que não marcou a falta em Brandon Pettigrew em uma 3rd down crucial, e com razão, mas a verdade é que mesmo depois disso o time ainda tinha uma 4th and 1 no campo de ataque, que poderia converter para manter o ataque vivo, continuar com a bola e eventualmente anotar pontos. Detroit conseguiu 1st downs em 66% de suas conversões de uma jarda nos últimos dois anos, e a defesa de Dallas é abaixo da média. Mas Caldwell foi pelo livro, e optou por devolver a bola para um dos melhores ataques da NFL sem nenhuma outra ação ofensiva - ganhando por apenas 4 pontos. Dallas pegou a bola, anotou o touchdown, e o Lions teve que fazer uma campanha desesperada para anotar um FG que poderia ter anotado uma campanha antes. Eventualmente, a temporada do Lions acabou em uma 4th and 3 - uma conversão que Detroit só conseguiu em 51% das tentativas nos últimos dois anos, bem abaixo dos 66% daquela 4th and 1 de antes. Detroit falhou, e foi eliminado.

Caldwell passou o bastão a Jason Garrett, que corajosamente arriscou duas quartas descidas contra Detroit e foi premiado por isso. Mas contra Green Bay, foi conservador na hora errada, e isso lhe custou caro. Com o final do primeiro tempo chegando ao fim, Dallas teve uma 4th and 1 no campo de ataque faltando pouco mais de 30 segundos no relógio e um tempo para pedir. Garrett optou por tentar um FG de 45 jardas, um FG bastante difícil em um dia ventoso e de baixíssima temperatura, ao invés de tentar uma conversão (que Dallas converteu 69% das vezes, inclusive) para pelo menos aproximar o FG ou mesmo sonhar com um TD. O time se complicou na hora de formar o FG, fez uma falta, errou o FG subsequente, e viu o Packers aproveitar a ótima posição de campo para anotar um FG antes do intervalo. Um erro de 6 pontos. A temporada de Dallas acabou - surpresa! - com eles desesperadamente tentando converter uma 4th and 2 no território do Packers, que acabou na infame recepção que não valeu (corretamente) do Dez Bryant.

Mas o bastão dos técnicos tomando decisões covardes e conservadores passou para Mike McCarthy, que determinado a superar seus adversários, teve o jogo mais medroso, covarde, conservador, irracional, inconsequente... enfim, o pior jogo que eu já vi de um técnico em 14 anos de NFL. Basicamente, ele não confiou no jogo terrestre em duas 4th and 1 da linha de 1 jarda após turnovers de Seattle, preferindo chutar FGs em ambas as vezes, mas preferiu confiar no jogo terrestre ao invés de dar a bola nas mãos do seu QB MVP em duas conversões curtas e importantes no campo adversário, e correu 5 das 6 jogadas finais da partida (em duas campanhas diferentes) quando o time precisava de uma primeira descida. É muita burrice pra comentar todas aqui, mas ele foi o grande culpado em uma das maiores entregadas da história da NFL.

Por fim, Pete Carroll e seu FG (e sua chamada na 2nd down, mas essa não tenha sido causada por conservadorismo) no Super Bowl também caíram. Eu sempre defendi que técnicos na NFL são conservadores demais - seja pelo medo de errar e ser execrado na mídia, falta de confiança, ou pura burrice - e deixam ótimas oportunidades de melhorar suas chances de vitória na mesa, oportunidades essas que não passam por técnicos melhores como Sean Payton, Bill Belichick, e os irmãos Harbaugh. Esse playoff expôs vários desses conservadorismos e puniu cada um deles de forma exemplar. Quem sabe agora os técnicos não começam a agir com alguma inteligência ao invés de sempre seguir o manual.


- Temporada fantástica de Seattle apesar da derrota. Mas vai ser interessante como esse time vai se virar agora que perdeu o benefício salarial de pagar contratos de calouros para alguns de seus melhores jogadores. Sherman e Thomas já foram pagos, Wilson e Lynch receberão gigantescos aumentos essa offseason, e contribuidores como Bruce Irvin, Bobby Wagner e Cliff Avril logo exigirão novos contratos. Vai ser dificílimo manter todo o time junto, ainda mais manter a profundidade que faz de Seattle tão temível, e esse SB mostrou algumas limitações que Seattle poderia adereçar se tivesse condições (principalmente WR e TE). Vai ser um desafio interessante para John Schneider, um dos melhores e mais low-profile GMs da NFL, manter esse time junto ou mesmo reconstruí-lo conforme seguem se agrupando em torno de Wilson e dessa jovem e talentosa defesa.

By the way, Richard Sherman deve fazer mesmo Tommy John Surgery, e possivelmente perderá a temporada 2015 da NFL já que o tempo de recuperação dessa cirurgia na MLB é entre 12 e 18 meses (por outro lado, a MLB tem testes decentes pra PEDs. Na NFL recupera-se disso em duas semanas).


- Eu ia deixar esse ponto final fora da coluna, porque não queria gerar polêmica. Mas considerando o quanto a questão é apertada e vira uma questão de opinião, eu decidi que quero dar a minha. Ela existe, e não tem nada que você pode fazer a respeito além de concordar, discordar, debater, argumentar. Ela é minha opinião e ponto.

Mas, para mim, Tom Brady recuperou o cinturão de "Melhor QB da sua geração".

O debate Brady-Manning é muito mais apertado e parelho do que as pessoas que querem argumentar um dos lados parecem pensar. Não é nem um pouco fácil achar uma vantagem, e a verdade é que esse cinturão vai passando de um para o outro conforme o tempo avança. Brady começou melhor com seus três títulos; daí Manning bateu recordes, venceu seu primeiro título, e dominou a NFL por alguns anos; dai Brady teve a incrível temporada 18-1 e quase encerrou o debate de vez; dai Brady machucou e Manning carregou mais alguns times medíocres a ótimas temporadas ganhando alguns MVPs no processo; dai Brady voltou com tudo e ganhou mais um MVP e chegou a mais um Super Bowl enquanto Manning se machucava; dai Manning voltou ao Broncos, quebrou mais recordes, e depois mais alguns recordes, e depois ainda achou mais recordes para quebrar, chegando ao Super Bowl mais uma vez; e agora Brady ganha seu quarto anel e terceiro Super Bowl MVP, igualando os recordes de Joe Montana, seu ídolo de infância e melhor QB de todos os tempos. É uma batalha mais disputada e com mais viradas e reviravoltas do que Federer vs Nadal em Wimbledon em 2008. No fundo, quem ganha somos nós, que vimos esses dois titãs do esporte, dois dos 5 melhores QBs da história, disputando um contra o outro e contra o resto do mundo durante 16 anos.

Mas pra mim, Brady recuperou - talvez em definitivo se Manning realmente aposentar - o cinturão depois do que ele fez. Não só no Super Bowl, mas em todo o ano, mantendo junto e funcionando mais um ataque remendado e cheio de jogadores que ninguém mais quis e levando mais uma vez esse time ao topo do pódio. New England venceu 13 dos últimos 15 jogos do campeonato, de forma muito dominante, e Brady foi o centro de tudo. Ele inclusive adicionou mais dois jogos icônicos para seu invejável currículo - a incrível atuação contra o Ravens, onde venceu o jogo sozinho com exatamente zero corridas de seu ataque no segundo tempo, e um Super Bowl fantástico. O Super Bowl foi a coroação de uma temporada fantástica, aos 37 anos, e um jogo para ficar marcado no seu currículo ao lado de tantos outros, uma demolição fantástica e sistemática do poderoso time do Seahawks. Eu ligo zero para recordes como passes, TDs ou jardas em Super Bowls, porque não da pra levar a sério as estatísticas de passe da atualidade, mas a forma como ele fez contra uma excelente defesa que chamou a atenção. Tirando aquele terceiro período onde sua linha entrou em colapso e uma interceptação ruim no primeiro tempo, Brady foi simplesmente imparável e cirúrgico, achando falha atrás de falha na fortíssima defesa de Seattle. Revendo hoje as 4 campanhas de touchdown, é desmoralizador de se assistir como ele continuava movendo as correntes com passes curtos, e isso com zero ajuda do jogo terrestre, seus RBs totalizando para 53 jardas a 2.9 jardas por corrida. Merecidamente ganhou o MVP.

E assim como aqueles que acham que ter 4 títulos faz de você automaticamente melhor que quem tem 2 estão muito errados, também estão aqueles que acham que essa diferença não tem importância alguma. Tudo depende de contexto, e embora Brady tenha sido secundário nos primeiros títulos a uma grande defesa com um playbook conservador, ele também foi quem apareceu em horas decisivas ao longo de sua carreira. Um QB não ganha títulos sozinho, sem a menor dúvida, mas o New England Patriots não teria ganho esse título se não fosse Thomas Edward Patrick Brady. E isso é bom o suficiente pra mim. Mais uma vez. E pensar que teve gente que achava que ele tinha que ir pro banco na semana 4 em favor do Jimmy Garoppolo... 


- Essa foi de longe a mais desgastante temporada de NFL que eu já cobri. Dentro de campo, fora de campo. Foi uma das mais mal conduzidas, e aconteceram coisas que me fizeram questionar minha dedicação ao esporte. Em campo, foi uma das mais intensas, movimentadas, com playoffs fantásticos e muitas coisas acontecendo rapidamente. E acabou em um excelente Super Bowl, muitos gritos, e uma namorada que me deixou profundamente orgulhoso chorando pelo seu time, que enfim ganhava um título. Eu preciso de férias da NFL pela primera vez na minha vida, recarregar as baterias antes de assistir vídeos e analisar o próximo Draft, estudar fantasy e lineups, e lembrar de todas as besteiras que meu SF fez nessa offseason. A temporada foi ótima, acabou de forma ainda mais fantástica possível, e aqui me despeço da temporada 2014 da NFL.

Ou melhor, nas palavras do grande Bill Belichick:

On to the offseason...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Bold Predictions para a temporada 2013 da NFL - Revisão


Um bom resumo do Super Bowl XLVIII


Caros leitores, o Two-Minute Warning está de volta a ativa. Imagino que deve ter frustrado muita gente que o blog sumiu logo na reta final da NFL e as Finais de Conferência e o Super Bowl passaram em branco por aqui, pelo que peço desculpas. Infelizmente, questões de saúde me tiraram o tempo e a energia para escrever 500000 palavras (aproximadamente) três vezes por semana depois de horas analisando estatísticas, vídeos, e conferindo dados. Foi impossível continuar com o ritmo, e infelizmente aconteceu bem na hora mais crítica da temporada.

Felizmente, as coisas estão melhorando, então me parece hora de tirar o TMW do armário e voltar, gradualmente, a ativa. Ainda não sei se é possível manter o ritmo de antes, mas vou fazer o possível para retomar aos poucos a qualidade e assiduidade dos bons tempos. A idéia é cobrir a offseason da melhor forma possível e seguir a partir dai. Ainda não faço idéia de no que isso vai dar, mas... Enfim, vamos indo um passo de cada vez. Mas antes de ir ao assunto principal do post, um aviso importante.

AVISO IMPORTANTE: Para compensar a ausência no final da temporada, e colocar um ponto final decente na boa temporada 2013 da NFL, a idéia é fazer um mega-Mailbag daqui a duas semanas. A semana que vem vai ser dedicada a olhar o caminho dos 32 times para o ano que vem, e a idéia então é que só na outra semana a gente faça o Mailbag mesmo. Qualquer tópico é válido, qualquer coisa sobre a temporada regular, playoffs, técnicos, jogadores, Free Agency e etc. Perguntas sobre o Draft também serão respondidas, mas terão menor preferência pois é um assunto que ainda vai ter sua cobertura. Então aproveitem para mandar suas perguntas/dúvidas/comentários finais da temporada para tmwarning@hotmail.com com o assunto "Mailbag", que você pode ver sua pergunta aqui e no Esporte Interativo (perguntas enviadas a Mailbags anteriores e não respondidas também serão respondidas, se ainda relevantes, btw). Então participem e vamos fazer desse último MB da temporada 2013 um sucesso.

Mas enfim, vamos ao post de hoje. Para quem não sabe ou não lembra, no começo de toda temporada eu faço minhas "bold predictions", alguns palpites ousados (outros nem tanto) sobre a temporada regular. É mais uma brincadeira para dar alguns palpites conscientes e ver o resultado depois para mostrar o que eu acertei. Para aumentar a graça esse ano, pedi também aos leitores para darem suas próprias bold predictions. Vamos ver então como eu, meus amigos e meus leitores nos saímos. Lembrando que esses palpites foram dados antes da temporada regular começar.

Bold Predictions da temporada 2013 da NFL




O Offensive Rookie of the Year não vai ser um quarterback

Bom, foi um bom começo, certo? Não era exatamente uma das previsões mais difíceis do mundo, considerando que apenas dois QBs calouros eram cotados como titulares no começo da temporada (Geno Smith e EJ Manuel) e apenas quatro terminaram o ano com pelo menos seis jogos como titular.   Ainda assim, a posição de QB tem tal vantagem sobre os demais concorrentes na hora de buscar qualquer prêmio que, nos nove anos anteriores, tivemos seis Rookie of the Years QBs, então sempre é um risco apostar contra QBs.

Acabou dando muito certo. Geno Smith teve uma temporada muito ruim que em dados momentos chegou a ser Sancheziana, EJ Manuel perdeu parte da temporada machucado e não foi bem quando jogou, e no final das contas o melhor QB calouro acabou sendo Mike Glennon... que completou 59% dos seus passes para 6.3 jardas por passe. Seguro dizer que não foi uma grande safra de QBs esse ano. Enquanto isso, dois não-QBs (Eddie Lacy e Keenan Allen) tomaram a liga de assalto e tiveram temporadas espetaculares para dois times de playoffs e na metade da temporada já estava claro que não tinha como um deles não levar para casa o troféu de OROY. Lacy acabou levando o prêmio por uma pequena margem, mas é seguro dizer que dos cinco melhores calouros ofensivos de 2013 nenhum foi quarterback. 

Veredito: Sucesso



O Oakland Raiders vai sair do próximo draft com uma das duas primeiras escolhas

Com esse palpite, eu agora estou 0/3 em bold predictions quando tento adivinhar os piores times da temporada. Então é seguro dizer que em 2014 eu vou tentar novamente esse tipo de palpite e de novo vou quebrar a cara. Minha defesa é bem simples: o Raiders era um time que tinha 1/3 da sua folha salarial dedicada a jogadores que não estavam mais no time, e sua disputa de QBs tinha como líder um cara que só tinha tido um jogo de titular o ano todo. Eu definitivamente esperava deles o que o Texans nos mostrou esse ano, algo como 2 ou 3 vitórias, mas foram 4 vitórias com 5-11 de Pythagorean Wins, então eu realmente errei essa. Alguns veteranos contratados para a secundária jogaram bem, algumas jogadas explosivas de Terrelle Pryor e uma tabela relativamente fácil acabaram com meu palpite. 

Veredito: Errada



Pelo menos um time que foi o pior da divisão em 2012 vai ganhar essa divisão em 2013

Meu acerto favorito entre todas as bold predictions que eu fiz dessa vez. Acho que nenhum campeonato favorece tanto isso de último-para-primeiro que nem a NFL, e eu apostei nisso para 2013. Achei que tinha boas chances: o Tampa Bay Bucs prometia ser muito competitivo em uma divisão que era uma pequena incógnita, o Lions era um grande candidato a regressão positiva na temporada, o Eagles era uma incógnita que prometia ser pelo menos divertida em uma divisão fraca, e até mesmo o Chiefs me parecia ter boas chances de arrancar um título de divisão caso algo acontecesse com Peyton Manning. 

Claro, nem tudo aconteceu como era possível. O Bucs foi uma vergonha no começo da temporada, e sua divisão acabou contando com um velho e um novo juggernault (Saints e Panthers); o Lions teve a divisão na mão com um jogo de vantagem (e vantagem nos critérios de desempate) com seus dois rivais sem seus QBs titulares e não conseguiu aproveitar; o Cardinals demorou para acordar na divisão mais forte da NFL; e o Chiefs até ameaçou mas não teve chances com Manning inteiro. Mas essa era a vantagem do palpite, só uma precisava acontecer no melhor cenário. E foi o que aconteceu com o Eagles. O esquema de Chip Kelly funcionou muito bem na NFL, Nick Foles acabou surgindo como um bom QB na segunda metade da temporada, e a divisão foi uma bagunça muito maior do que qualquer um teria imaginado. O resultado foi que o Eagles bateu o Cowboys na Semana 17 para levar a divisão e fazer valer minha profecia. Pelo menos um dos 5 ou 6 cenários possíveis aconteceu, e isso que conta.

Veredito: Sucesso



Um time que foi as finais de conferência ano passado vai ficar fora dos playoffs

Tirando o Patriots, que joga em uma divisão bem fácil, em uma conferência bem mais fraca, e tem Tom Brady e Bill Belichick, achei que os três outros finalistas de 2012 eram candidatos a perder a vaga com uma escorregada. E bingo!! O Falcons perdeu alguns jogadores por lesões e isso destruiu sua estratégia, e o Ravens não conseguiu se recuperar depois de reformular parte do elenco campeão do Super Bowl, com ambos ficando de fora dos playoffs. Btw, eu sei que disse que um time ia ficar de fora das finais de conferência, mas... bem... wait for it

Veredito: Sucesso



O MVP será um jogador que nunca ganhou o prêmio antes

O MVP foi um jogador que é o recordista de prêmios da MVP na história da NFL, então... yeah, passou longe. Mas a lógica aqui até fazia algum sentido: os quatro maiores favoritos ao prêmio de MVP eram Manning, Brady, Drew Brees e Aaron Rodgers, só Brees sendo um não-ex MVP. Mas considerando que a) estamos saindo de uma temporada onde um RB foi MVP e b) escolher o "resto" para ser MVP incluía Russell Wilson, Colin Kaepernick, Drew Brees, Andrew Luck, Phillip Rivers e basicamente todos os não-QBs da NFL... eu achei que as chances eram decentes bem. Brees, Rivers, Luck e Wilson inclusive eram os candidatos 2-5 de muitos ballotts por ai (inclusive o meu), então o chute não passou tão longe assim.

Veredito: Errada



Dois head coaches serão demitidos antes do final da temporada

Minha dúvida quando criei essa bold prediction era se iria contar o final da temporada inteira (ou seja, o Super Bowl) ou só da temporada regular. Como eu estava pensando na temporada regular quando fiz o palpite, achei injusto roubar nas formalidades. E os deuses do futebol americano acabaram me abençoando, me fazendo vencer esse palpites por uma questão de cinco horas, já que o Cleveland Browns não quis esperar até a Black Monday para limpar a casa e demitiu seu HC uma hora ANTES do Sunday Night Football final da temporada. Obrigado, Browns, sempre podemos contar com vocês!!

Então o saldo acabou sendo de Rod Chudzinski e Gary Kubiak antes do final da temporada, e mais uns quatro na semana seguinte. Mas confesso que eu acabei me enganando em um aspecto dessa: eu tinha certeza que um dos técnicos demitidos ia ser Ron Rivera. E no começo do ano, tudo indicava o mesmo: o Panthers perdendo alguns jogos apertados pela incompetência e temeridade do seu técnico, seu grande problema como HC. Ai Ron Rivera decidiu que ia mudar de vida, criou Riverboat Ron, virou o técnico mais agressivo da NFL, e como consequência seu time mudou da água para o vinho e ele levou Coach of the Year. Sorte que não coloquei nomes nessa previsão.

Veredito: Sucesso



Os cinco times a ficar de fora dos playoffs serão: Colts, Vikings, Redskins, Ravens e... Falcons

Essa é uma brincadeira que eu faço todo ano. Tirando o ano passado, todo ano pelo menos 5 times novos aparecem nos playoffs, foi assim por uns 9 anos seguidos, quebrou ano passado... e retomou nesse ano. Então minha brincadeira é tentar adivinhar, antes da temporada, quais são esses cinco times. E caso você não tenha reparado, Ravens E Falcons são dois finalistas de conferência de 2012 que eu tinha citado em um palpite anterior, ambos aparecem aqui... com sucesso!! Ta bom que eu achei que o Colts ia cair fora e eles queimaram minha língua, mas isso faz parte. Eu ainda acertei quatro de cinco, inclusive dois times (Falcons e Ravens) que muita gente teria medo de colocar em uma lista dessas. Então esse foi um grande acerto mesmo com só 80% de precisão. Nailed it!

Veredito: Sucesso


Então terminamos a temporada 5-2 nas nossas bold predictions, o que não é nada mau. Considero uma coluna de sucesso. Na mesma coluna, no entanto, eu pedi a alguns amigos - e depois aos leitores - que dessem suas próprias bold predictions para a temporada. Abaixo as que acertaram, e algumas menções honrosas. Vocês podem conferir todas elas na coluna original.


Adelmo Oliveira (Giants): Michael Vick não será titular por mais que seis jogos

Entre lesões e enfim sua ida para o banco quando Foles estourou, Vick teve exatamente seis jogos como titular do Eagles na temporada. Essa acabou dando bem certo.

Ases (Steelers): Eagles ganhando a divisão esse ano

Mais um que ganhou uma aposta graças ao Eagles. Poucos times atraíram mais interesse antes da temporada. Em uma nota relacionada, essa é a terceira aposta nessa coluna que deu certo com o Eagles, então...


Renan Galvão (Colts): Luke Kuechly será o jogador defensivo do ano.

Outro que cravou o nome e saiu vitorioso. Ainda que eu tenha sido um crítico até certo ponto da vitória do Kuechly - ele não foi sequer o melhor da sua posição na temporada, e nenhum defensor teve um impacto maior E teve menos ajuda dos companheiros do que Robert Matthis - ele foi um grande jogador em uma grande temporada, e o Renan leva as honras para casa em parte por causa do jogo de 17 tackles contra o Saints.


Danilo Vilas Boas (Ateísta de NFL): Cowboys terminarão o ano 8-8 e perderão os playoffs. Bah... isso não é bold prediction, é retrospectiva, então vamos melhorar:

Cowboys chegarão na semana 11 com 8 vitórias precisando de mais uma vitória pra assegurar playoffs, e perderão todos os jogos dali pra frente, a maioria por uma posse de bola. Romo irá de candidato a MVP a mais odiado da liga em menos de meia temporada.

Eu sei que o Danilo mudou a previsão e não acertou em cheio, mas nada me fez rir tanto escrevendo essa coluna do que ler a primeira parte dessa previsão. 8-8 e perdendo os playoffs na última rodada, é um resumo da mediocridade recente de Dallas que um cara achasse que apostar nisso era FÁCIL DEMAIS!! Sensacional. Danilo leva o troféu"Bold Prediction de Ouro" de 2013.


Antes de terminar, algumas menções honrosas de pessoas que não acertaram, mas merecem consideração:

Thierri Freitas (Saints): Tom Coughlin será demitido essa temporada

Essa foi de longe o palpite que mais gerou críticas e estranheza, já que Coughlin é eterno e ganhou dois Super Bowls em New York. Todo mundo achou que era um péssimo palpite. Dai o Giants teve um dos piores começos da história da franquia, muita gente criticou Coughlin, veio a tona todo tipo de notícia sobre como o clima não estava bom e TC poderia usar a idade avançada como motivo para se aposentar, e de repente o Thierri parecia um gênio. O Giants acabou vencendo alguns jogos e salvando sua honra no final da temporada, e a insatisfação geral com a temporada acabou motivando a saída de outros membros da comissão técnica mas não Coughlin. Mas para um palpite que era considerado o pior da coluna, nenhum gerou mais buzz do que esse, e eu teria achado sensacional caso acertasse.

João Paulo (Jets): Peyton Manning será MVP, mas o Super Bowl será disputado entre 49ers e Patriots. 49ers campeão!

Obviamente o Super Bowl foi entre Seahawks e Broncos, mas como Manning FOI o MVP e Niners e Patriots chegaram nas finais de conferência, o João ganha um "close enough!".

Mateus Cavalcanti (Steelers): Wilson, RG3, e Kaepernick (que não é sophomore, mas enfim) vão sofrer com a sophomore slump e Andrew Luck vai destruir conceitos de regressão e ser o MVP.

Não da para dizer que o Mateus acertou, mas não passou tão longe: Wilson, RG3 e Kaepernick viram seus números cair em relação ao ano passado, e Luck foi o único QB da Gang of Four que aumentou seu rendimento estatístico. Ainda que seja difícil chamar as boas temporadas de Wilson e Kap de sophomore slump, fato é que Luck aumentou sua produção e os demais não. E Luck realmente teve uma temporada que desafiou a regressão comum levando o Colts aos playoffs, então foi um bom palpite. 


Até semana que vem, e não esqueçam de curtir nossa página no facebook!

terça-feira, 23 de julho de 2013

Preview NFL 2013 - Baltimore Ravens

"120 milhões, fuck yeah!!"



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East e os previews da NFC East para a temporada 2013 da NFL, é hora de voltar para a AFC e falar da divisão North e do seu principal representante, o atual campeão do Super Bowl, Baltimore Ravens. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Baltimore Ravens

2012 Record: 10-6
Ataque ajustado: 13th
Defesa ajustada: 19th


Não existe time mais difícil de falar do que um time que acabou de ganhar o Super Bowl, especialmente se for um Super Bowl que poucas pessoas esperavam, como é o caso do Baltimore Ravens. Não porque exista muita incerteza como nos casos que falamos ontem sobre o Eagles, mas porque as pessoas muitas vezes não entendem como a pós-temporada tem pouco valor analítico. Algumas pessoas adoram apontar que pouca gente previa o título do Ravens antes dele acontecer e, se estamos falando que o Ravens não vai ser tão bom assim em 2013, que vai regredir ou qualquer coisa parecida, de repente é porque "não gostamos" ou "sempre subestimamos" o time porque também ninguém tinha dito que seriam campeões antes. Mas como já falamos um pouco no texto sobre o Giants, o valor amostral da pós temporada é quase zero (tirando casos extremos). Para qualquer análise de qualquer tipo, uma coisa fundamental é ter uma amostra grande, para que a quantidade de dados seja grande o suficiente para compensar tudo que foi gerado pelo acaso ou por fatores aleatórios (ou próximos disso). Como temos visto repetidamente ao longo desse preview e vamos ver muito mais indo para frente (esperem até chegarmos no Lions, no Bears e no Colts), 16 jogos é uma amostra extremamente pequena e sujeita a enormes influências de fatores além do controle das equipes. Se 16 jogos já é uma amostra pequena com influências enormes de acasos e sorte, o que dizer então de três ou quatro, especialmente quando um jogo já serve para eliminar um time? Muitos estudos (meu favorito sendo do Football Prospectus) já mostraram que a maior parte das discrepâncias entre temporada regular e playoffs na temporada dos times é majoritariamente aleatória e não se carrega de uma temporada a outra. Então sim, o Ravens teve uma ótima pós-temporada e foram campeões. Mas isso não significa nada em relação a temporada regular de 2012 e muito menos para a de 2013.

Se não acreditam, pensem da seguinte maneira. O Ravens ganhou o Super Bowl e de repente viraram a reencarnação do Niners de 1989 (o melhor time a pisar nessa Terra). Mas se na segunda rodada Rahim Moore não comete um dos erros mais grotescos dos últimos playoffs furando um quase hail mary para Jacoby Jones nos segundos finais, o Ravens teria perdido o jogo, sido eliminado, e provavelmente chamado de amarelão pelos próximos anos. Mas Moore furou (curiosidade do dia: Moore foi a pick que o 49ers enviou no Draft de 2011 para o Broncos para subir na segunda rodada e selecionar Colin Kaepernick), o Ravens empatou, ganhou o Super Bowl três semanas depois, e Joe Flacco virou Azor Azhai renascido (para quem lê Game of Thrones essa). Sem falar em todas as coisas que deram certo para o Ravens entre o TD do Jones e o título, mas basicamente toda essa história de sucesso do Ravens na pós temporada dependeu de uma jogada sob a qual eles tiveram zero controle, no caso a furada de Moore. Três centímetros a mais e aquele passe vira incompleto e todo o resto nunca acontece. Não estou falando que o Ravens não devesse ou não merecesse ser campeão, que seja um time ruim ou algo assim, que fique claro. Só estou falando que, nos playoffs, o que acontece tem uma influência de acasos muito grande em uma amostra muito pequena, de forma que o que nele acontece é muito mais irrelevante para análise do que os 16 jogos da temporada regular. Tenham isso em mente, ok?

A boa noticia para o Ravens é que, como eles ganharam o Super Bowl, eles estão praticamente garantidos nos playoffs desse ano e... Ah, espera, não é verdade também. Desde o primeiro título do Patriots em 2001, cinco dos onze campeões do Super Bowl perderam os playoffs na temporada seguinte (01' Pats, 02' Bucs, 05' Steelers, 08' Steelers, 11' Giants) e só um (03' Pats) repetiu o título, então realmente não tem nenhuma garantia nisso. O que, vamos reforçar pela milionésima vez, não quer dizer que o Ravens não possa classificar aos playoffs ou não possa repetir o título, só que uma coisa não garante a outra.

O Ravens, em particular, é um caso estranho porque foi um time que mudou muito entre seu título do Super Bowl e a temporada seguinte. Depois de mais de uma década de dominação por conta de sua forte defesa (liderada por Ray Lewis), a equipe decidiu logo após o Super Bowl se livrar de diversos dos seus veteranos e remodelar o time em diversos aspectos. Muita gente criticou duramente o Ravens se livrando de alguns jogadores, perdendo outros na Free Agency, dando um enorme contrato ao Flacco e basicamente parecendo sem energia e letárgico nessa offseason. Mas já que estou aqui, vamos aproveitar e explicar exatamente os motivos que levaram o Ravens a tudo isso, e vamos ver que, no final, faz bastante sentido. Você pode concordar ou não, claro, mas faz sentido.

Após o título do Super Bowl, o Ravens não era um time preso com o mesmo problema do Giants ou do Cowboys - ou seja, um time estourado no teto salarial que precisava se virar só para entrar no teto do ano que vem, e que precisava dispensar jogadores ou não renovar com outros para não estourar o salary cap. O problema do Ravens era outro: era um time com um núcleo velho, e com vários jogadores jovens e promissores atingindo a Free Agency (mais notavelmente Joe Flacco) e que iriam comandar contratos caros e longos caso o Ravens quisesse mantê-los. Ao mesmo tempo, o Ravens já tinha no lugar um núcleo bastante velho que ocupava uma boa parte do teto salarial, e seria impossível para franquia manter todo mundo. O que o excelente GM Ozzie Newsome provavelmente concluiu após o título é que aquele grupo liderado pelos veteranos já tinha atingido seu auge e seu limite, e que se continuasse com aquele núcleo ele só iria decair com o passar dos anos enquanto ocupava seu teto salarial. Com jovens jogadores como Cary Williams, Paul Kruger e Danell Ellerby virando Free Agents (e Flacco exigindo uma enorme extensão), a decisão de Newsome simples: limpar os veteranos da equipe, que já estavam em decadência e dificilmente contribuiriam em alto nível por mais muito tempo, como uma forma de limpar o espaço salarial para acomodar os novos contratos desses quatro.

Então foi por isso que o Ravens, aproveitando a aposentadoria de Ray Lewis, correu para dispensar Ed Reed, Bernard Pollard e trocar Anquan Boldin (eu discordo dessa última, btw, mas enfim) foi porque Newsome acreditava que seu elenco velho tinha atingido seu limite, e precisando limpar espaço salarial para os novos contratos eles foram as casualidades. Os três provavelmente ainda tinham lenha para queimar, mas se fosse para manter eles por mais um ou dois anos, perderiam a chance de renovar com seus jogadores mais jovens, e eles preferiram manter os jovens por mais tempo do que os veteranos por menos.

O Ravens logo correu para fechar a extensão de Flacco, tornando-o o jogador mais bem pago da NFL. Ainda que Flacco provavelmente não valha esse contrato todo (você tem quatro anos de evidência dele sendo um QB mediano e quatro jogos onde ele foi Tom Brady, qual é mais convincente?), não da para criticar Baltimore oferecendo essa grana a ele porque não tinham realmente a menor opção: era ou pagar, ou explicar para a torcida que estavam deixando o Super Bowl MVP da equipe ir embora para recomeçar com Caleb Hanie de QB, então eles realmente não tinham opção. Apesar da chance existente (embora muito pequena) de Flacco realmente ter dado um salto nesses playoffs que vá carregar para o resto da sua carreira, Newsome com certeza sabe que seu quarterback provavelmente nunca vá de fato valer seu salário. Mas era a única opção que a equipe tinha, e pagaram de bom grado.

Mas quando correram para fechar com Ellerbe, Williams e principalmente Kruger, as coisas saíram do plano de Newsome. Outros times, mais desesperados que o sempre calmo e paciente Ravens, correram para fazer ofertas muito altas e muito acima do valor que esses jogadores deveriam receber, com Dolphins (35M para Ellerbe), Cleveland (40M para Kruger) e Eagles (17M para Williams) inflacionando o preço dos jogadores com ofertas muito superiores as ofertas originais que Baltimore fez a esses jogadores. Embora todos deixassem claro que o Ravens tinha a opção de igualar as ofertas, isso significaria pagar um valor muito acima do mercado para jogadores que, embora jovens, talentosos e promissores, não tinham uma longa história de sucesso e titularidade para justificar esses números enormes que vieram provavelmente por causa de uma pós-temporada de sucesso.

E é por isso que eu acho Newsome um dos melhores GMs da NFL nos últimos 10 anos. Ao invés de entrar em pânico por perder os jogadores que ele queria reassinar (e os jogadores pelos quais ele abriu mão de veteranos populares na cidade) e aceitar pagar esses valores quase absurdos que iriam prender o time indo para frente em termos salariais - especialmente considerando que esses salários eram apostas nesses jogadores desenvolvendo em titulares de tempo integral depois de sucesso em papeis menores ou situacionais - o ex-TE do Browns decidiu que não valia a pena fazer isso, e deixou os três irem para seus novos times e mantendo a folha salarial aberta. Embora ele tenha sido alvo de enormes críticas dentro de Baltimore e ao redor da Liga por mandar embora seus veteranos e falhar em segurar os jovens, eu acho que aqui é um caso onde temos que olhar o processo e não o resultado. Newsome assumiu um risco calculado deixando seus veteranos partirem para manter o núcleo do time nas mãos dos jovens (sabendo que o futuro da franquia estaria acompanhando Flacco, de todo modo), mas ele foi esperto de perceber que limitar sua folha salarial oferecendo contratos absurdamente altos a jogadores que ainda não se provaram como titulares na NFL é o tipo de coisa que, se desse errado, poderia prender a franquia na mediocridade por anos. Embora o resultado não tenha sido ótimo, a paciência de Newsome evitou algo pior.

E claro, Newsome não ficou parado. Ele sempre entendeu duas coisas perfeitamente: que poucos times na NFL entendem como maximizar seus ativos no dia do Draft como o Ravens (e portanto eles sempre podem contar com isso), e principalmente, que na Free Agency da NFL é muito melhor esperar a poeira baixar do que sair gastando logo de cara. Os primeiros dias da FA são geralmente marcados pelos times com maior espaço salarial (que normalmente são os times ruins em busca de talentos com potencial) inflacionando o mercado e gastando valores altíssimos (e acima do valor de mercado) em todos os jogadores jovens e muitas vezes que ainda não tem uma história longa de sucesso como jogador de tempo integral para justificar esses valores. Quando esses times (esse ano Colts, Dolphins e Cleveland foram os mais notáveis) terminam e a poeixa abaixa, sobram no mercado jogadores mais sólidos, mais veteranos e com menos potencial que são perfeitos para times com uma boa base como o Ravens, e sem os times com mais dinheiro (em cap mesmo) inflacionando o preço desses caras, eles geralmente acabam saindo em contratos muito mais razoáveis e seguros. Newsome entende isso, e por isso não entrou em pânico.

Quando os times mais desesperados levaram seus jogadores jovens, e o Ravens se viu com muito espaço salarial, o time calmamente esperou a segunda fase da Free Agency para ir atrás de veteranos como Marcus Spear (um veterano talentoso que caiu de produtividade por conta de lesões, contrato de 2 anos e 3,5M) e Chris Canty (um sólido DT que também vinha sofrendo com lesões, contrato de 3 anos e 8M) que foram dispensados de seus times para liberar espaço salarial, e Michael Huff (safety sólido que falhou ao longo da carreira a corresponder a expectativas, 3 anos e 6M) que não tinha espaço em um time em reconstrução como o Raiders. Quando Elvis Dumervil, na burrice suprema de seu agente que não conseguiu mandar um fax para o Broncos a tempo reestruturando seu contrato, foi dispensado pela equipe do Colorado, o Ravens não perdeu tempo indo atrás do veterano pass rusher com um contrato de 5 anos, 35M. Em outras palavras, Baltimore assinou com Dumervil (um jogador melhor que Kruger e mais experiente) por 5M a menos do que teria pago por Paul Kruger se não fosse a calma e paciência de Newsome. Então o saldo da equipe foi (tirando Ray Lewis, que aposentou) foi que a equipe perdeu seu bom FS de 35 anos para substituí-lo por um pior mas ainda sólido jogador de 30 anos; trocou Bernard Pollard (um sólido jogador, mas caro) pelo calouro Matt Elam, mais jovem e barato (btw, excelente Draft do Ravens, como sempre); Cary Williams era um bom CB, mas nada indispensável; perdeu o substituto de Lewis em Ellerbe (trouxeram um LB via draft e só) e seu pass rusher do futuro em Kruger, mas trouxe o superior Dumervil para jogar do outro lado do excelente Terrell Suggs indo atrás do QB (embora sim, seja uma red flag que o Broncos tenha dispensado o Dumervil apesar da situação salarial); e reforçou sua linha de frente (o Ravens foi péssimo contra a corrida em 2012) trazendo dois jogadores para jogar junto do excelente Haloti Ngata. Então mesmo que no curto prazo a equipe tenha sofrido uma pequena redução de capacidade dentro de campo com essas trocas, ela acabou com um grupo muito mais jovem e, principalmente, muito mais barato, dando a equipe boa flexibilidade salarial por algum tempo. Excelente GM, inteligente offseason.

Por isso eu acho bem razoável imaginar que, com a volta de Lardarius Webb e uma temporada inteira saudável de Suggs e Ngata, a defesa do Ravens seja melhor em 2013 do que foi em 2012. Não que precise de muito, claro, a defesa do Ravens foi bem fraca temporada passada (19th ajustada) e, embora isso possa ser atribuído em parte as multas lesões que a defesa sofreu ao longo do ano, os números ponderados da equipe não são muito diferentes dos normais (ligeiramente piores, mas pouco). Mas mesmo perdendo jogadores importantes em termos táticos e principalmente de liderança, ainda vejo a defesa do Ravens mais forte em 2013 depois de um fraco (e possivelmente até atípico) 2012. Não elite, como foi por tanto tempo, mas mais forte. A equipe manteve sua comissão técnica e esquema defensivo por tanto tempo que sabe exatamente qual tipo de jogador buscar para cumprir cada papel, e podem ter certeza que fizeram isso quando trouxeram esse pessoal na offseason.

Minhas preocupações são do outro lado da quadra. O ataque de Baltimore foi apenas decente (13th) em 2012 com um bom jogo terrestre e um jogo aéreo apenas ok. Flacco teve um dos seus piores anos como titular atrás de uma linha ofensiva suspeita (e que não deve melhorar para 2013), e agora não só deve lidar com um aumento de responsabilidades por causa de seu novo contrato e de sua defesa perdendo seus veteranos e o status de principal força do time. Antes "protegido" por ser o complemento a defesa da equipe, agora ele vai ser o ator principal na Franquia, e vai ter que fazer isso sem seu melhor recebedor. Anquan Boldin foi, depois de Ray Rice, o melhor jogador do ataque do Ravens em 2012, a jogada de segurança de Flacco e o jogador listado pelo Football Outsiders e suas estatísticas (todas ajustadas) como o 29th melhor WR total de 2012 e 31st melhor por jogo (nenhum outro Raven entra no Top40). A expectativa é que Torrey Smith assuma também um papel maior, mas além de ser um ótimo burner usando sua velocidade em profundidade, pouco vimos de Smith para indicar que ele possa assumir aquele papel de rotas mais complexas no mano a mano usando seu corpo para escudar a bola e fazer as recepções seguras (Smith recebe apenas 45% dos passes lançados para ele, contra 60% de Boldin). Não só é uma habilidade crucial para primeiras descidas, como também foi a base de todo o ataque do Ravens em três dos quatro jogos que ganhou nos playoffs, a capacidade de Boldin de usar seu tamanho e força física para vencer bolas em espaço neutro contra CBs, e nenhum jogador no elenco do time tem essa habilidade agora. Então mesmo que Ray Rice continue sendo brilhante (e eu ainda achei ele subutilizado em 2012), esse ataque vai precisar que Flacco dê um salto de rendimento para 2013. Dentro de campo e psicologicamente.

Também tem o fato de que o Ravens é um candidato a regressão. A equipe terminou 2012 com um Pythagorean Expectations de 9-7 e terminou 7-4 em jogos decididos por uma posse de bola, dois sinais de que a equipe foi um pouco melhor em 2012 do que deveria ter sido (na temporada regular). Além disso, apesar de não ter tido exatamente um calendário fácil em 2012 (16th overall), a equipe projeta ter o quinto mais difícil da temporada 2013.

Então tudo isso faz do Ravens um time delicado de se projetar para 2013. Sim, eles ganharam o Super Bowl. Não, não significa nada para 2013. Eles passaram por grandes mudanças na defesa e, embora no papel sejam até melhores que ano passado por conta dos retornos de lesão, ainda precisamos ver como essa unidade mais jovem e que nunca jogou junta vai render sem a liderança e a segurança de alguns veteranos (e sem o Pollard para machucar todo mundo do Patriots). O ataque perdeu um jogador importante e não conta com grandes melhorias, e o time tende a sofrer alguma regressão para esse ano. Apesar de toda a incerteza e possibilidades que o Ravens apresenta, essa temporada vai ser principalmente definida pelo quanto Joe Flacco vai melhorar em relação a temporada passada. Eu sou um cético que acha que quatro bons jogos não são um indicador melhor que quatro anos de mediocridade, então eu espero que o Ravens sofra um pouco mais essa temporada, caindo para 9-7 ou 8-8 apesar de tudo. Eu acho 9-7 interessante porque pode garantir uma vaga nos playoffs, e o Ravens sabe muito bem que a pós-temporada é outra coisa totalmente diferente, mas também porque a linha de frente da defesa da equipe parece extremamente interessante com Canty, Spears e Ngata ancorando a frente e Dumervil e Suggs indo atrás do QB. Então sim, eles devem ter condições de brigar nessa temporada, especialmente porque a divisão está relativamente fraca com Browns e um Steelers remontando a defesa, e porque chegando nos playoffs tudo pode acontecer. Mas não conte com nada só porque eles tem um anel novo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Preview NFL 2013 - New York Giants

A cara do Eli Manning nessa foto dispensa legendas



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East para a temporada 2013 da NFL, passamos a falar da NFC East, começando pelo atual campeão dela, Washington Redskins, e depois pelo Dallas Cowboys. Hoje, vamos continuar falando da divisão com o mais recente campeão da NFC, New York Giants. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

New York Giants

2012 Record: 9-7
Ataque ajustado: 7th
Defesa ajustada: 16th


Isso vai ser mais aprofundado quando falarmos sobre o Baltimore Ravens, mas basicamente, sucesso na pós-temporada significa muito pouco ou quase nada sobre um time em comparação a temporada regular como um todo. A amostra é muito pequena (especialmente porque cada rodada tem apenas um jogo) e esses três jogos dependem muito de sorte, acaso e de um times que simplesmente pegam fogo na hora certa, como foi o caso do Giants em 2011. Mas na hora de avaliar o verdadeiro nível de um time em uma temporada e indo para frente, uma amostra de 16 jogos significa muito mais do que os três ou quatro finais, e são nesses que temos que nos basear ano a ano, por mais que um monte de torcedores do Ravens estejam tentando me matar nesse momento. Claro, isso não é definitivo, é possível que haja uma mudança importante (uma mudança de QB logo antes dos playoffs, a volta de um jogador machucado, etc) que cause uma evolução sustentável, mas são casos raros e, em geral, sucesso ou fracasso nos playoffs diz muito pouco sobre o futuro da franquia.

Digo isso porque, após a temporada 2011, era possível esperar uma regressão da equipe, cujo Pythagorean Expectations foi um pouco abaixo de 8-8 e que terminou a temporada 5-3 em jogos decididos por uma posse de bola. Ainda que muitas pessoas esperassem uma temporada espetacular em 2012 por conta da performance do time nos playoffs e da volta dos muitos jogadores que perderam parte da temporada por lesão, eu lembro especificamente de ter apostado em um 9-7 para o Giants ao final da temporada seguinte por conta desse potencial de regressão da equipe ("cancelado" pela volta dos seus jogadores, mantendo o record em 9-7). Então sim, as vezes eu acerto.

Mas acontece que temos também o outro lado da moeda: o Giants foi um time muito melhor em 2012 do que 2011 e que ficou abaixo do seu rendimento em termos de record. Uma série de fatores (já iremos para eles), entre eles o mais óbvio de jogadores ficando saudáveis, impulsionou a equipe a ser o sétimo melhor time da NFL em eficiência (per Football Outsiders) e terminar com um Pythagorean Expectations de 10-6 (oitavo melhor da NFL quando consideramos os decimais). Então se em 2011 a equipe de NY terminou acima da sua produção e alguma redução fosse esperada, em 2012 aconteceu o contrário.

A primeira causa, como já foi dita, foram as lesões da equipe em 2011 que deram uma trégua em 2012. Prince Amukamara, a escolha de primeira rodada da equipe, perdeu 6 jogos e jogou intermitantemente nos outros 10; jovens WRs Ramses Barden e Domenik Hixon perderam quase 20 jogos combinados; o melhor CB do time, Terrell Thomas, perdeu a temporada; Osi Umenyora perdeu quatro jogos e esteve limitado em vários outros; Justin Tuck perdeu cinco jogos; William Beaty e seu reserva, Adam Koetz, perderam 22 jogos... Entre outros jogadores menores. Em resumo, mesmo antes da temporada começar o time já estava sem seu CB titular, seu terceiro CB, dois dos melhores DEs da NFC, e por ai vai. Especialmente na defesa, o time estava bastante magro em termos de perder alguns dos seus melhores jogadores (ou vê-los produzir de forma limitada) ou então por perder quase toda sua profundidade em certas posições. Então assim como foi dito no caso das lesões do Cowboys, era esperado que esse azar de ter todas as lesões acontecendo ao mesmo tempo não se repetisse.

O maior afetado em 2011 pelas lesões foi a defesa. Eles perderam dois dos seus três principais CBs para começar a temporada (Amukamara eventualmente voltou perto dos playoffs, mas não a 100%) e dois dos seus reservas ao longo dela e a dupla titular de DEs do que foi a terceira melhor defesa de 2010 (Umenyora e Tuck) perdeu diversos jogos. E talvez mais importante, isso aconteceu logo antes da temporada começar, o que não deu ao time uma offseason inteira para modificar seus esquemas e treinar novas formações com tempo para corrigir seus problemas, isso tudo teve que ser feito durante a temporada mesmo. Não surpreende então que a defesa do time tenha tido tantos problemas ao longo do ano desse lado da bola, terminando com apenas a 19th melhor defesa da temporada. Nos playoffs, essa defesa deu um grande salto de produção principalmente por causa da sua linha defensiva e da atuação miraculosa de Jason Pierre-Paul, mas aqueles números não voltaram a se repetir numa amostra de jogos maior em 2012.

Mas ainda que as lesões tenham regredido para um patamar mais normal, e a defesa tenha melhorado como consequência, não foram elas que determinaram a considerável melhora do time para 2012. A melhora não foi tão grande assim (de 19th para 16th melhor, principalmente motivada por uma melhora na secundária e no pass rush) e o time sofreu bastante contra o jogo terrestre ao longo do ano. Mesmo com seu trio do inferno de DEs saudável (Pierre-Paul, Tuck e Mathis Kiwanuka), o meio da sua linha defensiva não conseguiu fazer um bom trabalho ocupando bloqueadores e tirando as marcações duplas desses jogadores mais destrutivos. Então mesmo que uma pequena evolução tenha se mostrado, não foi ela que impulsionou a melhora da equipe.

Na verdade, essa melhora veio do outro lado. Mais especificamente, o ataque da equipe mostrou uma evolução grande por parte do seu jogo terrestre, que passou de um vergonhoso 19th melhor em 2011 para um impressionante quinto melhor em 2012. E isso se deveu a duas causas. A primeira foi uma melhora considerável na linha ofensiva. Em parte por alguns jogadores importantes que voltaram de lesão (Adam Koetz perdeu a temporada, William Beaty se machucou na nona semana), em parte pela chegada de David Bass, e outra simplesmente porque jogadores que já estavam no elenco simplesmente ganharam mais espaço e tempo de jogo e superaram as produções dos anos anteriores, mas o fato é que a linha ofensiva do Giants passou de uma das piores da temporada abrindo espaços perto da linha de scrimmage para uma das melhores, o que da mais espaço para RBs explosivos passarem pela primeira linha de contato. E essa é a secunda causa de melhora da equipe, o fato de que o Giants deu um grande salto em termos de running back. Tirando o fato de que Ahmad Brashaw teve uma temporada 2011 cheia de lesões e mesmo quando jogou esteve limitado, boa parte dessa melhora aconteceu porque Tom Coughlin tirou grande parte dos toques de jogadores muito ineficientes como Brandon Jacobs, DJ Ware e a versão lesionada do Bradshaw e distribuiu entre talentos mais jovens e explosivos como Andre Brown e principalmente o calouro David Wilson (os dois com médias de jardas por corrida acima de 5.0), o que facilitou o trabalho desse ataque. Com Bradshaw fora da jogada e Brown e Wilson jogando atrás do que se espera que seja uma OL igualmente eficiente, a tendência é que esse ataque terrestre seja ainda melhor em 2013.

O último motivo pelo qual o Giants foi melhor em 2012 do que em 2011 foi o calendário. A equipe teve o quarto schedule mais difícil quando foi campeão, e esse número caiu para o décimo mais forte em 2012. O esperado pelos números desse ano é que continue caindo para ser apenas o nono mais fácil de 2013, então a equipe também tem isso trabalhando a seu favor.

O problema do Giants nessa offseason, no entanto, foi semelhante ao do Cowboys. A equipe tinha uma folha salarial muito alta, próxima do teto, e vários jogadores importantes que precisavam de novos contratos, em especial Victor Cruz. Essa situação é bastante delicada, porque força o time a se livrar de alguns jogadores do elenco para abrir esse espaço salarial, e a basicamente escolher quais jogadores ele quer manter e quais não devem ser perseguidos (as vezes isso da errado, mas esperemos o Ravens). Então o Giants acabou dedicando a maior parte dessa folha salarial a um eventual acordo com Cruz (que acabou acontecendo), mas para isso teve que abrir mão de renovar com Chase Blackburn (melhor LB do time), Martellus Bennett (TE titular, 55-626-5* e um papel importante como bloqueador), Umenyora (esse ninguém se importou muito), Kenny Phillips (FS titular), Chris Canty (DT titular) e dispensar seu segundo melhor LB eM Michael Boley. Mesmo que o Giants tenha trazido algumas peças para o lugar de toda essa galera (Ryan Mundy para FS, Aaron Ross para CB, Cullen Jenkins para DT são os mais importantes) o saldo final ainda é negativo. Eu não estou dizendo que o Giants foi mal nessa offseason, acho que eles fizeram um trabalho muito bom dada a situação que tinham nas mãos e conseguiram repor algumas das peças, mas quando um time perde sua boa dupla de LBs, seu único TE confiável e seu titular no miolo da defesa, você deve esperar uma piora para o ano que vem. Especialmente quando sua defesa terrestre está com problemas, perder seu DT e dois LBs não é um bom prognóstico.

Claro, isso vai depender muito de como se comportam os jogadores que entrarem nessas vagas. Seja Jenkins (talentoso, mas nunca rendeu o que se esperava entre Saints e Eagles) no lugar de Canty ou quem quer que substitua Blackburn (na minha opinião a maior perda) e Boley, esses jogadores podem acabar igualando a sua produção ou sendo um enorme downgrade, a gente não sabe. É possível argumentar que se a defesa terrestre do time foi tão ruim em 2012, talvez os jogadores responsáveis (e Canty, Boley e Blackburn se enquadram nisso) não foram tão bons assim como se imagina, e então talvez seja mais fácil substituí-los internamente a um custo muito menor. E é um bom ponto! A questão é que não temos como saber até eles entrarem em quadra, mas pelo menos no papel, o Giants perdeu mais talento do que ganhou (embora eu tenha gostado muito da volta do Ross, vai dar a secundária a profundidade que eles precisavam), então se espera uma piora defensiva. Não enorme, mas uma piada.

Ofensivamente, embora seja claro que Bennett represente uma perda considerável no jogo aéreo da equipe, eu acho que a questão é o quanto isso vai afetar o jogo terrestre do time. Ainda que seja difícil calcular exatamente o impacto que a chegada de Bennett teve nisso, a chegada dele foi um dos fatores que coincidiu (junto com outros já citados) com a grande evolução do jogo terrestre (e dos bloqueadores em geral, per Football Outsiders) da equipe. Então embora seja difícil afirmar que a saída dele teria esse efeito, é uma dúvida. Ainda assim, a saida de Bradshaw e o maior espaço para os mais jovens e explosivos Brown e Wilson devem ter um efeito positivo sobre esse jogo terrestre, então a maior preocupação do Giants mesmo desse lado deva ser a busca por um TE para o jogo aéreo. Ainda assim, o ataque não deve ser um problema: eles tem um sólido jogo terrestre, um dos melhores corpos de recebedores do mundo (Wilson em particular é um upgrade imenso sobre Bradshaw recebendo passes) e um QB muito capaz em Eli Manning, o que deve manter o ataque como um dos melhores da NFL (7th em 2011 e 2012).

Manning, aliás, é um ponto interessante de discussão. Ele foi muito mais eficiente em 2012 que em 2011 (67.4 QBR, 10th na NFL) e teve um bom ano, mas também viu sua produção por jogo cair (embora ainda seja a 13th maior da NFL) e também o valor do ataque aéreo da equipe na temporada (4th para 11th). Claro, uma boa parte disso se deve ao fato de que o Giants investiu muito mais pesado no ataque terrestre e as jogadas de corrida ocuparam uma porcentagem muito maior das jogadas do time em relação a 2011. Mas também temos que levar em conta que o ataque do time (a defesa também, mas em menor escala) piorou consideravelmente ao longo da temporada, especialmente o ataque aéreo na segunda metade da temporada (em que o Giants terminou 3-6). O sétimo melhor da temporada, esse número cai para 11th quando usamos os dados ponderados do Football Outsiders (um número que atribui maior peso a um jogo quanto mais tarde ele aconteceu), e embora isso possa ser atribuído a diversos fatores (lesão do Andre Brown, uma tabela consideravelmente mais forte), fato é que os números ajustados da equipe também caíram pelo ar. Eu não digo isso para falar que Manning é um QB ruim ou que teve um ano bom (eu acho Eli um ótimo QB e que teve um sólido 2012), mas ele sofreu algumas oscilações ao longo do ano que podem ser tanto uma preocupação para 2013 como um sinal de que uma estabilidade maior dele possa significar uma evolução ainda maior em um ataque que já foi muito bom em 2012.

Considerando tudo isso, o Giants ainda tem potencial de playoffs em 2012. A defesa deve sofrer um pouco com suas perdas, mas ainda tem um pass rush muito poderoso (que, na minha opinião, deveria ter sido melhor em 2012) e trouxe algumas peças interessantes, de modo que esse enfraquecimento deva ser de certa forma amenizado por isso. O ataque continua forte como sempre, e embora a saída de Bennett levante algumas dúvidas sem um substituto na equipe, Brown e Wilson assumindo o jogo terrestre em tempo integral deva melhorar ainda mais esse ataque, de forma que é razoável assumir que o ataque continue forte. Então embora o Giants de 2013 projete como um time um pouco inferior ao de 2012, o da temporada passada ainda foi um 10-win team (pelas Pythagorean Expectations que tanto amamos) e a equipe deve ter um calendário muito mais fácil nessa temporada, de forma que um 10-6 ou 9-7 e uma vaga nos playoffs pareça ser um resultado adequado para esse time. Embora esse número possa variar de acordo com o que foi dito de Eli, para mais ou para menos, acho uma previsão sólida de um time que sabe melhor que qualquer outro na NFL que, uma vez nos playoffs, todo mundo tem chance de título.


*Pra quem não está acostumado a essa terminologia, isso representa recepções, jardas recebidas, e touchdowns.