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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

World Series Breakdown: Cardinals vs Red Sox


Jonny Gomes treinando a largada nos 100m borboleta


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Finalmente, depois de uma longa espera e de uma temporada mais longa ainda, chegou a hora que todos aguardávamos. A World Series chegou, e agora são só mais uns seis ou sete jogos (esperamos!) até sabermos quem vai ser o campeão da temporada 2013 da MLB e vai ter o direito de contar vantagem até o ano que vem. Red Sox e Cardinals, dois dos times mais interessantes da MLB, vão se enfrentar nesse Fall Classic, e quem ganhar vai assumir a pole position em "melhor time do século 21" conquistando sua terceira World Series nesse período (o Giants também tem dois títulos nesse século).

Em meio a isso, porque não fazer um Dr. Jack Breakdown sobre esses dois times? Dr. Jack Breakdown foi um formato de coluna popularizado uns anos atrás pelo meu escritor favorito, Bill Simmons, onde ele criava uma série de categorias (algumas sérias e algumas mais aleatória e descontraídas) e via quando dos dois (podiam ser times, pessoas, filmes, whatever) tinha a vantagem naquele quesito. Achei um formato interessante para testar, e esse parecia ser o cenário ideal. Então vamos dar uma olhada no que Boston Red Sox e Saint Louis Cardinals tem a oferecer!

(Um lembrete: obviamente nem todas essas categorias tem alguma importância na hora de fazer algum tipo de preview da World Series - o Cardinals ganha vantagem no quesito "Sucesso recente", mas isso quer dizer absolutamente zero sobre suas chances nessa WS. Então não levem tudo ao pé da letra e tenham senso crítico na hora de olhar para as categorias que realmente indicam vantagens dentro desses sete jogos)


Temporada regular

Uma categoria extremamente equilibrada, principalmente porque Red Sox e Cardinals foram os melhores times de suas respectivas conferências e os melhores times da temporada regular. Cada time venceu 97 partidas, garantiu a 1st seed na liga, e fizeram isso jogando nas duas divisões mais fortes da MLB: a AL East teve QUATRO times acima de 50% - única divisão em 2013 a conseguir tal feito - e a NL Central teve três times que foram aos playoffs vencendo pelo menos 90 jogos. O Cardinals liderou a MLB em Pythagorean Wins com 101 e o Red Sox foi segundo com 100, também. Essa vai ser a primeira vez desde 1999 que os dois times com melhor record de cada conferência se enfrentam na World Series.
Vantagem: Empate


Sucesso recente

O Cardinals é possivelmente a franquia que mais teve sucesso nos últimos anos, chegando aos playoffs múltiplas vezes nos últimos anos, vencendo a World Series de forma milagrosa em 2011 com um dos jogos mais famosos da história da World Series (David Freese incorporando Ted Williams no G6 da WS) e um dos jogos mais underrateds dos últimos anos (G5 da ALDS, quando venceram os invencíveis 102-60 Phillies por 1-0, com Roy Halladay arremessando 8 entradas e cedendo apenas uma corrida e Chris Carpenter conseguindo um shutout para avançar o time). Um ano depois, o Cardinals chegou muito perto de voltar as Finais mas se tornou mais uma vítima em uma das pós temporadas mais milagrosas que eu já vi depois de 2004 (e que rendeu um dos meus melhores textos, só clicar no link). Enquanto isso, o Red Sox sofreu um dos maiores e mais vergonhosos colapsos da história da MLB em 2011 e teve uma das suas piores temporadas em 50 anos em 2012, então... yeah.
Grande vantagem: Cardinals


Capacidade no bastão

Apenas dois times anotaram mais corridas que o Cardinals na temporada regular. Um deles foi o Red Sox, que anotou logo 70 a mais mesmo com o Cardinals tendo jogado mais entradas na temporada. Mas olhar corridas anotadas é uma forma muito primitiva de olhar para ataques, pois ela está sujeita a todo tipo de fatores além do controle da equipe: clusterluck, aproveitamento com RISP (o segredo do Cardinals na temporada regular e que caiu quase 60 pontos nos playoffs, btw), sorte, estádios favoráveis, uma liga tem DH e a outra não, etc. Então é melhor olhar estatísticas que ajustam por fatores externos e que usam apenas aquilo que está sob o controle de um time quando ele sobe ao bastão, minha favorita sendo wRC+. Por wRC+, o Red Sox continua com o melhor ataque da MLB com 115 (ou seja, ajustando para sorte e estádios, ele gera 15% a mais de corridas que a média da liga), enquanto o Cardinals continua com um bom-mas-não-tanto 106, bom para sétimo lugar. Boston também lidera a MLB nas duas categorias mais importantes que envolvem passagens no bastão- OBP e SLG - mesmo ajustando para a presença do DH. Então a não ser que o Cardinals tenha descoberto um segredo milenar chinês para rebater com RISP - e talvez mesmo se tiver - o Red Sox tem o melhor ataque.
Vantagem: Red Sox


Baserunning

A outra parte de qualquer ataque, além do que os times fazem com o bastão, envolve correr as bases. Por correr as bases você deve entender tanto a capacidade de um time de roubar bases (e não ser pego roubando, claro) como de avançar bases extras nas rebatidas dos seus companheiros quando alguém está em base. O Red Sox terminou a temporada regular em quinto nesse quesito, gerando 11.3 corridas a mais com as pernas, e teve também o mais valioso corredor da MLB em Jacoby Ellsbury. O Cardinals foi um time basicamente medíocre nesse quesito: 17th, perdendo 0.9 corridas em 162 jogos por causa de baserunning. Então o Red Sox foi melhor, mas não é como se o Cardinals fosse uma atrocidade como o Detroit Tigers (que aliás se complicou muitas vezes na ALCS por conta disso): O Tigers terminou a temporada com -19.4 BsR (estatística que mede quantas corridas um time gerou correndo as bases), não só a pior marca da MLB em 2013 como a quarta pior marca dos últimos 70 anos. (O pior time desses 70 anos? 2004 Red Sox, é claro, um time cuja jogada mais famosa e mais emblemática foi... wait for it... exatamente um roubo de base, a famosa roubada de Dave Roberts contra Mariano Rivera no G4 que mudou os rumos da série! Ah, a ironia...)
Vantagem: Red Sox


Melhor jogador

Para o Cardinals, é ou Matt Carpenter (.318/.392/.481, 147 wRC+, 7.0 WAR) ou Yadier Molina (.319/.359/.477, 134 wRC+, 5.6 WAR), dependendo do quanto você gosta de creditar o sucesso dos arremessadores do Cardinals a capacidade de Molina chamando o jogo atrás do home plate. Nenhum dos dois tem jogado muito bem nos playoffs, mas essa é uma amostra pequena para tirar qualquer tipo de conclusão, e Carpenter possivelmente seria o MVP da NL se não fosse Andrew McCutchen. Para o Red Sox, você tem uma boa variedade para escolher, entre Jacoby Ellsbury (.298/.355/.426, 113 wRC+, lider em BsR, 5.8 WAR), Dustin Pedroia (.301/.372/.415, 115 wRC+, 5.4 WAR) ou até mesmo David Ortiz (.309/.395/.564, 153 wRC+, 3.8 WAR) pelo bastão. Red Sox tem mais profundidade (poderia ter incluído ai Shane Victorino e seu 5.6 WAR ainda), mas Carpenter teve o melhor 2013 entre todos os rebatedores dessa série.
Vantagem: Cardinals


Defesa

Aqui depende um pouco de que estatística você quer usar (se você quer usar "erros", eu sugiro que você vá ler um pouco mais sobre UzR antes de continuar, porque erros é uma estatística estúpida). Tradicionalmente eu gosto de usar UzR - ele mede quantas corridas um jogador de uma certa posição evitou (ou cedeu a mais) em relação a um jogador mediano da sua própria posição - porque é simples e eficiente. Mas ultimamente o fangraphs criou uma estatística que seria basicamente um UzR ajustado: ele considera que um SS que tem UzR de -1 é um defensor muito melhor que um 1B que tem o mesmo UzR, já que jogar de SS é muito mais difícil, então ele ajusta isso de acordo. É interessante na teoria, mas pensando em uma série curta, o que importa são as corridas a mais ou a menos que o time cede em um vácuo, independente de onde essa corrida veio. Então deixo a seu critério saber qual delas usar: em UzR, o Red Sox é 10th com 21.6 e o Cardinals é o quarto pior com -49.4; e em UzR ajustado, o Red Sox é 17th (6.5) e o Cardinals 20th (-8.3). Dividindo a diferença, e lembrando que o Red Sox pode usar o Papi de 1B nos jogos em Saint Louis, vantagem Red Sox mas não tão grande.
Vantegem: Red Sox


Mando de campo

A AL ganhou o All-Star Game, ironicamente com Mariano Rivera de MVP, o que significa que o Red Sox tem o mando de campo nessa World Series. Então o Red Sox tem a vantagem de jogar quatro jogos em casa - com as regras da AL - e jogar um eventual jogo 7 decisivo em seus domínios.
Vantagem: Red Sox


Adaptabilidade as regras

No baseball, a AL e a NL tem algumas regras diferentes, principalmente a do Designated Hitter. Então essa bagunça, na World Series, significa que nos jogos com mando do time da AL ambos os times jogam com DH, e nos jogos com mando da NL nenhum usa. Isso obviamente gera uma distorção - o time da AL perde um bom rebatedor e o da NL ganha um, quando jogam fora de casa - mas depende também de qual time está mais pronto para fazer essa adaptação.

No caso do Red Sox, o time vai ter que sacrificar Ortiz ou Mike Napoli nos jogos na NL. Considerando que a rotação inteira do Cardinals é de destros, provavelmente Papi que vai jogar esses jogos (embora talvez não todos - meu palpite é que ele joga dois e Napoli um), o que enfraquece o time na defesa e fortalece o ataque. Mas o Red Sox de modo geral tem uma vantagem interessante jogando na NL: uma legião de pinch hitters, perfeito para explorar matchups nos finais das partidas. O time também tem jogadores velozes (Victorino, Ellsbury, Quentin Berry) que são excelentes "manufaturando" corridas, e embora alguém possa dizer que o Sox não é um time bom fazendo bunt, isso é uma coisa boa porque (tirando algumas situações específicas) o bunt é uma jogada que diminui sua chance de anotar corridas em uma dada entrada ao invés de aumentar (de novo, depende do contexto, mas no geral funciona assim). Não me parece o ideal para o Red Sox, mas pelo menos seu banco profundo vai ser uma vantagem. Para o Cardinals, eles ativaram o único rebatedor que poderiam para o DH, Allen Craig, que não joga faz mais de um mês... mas isso me parece um pouco uma medida de último recurso. Craig não joga faz muito tempo, e provavelmente só foi ativado para a WS porque não tinha mais ninguém para fazer a função. Não confio que Craig esteja 100%, mas se estiver perto disso, é uma boa vantagem especialmente contra o canhoto Jon Lester no G1.
Pequena vantagem: Red Sox


Rotação titular

O Cardinals tem os dois melhores arremessadores titulares da série, Adam Wainwright e Michael Wacha (NLCS MVP), então isso sozinho já faz o time ter uma vantagem nessa categoria. Embora seja interessante mencionar que Wacha, escalado para começar os jogos 2 e 6 (ambos no Fenway Park), tem uma brutal diferença jogando dentro e fora de casa (2.4 FIP em casa e 4.06 fora), enquanto Jon Lester foi um dos melhores arremessadores da MLB em Setembro (2.28 de FIP - melhor que Wainwright no mesmo período). E apesar de Wacha/Wainwright serem a melhor dupla da série, o Red Sox tem vantagem no duelo Joe Kelly/John Lackey ou Clay Buchholz (inclusive um eventual G7). O Cardinals ainda tem a vantagem porque tem mais talento no topo da rotação, mas Wacha jogando apenas fora de casa e a emergência de Lester em Setembro (especialmente considerando a dificuldade do Cardinals contra LHP), a diferença é menor do que parece a primeira vista.
Vantagem: Cardinals


Bullpen

O Cardinals teve um sólido Bullpen em 2013, terminando com o terceiro melhor FIP da MLB, enquanto o do Red Sox caiu no meio da tabela. Mas nos playoffs, você não precisa de todos seu bullpen, precisa de apenas uns poucos escolhidos. O Cardinals tem alguns jogadores interessantes, entre eles o especialista em groundballs Seth Maness e o 0.45 de ERA do Kevin Siegrist, e o canhoto Randy Choate vai cair bem para enfrentar os canhotos do Red Sox. Enquanto isso, Boston tem apenas dois relievers confiáveis: o canhoto Craig Breslow e o destro Junichi Tazawa, ambos tem jogado muito bem nos playoffs, mas fora os dois ninguém inspira confiança, e isso pode custar o Red Sox nos jogos mais táticos da NL que envolvem muitas mudanças de arremessador, ou mesmo nos jogos de Buchholz, que está sem a mesma energia desde que se machucou. O Cardinals tem mais depth, e por isso leva a categoria.
Vantagem: Cardinals

Closer

O closer calouro do Cardinals, Trevor Rosenthal, teve uma temporada muito boa, sétimo na MLB entre RPs com 2.2 de WAR, um FIP de 1.96, e tem sido ainda melhor nesses playoffs com sua bola rápida dançando em torno de 98 MPH. Um top prospect da organização, Rosenthal me lembra outro closer calouro da organização, que conseguiu o save final na World Series de 2006 e eventualmente virou titular um ano depois. Esse closer, Adam Wainwright, hoje é um dos melhores pitchers da MLB, e me pergunto se o mesmo pode acontecer com Rosenthal em breve: embora seja principalmente um pitcher de fastballs, ele tem uma curveball e um changeup em desenvolvimento e algo que lembra um slider ou cutter, então ele parece estar caminhando na direção da titularidade mesmo. Mas por melhor que Rosenthal tenha sido, o Red Sox tem um jogador que terminou uma das melhores temporadas por um relief pitcher na história da MLB e que teve a sequência mais dominante por um closer na história do jogo. Então tem isso. 
Vantagem: Red Sox


Carisma e estilo

O Red Sox vence sobre o Cardinals e qualquer time da MLB. Quer dizer, olha essas barbas!! Como não gostar desse time?! Eu não gosto muito desses times "Somos guardiões da honra do jogo e ninguém pode demonstrar emoção" que nem o Cardinals, e agora eles encontraram um prato cheio em Boston. 
Grande vantagem: Red Sox


Manager

Avaliar um manager é difícil demais, porque nós só temos acesso a uma parte de ser um manager: suas decisões e estratégias dentro de campo. A parte contínua - cuidar do vestiário, conduzir a carreira e o ego dos seus jogadores, promover mudanças na sua equipe para tirar o máximo dos jogadores, etc - é algo que não temos como medir, estão incorporadas em todos os números que já falamos. Então quando pensamos no impacto que um manager pode ter em uma série de 7 jogos, estamos pensando principalmente nas decisões dentro de campo.

Eu vejo muitos torcedores do Cardinals criticando muito o Mike Matheny, mas não acho ele tão ruim - ou pelo menos não é pior do que o grande número de managers tradicionais que pensam demais em seguir as "diretrizes corretas" do baseball ao invés de tomar as decisões que maximizam suas chances de vencer. Mas ele não tem medo de confiar nos seus jogadores calouros como Rosenthal, e em geral sabe conduzir bem sua equipe com um lineup um pouco limitado (mais sobre isso daqui a pouco). Do outro lado, Farrell absolutamente se recusa a seguir lógicas simples, como por exemplo o que fez no G6 e quase custou ao time a vitória (trazendo seu pior reliever, famoso pelos walks, para enfrentar o meio da ordem do Tigers com 2 em base e nenhum eliminado quando tinha Breslow, Tazawa ou Koji Uehara ainda no bullpen. Franklin Morales cedeu um walk e uma deveria-ter-sido-double que só não teve mais estragos porque o Prince Fielder é um dos piores baserunners da história do mundo) ou mesmo não usar o canhoto Daniel Nava (146 wRC+) contra RHP para usar o destro Jonny Gomes (103 wRC+ contra RHP). Eu prefiro o cara convencional do que o cara que não faz sentido.
Vantagem: Cardinals



Vantagem em caso de briga

O Cardinals é um time que gosta de manter suas emoções sob controle, e em uma briga, é sempre importante ter os jogadores mais ensandecidos. O Red Sox tem Victorino, Napoli, Jonny Gomes, Dustin Pedroia e mais uma meia dúzia de malucos que eu odiaria ver pela frente em um dia de fúria. E btw, eu não sei se o Cardinals tem uma resposta a altura do David Ortiz.
Vantagem: Red Sox


Banco de reservas

Uma das maiores fraquezas do Cardinals nesses playoffs. Com Craig fora, seus melhores pinch hitters eram Shane Robinson, Daniel Descanso ou o calouro Kolten Wong, horríveis opções para enfrentar jogadores como Kelly Jansen, Craig Kimbrel ou Uehara. Com Craig isso melhora um pouco, mas se ele jogar de DH o time fica absolutamente sem ninguém competente para trazer do banco nos jogos em Boston, e mesmo com ele (a menos de 100%) faltam opções para o time em St Louis. Enquanto isso, o Red Sox pode ter o melhor banco da NFL: se Gomes continuar jogando de titular, o time tem dois excelentes canhotos (Mike Carp e Nava) e mais Will Middlebrooks de destro, um dos melhores corredores da MLB em Quentin Berry, e talvez até Jarrod Saltalamacchia se David Ross começar de titular alguns jogos. O que não falta são opções.
Grande vantagem: Red Sox


Organização como um todo

O Cardinals vence qualquer time dos últimos 15 anos na MLB nesse critério. O trabalho que o Cardinals - 15th maior folha de pagamento da MLB apenas - tem feito com seu time é espetacular: suas ligas menores são uma fábrica de grandes jogadores (sai Albert Pujols, entra Matt Carpenter, Allen Craig, Matt Adams; machuca Chris Carpenter, sobem Wacha e Shelby Miller), o time sabe muito bem como evitar contratos imensos que entopem a folha salarial do time (Pujols alert!) e maximizar cada um dos seus ativos, e eles tem feito isso por quase 10 anos agora. Não é uma coincidência que o time está tão consistentemente entre os melhores da MLB mesmo sem uma folha de gastos tão grande. Ano que vem, o Cardinals pode ter uma rotação titular com Wainwright, Lynn, Wacha, Miller E Rosenthal - todos produtos da casa - e ainda tem o melhor prospect das ligas menores (Oscar Taveras) esperando na AAA. Invejável o que essa organização faz, e merece o sucesso que tem.
Grande vantagem: Cardinals


Matchup direto

Em outras palavras, como as forças e fraquezas de cada time combinam entre si, e qual time tem vantagem nisso?

A maior força do Boston Red Sox é algo que é frequentemente negligenciado mas que foi um fator chave na sua vitória na ALCS: o lineup do Red Sox simplesmente pune o braço dos arremessadores. O time trabalha cada bola, cada at bat, cada arremesso em busca da bola ideal, forçam o adversário a arremessar muitas vezes por confronto, e no final da sexta ou sétima entrada mesmo o arremessador mais dominante tem que sair do jogo porque está fisicamente esgotado. Muita gente apontou para o bullpen do Tigers sendo ruim como o fator decisivo da série, mas eles tiveram que ser tão usados porque os arremessadores do Tigers não conseguiam terminar as partidas tendo lançado tantos arremessos, mesmo sendo o grupo mais durável da MLB. Então entrou o bullpen - sempre pior que a rotação titular - e o Red Sox cansou de castigar essas figuras. Considerando que entre todas as áreas do confronto a grande vantagem que o Cardinals vai precisar explorar para ganhar são seus arremessadores titulares, essa capacidade do Sox de eliminar cedo na partida os SPs é crucial para assegurar que Wacha e Wainwright joguem o mínimo possível. Se Boston tiver sucesso nisso, tem a série nas mãos.

Da mesma forma, a maior fraqueza do Cardinals é (além do banco horrível) sua dificuldade rebatendo contra canhotos. Por sorte, o Red Sox só tem um canhoto, Lester, na sua rotação, mas ele é o melhor pitcher do time e pode jogar até um terceiro jogo em caso de chuva. Craig é uma peça importante contra Lester, considerando que ele é muito melhor contra canhotos do que Matt Adams, mas ainda não é sua especialidade (ele é melhor contra destros) e Craig não deve estar 100%, então o matchup Lester-lineup do CArds é favorável a Boston.
Vantagem: Red Sox


X-Factor

A variável que determina de fato as chances do Cardinals é Allen Craig. Craig foi o terceiro melhor rebatedor do time em 2013, é um jogador muito eficiente no bastão e foi o melhor jogador do time rebatendo com jogadores em posição de anotar corrida, o único jogador ativo cuja diferença rebatendo com RISP é significativa (ao contrário do time do Cardinals em 2013 como um todo, btw, que não é). Craig foi ativado para servir como DH na AL e dar proteção ao banco do time, mas como eu disse, ele não joga faz um mês e meio e, se não foi ativado sequer para ficar no banco como jogador de emergência na NLCS, é porque deve estar longe de 100%. Sua lesão no pé também vai afetar consideravelmente sua já fraca defesa e baserunning, então ele deve ter um papel maior como DH e pinch hitter mesmo - talvez começando de titular um eventual G5 contra Lester em casa. Se Craig estiver 100% ou perto disso, ele pode mudar essa série pois "tapa" a grande fraqueza desse banco e é um excelente rebatedor de modo geral, oferece um DH para tirar vantegem da posição na AL (imagina se fosse Descalso ou Robinson? Yeekes!) e uma opção ao canhoto Adams. Mas novamente, vai depender do quanto ele estiver bem e produzindo, talvez não seja mais do que uma tentativa infrutífera.

Do lado do Red Sox, o X-Factor é o X-Man, Xander Bogaerts. Nas listas de "prospects" do baseball (como a que colocou Wil Myers #1 em 2013), o que eles consideram não é apenas o nível do prospect mas o quão perto de produzir nas ligas maiores ele está. Mas se considerarmos apenas o valor dos jogadores nas Minor Leagues (ou seja, qual deles teria mais valor caso o time decidisse trocar ou mesmo o valor esperado total que o jogador deve produzir), então Bogaerts e Byron Buxton seriam 1-2 em alguma ordem em qualquer lista do mundo. Apesar dos 21 anos, Bogaerts assumiu a titularidade na metade da ALCS e foi o jogador mais impressionante do time, conseguindo walks em 45.5% das suas passagens no bastão e rebatendo apenas doubles. Amostra pequena, obviamente, mas é só assistir o moleque para perceber que ele é especial: seu olho no bastão é uma coisa fora de série (trabalhou a contagem para 3-2 em todos seus ABs na ALCS contra Max Scherzer saindo de 0-2 e 1-2, terminando com dois walks e um double) e ele tem se destacado muito também na defesa. Considerando a falta de canhotos no lineup titular do Cardinals, ele provavelmente vai jogar na 3B no lugar de Middlebrooks e não na sua posição de origem de SS, mas ele rebateu muito bem quando teve a chance e deveria subir no lineup para essa série. Xander é o jogador que, se subir no bastão (talvez para 6th, um lugar onde o time sofre muitos Ks) e produzir, pode mudar essa série pro Sox.

Veredito final: Red Sox em 7.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Considerações sobre as LCS


This is October baseball


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Normalmente eu nem iria escrever essa coluna sobre a ALCS e a NLCS, apesar de todo meu amor pelos playoffs da MLB. Infelizmente, é NFL e não MLB/NBA que eu tenho que produzir semanalmente para o Esporte Interativo, então falta tempo para sentar e escrever direito de baseball. Mas como um número surpreendentemente grande de leitores veio pedir essa coluna e falar que gostam do que eu escrevo de baseball, então acabei escrevendo esse post para falar um pouco sobre alguns fatores interessantes dessas finais de liga na MLB. Considerando que peguei o bonde andando, não vou fazer um preview ou uma previsão, só comentar alguns pontos interessantes e como eles podem ou não influenciar a série daqui para frente. Então vamos começar pela ALCS, onde o Red Sox abriu 2-1 de vantagem na série ontem.


ALCS: Boston Red Sox vs Detroit Tigers


- O show de strikeouts do Detroit Tigers
Nesses três primeiros jogos da ALCS, uma das coisas que mais chamou a atenção foi o show de strikeouts que os titulares do Detroit Tigers estavam conseguindo. Em três jogos, os três principais arremessadores do Tigers (Justin Verlander, Max Scherzer e Anibal Sanchez) arremessaram juntos 21 entradas e conseguiram 35 strikeouts, um números basicamente absurdo e impossível que deveria ser proibido. Basicamente, os titulares do Tigers enfrentaram 77 batedores e conseguiram 35 strikeouts, um índice de strikeouts de 45.4%. O recorde de uma única temporada para um arremessador é 37.5%, Pedro Martinez em sua lendária temporada de 1999. Então por ai da para ver o quão dominante tem sido esse trio na série, e também o quão é absurdo o que eles estão fazendo, especialmente contra um time que teve o melhor ataque da MLB durante a temporada regular.

Como geralmente acontece nesses casos, algumas pessoas perguntaram se isso mostrava uma grande performance dos arremessadores de Detroit ou uma sequência muito ruim dos rebatedores de Boston, que não conseguiriam acertar uma pinhata a essa altura. E como normalmente é o caso, a resposta é que um pouco dos dois casos. Quando você tem uma dominação muito grande, geralmente é uma história de dois lados. Yu Darvish é um arremessador espetacular, mas não é uma coincidência que alguns de seus melhores resultados na carreira vieram contra os horríveis Astros, por exemplo. Também não é uma coincidência que o Seattle Mariners tenha sido uma fonte constante de no-hitters nos últimos anos para seus adversários.

Essa série não tem sido diferente. O Tigers tem um conjunto de arremessadores que é monstruoso com Scherzer, Verlander e Sanchez, três pitchers que conseguem uma tonelada de strikeouts e que possuem um repertório devastador. Durante a temporada regular, Scherzer foi o segundo colocado na MLB em K% com 28.7% (atrás dos 32.4% de Darvish) e Sanchez foi o quinto colocado com 27.1%, enquanto que Verlander vinha na 15th posição (23.5%) mas subia para o Top5 pegando apenas no mês de Setembro. Scherzer também possuía a quarta melhor fastball de 2013 (atrás de atrás de Harvey, Kershaw e Cliff Lee) e o terceiro melhor slider (atrás de Darvish e Jose Fernandez), enquanto Sanchez aparece no Top10 com seu changeup e seu slider e Verlander é Justin freaking Verlander, 2011 MVP e o melhor pitcher da MLB entre 2009 e 2012. Então não é nenhuma surpresa ver esse trio conseguindo dominar adversários, acumulando strikeouts e usando seus arremessos dominantes em situações favoráveis (mais sobre isso daqui a pouco). O problema é que essa dominação é um pouco absurda demais mesmo para os altos padrões dessa rotação, e para isso é só olhar do outro lado, para os at bats que o Red Sox está tendo nessa série, e eles tem sido realmente atrozes: tirando os seis walks conseguidos contra o Anibal Sanchez, o que temos visto é uma sequência enorme de jogadores indo para swings fora da zona de strike, com pouco controle sobre a zona e que estão tendo dificuldades em fazer contato de maneira geral. 

Algumas pessoas se perguntam se essa sequência realmente muito ruim do Red Sox no bastão tem a ver  com o tipo de abordagem da equipe durante toda a temporada. Ao longo do ano, o Red Sox foi de longe o melhor time da MLB trabalhando as contagens e os at bats em seu favor, um time extremamente paciente, que via muitos arremessos a cada passagem pelo bastão e via, como consequência, um grande número de contagens altas. Uma das consequências desse tipo de abordagem, naturalmente, é que você vai cometer muitos strikeouts, já que vai se ver muito em situações de dois strikes - e de fato, o REd Sox foi o nono time que mais sofreu strikeouts em 2013, 20.5%. Mas esse tipo de abordagem também trás outras vantagens. A primeira é que você tamb ém vai conseguir muitos walks, já que vai se colocar em muitas contagens de três bolas, e de fato o Red Sox foi o quarto melhor time conseguindo walks, 9.1% das passagens no bastão. E segundo e talvez mais importante, ver um grande número de arremessos significa que tem mais chances, a cada passagem no bastão, de receber aquele arremesso que você mais gosta ou é mais eficiente rebatendo, aquele arremesso sob o qual você tem o maior controle, e isso o Red Sox fez a perfeição: apenas dois times rebateram mais LDs do que o Red Sox, e Boston terminou o ano com o maior BABIP e o maior xBABIP de toda a liga, uma mostra de que eles realmente controlaram muito bem as bolas que colocavam em jogo. Mas nessa série, isso pode estar atuando contra a equipe: os rebatedores do Sox estão se colocando muito cedo em situações de 1-2 ou 0-2, mas dessa vez estão fazendo isso contra uma equipe que tem arremessadores com arremessos muito mais perigosos do que o comum para conseguir esse strikeout. Esse trio do Tigers foi particularmente brutal enfrentando arremessadores em contagens de dois strikes, pois podiam usar seus melhores arremessos nesses momentos, e é muito mais complicado sobreviver quando jogadores desse calibre estão usando suas melhores bolas. E isso é um dos fatores que tem levado tanto aos strikeouts.

A pergunta que isso levanta, naturalmente, é se o Red Sox deveria mudar sua abordagem, indo para o swing mais cedo nas contagens ao invés de se colocar nessas situações favoráveis aos arremessadores adversários. Essa é uma questão mais difícil do que parece a primeira vista. Fazer isso provavelmente vai diminuir os strikeouts e vai levar o time a colocar mais bolas em jogo, sem dúvida, mas também possui alguns poréns. Primeiro, porque torna mais difícil para o time chegar em base através de walks (uma das suas grandes forças) e ver os arremessos mais favoráveis para rebater. Mas segundo e talvez mais importante, porque não gasta o braço dos arremessadores. Esse é um benefício menos comentado de trabalhar muito a contagem, mas quando você obriga o pitcher a arremessar mais vezes, você encurta o tempo que ele fica em campo e as entradas que ele arremessa, forçando o titular (e provavelmente um jogador melhor) a sair e entrar o bullpen (e seus jogadores inferiores). Isso é particularmente importante em uma série onde os titulares de Detroit estão sendo tão dominantes, porque obriga eles a saírem mais cedo da partida e colocar os relievers, que estão sendo muito pouco confiáveis nesses playoffs (a começar pelo Grand Slam de David Ortiz no G2, com cinco relievers diferente colocando um jogador em base). Então é uma faca de dois gumes ir para o swing antes: você diminui os strikeouts, mas você se arrisca a ver jogadores como Scherzer e Verlander - jogadores que você normalmente iria querer ver o mínimo possível - por mais entradas. Achar esse balanço - o time tentou contra Justin Verlander e não teve muito sucesso, apesar da vitória - vai ser chave quando Sanchez e Scherzer voltarem ao montinho para uma segunda chance.


- Historicamente bom
Claro, você está lendo isso numa quarta feira a tarde sabendo que o Red Sox está vencendo a série por 2-1 nesse momento. E isso aconteceu por dois motivos, principalmente: porque o Red Sox possui David Ortiz, e porque eles conseguiram vencer Detroit em seu próprio jogo no G3.

A história do G2, passando um instante pelo final histórico e mais um home run monumental nos playoffs de David Ortiz (uma mistura de Dave Henderson e Roy Hobbes a esse momento), é de algo que eu já falei dois parágrafos atrás. Contra Scherzer, o provável Cy Young da AL, o Red Sox foi, novamente, inútil: em sete entradas, o time conseguiu duas rebatidas e dois walks, mas sofreu 13 (!!) strikeouts e anotou apenas uma corrida, números muito ruins para um ataque tão potente. Mas pelo menos, a abordagem de muitos arremessos e trabalhar contagens fez com que Scherzer chegasse aos 108 arremessos nesse ponto, fazendo Jim Leyland tirá-lo e confiar no seu bullpen, muito menos confiável desde a série contra Oakland. O resto foi história: Jose Veras cedeu um double para Will Middlebrooks e saiu para a entrada de Drew Smily com o canhoto Jacoby Ellsbury indo ao bastão. Smily cedeu o walk para Ellsbury e foi tirado por Al Albuquerque, que conseguiu o strikeout em cima de Shane Victorino mas cedeu a rebatida simples para Dustin Pedroia para lotar as bases. Leyland trouxe então seu closer Joaquin Benoit para enfrentar David Hobbes Ortiz, que imediatamente mandou o primeiro arremesso que ele viu (83 MPH changeup) para o outro lado do muro empatando o jogo com um grand slam. Uma entrada depois, contra um confuso Rick Porcello, Jarod Salty venceu a partida com um walk-off single no que deveria ter sido uma confortável vitória do Tigers para praticamente selar a série. Então é fácil se maravilhar com David Ortiz aparecendo em um momento crucial em Outubro mais uma vez - ele possivelmente vai entrar no Hall da Fama pelo seu currículo de playoffs sozinho - e possivelmente salvando a temporada de Boston com um dos HRs mais importantes e incríveis dos últimos anos, mas não foi nada fácil, e precisou de Scherzer sentado no banco e um improvável rally contra o fraco bullpen de Detroit para chegar nesse ponto... e digamos que ter um dos maiores monstros em playoffs da história recente (deixando de lado o inútil debate sobre clutchness ou não, você vai ter trabalho achando um jogador que teve mais desses momentos em playoffs nos últimos anos do que Ortiz) ajuda.

No G3, o Sox bateu o Tigers no seu próprio jogo: pitching. Justin Verlander foi magistral com 8IP, 10K, 1 BB e 1 ER, mas de alguma forma John Lackey - experimentando uma temporada de volta por cima absolutamente assombrosa - conseguiu ser ainda melhor, striking out 8 em 6.2 entradas sem ceder walks ou corridas. De fato, a vitória veio por um quesito em que o Tigers tinha chamado mais a atenção: strikeouts. Entre Verlander e o bullpen, o Tigers conseguiu 11 strikeouts na partida, um bom número... mas entre Lackey e o bullpen do Sox, o time combinou para 12 Ks na partida. Se o Tigers estava vencendo por conta de seus arremessadores, dessa vez Boston deu o troco, dominando do começo ao fim o bom (mas baleado) lineup de Detroit. Mas mais importante do que a quantidade de strikeouts, foi como os arremessadores conseguiram esses strikeouts em momentos cruciais da partida. O primeiro aconteceu na quinta entrada, quando Jhonny Peralta começou a entrada com uma rebatida dupla e avançou para a terceira base no groundout de Alex Avila. Era uma situação clara de sac fly, e com Lackey e Verlander jogando como estavam, uma corrida poderia se provar decisiva (como aconteceu)... mas Lackey trabalhou a contagem completa contra Omar Infante, conseguindo o strikeout com um cutter obsceno que Infante não chegou nem perto de rebater.

O segundo momento de perigo - e um perigo bem maior - aconteceu na oitava entrada, pouco depois do HR de Mike Napoli dar a vantagem ao Sox. Depois de uma série de decisões questionáveis de John Farrell (chegaremos nela) fez o Tigers colocar homens na primeira e terceira base com apenas ume liminado, e o que era pior, com o coração da ordem do time vindo para o bastão - Miguel Cabrera, Prince Fielder e, eventualmente, Victor Martinez. Junichi Tazawa enfrentou o provável MVP da MLB com artilharia pesada: quatro fastballs, 94, 95, 94 e 94 MPH, todas altas desafiando Cabrera a ir para o swing... e ele foi em todas, somando três swinging strikes e um foul ball, sendo enfim eliminado por strikeout. Tazawa nunca teria feito isso se Cabrera tivesse 100% - durante a temporada regular ele foi obsceno rebatendo fastballs, especialmente altas ou na parte de dentro da zona - mas ele está claramente limitado até aqui e não está conseguindo gerar o mesmo tipo de poder com seu swing, então Tazawa aproveitou isso (e o fato de que Cabrera foi um dos jogadores da MLB que mais rebateu em DPs) para atacar o 3B, e conseguiu o strikeout. Fielder subiu ao bastão ainda em uma situação delicada, mas Farrell trouxe Koji Uehara para enfrentar o gordinho: Fastball, fastball, splitter, strikeout, e o resto é história, com Boston assumindo a vantagem 2-1 na série apesar de suas dificuldades contra os titulares de Detroit.

Uehara, inclusive, é um personagem extremamente importante nesse time do Red Sox que não tem recebido o devido crédito por seu brilhantismo em 2013. Quando Uehara conseguiu o strikeout para cima de Prince Fielder, eu coloquei no twitter do blog que "Não vou mais chamar Koji Uehara de Mariano Rivera japonês. Agora Rivera é o Koji Uehara latino". Era obviamente uma brincadeira, mas um número surpreendentemente grande de pessoas achou que eu estava falando sério e me criticou por dizer isso. Então só para ser do contra, que tal isso...

2013 Koji Uehara: 1.09 ERA, 1.61 FIP, 2.08 xFIP, 0.57 WHIP
Melhores marcas da carreira de Mariano Rivera: 1.38 ERA (2005), 1.88 FIP (1996), 2.28 xFIP (2008), 0.67 WHIP (2008)

Impressionante, não é mesmo? E isso sem nem falar que esse 0.57 de WHIP é a melhor marca da história da MLB para um jogador com pelo menos 50 IP. Então em nenhum momento eu acho que Koji Uehara chega perto de Mariano Rivera - o maior closer da história do baseball - como jogador, mas o fato é que 2013 Koji Uehara foi mais dominante do que Rivera, Joe Nathan, Joakim Soria ou qualquer outro grande closer moderno (tirando TALVEZ 2012 Craig Kimbrel) foram em algum ponto específico de suas carreiras. E sinceramente, isso é mais do que suficiente.


- Decisões de um técnico
Um dos momentos mais polêmicos da partida de ontem foi a decisão do John Farrell de tirar Lackey - que estava espetacular - depois de 6.2 entradas e colocar Craig Breslow para enfrentar Alex Avila. O narrador da partida, Romulo Mendonça (de quem eu gosto) disse que era uma decisão controversa e difícil, e que só saberiam se ela foi certa ou não dependendo do resultado da entrada. Com todo o respeito, essa é a PIOR forma de se avaliar qualquer tipo de decisão durante o jogo. O resultado de qualquer decisão é influenciado por inúmeros fatores além do controle ou do conhecimento do técnico, fatores esses que muitas vezes são aleatórios, em particular em um esporte como baseball. Avaliar uma decisão com base no resultado final é a forma mais pobre possível. Ontem eu comentei sobre um caso semelhante na NFL e expliquei, passo a passo, como devemos olhar para o processo da tomada de decisão na hora de julgar um técnico, e não o resultado final. Embora o esporte seja outro, o raciocínio ainda vale: o técnico não tem como saber qual vai ser o resultado de sua ação, está além do seu controle muitas vezes, a questão é que ele precisa tomar a decisão que de ao seu time a melhor chance de sucesso, ainda que as vezes a melhor decisão nem sempre de no melhor resultado, e vice versa. Então ignorando essa besteira de "a decisão foi boa se o resultado foi bom", vamos olhar o processo de tomada de decisões de Farrell e ver aonde ele acertou e aonde ele errou.

Primeiro, Lackey estava dominando a lineup do Tigers, como já dissemos: 8Ks, nenhum walk e apenas uma rebatida multibase (o double de Peralta). Até que Farrell decidiu, com 2 outs, nenhum homem em base e Alex Avila no bastão, tirar Lackey e trazer Craig Breslow para enfrentar o catcher de Detroit. Bom, para avaliar essa decisão, primeiro precisamos partir de um simples fato: Lackey não iria voltar para a oitava entrada de qualquer forma. O RHP já estava se aproximando dos 100 arremessos, e Farrell disse que não queria exagerar na carga de seu titular de um eventual G7, então ele não iria voltar de qualquer forma. Nesse caso, a única questão que fica na sétima entrada é simples: quem teria maior chance de conseguir a eliminação sobre o canhoto Avila, Lackey ou Breslow?

A resposta para essa questão é fácil. Avila é um rebatedor muito bom contra destros, na verdade. Em 2013, ele rebateu .255/.345/.422 contra destros, para um wRC+ de 112 (ou seja, rebatendo contra destros ele gera 12% a mais de corridas que um jogador médio). Enquanto isso, contra canhotos Avila rebateu apenas .139/.227/.228 para um wRC+ de 25 (ou seja, 75% pior do que um jogador médio rebatendo contra canhotos). Mesmo com alguma influência de BABIP, os periféricos sustentam essa visão: Avila consegue walks a uma taxa 3.1 pontos percentuais maior contra destros e comete strikeouts a uma taxa 9 pontos percentuais maior contra canhotos, sem falar nas diferenças rebatendo por força (20% FB/HR ratio contra destros, 6.4% contra canhotos). Então me diga, considerando a enorme diferença de Avila rebatendo contra destros e canhotos, e que Lackey iria sair ao final da entrada de qualquer forma, me diga: quem você acha que, enfrentando Avila, teria maior chance de eliminá-lo, o destro ou o canhoto? Claro que o canhoto, e por isso foi uma decisão inteligente trazer Breslow.

Mas ai chegou a oitava entrada, com Jose Iglesias (pinch hitting no lugar do Andy Dirks por algum motivo obscuro) e o começo da ordem de Detroit (Austin Jackson, Tori Hunter e Miguel Cabrera) logo depois. Bom, antes de mais nada, sabe o que esses quatro jogadores tem em comum? Eles são todos destros, e Farrell tinha a sua disposição Junichi Tazawa - um destro - aquecendo no bullpen e que poderia entrar e enfrentar essa sequência de RHH. Ao invés disso, Farrell optou por manter Breslow. Então vamos olhar o que tem por trás dessa decisão.

Vocês provavelmente já ouviram ou ainda ouvirão um comentarista profissional de MLB falar que Breslow é mais eficiente contra destros do que contra canhoto apesar de ser um LHP, o que justificaria a decisão de Farrell de usar Breslow contra uma sequência de destros. Mas isso está totalmente errado. É o tipo de conclusão superficial que você vai chegar se olhar somente os números dos jogadores rebatendo contra Breslow: .205 quando são destros, e .253 quando são canhotos. Mas ai você começa a olhar mais a fundo, e você vai perceber que isso não vem da capacidade de Breslow e sim do puro acaso. Em baseball, existe uma estatística chamada BABIP, que significa Batting Average for Ball In Play. Em outras palavras, ela mede quantas das bolas que foram colocadas em jogo contra um dado arremessador viram rebatidas válidas. E a questão é a seguinte: arremessadores não tem quase NENHUM controle sobre seus BABIPs, é uma estatística que depende totalmente do acaso e da defesa, e que tende a um patamar próximo de .295 para todos os arremessadores quando colocados em uma amostra grande o suficiente. Por isso que quando analisamos um arremessador, o certo é olhar apenas para os fatores que ele controla diretamente: strikeouts, walks, e home runs. A diferença em aproveitamento dos rebatedores contra Breslow vem do fato de que seu BABIP contra canhotos está EXATAMENTE em .295 e contra canhotos está em .225, algo totalmente aleatório e fora do seu controle. Olhando para os valores que Breslow de fato controla, vemos que ele consegue mais strikeouts contra canhotos (1.35 por 9IP a mais) e cede muito mais walks (1 por 9IP a mais) e HRs (0.2 por 9IP a mais) contra destros - de fato, seu FIP contra canhotos é de 3.1 e seu FIP contra destros é de 4.01. Infelizmente algumas pessoas só sabem olhar nos dados superficiais ao invés de analisar a fundo cada aspecto do baseball, mas o fato é que Breslow não é e nunca foi um arremessador melhor contra destros, então não mencionem isso mais como sendo verdade... porque não é.

Por isso Farrell cometeu um erro ao deixar Breslow para enfrentar o topo destro da ordem do Tigers, espcialmente Jackson (que consegue 4.3% a mais de walks contra canhotos e strike out 1.4% a mais contra destros) e Tori Hunter (127 wRC+ contra canhotos, 112 wRC+ contra destros), dois jogadores que rebatem melhor ainda contra LHP. Breslow eliminou Iglesias mas logo andou Jackson em cinco arremessos, e Farrell enfim tirou seu arremessador, que não deveria ter começado arremessando em primeiro lugar com um destro como Tazawa pronto para entrar. Eu também questionei a decisão de trazer Tazawa e não Uehara para tentar um save de 5 outs, pois como já dissemos Uehara teve uma temporada absurdamente dominante e já tinha tido quatro 5-out saves e diversos 4-out saves na temporada, então não é como se estivesse fazendo algo novo para ele. Mas isso provavelmente envolve uma questão um pouco mais relacionada a rotina de bullpen que Farrell sabe melhor que eu, então não tem como avaliar qual dos dois deveria ter entrado: Uehara era o melhor jogador e me parecia mais indicado para entrar e tirar o time de uma encrenca, mas ai os dados ficam mais difíceis. Tazawa cedeu a rebatida para Hunter mas depois conseguiu um strikeout crucial em Cabrera (btw, preciso defender Farrell aqui: inteligente da parte dele deixar Tazawa e sua fastball mais veloz para enfrentar Cabrera, que está com dificuldades para rebater bolas muito rápidas desde a lesão) e Uehara entrou para começar seu 4-out save com um K em cima de Prince Fielder. No final tudo deu certo para Sox e Farrell, mas não quer dizer que ele tenha tomado as decisões corretas: ele acertou na sétima entrada, e errou no começo da oitava. 


NLCS: Saint Louis Cardinals vs Los Angeles Dodgers


- O segredo do Saint Louis Cardinals
Na temporada regular, depois de 162 excruciantes jogos, o Cardinals tinha anotado o terceiro maior número de corridas de qualquer time da MLB, com 183 - 13 corridas atrás do Tigers e 70 atrás do Red Sox. Considerando que o Cardinals joga na National League, onde não existe a figura do rebatedor designado e portanto os placares costumam ser menores, a expectativa inicial era que usando uma ferramenta como wRC+ - que ajusta pela diferença de regras entre as duas ligas - o ataque do Cardinals parecesse ainda melhor, certo?

Acontece que esse não é o caso. Utilizando as estatísticas avançadas, mesmo as que ajustam pela diferença entre as ligas, o Cardinals cai um pouco na tabela para o sétimo lugar, pouco a frente de Dodgers e Braves. Isso pode parecer um pouco contra-senso, já que o Cardinals foi tão bom anotando corridas em uma liga menos favorável a isso, então esperava-se que o ataque do time fosse melhor do que os da AL. Mas esse não é o caso por um simples motivo: as estatísticas avançadas para times desconsideram alguns fatores de sorte ou acaso, considerando apenas o mérito individual dos rebatedores e suas slash lines (average, OBP e slugging) para ver um valor mais "preciso" do quão bom é o ataque de um time sem as influências aleatórias. Então qual era o fator que contribuiu para o Cardinals anotar tantas corridas mas cair quando desconsideramos influências externas?

E esse é o segredo do Cardinals: seu ataque foi impulsionado demais pelos seus números extraordinários rebatendo com jogadores em posição de anotar corridas. Como um time durante toda a temporada, o Saint Louis rebateu .269 (desconsiderando por um momento OBP e SLG), mas quando tinha jogadores na segunda e/ou terceira base, o time rebateu .330, a melhor marca da liga por uma milha. Naturalmente, quando você rebate mais com RISP (Runner In Scoring Position, ou jogadores em posição de anotar corridas), você vai anotar mais corridas, um raciocínio bem simples. Isso, é claro, levou um número enorme de pessoas a concluir (erroneamente) que isso acontecia porque o Cardinals "sabia rebater com RISP", que o forte deles era sua "habilidade de rebater com RISP", ou mesmo que o Cardinals era um time "clutch" cujos jogadores misticamente ficavam melhores quando tinha um companheiro pisando na segunda ou na terceira base.

Claro, isso é um monte de besteira. Times que rebatem melhor em geral vão rebater melhor com RISP por uma simples questão de lógica, mas não existe, nos 130 anos de história da Major League Baseball, nenhum tipo de evidência de que alguns times tenham uma habilidade ou talento especial para fazer isso (ano passado o Cardinals foi nono no quesito, btw). Isso acontece porque a amostra de rebatidas com RISP em uma dada temporada é uma amostra pequena, e como toda amostra pequena, sujeita a todo tipo de viés ou influências aleatórias, e portanto não são estatisticamente significativas. Colocando isso em uma amostra maior ao longo da história, NENHUM TIME mostrou um desvio significativo entre sua média de rebatidas e sua média de rebatidas com RISP, e entre as dezenas de milhares de jogadores que já jogaram na MLB, um número ridiculamente pequeno deles (algo como nove) podem dizer que nas suas médias na carreira foram melhores (de forma significante) com RISP em relação ao resto, e nenhum deles é uma grande estrela - todos são jogadores menores com uma amostra relativamente pequena, e apenas um em atividade. Então não, essa habilidade de rebater com RISP do Cardinals não existe, é um mito vindo dos números insustentáveis da equipe. E caso já tenha esquecido, o Cardinals tem a quarta pior marca dos playoffs rebatendo com RISP com 0.196. So there.

Então uma vez tirado essa influência do acaso que não se sustenta em uma amostra maior, o que sobra é um ataque ainda bom, mas nem de longe tão devastador como se parecia olhando apenas suas corridas anotadas, o que explica um pouco suas dificuldades de anotar corridas nesses playoffs. Isso é particularmente preocupante contra canhotos, contra os quais o Cardinals rebateu apenas .238/.301/.371 na temporada, um número horrível... e isso era COM Allen Craig (um cara que eu descobri que não sei escrever o nome quando fui procurar seus dados) na lineup, um bom RHP e um dos melhores jogadores do time. Então se um ataque dominante é exposto com apenas um ataque bom quando tiramos a influência do acaso nesses números com RISP (e tiramos Craig do lineup), esses números ficam genuinamente preocupantes contra arremessadores canhotos, especialmente com o LHH Matt Adams na 1B. Considerando que o Dodgers, se vencer hoje, tem dois canhotos para fechar a série (Kershaw e Ryu) e eventualmente o Boston Red Sox pode jogar duas vezes com Jon Lester nos playoffs, é algo a ser observado (para sorte do Cardinals, o Detroit usa quatro destros na rotação, embora seu melhor jogador de bullpen seja o canhoto Drew Smyly). Claro que as forças do Cardinals vão muito além disso - Adam Wainwright e Michael Wacha, alguém? - mas ainda é algo que precisa ser monitorado.


-As lesões que afetam a NLCS
E não foram poucas! O Dodgers em particular foi um time que sofreu bastante com lesões ao longo de toda a temporada, e embora a boa fase do time na segunda metade da temporada tenha sido amplamente atribuída a chegada de Yasiel Puig, na verdade outros fatores contribuiram até mais do que o cubano, e muitos deles tiveram a ver com lesões, em especial as voltas de Hanley Ramirez (que foi melhor do que Puig na temporada regular, inclusive) e Zack Greinke do DL. O Dodgers ainda sofreu bastante com lesões mesmo depois disso, com Chad Billingsley indo fazer Tommy John, Andre Eithier batalhando todo tipo de lesão (mas sendo efetivo no final da temporada) e Matt Kemp tendo uma temporada decepcionante e marcada por lesões. Ainda assim, o time conseguiu se estabelecer mesmo apesar de tudo isso e ter um excelente final de temporada, chegando nos playoffs com grande favoritismo e derrubando o Braves em quatro jogos na NLDS.

Agora, contra o poderoso Cardinals na ALCS, o problema das lesões tem voltado para assombrar o Dodgers mais uma vez. Tirando os jogadores que já estão fora dos playoffs como Billigsley e Kemp, o time viu uma série de lesões afetar as opções da equipe para enfrentar a boa rotação de St Louis. Um deles acontece no CF, onde o titular (com Kemp fora) deveria ser Andre Ethier. No entanto, Ethier está batalhando algumas lesões, o que tiram sua mobilidade e velocidade no OF, comprometendo a equipe defensivamente (especialmente sendo um jogador que já não era tão bom nesse aspecto). Idealmente, Ethier - um especialista rebatendo contra RHP (140 wRC+ contra canhotos e 77 wRC+ contra destros) - seria a escolha, especialmente considerando o problema do Dodgers com seu lineup (já chego lá), mas sua eficiência reduzida e falta de valor defensivo fazem ele ser um risco, com algumas pessoas pedindo Skip Schumaker no seu lugar, um defensor melhor mas que tem um bastão muito fraco. Então enquanto o ideal seria ter o abaixo da média defendendo/ótimo rebatedor Ethier jogando ali, agora a decisão é o horrível defendendo/acima da média rebatendo Ethier ou o bom defensor/rebatedor ruim Schumaker. 

Se esse fosse o único grande problema em termos de saúde do Dodgers, não seria o maior problema, mas infelizmente um muito mais significativo apareceu. Esse outro problema aconteceu no G1, quando logo na primeira entrada Joe Kelly acertou uma fastball de 95 MPH nas costelas de Hanley Ramirez. Hanley terminou o jogo, mas a lesão piorou com o tempo e Hanley acabou perdendo o jogo dois, e não tem sido nem sombra do mesmo Hanley nas últimas duas partidas. O quão prejudicial isso é para o Dodgers? Para começar, o time perdeu seu melhor jogador: Ramirez teve um wRC+ de 191 (sim, com muitos fatores totalmente insustentáveis desde BABIP até HR%, mas enfim) que teria sido o segundo melhor da MLB atrás de Cabrera se Hanley tivesse partidas suficientes, e foi de longe o melhor rebatedor das LDS com uma tonelada de rebatidas multibase. Ele também é o jogador que rebatia atrás do fraco Mark Ellis, que rebate no #2 só porque é bom fazendo bunts, então o rebatedor #3 desse time tem que ser alguém que tenha boas chances de impulsionar o corredor em uma eventual RISP - ou seja, o rebatedor mais capacitado do seu time - ou pelo menos alguém capaz de atrair um walk intencional e colocar um homem a mais em base para o perigoso Adrian Gonzales, mas agora que Hanley está jogando no sacrifício e não é nem um rebatedor tão perigoso para impulsionar a corrida nem para atrair um walk intencional, é uma arma perigosa (a mais perigosa de todas) que o Dodgers está perdendo para talvez o resto dos playoffs.

Isso é particularmente problemático considerando o funcionamento do lineup do Dodgers. Atualmente, o Dodgers é um time cujo lineup depende demais da produção do seu topo, já que falta a profundidade é um pouco escassa. Então o time tem para produzir consistentemente Carl Crawford, Adrian Gonzales, Ramirez e Puig, mas também usa AJ Ellis, Mark Ellis, Juan Uribe (bom poder, mas fraco no resto) e Ethier-no-sacrifício/Schumaker, então não é como o Red Sox, onde o lineup é recheado de bons rebatedores e qualquer um pode te castigar. É um time que conta com a ocasional produção da base do seu lineup, mas que depende muito desse topo e de seus quatro melhores rebatedores produzindo o máximo possível. Não ajuda o fato de que Don Mattingly, inexplicavelmente, usa o horrível Ellis (92 wRC+, .323 OBP) como rebatedor número dois porque ele é bom fazendo bunts, apesar das estatísticas indicarem que o #2 é o lugar onde você deveria usar seu melhor rebatedor. Então a existência de um peso morto no começo do seu lineup, ainda mais em uma posição tão importante quanto a #2, torna ainda mais importante que os demais jogadores desse topo produzam em alto nível para compensar esas burrice. Então a lesão de Hanley, que prejudica o melhor rebatedor dessa equipe, pode ser o golpe final nesse ataque do Dodgers que tinha tudo para ser muito melhor.

Mas claro, não é só o Dodgers que viu uma lesão atrapalhar seus planos para a NLCS. No caso do Cardinals, a lesão não é tão grande como Ramirez, mas é bastante significante por outro motivo. Allen Craig, que teve um 135 wRC+ durante a temporada regular, foi o terceiro melhor jogador ofensivo da equipe (depois de Matt Carpenter e Matt Holiday - curiosamente o quarto também foi um Matt, Matt Adams), mas talvez mais do que isso, Craig é um daqueles nove jogadores da história da MLB cuja diferença rebatendo com RISP é significativa (embora sua base amostral seja pequena ainda). Então se existe um jogador nesse time que pode se gabar de (amostra pequena, mas enfim) ajudar nesses dados do time rebatendo com RISP por habilidade e não por sorte, é Craig, mas ele possivelmente não vai jogar (e se jogar, não estará 100%) mesmo em caso de World Series. Então para um time que depende tanto das rebatidas com RISP, jogar sem o único jogador que realmente fez uma diferença consistente ao longo de sua curta carreira nesse aspecto é um golpe importante. A ausência de Craig também é importante enfrentando LHP, que como já dissemos é um problema desse lineup: ainda que Craig seja melhor rebatendo contra RHP do que LHP, seu substituto na 1B é Matt Adams, que rebate 79 wRC+ contra canhotos, então é um downgrade significativo.

Mas talvez ainda mais importante, a lesão de Craig força Adams a entrar na lineup titular, o que é um problema considerando que Adams era o único pinch hitter decente do elenco do time para usar ao longo do jogo. Com Adams fora (ou melhor, dentro), o time fica sem nenhuma boa opção para trazer do banco e rebater em um momento chave, com seus melhores PHs sendo Daniel Descalso (um mau rebatedor), Shane Robinson (que conseguiu HR no G4 mas teve um wRC+ de 93 na temporada) e Kolten Wong, um calouro promissor mas no qual o manager não confia para entrar e rebater. Então essa falta de banco e a desconfiança do time nos calouros Wong e Oscar Taveras (que passou o ano todo nas ligas menores e não chegou a subir apesar de ser o #1 prospect que sobrou na AAA) deixa o time sem opções estratégicas para vir do banco e rebater, o que é um problema ainda maior na NL onde você precisa que seu rebatedor rebata. 

Claro, que desses dois, quem perde mais é o Dodgers com Ramirez - ele é (ou tem sido) um rebatedor melhor, e tem uma importância maior nesse time que depende muito de seus quatro melhores jogadores ofensivos. Mas pensando nos últimos (talvez no último) jogo dessa série e também em uma eventual World Series, são dois problemas significativos que o campeão da NL vai ter que enfrentar indo para frente.



(Infelizmente tinha muito mais coisas que eu queria escrever, mas fiquei sem tempo. Se alguém quiser me procure no twitter ou mande email para tmwarning@hotmail.com e conversamos mais sobre o assunto. Aproveitem!)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os gigantes da baía

Nenhuma foto retrata melhor a temporada do San Francisco Giants como essa (Jogo 7, NLDS)


Reproduzo abaixo uma parte do texto que eu publiquei na coluna do dia 02/11/2010, um dia depois do San Francisco Giants vencer sua primeira World Series em 56 anos.



Noite de 26 de dezembro de 2009, um Toyota alugado atravessa a Bay Bridge pra entrar em San Francisco. Dentro do carro, dois torcedores do San Francisco 49ers fanáticos chegavam com a familia à cidade onde, dia seguinte, realizariam o sonho de ver seu time jogar ao vivo. Passando perto da baía pra ver melhor a cidade no escuro, uma construção aberta que emitia forte iluminação chamou a atenção do carro. Era um estádio onde se podia ler num letreiro luminoso "AT&T Park". Chegando ao hotel e acessando o Wi-Fi de la, descobriram que era o estádio era do San Francisco Giants, um time fraco da MLB que ha anos nao obtinha sucesso.

No dia seguinte, indo pro Candlestick Park pra ver Niners vs Lions, os dois passaram em frente a uma interessante e bonita construção de tijolos, com duas estátuas (Que depois descobriram ser cinco no total) na frente, estilo antigo. O motorista do carro informou que era o AT&T Park, e avisou que o time era um fracasso desde que se mudou de New York e que nao ganhava um titulo desde 1954. Um deles, o mais velho, virou para o outro e brincou falando que agora que tinhamos passado por ali, seria a hora do Giants se reerguer e ser campeão, e que quando começasse a temporada da MLB os dois iriam acompanhar aquele time. San Francisco é a cidade americada favorita dos dois, os dois sao fanáticos por outro time da cidade (49ers) e o estádio era extremamente simpatico, e os dois prometeram que acompanhariam a temporada do Giants.

Um desses torcedores era meu pai. O outro, eu. Naquele dia, de volta do jogo (Niners venceram 20 a 6), fiz questão de passar pelo AT&T Park denovo. Vi a parte que estava aberta, a estátua do Willie Mays, a homenagem ao Jackie Robinson, e comprei um boné do time. Aprendi mais sobre a franquia e decidi que, se os Red Sox nao fossem ser campeões, eu iria torcer pro Giants. Eu prometi que em caso de titulo do Giants eu iria contar um pouco da minha historia com o time, e ai está ela. Pode parecer idiota, gostar do time só porque simpatizei com o estádio, mas nao é só isso. Ja estive em estadios ou ginásios de cinco esportes diferentes em sete países e nao achei nenhum que eu gostasse tanto quanto esse alem do Morumbi. San Francisco sempre foi minha cidade favorita dos EUA e eu senti muito bem, na viagem, o clima que a cidade tinha com o baseball, e caso algum dia voces forem pra la e sentirem o baseball na alma da cidade, é dificil nao se apaixonar. E agora estou aqui, vendo MNF e escrevendo sobre o título do Giants que meu pai falou ha dez meses de brincadeira enquanto passavamos na frente do estádio que hoje estará lotado pra receber os campeões.


Yeah, a história é velha, e pode parecer engraçado, mas foi daí que meu pai começou a torcer pro Giants, e dai que eu comecei a acompanhar a franquia mais de perto que qualquer outra, tirando claro meu Red Sox. E bem, foi emocionante ver o time ganhar um título, ficar fora dos playoffs, e dar a volta por cima e ganhar um segundo título com um time totalmente diferente do primeiro. Não sei exatamente porque aquela passada pelo AT&T Park me marcou tanto, mas eu não ligo. Porque esportes não precisam seguir uma lógica ou serem racionais, certo? 

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Veja de novo a foto que começa o post, Marco Scutaro aproveitando a chuva que caiu nas ultimas duas entradas do Jogo 7 da NLDS, com o Giants terminando sua impressionante recuperação sobre o Cardinals, liderando por 8 a 0 um jogo já ganho, virando uma série que parecia perdida em 1-3... Só para ganhar três jogos seguidos e fechar a série em casa. Essa talvez seja minha foto favorita em tantos anos de baseball, porque ela reflete tudo que tem pra se dizer e se saber sobre o espetacular título do San Francisco Giants. Não é a toa que essa foto lembra tanto a famosa cena da chuva do Andy Dufresne em Shawnshank Redemption, porque de certa forma as duas tratam da mesma coisa: A vitória do Giants foi sobre redenção, foi sobre dar a volta por cima, sobre acreditar em si mesmo, acreditar que um milagre ia acontecer... E saber que, no fundo, esse milagre só acontece porque voce fez ele acontecer. 

Acreditem, eu acompanho esportes de modo geral desde que eu tinha dois anos. E em todo esse tempo, muitos jogos, muitas séries, muitos sucessos e muitas decepçōes, eu aprendi muitas coisas sobre os esportes em geral. E uma delas, uma das mais importantes coisas que eu aprendi sobre esportes, é a seguinte: Milagres não simplesmente acontecem. Eles dependem de uma sequência de pequenos milagres ao longo do caminho, cada pequeno evento tem que fazer sua parte.

Quando em 2004 o Red Sox se tornou o primeiro time da história da MLB a virar uma desvantagem de 3-0 numa série melhor de sete pra cima dos seus grandes rivais Yankees, apagando 86 anos de fracassos e decepçōes, muita gente falou que tinha sido um milagre, e talvez tivesse sido... Mas o Sox não ganhou quatro jogos de uma vez em uma partida só, ou com um golpe de sorte. Foram precisos quatro jogos cheio de pequenos milagres: Dave Roberts roubando a segunda base na nona entrada do Jogo 4, com dois eliminados, por uma fração de segundos; o Home Run de David Ortiz na prorrogação; Mariano Rivera, o maior closer da história, perdendo dois saves em jogos consecutivos; as três passed balls na prorrogação do Jogo 5 do Jason Varitek de alguma forma não rendendo nenhuma corrida; Joe Torre decidindo que era melhor arremessar pra um Ortiz pegando fogo com dois em base na parte de baixo da 14th entrada, com dois eliminados, ao invés de dar o walk intencional; Curt Schilling arremessando sete excelentes entradas no Jogo 6 com o tendão rompido; a chuva no Jogo 4 que permitiu ao Schilling jogar o Jogo 6; os juizes eliminando A-Fraud (foi mal, nao resisti) por interferência depois de inicialmente dá-lo como salvo quando ele claramente acertou o braço do jogador do Sox; o double de  Belhorn virando (corretamente) um HR depois da discussão dos juizes; e Johnny Damon rebatendo dois HRs (inclusive um Grand Slam) no Jogo 7 depois de não acertar nada a série inteira. Então não aconteceu um milagre e o Red Sox simplesmente virou a série: Foram acontecendo vários pequenos milagres ao longo de quatro jogos que levaram o Red Sox a conseguir a virada, e eles só aconteceram porque o time se recusou a desistir, continuou acreditando e se colocou em posição pra fazer esses milagres acontecerem. E eles recompensaram o esforço do time que simplesmente queria mais a vitória.

Com o Giants foi a mesma coisa. Sim, eles se tornaram o primeiro time da história da NL a reverter uma vantagem de 2-0 numa melhor de cinco, e o primeiro time de toda a história da MLB a reverter essa vantagem fora de casa. Eles se tornaram apenas o segundo time da história (junto com o Royals de 1985) a ganhar seis jogos eliminatórios seguidos, voltando pra ganhar do Cardinals depois de estar perdendo de 3-1. Mas nada disso veio fácil e nada disso aconteceu... bem, do nada. Esse final histórico simplesmente foi a parte final de uma história que começou logo na primeira semana da temporada regular.

Voltando um pouco pro começo da temporada regular, vale lembrar que o time do Giants em muito pouco lembrava esse. O time tinha Aubrey Huff na primeira base no lugar de Brandon Belt, Freddy Sanchez na segunda base, Hector Sanchez de Catcher no lugar do voltando-de-lesão Buster Posey, Pat Burrell e Nate Schierholtz disputando um lugar no OF, e Melky Cabrera (recém-chegado em uma ótima troca pelo fraco Jonathan Sanchez) no LF no lugar de Gregor Blanco. Tim Lincecum ainda era o principal pitcher do time, e Brian Wilson o closer. E francamente, vindo de uma campanha decepcionante em 2011 depois de perder seu melhor jogador em Buster Posey, ainda era um time sem identidade que buscava se reencontrar.

O primeiro golpe veio logo na primeira semana, quando o excelente closer Brian Wilson machucou o cotovelo e teve que fazer cirurgia, tirando Wilson da temporada. O Giants promoveu Santiago Casilla pro papel de closer, mas ele jogou muito mal nessa função antes de acabar voltando a ser um reliever normal. Além disso, desde o primeiro dia, ficou claro que o físico de Tim Lincecum finalmente estava dando mostras de desacelerar, e o duas vezes Cy Young teve um começo de temporada péssimo, ficando acima dos 6.00 de ERA. E com um lineup muito confuso, cheio de velhos pouco produtivos, o Giants logo ficou pra trás na divisão atrás de um quente time do Dodgers

Aos poucos, as coisas começaram a entrar em foco. O trio de arremessadores de Ryan Vogelsong, Madison Bumgarner e Matt Cain começou muito bem o ano, e o ataque encontrou nova vida nas costas de Melky Cabrera, que melhorou ainda mais sua forte campanha de 2011 pra rebater 37,5% nos primeiros meses de temporada, e de Pablo Sandoval. Com o tempo, o time reforçou sua defesa com a entrada do excelente Brandon Crawford de Shortstop e Brandon Belt na primeira base, muito mais produtivo do que o velho Huff. Ainda que o time não tivesse encontrado sua identidade (especialmente depois que o Panda machucou e com Posey ainda devagar por causa da lesão), o time conseguiu o suficiente nas costas do seu trio de arremessadores (apesar do péssimo desempenho de Lincecum e Barry Zito) e de Melky pra se manter na caça ao Dodgers pela divisão.

Passado o All-Star Game (onde Cain foi o vencedor, Melky o MVP e Sandoval rebateu um 3-run triple), o Giants recebeu um novo golpe: Melky Cabrera, mais forte candidato a MVP da Liga e lider em aproveitamento com 34,5%, foi pego no antidoping pelo uso de testosterona sintética e foi suspenso por 50 jogos, tirando do Giants o seu melhor jogador ofensivo. Já sem Wilson, e com Lincecum em péssima temporada, parecia que seria o fim do Giants. Pra piorar, o Dodgers, que estava brigando pau a pau com o Giants pelo tiítulo da NL West, decidiu que estava disposto a gastar na Trade Deadline e trouxe CINCO ex-All Stars em contratos milionarios: Hanley Ramirez, Shane Victorino, Josh Beckett, Adrian Gonzales e Carl Crawford. Parecia que ia ser a hora do Dodgers disparar e do Giants implodir com tantos jogadores chave caindo fora.

O Giants fez apenas dois movimentos pouco divulgados na trade deadline: Trouxe Marco Scutaro do Rockies pra jogar no lugar de Ryan Theriot na 2B, e trouxe Hunter Pence do Phillies pela necessidade de um rebatedor destro de força no meio do lineup (Posey ainda estava num ritmo baixo). Fora isso, o Giants não quis repetir o erro do ano passado (quando trocou o bom prospect Zach Wheeler por Carlos Beltran, que deu o fora no final da temporada) de trocar muitos ativos pro futuro, e ficou por isso mesmo, contando numa evolução dos seus rebatedores, que Zito e Vogelsong voltassem à boa forma.

E foi ai que, improvavelmente, tudo começou a se encaixar pro Giants. Com a saída de Melky, o time parou de gravitar em torno dele e cada jogador assumiu um papel maior na equipe, que aproveitou para se focar mais em torno da sua excelente defesa. Sem o melhor jogador ofensivo do time, Posey acordou e assumiu o papel de responsabilidade no ataque do time, rebatendo 41% (!!!!) depois do All-Star Game até o final da temporada, terminando como o melhor jogador ofensivo E o melhor jogador da NL, jogando praticamente apenas metade da temporada ou menos a força total. Além disso, no lugar de Cabrera no LF entrou Gregor Blanco, que estava jogando na Venezuela a essa altura do ano passado em busca de um contrato. Blanco, que tava rebatendo .224 na temporada, rebateu .286 até o final da temporada e foi o melhor LF defensivo da MLB nesse período final da temporada. Marco Scutaro, rebatendo .262 no Rockies, rebateu .364 (!!!!) ate o final da temporada com o Giants e foi um dos melhores jogadores da equipe rebatendo em segundo. Mesmo nos arremessadores, Vogelson e Zito de repente encaixaram, com Vogelsong colocando um ERA de 2.10 nos seus últimos jogos na temporada regular, e com o Giants ganhando os ultimos seis jogos que Zito começou. No Bullpen, Sergio Romo levou seu slider a um novo nível e assumiu com tranquilidade o papel de closer da equipe, com um ERA de 1.79 na temporada inteira. Isso liberou Bruce Bochy pra usar Jeremy Afeldt e Casilla de acordo com os matchups em cada jogo, sem se preocupar com a nona entrada. Com o Dodgers ainda mostrando grande inconsistência, o Giants ligou o turbo, Posey jogou como MVP, a defesa do time se tornou a segunda melhor da Liga (depois do Braves) nesse final de temporada, os arremessadores elevaram seu jogo, e o Giants ganhou facilmente a divisão antes de enfrentar o Reds nos playoffs.

Claro, estava apenas começando. Depois de perder seu Closer e o melhor jogador dos primeiros 110 jogos do time, o Giants chegou nos playoffs com um grupo unido e momento, mas esbarrou talvez no melhor time da MLB, Cincinatti Reds. Nos dois jogos iniciais em San Francisco, o time teve problemas e perdeu os dois jogos. Assim, foi pra Cincinatti jogar os ultimos três possiveis jogos da série jogando também contra a história: Nenhum time da história da NL conseguiu reverter uma desvantagem de 2-0 numa melhor de cinco, e os três unicos times da AL a consegui-lo o fizeram com os tres jogos finais em casa. E pra piorar, o Reds não tinha perdido três jogos seguidos em casa em toda a temporada.

Mas o Giants não estava disposto a voltar mais cedo. Pence, um dos jogadores mais intensos da MLB, se não fez estrago com o bastão logo foi aceito como um lider vocal no vestiário, alguem que todos ouviam e respeitavam, se levantou antes do jogo 3 e fez um discurso inflamado antes da partida, que contagiou a equipe. Horas mais tarde, Vogelsong arremessou um grande jogo, o Bullpen do Giants segurou o resto, e conseguiram levar o jogo pra entradas extras. Lá, o Giants anotou sua segunda e decisiva corrida do jogo graças a um erro do bom e velho Scott Rolen, que permitiu ao Buster Posey anotar corrida com dois eliminados antes de Romo fechar o jogo. No Jogo 4, Bochy optou por Barry Zito sobre Lincecum, mas Zito durou menos de três entradas... E claro que Lincecum entrou como middle reliever, cedeu uma corrida em 4.1 entradas, e viu o Giants rebater três HRs pra ganhar a partida. E no Jogo 5, com um Matt Cain pouco eficiente (3 ER em 5.2 IP), Buster Posey se recuperou de uma série fraca com um Grand Slam pra dar a vitória ao Giants. Fazendo história pela primeira vez, o Giants avançou pra enfrentar os atuais campeōes Cardinals.

Mas a série começou mal pro Giants. Madison Bumgarner continuou sua sequência de jogos ruins com uma péssima partida que permitiu ao Cardinals anotar seis corridas em menos de quatro entradas. Bumgarner acabou saindo da rotação titular pra Lincecum jogar o jogo 4 e Zito jogar o jogo 5, mas com Lincecum ainda incapaz de produzir começando de titular, o Giants logo se viu num buraco de 3-1.

E ai veio o turning point da pós-temporada do Giants. Eles tiveram as costas contra a parede no Jogo 3 contra o Reds, mas pelo menos eles tinham seu titular mais consistente nos ultimos jogos (Vogelsong) indo pro montinho. Contra o Cardinals? Era Barry Zito, o veterano que assinou um contrato de 120M em 2004, mas nunca jogou nem perto disso pelo Giants. Barry Zito, que não tinha durado três entradas na sua ultima partida de pós-temporada (Jogo 4 da NLDS). Barry Zito, o veterano de 34 anos cuja bola rápida não passa de 88 MPH. Ou seja, se o Giants pudesse escolher um titular pra NÃO jogar nesse jogo, seria o Zito. E aí Zito entrou com sua calma e pose de sempre, e jogou possivelmente o jogo de sua vida, o que não é pouco pra um ex-Cy Young: 7.2 IP, nenhuma corrida cedida, e manteve o controle do jogo durante o tempo todo até entregar o jogo e a vantagem pro Bullpen. Foi talvez a atuação mais improvável desses Playoffs, Zito voltando a sua forma de 10 anos atrás pra arremessar um brilhante jogo de pós-temporada, fora de casa, em um jogo de eliminação. Foi realmente inspirador ver um jogador muito amado no vestiário, mas muito criticado pela torcida e pela mídia em virtude do seu contrato, aparecendo quando sue time mais precisou e entregando uma vitória na bandeja pra continuar vivo na série. Com Scutaro rebatendo tudo que passava perto dele (.500 na série), um erro crucial do pitcher Lance Lynn num arremesso pra segunda base, e até mesmo Zito conseguindo uma rebatida e um RBI, o Giants se inspirou na performance do seu pitcher, e não olhou mais pra trás.

Ainda tinha mais dois jogos pro Giants ganhar, e o Giants ainda precisava contar com toda ajuda que pudesse. Mas atrás de mais um excelente jogo de Ryan Vogelson, que até rebateu um RBI além de seus 9 Ks, e de Marco Scutaro, que continuou fazendo sua melhor interpretação de Roy Hobbs, o Giants levou a série pro jogo 7 decisivo. E aí que o destino, a sorte, um milagre ou como quiser chamar apareceu de novo: Com bases lotadas e nenhum eliminado, Hunter Pence - que inspirou o time na NLDS antes do jogo 3, mas que tava com muitos problemas no bastão - foi para uma rebatida contra Kyle Lohse: A rebatida foi tão forte que quebrou o bastão, mas isso fez a bola bater três vezes no bastão quebrado antes de ser colocada em jogo, pegando um efeito ridiculo que enganou o Shortstop Pete Kozma e transformou o que devia ser uma queimada dupla num double que limpou as bases. Não, é sério, veja o vídeo. Foi o equivalente a colocar uma faca nas costas do Cardinals, o golpe que acabou de vez com o time. E o Giants não pode fazer nada senão continuar aproveitando o momento: Matt Cain arremessou um grande jogo e ainda adicionou outro RBI - o terceiro jogo consecutivo que um pitcher do Giants conseguiu um RBI single - e o Giants logo abriu 8-0. Foi quando começou a chover, e os juizes optaram por continuar o jogo (senão teriam que adiar as entradas que faltavam para outro dia, e francamente, o jogo já estava decidido). Foi ai que Scutaro não resistiu e aconteceu a foto que ilustra o post. Com a chuva caindo, ele não resistiu e abriu os braços, deixando a chuva cair. Ele sabia que o jogo estava decidido e que eles tinham feito o que parecia impossível.

Ele estava simplesmente aproveitando o momento, saboreando tudo que o time tinha feito, todos os milagres que cairam no lugar certo pra levar o Giants até ali. Eles fizeram o que parecia impossível, ganhar três seguidas fora de casa do Reds, depois ganhar mais três jogos de eliminação contra os atuais campeōes. Foi a cena mais sincera desses playoffs, um jogador extremamente intenso que viveu dias muito ruins em termos de baseball com o Red Sox ano passado e com o Rockies esse ano, um veterano de 37 anos em busca de uma última chance de ganhar um título simplesmente reconhecendo tudo que o time estava lavando junto com aquela chuva e aquela virada, quase como se agradecesse a uma ajuda superior por tudo que estava indo da melhor forma possível pro Giants. E isso continuou na World Series, mesmo com uma certa facilidade pro Giants na varrida: No Jogo 1 entre Zito e Justin Verlander, no papel um dos duelos menos equilibrados da história da World Series, Zito arremessou mais um excelente jogo (5.2 IP, 1 ER) e viu Verlander saiu na terceira entrada após ceder quatro corridas e dois HRs. Além disso, Pablo Sandoval ainda rebateu um terceiro HR e o time viu Gregor Blanco fazer duas lindas defesas no OF com jogadores em base. No Jogo 2, Madison Bumgarner voltou depois de 10 dias fora, relegado ao Bullpen para arrumar seu arremesso após péssimos playoffs, sem controle nem velcidade... E claro, Bumgarner continuou de onde parou na sua última World Series (8 IP, 3H, 0 ER contra o Rangers) para arremessar mais um jogo sensacional (7IP, 2H, 0 ER), mas não sem antes o Giants conseguir mais uma espetacular jogada defensiva, quando Blanco, Scutaro e Posey fizeram uma jogada perfeita pra eliminar Prince Fielder no home plate depois de um double de Delmon Young que poderia ter mudado o rumo da série se anotasse a corrida, e mais um milagre ofensivo (um bunt do Blanco parar a milimetros da linha de foul). No Jogo 3, mais uma performance espetacular de Vogelsong e mais um grande jogo de Blanco (RBI triple, anotou corrida depois), com Pablo Sandoval fazendo espetacular defesa num liner do Cabrera que teria sido um double. E no Jogo 4, com Matt Cain em um jogo bom, mas não ótimo, Posey recuperou sua forma da temporada com um 2-run HR, e Scutaro acertou a rebatida da vitória (impulsionando Ryan Theriot, jogador de quem Scutaro roubou a vaga no time!) na décima entrada, o final perfeito pra um playoff perfeito.

Então sim, o Giants deu sorte em diversas jogadas, e escapou do buraco graças a pequenas coisas que foram acontecendo na hora certa e no lugar certo. Mas é assim que funciona: Nenhum milagre vai fazer um time ganhar três jogos de uma vez. Você precisa de vários pequenos milagres ao longo do caminho, e mais importante, você precisa continuar se colocando numa posição favorável a isso. E o Giants fez isso se recusando a perder, continuando lutando, jogando como um time e nunca desistindo. O time pegou fogo quando precisou e mais uma vez se superou quando precisou.

Sabe aquela cena de MIB3 quando um personagen fala sobre como ele gosta do tiítulo de 1967 do Miracle Mets por causa de todas as pequenas coisas que precisaram acontecer pra esse título acontecer? "Está vendo o LF? Ele só virou jogador de baseball porque seu pai não tinha dinheiro pra lhe comprar uma bola de futebol americano, e ao invés disso lhe deu uma luva de baseball quando ele tinha quatro anos...". Foi mais ou menos isso que aconteceu nessa temporada do Giants. O time perdeu seu closer logo na primeira temporada e ficou quase 100 jogos com dificuldades pra estabilizar o Bullpen, mas que achou um novo closer de elite em Sergio Romo, um jogador que entrou nas minor Leagues com 24 anos depois de terminar a faculdade pra seguir o sonho do seu pai; o time perdeu seu melhor rebatedor pra um caso de dopping na reta final da temporada... E claro, foi o que faltava pro time se encaixar e se unir, cada jogador cumprir seu papel e o time assumir sua identidade como um time de excelente defesa e excelente baserunning atrás do poder de Posey e Panda no bastão; Pence e Scutaro chegaram na reta final da Liga, mas logo deram a um time um pouco frio demais dois jogadores intensos que contagiaram todos os outros e assumiram o papel de líderes (com Scutaro rebatendo .364); teve Posey se recuperando de uma assustadora lesão pra ter o melhor final da temporada dos ultimos anos na MLB e provavelmente um NL MVP. E tudo isso antes do final da temporada regular.

Nos playoffs continuou: Com as costas contra a parede enfrentando o Reds em OT, o Giants anotou a corrida da vitória graças a um erro do Scott Rolen; O Giants viu seu duas vezes Cy Young, incapaz de continuar eficiente como titular, aceitando com naturalidade um novo papel no bullpen, e se reinventando como o melhor homem de relief da MLB; viu Ryan Vogelson, que chegou ao time ano passado com 35 anos depois de passar toda sua carreira nas Ligas menores e no Japão como um arremessador mediano, ter duas temporadas de All-Star e se tornar o primeiro pitcher desde 1966 a ter quatro jogos nos playoffs e um ERA abaixo de 1.00 (0.73), sem falar em ganhar três jogos cruciais; viu Barry Zito, o jogador mais criticado de San Francisco, ressuscitar em Outubro, arremessar o maior jogo do Giants na temporada (Jogo 5, NLCS) e repetir a dose contra Justin Verlander e o Tigers no Jogo 1 da WS; viu Madison Bumgarner, retirado da rotação titular pra passar 10 dias consertando seu arremesso, voltar na World Series e arremessar sete shutout innings brilhantes; viu o Cardinals cometer uma série de erros importantes nos jogos decisivos, em especial Kozma; viu Marco Scutaro surtar na NLDS e rebater .500, especialmente nos jogos decisivos; viu a bola milagrosa do Hunter Pence no Jogo 7 que tinha 99% de chance de virar uma queimada dupla virar tres corridas; viu Pablo Sandoval, rebater tres HRs num jogo de WS, algo que só Babe Ruth, Reggie JAckson e Albert Pujols tinham feito na historia; viu no Jogo 1 da WS uma eliminação de rotina na 3B que virou uma rebatida dupla porque a bola do Angel Pagan acertou a base e mudou de direção (e começou uma rally de 3 corridas); viu Gregor Blanco, um jogador que a essa época do ano passado estava jogando na Venezuela ainda em busca de um contrato na MLB, jogar a melhor defesa no LF de toda a MLB, rebater uma bola de sacrifício que ia sair de campo e parou MILIMETROS antes, lotando as bases para o RBI que venceu o jogo do Brandon Crawford (e depois uma rebatida tripla no Jogo 3 pra anotar a corrida da vitória); e por fim, viu um time que superou todos os problemas que poderia ter tido durante grande parte da temporada prevalecer contra um time muito mais favorito do Detroit, com Miggy Cabrera, Fielder e Verlander ficando em segundo plano contra Posey, Sandoval, Zito, Lincecum e todo o resto do time do Giants. Então sim, foi um título extremamente improvável, um time que superou todo o tipo de adversidades e situaçōes pra chegar aonde esteve. E, assim como o Miracle Mets, foi um time que dependeu de diversas pequenas situaçōes improváveis sem as quais esse time não teria chegado até aqui. Diversos golpes de sorte, erros dos adversários, bolas que acabaram caindo no lugar certo no momento certo. Vendo o resultado, parece um milagre. Mas um milagre que aconteceu porque o Giants continuou se colocando na posição pra esses milagres acontecerem, se recusou a desistir, e continuou brigando até o final.

Um último ingrediente que não pode ser deixado de lado nesse título do Giants, though. Eu sempre insisto nisso, que esportes envolvem mais do que está no papel, que existe mais do que juntar um monte de jogadores talentosos... Basicamente, que existe um conceito de "time" que não pode ser copiado. O que Isiah Thomas chamou de "O Segredo" do basquete, e que pode ser aplicado de diferentes formas a qualquer esporte no mundo. Sinceramente, em tantos anos de baseball, eu nunca vi um grupo que represente tão fortemente essa noção de time e que pratique tanto o "Segredo". Eles simplesmente adoram jogar juntos! Adoram dar risada, comemorar e dar apelidos entre si, adoram viver como um grupo. E mais importante, e talvez consequência, os jogadores não demonstram ego algum e só se medem pelo sucesso do grupo, não o individual. Ninguém liga pros próprios numeros, ninguém reclama de ir pro banco e cada um deles e todos conhecem exatamente seu papel na equipe. Quando o Giants ganhou cada um dos três jogos contra o Reds, todo mundo na equipe que dava entrevistas só sabia falar do Hunter Pence, que teve uma série muito fraca, e como ele inflamou todo mundo no vestiário, como sua energia e competitividade tinha contagiado todo mundo e inspirado todos eles a correrem até o ultimo segundo. Quando Alex Rodriguez foi pro banco no Yankees, ele só se preocupou em ficar parado no canto olhando tudo de longe e xavecando modelos na torcida, mas quando Lincecum foi pro banco incapaz de continuar de titular, ele continuou buscando ajudar o time da melhor forma como pode, torcendo feito louco pelos companheiros, e se reinventou como o melhor relief pitcher da MLB com numeros Mariano Riverescos (14 IP, 1 ER, 3H, 17 K... Are you fucking kidding me?!). Veja de novo os jogos 5 (NLDS) e 2 (WS), quando Lincecum ficou no banco em favor de Zito e Bumgarner enquanto os dois demoliam os adversários: Ninguem estava mais feliz e vibrante por eles e pelo time do que Timmy! Quando Ryan Theriot foi impulsionado no Jogo 4 pelo jogador que tirou seu lugar no time, ele só queria saber de gritar e comemorar com seus companheiros. Esse foi o principal motivo do Giants não querer reintegrar Melky nos playoffs, porque ninguem no time queria ele por lá, ele era um outsider que não fazia parte daquele grupo que se formou de vez quando ele saiu da equipe. Eles podiam usar seu bastão jogando de DH na World Series ou pinch-hitting, mas Bochy optou por perder talento pra ganhar em chemestry. E isso fez toda a diferença!

Todo esporte precisa de talento, mas também precisa que os jogadores aceitem o seu papel num time. Você precisa de uma hierarquia determinada e que todos os jogadores se combinem de alguma fora. Esse foi o grande papel, por acaso ou não, das trocas que o Giants fez na trade deadline: O Giants tinha jogadores demais como Posey, Cain e Zito, jogadores extremamente coletivos e focados, mas muito frios e concentrados. Ou então jogadores como Panda e Blanco, jogadores carismáticos e amigos de todos, mas que não assumem um papel de liderança. Faltava ao time um líder um pouco mais intenso, alguem com aquele fogo que contagiasse os companheiros, aquele jogador que grita quando o time faz uma boa jogada (pense Kevin Garnett quando chegou ao Celtics). Por isso a chegada de Scutaro e Pence foi tão fundamental, ela trouxe dois líderes vocais e extremamente intensos, dois caras que falam fora de campo e se matam dentro dele, torcem feito loucos pelos companheiros e sempre estão motivando os companheiros. Os dois, em especial Pence, logo se integraram ao time e ao vestiário, msa também - e talvez mais importante - adicionaram um ingrediente a mais à mistura de personalidades ao time. Quando o Giants precisava de uma cabeça fria e calma, eles tinham Posey e Cain liderando. Quando precisavam de energia e de forças extras, Pence e Scutaro faziam as jogadas de energia e agitavam todos os companheiros. E logo, todo o time seguia a deixa. A quantidade de infield singles do Giants nesses playoffs diz muito sobre essa mentalidade do time, que nunca deixava de correr uma base nem que as chances de chegar fossem mínimas, estavam sempre mergulhando pelo campo atrás de bolas e não desistiam de nenhuma jogada. Por isso, contra Reds e Cardinals, quando o time precisou de motivação e intensidade, foram Pence e depois Scutaro que deram a deixa, e o time seguiu. Quando o time abriu vantagem contra o Tigers, foi o jogo tranquilo e eficiente de Posey, Pagan, Vogelsong e Cain que fez o time manter o foco. Quando o time precisava que um jogador fosse pro banco ou exercesse um papel diferente pelo time, ele fazia, e todo o grupo o apoiava. Quando um jogador errava, o time todo tinha suas costas. E num time com vários jogadores que cresceram juntos dentro da organização, tantas histórias inspiradoras de superação (Zito, Vogelsong, Blanco, Posey), e tantos jogadores que estavam dispostos a se matar pela vitória, isso fez um bom time se elevar a um novo nível quando precisou. Eu não lembro de outro time (tirando o Sox de 2004) que tivesse isso em tão alto nível, gostasse tanto de jogar junto e onde os jogadores elevassem uns aos outros a um novo nível. Entre todos os times que vi na minha vida, talvez esse fosse meu favorito tirando aquele Sox.

Por isso eu gosto tanto daquela foto do Scutaro. No fundo, ela reflete tudo isso, um jogador genuinamente feliz de estar ali e de ter feito o que o Giants fez, um jogador que superou muita coisa pra finalmente realizar seu sonho de jogar uma World Series, alguém que estava se divertindo e aproveitando cada momento daquele massacre pra cima dos eventuais campeōes... E que não esperava estar ali, quase agradecendo a um poder superior por todas as pequenas coisas que caíram no lugar certo na hora certa para que esse time pudesse ter superado todos os obstáculos até aquele ponto. Seja Zito renascendo quando o time mais precisou, seja a rebatida dupla mais esquisita da história do baseball de Pence, ou simplesmente por todos eles puderem estar ali, juntos, fazendo história e ganhando seu direito de disputar o título. E assim como Andy Dufresne, posso garantir - e ele também - que Scutaro nunca vai esquecer o momento daquela foto, sob a chuva gelada outubro em San Francisco, ou da temporada 2012 do San Francisco Giants.