Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Novo podcast: Hack a Cast #2!



Caros leitores, é com enorme prazer que anuncio que, em parceria com o Vinicius Veiga, do Spinball Net, estamos lançando um novo podcast exclusivamente sobre basquete - o  Hack A Cast!

A idéia é fazer um podcast periódico (uma vez por semana ou mais) sobre a NBA, algo que o Brasil tem em escassez no momento e muitas pessoas vieram nos perguntar porque não fazíamos. Bem, agora fizemos! Vamos aproveitar o podcast para, ao longo do ano, cobrir todos os assuntos relevantes para o basquete, desde o Draft até as Finais da NBA.

Para a próxima temporada, o Hack a Cast provavelmente vai ganhar um formato mais regular, vinheta de abertura, e ficar mais profissional de modo geral. Mas por enquanto, estamos fazendo alguns testes e, claro, aproveitando para falar sobre as Finais da NBA, essa ótima série entre Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors.

A primeira edição do Hack a Cast você pode encontrar nesse link, gravado após o Jogo 4 das Finais. E, abaixo, você encontra a nova edição, que falamos sobre o G5 da Finais da NBA, e uma projeção do que vem pela frente nessa série.

E, caros leitores, pedimos ajuda também para saber o que vocês acharam: sobre o Cast, se está faltando um formato/quadros, se o conteúdo está bom, se gostaram da idéia de começar um podcast regular de NBA, dicas, sugestões, críticas e etc. O Hack A Cast provavelmente só vai ganhar um formato mais concreto daqui a um tempo, mas é importante que saibamos o que vocês querem e gostam pra tornar nosso novo podcast o mais agradável possível para vocês.

Então é isso, espero que gostem do nosso Hack A Cast!!


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

World Series Breakdown: Cardinals vs Red Sox


Jonny Gomes treinando a largada nos 100m borboleta


Ainda não participou da nossa ultra nerd e ultra divertida promoção de NBA? Não sabe o que está perdendo! Clique aqui e tenha a chance de ganhar um livro massa de basquete - ou pelo menos ter o que fazer nessa offseason!!

Para ler a coluna com os pontos importantes da semana, e ainda melhor, PARA PARTICIPAR DO NOSSO MAILBAG, clique aqui 

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Finalmente, depois de uma longa espera e de uma temporada mais longa ainda, chegou a hora que todos aguardávamos. A World Series chegou, e agora são só mais uns seis ou sete jogos (esperamos!) até sabermos quem vai ser o campeão da temporada 2013 da MLB e vai ter o direito de contar vantagem até o ano que vem. Red Sox e Cardinals, dois dos times mais interessantes da MLB, vão se enfrentar nesse Fall Classic, e quem ganhar vai assumir a pole position em "melhor time do século 21" conquistando sua terceira World Series nesse período (o Giants também tem dois títulos nesse século).

Em meio a isso, porque não fazer um Dr. Jack Breakdown sobre esses dois times? Dr. Jack Breakdown foi um formato de coluna popularizado uns anos atrás pelo meu escritor favorito, Bill Simmons, onde ele criava uma série de categorias (algumas sérias e algumas mais aleatória e descontraídas) e via quando dos dois (podiam ser times, pessoas, filmes, whatever) tinha a vantagem naquele quesito. Achei um formato interessante para testar, e esse parecia ser o cenário ideal. Então vamos dar uma olhada no que Boston Red Sox e Saint Louis Cardinals tem a oferecer!

(Um lembrete: obviamente nem todas essas categorias tem alguma importância na hora de fazer algum tipo de preview da World Series - o Cardinals ganha vantagem no quesito "Sucesso recente", mas isso quer dizer absolutamente zero sobre suas chances nessa WS. Então não levem tudo ao pé da letra e tenham senso crítico na hora de olhar para as categorias que realmente indicam vantagens dentro desses sete jogos)


Temporada regular

Uma categoria extremamente equilibrada, principalmente porque Red Sox e Cardinals foram os melhores times de suas respectivas conferências e os melhores times da temporada regular. Cada time venceu 97 partidas, garantiu a 1st seed na liga, e fizeram isso jogando nas duas divisões mais fortes da MLB: a AL East teve QUATRO times acima de 50% - única divisão em 2013 a conseguir tal feito - e a NL Central teve três times que foram aos playoffs vencendo pelo menos 90 jogos. O Cardinals liderou a MLB em Pythagorean Wins com 101 e o Red Sox foi segundo com 100, também. Essa vai ser a primeira vez desde 1999 que os dois times com melhor record de cada conferência se enfrentam na World Series.
Vantagem: Empate


Sucesso recente

O Cardinals é possivelmente a franquia que mais teve sucesso nos últimos anos, chegando aos playoffs múltiplas vezes nos últimos anos, vencendo a World Series de forma milagrosa em 2011 com um dos jogos mais famosos da história da World Series (David Freese incorporando Ted Williams no G6 da WS) e um dos jogos mais underrateds dos últimos anos (G5 da ALDS, quando venceram os invencíveis 102-60 Phillies por 1-0, com Roy Halladay arremessando 8 entradas e cedendo apenas uma corrida e Chris Carpenter conseguindo um shutout para avançar o time). Um ano depois, o Cardinals chegou muito perto de voltar as Finais mas se tornou mais uma vítima em uma das pós temporadas mais milagrosas que eu já vi depois de 2004 (e que rendeu um dos meus melhores textos, só clicar no link). Enquanto isso, o Red Sox sofreu um dos maiores e mais vergonhosos colapsos da história da MLB em 2011 e teve uma das suas piores temporadas em 50 anos em 2012, então... yeah.
Grande vantagem: Cardinals


Capacidade no bastão

Apenas dois times anotaram mais corridas que o Cardinals na temporada regular. Um deles foi o Red Sox, que anotou logo 70 a mais mesmo com o Cardinals tendo jogado mais entradas na temporada. Mas olhar corridas anotadas é uma forma muito primitiva de olhar para ataques, pois ela está sujeita a todo tipo de fatores além do controle da equipe: clusterluck, aproveitamento com RISP (o segredo do Cardinals na temporada regular e que caiu quase 60 pontos nos playoffs, btw), sorte, estádios favoráveis, uma liga tem DH e a outra não, etc. Então é melhor olhar estatísticas que ajustam por fatores externos e que usam apenas aquilo que está sob o controle de um time quando ele sobe ao bastão, minha favorita sendo wRC+. Por wRC+, o Red Sox continua com o melhor ataque da MLB com 115 (ou seja, ajustando para sorte e estádios, ele gera 15% a mais de corridas que a média da liga), enquanto o Cardinals continua com um bom-mas-não-tanto 106, bom para sétimo lugar. Boston também lidera a MLB nas duas categorias mais importantes que envolvem passagens no bastão- OBP e SLG - mesmo ajustando para a presença do DH. Então a não ser que o Cardinals tenha descoberto um segredo milenar chinês para rebater com RISP - e talvez mesmo se tiver - o Red Sox tem o melhor ataque.
Vantagem: Red Sox


Baserunning

A outra parte de qualquer ataque, além do que os times fazem com o bastão, envolve correr as bases. Por correr as bases você deve entender tanto a capacidade de um time de roubar bases (e não ser pego roubando, claro) como de avançar bases extras nas rebatidas dos seus companheiros quando alguém está em base. O Red Sox terminou a temporada regular em quinto nesse quesito, gerando 11.3 corridas a mais com as pernas, e teve também o mais valioso corredor da MLB em Jacoby Ellsbury. O Cardinals foi um time basicamente medíocre nesse quesito: 17th, perdendo 0.9 corridas em 162 jogos por causa de baserunning. Então o Red Sox foi melhor, mas não é como se o Cardinals fosse uma atrocidade como o Detroit Tigers (que aliás se complicou muitas vezes na ALCS por conta disso): O Tigers terminou a temporada com -19.4 BsR (estatística que mede quantas corridas um time gerou correndo as bases), não só a pior marca da MLB em 2013 como a quarta pior marca dos últimos 70 anos. (O pior time desses 70 anos? 2004 Red Sox, é claro, um time cuja jogada mais famosa e mais emblemática foi... wait for it... exatamente um roubo de base, a famosa roubada de Dave Roberts contra Mariano Rivera no G4 que mudou os rumos da série! Ah, a ironia...)
Vantagem: Red Sox


Melhor jogador

Para o Cardinals, é ou Matt Carpenter (.318/.392/.481, 147 wRC+, 7.0 WAR) ou Yadier Molina (.319/.359/.477, 134 wRC+, 5.6 WAR), dependendo do quanto você gosta de creditar o sucesso dos arremessadores do Cardinals a capacidade de Molina chamando o jogo atrás do home plate. Nenhum dos dois tem jogado muito bem nos playoffs, mas essa é uma amostra pequena para tirar qualquer tipo de conclusão, e Carpenter possivelmente seria o MVP da NL se não fosse Andrew McCutchen. Para o Red Sox, você tem uma boa variedade para escolher, entre Jacoby Ellsbury (.298/.355/.426, 113 wRC+, lider em BsR, 5.8 WAR), Dustin Pedroia (.301/.372/.415, 115 wRC+, 5.4 WAR) ou até mesmo David Ortiz (.309/.395/.564, 153 wRC+, 3.8 WAR) pelo bastão. Red Sox tem mais profundidade (poderia ter incluído ai Shane Victorino e seu 5.6 WAR ainda), mas Carpenter teve o melhor 2013 entre todos os rebatedores dessa série.
Vantagem: Cardinals


Defesa

Aqui depende um pouco de que estatística você quer usar (se você quer usar "erros", eu sugiro que você vá ler um pouco mais sobre UzR antes de continuar, porque erros é uma estatística estúpida). Tradicionalmente eu gosto de usar UzR - ele mede quantas corridas um jogador de uma certa posição evitou (ou cedeu a mais) em relação a um jogador mediano da sua própria posição - porque é simples e eficiente. Mas ultimamente o fangraphs criou uma estatística que seria basicamente um UzR ajustado: ele considera que um SS que tem UzR de -1 é um defensor muito melhor que um 1B que tem o mesmo UzR, já que jogar de SS é muito mais difícil, então ele ajusta isso de acordo. É interessante na teoria, mas pensando em uma série curta, o que importa são as corridas a mais ou a menos que o time cede em um vácuo, independente de onde essa corrida veio. Então deixo a seu critério saber qual delas usar: em UzR, o Red Sox é 10th com 21.6 e o Cardinals é o quarto pior com -49.4; e em UzR ajustado, o Red Sox é 17th (6.5) e o Cardinals 20th (-8.3). Dividindo a diferença, e lembrando que o Red Sox pode usar o Papi de 1B nos jogos em Saint Louis, vantagem Red Sox mas não tão grande.
Vantegem: Red Sox


Mando de campo

A AL ganhou o All-Star Game, ironicamente com Mariano Rivera de MVP, o que significa que o Red Sox tem o mando de campo nessa World Series. Então o Red Sox tem a vantagem de jogar quatro jogos em casa - com as regras da AL - e jogar um eventual jogo 7 decisivo em seus domínios.
Vantagem: Red Sox


Adaptabilidade as regras

No baseball, a AL e a NL tem algumas regras diferentes, principalmente a do Designated Hitter. Então essa bagunça, na World Series, significa que nos jogos com mando do time da AL ambos os times jogam com DH, e nos jogos com mando da NL nenhum usa. Isso obviamente gera uma distorção - o time da AL perde um bom rebatedor e o da NL ganha um, quando jogam fora de casa - mas depende também de qual time está mais pronto para fazer essa adaptação.

No caso do Red Sox, o time vai ter que sacrificar Ortiz ou Mike Napoli nos jogos na NL. Considerando que a rotação inteira do Cardinals é de destros, provavelmente Papi que vai jogar esses jogos (embora talvez não todos - meu palpite é que ele joga dois e Napoli um), o que enfraquece o time na defesa e fortalece o ataque. Mas o Red Sox de modo geral tem uma vantagem interessante jogando na NL: uma legião de pinch hitters, perfeito para explorar matchups nos finais das partidas. O time também tem jogadores velozes (Victorino, Ellsbury, Quentin Berry) que são excelentes "manufaturando" corridas, e embora alguém possa dizer que o Sox não é um time bom fazendo bunt, isso é uma coisa boa porque (tirando algumas situações específicas) o bunt é uma jogada que diminui sua chance de anotar corridas em uma dada entrada ao invés de aumentar (de novo, depende do contexto, mas no geral funciona assim). Não me parece o ideal para o Red Sox, mas pelo menos seu banco profundo vai ser uma vantagem. Para o Cardinals, eles ativaram o único rebatedor que poderiam para o DH, Allen Craig, que não joga faz mais de um mês... mas isso me parece um pouco uma medida de último recurso. Craig não joga faz muito tempo, e provavelmente só foi ativado para a WS porque não tinha mais ninguém para fazer a função. Não confio que Craig esteja 100%, mas se estiver perto disso, é uma boa vantagem especialmente contra o canhoto Jon Lester no G1.
Pequena vantagem: Red Sox


Rotação titular

O Cardinals tem os dois melhores arremessadores titulares da série, Adam Wainwright e Michael Wacha (NLCS MVP), então isso sozinho já faz o time ter uma vantagem nessa categoria. Embora seja interessante mencionar que Wacha, escalado para começar os jogos 2 e 6 (ambos no Fenway Park), tem uma brutal diferença jogando dentro e fora de casa (2.4 FIP em casa e 4.06 fora), enquanto Jon Lester foi um dos melhores arremessadores da MLB em Setembro (2.28 de FIP - melhor que Wainwright no mesmo período). E apesar de Wacha/Wainwright serem a melhor dupla da série, o Red Sox tem vantagem no duelo Joe Kelly/John Lackey ou Clay Buchholz (inclusive um eventual G7). O Cardinals ainda tem a vantagem porque tem mais talento no topo da rotação, mas Wacha jogando apenas fora de casa e a emergência de Lester em Setembro (especialmente considerando a dificuldade do Cardinals contra LHP), a diferença é menor do que parece a primeira vista.
Vantagem: Cardinals


Bullpen

O Cardinals teve um sólido Bullpen em 2013, terminando com o terceiro melhor FIP da MLB, enquanto o do Red Sox caiu no meio da tabela. Mas nos playoffs, você não precisa de todos seu bullpen, precisa de apenas uns poucos escolhidos. O Cardinals tem alguns jogadores interessantes, entre eles o especialista em groundballs Seth Maness e o 0.45 de ERA do Kevin Siegrist, e o canhoto Randy Choate vai cair bem para enfrentar os canhotos do Red Sox. Enquanto isso, Boston tem apenas dois relievers confiáveis: o canhoto Craig Breslow e o destro Junichi Tazawa, ambos tem jogado muito bem nos playoffs, mas fora os dois ninguém inspira confiança, e isso pode custar o Red Sox nos jogos mais táticos da NL que envolvem muitas mudanças de arremessador, ou mesmo nos jogos de Buchholz, que está sem a mesma energia desde que se machucou. O Cardinals tem mais depth, e por isso leva a categoria.
Vantagem: Cardinals

Closer

O closer calouro do Cardinals, Trevor Rosenthal, teve uma temporada muito boa, sétimo na MLB entre RPs com 2.2 de WAR, um FIP de 1.96, e tem sido ainda melhor nesses playoffs com sua bola rápida dançando em torno de 98 MPH. Um top prospect da organização, Rosenthal me lembra outro closer calouro da organização, que conseguiu o save final na World Series de 2006 e eventualmente virou titular um ano depois. Esse closer, Adam Wainwright, hoje é um dos melhores pitchers da MLB, e me pergunto se o mesmo pode acontecer com Rosenthal em breve: embora seja principalmente um pitcher de fastballs, ele tem uma curveball e um changeup em desenvolvimento e algo que lembra um slider ou cutter, então ele parece estar caminhando na direção da titularidade mesmo. Mas por melhor que Rosenthal tenha sido, o Red Sox tem um jogador que terminou uma das melhores temporadas por um relief pitcher na história da MLB e que teve a sequência mais dominante por um closer na história do jogo. Então tem isso. 
Vantagem: Red Sox


Carisma e estilo

O Red Sox vence sobre o Cardinals e qualquer time da MLB. Quer dizer, olha essas barbas!! Como não gostar desse time?! Eu não gosto muito desses times "Somos guardiões da honra do jogo e ninguém pode demonstrar emoção" que nem o Cardinals, e agora eles encontraram um prato cheio em Boston. 
Grande vantagem: Red Sox


Manager

Avaliar um manager é difícil demais, porque nós só temos acesso a uma parte de ser um manager: suas decisões e estratégias dentro de campo. A parte contínua - cuidar do vestiário, conduzir a carreira e o ego dos seus jogadores, promover mudanças na sua equipe para tirar o máximo dos jogadores, etc - é algo que não temos como medir, estão incorporadas em todos os números que já falamos. Então quando pensamos no impacto que um manager pode ter em uma série de 7 jogos, estamos pensando principalmente nas decisões dentro de campo.

Eu vejo muitos torcedores do Cardinals criticando muito o Mike Matheny, mas não acho ele tão ruim - ou pelo menos não é pior do que o grande número de managers tradicionais que pensam demais em seguir as "diretrizes corretas" do baseball ao invés de tomar as decisões que maximizam suas chances de vencer. Mas ele não tem medo de confiar nos seus jogadores calouros como Rosenthal, e em geral sabe conduzir bem sua equipe com um lineup um pouco limitado (mais sobre isso daqui a pouco). Do outro lado, Farrell absolutamente se recusa a seguir lógicas simples, como por exemplo o que fez no G6 e quase custou ao time a vitória (trazendo seu pior reliever, famoso pelos walks, para enfrentar o meio da ordem do Tigers com 2 em base e nenhum eliminado quando tinha Breslow, Tazawa ou Koji Uehara ainda no bullpen. Franklin Morales cedeu um walk e uma deveria-ter-sido-double que só não teve mais estragos porque o Prince Fielder é um dos piores baserunners da história do mundo) ou mesmo não usar o canhoto Daniel Nava (146 wRC+) contra RHP para usar o destro Jonny Gomes (103 wRC+ contra RHP). Eu prefiro o cara convencional do que o cara que não faz sentido.
Vantagem: Cardinals



Vantagem em caso de briga

O Cardinals é um time que gosta de manter suas emoções sob controle, e em uma briga, é sempre importante ter os jogadores mais ensandecidos. O Red Sox tem Victorino, Napoli, Jonny Gomes, Dustin Pedroia e mais uma meia dúzia de malucos que eu odiaria ver pela frente em um dia de fúria. E btw, eu não sei se o Cardinals tem uma resposta a altura do David Ortiz.
Vantagem: Red Sox


Banco de reservas

Uma das maiores fraquezas do Cardinals nesses playoffs. Com Craig fora, seus melhores pinch hitters eram Shane Robinson, Daniel Descanso ou o calouro Kolten Wong, horríveis opções para enfrentar jogadores como Kelly Jansen, Craig Kimbrel ou Uehara. Com Craig isso melhora um pouco, mas se ele jogar de DH o time fica absolutamente sem ninguém competente para trazer do banco nos jogos em Boston, e mesmo com ele (a menos de 100%) faltam opções para o time em St Louis. Enquanto isso, o Red Sox pode ter o melhor banco da NFL: se Gomes continuar jogando de titular, o time tem dois excelentes canhotos (Mike Carp e Nava) e mais Will Middlebrooks de destro, um dos melhores corredores da MLB em Quentin Berry, e talvez até Jarrod Saltalamacchia se David Ross começar de titular alguns jogos. O que não falta são opções.
Grande vantagem: Red Sox


Organização como um todo

O Cardinals vence qualquer time dos últimos 15 anos na MLB nesse critério. O trabalho que o Cardinals - 15th maior folha de pagamento da MLB apenas - tem feito com seu time é espetacular: suas ligas menores são uma fábrica de grandes jogadores (sai Albert Pujols, entra Matt Carpenter, Allen Craig, Matt Adams; machuca Chris Carpenter, sobem Wacha e Shelby Miller), o time sabe muito bem como evitar contratos imensos que entopem a folha salarial do time (Pujols alert!) e maximizar cada um dos seus ativos, e eles tem feito isso por quase 10 anos agora. Não é uma coincidência que o time está tão consistentemente entre os melhores da MLB mesmo sem uma folha de gastos tão grande. Ano que vem, o Cardinals pode ter uma rotação titular com Wainwright, Lynn, Wacha, Miller E Rosenthal - todos produtos da casa - e ainda tem o melhor prospect das ligas menores (Oscar Taveras) esperando na AAA. Invejável o que essa organização faz, e merece o sucesso que tem.
Grande vantagem: Cardinals


Matchup direto

Em outras palavras, como as forças e fraquezas de cada time combinam entre si, e qual time tem vantagem nisso?

A maior força do Boston Red Sox é algo que é frequentemente negligenciado mas que foi um fator chave na sua vitória na ALCS: o lineup do Red Sox simplesmente pune o braço dos arremessadores. O time trabalha cada bola, cada at bat, cada arremesso em busca da bola ideal, forçam o adversário a arremessar muitas vezes por confronto, e no final da sexta ou sétima entrada mesmo o arremessador mais dominante tem que sair do jogo porque está fisicamente esgotado. Muita gente apontou para o bullpen do Tigers sendo ruim como o fator decisivo da série, mas eles tiveram que ser tão usados porque os arremessadores do Tigers não conseguiam terminar as partidas tendo lançado tantos arremessos, mesmo sendo o grupo mais durável da MLB. Então entrou o bullpen - sempre pior que a rotação titular - e o Red Sox cansou de castigar essas figuras. Considerando que entre todas as áreas do confronto a grande vantagem que o Cardinals vai precisar explorar para ganhar são seus arremessadores titulares, essa capacidade do Sox de eliminar cedo na partida os SPs é crucial para assegurar que Wacha e Wainwright joguem o mínimo possível. Se Boston tiver sucesso nisso, tem a série nas mãos.

Da mesma forma, a maior fraqueza do Cardinals é (além do banco horrível) sua dificuldade rebatendo contra canhotos. Por sorte, o Red Sox só tem um canhoto, Lester, na sua rotação, mas ele é o melhor pitcher do time e pode jogar até um terceiro jogo em caso de chuva. Craig é uma peça importante contra Lester, considerando que ele é muito melhor contra canhotos do que Matt Adams, mas ainda não é sua especialidade (ele é melhor contra destros) e Craig não deve estar 100%, então o matchup Lester-lineup do CArds é favorável a Boston.
Vantagem: Red Sox


X-Factor

A variável que determina de fato as chances do Cardinals é Allen Craig. Craig foi o terceiro melhor rebatedor do time em 2013, é um jogador muito eficiente no bastão e foi o melhor jogador do time rebatendo com jogadores em posição de anotar corrida, o único jogador ativo cuja diferença rebatendo com RISP é significativa (ao contrário do time do Cardinals em 2013 como um todo, btw, que não é). Craig foi ativado para servir como DH na AL e dar proteção ao banco do time, mas como eu disse, ele não joga faz um mês e meio e, se não foi ativado sequer para ficar no banco como jogador de emergência na NLCS, é porque deve estar longe de 100%. Sua lesão no pé também vai afetar consideravelmente sua já fraca defesa e baserunning, então ele deve ter um papel maior como DH e pinch hitter mesmo - talvez começando de titular um eventual G5 contra Lester em casa. Se Craig estiver 100% ou perto disso, ele pode mudar essa série pois "tapa" a grande fraqueza desse banco e é um excelente rebatedor de modo geral, oferece um DH para tirar vantegem da posição na AL (imagina se fosse Descalso ou Robinson? Yeekes!) e uma opção ao canhoto Adams. Mas novamente, vai depender do quanto ele estiver bem e produzindo, talvez não seja mais do que uma tentativa infrutífera.

Do lado do Red Sox, o X-Factor é o X-Man, Xander Bogaerts. Nas listas de "prospects" do baseball (como a que colocou Wil Myers #1 em 2013), o que eles consideram não é apenas o nível do prospect mas o quão perto de produzir nas ligas maiores ele está. Mas se considerarmos apenas o valor dos jogadores nas Minor Leagues (ou seja, qual deles teria mais valor caso o time decidisse trocar ou mesmo o valor esperado total que o jogador deve produzir), então Bogaerts e Byron Buxton seriam 1-2 em alguma ordem em qualquer lista do mundo. Apesar dos 21 anos, Bogaerts assumiu a titularidade na metade da ALCS e foi o jogador mais impressionante do time, conseguindo walks em 45.5% das suas passagens no bastão e rebatendo apenas doubles. Amostra pequena, obviamente, mas é só assistir o moleque para perceber que ele é especial: seu olho no bastão é uma coisa fora de série (trabalhou a contagem para 3-2 em todos seus ABs na ALCS contra Max Scherzer saindo de 0-2 e 1-2, terminando com dois walks e um double) e ele tem se destacado muito também na defesa. Considerando a falta de canhotos no lineup titular do Cardinals, ele provavelmente vai jogar na 3B no lugar de Middlebrooks e não na sua posição de origem de SS, mas ele rebateu muito bem quando teve a chance e deveria subir no lineup para essa série. Xander é o jogador que, se subir no bastão (talvez para 6th, um lugar onde o time sofre muitos Ks) e produzir, pode mudar essa série pro Sox.

Veredito final: Red Sox em 7.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Notas dos jogos 4 e 5

Ops, como isso foi parar ai? (Não sei se alguem sabe quem é, anw)


Depois de cinco jogos, posso falar com segurança que essas Finais estão sendo uma das séries mais legais E mais malucas que eu já vi em meus anos de NBA. E definitivamente não lembro qual foi a série com dois times mais inconsistentes: Jogo a jogo, quarto a quarto, posse de bola a posse de bola, os dois times parecem que estão sempre mudando em intensidade, tática e simplesmente eficiência. Depois de um primeiro jogo apertadíssimo, todos os outros foram decididos por mais de 10 pontos, incluindo duas surras homéricas onde um time pareceu invencível e o outro um bando de colegiais assustados (Jogos 3 e 4). Mesmo no Jogo 5, mais uma vitória de San Antonio por duplos dígitos, o jogo foi uma montanha russa: San Antonio emplacava uma sequência arrasadora com Miami perdido; dai Miami jogava muito e San Antonio parava; dai SAS voltava a jogar o fino da bola; dai Miami tirava a diferença de 19 pontos pra 1. Claro que é normal em partidas entre times tão fortes ter oscilaçōes e boas sequencias de ambos os lados, mas não lembro de uma onde os times parecem ser outros a cada 5 minutos. 

Como sempre, muita coisa pra falar, mas dessa vez pouco tempo. Então vamos tentar cobrir o que aconteceu de legal/importante nos Jogos 4 e 5 em forma de topicos, como temos feito até aqui.

Jogo 4: Ajustando a lineup

A história que chamou a atenção antes do Jogo 4 foi a mudança na lineup titular promovida por Eric Spolestra, desistindo da sua formação mais alta (Udonis Haslem - Chris Bosh), colocando Mike Miller no lugar de Haslem e deixando Lebron James como PF de verdade.

A idéia por trás dessa mudança era algo que eu já tinha escrito aqui: San Antonio estava usando como foco da sua estratégia defensiva congestionar o garrafão, abandonando jogadores que não iriam ameaça-los em arremessos pra fechar o caminho de Lebron até a cesta. Não coincidentemente, o maior sucesso de Miami na série ofensivamente tinha sido nos momentos em que enchia a quadra de arremessadores mais perigosos pra fechar a quadra - isso forçava os defensores de San Antonio a marcar o perímetro mais de perto e pensar duas vezes antes antes de correr pra fechar o garrafão. É uma tática basica de NBA, e que servia pra abrir mais espaço pra Lebron principalmente atacar o aro e manobrar perto da cesta - ou então fazer San Antonio pagar por irem ajudar. 

De novo, taticamente foi uma mudança interessante. No Jogo 3, Miami sentiu muito a pressão que o Spurs estava colocando no garrafão e começou a pensar demais na hora de atacar a cesta, frequentemente se contentando em arremessos de meia distância que nunca entravam. Era fundamental pras pretençōes de San Antonio que Lebron e Dwyane Wade entrassem no jogo e atacassem a cesta - não apenas eles são muito mais eficientes perto do aro, como também esse tipo de jogada cria muito mais espaços pra passes e cestas fáceis. A esperança dele era embalar suas duas estrelas - um pouco perdidas no resto da série, especialmente Wade - e que o time se acertasse em torno disso.

E ele estava certo. Miller tentou apenas um arremesso em 21 minutos, mas sua presença em quadra puxou o cobertor da defesa do Spurs e deu a Wade e Lebron o espaço que eles precisavam. Levando a...


O Big 3 voltou

Desde o primeiro jogo contra Indiana, muitas críticas (em geral merecidas) foram direcionadas a Wade e Bosh pela sua falta de eficiência em quadra, pela forma como estavam sendo vulnerabilidades e deixando Lebron jogar sozinho. Bosh, em particular, podia atribuir a uma lesão (no caso, um pé torcido logo no começo da serie), mas Wade parecia simplesmente velho e com um joelho cronicamente ruim. Em meio às comparaçōes com o Cavaliers de 2010, uma verdade parecia ter se destacado depois da surra do Jogo 3: Miami não ia ganhar nada se suas outras duas estrelas - em particular Wade - não jogassem bola. E mesmo Lebron, o melhor da equipe nos primeiros jogos, não estava sendo o Lebron agressivo e dominante de outrora. 

E como eu disse acima, a entrada de Miller era uma tentativa de Spolestra de abrir espaços pra Wade e Lebron aproveitarem, atacarem a cesta, criarem caos na defesa de San Antonio e simplesmente embalarem. E oh boy, isso aconteceu. Wade e Lebron vieram pegando fogo, atacando a cesta, forçando a defesa de San Antonio a ajustar a eles. Eu não acho que eles simplesmente quebraram a defesa de San Antonio e começaram a engolir o Spurs, mas eles impuseram seu jogo: Atacando a cesta e conseguindo arremessos fáceis, forçando espaços, achando arremessadores ou cutters livres e basicamente conseguindo os arremessos que eles queriam, ao invés dos que a defesa de San Antonio oferecia. Mesmo quando o Spurs empatou o jogo antes do intervalo, eu disse no twitter que o segundo tempo estaria muito mais pra Miami que pra SAS simplesmente porque Miami estava criando os arremessos que gostava, enquanto San Antonio estava acertando arremessos muito mais dificeis. Era obvio que o segundo era mais provável de parar de cair, aconteceu, e Miami aproveitou. 

Mas além do grande trunfo de Miami (ja vem) no Jogo 4, não pode ser subestimada a importância que teve Wade entrando na série. Sendo usado por algum tempo como um jogador no qual esconder um defensor fraco que pudesse ajudar no garrafão, Spolestra tentou usar algumas manobras pra envolver WAde no ataque e obrigar a defesa do Spurs a respeitá-lo (escrevi sobre algumas delas, em especial usar Wade menos parado no perimetro e mais cortando pra cesta), e no momento que Wade começou a esquentar e a defesa do Spurs teve que se ajustar a ele da mesma forma que ajustou a Lebron, os espaços que Miami tanto soube aproveitar na temporada regular voltaram a se abrir, os jogadores jogaram com mais liberdade e o ataque fluiu muito melhor. Miami é um time mil vezes mais perigoso quando tanto Lebron como Wade estão exigindo atenção dobrada da defesa.

(Nota importante: Ainda não entendi como Wade por ter sido tão ruim por 10 jogos seguidos e de repente parecer que implantou um joelho biônico pros proximos dois jogos. Se ele era capaz, porque não jogou assim antes? Nenhuma explicação aqui. Nenhuma. O mesmo vale pra Lebron, btw: Depois de parecer um jogador exausto e sem energia por um bom tempo das Finais, no G4 pareceu um dinamo de energia, fez jogadas pela quadra inteira e destruiu San Antonio com sua força e defesa. Porque diabos esses dois variam tanto nisso de um jogo pro outro?!)


A defesa de Miami

Mas embora o ataque tenha fluido mil vezes melhor pra Miami, um dos motivos pelos quais foi tão dificil para-lo foi que os arremessos medios e longos de Wade e Lebron - que não cairam a serie toda - começaram a gerar pontos. De certa forma, isso faz sentido: Eles estavam mais confiantes atacando a cesta e forçando a defesa a se preocupar com isso que o espaço pro jumper abre naturalmente, sem precisar forçar sabendo que não era a melhor opção. Mas pra mim o grande trunfo de Miami foi a defesa: Depois de ver San Antonio envolver totalmente sua defesa no Jogo 3 com grande movimentação de bola e 3PTs livres, se aproveitando da confusão e falta de energia do time da Flórida, Miami entrou pra destruir esse ataque. 

Eu sinceramente acho que não foi tanto uma questão de ajustes táticos, e sim uma volta ao que Miami faz de melhor. Depois de ter visto San Antonio varrer Miami com sua infiltração, passes rapidos e movimentação, o Heat voltou a fazer o que faz de melhor na defesa: Ser agressivo. Todo pick and roll tinha um "trap", toda chance a defesa aproveitava para pressionar quem estava com a bola e basicamente atacava agressivamente Manu Ginobili, Tony Parker e Duncan, tirando a bola das suas mãos e forçando os coadjuvantes do Spurs a fazerem as jogadas e conduzirem os pick and rolls. Mas mais do que isso, o Heat foi simplesmente perfeito defensivamente: As rotaçōes foram perfeitas, as dobras foram sempre na hora certa, o time pensou rápido e evitou falhas de comunicação e conseguiu sempre conduzir a bola na direção do jogador do Spurs que eles queriam (em geral foi o Tiago Splitter). Em parte porque o Heat voltou a fazer o que faz de melhor (pressionar o adversário e jogar de forma agressiva) e em parte porque a execução defensiva foi simplesmente perfeita (nota: Shane Battier foi um +13 em 9 minutos - defendi que ele deveria jogar mesmo errando tudo no ataque justamente pela turnovers e em geral pode forçar o ritmo e pegar a defesa de San Antonio desarrumada. Mais do que o bom ataque que fluiu bem, foi a defesa de Miami que venceu essa partida convincentemente.

Eu disse depois do Jogo 3 que foi o primeiro jogo onde eu achei que um time foi realmente superior a outro: Spurs impos seu jogo a Miami e o venceu sendo claramente superior do começo ao fim. Jogo 4? Foi o contrário. O Heat que impôs seu estilo, o Heat que conduziu o jogo do começo ao fim e ele que engoliu o advesário dessa vez. San Antonio ia ter que recuperar a compostura pro Jogo 5.

E ai chegamos ao Jogo 5, ontem a noite, começando por...


Jogo 5: Ajustando a lineup 2.0

Depois de um horrível Jogo 4, onde Manu foi 1-5 pra 5 pontos, 2 assistencias e um -22 em quadra, Popovich respondeu à mudança de lineup de Miami com sua própria: Colocou Ginobili e sacou Splitter de titular.

Eu consigo pensar em vários motivos pra ele ter feito essa mudança, na verdade: A) Pra contra-atacar a lineup baixa de Miami, colocando mais um chutador pra espaçar a quadra e evitar ter um big man seguindo Mike Miller através de screens na defesa; B) Com Miami atacando Parker e Duncan, e forçando a bola na direção dos ball handlers menos eficientes de SAS pra força-los a fazer jogadas, colocar mais um segundo ball hadler era uma forma de manter o ataque fluindo; C) Tentar envolver Ginobili mais no ataque junto de Parker e Duncan (e portanto mais espaços); entre outros. Eu não gostei da mudança, though, por um simples motivo: A lineup Parker-Danny Green-Manu-Kawhi Leonard-Duncan estava muito mal nos playoffs e na temporada regular, algo como -28 em 48 minutos nos playoffs. Eu deixei claro no twitter que era dificil duvidar de alguma coisa que Pop fazia, mas eu não achei que essa mudança fosse funcionar.

E claro, Pop estava certo e eu errado - por isso ele é um dos quatro maiores tecnicos da historia da NBA e eu estou aqui escrevendo isso. No final, o motivo de Pop era tudo isso e mais um: Colocar ele desde o começo pra ver se ele desenvolvia um ritmo na partida e entrava no Jogo direito. E aconteceu: Manu entrou no Jogo com energia e usou seus drives malucos e seus passes brilhantes pra destruir Miami e achar Danny Green de novo e de novo e de novo pra bolas de três. A imprevisibilidade de Manu e o bom jogo de Parker forçaram a defesa de Miami a ficar mais honesta, castigando toda vez que Miami saia pro perímetro pra pressionar e simplesmente se tornando muito mais imprevisível com dois ball handlers de elite no perímetro. Manu pegou o ritmo desde o começo, destruiu Miami com seus passes durante três quartos, e quando o ataque de SAS estagnou Manu colocou a bola embaixo do braço e achou cesta atrás de cesta com aquele seus movimentos de quem está jogando bêbado. Pra variar, Pop fez a coisa certa.

Outra coisa atraiu minha atenção no ataque de San Antonio que não esteve la antes. Ao longo da série, quando SAS conseguiu punir a pressão de Miami no pick and roll usando sua movimentação e brilhantes screens, o Heat começou a evitar as screens de forma agressiva, mudando a marcação sempre que podia. Dessas vez, o Spurs entrou pra punir essas mudanças: Durante varios minutos, o Spurs usou pick and rolls sem usar seus big man pra forçar trocas ou usar dois screeners na mesma jogada. O Miami não esta acostumado a esse tipo de defesa, teve que se adaptar na hora, e isso resultou em inumeros erros de comunicação e atrasos que o Spurs aproveitou pra rodar a bola com seus passes rápidos e achar - wait for it... - Danny Green livre pra bolas de três (entre outras cestas fáceis).

O Spurs também usou isso de uma forma que é ao mesmo tempo estranha ao seu ataque e consequência direta. Acostumados a um ataque cheio de passes, screens e movimentaçōes de bola, o Spurs dessa vez usou e abusou das isolaçōes e dos passes derivados diretamente dela. Mas ainda assim, foi ao estilo Spurs: A isolação nao era simplesmente isolar um jogador bom e deixar ele ir atacar o adversário. O Spurs trabalhava a bola e usava as screens, como dito antes, pra forçar trocas nas marcaçōes e criar missmatches. Quando conseguia um particularmente tentador - em geral Duncan sozinho no post, ou PArker/Manu isolado pra cima de Norris Cole, Chris Bosh ou Ray Allen - o Spurs deixava a isolação rolar, mas isso só acontecia devido às trocas de bola constantes e ataque complexo do Spurs. E não é como se San Antonio tivesse apelado pra isso repetidamente: O Spurs soube misturar essas isolaçōes com ataques tradicionais, de forma de confundir e deixar a defesa de Miami desconfortável, ou então recorrer a isso quando o shot clock estava acabando.

Em geral, apesar da inconsistência, San Antonio teve uma excelente partida ofensiva. Depois de se ver a defesa de Miami frustrar seus esforços, esse jogo foi mais uma grande dominação de San Antonio - em parte pelos ajustes e melhor execução, em parte porque Miami não conseguiu manter a pressão e precisão defensiva da ultima partida. Mas ainda assim, com Manu jogando o fino da bola, o Spurs ficou a um passo do título.


Danny Green

Já falei tudo que tinha pra falar sobre ele semana passada... E dai não é mais suficiente porque Green continua acertando bola de três atrás de bola de três. Ele acerta do topo do arco. Da zona morta. Das wings. Spotting up. Driblando. Em transição. Em movimentação. Ele simplesmente não erra.

Pense nisso por um instante: Contra uma das melhores defesas da NBA, Green está acertando mais bolas de três (68%) do que Blake Griffin acertou de lances livres a temporada regular inteira (66%). Como isso é possível?! Claro, a amostra é pequena, mas amostras pequenas ganham títulos. E agora ele bate o recorde de bolas de três pontos de Ray Allen nas Finais (22 em 2005, 6 jogos) com 25 em apenas cinco jogos... E ainda, está a três de bater o recorde de Allen (2009) e Dennis Scott (1995) de mais bolas de 3PT em uma serie de playoffs (28). Se o Spurs ganhasse o titulo agora, provavelmente seria o MVP (embora eu ainda votasse em Duncan). So... Hmm...Yeah, foi um ano espetacular pra Danny Green. 

Btw, se o Heat não for campeão, que ano teria sido pra Ray Allen, hein? Depois de sair num clima amargo de Boston (como torcedor do Celtics, não culpo Ray por querer sair, mas também não gostei dele ir logo pra Miami), Ray viu Stephen Curry quebrar seu recorde de 3PTs numa temporada regular de NBA, Green quebrar seu recorde de 3PTs em Finais (na cara dele a bola numero 23, ainda) e agora pode ver a) Green quebrando seu recorde de 3PTs numa serie de playoffs e b) Seu time fracassar de forma traumatica. É bom que Miami ganhe, pela sanidade de Ray Ray.

(Nota: Pra um cara tão tranquilo e low profile como Ray, não é estranho que ele tenha saido em maus termos de todos os times pelos quais passou?)


Lineup a se olhar pro Jogo 6

Com Mario Chalmers e Cole sendo abusados na defesa e fracassando retumbantemente no ataque, o Miami teve grande sucesso no Jogo 5 usando uma lineup sem nenhum armador: Wade, Lebron, Ray, Miller e Bosh - ou seja, as três estrelas com dois arremessadores puros em quadra. Essa lineup teve grande sucesso pela atenção que Wade e Lebron exigem e aproveitando isso pra usar algumas screens liberando Ray e Miller, abusando do cobertor curto de San Antonio. Ainda que em pequena amostra e mais pro final da partida apenas, essa lineup teve grande sucesso e acho possível que o HEat apele pra ela mais no Jogo 6, especialmente quando tiver estagnado seu ataque. Fiquem de olho nela.

Apesar do grande sucesso dessa lineup no Jogo 5, eu desconfio dela em longas doses por dois motivos: Primeiro, porque ela exige que Lebron defenda Parker na defesa. Lebron não tem tido grande sucesso defendendo Parker (ou defendendo 1-1 de modo geral nos playoffs) na série, e pior do que isso, San Antonio tem aproveitado essa chance pra fazer Lebron correr, trombar com 300 screens e simplesmente se cansar de modo geral ou então forçar um missmatch, cansando e desgastando o jogador mais importante de Miami (que tem tido alguns problemas que me parecem cansaço fisico nessa serie) e tirando sua eficiência ofensiva. O outro problema também é defensivo: Essa formação exige que o Miami "esconda" Allen e Miller - o primeiro muito fraco defensivamente hoje em dia, o segundo perdido pelo pouco tempo de jogo durante a temporada - em jogadores como Danny Green (que não pode ter um centimetro de espaço e vive correndo por screens), Gary Neal, Ginobili (se jogar como jogou no Jogo 5, impossivel) ou Leonard (destrutivo nos rebotes ofensivos). Tenho minhas duvidas de como Miami iria sobreviver a esses dois problemas por muito tempo. Mas em doses curtas - como começo de segundo/quarto periodo - pra aumentar o ritmo, conseguir cestas fáceis e causar caos na defesa do Spurs de maneira geral, é uma lineup extremamente interessante que deve aparecer mais no Jogo 6.


Curiosidade do dia

Desde que começou a série contra o Pacers, os resultados do Heat: Ganhou (G1), perdeu (G2), ganhou (G3), perdeu (G4), ganhou (G5), perdeu (G6), ganhou (G7), perdeu (Finais, G1), ganhou (G2), perdeu (G3), ganhou (G4), perdeu (G5). Pela lógica, teremos Spurs em 7.

Alias, nem Miami nem San Antonio perderam dois jogos seguidos desde o começo dos playoffs. Olhando mais fundo, Miami não perde dois jogos seguidos desde Janeiro. San Antonio perdeu três seguidos em Abril ou Maio... Mas foram jogos sem Duncan, Leonard E Parker. Tirando essa sequência, San Antonio não perde dois jogos seguidos desde Dezembro. Haja consistência hein? Miami vai ter que quebrar essa sequência se quiser ser campeão (duh), e San Antonio vai tentar quebrar pra não ter que encarar um Jogo 7 em Miami.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Depois do furacão...

"Essa não vai entrar e... O QUEEE??"


Eu tenho apenas uma regra na vida: Toda vez que Danny Green e Gary Neal são os melhores jogadores numa partida de Final de NBA que envolve pelo menos seis Hall of Famers, eu tenho que fazer um texto a respeito. Já que esse formato de tópicos funcionou (pra mim, pelo menos) muito bem depois do Jogo 1 das Finais da NBA, vamos reaproveitá-lo pra explicar o que mudou deste então pros Jogos 2 e 3.

Btw, um esclarecimento por precaução: NÃO, eu não odeio Miami nem torço pra San Antonio! Eu só não postei depois do Jogo 2 porque só fui ver o jogo depois e porque não tive tempo, não porque Miami ganhou. Então sem paranoia, ok?

Ok, vamos a isto...


Ajustes técnicos: Miami

Como eu disse antes, o Jogo 1 foi tão equilibrado e decidido nos detalhes que dificilmente ia exigir grandes ajustes de ambos os técnicos. Eu esperava alguns pequenos truques sendo adicionados e algumas jogadas novas pra confundir a defesa e/ou aproveitar melhor algum jogador, mas nada drástico ou radical enquanto não fosse necessário.

Até aqui, tem sido o caso. Achei o Jogo 2 um bom reflexo do Jogo 1 até certo ponto - Spurs sendo um pouco mais eficiente mas muito equilibrado - até que Miami encaixou uma sequência, San Antonio não conseguiu acompanhar a intensidade e o jogo abriu demais pra San Antonio recuperar. Achei que foi mais um caso de execução do que de ajustes.

O que não quer dizer que pequenos ajustes não tenham sido feitos. Em particular, dois chamaram minha atenção, duas jogadas de xadrez após o Jogo 1. Em primeiro lugar, Spolestra reconheceu bem a tática de San Antonio de "ignorar" alguns jogadores no perímetro pra congestionar o garrafão e colocar corpos no caminho entre Lebron James e a cesta, sobre a qual eu escrevi sexta. Eu frisei que Spolestra tinha que manejar melhor isso, usando lineups melhores pra espaçar a quadra ou então com movimentaçōes que melhor aproveitassem os jogadores que eventualmente fossem os alvos mais faceis pra defesa do Spurs. E achei que Spolestra fez um bom trabalho: Jogadores menos eficientes de longe começaram a ocupar mais a zona morta, deixando os mais mortais Ray Allen e Mike Miller ocupando as regioes menos eficientes de bolas longas. Muitas vezes, tambem, jogadores como Norris Cole começavam a se movimentar assim que a defesa afrouxava ao invés de esperar um passe, tornando a defesa mais desconfortável e muitas vezes forçando uma nova movimentação defensiva que tirava o Spurs do seu conforto original. 

A segunda que chamou minha atenção foi como ele tentou maximizar Dwyane Wade em quadra. Ao invés de deixar Wade andando perto do perímetro oferecendo um alvo fácil pra uma dobra, Wade começou a se movimentar mais perto da cesta quando estava sem a bola pra recebê-la em melhores condiçōes de finalizar imediatamente, evitando assim que o Spurs pudesse abandoná-lo defensivamente. Ainda que isso comprometesse um pouco o espaçamento que o Heat mais gosta, SPolestra sabia que tirar Wade não era uma opção e portanto tinha que fazer algo pra envolvê-lo melhor nas açōes do jogo, e foi o que ele fez. Wade é muito bom cortando sem a bola e funciona muito bem como um alvo móvel pra Lebron - o que funcionou bem no primeiro quarto de ontem, inclusive. Resta ver se ele vai ter energia pra fazer isso o jogo inteiro - não tem conseguido manter no segundo tempo.

Mas de novo, não acho que forma os ajustes de Spolestra que decidiram o Jogo 2. Eles ajudaram, tornaram o Heat mais eficiente ofensivamente (como se espera que aconteça), claro, mas pra mim o Jogo 2 foi decidido - assim como o Jogo 1 - em execução. O Heat começou a executar melhor suas jogadas, as bolas começaram a cair, San Antonio não conseguiu responder e as bolas pararam de cair (e eles tiveram bons arremessos pra estancar o sangramento que simplesmente não cairam) e Miami aproveitou pra sacramentar a vitória. Isso acontece no basquete e especialmente com um time como Miami, que vive muito dessas 9-0 runs.


Ajustes técnicos: San Antonio

Mas acho que isso foi suficiente pra Popovich decidir que podia ser arriscado continuar jogando de forma conservadora contra Miami. E também teve algo mais: Como eu escrevi também, o ataque do Spurs entrou na série respeitando a defesa de Miami e fez alguns ajustes pra evitar os grandes passes e as jogadas em alta velocidade com medo de que o atleticismo de Miami causasse turnovers e pontos fáceis em contra ataque. Mas o que Popovich percebeu foi que Miami estava muito mais problemas defensivos contra o ataque complicado de San Antonio do que ele esperava, e que ele podia explorar isso.

O que acontece é o seguinte: O ataque do Spurs é muito mais complexo do que um ataque comum de NBA, não pela complexidade das jogadas em si, mas porque ele inclui um sem-número de pequenas variaçōes, twists e improvisaçōes que fazem com que uma defesa tenha muito trabalho. Preste atenção nas screens que os big men de San Antonio fazem: As vezes elas são simples e diretas, outras elas envolvem duas screen seguidas em lados diferentes, outras são apenas falsas pra induzir a movimentação do armador, outras parecem ser falsas mas mudam de lugar no ultimo segundo... É uma infinidade de opçōes, nenhum ataque é melhor usando esses tweeks pra confundir os adversarios, e enquanto isso acontece com o ball handler, tem outras dezenas de screens acontecendo atrás deles pra mudar marcaçōes, abrir espaço e simplesmente causar confusão na defesa. É muito dificil defender isso eficientemente e precisa de uma defesa que esteja muito entrosada.

E o que aconteceu foi que o Miami começou a cair muito nessas movimentaçōes. Erros de comunicação, jogadores ficando perdidos no meio de tantas screens, ajudas vindo dos lugares errados nas horas erradas (e tambem simplesmente boa execução do Spurs) e basicamente Popovich percebeu que, quando o Spurs usava mais agressivamente esse tipo de jogada, a defesa de Miami estava quebrando com muita facilidade e não oferecendo o risco que ele esperava antes da série, gerando jogadores livres - em parte porque Miami esta tendo que mudar muito suas lineups de costume, em parte porque Mike Miller (que jogou muito pouco o ano) só agora começou a ganhar mais minutos junto dessas lineups e ele esta muito mais perdido do que se esperava defensivamente (especialmente em comparação a Battier), em parte por outro motivo que vou comentar mais tarde. Mas o Spurs, dessa vez, decidiu voltar ao seu estilo original de movimentação agressiva, passes rapidos e alta velocidade no ataque, e o resultado foi espetacular: San Antonio achou jogadores livres a noite toda, impos seu estilo de jogo, conseguiu bolas livres nos jogadores certos e basicamente fez Miami parecer o Bobcats defensivamente correndo atrás de jogadores que estavam sempre um passo à frente. Depois de conseguir apenas 16 assistencias em cada um dos dois primeiros jogos das Finais, San Antonio conseguiu 29 só no Jogo 3, e fez isso como se sente confortável: Rodando a bola, jogando em velocidade e arremessando de três. San Antonio perebeu a fragilidade defensiva que Miami estava mostrando, decidiu voltar a ser agressivo, e o resultado foi um massacre.

E pra mim essa foi a primeira vez, em toda a série, que eu achei que um time se mostrou superior ao outro: O ataque de San Antonio simplesmente deixou a defesa de Miami perdida, impôs seu estilo de jogo e abusou dos erros da equipe visitante. Pro Jogo 4, San Antonio provavelmente vai continuar explorando isso se a saúde de Tony Parker permitir, e Miami vai ter que melhorar defensivamente se quiser virar essa série.


Liçōes de Junho

Esse é um ponto importante que todo mundo lembra em Junho e esquece entre Agosto e Maio só pra ser lembrado em Junho de novo: Role Players IMPORTAM. Você não ganha as Finais com três jogadores: Você precisa de pelo menos oito, e precisa de jogos aleatórios de caras como Gary Neal pra continuar ganhando. Miami esqueceu isso em 2011 e perdeu pra um time de Dallas que teve contribuiçōes pontuais de jogadores como DeShawn Stevenson, Brian Cardinal e Ian Manhimi. Lembram do Jogo 6? Quando Miami embalou uma sequencia e tirou a diferença do placar, foi Brian Cardinal que fez uma excelente jogada pra criar um 3pt de Dirk Nowitzki, e foi Cardinal que na jogada seguinte cavou uma falta ofensiva importante em Wade. No final do terceiro quarto, foi Ian Manhimi quem pegou um importante rebote ofensivo e acertou um turnaround jumper at the buzzer. Você precisa de 9 jogadores pra ganhar um título, é simples assim.

Todas Finais parece que somos lembrados disso. Em 2011, Miami ignorou isso e perdeu as Finais porque Dallas teve ajuda de caras como Cardinal e Stevenson. Em 2012, Miami lembrou disso e foi campeão porque Shane Battier e Mike Miller tiveram grandes momentos nos playoffs e nas Finais. Em 2013, em três jogos já tivemos Mario Chalmers decidindo o Jogo 2 e Gary Neal e Miller duelando em bolas de longe no Jogo 3. É sempre assim: Quando a atenção começa a concentrar nas estrelas, você precisa que esses caras apareçam. É sempre assim, e sempre esquecemos isso assim que as Finais passam.


Danny Green

Eu não inclui Green ali porque acho que Green é melhor que isso. Na verdade, eu sou muito fã do Danny Green, acho ele não só um excelente role player, como também acho ele o jogador perfeito pra NBA moderna.

Na NBA atual, as três maiores comodidades que um time pode ter são as seguintes, em ordem: 

a) Um superstar (Lebron, Paul, Melo, Durant, etc)
b) Um big man capaz de causar impacto dos dois lados da quadra (Pense Marc Gasol ou Roy Hibbert)
c) Um jogador de perímetro que chute de três, defenda bem e ganhe pouco, o chamado DTA (Defense, threes, athleticism). Pense Green, Jimmy Butler ou Chandler Parsons.

Numa NBA com salary cap cada vez mais pressionando e onde o slash-and-kick ta virando cada vez mais a norma, um ala como Green (4M por ano de salario) capaz de acertar bolas de três, defender em alto nivel (ano passado nos playoffs ele marcou/engoliu Chris Paul, e tem marcado brilhantemente Wade e ate mesmo Lebron nas Finais), tomar boas decisōes e simplesmente executar multiplas funçōes em quadra é uma comodidade importantíssima pra qualquer time ter. E pra variar, foi o Spurs quem conseguiu achar o cara: Ele foi dispensado pelos Cavs, depois pelo próprio Spurs antes de receber uma segunda chance. 12 meses depois ele estava destruindo Chris Paul nos playoffs, 24 meses depois sendo o melhor jogador num jogo com Tim Duncan, Lebron James, Dwyane Wade e Tony Parker. Sensacional.


Tim Duncan

Sabe uma das minhas coisas favoritas sobre Tim Duncan? Eu assisto ele jogar a 10 anos. E mesmo que sua cara nunca mude, eu já atingi com ele aquele nivel de familiaridade que eu sei dizer exatamente que tipo de jogo ele está tendo, como ele está focado, que tipo de jogo ele quer ter. Não me pergunte como eu sei, são as pequenas coisas que você só adquire depois de passar anos e anos assistindo a um jogador como Duncan. Essa familiaridade é uma das minhas coisas favoritas sobre basquete.

E ontem ele estava em modo "De jeito nenhum nós vamos perder hoje!". Deu pra perceber isso com cinco minutos de jogo: Ele estava pulando em toda loose ball, estava batalhando em todos os rebotes, estava correndo pra cima e pra baixo, indo em todas as divididas no aro e assumindo a responsabilidade toda vez que o ataque estagnava. Eu sempre disse isso, mas Tim Duncan é um dos jogadores mais inteligentes da história da NBA, e ele sempre soube perfeitamente ler uma situação e saber exatamente o que ele tem que fazer. As vezes ele sabe que o time precisa que ele domine os rebotes; as vezes sabe que precisa que ele marque 35 pontos; e as vezes ele sabe que o time só precisa que ele proteja o aro, rode a bola, pegue rebotes, faça screens e deixe o resto pros seus companheiros. Ontem, Duncan entrou pra controlar o jogo, e ele o fez: Ele destruiu Miami perto do aro, atacou Chris Bosh e principalmente missmatches com velocidade, dominou os rebotes ofensivos, foi brilhante defensivamente e se esforçou mais que qualquer outro jogador. Ele estava mandando no jogo quando o Spurs começou a acertar bola de três atrás de bola de três e o resto foi história.

E aqui é onde Duncan acaba sendo injustiçado. Pessoas vão olhar pros seus numeros (12-14 em 29 minutos) e assumir que Duncan foi pouco importante pra vitória de San Antonio, que veio às custas dos seus arremessadores. E estarão errados: Duncan foi muito importante. Claro, Green e Neal foram os jogadores que definiram a partida a favor do Spurs, não estou discutindo isso. Mas tou discutindo o impacto que Duncan teve e não aparece nos números: Ele começou o jogo jantando Miami no garrafão, punindo trocas, jogando de costas pra cesta e atacando o aro com bastante fúria, o que fez Miami começar a prestar mais atenção no garrafão e aproximar sua defesa pra fechar em Duncan.. O que acabou abrindo espaço no perímetro pra Gary Neal e que deu ao Spurs mais espaço pra movimentar a bola. Quando Duncan percebeu que a movimentação de bola e os arremessadores estavam funcionando, Duncan mudou seu foco em quadra: Ao invés de pontuar e controlar o jogo, esse bom momento da equipe o liberou pra fazer outras coisas: Proteger o aro como ninguém, dominar os rebotes (especialmente ofensivos), achar companheiros livres, rodar a bola pro lugar certo na hora certa, fazer screens e em geral assumir o papel que melhor servia pro jogo do time no momento. Mas sempre com aquela singular intensidade pertencente a ele e só ele, aquele "Não vou deixar a gente perder de jeito nenhum!" silencioso, se manifestando menos em gritos e caras e sim em linguagem corporal e na forma como ele se jogava em toda bola, ganhava todo box out e 50-50 ball. Ele faz o jogo ser mais facil pra seus companheiros, e embora isso não apareça no box score, faz toda a diferença. Vou sentir falta de ver Tim Duncan jogar.

Oh yeah, ele também fez isso aqui. Todo mundo esquece de mencionar isso quando fala de Timmy, mas depois de Wes Unseld, Bill Russell e Bill Walton, ele é provavelmente o melhor outlet passer da história da NBA.




O que acontece com Lebron James?

Por mais que eu não queira exagerar nesse ponto - um ponto exagerado por si só já que Lebron é um monstro e tal - um fato fica: Lebron não tem sido o mesmo nessas Finais. Pros seus padrōes absurdamente altos, é claro, mas Lebron não tem jogado particularmente bem nessas finais tirando por uns 10 minutos do Jogo 2: Ele não está atacando o aro com a frequencia de costume, não está cavando faltas (apenas 6 FTs em tres jogos, inclusive nenhum no Jogo 3), e tem arremessado muito mais do que atacado a cesta. Ainda que seus passes continuem bons como sempre, ele simplesmente não tem sido tão eficiente e dominante como estamos acostumados, vindo da sua melhor temporada regular e de uma impressionante série contra o Pacers. E não me baseio em box scores: Estou me baseando em números e no que estou vendo, sua linguagem corporal e dificuldade pra atacar a cesta. Então sem querer exagerar nesse ponto, mas o que tem de errado com Lebron James?

Antes de eu dar minha opinião sobre o que está acontecendo, eu queria fazer um pequeno retrocesso sobre Lebron, desde 2011 até hoje. A questão é que, com Lebron falhando ao dominar as Finais desse ano (até aqui, claro), muitas comparaçōes com o patético Lebron das Finais de 2011 estão surgindo, algumas delas sérias. E eu acho essa comparação injusta, simplesmente porque a) Esse Lebron está muito melhor do que aquele; b) os motivos são totalmente diferentes. Mas pra deixar esse ponto em claro, vamos voltar a 2011 pra explicar o que mudou em relação a Lebron, e porque eu acho que são duas situaçōes totalmente diferentes.

Volte comigo para 2011. Miami acabou de massacrar Chicago, com grandes atuaçōes de Lebron contra o MVP Derrick Rose, e chegava nas Finais com status de franco favorito contra um time de Dallas que contava com apenas um All-Star (Dirk). Parecia uma questão de tempo até o Big Three de Miami conquistar seu primeiro título. E ai... Não aconteceu. Wade elevou seu nível, Lebron não fez o mesmo, e Dallas aproveitou isso pra roubar um Jogo 2 crucial (com Dirk sendo o melhor jogador em quadra de longe) e depois levar três seguidas (4, 5 e 6 os jogos) pra seu primeiro título. Enquanto isso acontecia, a história que chamou a atenção de muita gente era o 2-time MVP e suposto melhor jogador da NBA desaparecendo completamente de ação e deixando Wade jogando sozinho. Não foi apenas que Lebron estava jogando como sempre e apenas errando mais: Lebron não parecia o mesmo. Ele parou de atacar o aro, começou a arremessar muito mais de fora (onde não era confiável), se recusava a atacar marcadores como Stevenson e JJ Barea e as vezes, quando a bola caia nas suas mãos, ele sequer ameaçava uma jogada, fazendo um passe rapido pra quem estivesse perto como se estivesse jogando batata quente. Ele parecia uma criança procurando um metodo de se esconder em quadra. Dallas foi campeão, Dirk MVP, e Lebron recebeu (merecidamente) boa parte da culpa pela derrota.

O que aconteceu com Lebron? Bom, primeiro temos que dar crédito ao Dallas: Shawn Marion fez uma brilhante marcação e a defesa de Dallas (em especial Tyson Chandler) certamente teve a ver com isso, fizeram um bom trabalho. Mas não justifica o nível de passividade de Lebron e sua incapacidade de fazer estrago na série com todo seu talento. Pra mim, o que aconteceu foi simples: Psicologicamente, Lebron simplesmente quebrou. Ele simplesmente não estava pronto pra todo aquele nível de ódio e perseguição - maior do que qualquer jogador da NBA já sofreu na era da internet - e toda a pressão pra ganhar aquele título foi demais pra ele. Ele acabou assumindo um papel de vilão - que a mídia e a internet forçaram pra cima dele - que não era o dele e ficou realmente desconfortável, jogando pra mostrar algo pros outros ao invés de jogar pra si mesmo e pro time. Miami jogou a temporada inteira com mais atenção da mídia e mais pressão do que qualquer time. E eu acredito que essa pressão, nervosismo e constante exposição quebraram Lebron chegando nas Finais: Isso tudo acabou sendo maior do que Lebron - um garoto-prodígio que sempre teve tudo muito fácil desde pequeno - estava preparado para aguentar.

Vamos agora para 2012. Depois de abandonar sua identidade de "Vilão" e voltar a jogar basquete como gostava e não como queriam que ele jogasse (escrevi um post inteiro sobre isso apos as Finais de 2012), Lebron assumiu o comando do Heat e liderou a equipe aos playoffs. Mas depois de alguns desencontros, Miami se encontrou novamente e uma situação de extremo desconforto: Perdendo de 3-2 a série contra Boston, Miami tinha que ganhar o Jogo 6 contra um excelente time fora de casa depois de ter sido inferior em boa parte dos outros jogos. Vocês conseguem entender o que estava em jogo aqui pra Lebron? Se Miami perde aquele jogo, eis o que acontece: Lebron ia ser ainda mais questionado como um jogador incapaz de ganhar nada; a era Big Three em Miami seria oficialmente um dos maiores fiascos da história da NBA; pelo menos um dos três de Miami seria trocado (possivelmente uma troca Lebron-por-Dwight que prenderia James num fraco Orlando por tres anos); e o legado de Lebron seria pra sempre questionado. Eu não consigo lembrar, de cabeça, de um jogador do nível de Lebron que tenha enfrentado um só jogo com tanta coisa em jogo e tanta pressão. 

Vocês sabem o que vem depois: Lebron entrou em quadra com uma mistura de "Não vou deixar a gente perder!" e "Se for pra cairmos fora, vou cair fora do meu jeito, fazendo tudo que eu posso!", acertou arremesso atrás de arremesso, terminou o primeiro tempo com 30 pontos e fez praticamente tudo que era humanamente possível fazer pra ganhar um jogo. Foi uma das melhores performances da história dos playoffs num momento crucial da carreira de James. Olha, eu sou torcedor do Celtics e lembro de assistir aquele jogo tentando me enforcar com uma gravata, mas chegou um ponto onde eu simplesmente senti uma estranha aceitação, um conformismo perante um poder maior contra o qual não há o que fazer. Lembro de ter pensado "Holy crap, Lebron finalmente entendeu o quão bom ele pode ser, estamos todos ferrados!"... E eu estava certo. Duas semanas depois Lebron conquistou seu primeiro título em Oklahoma City terminando uma das melhores séries que eu vi um jogador jogar na minha vida.

Por isso eu não aceito e acho injustos os paralelos entre as Finais de Lebron 2011 e Lebron 2013. Lebron 11' quebrou psicologicamente diante da pressão, mas em 2012 Lebron teve um dos melhores jogos da historia da NBA justamente no momento de maior pressão da sua carreira! Sendo assim, e já tendo um primeiro título pra tirar a pressão, eu não creio que Lebron esteja cedendo psicologicamente mais uma vez ou que a pressão esteja sendo demais pra ele. Creio que o motivo é outro.

Claro que não estou falando que não exista pressão pra cima de Lebron e que esse nervosismo não esteja tendo nenhum efeito. Só que não acho que seja da mesma forma que 2011. O que eu acho que acontece em 2012 era o seguinte: Miami se reinventou em 2013 como um ataque devastador, baseado em muita movimentação, passes rapidos, espaçamento de quadra e bolas de três pontos. Era um ataque que abria espaços, transformava defesas em cobertores curtos e aproveitava o talento astronômico de Lebron James pra destruir quem estivesse pela frente. Eu via Lebron pontuando e parecia fácil: Ele se aproveitava de espaços, missmatches e bons passes pra pontuar como queria. Mesmo nas duas primeiras rodadas dos playoffs parecia ser o caso. Até que chegou a série contra o Pacers e tudo mudou: Bosh torceu o tornozelo e perdeu muita de sua eficiência, e Wade parecia incapaz de ser a força que mantinha defesas honestas. Battier saiu e Miami começou a ter que reinventar todo seu ataque e suas formaçōes no meio de uma série extremamente dificil contra Indiana. E a solução do Miami foi voltar seu ataque ao básico: Ao invés de uma serie de movimentos e passes calculados e inteligentes pra  abrir espaço, o Heat começou a contar com Lebron iniciando todas as jogadas e criando espaço pro ataque poder funcionar. Antes uma maquina que facilitava a vida dos jogadores, agora o ataque dependia totalmente de Lebron partir pra dentro, atacar a defesa, trombar no garrafão e fazer os passes certos pra seus companheiros. Nao era mais uma opção, era algo que começou a ser a unica alternativa do Heat em muitos momentos, e posse após posse, jogo após jogo, lá ia Lebron atacar Paul George ou Lance Stephenson, absorver contato de David West e Hibbert pra poder fazer o ataque funcionar.

E eu me pergunto se, depois de sete jogos extremamente físicos contra uma excelente defesa do Pacers tendo que criar e começar todo o ataque da equipe e ainda defender George do outro lado, se Lebron está fisicamente cansado. Eu vejo Lebron, nas Finais, um pouco mais lento que de costume: Não está sendo tão agressivo atacando a cesta e absorvendo contato; não está fazendo sua jogada patenteada de pegar um rebote na defesa, ligar o turbo e atravessar a quadra pra uma cesta; está arremessando mais e de forma mais relutante. A impressão que me passa, realmente, é que ele está cansado fisicamente depois da série contra o Pacers, sem ajuda de Wade e Bosh e de ter que levar o time nas costas por tanto tempo. O Jogo 3 foi um exemplo disso: Lebron começou agressivo, atacando, posting up e usando sua boa visão de jogo do post pra conseguir cestas fáceis. Conforme o jogo foi passando, Lebron parou de atacar tanto a cesta, e o Spurs percebeu, marcando ele a distância e desafiando ele a chutar. E ele obedeceu, errando arremesso atrás de arremesso. Mas o problema não são os arremessos, e sim a dificuldade dele de ir pra cima e achar espaço no garrafão. Ele arremessou como quem sabe que não é a melhor jogada, mas como alguém que não consegue fazer algo diferente. E ele sabe que, mesmo acertando arremessos livres, eles não são nem de longe tão eficientes quanto um ataque a cesta: Lebron acertou excelentes 46% de mid-range jumpers ao longo da temporada, mas pra alguém que acertava quase 70% dos seus arremessos perto do aro, é uma vantagem pra defesa se ele se resignar a esses jumpers. Além disso, tem outro fator: Jumpers de Lebron - especialmente enquanto o Spurs tiver convidando ele a arremessar e controlando os rebotes - não cria chances pros seus companheiros e não movimenta a defesa de San Antonio, não gera assistências nem cansa o Spurs. Enquanto Lebron continuar arremessando apenas, o Spurs sai vencedor dessa disputa. E não foi apenas no ataque: Defensivamente, o Spurs aproveitou pra atacar James com muitas screens e movimentos fora de bola, repetidamente pegando Lebron fora de posição ou atrasado numa rotação, o que forçava missmatches ou cestas fáceis. 

De novo, essa é apenas minha opinião depois de treês jogos - Lebron pode chegar amanha, meter um 43-9-9 e estar totalmente bem e tudo isso ter sido a toa. Mas soó estou registrando as impressōes que Lebron está me passando até agora, um jogador que está tentando fazer seu time vencer mas que esta sendo limitado pela sua exaustão física. Com certeza a excelente defesa de Kawhi Leonard tem a ver com isso, com certeza a brilhante defesa de Popovich e do Spurs (tanto a parte que eu falei sexta como a que eu escrevi hoje) está tornando a vida dele mais difícil (especialmente com Wade ainda com dificuldades), mas você espera que ele consiga passar por cima disso de alguma forma. Ele só me parece fisicamente limitado (de novo, pros padrōes dele) depois de uma responsabilidade anormal em sete jogos extremamente físicos.


O que isso significa?

Na prática, nada: San Antonio abriu 2-1 na série e ainda precisa ganhar dois jogos pra ser campeão. Como o Jogo 2 nos mostrou, uma goleada pode nada significar pro jogo seguinte, e quem acha que o Miami jogou a toalha está muito enganado. Tem muita água pra rolar ainda nessa série e duvido muito que Miami aceite essa surra passivamente, e com certeza Spolestra vai ter seus ajustes pra tentar melhorar sua defesa.

That said, eu tenho alguns comentários a fazer. A primeira coisa que me ocorreu quando vi o placar do Jogo 2 e a grande diferença no placar foi "Ai que a experiência e maturidade de San Antonio vai fazer a diferença, eles vão saber lidar com isso, evitar o nervosismo e entender que esse jogo não influencia em nada no próximo". No final, eu estava certo a esse respeito: San Antonio manteve a cabeça no lugar e entrou no Jogo 3 com a mesma calma de sempre e jogou seu jogo sem se deixar influenciar. Agora que a situação se inverteu, estou curioso pra ver como o Heat vai lidar com a pressão da goleada. O Heat não é tão cascudo e experiente como o Spurs, e está num momento muito mais delicado e dificil. Além disso, como o meu amigo Mugen lembrou, o Spurs teve a "vantagem" de jogar em casa depois da goleada de Miami no Jogo 2, um luxo que Miami não vai ter pro Jogo 3. Também existe a questão da situação dos times: San Antonio sabia que tinha cumprido sua missão em Miami e que estava em vantagem na série indo pra casa, enquanto que Miami está em desvantagem e precisa da vitória pra não se colocar num buraco. Não estou falando que o Heat vai ser perder de nervosismo e tomar um 120-50 na cabeça, claro. Só vai ser interessante ver como o Heat lida com isso num momento de adversidade.

Outra coisa que eu acho um pouco mais preocupante pra Miami: Pela primeira vez na série, eu achei que um time se mostrou claramente superior ao outro. Nos dois primeiros jogos, eu achei que ambos foram equilibrados decididos nos detalhes, em uma boa sequência de execução, alguma sorte ou azar em bons arremessos ou bolas espirradas, e simplesmente momentos que um time soube aproveitar melhor. Mas nos dois jogos eu achei que nenhum time se impôs sobre o outro, ambos os times souberam fazer o outro desconfortável e o jogo foi decidido em outras coisas. No Jogo 3 foi diferente: O Spurs impôs seu jogo sobre o Miami. Tanto ofensiva como defensivamente, Miami jogou o jogo do Spurs e foi vencido nele. Eu não digo isso apenas pelo placar, e sim porque se você pegar os lances importantes do jogo, o Spurs parecia estar sempre no controle dos dois lados da quadra. E mesmo que o Spurs tenha aberto essa vantagem graças aos absurdos de Green e Neal, Miami só se manteve no jogo porque Mike Miller chutou 5-5 de 3PT no primeiro tempo. Então se nos primeiros jogos foi uma questão de execução e bons momentos, o Jogo 3 foi um time impondo seu jogo sobre o outro e dominando dos dois lados. E o Heat vai ter que quebrar isso se quiser vencer o Jogo 4. Não estou dizendo que eeles não consigam ou que esse padrão do  Jogo 3 vai continuar sempre, mas é um wake-up call pra Miami: Mais um jogo assim e tudo pode ir pelo ralo.

Um ultimo pensamento: Eu sempre acreditei em basquete que grandes times conseguem sentir cheiro de sangue. Grandes times percebem quando um adversário está vulnerável e elevam seu nível de jogo pra fazer um statement, pra provar um ponto, pra arruinar a confiança do adversário pros proximos jogos ou próximos anos. Meu exemplo favorito: Celtics 86' contra Atlanta, Jogo 5, terceiro quarto: 36-6 no quarto, pontuado por uma 24-0 que até hoje é a maior dominação que eu vi (em video, mas whatever) na história dos playoffs. Mas voltando: Pra mim, ontem, o Spurs sentiu cheiro de sangue. Eu não acho que isso vá ter impacto mais pra frente além do que eu jaá disse ali em cima sobre como o Heat vai lidar com isso, mas eu sempre gosto de ver acontecendo. Se o Heat provou um ponto no Jogo 2, o Spurs devolveu com juros e correção.

E que venha o Jogo 4!!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Pseudo-preview/post-view (?) do Jogo 1 das Finais

Ja foi um, faltam três


Quando Miami terminou sua surra pra cima do Pacers no Jogo 7 das Finais do Leste, eu pensei em dois textos diferentes pra fazer durante essa semana. O primeiro era sobre o próprio Pacers e o caminho duro que trilharam pra chegar à relevância de novo na NBA, porque esse time ainda enfrenta muita desconfiança dentro mesmo de Indiana, e porque, embora promissor, seja errado -ou pelo menos precipitado -  projetar muita grandeza no futuro desse time. Essa era minha primeira ideia.

Eu acabei descartando essa ideia por um simples motivo: Já me falta tempo, as Finais são mais importantes, e eu sempre posso fazer meu texto sobre o Pacers na offseason. Então o ideal era me dedicar a um preview Spurs-Miami dividido em varios pontos e com um palpite no final. Mas o tempo apertou, passei quinta feira me dedicando a assuntos - e uma pessoa - mais importantes, e acabou não saindo a tempo nosso preview. Então como o Jogo 1 já passou, vou mudar um pouco a ideia: Vamos pegar alguns aspectos que chamaram minha atenção no Jogo 1, analisá-los, e ver a importancia disso pro resto da série. Entao ao mesmo tempo analisamos o jogo 1 e fazemos um preview do resto da serie. Faz sentido? Não? Bom, vamos tentar mesmo assim.


Pop, o gênio estatístico

Eu sempre defendi isso e vou defender mais uma vez: Quando estamos falando de uma posse de bola, basquete é um jogo de probabilidades. É impossível, contra um bom ataque, forçar 24s violations ou turnovers toda posse de bola: O adversário vai conseguir um monte de bons arremessos e você tem que lidar com isso. A questão é que uma boa defesa sabe lidar com as probabilidades: Eles sabem que um arremesso de meia distância do Dwyane Wade é melhor do que uma bola de três da zona morta do Ray Allen, por exemplo. As boas defesas sabem direcionar os arremessos do advesário para onde eles são menos eficientes e aumentar o foco da defesa aonde eles arremessam com maior eficiência. 

Greg Popovich entende isso melhor do que qualquer técnico da NBA. Se voce assistiu a varrida do Spurs contra o forte Grizzlies, provavelmente viu Pop dando uma amostra disso: A defesa do Spurs consistiu principalmente em ignorar Tony Allen e Tyshaun Prince pra dificultar o passe pra Marc Gasol e Zach Randolph e dificultar a movimentação de ambos. Allen e Prince não eram ameaças em arremessos, e se alguns jumpers livres pra ambos era o preço a pagar pra tirar o low-post game do Grizzlies, Pop estava mais satisfeito em pagar esse preço. Por esse motivo o Grizzlies foi perigoso quando colocou Pondexter, um bom arremessador de três que forçava um marcador do Spurs a sempre estar atento a ele na zona morta. Ainda que não fosse defendido como Ray Allen, essa atenção extra a Pondexter abriu um pouco de espaço a mais no garrafão e o Grizzlies jogou como gostava.

Até agora, o Spurs está fazendo mais do mesmo. O time mais inteligente da NBA sabe perfeitamente que deixar Ray Allen livre na linha de três é perigoso mas que deixar, digamos, Chris Bosh é aceitavel se é para defender Lebron James perto do aro. O Spurs esteve muito satisfeito dando a Wade e até mesmo Mario Chalmers espaço pra arremessos de média e longa distância, sabendo que mesmo que eles acertassem alguns desses arremessos, cada posse de bola de Miami que terminasse assim era uma vitória. Enquanto os coadjuvantes do Miami não fizerem o Spurs pagar - seja por melhor posicionamento, jogadas mais inteligentes ou lineups diferentes - San Antonio vai continuar fazendo a mesma coisa. Mais nisso daqui a pouco.


Defendendo Lebron James

Uma coisa que eu sempre acho muito interessante nos playoffs é como os times se preparam defensivamente pra parar jogadores como Lebron ou Kevin Durant. Ao contrário da temporada regular, onde o tempo de preparação pra cada adversário é muito menor, nos playoffs você tem muito mais tempo para preparar multiplos jogos contra um mesmo adversário. E é ai que as estratégias ficam mais interessantes e podemos ver como cada time se vira com o que tem nas mãos. O Pacers, por exemplo, confiou na defesa mano-a-mano de Paul George e na simples ajuda de Roy Hibbert atrás protegendo o aro. 

Ainda que Tim Duncan seja um brilhante defensor, entendendo perfeitamente espaçamento, movimentaçōes ofensivas e defensivas e tendo um  QI maior que o time inteiro do Kings junto, Duncan não é mais a máquina de tocos de braços enormes que é Hibbert, e Duncan é mais eficiente bloqueando  seu próprio jogador do que voando numa help defense. Por isso, o Spurs decidiu não usar a mesma tática que usou o Pacers e mudou um pouco sua estratégia: Quando Lebron ia pra cima de Kawhi Leonard, o Spurs abandonava alguns jogadores do Miami (que, como ditos acima, são os que ofereciam menos risco cmo arremessadores) pra fechar o garrafão e colocar simplesmente jogadores no caminho entre James e a cesta, obrigando o ala do Miami a passar por não um, mas dois ou três jogadores no caminho até a cesta. Isso lembrou um pouco o que o Celtics fez em 2010 contra o Cavs de Lebron, colocando sempre um jogador atrás do marcador de Lebron mas tendo sempre um terceiro jogador pronto pra vir ajudar em velocidade e congestionando o espaço pra forçar Lebron a passar a bola ao invés de buscar a cesta.

E foi assim que o Spurs fez Lebron jogar como o que muitas pessoas estão chamando (erroneamente, a meu ver) de passivo. A ideia do Spurs desde o começo era forçar Lebron ao passe, e foi o que ele fez. Foi assim que ele terminou com 9 assistências em três quartos e um triple double, mas também foi assim que o Spurs limitou ele a 18 pontos e 44% de aproveitamento. E ai que se manifesta o brilhantismo do Spurs: Eles sabiam perfeitamente onde ajudar pra cima de Lebron. NUNCA quem ajudou a fechar o garrafão foi o marcador de alguem como Ray Allen ou Mike Miller, e sim quem estava em Wade, Chalmers, Norris Cole ou Bosh. É muito simples no papel, identificar o arremessador menos perigoso e usar seu jogador pra adicionar um corpo a mais no caminho de Lebron, mas extremamente dificil pra um time sincronizar isso em alta velocidade, fazer o reconhecimento, enviar a ajuda na hora certa e, quando necessário, rodar a defesa em volta disso. Lembro de um lance no terceiro quarto onde Lebron foi pra cesta e o defensor mais perto e apto de ajudar no garrafão era Danny Green, estacionado em um arremessador de três (nao lembro se Ray ou Miller) na zona morta. O que o Spurs fez foi brilhantemente sincronizado: Green deslizou para o garrafão pra entrar no caminho de Lebron enquanto Gary Neal, marcando um armador (acho que Cole) no topo do arco, correu pra zona morta, cobrindo assim a melhor opção de passe. É o tipo de jogada extremamente dificil de se fazer, que exige inteligencia, pensamento rapido e um entrosamento fora do comum, mas que o Spurs fez varias vezes ontem a noite.

E foi assim que o Spurs decidiu que ia marcar o melhor jogador do mundo. Kawhi fez um trabalho brilhante na marcação individualmente, mas sempre que James conseguia um espaço, o que ele via entre a cesta e ele eram mais corpos e mais braços atacando a bola e dificultando sua vida. Lebron sempre foi um passador excepcional e achou muitos bons companheiros nessa jogada, mas as opçōes de passe sempre eram as menos eficientes possíveis. E chegou em um ponto no quarto periodo que a defesa simplesmente entrou na cabeça de Lebron: Ele ja atacava pensando no passe e esperando esse momento, muitas vezes apressando um passe quando a defesa inteligentemente limitou a ajuda. Isso resultou em algumas cestas de Lebron mas também em passes apressados que pegaram a defesa já montada, algumas vezes resultando em turnovers. Ao invés de apostar na capacidade do Lebron de bater sua defesa com bons e dificeis passes, eles assumiram a capacidade dele de fazer isso e focaram em oferecer a ele as piores opçōes possiveis. Algumas cestas livres são o resultado inevitável dessa estratégia, especialmente nos momentos que o Heat cercar Lebron de um maior numero de opçōes de longa distância, mas o Spurs está satisfeitissimo cedendo essas cestas pra podar o caminho do melhor jogador no planeta. E ai chegamos ao terceiro ponto desse tema...


O elefante na sala de Miami



Por favor prestem atenção ao GIF acima da fatítida bola de três que o Bosh errou nos minutos decisivos da partida de ontem. Prestem atenção nessa sequência: Lebron atacando a cesta atrai Duncan (no garrafão) e seu marcador original (Leonard) quando percebe a dificuldade da cesta que vai ter que fazer com Duncan fechando seu caminho e os longos braços de Leonard o atacando pelas costas. Assim, ele faz um passe perfeito pro jogador que Duncan abandonou completamente, Bosh, na linha de três. Bosh arremessa sem NENHUM jogador do Spurs sequer chegar perto dele pra incomodar seu arremesso.

Repare agora em outra coisa. Primeiro, que Duncan abandona totalmente Bosh - ele não pensa duas vezes antes de atacar Lebron e nem sequer faz menção de retornar a Bosh uma vez que o passe é feito. Igualmente, Leonard não tenta rodar pra cima de Bosh mesmo com Duncan indo defender seu marcado original, ao invés disso continua indo até James pra incomodar um possível arremesso. E quando a bola está no ar, Danny Green (no canto direito, marcando Mike Miller) nunca abandona seu jogador pra tentar incomodar o arremesso de Bosh (e oferecendo a mais interessante opção de três pontos em Miller na zona morta), apenas ameaçando e logo voltando à posição incial. O resultado é uma bola de três totalmente livre.

Acreditem no seguinte: Isso não foi um erro da defesa ou um exagero de Leonard e Duncan tentando defender James - foi um abandono totalmente calculado. Não acreditam? Então chequem esse shot chart de Chris Bosh feito pelo grande Kirk Goldsberry, do Grantland.

E eis o que o Spurs sabe: Bosh não arremessa bola de três daquele lugar específico da quadra. Nesses playoffs, ele está 6-14 em bolas de três da zona morta e um total fracasso no resto das bolas de três, e mesmo na temporada regular ele evitou arremessar bolas de três da wing. Popovich sabe disso com certeza e passou aos seus jogadores: Se precisar, abandonem Bosh na linha de 3 se não for na zona morta. De volta ao que eu disse sobre identificar as melhores oportunidades e viver com as chances a partir dai, Bosh ofereceu uma enorme chance de um arremesso errado daquela posição quando as outras opçōes (Lebron atacando o aro, Ray Allen e Miller livres pra uma bola de três) eram muito mais perigosas.

E eis onde eu quero chegar: Bosh está jogando muito mal ultimamente e sendo, pra muitos, o elefante na sala pro Miami. Apesar de não estar 100% fisicamente por causa de um tornozelo torcido, Bosh tem sido um jogador muito pouco eficiente: Tendo dificuldade pra atacar o aro vindo de fora do garrafão ou mesmo aproveitar suas chances perto do aro (onde foi extremamente eficiente durante toda a temporada, Bosh tem seu valor ainda mais limitado se não conseguir acertar seus arremessos de fora. Mas pior ainda, Bosh NUNCA deveria estar posicionado naquele lugar se a intenção era espaçar a quadra - ele devia estar na zona morta, onde ele ainda exige mais atenção, e deixando o melhor arremessador Mike Miller na posição menos eficiente de três pontos. Se Bosh não funcionar como arremessador de fora, especialmente se o Heat continuar deixando ele nas wings e não nos cantos, ele vai comprometer ainda mais o espaçamento do Miami e facilitar pro Spurs continuar descendo o sarrafo pra cima do Lebron no garrafão.

Mas por incrível que pareça, Bosh não tem sido o verdadeiro elefante na sala pro Miami. Esse tem sido Dwyane Wade. Se você acredita que Wade está machucado ou simplesmente envelhecendo e sentindo o peso dos anos levando pancada atrás de pancada no garrafão pelo seu estilo de jogo (escrevi isso dois anos atrás: Wade joga como Iverson, só que nunca foi a aberração física que Iverson era. Uma hora o corpo dele não vai aguentar), não importa enquanto ele continuar tendo jogos assim. Wade não consegue acertar bolas de três e tem tido cada vez mais dificuldades com arremessos longos de dois pontos, de tal forma que toda posse de bola de Miami que acabe assim é uma vitória pro adversário. Mesmo atacando a cesta - seu maior trunfo ao longo da carreira - Wade tem tido cada vez mais dificuldades, praticamente abandonando de vez seu bom post game e sofrendo pra finalizar por cima de help defenders. Se o suposto segundo melhor jogador do Miami vai marcar 17 pontos em 15 arremessos, com 2 rebotes e 2 assistências, 1 turnover e pessima defesa, essa série vai ficar muito mais dificil pro Heat vencer.

E isso vai além dos numeros. O Spurs já mostrou que está confortável ignorando jogadores no perímetro pra colocar jogadores no caminho de Lebron, e Wade, com sua incapacidade de acertar arremessos longos a essa altura, tem se tornado um alvo muito fácil. Ter Wade em quadra compromete ainda mais o espaçamento de quadra de Miami, e se ele não conseguir fazer o Spurs pagar por deixá-lo livre (seja acertando jumpers ou atacando a cesta em velocidade se aproveitando desses espaços) San Antonio vai estar muito feliz ignorando ele quando Lebron está com a bola. E além disso, Wade tem sido uma fraqueza em quase qualquer outra área do jogo: Ele não está pegando rebotes e tem sido muito mole boxing out jogadores (Leonard fez um put back crucial em cima dele no quarto periodo ontem), e mesmo que sempre tenha sido preguiçoso pra voltar na transição, Wade tem sido REALMENTE horrivel defensivamente fora da bola na meia quadra. Ontem, Pop usou Gary Neal por longos períodos em quadra (mais do que de costume) por dois motivos: Primeiro, porque ele podia usar Neal correndo através de picks e forçando Wade a acompanhá-lo, o que ele fez pessimamente gerando cestas fáceis ou trocas de marcação que favoreciam Spurs; e segundo porque ele estava confortável "escondendo" Neal em Wade defensivamente. Não foi uma coincidência que Wade terminou o jogo de ontem -11, a pior marca da partida. 

Em resumo, o que aconteceu foi que o Heat saiu de uma série contra um excelente time defensivo cuja defesa era ultra-agressiva nas ajudas - e o Heat demorou MUITO a se adaptar a isso - e agora caiu nas mãos de uma defesa que não tem o mesmo atleticismo e alcance defensivamente mas que compensa com um esquema ultra-inteligente, muito mais seletivo nas ajudas e que está expondo alguns jogadores de Miami. E o Heat, em espcial Wade e Bosh, tem que fazê-los pagar pra mudar isso e forçar San Antonio a respeitar mais seu espaçamento. Mas segurem essa idéia, vamos voltar a ela daqui a pouco.


Defendendo Tony Parker

O outro lado da quadra oferecia uma questão igualmente interessante: Como Miami ia defender Tony Parker, uma peste durante todos esses playoffs? Em termos de matchup, Miami não tinha alguém como Kawhi-em-Lebron pra manter na frente de Parker nesses playoffs. Chalmers é um bom defensor, mas não tem como acompanhar Parker com todos seus dribles e screens. A questão era se Spolestra ia inventar uma maneira diferente de manter Parker sob controle ou se iria manter a forma normal do Heat de defender esses jogadores.

E no final, Miami defendeu Parker exatamente como eu e muita gente esperava. A base da defesa de pick and roll de Miami é simples: Usar seus jogadores uber-atléticos pra "Trap" o armador encarregado da bola, ou seja, tanto o defensor do armador como o defensor do jogador que fez a screen pula pra frente dela e atacam juntos quem está com a bola em alta velocidade, enquanto um terceiro jogador da equipe desliza pro garrafão pra tirar a opção fácil de passe para o jogador que ficou livre no pick and roll. Com o enorme atleticismo e excelente defesa coletiva de Miami, a equipe em geral consegue executar esse esquema com grande sucesso - com o objetivo principal de forçar turnovers e atrapalhar o ritmo ofensivo da equipe - e ainda recuperar em tempo de evitar cestas fáceis. E foi basicamente o que o Heat fez ontem: Atacou agressivamente Parker no pick and roll e tentou usar seu enorme atleticismo e velocidade pra atrapalhar linhas de passe e forçar turnovers, ou pelo menos tirar o ritmo ofensivo de Miami.

Em geral, a segunda parte funcionou: O time de San Antonio não teve facilidade pra rodar a bola saindo das suas jogadas tradicionais, precisou gastar mais tempo do relógio pra reestabelecer seu ritmo e rodar a bola como gosta - o time pontuou bem, mas não no nível que estava acostumado na temporada regular e mesmo no resto dos playoffs (102.3 pontos por 100 posses de bola, uma marca bem próxima da média da NBA na temporada). Mas o Spurs estava preparado pra isso, sabia da preferência de Miami por essas blitz nos armadores e do perigo que o Heat oferece nos contra ataques, então mudou um pouco seu plano ofensivo: Ao invés do ataque super agressivo, o Spurs fez Tony Parker atacar menos a cesta e procurou rodar mais a bola, usando pequenos truques de direcionamento pra confundir a defesa de Miami antes dos pick and rolls e basicamente fazendo seus armadores correrem através de 305 picks antes de receberem a bola. O resultado foi que o Spurs conseguiu menos grandes aremessos que de costume (e mesmo assim conseguiu um bom numero de 3pts livres que não converteu) mas ganhou por muito a batalha dos turnovers, cometendo apenas quatro o jogo todo e nenhum deles de Tony Parker, menos agressivo em direção à cesta com um ataque um pouco mais conservador. Isso foi especialmente útil quando consideramos que os 4 turnovers do Spurs geraram 8 pontos pra Miami: San Antonio nao consegue acompanhar Lebron em transição e sua defesa em meia quadra tem feito um excelente trabalho, então esse ritmo mais lento favorece o Spurs por enquanto.

Outra coisa interessante que aconteceu foi ver Lebron em Parker no quarto periodo. Isso também já era esperado: Apesar de não ter sido tão bom defensivamente nesses playoffs como de costume (especialmente quando tentou marcar pivôs), Lebron ainda é um defensor muito bom e capaz de colocar muita pressão no ball handler, então se o jogo chegasse apertado no final, todos esperavam ver esse matchup. E foi o que aconteceu, com Parker levando a melhor no lance decisivo por uma fração de fração de segundos (apesar da ótima defesa de James). O problema é que não tem como Lebron marcar Parker por um jogo inteiro: Hoje, Miami depende muito mais de Lebron do que dependeu dele na temporada regular, e marcar Parker é um trabalho extremamente inglório: Significa que você vai ter que correr o tempo todo e pra todos os lados, passar por 349 screens, correr 5km todo jogo e não dar nenhum espaço pro mortal arremesso do francês. É um trabalho extremamente exaustivo e pode ter certeza que se Pop vir Lebron em Parker mais cedo na partida, vai chamar ainda mais screens e movimentaçōes pra cansar ainda mais seu marcador. E com Lebron esgotando suas energias na defesa, o ataque de Miami não vai conseguir ganhar nada, então essa é realmente uma opção apenas pra momentos criticos.

Outra coisa que o Spurs explorou pra evitar as dobras em Parker foi deixar o francês iniciar o ataque sem nenhuma screen, direto do drible, pra depois movimentar a bola ou chamar uma screen quando os jogadores já estavam em movimento e em velocidade, fazendo o "trap" do Miami muito mais dificil. Embora não seja a melhor estratégia em um vácuo, vai ser bem importante continuar usando essa tática contra Miami.

Em resumo, Miami pode não ter forçado os turnovers que gosta, mas conseguiu segurar o potente ataque de San Antonio a um patamar aceitavel. Ao mesmo tempo, San Antonio conseguiu uma boa pontuação contra uma otima defesa sem se complicar na transição. Basicamente, no duelo entre ataque de SA vs defesa de Miami no primeiro jogo, tivemos quase um empate. A questão é pra quem isso é uma vantagem: No primeiro jogo, isso foi uma vantagem pra San Antonio, que nao deixou o Heat conseguir pontos fáceis e conseguiu segurar a vitória. Se o ataque de Miami ajustar e conseguir melhorar sua pontuação, esse empate pode deixar de ser suficiente pra San Antonio, e Pop terá de ajustar.


Mudanças da temporada regular

Pra quem viu o Spurs jogando na temporada regular, provavelmente viu um time muito semelhante nos playoffs em termos de lineups, esquema de jogo e tudo mais. O time pouco mudou exceto em uma coisa: Os veteranos do Spurs sabem perfeitamente a diferença entre um jogo contra o Kings em janeiro e um Jogo 1 de Finais, sabendo quando poupar suas energias e quando ir all-out. Então nesses playoffs vemos mais Duncan, mais Parker e mais Manu Ginobili jogando com mais energia e de forma mais fisica, mas tirando isso, o Spurs é essencialmente o mesmo time da temporada regular.

O mesmo não pode ser dito de Miami. Depois de se reinventar esse ano de forma brilhante em torno de Lebron e sua nova identidade small ball baseada em movimentação de bola, bolas longas e um Behemoth que não pode ser marcado no mano a mano e que tem uma visão de jogo de armador (e mantendo a fortíssima defesa), Miami varreu a segunda metade da temporada e chegou aos playoffs voando. Desde então, em particular, a série de Indiana, as coisas não tem funcionado da mesma maneira. Miami tem tido produção muito inferior de Wade e Bosh, e isso tem sobrecarregado Lebron em excesso, o que dificulta pra Miami mover seu ala sem a bola já que ele tem que iniciar boa parte dos ataques da equipe.

Um ponto que passou de certa forma desapercebido, no entanto, mas foi extremamente crucial foi o desaparecimento de Shane Battier. Battier foi um elemento chave pra identidade small ball do Heat, um bom arremessador que permitia espaçamento de quadra ofensivamente com Lebron de Power Foward no ataque e que podia defender os melhores alas adversários na defesa e manter James descansado. De certa forma, Battier foi um termômetro do Heat nessa temporada: Quando ele estava acertando suas bolas de três, o Heat era imparável, a opção perfeita pra defesa E pro ataque de Miami pela sua excelente defesa e suas bolas longas, que permitia manter seu small ball funcionando dos dois lados da quadra. Mas nos playoffs, Battier não tem sido o mesmo. Talvez uma temporada inteira batalhando PFs maiores e mais fortes que ele (no small feat, só nos playoffs foram cinco jogos de Boozer e mais cinco de David West) tenha finalmente cobrado seu preço no corpo velho de Battier, incapaz de manter esse nível de fisicalidade por mais tempo. Talvez a idade esteja pesando. Não importa, o fato é que Battier era a pedra angular dessa nova identidade de Miami e agora que ele está incapaz de manter o ritmo, Miami teve que achar uma identidade totalmente nova: Usar um segundo big man como Haslem ou Birdman, que não oferecem o mesmo espaçamento de quadra, ou manter o small ball com Ray Allen, Miller ou Norris Cole, bons arremessadores que tiram muito do time em tamanho, inteligencia e defesa em relação ao cerebral Battier.

E essa necessidade de reinventar sua identidade sempre é péssimo chegando nos playoffs, especialmente se seu segundo melhor jogador está tendo sua pior pós-temporada da carreira e seu terceiro melhor jogador está com um tornozelo machucado. Eu não estou dizendo que o Heat não seja mais um bom time, que deva ser varrido pelo Spurs e que eles não tem a menor chance, nem de longe. O Heat ainda é um excelente time com um dos 10 melhores jogadores da história no seu auge, duas estrelas "coadjuvantes" que podem pegar fogo a qualquer hora e um bom elenco de apoio, capaz de se adaptar a diferentes estilos de jogo. O problema é que o Heat está tendo que se adaptar a isso em muito menos tempo do que um time normalmente teria, sem uma temporada regular ou offseason. Spolestra está tendo que mudar e improvisar suas lineups totalmente de improviso desde que Battier caiu fora, com Mike Miller jogando 3 minutos praticamente nos playoffs inteiros antes do Jogo 6 contra Indiana, desde quando já jogou quase 50 minutos. Eles ainda são um grande time com totais condiçōes de virar essa série e ganhar o título, mas eles não são nem de longe o time da temporada regular.

Um exemplo rápido: Pegue um vídeo do Miami executando posses ofensivas que dependiam do pick and roll durante a sequencia de 29 vitorias. Grande parte delas não envolvia apenas um pick and roll com jogadores estacionados ao redor: Envolvia algum missdirection, uma screen vinda em movimento ou por trás, jogadores cortando pra confundir a defesa e, em geral, muito movimento aliado a um otimo arsenal de jogadas com as quais os jogadores se sentiam muitos confortáveis. Ontem? O Heat parecia um time que tava tentando voltar ao básico, com PnR simples, poucos adicionais pra confundir a defesa e confiando mais no talento dos jogadores do que outra coisa. Parecia um time desconfortável taticamente.


Ajustes

Em jogos decididos por quatro pontos, nas Finais da NBA ainda, é dificilimo apontar um ou dois fatores que levaram a uma vitória ou uma derrota: Um arremesso dois centimetros pro lado, uma bola que esbarra um centimetro pro lado do dedo de um defensor, 0,00001 segundos pro Tony Parker soltar seu arremesso... E tudo poderia ser diferente. Então nunca se prenda a UM motivo pelo qual o jogo foi assim ou assado. That said, um dos motivos pelos quais eu acho que o Spurs se saiu vencedor foi o seguinte: O time entrou melhor preparado em quadra. O Heat entrou com seu esquema habitual e como veio jogando na série contra o Pacers, mas o Spurs - talvez pelo maior tempo pra treinar - entrou com pequenas mudanças no seu jogo que fizeram a equipe bater melhor de frente contra o estilo do Miami. É o tipo de série onde essas pequenas coisas podem fazer a diferença.

Eu realmente acho que esse Jogo 1 não vai exigir grandes ajustes dos técnicos: Foi um jogo extremamente equilibrado, decidido nos detalhes, e quaisquer ajustes pro Jogo 2 serão menores. Dos dois, eu acho que Pop tem mais motivos pra tranquilidade que Spolestra: Já tendo roubado um jogo em Miami, o Jogo 2 é mais crucial pra Miami que San Antonio, e eu achei que San Antonio conseguiu impor mais seu estilo ao jogo do que Miami - o time errou um monte de 3pts livres e ainda ganhou a partida. Mas Lebron não vai fazer 18 pontos todo jogo, vai ter mais momentos no garrafão, e tenho certeza que Pop sabe disso e não vai ficar parado. Se ele ganhou a partida de xadrez no Jogo 1, ele sabe que Spolestra vai contra atacar e eu acredito que ele terá um novo truque na manga se necessario.

Spolestra é quem tem mais trabalho aqui, pensando não no Jogo 2 mas nos jogos 3, 4, 5 e por ai vai. Embora não seja nada absurdo sugerir que Wade e Bosh podem simplesmente jogar melhor (dado todo seu talento) nos próximos jogos, Spolestra tem que achar uma forma melhor de integrar esses dois jogadores ao ataque. Wade, em particular, parece o mais dificil: Completamente perdido defensivamente e incapaz de arremessar, se Wade não começar a pontuar mais e fazer sua presença mais sentida em quadra o Heat vai se ver com um jogador onde Pop vai se sentir confortável escondendo um jogador fraco defensivamente como Gary Neal (como fez no Jogo 1 alguns momentos) e/ou usando seu marcador como ajuda em um ataque do Lebron. Espere que o Heat incorpore algumas jogadas desenhadas pra fazer Wade receber a bola mais perto da cesta, ou correr algumas screens pra receber passes em velocidade ou em matchups que ele possa explorar. Mesmo que ele não exploda pra 29-7-7 como nos velhos tempos, se ele conseguir marcar presença ofensivamente já vai forçar o Spurs a ajustar sua defesa.

O mesmo vale pra Bosh. Nos ultimos dois jogos, Spolestra tem feito algumas jogadas com o intuito de dar a bola a Bosh mais perto da cesta pra ele poder usar seu talento finalizando e seu bom jogo de costas pra cesta pra tentar alguns pontos fáceis, embora Bosh tenha desperdiçado um bom número dessas oportunidades. Talvez o tornozelo ainda esteja incomodando e continuará assim, mas se for o caso, Spo tem que fazer o máximo pra manter seu big man em quadra sem se tornar um alvo fácil pra defesa do Spurs como foi naquela jogada lá em cima, seja estacionando ele na zona morta quando for pra chutar de três, ou mesmo se resignando aos mais ineficientes (embora ele os acerte a um nivel espetacular) chutes de meia distância pra oferecer algum espaçamento maior de quadra. Sem Bosh e Wade funcionando efetivamente dos dois lados da quadra, especialmente no ataque, Heat terá problemas.

Mas acho que a chave pro Miami pro Jogo 2 em particular é não exagerar na reação ao anterior. O Jogo 1 foi muito apertado, Lebron não vai continuar marcando só 18 pontos por jogo e o Heat não teve uma partida ruim como um todo. O Heat foi muito bem com Ray Allen e Mike Miller em quadra e deve continuar usando formaçōes com um ou até os dois em quadra pra manter o espaçamento que eles tanto gostam e liberar Lebron pra ter mais espaço pra jogar. Nada no Jogo 1 indicou que o Spurs (ou, da mesma forma, o Heat) seja um time superior nesse momento, então é um erro exagerar nos "problemas" do Miami: Eles existem, eles jogaram muito competitivamente mesmo com eles, agora é uma questão de quem da o próximo passo na série e quem executa melhor.


Um ultimo pensamento sobre os jogos

Antes da série, meu palpite seria Heat em 6 ou 7. Em parte porque eu assisti muito Miami na temporada regular e acreditei que o Heat poderia seguir aquele padrão em um detalhe crucial: poderia ganhar alguns jogos mesmo com Lebron assumindo mais o papel de facilitador e sem ser obrigado a passar boa parte do jogo atacando repetidamente o aro pra fazer o ataque funcionar. Quantas vezes, na temporada regular, Lebron não terminou com algo como 25-10-9 com cada um dos seu pontos vindo dentro do ritmo do jogo, aproveitando espaços e passes pra pontuar sem esforço? Inumeras, e eu esperava mais disso. Mas o que o Pop percebeu antes do Jogo 1 foi que esse Miami não é mais o mesmo nesse sentido; o ataque perdeu sua característica de espaçamento sem Battier e Wade continua sem fazer estragos, então o Miami começou a depender mais e mais de centralizar o ataque em Lebron e deixar ele jogar sozinho num primeiro momento, pra dai se ajustar em torno disso. E embora Lebron seja um monstro capaz de fazer tudo isso e ainda continuar ganhando e fazer seu time funcionar muito bem, pra um grande time (e um grande técnico) parar um jogador é muito mais fácil do que parar cinco funcionando em harmonia.

Eu ainda não vi o suficiente pra acreditar que Lebron vá de fato ser parado (ainda mantenho Heat em 7 por ora), é claro, acho totalmente possivel que ele simplesmente coloque o time nas costas quatro vezes e ganhe quatro jogos sozinho porque ele é uma aberração, mas vindo de uma série extremamente física e exaustiva de sete jogos contra o Pacers, a vida de Miami vai ser muito mais difícil se Lebron for obrigado a jogar jogo atrás de jogo dessa maneira. Até mesmo Lebron vai chegar no seu limite uma hora e quando isso acontecer, adeus pras chances do Heat. Então acho importante que o Heat comece a funcionar de forma a tirar um pouco essa responsabilidade do Lebron de carregar o time toda santa posse de bola.


E um último pensamento sobre a arbitragem

Quem acompanha nosso twitter (www.twitter.com/tmwarning) sabe que eu fui muito crítico da arbitragem nesses playoffs. Reclamei muito de incompetência e de juizes que mais queriam aparecer do que apitar um jogo (Cof Joey Crawford cof), e reclamei muito dos flops que alguns jogadores faziam com tanta insistência.

Mas queria esclarecer duas coisas. Primeiro, eu não acredito em nenhuma "Teoria da conspiração" da arbitragem a favor do time de Miami pra ajudar o Heat a ser campeão. Se eu reclamo constantemente da arbitragem favorecendo Miami em alguns lances, não é porque eles querem que o Heat ganhe, e sim por outro motivo que acontece em qualquer esporte: Na dúvida, os juizes sempre dão o beneficio da dúvida pro time mais "importante". E como o Heat é melhor, mais chamativo, mais "importante" do ponto de vista de mídia e tem mais estrelas, é normal que eles recebam mais chamadas que a grande maioria dos times, mas não porque os juizes querem que o Heat ganhe e sim porque é muito mais dificil, muito mais pressão apitar contra o maior dos dois times (mais ou menos o que acontece quando um juiz apita diante de uma torcida particularmente ensandecida). Então sim, o Heat foi beneficiado algumas vezes pela arbitragem, mas também foi prejudicado outras simplesmente porque a arbitragem na NBA é ruim por definição e, na duvida, a corda estoura pro lado mais fraco. E se em algum momento insinuarem que o Heat está nas finais só por causa da arbitragem, sinto muito mas você está se iludindo.

Segundo: Depois da polêmica declaração de Lebron sobre floppar e de um jogo Heat-Pacers onde três jogadores (Lebron, West e Lance Stephenson) foram multados por flopping, eu notei um comportamento diferente dos juizes nas partidas. Claro, foram apenas três jogos (Jogos 6 e 7 do Leste, Jogo 1 das Finais) que não servem de amostra pra absolutamente nada, mas nesses jogos eu reparei que a postura foi diferente: Os juizes pareciam que não estavam dando o beneficio da dúvida pros jogadores nas faltas. Se ficavam em dúvida, deixavam o contato seguir e não marcavam a falta. Claro, com essa postura algumas faltas legítimas não foram marcadas, mas eu prefiro isso do que um jogo onde qualquer contato é falta e jogadores se jogam como se levassem um tiro com qualquer contato. Como disse o Ken Berger, da CBS americana, se os juizes passam tanto tempo fingindo pra enganar a arbitragem e forçar erros, como querem poder reclamar depois que os juizes erraram em outros lances? 

Não sei se foi uma orientação da NBA por causa do impacto extremamente negativo dos flops nesses playoffs, se foram os juizes que se encheram o saco, ou se foi simples coincidência, mas eu achei que houve essa mudança de postura dos juizes. O jogo passou a ter menos falta, mais contato e, consequência ou não, começou a ter menos flops: Nos ultimos dois jogos, eu posso contar em uma mão as jogadas que eu achei que foram flops. E mesmo que ainda alguns erros aconteçam, eu prefiro esses erros com um basquete físico e bem jogado - como deveria ser - do que erros porque toda hora existe uma falta. Não sei se é uma tendência da arbitragem mesmo, mas espero que continue assim.