Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Oakland Raiders

"Não acredito, o Raiders anotou um touchdown!!"



Nessa série de previews já falamos de 26 times diferentes, incluindo toda a AFC East, South e North e das NFC East, South e North, mais o Denver Broncos, o San Diego Chargers e o Kansas City Chiefs. Você pode acessar todos os previews direto do nosso índice. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Oakland Raiders

2012 Record: 4-12
Ataque ajustado: 23rd
Defesa ajustada: 29th


Meu amigo Carlos essa semana veio me perguntar se eu achava que a situação do Raiders era semelhante a do Oakland Athletics no começo da década, e se para "salvar" a equipe seria necessário algum plano outside-the-box como o Moneyball. A pergunta dele se motivava em parte também pela questão financeira, já que o Raiders ainda divide seu estádio com o Athletics e nunca ganharia da cidade o tipo de ajuda financeira para um estádio novo que o Jaguars conseguiu, por exemplo. Então ele queria saber se essa consistente má fase do Raiders - a equipe não possui um record acima de 50% desde 2002 - teria algo a ver com alguma "desvantagem" financeira ou competitiva como no caso do Athletics.

Infelizmente não é o caso do Raiders, simplesmente porque não é o caso da NFL. Claro que em qualquer liga teremos times mais ricos ou menos ricos (a equipe nunca teria condições de construir um estádio de mais de 1 bilhão de patacas de uma hora para outra como o Cowboys fez, por exemplo), mas na NFL essa importância é minimizada, mais do que em qualquer outra liga do mundo: com um hard cap que vale igualmente para todos os times e, mais importante, com um sistema de redistribuição de renda (em termos de patrocínios ou cota de televisão) que garante a todos os times da liga dinheiro suficiente para cobrir os gastos com salários e afins, times ricos não possuem nenhum tipo de vantagem na hora de contratar jogadores em relação a times menos ricos, os dois podem oferecer os mesmos contratos com os mesmos limites e ambos possuem garantias de dinheiro da NFL para cobrir esses valores. Não existe nenhuma desvantagem competitiva por parte do Raiders como era o caso do Athletics, um time pobre jogando em uma liga sem teto salarial, sem limites em termos de contratos e sem nenhum tipo de redistribuição de renda. No caso dos A's, a única chance de ser competitivo para a equipe era desenvolver um conhecimento que nenhum outro time tinha para conseguir jogadores baratos. No caso do Raiders, isso sem dúvida ajudaria, mas não é o motivo pelo qual o time está nesse buraco faz tanto tempo. O motivo disso é pura e simples incompetência e má gestão. 

Vamos voltar alguns anos, para a época que o falecido Al Davis ainda era vivo e tomava todas as decisões (algo comum nessas ligas, btw: um dono de time que toma algumas boas decisões e acerta boa parte delas por um tempo, cresce demais o ego e começa a querer tomar todas as decisões sozinho mesmo quando elas param de funcionar). Mais especificamente, para o draft de 2009. O Raiders possuía a 7th pick daquele ano, e precisava urgente de um bom WR. Para sorte da equipe, esse foi um dos drafts com maior profundidade dos últimos anos, com uma dupla espetacular na frente (Michael Crabtree e Percy Harvin) e jogadores como Jeremy Maclin, Kenny Britt e Hakeem Nicks saindo na primeira rodada. Crabtree era o consenso de melhor WR - talvez melhor jogador - daquela classe, então não havia a menor dúvida de que ele sairia para Oakland (se não fosse pego antes). Ou era o que 99% das pessoas acreditavam. Al Davis tinha uma tara esquisita por jogadores velozes (o Raiders pegou o jogador com melhor tempo na corrida de 40 jardas por quatro anos seguidos, se não me engano), e nos workouts, o melhor tempo de 40y foi de um WR chamado Darrius Heyward-Bey, razoavelmente bem cotado mas nunca na classe de Crabtree/Harvin (esse último acabou caindo um pouco pelas lesões). Davis não se importou, ele queria o jogador rápido e pegou Bey antes de qualquer outro WR sair (com Crabtree caindo no colo do 49ers). Bey foi um bust e já está fora do time depois de ser dispensado, Crabtree e Harvin se tornaram dois dos melhores jovens WRs da NFL, e o Raiders saiu de mãos abanando desse draft.

Em 2010, o Raiders tinha a 8th pick e decidiu ir atrás de um MLB chamado Rolando McClain. McClain era bem cotado saindo do College, um jogador muito talentoso com problemas de comportamento/extra-campo que era considerado um jogador de alto risco, alta recompensa. O Raiders não precisava exatamente de um MLB na equipe (o que pra mim foi a prova de como foi uma escolha estúpida), mas decidiu pegar McClain. Três anos depois o jogador não está mais na NFL por conta de seus problemas extra-campo. Alguns jogadores que foram pegos com as picks seguintes aquele ano: CJ Spiller, Anthony Davis, Earl Thomas, Jason Pierre-Paul, Mike Iupati, Sean Weatherspoon. Mas espera, fica pior: um ano depois, vendo seu QB titular Jason Campbell basicamente ter mais um ano fraco (47.2 QBR), a equipe decidiu trocar não uma, mas DUAS escolhas altas de draft (uma de primeira e uma de segunda rodada, um absurdo) por um QB que estava afastado da sua própria equipe e já havia ameaçado se aposentar caso não fosse trocado e que não tinha uma boa temporada em quatro anos, Carson Palmer. Claro que o Raiders trocou uma escolha de primeira e segunda rodada por esse cara, que não foi horrível mas também não foi nada demais com um time fraco e dois anos depois foi - surpresa! - trocado por uma escolha de sexta rodada para o Cardinals. Boa forma de maximizar seus ativos, viu Raiders? 

No draft de 2011, o Raiders não tinha uma escolha de primeira rodada porque a tinha enviado para o Patriots pelo DT Richard Seymour, um excelente jogador que foi inútil no meio de um time tão ruim. Aquela pick virou Nate Soldier, um dos melhores jovens LTs da NFL. No de 2012, a 1st pick da equipe foi de Cincinnati pela estúpida troca de Palmer um ano antes, que virou Dre Kirkpatrick. A equipe também não tinha uma escolha de segunda rodada porque a trocou com New England por escolhas na terceira e quarta rodada, onde não tinha escolhas próprias: a terceira foi usada no Draft Complementar (vá direto ao último parágrafo para saber o que é isso) de 2011 para pegar o QB Terrelle Pryor, e a de quarta rodada foi trocada por Jason Campbell alguns anos antes (o mesmo QB que fez o time pensar "não aguento mais esse cara, vamos trocar duas escolhas altas por Carson Palmer!"). Nenhum dos dois jogadores selecionados com essas escolhas tiveram qualquer impacto até agora. Mas em 2012 a equipe trocou de GM (e Al Davis morreu um pouco antes), e em 2013 finalmente teve um bom draft, embora ainda sentisse os efeitos das más decisões de gestões anteriores (em especial a falta de uma escolha própria de segunda rodada, também com o Bengals - acabou virando o RB Giovani Bernard).

Finalmente o Raiders decidiu ir em uma nova direção com uma nova diretoria (Reggie McKenzie já era GM ano passado mas só agora ganhou pleno controle da equipe), mas não vai ser nada fácil. Eu imagino o Mark Davis (dono da equipe) chegando todo otimista no primeiro dia de training camp, olhando para os jogadores em campo e indo chorar no vestiário de desgosto. Entre os únicos bons jogadores da equipe, os que sobraram são Darren McFadden (muito bom RB quando saudável, o que nunca está), Jared Veldheer (melhor OL da equipe, pode perder toda a temporada com lesão), Marcel Reece (um bom FB mas que nunca vai fazer nada sozinho), Denarius Moore (um WR rápido e explosivo que idealmente seria o terceiro ou quarto WR em um bom time), Lamarr Houston (promissor, 4.5 sacks em 2012 como DE em uma defesa 3-4) e Charles Woodson (ídolo da equipe, mas já tem 36 anos vindo de uma temporada ruim em um bom time). Sério, são esses ai. McKenzie dispensou os outros jogadores da equipe que poderiam ser considerado "bons", mandando embora Richard Seymour, Michael Huff, Tommy Kelly, Bey e McClain, o que deixou a equipe ainda mais fraca. Não que eu o culpe o GM por um segundo: ele fez o que tinha que fazer para recomeçar, abrindo todo o espaço salarial que podia e se livrando de veteranos caros que não estariam por perto no próximo bom time da equipe. Foi a decisão certa visando o futuro, mas que vai deixar o time ainda pior para 2013. Eles já foram um time muito ruim em 2012 (4-12 sustentado pela sua Pythagorean Expectation, record em jogos decididos por uma posse de bola e sem nenhum grande indicador a favor de uma regressão positiva da equipe) e agora devem ser ainda pior em 2013, e se o ataque ajustado da equipe não foi tão abismal assim, é porque nenhum time da NFL produziu mais em garbage time (Carson Palmer foi titular do meu Garbage Time All-Stars de 2012). Então sim, a equipe foi horrível, e ainda se livrou de boa parte dos seus jogadores mais produtivos. Deve ser horrível novamente em 2013.

E ai eu pergunto... isso é uma coisa ruim? Para mim não. Pense no Oakland como um cara drogado por anos que entra em recuperação. Isso não vai acontecer de uma hora para outra, ele precisa primeiro limpar seu corpo da droga, se manter limpo por algumas semanas, passar a primeira fase de abstinência com um bom acompanhamento médico e conseguir se endireitar antes de sair por ai procurando empregos bem remunerados e tudo mais, certo? Para o Raiders não é diferente: em uma franquia tão destruída e poluída por anos de má gestão, essas temporadas 2012/2013 foram o primeiro passo na desintoxicação da franquia, se livrando dos seus contratos mais nocivos e jogadores que não correspondiam ao seu salário, abrindo espaço salarial e basicamente recomeçando a franquia quase do zero. Na NFL é muito difícil passar logo de uma fase horrível marcada por drafts ruins e contratos ainda piores para os playoffs, o Raiders precisava primeiro se livrar disso tudo para poder seguir em frente. E o preço a pagar vai ser mais um ano muito fraco.

Mas ai você lembra que o próximo draft possui duas excelentes comodidades: um possível franchise QB em Teddy Bridgewater e aquele que tem sido chamado de "o melhor defensor a sair do College nos últimos 10 anos", pass rusher Jadeveon Clowney (esse cara aqui). O Raiders pode ter perdido a loteria Andrew Luck/Robert Griffin, mas Bridgewater/Clowney é um bom prêmio de consolação, e não tem time na NFL em melhores condições de levar para casa um desses dois do que Oakland. Se você vai ser ruim por uma temporada, que pelo menos tenha um bom prêmio te esperando no final, não é mesmo? E se você já vai ser ruim essa temporada de qualquer jeito, porque não ser um pouco pior e aumentar suas chances de levar para casa o melhor prêmio? O Raiders precisa de tempo para colocar ordem na casa, e Clowney/Bridgewater é um bom ponto de partida.

E tem também a questão do QB em Oakland. A disputa atualmente está entre três jogadores: Matt Flynn, o cara que passou para 510 jardas e 5 TDs em um jogo por Green Bay mas mofou no banco de Seattle ano passado; Tyler Wilson, calouro de Arkansas; e Terrelle Pryor, o atlético e corredor QB de Ohio State que pouco fez em dois anos de profissional para nos convencer de que vai ser um bom titular. A verdade é que nenhum dos três é realmente uma boa opção no curto ou no médio prazo, embora nunca de para ter certeza de fato com jogadores que nunca realmente tiveram oportunidades na NFL (especialmente um calouro como Wilson). A vaga parecia garantida para Flynn, mas o ex-QB de Green Bay e Seattle teve problemas em seus jogos de pré-temporada e agora deve ficar parado uma semana com uma lesão no braço, abrindo as portas para Pryor ficar com a vaga (baseado em uma boa atuação em um segundo tempo de pré-temporada contra a defesa reserva de Chicago). Parte de mim pergunta se a idéia de Pryor ficar com QB é menos pela sua produção real para 2013 e mais por ser um prospect de alto risco e alta recompensa: se o alto risco prevalecer, ótimo, o time vai ser ruim e pegar uma escolha alta de draft. Se a alta recompensa falar mais alto, o Raiders pode ter achado seu QB do futuro e se dedicar a Clowney ou outro jogador não-QB de alto nível no draft. Para mim parece um win-win, e é por isso - não a lesão de Flynn, não o bom segundo tempo contra Chicago - que Pryor vai acabar sendo o titular para começar a temporada.

De novo, o que não é um problema. O time 4-12 de 2012 deve voltar ainda mais fraco, em uma divisão mais forte, e sem perspectivas imediatas de melhora por estatísticas que temos usado. Apenas Kansas City, Titans e Jaguars foram piores em 2012 (per Football Outsiders), e tanto Chiefs como Jaguars devem melhorar esse ano. McFadden é uma aposta para ficar saudável a essa altura, a incerteza com QB é grande e não devemos esperar muito de nenhum deles, e o corpo de recebedores está pior do que nunca. A defesa pode melhorar um pouco com as chegadas de Tracy Porter e Woodson, mas está ainda muito longe de se tornar uma defesa sequer decente, especialmente se DJ Hayden perder tempo machucado como se cogita. Sinceramente, é difícil ver como esse seria um time melhor em 2013 do que foi em 2012 a não ser que um QB exploda, e embora ele não tenha sido exatamente bom, Palmer pelo menos foi um jogador produtivo. Considerando que já foi um time muito ruim em 2012, não vai ser exatamente um ano divertido para torcedores do Raiders. Mas se existe um consolo aqui, é esse: pelo menos antes o Raiders era ruim atulhado de contratos ruins, jogadores caros e sem perspectiva de futuro. Agora ele é ruim com bastante espaço salarial, perspectiva de boas escolhas de draft e um futuro. E isso faz toda a diferença.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Kansas City Chiefs


Cassell apontando para onde jogou seu último passe


Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Nessa série de previews já falamos de 26 times diferentes, incluindo toda a AFC East, South e North e das NFC East, South e North, mais o Denver Broncos e o San Diego Chargers. Você pode acessar todos os previews direto do nosso índice. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Kansas City Chiefs

2012 Record: 2-14
Ataque ajustado: 31st
Defesa ajustada: 30th


Caso ninguém tenha percebido ainda, muitas vezes eu aproveito esses previews para dissertar sobre alguns temas relacionados ao time, mas que não influenciam diretamente a temporada 2013 - eles simplesmente são interessantes. Falamos um pouco sobre como times inteligentes se comportam na offseason quando falamos do Ravens, falamos sobre porque times ruins continuam ruins quando falamos do Jaguars, dissertamos sobre regressão de outliers quando falamos do Vikings, sobre dúvidas com quarterbacks quando falamos do Eagles... e por aí vai. São todos relacionados o suficiente aos times para justificarem estar aqui, mas ao mesmo tempo são oportunidades para dissertar e explicar alguns temas que sempre se repetem na NFL e que portanto precisam ser explicados. No caso do Chiefs, a troca de QBs que a equipe fez na offseason é uma excelente deixa para explicar mais sobre o draft, e porque existe tanta incerteza nesse evento tão importante.

Hoje em dia, as pessoas adoram julgar qualquer tipo de coisa pelo resultado. Se o resultado foi bom, então tal time fez o certo, e se o resultado foi ruim, é porque a decisão tomada foi errada e a culpa é de quem a tomou. Essa visão é comum hoje, mas extremamente limitada, porque existe um milhão de variáveis influenciando diretamente o resultado que estão além do controle (ou dentro do controle, mas não relacionadas a questão inicial) da equipe, do técnico ou do GM que tomou tal decisão. Por isso é muito mais importante avaliar o processo de tomada de decisão antes de olhar para o resultado... o que claro, todo mundo ignora, já que concluir tudo a partir do resultado é mil vezes mais fácil. E o draft não é exceção: nós julgamos praticamente tudo só pelo resultado que eles geram (e as vezes esse resultado É motivado por boas decisões e excelente avaliação de jogadores mesmo) quando nem sempre é a melhor forma. O 49ers escolher Colin Kaepernick na segunda rodada não foi um acaso, ele era o alvo da equipe desde o começo, só que Trent Balkee entende que ele precisa maximizar o valor de cada escolha ao invés de pular logo no jogador que ele quer, então esperou até a segunda rodada para subir algumas picks e atingir seu alvo. Da mesma forma, não podemos culpar o Jaguars por escolher Blaine Gabbert apesar do garoto não ter dado certo (ainda) na NFL: Gabbert era considerado um QB top naquele draft, o Jaguars precisava de um QB e portanto a decisão fez sentido. Deu errado, mas foi uma boa decisão. Heck, eu até escrevi um post inteiro sobre como avaliar um draft pelo processo e não pelos resultados.

Aonde eu quero chegar com isso? No novo quarterback do Kansas City Chiefs, Alex Smith, primeira escolha do draft em 2005. Smith sempre foi universalmente reconhecido como um bust antes da sua temporada 2011 por ter sido a primeira escolha do draft e nunca ter sido um Franchise QB... ou mesmo um bom QB até a chegada de Jim Harbaugh. E para piorar a vida de Smith, 23 escolhas depois o Green Bay Packers selecionou Aaron Rodgers, que acabou virando o melhor QB da NFL na atualidade, o que deu ainda mais crédito para o argumento de "o Niners errou feio escolhendo Smith ao invés de Rodgers". Afinal, o resultado foi esse: Alex Smith não foi um bom jogador por seis anos e Rodgers virou o melhor da NFL. E isso que importa. Certo?

Bom, para responder a essa pergunta, vamos voltar para 2005. O 49ers tinha a primeira escolha do draft e precisava desesperadamente de um QB, só que nesse draft não havia nenhum consenso sobre qual seria o melhor jogador. Dois QBs se destacaram como os dois melhores desse ano, Smith e Rodgers, mas nenhum era cotado como melhor que o outro e era uma decisão pessoal. Mas o péssimo HC de SF, Mike Nolan, decidiu que queria Smith porque Rodgers tinha uma personalidade mais forte e ele não queria outro jogador para tirar a liderança dele sobre o elenco (caso você esteja se perguntando, sim, esse é uma motivação horrível para escolher um jogador com a 1st pick e não a toa Nolan não achou outro emprego de HC depois). Então o Niners pegou Smith e Rodgers (nativo da Califórnia e torcedor do 49ers desde pequeno) caiu para o Packers na 24th pick. E ai está a parte que todo mundo ignora: um jogador pego no Draft não é um produto finalizado. Ele ainda tem que passar por diversas adaptações, aprender um esquema tático, e encaixar em um time totalmente novo, e isso nem sempre acontece igual para todos os jogadores. E isso importa muito.

Então quais foram os caminhos de Alex Smith e Aaron Rodgers, uma vez na NFL? Smith foi jogado no fogo logo de cara, sendo o titular em um time horrível que não tinha uma linha para protegê-lo e nem recebedores para ajudá-lo, teve que se virar praticamente sozinho correndo de sacks e acertando recebedores que não se livravam de marcação, nunca teve calma ou estabilidade para desenvolver as partes ainda não desenvolvidas do seu jogo e acabou desenvolvendo alguns hábitos ruins no processo (principalmente arremessar apoiado no pé de trás). Ele nunca teve um bom técnico ou coordenador ofensivo que montasse um ataque em torno de suas forças ou fraquezas, e nunca teve um bom mentor para lhe ensinar os truques do jogo. Ele teve na verdade sete coordenadores ofensivos em sete anos, e portanto nunca teve muito tempo para estudar e se adaptar a um playbook ou estilo de jogo já que era constantemente mudado. O excesso de pancadas atrás dessa horrível linha ofensiva lhe causou lesões no ombro que lhe tiraram um ano e meio de aprendizado e evolução e o obrigou a ficar praticamente parado perdendo tempo que poderia estar usando para evouir. Enquanto isso, A-Rod entrou na situação mais confortável possível: ficou três anos na reserva aperfeiçoando e lapidando seu jogo, acostumando a essa nova realidade e evoluindo e corrigindo seus defeitos como passador. Ele jogou no mesmo playbook durante esses três anos, então sempre soube a perfeição o ataque no qual estava, e passou esses três anos aprendendo com um Hall of Famer de titular que lhe ensinava nos treinos. Quando finalmente assumiu a posição, Rodgers tinha polido suas habilidades ao máximo, dominava totalmente o playbook e entrou em um ataque extremamente bem montado e estável em torno dele. Agora me digam, qual dos QBs teve a maior chance de sucesso? Claro que foi Rodgers. Tudo que aconteceu com Smith foi o pior cenário e com Rodgers, o melhor. E isso está totalmente fora do controle de ambos, mas está totalmente relacionado com o resultado final que vemos hoje. Então sim, Rodgers provavelmente era melhor que Smith desde o começo, mas se o 49ers tivesse pego Rodgers e Smith fosse para o Packers, não existe a menor chance da carreira dos dois ter acabado da mesma forma: Rodgers nunca teria evoluido nesse super QB se tivesse sido jogado na mesma situação que Smith, e atrás de Brett Favre e com paciência e calma para se desenvolver, Smith teria tido uma carreira muito melhor e mais estável. Provavelmente nunca seria o jogador que Rodgers é, mas não seria aquele bust por seis anos. Tudo depende do contexto, e portanto é errado julgar as coisas pelo resultado. Espero ter deixado isso claro.

Mas de volta a Kansas City, a grande preocupação para o Chiefs, nesse primeiro momento, tem a ver exatamente com Smith: qual Alex Smith eles estão recebendo? O Alex Smith entre 2005 e 2010, incapaz de proteger a bola, sem força no braço e que não compensava isso com um bom aproveitamento nos passes e era basicamente um QB nível Matt Cassell (QBR nunca acima de 42.0)... ou o Alex Smith pós-Jim Harbaugh, o quarterback ultra-inteligente que dominava perfeitamente seu esquema ofensivo (voltado para suas forças e fraquezas), controlava o relógio, protegia a bola, ultra-eficiente que tinha o melhor aproveitamento de passes (71%) na NFL antes de se machucar? Sabia que Smith terminou a temporada 2012 com o sétimo maior QBR da liga e 10th em produção por jogo (Kaepernick terminou em terceiro em ambos, btw)? Apesar do óbvio efeito Harbaugh e jogar em um esquema que maximizava seus talentos, Alex Smith foi um excelente QB em 2012, um jogador que executou perfeitamente seu papel e maximizou as chances de sua equipe. Andy Reid, o novo técnico da equipe, claramente acredita que esse segundo Smith é quem está vindo para Kansas City para mandar uma escolha de segunda rodada por ele. O maior salto que um time pode dar de um ano a outro é um upgrade em termos de QB (falamos nisso no preview do Colts), e considerando que os QBs de Kansas ano passado foram Matt Cassell (36.57 de QBR) e Brady Quinn (27.4), Alex Smith já é um belo upgrade.

Mas claro, ele sozinho não vai ser suficiente para tirar Kansas desse buraco 2-14 que, inclusive, é sustentado pela sua Pythagorean Expectations (2.5-13.5) e tendo ido 2-3 em jogos decididos por uma posse de bola. Mas sabe o que é realmente estranho? Eu nunca vi um time tão ruim que nem esse Chiefs que joga com tantos jogadores excelentes!! Eles possuem um dos melhores RBs da liga em Jamaal Charles (quando saudável, mas enfim), uma boa linha ofensiva (que melhora ainda mais com a chegada de Eric Fisher) e um bom WR em Dwyane Bowe. Na defesa é ainda melhor, porque eles tiveram quatro Pro Bowlers e mais um bom número de jogadores jovens como Dontari Poe e Brandon Flowers. Na verdade, o time como um todo teve SEIS Pro Bowlers e mesmo assim foi 2-14 sem nenhum grande indicador de azar (tirando o fato de ter sido o terceiro pior time recuperando fumbles, 33%), como diabos explicar isso? Técnico ruim? Entrosamento? Fatores ocultos? Macumba? Eu não faço a menor idéia.

Talvez por isso esse preview seja tão interessante e tão difícil de escrever. Quando falamos do Lions, apontamos que praticamente todos os fatores possíveis e imagináveis apontavam, estatisticamente, para um 2012 muito abaixo do nível normal da equipe e que tudo indicava uma enorme reviravolta em 2013.  Isso não acontece no caso do Chiefs, onde tanto a PE como record em jogos decididos por uma posse de bola mostram que a equipe foi tão ruim quanto pareceu ser (Chiefs também foi o pior time pela eficiência ajustada do Football Outsiders)! Alguns fatores (chegaremos neles) estatísticos que temos usado realmente indicam alguma evolução, mas na verdade a maior parte da volta por cima que podemos esperar do Chiefs vem do senso comum, de parar e pensar que um time com tanto talento e tanto potencial não possa de forma realista repetir uma performance tão abismal como essa. De certa forma isso contraria um pouco a idéia dessa série, que é partir das estatísticas, mas alguns times sofrem tantas mudanças e dão sinais de serem tão diferentes ano a ano que temos que partir um pouco para a análise tradicional e experiência desses 12 anos de NFL (claro que temos usado também esse tipo de análise, ele é indispensável, mas nesse caso ele é ainda mais marcante). 

Primeiro, vamos deixar claro que existe alguns indicadores sim que mostram que o Chiefs vai melhorar para 2013, embora nenhum explique ou justifique como esse time com tanto talento foi tão mal em 2012. Já demos uma amostra do primeiro, que foi o problema dos fumbles: Kansas City foi o terceiro pior time da NFL, recuperando apenas 33% de seus fumbles. A defesa foi particularmente ruim, recuperando apenas cinco o ano inteiro (31%), e isso sem dúvida contribuiu para o saldo de turnovers da equipe de -24, pior marca da liga. Eu acho que não preciso dizer que, historicamente, um patamar tão alto assim é insustentável ano a ano por causa dos fatores que precisam estar em ação para chegar nisso, mas colocando um pouco mais de raciocínio, qual a chance de um ataque com Alex Smith (o QB mais conservador da NFL e o melhor protegendo a bola) gerar 20 interceptações e mais uns oito fumbles em sacks? É impossível que o Chiefs repita essa performance abismal nos turnovers, a equipe vai recuperar muito mais e o ataque vai oferecer muito menos. E só isso já é motivo de muito otimismo. Vale citar também que o Chiefs deve ter talvez a tabela mais fácil de toda a NFL, enfrentando AFC South, NFC East, Bills, Browns, e mais quatro jogos contra Chargers e Raiders. Então razões práticas para otimismo na região nós temos.

Mas a parte teórica é muito, muito maior. Começando pela mudança de técnico, onde o Chiefs mandou embora Romeo Crennel (segundo pior técnico de 2012 pela minha lista na frente de Pat Shurmur) e trouxe o bom Andy Reid da Philadelphia. Eu defendi a saída de Reid do Eagles pelo simples desgaste gerado entre time, técnico e torcida, e para um time que ia recomeçar do zero era melhor fazê-lo com um técnico novo e vida nova (senão os resultados de Reid sempre seriam julgados pelo passado), mas a morsa favorita da NFL ainda é um excelente técnico que também vai se beneficiar enormemente de um novo cenário e um time tão talentoso. É sempre difícil julgar uma troca de técnicos, mas trocar um tão ruim como Crennel por um tão reconhecido como Reid não pode ser ignorado, é um upgrade massivo que com certeza vai se refletir na equipe. O outro upgrade imenso que já comentamos foi de QB: Smith provavelmente não será o QB de elite que foi em 2012 fora do esquema do Niners e longe de Jim Harbaugh, mas ainda assim se for um quarterback "bom" ou mesmo "acima da média", já é uma melhora em relação ao patamar "cataclisma ambulante" de Cassell e Quinn em 2012. Reid também é famoso pelo seu bom trabalho com QBs e tem cobiçado Smith desde seus dias na Pensilvânia, então é de se esperar que pelo menos Smith mantenha um nível acima da média. E "acima da média" já é melhor do que o Chiefs tem de QB desde... hmm... desde... Trent Green em 2005? Yeekes!

A equipe também se reforçou ofensivamente de forma a melhorar as chances de um QB como Smith ter sucesso. Com Jamal Charles saudável e a chegada da primeira escolha do draft, Eric Fisher, o Chiefs deve ter uma boa combinação RB/linha ofensiva para estabelecer o jogo terrestre como foco do ataque da forma que Smith rendeu em SF: conversões mais curtas, muito play action, passes de alto aproveitamento e defesas mais equipadas para parar a corrida. A chegada de Fisher também aumenta a proteção que Smith vai ter, o que sempre é bom. Ainda é cedo para ver como Reid vai usar Smith em KC, mas pelo menos os primeiros sinais indicam que será de forma semelhante ao que o Niners fez: forte ataque terrestre, passes conservadores e muito missdirection. Tenho minhas dúvidas se o corpo de recebedores vai ser bom o suficiente para dar conta sendo que o único bom WR deles (Bowe) é um jogador mais de velocidade (eu gosto de Donnie Avery mas ele precisa ficar saudável), mas qualquer coisa é melhor do que o fiasco histórico do ano passado. Então não sei se o ataque vai ser bom, mas com certeza vai ser bem melhor. 

Mas é na defesa que o potencial é muito maior, apesar do fato de que inexplicavelmente o grupo terminou como a terceira pior de 2013. Realmente, no papel, é um dos grupos com mais talento na NFL: um NT (Poe) que é um candidato forte a explodir indo para seu segundo ano; um grupo de linebackers com três Pro Bowlers (Tampa Bali e Justin Houston - 19.5 sacks combinados em 2012 - pelas pontas e Derrick Johnson pelo meio); e uma secundária com o melhor jovem safety da liga em Eric Berry e um sólido CB em Brandon Flowers. Além disso, a equipe manteve esse núcleo junto e ADICIONOU mais quatro peças importantes, com Mike DeVito na linha defensiva junto a Poe, Akeem Jordan para fazer par com Johnson no meio da defesa (3-4), e DOIS excelentes reforços para a secundária em Dunta Robinson (excelente CB que vai assumir a responsabilidade de defender o melhor WR adversário de Flowers) e mais o Sean Smith do Dolphins para fazer a função de nickel, o que faz a secundária passar de "suspeita" para "transbordando talento". Basicamente a equipe tem um núcleo titular de sete defensores de alto nível e mais pelo menos quatro peças de reposição ou situacionais que poderiam jogar de titular em outros times. Esquecendo por um instante que foi a terceira pior defesa de 2012... bom, é uma ótima defesa, certo? É a mesma base que foi a 13th melhor defesa de 2011 e que só melhorou no papel desde então, adicionando novos e jovens playmakers. Não faz o MENOR sentido que esse grupo tenha sido tão mal quanto foi ano passado, e eu não consigo esperar nada além de uma grande reviravolta para voltar a metade superior da liga, talvez mesmo um Top10 (de novo, 13th melhor dois anos atrás, os jovens jogadores evoluiram consideravelmente, adicionou mais quatro bons playmakers desde então, melhor sorte com fumbles...). Não existe nenhum dado dizendo isso, mas olhe de novo para essa base e para os números de 2011 e é difícil NÃO concluir que 2012 foi uma aberração. A defesa vai dar a volta por cima. Ela tem que dar.

É bem difícil estimar exatamente o quanto isso vai resultar em uma melhora dentro de campo. O Chiefs vai melhorar consideravelmente, mas quanto? Hmm... eu não sei. Eu realmente não sei. O ataque deve melhorar nem que seja um pouco com a chegada de um QB competente e de um bom técnico ofensivo, uma OL mais sólida (não foi exatamente ruim ano passado, mas melhorou) e sem entregar tanto a bola para o adversário com fumbles e interceptações (o índice de interceptacões dos QBs do Chiefs em 2012 foi de 4.2%, o de Alex Smith foi 1.1% em 2011 e menos de 1.5% nos dois últimos combinados), o que vai ser crucial para estabilizar esse ataque horrível do Chiefs. E enquanto isso, a defesa deve dar um enorme salto de produtividade pelos fatores palpáveis e até alguns nem tanto (com menos TOs e um ataque melhor a defesa vai precisar jogar menos e ficar menos cansada, vai enfrentar adversários com pior posição de campo, etc), mas o resultado com certeza vai ser imensamente positivo. Junte a isso o efeito de um novo técnico e de uma tabela que pode muito bem ser a mais fácil da NFL, e eu confesso que me sinto bem otimista quanto a uma volta por cima de Kansas City. Playoffs ainda podem estar um pouco distantes já que o potencial ofensivo é um tanto limitado (a não ser que Smith realmente consiga carregar sua temporada 2012 para Kansas, mas eu acho difícil sem Jim), mas algo como 8-8 ou 7-9 me parece perfeitamente dentro do alcance dessa equipe. E convenhamos, faz mais sentido do que um time com seis ou sete Pro Bowlers terminando 2-14 com o 14th pior saldo de pontos dos últimos 25 anos. No aguardo do que esse time tem a oferecer para a temporada.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - San Diego Chargers


"It's a BAAAAAALL!"


Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Nessa série de previews já falamos de 25 times diferentes, incluindo toda a AFC East, South e North e das NFC East, South e North, mais o Denver Broncos. Você pode acessar todos os previews direto do nosso índice. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

San Diego Chargers

2012 Record: 7-9
Ataque ajustado: 24th
Defesa ajustada: 18th


Se eu fosse fazer uma lista de grandes times da NFL que escorregaram (ou vão escorregar) pela história e acabar esquecidos, o Chargers da segunda metade dos anos 2000 provavelmente estaria no Top5. Começando desde 2004 (quando Drew Brees era QB), passando por 2006 (14-2 já com Phillip Rivers) e até 2009 (13-3 e favorito ao título da AFC em Vegas), foram seis anos de competição em altíssimo nível e um dos melhores times da NFL todo ano disputando títulos (entre 2004 e 2010, o time terminou apenas uma vez fora do Top10 em eficiência total: 11th em 2009). 

E não é como se fosse uma aberração ano a ano ou um time fraco sendo levado nas costas de um grande QB, era um dos times mais atolados de talento que eu lembro de ter assistido (no Madden 2008, um dos jogos que mais joguei na minha vida, o Chargers era o time com mais jogadores 99 de força no jogo). O ataque tinha um dos melhores RBs da história da NFL em LaDainian Tomlinson e o melhor FB da NFL em Lorenzo Neal, um dos dois melhores TEs em Antonio Gates, um excelente QB em Philip Rivers e uma excelente linha ofensiva que incluia três Pro-Bowlers (Marcus McNeill, Kris Dielman e Nick Hardwick). A defesa também contava com um grupo espetacular, incluindo um grupo imenso de All-Pro/Pro-Bowlers como Jamal Williams, Luis Castillo, Shawne Merriman, Shaun Phillips, Quentin Jammer e Antonio Cromartie (e mais tarde Eric Weddle). Era um time absurdamente lotado de talentos e divertidíssimo de assistir que, infelizmente, vai acabar sumindo historicamente por nunca ter ganho um título ou sequer ter ido a um Super Bowl. Lamentavelmente, a fama de time amarelão que nunca conseguiu ganhar nos playoffs (apesar de tudo que falamos aqui sobre amostras pequenas e o escambau) provavelmente vai ser o que as pessoas lembrarão de um dos melhores times da sua geração.

Para alguém como eu, que cresceu assistindo NFL e acompanhou toda essa trajetória do Chargers conforme ia se envolvendo mais e mais com o esporte (especialmente quando meu time não foi relevante entre 2002 e 2010, situação na qual é comum achar outro time legal para se "apegar"), é triste ver o que aconteceu com o Chargers entre 2011 e 2012, uma grande potência chegando no seu limite e se quebrando a partir daí. E ainda que não foi por conta de uma má gestão, ou de trocas desastrosas que destruíram a equipe, nem nada do tipo: foi um grupo que simplesmente chegou ao seu limite em termos de idade, perdeu alguns jogadores importantes e não conseguiu reposições a altura. LT envelheceu muito rápido chegando aos 30 anos, a carreira de Merriman foi para o saco por conta de lesões, e o resto do grupo - Neal, McNeill, Gates, Williams, Jammer, etc - simplesmente envelheceu e perdeu efetividade, com a maioria se aposentando ou saindo da cidade. É um processo normal, e daquele grupo dominante o único jogador que sobrou foi Rivers, outro que está envelhecendo rápido.

Um dos problemas aqui foi que a diretoria do Chargers optou por não recomeçar e tentar apenas arrumar as peças que iam falhando ou perdendo qualidade, mas não conseguiu fazê-lo: muitos dos free agents trazidos nesses últimos anos fracassaram, em parte porque o núcleo do Chargers não era mais forte o suficiente para poder continuar excelente com jogadores medianos para complementá-los, pelo contrário, precisava de jogadores de impacto maior ao redor para poder continuar produzindo. A equipe também não teve muito sucesso no draft, em parte por azar (Ryan Matthews, que devia substituir LT na equipe, não consegue ficar saudável) e em parte porque alguns jogadores (como Marcus Gilchrist) ainda não renderam os resultados esperados. Não que o time não tenha conseguido alguns bons jogadores, é só que não foi suficiente para adiar essa queda da equipe. Pensando em manter aquele bom time ainda competindo, os últimos anos não trouxeram sucesso, mas quando o foco passa a ser montar um novo time para daqui a pouco, então o Chargers tem conseguido alguns resultados interessantes. Mas chegaremos lá.

Durante esses anos dourados do Chargers - heck, até mesmo em todos os anos dourados do Chargers entre 1980 e 2010 - o ataque foi o ponto focal da equipe, o grande ponto forte em torno do qual San Diego se montou e dominou a liga. Isso é obviamente mais fácil quando você tem um dos melhores RBs de todos os tempos a sua disposição, e LT com certeza teve um papel importante liderando esse ataque durante um bom tempo, mas não foi o único motivo de sucesso do grupo. Mesmo no final da carreira de LT, quando ele decaiu com enorme e triste rapidez (e os números terrestres de SD caíam em queda livre, chegando a um triste 31st em 2009), o ataque se manteve como um dos melhores da NFL por conta de seu ataque aéreo. E se queremos procurar causas para essa perda de competitividade do Chargers nos últimos anos, é por aí que temos que começar.

Durante seu auge, o ataque de San Diego era baseado em um esquema de passes longos que exploravam o forte braço de Rivers e que se utilizava de todos os lados do campo para abrir espaços na defesa. Com WRs rápidos como Vincent Jackson e Chris Chambers, e tendo um TE de elite em Antonio Gates para as recepções garantidas pelo meio da defesa (ou mesmo uma opção fácil de passe em caso de pressão), esse ataque se baseava nos passes em profundidade e em jogadas explosivas seguindo seu estilo ofensivo desde a década de 80, o Air Coryell (o original "West Coast Offense"). E como em todo bom ataque aéreo que foca nas bolas longas, é crucial ter uma boa linha ofensiva que consiga segurar as defesas e ganhar o tempo necessário para os WRs se colocarem em posição de receber essas bombas... e pela maior parte da década, foi o caso do Chargers, cuja unidade liderada por McNeill sempre esteve entre as melhores da liga. Era o pessoal ideal para esse ataque, pois a falta de um WR mais confiável pelo meio era compensada por Gates, e tanto a OL como os WRs eram perfeitos para executar esse estilo de jogo, e o Chargers aproveitou.

Da mesma forma, é fácil ver onde tudo desandou nos últimos dois anos, especialmente 2012. Tudo que fez desse ataque tão especial foi o que fez dele um fiasco recente: os WRs de velocidade começaram a deixar o time (em especial Jackson, que foi para Tampa), idade e lesões tiraram toda a eficiência de Antonio Gates e ele deixou de ser aquela opção ultra-confiável de meia distância (e terceiras descidas), o substituto de LT (Matthews) nunca ficou saudável e o time não achou outra opção, e talvez mais importante, a linha ofensiva da equipe decaiu para um nível horrendo ao ponto de eu ter dito durante a temporada 2012 que "a linha ofensiva do Chargers é a pior protegendo o passe que eu vi em anos, e isso quer dizer alguma coisa" (um mês depois, um estudo do Football Outsiders mostrou que a pior OL da NFL em jogadas de passe foi... wait for it... a de San Diego). E para um ataque que, como já foi dito, era baseado em muitos passes longos e que exigem tempo, a pior coisa que pode acontecer é contar com uma linha ofensiva horrível que não consegue segurar a pressão e força o QB a se livrar da bola muito antes do que ele deveria - especialmente uma equipe como San Diego sem uma boa opção de checkdown como um TE de elite (lamento, Gates) ou um bom slot receiver. Essa destruição da linha ofensiva sem dúvida contribuiu para as recentes performances decepcionantes de Phillip Rivers e do ataque do Chargers, e foi esse o motivo que levou a equipe a ir buscar DJ Fluker no draft e Max Starks em Pittsburgh, de forma a dar algum alívio nesse setor.

Esse nível patético da OL e a falta de bons recebedores é algo que faz questionar em parte o quanto do grande declínio que Phillip Rivers vem sofrendo nos últimos dois anos é realmente uma perda de efetividade do QB, ou se isso pode ser explicado em parte pela queda do nível ao seu redor e o esgotamento de um esquema que tirava o máximo de suas habilidades. A resposta é provavelmente um pouco dos dois: depois de liderar a NFL três anos seguidos (2008-2010) em jardas por passe, Rivers viu seus números no quesito caírem de 8.7 (2010) para 7.9 e depois para 6.8, o que é realmente preocupante. Mas ao mesmo tempo, essa absurda queda da linha ofensiva, o declínio de Gates e a saída dos seus melhores WRs - especialmente junto do fato de que a diretoria pouco ou quase nada fez para repor essas peças - são coisas que chamam muito a atenção, especialmente para um jogador que fez tanto sucesso dentro de um esquema como Rivers. Ele também jogou para um técnico que foi horrível nos últimos anos em Norv Turner, que não soube adaptar o ataque nem tomar boas decisões em campo.  Então enquanto o potencial ofensivo do Chargers seja limitado por uma grande falta de WRs e outro TE além de Antonio Gates, a melhora da sua linha ofensiva e um novo técnico podem ajudar Rivers a voltar a boa forma, então existe motivos para acreditar em uma melhora nesse lado.

Mas se a diretoria negligenciou até certo ponto as necessidades do ataque e observou impotente enquanto o grupo caía de produção, ela certamente fez muito no sentido de reforçar a defesa nos últimos anos. Durante o auge de San Diego nos anos 2000, a defesa não era uma potência, mas era uma unidade bastante sólida. Quando alguns jogadores começaram a sair ou perder efetividade depois da temporada e 2007, a diretoria começou a direcionar seus esforços para esse lado da bola, o que ficou ainda mais evidente em anos recentes: das três escolhas mais altas do Chargers em cada um dos últimos três drafts, sete foram em jogadores de defesa e apenas duas (Fluker e Matthews) em jogadores de ataque (expandindo para quatro anos, foram 9 jogadores de defesa e 3 de ataque). E a verdade é que a equipe montou uma base interessante para esse grupo, que apesar da falta de playmakers que façam sozinhos estragos (pense Von Miller ou JJ Watt) tem achado um bom número de jogadores que realizam todo tipo de função. A linha defensiva parece pronta para o futuro com Corey Liuget (7.5 sacks como DE de uma defesa 3-4) e Kendall Reyes (5.5 sacks como calouro na mesma situação), e a linha defensiva parece bastante sólida com Donald Butler, Manti Te'o, Melvin Ingram e Dwight Freeney, sendo que os três primeiros ainda são bem jovens e tem contratos longos e baratos com a equipe. A secundária é mais problemática, em parte porque Gilchrist ainda não está jogando como esperavam quando o escolheram no draft, mas eles ainda possuem um dos melhores (talvez o melhor) FS da NFL em Eric Weddle.

Esse grupo começou a dar uma boa volta por cima ano passado, quando saiu 29th posição para a 18th em termos de defesas ajustadas, e mais um ano desses jogadores (e a chegada de Te'o) devem solidificar ainda mais esse grupo que é na verdade muito promissor. Se está contando, o Chargers montou uma base com seis titulares jovens e promissores (Liuget, Reyes, Butler, Te'o, Ingram e Weedle), e se pelo menos um desses cinco primeiros conseguir evoluir em uma força considerável para desmontar ataques e provocar dobras na marcação, esse grupo está a apenas um bom CB a virar um grupo muito confiável por anos a fio. Não elite, mas bastante confiável. Potencial não falta, e considerando a boa evolução entre 2011 e 2012, é essa a área que oferece mais otimismo para San Diego. 

Mas a volta por cima ainda provavelmente está alguns anos distante do Chargers. O time mistura um ataque com seu QB veterano, ainda apegando aos velhos tempos, com uma defesa em franca remontagem. Eu espero alguma evolução da equipe para 2013, com uma linha ofensiva reforçada e uma defesa que deve evoluir, mas não o suficiente para recolocar o time como uma força relevante na NFL, especialmente com um ataque sem WR (e com os que tem machucados) e sem um TE confiável e uma linha ofensiva que ainda deve ser abaixo da média (embora repetir o fiasco de 2012 seja difícil). A Pythagorean Expectations da equipe (8-8) e record em jogos decididos por uma posse de bola (1-5) certamente indicam que o time tem espaço para melhorar internamente também, mas vale citar que a equipe enfrentou o terceiro calendário mais fácil da NFL em 2012. Então a equipe deve ser melhor, mas quanto melhor? Acho que outro ano entre 8-8 e 7-9 é o mais provável enquanto a diretoria tenta decidir o que fazer e que caminho seguir, especialmente no ataque: reorganizar o corpo de recebedores e tentar um último hurrah com Philip Rivers, já pensar no próximo ataque para fazer par a essa boa e jovem defesa, ou talvez um meio termo: com essa AFC fraca, é possível imaginar o Chargers arrancando uma vaga de wild card a 9-7 com um pouco de sorte e eventualmente tentando a sorte novamente nos playoffs. Não apostaria minhas fichas, mas não acho impossível, e diria que é no que o GM da equipe está apostando.