Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Algumas considerações sobre a rodada de Wild Card

Para participar do nosso mailbag, ou seja, enviar uma pergunta/comentário/dúvida/tópico de debate para ser respondida aqui no blog e no Esporte Interativo, é só mandar um email para tmwarning@hotmail.com com o título "Mailbag" que ele pode aparecer por ai. Forma de tornar isso mais interativo e próximo dos leitores. Então participem! O tema do próximo será playoffs, então aproveitem para enviar seus emails!


"Captain Luck, ao resgate!"



No próximo bimestre, começaremos uma série chamada Sports Mythbusters. A idéia é bem simples, pegar clichês, mitos ou lugares comuns dos esportes americanos e colocá-los a prova. Então estamos aceitando sugestões, e qualquer mito, frase comum, chavão ou coisa assim dos esportes que vocês querem ver testada e comprovada (ou ao contrário, que quer ver desmentida) podem mandar que vamos analisar os melhores. Mais uma chance de vocês sugerirem nossas pautas. Podem mandar emails com as sugestões para tmwarning@hotmail.com, para o twitter @tmwarning, ou simplesmente colocar nos comentários quando der na telha.
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Primeira rodada dos playoffs já está no passado, e me parece uma boa hora para passar rapidamente por alguns tópicos interessantes ou relevantes que se apresentaram nesse último final de semana de excelente futebol americano - deixando os comentários sobre os jogos do próximo final de semana para outra ocasião. Passando rapidamente por dois esclarecimentos...


Ausência forçada

Infelizmente, estando fora do país nas últimas semanas, não foi possível fazer uma cobertura decente da rodada de Wild Card. Eu até consegui acesso suficiente a internet para colocar meus palpites para a semana 17, mas depois disso não tive a oportunidade, e por isso só agora, de volta, que eu vou conseguir retomar o ritmo dos playoffs da NFL. Vamos ver se conseguimos manter o ritmo até o Super Bowl.

A outra coisa é a ausência do prometido Mailbag. Essa tem uma causa mais simples: não recebemos emails suficiente. Apenas duas pessoas mandaram perguntas, então ele foi adiado para outra ocasião - uma ocasião na qual teremos um número razoável de questões para responder e debater.

Então vamos tentar tirar o tempo perdido em relação a essa rodada de WC, começando com....


A verdade indubitável sobre os playoffs da NFL

Eu repito isso sempre que tenho a chance, e cada vez mais é verdade: nos playoffs, qualquer time que chega pode ser campeão. A natureza muito volúvel do jogo e a amostra extremamente pequena dos playoffs faz com que o nível de incerteza seja enorme, e com essa amostra pequena o impacto de diversas coisas pequenas (um quique diferente de bola em um fumble, vento que atrapalha um FG, um drop, etc) assume uma importância muito maior. Por esse motivo eu digo que qualquer time que chega aos playoffs pode ser, de fato, campeão. Não quero dizer, claro, que cada time tem chances iguais de ser campeão quando chegamos nos playoffs - quanto melhor o time, maiores as chances dele ganhar, já que esse tipo de coisa tende a ser aleatória. Mas em geral, ou pelo menos tem sido o caso nos últimos ano, tem vencido não o melhor time mas o time que pega fogo na hora certa e/ou da alguns golpes de sorte.

Se não acredita, é só fazer uma retrospectiva: em 2012, Ravens era o terceiro melhor time da AFC, mas Joe Flacco e Anquan Boldin pegaram fogo na hora certa, o time deu uma meia dúzia de golpes de sorte (a furada do Rahim Moore, a lesão de Aqib Talib, e a falta não marcada na end zone no Super Bowl) para chegar ao título - um ano depois, o time sequer foi aos playoffs. Em 2011, o Giants se tornou o primeiro time 9-7 a vencer o Super Bowl E o primeiro time com saldo de pontos negativos a vencer o Super Bowl, principalmente porque sua linha defensiva teve uma performance dominante (que nunca mais replicou), porque o time recuperou sete fumbles seguidos e porque Kyle Williams retornou alguns punts - eles não foram aos playoffs desde então. O Packers de 2010 só foi aos playoffs porque o Bucs perdeu em casa, em OT, para o Lions sem Matt Stafford na semana 16. Em 2009, o melhor time da NFC de fato venceu o Super Bowl (o Saints começou o ano 13-0 antes de perder as três últimas), mas um em quatro anos não é exatamente uma grande vantagem para os "melhores times da NFL". Você entendeu o sentido: ser bom é muito importante, mas muitas vezes quem vai ganhar o título é aquele time que ficou saudável na hora decisiva, viu alguns fumbles ou erros individuais acontecerem a seu favor, e que aproveitou melhor essas chances. É o eterno "better to be lucky than to be good", ou em um português morfético, é melhor ter sorte do que ser bom.

Um bom exemplo dessa postura nesse final de semana de Wild Card foi o jogo entre Chiefs e Colts. Antes da partida, era difícil dizer qual era exatamente o melhor time, embora muitas métricas colocassem Kansas City como o melhor dos dois. KC teve 0.5 vitórias a mais em termos de Pythagorean Wins, e DVOA colocasse o Chiefs como o sétimo melhor time da temporada regular, enquanto o Colts foi apenas o 13th. Mesmo considerando o final de temporada ruim de Kansas City usando DVOA ajustado, o time ainda se mantém como o nono melhor da NFL, enquanto o Colts cai para 21st.

O jogo, como todo mundo já sabe, terminou com o Colts vencendo por 45 a 44 depois de estar perdendo por 38 a 10, a segunda maior virada da história dos playoffs. Em um jogo decidido por tão pouco e com tantos grandes momentos decisivos, e com tantos pontos, realmente é o mais equilibrado que você chega. E ai você lembra que o Chiefs perdeu seu melhor jogador (Jamaal Charles) na sua primeira corrida da partida, que o time perdeu um dos melhores CBs da NFL (Brandon Flowers) quando o Colts começou sua reação, que Donnie Avery (segundo WR favorito de Alex Smith na temporada) saiu machucado, e que até mesmo Justin Houston não terminou a partida... e começa a pensar que o Colts não deveria ter saído com a vitória em condições normais.

E não deveria mesmo. Isso NUNCA é uma ciência exata, mas em um jogo de um ponto tão apertado como esse, é difícil imaginar que não faria diferença um Charles ou um Flowers saudável. Charles era um candidato a MVP que foi, de longe, o não-QB mais valioso de toda a NFL, um jogador responsável por 32% da produção ofensiva da sua equipe (de longe a maior marca da liga) - quão diferente teria sido o jogo com ele naquele segundo tempo, quando o time tinha uma grande vantagem e iria ficar extremamente satisfeito correndo com a bola ou fazendo checkdowns para gastar tempo e avançar passo a passo? Ao invés disso, Charles estava fora, Knile Davis saiu machucado, e o time não teve confiança para jogar nas costas de Cyrus Gray pelo chão para gastar o relógio. Charles foi segundo colocado em muitas listas para MVP por ai - eu acredito que sua saúde teria feito pelo menos alguma diferença no jogo. O mesmo para Flowers, que embora tenha saído quando o Colts já reagia, é razoável imaginar que teria feito alguma diferença em relação ao seu substituto Dunta Robinson, que tomou bola nas costas o jogo todo. Se ambos os times jogassem toda a partida com os mesmos jogadores que a começaram, Kansas City provavelmente teria ganho.

Mas não jogaram, e KC não venceu. Colts superou algumas perdas próprias, Andrew Luck lembrou no segundo tempo que é um enviado dos céus para completar viradas espetaculares na NFL, e o time jogou com muita raça para completar essa virada espetacular. Porque na NFL, não adianta ser só bom. Você tem que ser bom E dar sorte.


Ter um bom quarterback ajuda

Um dos lugares-comuns dos playoffs diz que as duas pessoas mais importantes em um time na pós-temporada são o quarterback e o técnico. Em geral eu odeio lugares-comum porque eles são uma forma de simplificar as coisas e não pensar sobre elas, o que gera todo tipo de preconceito e erro típico de quem tem preguiça de olhar as coisas direto. Mas esse lugar comum, em particular, é um que eu concordo até certo ponto. Claro, você não PRECISA de um grande QB para vencer - Eli Manning, Joe Flacco e Mark Sanchez tem mais Super Bowls e um record melhor nos playoffs nos últimos 8 anos do que Drew Brees, Tom Brady e Peyton Manning. Futebol é um jogo de 53 jogadores, não de um, e se você tem um grande QB e o resto do seu time é uma droga, você vai continuar não vencendo nada.

O que isso quer dizer, entretanto, é que ter o QB superior te da uma grande vantagem em relação ao seu adversário. Pelo menos nessa primeira rodada de WC, quatro times tinham um QB claramente superior ao adversário: Colts com Luck, Saints com Brees, Packers com Aaron Rodgers, e San Diego com Philip Rivers. Três desses eram considerados zebras em suas partidas... mas três desses quatro times com o QB superior saíram com a vitória. A única excessão foi o Packers, que perdeu do San Francisco 49ers em parte porque Colin Kaepernick vira uma mistura de Joe Montana, Steve Young e Obi-Wan Kenobi quando enfrenta seu time de infância (são três jogos contra GB, 3-0 com 300 jardas aéreas e 100 jardas terrestres de média), e mesmo assim o Niners precisou de uma campanha espetacular nos minutos finais em um jogo onde a grande diferença foram as defesas. SF tem uma linha ofensiva melhor, uma defesa mil vezes melhores, melhores STs, Colin Kaepernick foi o melhor jogador em campo... e mesmo assim foi uma partida extremamente difícil decidida no segundo final.

Um bom exemplo disso foi, de novo, Colts e Chiefs. Nessa partida, se você for olhar estatisticamente, Luck não foi o melhor QB - ele teve dois turnovers a mais que Alex Smith, que teve um jogo brilhante com mais de 400 jardas e 4 TDs. Se for para olhar no vácuo, o Colts venceu mesmo com Luck não sendo o melhor QB da partida. Mas vai ver os highlights daquele jogo, e veja o que Luck precisou fazer no segundo tempo para vencer. Quantos QBs da NFL seriam capazes de fazer isso? Quantos QBs seriam capazes de fazer, bem... isso? Com certeza não Alex Smith, e mais 90% da liga. Luck pode não ter sido o melhor QB ao longo do jogo todo, mas são pouquíssimos os jogadores que seriam capazes de virar esse jogo no segundo tempo como ele fez. Se o QB fosse 1% inferior a Andrw Luck, o Colts não vence a partida.

Então você nunca vai querer descartar os times com grandes QBs. As regras estão DEMAIS em favor deles, e temos QBs particularmente grandes nessa pós-temporada. O Patriots está sem Rob Gronkowski e Sebastian Vollmer no ataque, sem Vince Wilfork, Jerod Mayo e Brandon Spikes na defesa... mas você vai mesmo apostar contra Tom Brady em casa? Claro, o problema agora é que - principalmente na AFC - nós estamos tendo um overload de bons QBs sobrando. Os quatro times da AFC apresentam Pro-Bowl QBs: Peyton Manning (que acabou de obliterar todos os recordes da NFL e vai ser o MVP) enfrenta Philip Rivers (o segundo melhor QB da temporada regular), e Tom Brady (que de alguma forma manteve o ataque funcionando com Julian Edelman como seu principal alvo) recebe Andrew Luck (o melhor jovem QB da NFL e... bem, vocês VIRAM o que ele fez semana passada). Manning e Brady são ainda os melhores QBs dos confrontos, mas a diferença não é tão grande assim mais, e as duas "zebras" possuem dois excelentes QBs próprios que podem pegar fogo e definir o confronto.

Curiosamente, se na AFC temos três grandes QBs veteranos e uma jovem estrela, na NFC temos o contrário. Russell Wilson, Kaepernick e Cam Newton representam a nova geração, enquanto Drew Brees é o veterano e futuro Hall of Famer do grupo. Claro, o Saints não vai ser favorito só por ter o melhor QB - na verdade são zebras por oito pontos - porque Seattle tem um ótimo ataque, defesa espetacular e tudo que você espera do time mais completo da NFC. Mas considerando a diferença que um QB do nível de Brees pode ter em um único jogo, bem, eu também não seria louco de descartar New Orleans nessa partida.


O destino dos times eliminados

Entre os quatro times que depois do final de semana passada assistem os playoffs pela TV, a verdade é que com uma exceção, os times não tem tantos motivos para se sentirem deprimidos ou entrarem em depressão por causa das derrotas. Claro, considerando a natureza imprevisível da NFL e o quão apertados e decididos em detalhes foram os jogos do Wild Card, obviamente que todos eles prefeririam muito ter ganho e continuado na disputa. Mas tirando o Bengals, os outros três times todos tem motivos para estar otimistas e não se sentirem afetados demais pela eliminação.

Dois desses times, Eagles e Chiefs, são times que começaram a se reconstruir nessa temporada depois de um 2012 decepcionante. Trouxeram novos técnicos, mudaram seus elencos, e começaram de novo depois de ambos terminarem na lanterna de suas divisões. E o resultado foi um sucesso: KC venceu 11 jogos depois de só vencer dois um ano antes, Philadelphia venceu a sua divisão e teve o segundo melhor ataque da NFL, e ambos tiveram grande sucesso em seu primeiro ano sob o novo regime. A defesa de KC acabou não aguentando nos playoffs (com ajuda de múltiplas lesões) e o ataque de Philly foi superado por um ataque liderado por um futuro HoF, mas considerando que era apenas o primeiro ano do processo de cada time, acho que vão terminar o ano com a conclusão de que foi um ano extremamente satisfatório. Kansas conseguiu se restabelecer como um time de verdade, e embora diversas lesões tenham afetado demais o time no final do ano e nos playoffs, eles tem talento demais na defesa e Alex Smith se estabeleceu como o QB do futuro da franquia depois de um excelente final de ano. O mesmo vale para Philadelphia: Chip Kelly foi brilhante comandando a equipe e impondo seu ataque veloz, que foi o segundo melhor da NFL mesmo sem ter todas as peças ideais. A defesa jovem foi muito inconsistente ao longo do ano, e o ataque teve seus momentos difíceis, mas considerando que Kelly ainda não teve tempo de reunir os jogadores que deseja ou de entrosar seu time no seu complicado esquema ofensivo, a temporada foi um enorme sucesso: ele provou que seu esquema ofensivo funciona na NFL e conseguiu fazer Nick Foles parecer John Elway. Daqui para frente é questão de reforçar a defesa, achar as peças ofensivas, e correr para o abraço. Lógico que ambos prefeririam um título, mas o saldo foi extremamente satisfatório e o caminho de ambos parece positivo para 2014.

Green Bay não pode falar que está se reconstruindo como os dois, mas considerando as circunstâncias, GB me parece satisfeito (com alguma razão) por ter chegado aonde chegou. Durante a temporada regular, eles perderam o seu melhor jogador, Aaron Rodgers, por SETE jogos. Durante esses sete jogos, seus titulares forem Seneca Wallace, Scott Tolzien, e Matt Flynn. Detroit E Chicago ultrapassaram GB nesse tempo e dependiam das próprias forças para ganharem a NFC North. De alguma forma Detroit perdeu cinco dos seus últimos seis jogos, e Chicago foi incompetente o suficiente para Rodgers voltar ainda a tempo de vencer a divisão. E mesmo que estivesse com Rodgers quando foram derrotados pelo Niners nos playoffs, eles sabiam que era uma tarefa difícil: sua defesa estava sem Casey Heyward e Clay Matthews, e diversos outros jogadores importantes estavam ou machucados ou jogando no sacrifício. Considerando que teriam que jogar sem tantos jogadores importantes o resto do ano, que possivelmente Rodgers ainda não estava 100%, e que foi preciso um pequeno milagre e MUITA incompetência dos rivais só para o Packers chegar na pós-temporada... acho que não tem tanto motivo para tristeza. Eles chegaram mais longe do que deviam com um time esburacado e sem seu melhor jogador, e foram derrubados por um time superior.

O caso do Bengals é um pouco diferente. Sim, eles tiveram múltiplas lesões - na verdade, eles perderam seu melhor jogador de secundária (Leon Hall) E seu melhor jogador defensivo (Geno Atkins) na metade da temporada - mas a temporada acaba como uma decepção muito maior. Mesmo sem Atkins e Hall, a defesa do time se manteve estável, e o ataque - no qual o time investiu recentemente escolhas altíssimas para trazer Gio Bernard, Tyler Eifert, AJ Green e Jermaine Gresham - deveria ter produzido melhor. Ai o time chega nos playoffs contra um inferior time do Chargers, em casa (onde o time estava  8-0)... e apanha de 27-10 com Andy Dalton lançando duas interceptações. Depois de gastar seis escolhas de primeira ou segunda rodada nos últimos quatro anos para fazer esse ataque se tornar um dos melhores da NFL, o time ainda não conseguiu produzir mais do que 10 pontos (e três turnovers) contra a pior defesa da NFL? Não é nada satisfatório. Green Bay e Bengals perderam diversos jogadores por lesão e não eram o time que poderiam ser, mas pelo menos Green Bay sabe que overachieved em uma pool de times muito mais forte, que foi derrotado nos detalhes por um time superior quando estava destruído por lesões, e que enquanto Aaron Rodgers estiver lá, eles vão continuar chegando. Bengals  chegou aos playoffs com tranquilidade contra adversários fracos, foi derrotado com propriedade por um time inferior, viu seu ataque se desmontar e levantou ainda mais questões sobre sua situação de quarterbacks. Ainda que saibam que poderia ter sido diferente com o time saudável, ainda foi uma atuação decepcionante em uma situação que eram os francos favoritos. Eles precisam decidir logo sobre o futuro de Dalton, que mais uma vez foi muito mal nos playoffs (agora são três jogos, um TD e seis interceptações) e tem que fazer isso com um novo coordenador ofensivo. Não tem nada de bom saindo para o Bengals desses playoffs, nenhum consolo nem nada. Só mais dúvidas.

(O que não quer dizer que o Bengals seja um time horrível que deve se reconstruir do zero, a defesa ainda é excelente e o time tem pouquíssimos buracos. Mas esse tipo de atuação é exatamente o que você não pode ficar satisfeito de ver em um time nessa situação)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Aonde cada time se encontra na metade da temporada

Phillip Rivers não gostou do calendário do seu time




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Ao final da nona semana da NFL, chegamos em um ponto interessante: o momento que mais se aproxima, na NFL, da metade da temporada. Claro que, como a temporada tem 17 semanas, não existe realmente um ponto que seja a "metade", mas eu gosto da semana 9 porque é o primeiro momento na temporada onde cada um dos 32 times jogou pelo menos 8 vezes. Alguns poucos jogaram 9, mas não é o importante - o importante é que todos os times já chegaram pelo menos na metade das suas temporadas regulares, e então já começamos a ter uma visão mais clara do que cada time representa no cenário da NFL. Ent ão ao invés de fazer nossa habitual passagem pela rodada destacando os pontos mais interessantes, vamos fazer um giro pelos 32 times da NFL e vamos separar aquilo que nós sabemos sobre eles, a essa altura, e quais as questões que eles enfrentam indo para frente. Alguns, como vocês vão ver, já tem um papel claro na temporada... outros, nem tanto. Só para deixar claro que os times estão ordenados de acordo com as divisões, e não por qualquer critério.

Hoje vamos começar pela AFC, e amanhã passamos para a NFC.


New England Patriots

Se estamos separando entre times que temos uma clara visão das suas habilidades e do seu papel na temporada, e aqueles que não temos nada disso definido, New England seria o segundo. Em parte porque muita coisa vem mudando para a equipe desde o começo da temporada, em parte porque algumas peças cruciais dessa equipe ainda enfrentam muitas questões e alguma instabilidade, e em parte porque mesmo que o time esteja apresentando muitas falhas, nunca é prudente descartar um QB como Tom Brady.

No começo da temporada, parecia que  New England teria que se virar com um ataque cheio de jogadores medíocres, um jogo terrestre inconsistente e compensar isso com sua forte defesa, e foi assim que o time começou bem o ano. Mas agora, que Vince Wilfork e Jerod Mayo estão fora da temporada - e Aqib Talib, um dos melhores CBs da NFL em 2013, batalhando com uma lesão - a defesa se tornou um ponto vulnerável. O time ainda está contando com boas temporadas de jogadores como Devin McCourty (agora jogando de safety) e Brandon Spikes, mas a falta de seu melhor LB, seu pilar defensivo (Wilfork) e o reserva do seu pilar defensivo (Tommy Kelly), esse grupo que começou tão bem o ano agora não está mais passando a mesma segurança: o time está cedendo 5.4 jardas por corrida desde que Wilfork se machucou e tem tomado alguns sufocos de ataques medíocres como Jets, Steelers e Dolphins (embora esse tenha durado só um tempo). Eles ainda possuem bons jogadores e não serão uma peneira no restante da temporada, mas está deixando de ser uma unidade na qual um ataque mediano poderia se apoiar para se tornar um grupo capaz de ser explorado por um adversário competente.

O problema é que ofensivamente, New England também enfrenta algumas questões. Antes de mais nada, o time tem apenas dois recebedores confiáveis no ano, e os dois enfrentam diversos problemas de lesão, Rob Gronkowski e Danny Amendola. Quando saudáveis, o ataque do time pode render muito bem, mas é difícil confiar que ficarão saudáveis até o fim do ano quando nenhum deles conseguiu esse feito nos últimos dois anos. Também atrapalha o fato de que Tom Brady está tendo a pior temporada da sua carreira e dando alguns sinais da idade: mesmo depois de um excelente jogo contra o horrível Steelers (que fez Matt Cassell parecer competente), Brady ainda está com as piores marcas da carreira em aproveitamento (57.1%), TD% (3.8%), Rating (82) e QBR (56.9, embora essa estatística só exista desde 2008), e a segunda pior marca da carreira em jardas por passe (6.6), pior desde 2002. Se desconsiderarmos tudo que sabemos sobre o grande QB que Brady é, esses números são realmente bem fracos, tirando seu QBR e seu bom índice de interceptações (1.8%). Mas ele ainda é Tom freaking Brady, e nunca é prudente descartar um jogador desse calibre como velho ou ineficiente - ele ainda pode vencer um jogo se estiver em um dia bom. Mas sua tarefa será muito mais complicada se Gronk e Amendola voltarem a perder jogos, especialmente com Sebastian Vollmer, o melhor jogador da linha ofensiva, fora da temporada. 

O Patriots ainda é o favorito para vencer a divisão e ir com folga aos playoffs, especialmente com um calendário favorável (depois de enfrentar Panthers e Broncos voltando de bye, não tem um adversário acima de 50% no caminho deles), mas essas questões podem ser mais significativas chegando nos playoffs contra competição mais acirrada. Muita incerteza ainda pela frente para New England, embora quando sua incerteza envolve "praticamente garantido nos playoffs", isso não é necessariamente uma coisa ruim.


Miami Dolphins

Quando o Dolphins venceu seus três primeiros jogos, eu avisei que era uma possível pegadinha: o último time a vencer seus três primeiros jogos tendo menos jardas do que o adversário em cada um dos três foi o Cardinals do ano passado, que venceu quatro assim antes de perder 10 seguidos. E embora o Dolphins fosse um time melhor que o Cardinals, eu achei que logo iriam regredir. Dito e feito, 4 derrotas depois o time parecia ter voltado ao normal antes de uma boa vitória sobre o Bengals.

Ainda que a 4-4 o time esteja em uma boa posição para sonhar com o segundo Wild Card na AFC, 0.5 vitórias atrás do atual detentor do posto (5-4 Jets), eu não gosto do prognóstico desse time para o resto da temporada. Entre os 12 piores ataques E defesas da NFL antes da rodada começar, o Dolphins não me parece ser o time capaz de executar alguma função em alto nível na temporada, e isso antes de entrar nas questões relativas a bagunça que está a organização nesse momento, com um jogador fora do time por questões pesadas de bullying e abuso por parte dos colegas e outro suspenso enquanto é investigado por estar envolvido no abuso a esse companheiro de time (inclusive o uso de ameaças físicas e insultos raciais). Isso não só tirou dois OL titulares da equipe (de uma unidade que já era ruim) como piora enormemente o clima no local, não só questionando a liderança do fraco técnico Joe Philbin como expondo também os diversos problemas internos da organização em um time que parece tudo, menos coeso. O time parece ter cânceres demais (incluindo o melhor jogador que sobrou na OL, Mike Pouncey, que inclusive foi questionado pelo FBI por sua campanha "Free Aaron Hernandez") para resolver tudo de uma vez, e isso não vai facilitar a vida de um time que já era mediano antes desses problemas acontecerem. Não tem nada que me deixe menos confiante do que um vestiário em ruínas e sem nenhum tipo de união entre jogadores e comissão técnica.

E ainda mais preocupante do que isso tem sido a atuação do QB Ryan Tannehill, que deveria ser o Franchise QB do time mas que está tendo um ano muito ruim. Seus números como passadores são bem fracos - 60.2%, 6.8 Y/A, 11 TDs contra 9 Ints - mesmo antes de considerarmos que Tannehill lidera a NFL com 35 sacks (!!!) e 8 fumbles sofridos em 8 jogos (!!!!!!), números horríveis para qualquer jogador. A linha ofensiva muito ruim da equipe sem dúvida contribuiu para isso, mas Tannehill simplesmente não mostrou nenhuma habilidade para ganhar tempo no pocket, criar separação ou fazer jogadas em movimento, e muito menos de proteger a bola quando sofre contato. Seu QBR de 38 é o 31st entre 39 QBs qualificados, o que também é um péssimo sinal para seu QB segundo-anista. Tannehill vai precisar melhorar e muito - com uma linha ainda mais desfalcada - se quer levar o time aos playoffs.


New York Jets

O Jets é o time mais bipolar e de maior variação na NFL nessa temporada, mesclando jogos excelentes contra bons times (boas vitórias contra Patriots e Saints) com derrotas para Steelers e o massacre de 40 pontos contra o Bengals semana passada. Então enquanto o record de 5-4 e as vitórias contra Pats e Saints mostram que esse é um bom time, é difícil confiar em uma equipe que parece brincar de Dr. Jekyll e Mr. Hyde a cada semana. A defesa é muito sólida e Muhammad Wilkinson evoluiu em um dos melhores DTs da NFL, então o time tem boas chances de ver sua defesa ganhar alguns jogos, mas o ataque...

O ataque é liderado pelo jogador mais volúvel da NFL, Geno Smith, que tem dois jogos com QBR acima de 75 (Bills e Falcons) e três outros abaixo de 10 (além de um 14 e um 15). Considerando que a métrica vai de 1 a 100 com 50 sendo o "médio"... hmm... yeah, isso é meio complicado. A verdade é que Geno Smith tem sido um QB ruim na sua temporada de calouro: 58.1% de aproveitamento, 7.3 jardas por passe, e mais interceptações (13) do que TDs (8) por uma considerável margem. E embora ele ganhe valor pelas suas pernas, isso não necessariamente tem sido vantajoso para a equipe: ele não tem uma boa noção de quando correr e quando não, o que gera um número enorme de tackles antes de ganhar alguma coisa significativa e de fumbles. Em geral, seu QBR de 30 indica que ele tem sido mais um problema que uma vantagem ao time nesse começo de ano, e embora seus bons jogos mostrem que ele possui potencial, ele não tem conseguido fazer isso sobressair as suas limitações, e isso limita o potencial do time.

O Jets também é um forte candidato a regressão: seu record de 5-4 esconde um Pythagorean Expectations de 3-6, e um record de 5-1 em jogos decididos por uma posse de bola, o que obviamente são fatores imensos para regressão. Tem fatores demais agindo no sentido de regressão para o Jets, e a não ser que Geno possa começar a ser mais consistente, esse time não vai conseguir se salvar só com a defesa.


Buffalo Bills

O Bills, por outro lado, era para ser um time interessante que foi destruído por lesões. Mesmo perdendo seus dois melhores jogadores de secundária para os primeiros seis jogos da temporada em Stephen Gilmore e Jairus Byrd, o time ainda manteve uma das melhores defesas da NFL nesse começo de temporada, 7th em DVOA antes dessa rodada. Sua linha de frente, em particular, é muito forte, com Marcell Dareus finalmente virando uma força contra o jogo terrestre e Mario Williams fazendo jus ao seu contrato imenso com 11 sacks. Além disso, o time draftou o excelente Kiki Alonso para solidificar o meio da sua defesa, e tinha tudo para aproveitar essa unidade com o Jets fez rumo a uma boa temporada.

Mas as lesões destruíram a temporada do Bills: Byrd e Gilmore perderam muito tempo e impediram que essa defesa fosse ainda melhor, e mais importante, as lesões transformaram a situação do Bills - que deveria ser abaixo da média mas pelo menos estável - em uma zona: EJ Manuel jogou apenas quatro jogos e meio antes de sair com uma lesão no joelho, e se seu QBR de 42 não era espetacular e mostrava como ele ainda tnha muito a evoluir, os dois jogadores que entraram no seu lugar (Thaddeus Lewis e Jeff Tuel) possuem QBRs de 19 e 9, respectivamente. É difícil dizer se com EJ Manuel o time estaria em uma situação melhor, mas é impossível ser um bom time quando seus QBs não conseguem passar de 20 em QBR. O time também teve que enfrentar o segundo pior calendário da NFL, o que não ajudou. Bills é um time que já começa a pensar ano que vem, mas pelo menos a base é boa.


Cincinatti Bengals

O Bengals dos últimos anos vinha sendo aquele time que é estável, regular, mas não espetacular: antes da temporada, a expectativa era de mais um ano com um ataque mediano, com um QB muito mediano em Andy Dalton e um jogo terrestre inconsistente, liderado por uma defesa sólida mas que não iria manter o mesmo ritmo porque era de se esperar alguma regressão por parte do Geno Atkins, que apesar de se solidificar como um dos melhores defensores da NFL não iria ser capaz de repetir o ano de 2012. E em geral, eu acertei... a defesa realmente foi boa, apesar de Atkins ter regredido um pouco (e se mantido como um All-Pro DT, claro), e o ataque evoluído um pouco porque Dalton estava jogando melhor, então o Bengals era basicamente o time que eu esperava antes da temporada só que um pouco melhor em cada área. Em um ano onde a AFC está bastante equilibrada, eu estava começando a achar que o Bengals era um time que poderia entrar na briga entre os candidatos ao Super Bowl com um ou dois golpes de sorte ao longo do ano.

E aí os dois melhores jogadores defensivos da equipe, Leon Hall e Atkins, se machucaram e estão fora da temporada. Um abraço para o time que começava a aparecer como um possível candidato ao título. Ainda assim, é cedo para descartar o Bengals, já que a sua vaga nos playoffs parece garantida em uma divisão bem fraca, e a defesa ainda é uma boa unidade. Andy Dalton está tendo a melhor temporada da sua carreira, especialmente nas bolas longas, e Gio Bernard tem se mostrado um bom RB. Mas a perda de dois dos seus três melhores jogadores em Hall e Atkins diminui consideravelmente o teto desse time e o mantém um nível atrás do escalão de topo da AFC.


Cleveland Browns

Mantenho o que disse antes da temporada e no começo dela: o Browns seria um time de playoffs com um bom QB. Eles estão 4-1 nos jogos começados por Brian Hoyer e Jason Campbell - dois QBs medianos - e 0-4 nos jogos começados pelo ruim Brandon Weeden. Eles precisam urgente de um jogo terrestre, mas possuem dois excelentes recebedores em Josh Gordon e Jordan Cameron e sua defesa cede apenas 3.8 jardas por corrida e 5.1 jardas ajustadas por passe.

Felizmente para eles, o time se encontra em uma situação excelente nesse respeito, já que o time possui duas escolhas de primeira rodada no que deve ser um draft extremamente lotado de talentos na posição de QB, sem falar que podem juntar essas duas escolhas em um pacote para subir e pegar Marcus Mariota ou Teddy Bridgewater. A troca com o Colts foi um sucesso - Trent Richardson só comprovou ser horrível e o time faturou uma escolha de primeira rodada no processo - e o Browns se coloca em uma boa posição para o futuro com múltiplas escolhas e jovens talentos. O time ainda sonha com uma vaga nos playoffs via Wild Card, mas o foco do time é no futuro.


Baltimore Ravens

Lembra na pré-temporada quando eu falei que o Ravens ia regredir em relação ao ano passado, que vencer o SB não garante nada para o ano seguinte e que era improvável que Joe Flacco se mantivesse como o jogador espetacular que foi nos playoffs, e que levou muitos torcedores do Ravens a me xingar, me chamar de "hater" e coisas do tipo? Pois é...

O Ravens na verdade tem o saldo de um time 4-4, então eles não tem realmente sido tão ruim quanto o record indica. A questão é que eles também não tem sido bons: a defesa é sólida e acima da média, se aproveitando do bom trabalho do GM Ozzie Newsome na offseason, mas o ataque... argh, esse ataque é uma atrocidade. Joe Flacco está tendo seu pior ano desde a temporada de calouro, com seu aproveitamento e jardas por passe decaindo, quase tantas interceptações (9) como TDs (10), e um QBR abaixo dos 50. Alguns dos fatores já foram muito explorados ao longo do tempo aqui, como o jogo terrestre e a falta de um WR confiável depois das saídas de Anquan Boldin e lesão de Dennis Pitta que exploramos no nosso mailbag, mas o fato é que esse ataque simplesmente não é bom o suficiente para assustar ninguém indo para frente, especialmente sem uma defesa de elite. Eu também não acho que exista uma solução fácil para o time esse ano: a linha ofensiva está horrível, Ray Rice de repente parece ter 38 anos, e Flacco não estava pronto para receber essa responsabilidade adicional de ser o centro do ataque. Ainda é cedo na temporada para desistir dos playoffs, e o Ravens sabe melhor do que ninguém (tirando talvez o Giants) que chegando nos playoffs quase qualquer time pode ganhar o SB com alguns golpes de sorte e um QB pegando fogo na hora certa, mas é um time que vai ter dificuldade com esse ataque, tendo em vista as boas defesas ainda no caminho do time.


Pittsburgh Steelers

Uma tabela difícil, uma onda de lesões (que levou parte da linha ofensiva, seu RB por três jogos e mais algumas peças importantes da defesa) e um time que está passando por uma reconstrução. Esses três fatores, combinados, fizeram do Steelers uma das piadas de 2013, com 2-6 de record e a façanha de ter perdido do Vikings. Olhando para 2013, é difícil vislumbrar alguma luz no fim do túnel para a equipe: o calendário fica ainda mais difícil indo para frente, o jogo terrestre é uma perdição (3.5 YPC) e não tem como recuperar disso sem a volta de jogadores como Maurkice Pouncey e David DeCastro (que ainda pode voltar esse ano). O único consolo do time é ainda ter um grande QB que consegue executar com seu braço de canhão, mas de pouco adianta isso se ele não consegue lançar a bola sem um defensor pendurar no seu cangote. O ano praticamente acabou para o Steelers.

A forma desse time dar a volta por cima, principalmente, é dar tempo ao tempo. O time começou a remontar seu time em 2013 depois de anos de estabilidade, e não é possível achar que tudo vá ser fácil assim. Recentemente, o time investiu pesado no draft para reforçar sua linha ofensiva, que ainda não deu resultado porque ninguém consegue ficar saudável, mas um pouco de sorte nesse quesito pode acabar rendendo uma OL dominante  - como aconteceu por exemplo com o 49ers, outro time que investiu pesado na sua OL via draft e passou por lesões no começo antes de explodir em 2012. A defesa, tão ruim em 2013, perdeu alguns jogadores veteranos na offseason e viu caras como Larry Foote e Sean Spence perderem muito tempo com lesões, o que atrapalhou ainda mais essa transição do time. Esse tipo de coisa demora, e não é de se estranhar o começo ruim. O ataque eventualmente vai se estabilizar com mais saúde e mais tempo para os jovens jogadores evoluirem, e a defesa também vai seguir seu curso. Especialmente com uma escolha alta vindo aí no próximo draft.


Indianapolis Colts

Eu já escrevi um texto muito maior e mais completo sobre o Colts, então recomendo ele já que ele vai aprofundar muito mais do que eu poderia em dois ou três parágrafos aqui. Mas tudo que eu escrevi continua relevante: o Colts é um time extremamente divertido que conta com um QB de elite e um jogo terrestre decente (que seria muito melhor se o time parasse de dar tantas corridas para o fraco Trent Richardson), junto de uma defesa razoável, para liderar sua divisão sem sinais de que vai parar. O time acumula vitórias contra Broncos, 49ers e Seahawks, e Andrew Luck evoluiu de calouro promissor para um dos melhores titulares da NFL esse ano. E uma coisa que você nunca quer fazer nos playoffs é descartar um time com um QB de elite. Se o time estivesse completo, seria um dos favoritos ao Super Bowl.

O problema para o Colts é a perda de Reggie Wayne, o segundo melhor jogador do ataque e o alvo de confiança de Andrew Luck. O Colts foi um time melhor em 2013 quando focou no passe com Luck, e Wayne era o alvo favorito do seu quarterback, o tipo de jogador que atrai dobras, mudanças na marcação e ainda acaba com 7 recepções e 100 jardas, liberando todo mundo. E o Colts optou por não fazer nada nessa deadline, mantendo o elenco como está, e a não ser que TY Hilton continue pegando 3 TDs por jogo, o Colts vai sofrer uma queda no seu jogo aéreo. A tabela facílima e o brilhantismo de Luck serão suficientes para garantir o time nos playoffs, mas a lesão de Wayne altera consideravelmente o que esperar desse time indo para frente, especialmente quando enfrentar uma defesa de elite. Eu particularmente espero que o Colts continua ganhando, pois é um dos times mais legais de se assistir em toda a NFL.


Tennessee Titans

Apesar de alguma regressão ser inevitável para um time que recupera 75% dos fumbles, uma figura que fica em torno dos 50% com uma amostra maior, e de possuírem o quarto pior Special Teams da liga, o Titans é um time interessante que também briga por aquele segundo wild card, e que pode até sonhar com um título de divisão caso o Colts acabe sentindo demais a falta de Wayne. Não acho o Titans o melhor time na briga por essa eventual segunda vaga do WC, mas as chances são interessantes quando consideramos que o Titans ainda enfrenta o Jaguars duas vezes, mais Oakland e depois Texans e Cardinals em casa. O Titans também ainda enfrenta duas vezes o atual líder da AFC South, o Colts, o que pode acabar sendo importante na hora de determinar o campeão da divisão. O Titans ainda está muito vivo na competição.

O problema do Titans é ser aquele time que faz tudo bem e nada de forma excelente. A defesa é boa e acima da média, 15th em DVOA e tem alguns jogadores jovens e em evolução (em especial o CB Alterraun Verner) capazes de fazerem jogadas que mudam o rumo da partida, mas também são um pouco propensos a falhas de comunicação ou de cobertura, as vezes comuns nesse tipo de time jovem. O ataque é uma montanha russa, cujo jogo terrestre tem apenas 4 jardas por corrida mas parece ter muito mais jogos com 2 e 6 YPC do que jogos com realmente 4. Jake Locker está tendo uma boa temporada quando saudável, mas ainda não é o tipo de QB capaz de ganhar jogos sozinhos, e por isso o ataque do Titans também aparece como um grupo mediano ou pior na temporada. A vantagem do time é que eles são razoavelmente completos, e não possuem uma grande fraqueza a ser explorada. Três das suas quatro derrotas também vieram contra bons times, no caso Chiefs, 49ers e Seahawks, embora valha citar que o Titans foi inferior nas três partidas, em especial no massacre que tomaram do 49ers (anotando dois TDs em garbage time contra a defesa reserva). Então eles basicamente são aquele time all-around que faz de tudo um pouco e possui poucas falhas mas que não tem o talento para bater de frente com os favoritos, e que enfrentam um calendário bastante favorável. Me parece uma receita interessante. Um time a ficar de olho nessa segunda metade.


Houston Texans

Com 2-6 e um calendário que ainda inclui Colts fora de casa, Broncos e Pats em Houston, a temporada parece estar indo pelo ralo para o time que vem de seis derrotas seguidas - depois de vencer milagrosamente dois jogos que deveria ter perdido. O Texans não deveria ser tão ruim, considerando que tem uma boa defesa com o melhor jogador defensivo do mundo em JJ Watt (ainda que muito desfalcada por lesões), mas o ataque (e os special teams) tem sido atrozes. Tão atroz o ataque que o time acabou mandando para o banco seu titular, Matt Schaub, e promovendo para titular um calouro não draftado chamado Case Keenum que ninguém tinha ouvido falar antes da semana 6.

Na verdade, se a temporada do Texans realmente foi por água abaixo, Keenum e a questão do QB se tornam o ponto central da temporada e da offseason que se aproxima. Como eu já escrevi anteriormente em mais detalhes, essa é a hora do Texans definir se para o futuro Schaub ainda pode render, ou se eles precisam ir em outra direção. No segundo caso, o ideal seria dar a Keenum a titularidade até o final do ano para poderem ver exatamente o que eles possuem no garoto, e se ele pode ser o titular do futuro ou se é hora de investir no draft. Até aqui Keenum tem impressionado, especialmente depois da grande partida contra o Colts, mas não é possível julgar um jogador por apenas um ou dois jogos (Matt Flynn e Kevin Kolb, alguém?), então esse vai ser o ponto focal do Texans para o resto do ano. O Draft de 2014 tem QBs saindo pela janela, mas se estiverem convencidos de que Keenum é a resposta na posição, isso permite ao time ir em uma direção diferente. 


Jacksonville Jaguars

A lista de afazeres do Jaguars até o final da temporada tem dois itens: a) Evitar terminar o ano como o pior time de todos os tempos; b) Decidir entre Teddy Bridgewater e Marcus Mariota para a primeira escolha do próximo draft.


Denver Broncos

O quão irônico é que o Broncos pode terminar o ano 14-2 e ficar apenas com a 5th seed do draft? Isso por causa do Kansas City Chiefs, ainda invicto, e do regulamento da NFL que diz que mais importante do que o record da equipe é se ela venceu uma divisão ou não (um regulamento que eu não gosto, pois premia times que tem sorte de jogar em uma divisão inferior. Veja Seahawks vs Chiefs em 2010 para os detalhes). Claro, improvável que tanto Chiefs como Broncos vençam todos seus jogos até o final do ano (e dividam a série entre eles), mas enfim, é só um exemplo.

A verdade é que o Broncos é um time complicado, um time excelente que lidera a NFL em eficiência e que possui um dos melhores ataques da história do jogo, mas que apresenta algumas falhas preocupantes que tem sido exploradas pelos adversários com algum proveito. Em particular, o time tem um ataque espetacular centrado no jogo aéreo: Peyton Manning está tendo talvez a melhor temporada da sua incrível carreira, conduzindo um ataque do Broncos lotado de grandes opções de recebedores de forma magistral, com três recebedores caminhando para passarem das 1000 jardas na temporada e talvez até um quarto se Julius Thomas voltar de lesão logo, e com 3 dos 10 jogadores que mais receberam TDs essa temporada no mesmo time. É extremamente difícil segurar esse ataque aéreo, e embora a falta de força no braço de Manning seja uma preocupação contra defesas mais físicas capazes de dominar a linha de scrimage, é difícil demais segurar Wes Welker, Thomas, Demaryus Thomas e Eric Decker ao mesmo tempo. Ainda que seja difícil manter o ritmo de um ataque aéreo - especialmente um de um QB sem muita força no braço e cujos passes precisos dependem do toque perfeito que ele coloca na bola - no frio de Janeiro e Fevereiro, onde a bola é mais dura, os dedos possuem menos firmeza e o braço perde força, esse time é bom demais e tem opções demais para não ser considerado uma força. Os jogos contra o Chiefs, uma defesa extremamente física, serão um bom teste para esse ataque.

O problema do time é a defesa, onde a secundária horrorosa da equipe já foi explorada por diversos adversários. A volta de Von Miller adicionou ao time um muito bem vindo pass rush, já que diminuir o tempo do adversário para achar um WR livre é crucial quando sua secundária não é boa. Então isso já ajuda, mas o time tem sido extremamente vulnerável contra o passe, como Cowboys e Colts deixaram claro. Ainda que a proficiência do ataque seja suficiente para compensar com sobras essa defesa suspeita, é uma fraqueza gritante que ficará mais significativa quando a competição (fraca até agora) endurecer no final da temporada. Mas isso não muda que esse é um excelente time, com um QB Top10 historicamente jogando de forma brilhante, e que vai aos playoffs seja por título de divisão ou Wild Card e que ninguém vai querer cruzar na pós-temporada.


Kansas City Chiefs

Outro time que eu escrevi recentemente e cuja análise ainda é bem atual. Apesar de invictos em 9-0, o Chiefs tem levantado muitas dúvidas sobre o quão bom ele realmente é, considerando sua tabela extremamente favorável e seu record de 4-0 em jogos decididos por uma posse de bola. Entre os 14 times que começaram a temporada 9-0 desde a fusão entre NFL e AFL em 1970, o Chiefs tem o pior saldo de pontos entre todos eles com 104. Isso pode indicar que o time não é tão bom quanto o record indica ou outros times que atingiram a mesma marca... mas também vale citar que entre esses 13 acima do Chiefs, os cinco piores foram todos ao Super Bowl e quatro foram campeões. Então tem isso também. No fundo, não quer dizer muita coisa.

As dúvidas sobre o Chiefs como legítimo juggernault passam pelo seu ataque, que basicamente opera na média da NFL nas costas de Jamal Charles, segundo na NFL com 725 jardas corridas e um NFL-best 1125 jardas de scrimage (ou seja, correndo e recebendo). Basicamente um ataque conservador que corre com a bola, protege seu QB de passes difíceis e vence a batalha dos turnovers e da posição de campo. Então entendo as dúvidas de um time cujo ataque é apenas o 16th da NFL em DVOA, com as pessoas se perguntando se ele vai ser capaz de gerar pontos o suficiente contra defesas melhores nos playoffs para chegar ao título... e é uma questão válida. Só tenha em mente que ela não é conclusiva: Ravens foi apenas o 13th ataque ano passado, por exemplo, e todo mundo sabe o que aconteceu nos playoffs.

A questão é que Kansas City tem a melhor defesa da NFL, e não é nem apertado. Por mais aleatoriedade que exista em TDs defensivos, tente digerir a seguinte informação: a defesa do Chiefs tem quase tantos TDs (6) como o time inteiro do Jaguars (7) e tantos TDs como o Vikings tem TDs aéreos. Essa defesa é praticamente um ataque em seu próprio mérito dada sua capacidade não só de segurar o adversário e evitar pontos (apenas um time cedeu menos pontos e ele tem um jogo a menos) como também de forçar turnovers, anotar TDs e dar grandes posições de campo para o time. Então se o ataque deixa a desejar, essa defesa é praticamente uma máquina que joga sozinha se precisar, e não tem problema seu ataque ser apenas decente se sua defesa é desse calibre. Ainda que o record de 9-0 esteja vindo no vácuo de uma tabela ridiculamente fácil e alguma sorte, isso vai mudar: Broncos (2x), Chargers (2x) e Colts estão no caminho do Chiefs. Ainda que seja difícil tirar Kansas City dos playoffs a essa altura, esses jogos serão excelentes testes para ver o quanto estrago KC pode causar em Janeiro ou Fevereiro.


San Diego Chargers
A tabela é tudo menos favorável - dois jogos contra Chiefs, dois jogos contra Broncos, mais Bengals - e por isso é possível que acabem ficando de fora, mas queria deixar isso claro: para mim o Chargers é o melhor time brigando pela segunda vaga do WC. Mesmo a 4-4, o time poderia muito bem estar 7-1, com um pouco de sorte, considerando que uma das suas derrotas veio em OT contra o Redskins (ou seja, um cara-ou-coroa faria a diferença, ou pelo menos mais agressividade do seu técnico em uma 4th-and-1 decisiva) e duas outras vieram em milagres nos segundos finais contra Texans (inclusive uma pick-six decisiva) e Titans (quando Locker teve uma interceptação dropada nos segundos finais antes de completar o passe de TD da vitória). A 7-1, o Chargers provavelmente seria uma garantia para ir aos playoffs, mas 4-4 é mais difícil, especialmente considerando esse calendário dos infernos.

Mas o Chargers é um excelente time, mesmo que sua defesa tenha de repente esquecido como jogar seu melhor futebol americano e esteja sendo uma das piores unidades da NFL. E isso acontece porque seu QB voltou a jogar como um cara de elite: tirando Peyton Manning e talvez Andrew Luck, Phillip Rivers tem sido o melhor quarterback da NFL. O ex-Pro Bowler está completando obscenos 72.2% de seus passes para ainda mais obscenas 8.4 jardas por passe, duas marcas que deveriam ser proibidas de acontecerem juntas considerando que para ter tantas jardas por passe você normalmente precisa fazer muitos passes longos, que por sua vez possuem aproveitamento inferior. Seu QBR de 75.4 é o segundo melhor entre QBs qualificados atrás apenas de Manning, e isso antes de lembrar que seus dois melhores WRs estão fora da temporada desde a semana 2. Isso faz do Chargers o segundo melhor ataque aéreo da NFL (por uma margem considerável e bem próximo do líder Broncos), e o terceiro melhor geral considerando um jogo terrestre decente. 

O problema é que esse ataque destruidor não tem, como dito, encontrado respaldo na defesa. Ainda que tenha feito um bom trabalho evitando pontos, ela é a pior defesa da NFL inteira forçando turnovers, com apenas 5, nas costas de quatro interceptações apenas da sua secundária. A parte boa é que isso deve regredir, já que essa incapacidade de forçar turnovers está associada a uma taxa de 15% recuperando fumbles, de longe a pior da NFL e totalmente insustentável indo para frente. Então é razoável supor que os fumbles vão começar a favorecer um pouco mais San Diego, e que com mais turnovers, esse grupo pode voltar a ser pelo menos mediano para sustentar esse ataque destruídor. Eu não sei se San Diego vai aos playoffs com essa tabela, mas é o melhor time da AFC que briga pela segunda vaga do WC.


Oakland Raiders

Para um time que tem quase 20% da sua folha salarial dedicada a jogadores que nem sequer estão mais na equipe, seu 3-5 não me parece ruim. Claro, seu Pythagorean Expectation está abaixo disso e DVOA coloca o time como o quinto pior da NFL na temporada, mas qual o problema? Não é como se o Raiders tivesse expectativas para esse ano, o time ainda está passando por um processo de desintoxicação depois de gestões passadas muito ruins e se preparando para começar a remontar para o futuro. Considerando que esse é o ponto onde as coisas estão para Oakland, eles estão se saindo muito bem essa temporada, com alguns jovens jogadores (em especial Lamarr Houston) se destacando defensiva e Terrelle Pryor emergindo como um QB pelo menos muito divertido de assistir e que pode ganhar uma segunda chance em 2014 se continuar assim. Basicamente, em uma temporada que deveria ser irrelevante e ruim, o Raiders pelo menos está mostrando alguns pontos interessantes e vencendo jogos com ajuda do seu bom mando de campo. Para um time que ainda está a alguns anos de ver sua reconstrução terminar, é algo animador.



AMANHÃ (QUARTA-FEIRA) SAI A SEGUNDA PARTE COM OS TIMES DA NFC!!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A ressurreição do Kansas City Chiefs

"Um QB que sabe acertar passes? Tem certeza?"
"Ouvi boatos mas nunca tinha visto um ao vivo em KC"


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Existem poucas coisas no mundo que mudam mais rápido do que a NFL. Muito poucas. A amostra é tão pequena e o jogo tão dependente de pequenos detalhes que jogadores explodem ou deixam de ser eficientes (o mesmo vale para times) sem que a gente perceba, e só perceba quando é tarde demais. Por exemplo, todos sabemos como a NFL está agora em termos de times bons e ruins, times que venceram e times que perderam, e tudo mais. Bom, então vamos dar uma rápida olhada em como a NFL estava um ano atrás, ao final da quarta rodada da temporada regular?

Bom, vejamos... O Saints perdia para o Packers e começava a temporada 0-4... O Titans era massacrado pelo Texans e caia para 1-3... o Cardinals ganhava sua sexta partida seguida (contando a temporada anterior) para começar o ano 4-0... Falcons arrancava uma vitória em casa contra o Panthers na incompetência do Ron Rivera (algumas coisas nunca mudam) para abrir o ano 4-0... o Browns perdia do Ravens para ficar 0-4... o Patriots ganhava do Bills para chegar a 2-2... Seattle perdia do Rams para começar 2-2 e a mídia pedia Matt Flynn de titular e Russell Wilson no banco... e claro, o Kansas City Chiefs perdia em casa para o Chargers e caia para 1-3.

Bom, todos nós sabemos como a temporada terminou para esses times e como a temporada 2013 começou, e é verdadeiramente fascinante imaginar que apenas um ano depois o Falcons estaria começando o ano 1-3, o Saints 4-0, e claro, o Chiefs 4-0 também. Como eu disse, faz parte da natureza da NFL, onde pequenas coisas - que muitas vezes só percebemos quando acontecem - acabam fazendo um mundo de diferença.

E entre todas as grandes mudanças de equipes de 2012 para 2013, nenhuma é mais incrível e ao mesmo tempo menos surpreendente do que a do Kansas City Chiefs, que terminou o ano 2-14 e com a primeira escolha do draft apenas oito meses atrás, e agora está invicto e forte candidato a uma vaga nos playoffs. Então o que exatamente aconteceu entre esses dois pontos para causar tamanha mudança?

Quando eu comecei minha série de previews, cujo foco era procurar em estatísticas diferentes eventuais indicadores de que o record final de uma equipe não refletia o seu verdadeiro nível de performance (usando por exemplo Pythagorean Expectations e jogos decididos por uma posse de bola), o Chiefs era um dos times que mais me interessava e um dos times que eu mais esperava que fosse encontrar um nível de produção que não fosse condizente com seu horrível record final de 2-14. Afinal, apesar da horrível situação de QBs da equipe, o Chiefs ainda contava com seis Pro Bowlers no seu elenco, uma defesa cheia de grandes talentos e um dos melhores RBs da NFL. Não fazia sentido nenhum que a equipe fosse tão ruim tendo tantos jogadores bons. Então eu estava crente que iria encontrar muitos indicadores aleatórios influenciando o record da equipe.

Não foi o caso. Por qualquer métrica usada, o Chiefs foi o time horroroso que pareceu ser: o ataque foi o segundo pior da liga, e a defesa a terceira pior. O time teve a pior eficiência ajustada, o pior saldo de pontos E o menor Pythagorean Wins (2.5) de toda a NFL. Tudo indicava que o time era simplesmente ruim. Mas eu não estava satisfeito com isso, não com tantos grandes talentos dos dois lados da bola na equipe e com o upgrade para Andy Reid e Alex Smith nas posições de HC e QB, respectivamente. Por isso que o preview do Chiefs foi o único que eu ignorei totalmente estatísticas e minhas métricas e fui de acordo com o meu feeling e minha experiência no assunto quando sugeri que seria um bom time e que brigava por uma vaga nos playoffs. Se toda regra tem uma exceção, nesse caso só podia ser o Chiefs.

Agora que a equipe começou o ano 4-0 e com o terceiro melhor saldo de pontos da NFL, posso falar que de fato eu acertei nessa. Ainda assim, é difícil explicar exatamente porque esse time, com apenas algumas poucas mudanças significativas, foi tão ruim em 2012 se o talento estava lá para gerar seis Pro Bowlers. A solução fácil seria atribuir isso ao péssimo desempenho dos QBs da equipe e do ataque que levou para o fundo do poço todo o time, e embora isso tenha uma grande parcela de culpa, não justifica porque a defesa também terminou o ano tão mal mesmo com quatro PBs. Talvez o péssimo desempenho ofensivo tenha desanimado e tirar o esforço dos demais jogadores. Talvez tenha sido apenas uma temporada onde tudo deu errado. Talvez um pouco de todos. Só sei que o talento estava lá, e com a mudança de comando e mesmo de ares lá em Kansas City, era de se esperar que esse talento aflorasse.

A mudança da água para o vinho nesse time começou com a chegada lá do grande (enorme!) Andy Reid. Reid claramente estava com a relação desgastada na Philadelphia, cometendo muitos erros e precisando urgente de uma mudança de ares. Mas ele é também um técnico experiente e inteligente, que sabe como tirar o máximo de seus jogadores. E Reid, desde o primeiro momento, soube exatamente o que ele tinha nas mãos e o que tinha que fazer para o time funcionar. Ele sabia que Alex Smith era um sólido quarterback com um conjunto específico de habilidades, mas que não conseguia desequilibrar jogos sozinho como Drew Brees ou Aaron Rodgers. MAs ele também sabia que, seguindo o manual do Jim Harbaugh em San Francisco, ele tinha as peças exatas para fazer Smith funcionar ao máximo de suas capacidades. Então Andy Reid prosseguiu para montar esse time como uma réplica muito boa do 49ers de 2011 que quase chegou ao Super Bowl.

Os paralelos são bastante precisos nesse aspecto, e é uma tática que tem sido bastante utilizada ultimamente. Alex Smith não tem um braço forte, não tem uma grande precisão nos passes longos e não é particularmente bom acertando passes em janelas apertadas, mas ele é muito bom tomando decisões, cuidando da bola e acertando passes curtos. Ele é um QB pouco explosivo, mas super eficiente. Então para aproveitar ao máximo o que ele sabe fazer e não colocá-lo em situações onde ele seja forçado a fazer o que não é tão bom, é simples: você foca no jogo terrestre e nos passes curtos, você controla o relógio, você move a bola lentamente, encurta as conversões e força a defesa a se preocupar com a corrida para abrir as linhas de passe. É uma forma de manter o ritmo do jogo sob seu controle, ainda que não resulte em muitos pontos.

Claro, a teoria é mais fácil que a prática e para isso você precisa de um conjunto de jogadores bem definidio. Mas a questão é que o Chiefs é um dos times que possuem esse tipo de característica: possuem um RB bom no Jamaal Charles capaz de encurtar as descidas e mover as correntes, e uma boa linha ofensiva. E mais do que isso, Andy Reid tem feito um excelente trabalho usando Alex Smith correndo com a bola tanto em conversões curtas como em jogadas de primeira ou segunda descida. Smith (contando três ajoelhadas) tem 151 jardas e 5 jardas por corrida, e o ataque terrestre como um todo ganha mais do que 4.3 por corrida (tirando ajoelhadas), uma boa marca considerando que o time enfrenta sete ou oito jogadores na linha adversária com frequência. Jamaal Charles já soma mais de 500 jardas (entre corridas e recepções) e 4 TDs, Alex Smith tem sete TDs e cometeu apenas dois turnovers, e o ataque do Chiefs em geral tem cumprido muito bem sua função de evitar turnovers (5.2% das posses terminando em turnovers, terceira melhor marca da NFL) e de aproveitar as suas boas oportunidades (9 TDs contra três turnovers) que eventualmente tiver. O DVOA do Football Outsiders coloca o Chiefs como o 11th melhor da temporada até aqui e ressalta que esse bom número vem justamente da sua capacidade de proteger a bola e converter oportunidades, ainda que tenha dificuldade em campanhas mais longas.

Mas quando você monta seu ataque dessa forma, para ser conservador, tomar conta da bola, evitar turnovers e basicamente converter oportunidades, você não pode esperar que seja seu ataque a vencer jogos para você. É basicamente admitir que seu ataque não conseguiria (ou não seria eficiente o suficiente) jogar em um esquema de profundidade e alto volume, e montar uma forma de esconder essa dificuldade para valorizar aspectos mais conservadores do jogo. Não tem nada errado com isso, é claro - na verdade, acho inteligente quando um técnico reconhece as limitações do seu time e consegue efetivamente esconder isso enquanto explora os seus pontos fortes, é o que faz de um bom técnico um bom técnico. Mas para isso funcionar, você vai precisar de uma outra força no seu time: uma defesa que consiga manter os jogos favoráveis aos placares baixos do ataque, que force turnovers e boas posições de campo para o ataque aproveitar, e que possa vencer jogos uma vez ou outra quando o ataque não funcionar. Ou seja, você precisa de uma defesa dominante que compense e complemente esse ataque conservador.

E nessas quatro semanas, é exatamente o que essa defesa tem sido. Além de ser rankeada como a terceira melhor defesa pelo Football Outsiders (ajustada), a defesa do Chiefs é a segunda que menos cedeu pontos na temporada, nona melhor cedendo jardas e terceira melhor forçando turnovers. Apenas 14.8% das posses de bola adversárisa resultam em turnovers contra essa defesa, a melhor marca da NFL por uma considerável margem, enquanto que ela força turnovers em 20.4% das posses - quinta melhor marca. A defesa tem sido surpreendentemente ruim contra corridas, cedendo 5.4 jardas por corrida (segunda pior marca da liga), mas apresenta a melhor secundária, segurando o adversário a apenas 4.5 jardas por jogada de passe (de longe a melhor marca). 

O segredo para essa defesa, pelo menos até aqui, tem sido seu pass rush: em quatro semanas, nenhuma defesa conseguiu anotar mais sacks (18) e teve mais situações de pressão ou hits do que a linha de frente de Kansas City. A dupla de OLBs do time, Tamba Hali e Justin Houston, em particular, tem sido letal: Hali sempre foi um grande rusher, com temporadas de 14.5 e 12.5 sacks na sua carreira, e esse ano teve mais um começo bom de temporada com 3 sacks nos primeiros quatro jogos, mas a grande surpresa do ano tem sido Houston, que já tinha sido bom em 2012 (10 sacks e uma vaga no Pro Bowl) mas que explodiu em 2013 com 7.5 (!!) sacks em quatro jogos, incluindo um fumble forçado e 9.5 tackles atrás da linha de scrimmage (contando sacks). Esses dois sozinhos somam mais sacks do que 15 times da NFL e mais sacks do que Bears e Giants SOMADOS. Esses números provavelmente não vão continuar assim um ano inteiro, mas é o suficiente para que esse pass rush seja reconhecido como uma força que desestabiliza quarterbacks e força times a ajustarem para sair da sua zona de conforto. Outro jogador que explodiu em 2013 e tem sido fundamental para esse bom começo é o NT Dontari Poe, uma escolha de primeira rodada que decepcionou em 2012 mas que já soma 3.5 sacks em 2013 como um NT de uma defesa 3-4!!! Poe tem sido uma das forças mais destrutivas da NFL pelo meio essa temporada, não só forçando sacks como obrigando ajudes e até mesmo marcações triplas em cima do gradalhão. Então a defesa do time já era boa, com a secundária trazendo Dunta Robinson e Sean Smith para reforçar um grupo já forte que contava com Eric Berry e Brandon Flowers e mais Derrick Johnson e Tamba Hali na frente, e só de se livrar do que quer que já estivesse a atrasando em 2012 já seria o suficiente para fazer dessa uma defesa muito sólida... mas dai Houston e Poe explodiram e colocaram esse grupo um patamar ou dois acima. Não é a toa que os adversários enfrentando o Chiefs tem apenas 53% de aproveitamento nos passes (terceira melhor marca da NFL), um NFL-worst 5.9 jardas por passe (não por jogadas de passe, note bem) e 4.8 jardas ajustadas por passe (segunda melhor). É um pesadelo ter que passar contra esse time.

Claro, não é apenas a questão do ataque mediano, mas eficiente, e da defesa destrutiva. Depende de diversos outros fatores que pouco são observados, mas estão diretamente ligado a capacidade do time de integrar essas duas coisas, funcionar como conjunto e executar seu plano de jogo. E a primeira e talvez mais importante dessas é a questão da posição de campo. Como um time de futebol americano, naturalmente, você quer que seu ataque comece suas campanhas o mais próximo possível da end zone adversária (menos caminho a percorrer para anotar pontos) e que as campanhas de seus adversários comecem o mais longe possível da sua. Isso pode parecer uma questão de special teams (capacidade de retornar chutes, bons punters, etc) e de certa forma é, mas não apenas: depende diretamente da estratégia e da forma como um time atua. Isso envolve tomada de decisões em diversas situações (por exemplo, o chiefs é mais provável que vá para o punt em uma 4th and 4 na linha de 38 do adversário do que o Packers ou Broncos) e também toda sua filosofia de jogo, já que evitar turnovers ofensivos e conseguir forçá-los na defesa é uma forma de conseguir uma vantagem no quesito. Em particular, para um time como o Chiefs que usa essa estratégia de um ataque eficiente mas com dificuldades para longas campanhas e uma defesa absurdamente dominante que é uma ameaça para forçar turnovers a todo instante, a posição de campo é crucial: você quer seu ataque tendo que andar o mínimo possível para anotar pontos já que ele não se da bem em longas campanhas, e você quer oferecer a sua defesa o maior espaço possível para fazer sua mágica e forçar os turnovers que, por sua vez, darão ao ataque boa posição de campo para anotar pontos. É por isso que o Chiefs é um time que não é tão agressivo ofensivamente e não se incomoda em chutar punts quando seu ataque estagna em uma campanha, porque assim eles oferecem boa posição de campo a defesa para conseguir uma eliminação rápida do ataque ou um turnover, e dai o ataque receberá novamente a bola em uma boa posição. Então posição de campo é um ingrediente crucial para o estilo de jogo de KC, e até agora, eles tem sido extremamente  eficientes com isso: as suas campanhas ofensivas começam em média na linha de 37.5 jardas do seu próprio campo, e as suas campanhas defensivas começam com o adversário em sua linha de 20.3 jardas... e ambas as marcas lideram a NFL por uma LARGA margem. Nunca neglicencie o efeito disso sobre uma partida e um time.

E por fim, temos uma questão mais complicada: turnovers. Quando eu escrevi terça sobre o Titans, eu disse que o segredo por trás do seu bom começo de temporada era seu saldo de turnovers de +9, algo que era absolutamente insustentável já que era motivado por uma taxa de recuperação de fumbles de 89% e pelo fato de que seu time ainda não tinha lançado uma interceptação, dois fatores extremamente prováveis a sofrerem regressão indo para frente. Bom, o  Chiefs também é um time que tem beneficiado demais dos turnovers: seu saldo de +9 lidera a NFL junto com o Titans, resultado de 12 takeaways da defesa contra apenas 3 turnovers do ataque. E como esperado, isso também envolve alguma sorte: o Chiefs tem recuperado 71% dos fumbles, terceira melhor marca da liga. Então o normal seria concluir que, assim como o Titans, o Chiefs está sujeito a uma regressão nesse quesito. E não deixa de ser verdade: é impossível que a equipe continue recuperando 71% de seus fumbles, e quando isso regredir, o total de turnovers da equipe também vai regredir. 

Mas a equipe de Kansas City tem uma chance melhor de continuar se dando bem no quesito do que a de Nashville por dois motivos. Primeiro, porque esse bom começo e esse saldo de +9 dependem muito menos de sorte e de fatores absurdos do que seus adversários da AFC. No caso do Titans, isso está vindo de dois fatores absolutamente insustentáveis: recuperação de 89% de seus fumbles e taxa de interceptações de 0% por parte de seus QBs (inclusive duas interceptações dropadas), dois dados que contrariam todas as evidências histórias e que estão sujeitos a violentas regressões que afetarão mais fortemente o seu time do que o Chiefs, que deve diminuir esse saldo mas de um patamar muito menor (entre 71% e 89% tem uma GRANDE diferença) e cujo QB não está tendo particular sorte ou um número estranho ou insustentável com interceptações - então a regressão tende a ser mais fraca em cima do Chiefs. E segundo, porque a batalha dos tunovers é uma consequência direta do plano de jogo da equipe: o ataque do Chiefs é FEITO para segurar a bola e evitar turnovers, composta de passes curtos e seguros que diminuem a chance de uma interceptação, e ainda por cima com o QB que melhor evita turnovers em toda a NFL desde que assumiu a titularidade em 2010. Da mesma forma, a defesa do Chiefs é uma das melhores da liga e extremamente agressiva em busca desses turnovers, então eles vão recuperar mais fumbles (mesmo quando o 71% nivelar) porque eles vão simplesmente forçar mais fumbles do que os outros times. Não que todos os times da liga não busquem também evitar turnovers e produzir os seus, mas no caso do Chiefs, todo o plano de jogo é voltado para essa finalidade, então me parece algo muito mais natural que KC tenha +9 de saldo do que um outro time que não coloque tanta ênfase nesse aspecto do jogo. Eles tem dado alguma sorte, mas também tem executado muito bem seu plano de jogo. E no fundo, é isso que tem feito a grande diferença na equipe, dos dois lados da bola. Não vejo motivo para que o Chiefs não continue sua temporada mágica rumo a uma vaga nos playoffs.


Palpite para o jogo de quinta a noite


BROWNS over Bills
Contra o spread: BROWNS (-3.5) over Bills
Então depois de começar o ano 0-2 e trocar seu (supostamente, porque ele tem sido medíocre a sua carreira inteira) melhor jogador ofensivo E colocar seu QB reserva para jogar, o time está 2-0, venceu supostamente o melhor time da sua divisão no Bengals, e agora lidera a AFC North (empatado, mas enfim). Alias, inesperadamente esse jogo que tinha tudo para ser um fiasco no papel acabou sendo uma disputa entre dois times 2-2 que de repente sonham com uma vaga nos playoffs! Quem teria imaginado no começo da temporada. Enfim, minha aposta vai para o Browns porque eles tem me impressionado bastante desde que trocaram Trent Richardson (a ponto de me fazer questionar se, no final das contas, ele era mais responsável por aquele ataque ruim do que imaginávamos), tem jogado com muita intensidade e jogam em frente a uma torcida que não comemora nada faz seis anos, e enfrentam um Bills que não tem jogado bem fora de casa, joga sem metade da secundária e que quase conseguiram perder do Ravens mesmo com Joe Flacco lançando cinco interceptações. A boa defesa do Browns me parece favorecida por esse jogo ser numa quinta a noite também. Agora se me dão licença, tenho que subir na Cleveland Browns Bandwagon. Volto amanhã.