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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Maldição de Sam Bowie

Quando tudo começou...


Na última quarta feira (15/11), no Staples Center, aconteceu um jogo de NBA entre Sixers e Lakers, dois dos times jovens mais interessantes da NBA. E entre vários motivos pelos quais o confronto gerou antecipação entre fãs e mídia foi o confronto de dois dos calouros com mais hype da temporada: o australiano Ben Simmons, armador (de 2 metros e 10, mas armador) do Sixers e escolha #1 no Draft de 2016, contra Lonzo Ball, armador do Lakers recém-escolhido #2 no Draft.

Mas se Simmons brilhou na partida com 18 pontos, 10 assistências, 9 rebotes e 5 roubos de bola, o mesmo não pode ser dito do muito falado calouro de Los Angeles. Lonzo Ball terminou o jogo com 2 pontos, 2 assistências e 2 turnovers, acertando apenas 1 de 9 arremessos e errando todas as 6 bolas de três pontos que tentou, antes de passar o quarto período inteiro sentado no banco de reservas - pela segunda partida seguida. Nos seus 21 minutos de quadra, o Lakers foi um -18. Nos seus 27 minutos no banco, o Lakers foi +12 em quadra. A partida ruim continuou uma temporada bastante fraca e decepcionante de um dos calouros mais aguardados e comentados dos últimos anos.

(Joel Embiid, diga-se de passagem, anotou 46 pontos, 15 rebotes, 7 assistências e 7 tocos na partida, números que nenhum jogador da história da NBA anotou oficialmente me uma partida).

Claro, catorze jogos não dizem nada sobre a capacidade de Lonzo (ou qualquer outro calouro) de se tornar um grande jogador de NBA. É uma amostra muito pequena, e calouros sempre terão maior demora e dificuldade para se adaptar ao jogo mais rápido e físico da NBA. É muito cedo para falar que Ball não será um bom jogador de basquete. Seu talento é real, e seus passes já são de altíssimo nível - ele provavelmente ficará bem.

Ainda assim, existe algo maior e mais preocupante que pode atrapalhar Lonzo na sua trajetória profissional. Ao contrário do que muitos pensam, não é seu arremesso, nem o excesso de hype, e nem seu pai falastrão - e sim uma influência que começou 14 anos antes de Lonzo Ball sequer nascer.

Estou falando, é claro, da Maldição de Sam Bowie.

Para aqueles que não sabem do que eu estou falando, Sam Bowie era um pivô da universidade de Kentucky que foi a segunda escolha do Draft em 1984. Bowie ficou cinco anos em Kentucky (perdendo dois deles por conta de lesões no pé) e, quando foi para o Draft, já era dois anos mais velho do que a grande maioria dos prospectos da época (tinha 23 no seu ano de calouro). Sam era um pivô bem alto e um jogador bastante habilidoso e refinado próximo à cesta quando saudável, mas lesões no pé e na perna (as mesmas da época de Kentucky) acabaram com sua carreira -  Bowie jogou 60 jogos ou mais apenas seis vezes na sua carreira e nunca conseguiu fazer nada demais em quadra. Depois de 11 anos decepcionantes e marcados por lesões, Bowie se aposentou da NBA.

Por si só, a carreira de Bowie não teve nada de especial - um bust talentoso que até jogou bem quando saudável mas foi traído por problemas físicos. Como Sam, tem dezenas de outros jogadores semelhantes na história da liga. O que fez de Bowie diferente - e marcou seu nome de forma infeliz na história da NBA - é que uma escolha depois do Blazers ter pego Bowie, o Chicago Bulls escolheu um tal de Michael Jordan para o seu time. E o resto é história.

(Curiosidade interessante: no Draft de 1984 - em que o Rockets escolheu Hakeem #1, o Blazers pegou Bowie #2 e o Bulls ficou com o grande prêmio no #3 - o Rockets negociou uma troca com o Blazers no qual enviaria seu então Frachise Player, Ralph Sampson, em troca de um calouro de pouca expressão chamado Clyde Drexler e a escolha #2 para pegar Michael Jordan. No final, o Rockets recuou e nunca fez a troca. E foi assim que chegamos tão perto de ver Hakeem, Jordan E Clyde Drexler jogando sua carreira juntos no mesmo time. Durma com essa.)

Mas quando o Blazers passou Jordan para pegar Bowie com a escolha #2 (aliás, uma decisão que a franquia curiosamente reviveu 23 anos depois quando passou Durant para pegar Greg Oden) eles não apenas assinaram seu próprio destino (adivinha quem chutou a bunda do Blazers nas Finais de 1992 e destruiu a confiança do seu Franchise Player no processo?) e mudaram a escala de poder dentro da NBA. Eles também condenaram para sempre o destino da escolha #2 do Draft. Começou assim a Maldição de Sam Bowie.

A escolha #2 do Draft deveria ser um ativo de extremo valor. Ainda que não tão bom quanto a escolha #1 (dã!), onde saem os jogadores que são as absolutas certezas (Hakeem, Duncan, LeBron, Shaq, etc), a escolha #2 ainda coloca qualquer time em uma fantástica posição para escolher seu Franchise Player do futuro, uma posição privilegiada que deveria render grandes frutos para seu time. Escolha #2, pegue um Franchise Player, jogue ele por 12 anos, monte o time ao seu redor, tenha sucesso, aposente sua camisa - quase o mesmo que pensamos sobre a escolha #1.

E no entanto, desde que Bowie foi escolhido, esse não tem sido o caso - a escolha #2 tem sido um local para fracassos, decepções e frustrações. Não necessariamente para os jogadores nela escolhidos, mas para os times que detinham essa escolha. Desde Bowie, praticamente todos os jogadores escolhidos com a escolha #2 foram ou um bust, destruídos por lesões (ou pior...), um jogador decente mas decepcionante (dado sua posição), ou um jogador de sucesso que só se realizou DEPOIS de ser trocado ou deixar o time que o escolheu. Se o objetivo da escolha #2 era achar um Franchise Player, praticamente todas as escolhas deram errado, com duas notáveis exceções - as quais você vai perceber a ironia daqui a alguns parágrafos.

Não acredita em mim? Vamos fazer então uma passada histórica por todos os jogadores selecionados #2 no Draft desde aquela fatídica noite em 1984. Começando com o gerador de Maldição...


1984 Draft: Sam Bowie (Portland Trail Blazers)

Pobre Sam - não é sua culpa que ele tenha sido escolhido na frente do maior jogador da história do basquete.

Com o tempo, essa escolha acabou ganhando uma versão revisionista, com pessoas argumentando que a escolha era válida porque o Blazers precisava desesperadamente de um pivô (falso: eles já tinham Mychal Thompson, escolha #1 de 1978 e um dos melhores defensores da época... ou, como ele é mais conhecido hoje em dia, o pai do Klay), que não precisavam de MJ já tendo o segundo-anista Clyde Drexler (não só a ideia de alguém não precisar de MJ é hilária, mas Drexler como calouro não foi nada demais, tendo média de 7.7 pontos por jogo e não conseguindo vencer Steve Stipanovich, Thurl Bailey e Darrell Walker para o time de calouros do ano), ou mesmo que ninguém sabia que Jordan seria tão bom (ninguém obviamente podia prever "Melhor da história", mas MJ era um calouro EXTREMAMENTE cobiçado. Pelo menos cinco times ofereceram a casa para o Bulls pela pick atrás de Jordan, com o Sixers chegando ao ponto de oferecer Julius Erving direto pela escolha). Mas independente dos motivos que levaram o Blazers a cometer um dos maiores erros da história da NBA, a culpa não é do pobre Sam, que teria sido um sólido pivô titular caso ficasse saudável.

O Blazers até que conseguiu contornar essa escolha montando uma boa fundação e, com a evolução de Clyde, chegando a duas finais de NBA em 1990 e 1992 (esta última perdendo, claro, para Michael Jordan). Mas faz você pensar o que teria sido do Blazers se tivessem conseguido algo de valor com essa escolha.


1985 Draft: Wayman Tisdale (Indiana Pacers)

Tisdale era uma lenda no College que nunca conseguiu corresponder na NBA. Um pontuador talentoso, Tisdale era um defensor e reboteiro bastante fraco que cometia faltas demais, impedindo que ganhasse mais tempo de quadra e reduzindo sua efetividade. Foi trocado pelo Pacers depois de três temporadas decepcionantes para o Kings por Randy Wittman (sim, aquele) e LaSalle Thompson. Teve o seu auge em 1990 por Sacramento, quando teve 22 pontos e 7 rebotes por jogo de média... por um Kings que terminou o ano com horrendos 23-59. Talvez não foi um bust completo - seis anos como titular na NBA, 15 pontos por jogo na carreira - mas foi um jogador bastante fraco e esquecível, e Tisdale - que faleceu em 2009 vítima de câncer - provavelmente teve mais sucesso em sua carreira posterior como músico de jazz do que como jogador de basquete.


Len Bias (Foto: Sports Illustrated)


1986 Draft: Len Bias (Boston Celtics)

Se você conhece esse nome, você provavelmente conhece a história daquela que é provavelmente a maior tragédia da história da NBA.

Len Bias foi selecionado #2 em 1986 por um Boston Celtics que acabava de sair de mais um título extremamente dominante, e isso graças a uma troca maluca dois anos antes - alguém em Seattle achou uma boa ideia enviar uma escolha futura de primeira rodada por Gerald Henderson pai (Henderson durou dois anos em Seattle com 13 ppg de média). Bias, um dos mais físicos e explosivos jogadores da NCAA, iria começar sua carreira no melhor time da NBA, na posição que o Celtics mais precisava de profundidade (ala/ala de força). Uma combinação rara de força, habilidade e atitude, Bias parecia ser a futura estrela para ajudar o time no curto prazo e pegar a tocha de Bird e McHale no futuro. O melhor time da história do basquete estava ADICIONANDO esse jogador - aonde esse time chegaria então parecia impossível de prever.

Mas nunca aconteceu, e nunca teve a chance de acontecer - Bias morreu dois dias depois do Draft por uma overdose de cocaína. A NBA perdeu uma das suas mais empolgantes jovens estrelas, e o Celtics perdeu o jogador que no curto prazo teria tirado minutos de Bird e McHale e ajudado a estender suas carreiras, antes de virar a estrela do time. Sem um bom reserva, McHale e Bird tiveram que continuar jogando minutos hercúleos, e a carreira dos dois nunca mais foi a mesma depois de 1987, com o corpo de ambos quebrando pouco tempo depois. O futuro de Boston sumiu em um instante, e demorou mais de 20 anos até que o Celtics se reerguesse novamente.

(Trivia: Gerald Henderson pai foi trocado pelo Sonics junto com uma escolha de primeira rodada futura - eventualmente Mark Jackson - para o Knicks por outra escolha de primeira rodada futura, que acabou sendo #5 em 1987. O Sonics trocou essa escolha para o Bulls por Olden Polynice e uma 1st round pick de 1989 que acabou sendo BJ Armstrong. O Bulls usou a escolha para escolher Scottie Pippen).


1987 Draft: Armen Gilliam (Phoenix Suns)

Outro bust famoso, Gilliam teve uma carreira de 13 anos de NBA mas nunca foi mais do que um role player mediano, decente na pontuação e nos rebotes mas incapaz de fazer nada a mais. Phoenix desistiu de Gilliam depois de apenas dois anos, mandando o ala para o Lakers em troca de um Kurt Rambis de 31 anos que teve 4.2 pontos por jogo de média na sua carreira em Phoenix. Aos 31 anos e com oito de NBA, dois times já tinham dispensado o ala, e dois tinham trocado por migalhas (a segunda vez por Mike Gminski) só para se livrar de Gilliam. Resume bem o que foi sua carreira.


1988 Draft: Rik Smits (Indiana Pacers)

O holandês Rik Smits nunca foi um jogador de destaque, mas foi um dos melhores casos de sucesso para o time com a escolha em questão nessa lista - o que diz bastante sobre ela. Um jogador extremamente alto (2,24 m), Smits podia ser perigoso no garrafão jogando de costas para a cesta contra adversários menores e deu trabalho para o Bulls de Michael Jordan na sua segunda passagem pela NBA, indo até mesmo para um All-Star Game em 1998 (foi o mesmo ano que Jayson Williams foi um All Star, então leve isso com trinta grãos de sal).

Smits nunca foi particularmente dominante - nunca teve mais que 18.5 pontos ou 7.7 rebotes por jogo de média, jogou mais de 30 minutos por jogo, ou teve uma grande temporada defensiva - mas foi um titular consistente para o Pacers por 12 anos, alguns deles na época que o time chegou a disputar títulos. Não é exatamente que você quer de uma escolha #2 do Draft, mas poderia ser bem pior.


1989 Draft: Danny Ferry (Los Angeles Clippers)

Mais conhecido por sua carreira como executivo no Hawks, Ferry nunca chegou a jogar pelo Clippers - foi trocado antes da temporada começar para o Cavs por Ron Harper (que eventualmente estourou o joelho, afinal é o Clippers) e escolhas de Draft futuras. Um ala de força extremamente lento e pouco atlético que não defendia sem ponto de vista, Ferry jogou 10 anos em Cleveland e nunca pegou mais do que 4.1 rebotes por jogo e só passou de 10 pontos por jogo duas vezes, sendo até hoje lembrado com um dos grandes busts da NBA.

Foi um daqueles casos que a liga ainda estava apegada a um estereótipo que funcionou no passado (o ala de garrafão branco, lento, que joga abaixo do aro, não defendia e pontuava bastante no colegial) e que não tinha lugar em uma NBA cada vez mais atlética e explosiva, especialmente no garrafão.


Gary Payton (Foto: USA Today)


1990 Draft: Gary Payton (Seattle Supersonics)

Finalmente um jogador realmente bom escolhido com a escolha #2!

Uma das duas exceções da lista (segure essa ideia...), Payton foi escolhido pelo Sonics e, apesar de seus problemas de vestiário e com os colegas, foi a estrela do time por 12 anos de bastante sucesso, anos esses que incluíram uma passagem para as Finais da NBA em 1996 (perdendo para Jordan e o 72-10 Bulls). Um dos maiores armadores da história da liga, Payton é até hoje lembrado pela sua dominação dos dois lados da quadra, sua defesa de perímetro sem igual (apelidado de The Glove, ou A Luva), e por ter singularmente destruído John Stockton nos playoffs de 1996. Se Shawn Kemp não tivesse se autodestruído a partir de 1997, possivelmente teria ganho um anel ainda no seu auge (acabou ganhando um como role player no final da sua carreira por Miami, em 2006), um legítimo Franchise Player apesar de todos os problemas que causava.

Quanto a essa exceção para a Maldição... aguarde um pouco mais.


1991 Draft: Kenny Anderson (New Jersey Nets)

Um jogador talentoso mas muito problemático vindo dos playgrounds de New York, Anderson pelo menos deu ao Nets três bons anos, nos quais teve média de 18 pontos e 9 assistências por jogo (apesar da baixíssima eficiência) e foi a um All Star Game (1994). Mas problemas pessoais e familiares fora das quadras acabaram submergindo o talento, com o Nets eventualmente chutando Anderson para o Blazers por Kendall Gill. Anderson acabou virando um nômade na NBA depois disso, não durando em nenhum time mais do que um ano e meio (o Celtics sendo a única exceção, onde perdeu dois anos quase inteiros para lesões), se recusando a ser trocado para o Raptors por não querer jogar no Canadá, e passando por 9 times diferentes (!!) durante os seus 14 anos de carreira. Um final melancólico para um grande talento.


1992 Draft: Alonzo Mourning (Charlotte Hornets)

Um Hall of Famer, Alonzo Mourning deu ao Hornets três anos muito bons e foi a dois All Stars em 1994 e 1995 por Charlotte, mas não foi até ser trocado para o Miami Heat que enfim atingiu seu auge. Uma doença nos rins terminou atrapalhando e quase acabando com a carreira de Alonzo, mas nos seis anos que jogou em Miami (mais um sétimo destruído por lesões e a doença) Mouring teve média de 20 pontos, 10 rebotes e 3 tocos por jogo, e foi a 5 All Star Games. Foi por Miami que Mourning foi eleito duas vezes o Melhor Defensor da Temporada (1999 e 2000), foi a um 1st e um 2nd Team All NBA, e terminou #2 (1999) e #3 (2000) na corrida pelo MVP.

Charlotte conseguiu bom retorno na troca de Mourning, em especial o ótimo Glen Rice, então não foi uma troca ruim para o Hornets, mas é um caso (teremos outros) nessa lista do time que escolheu um bom jogador no #2 viu esse jogador ter seu auge e seus anos dominantes defendendo outra franquia.


1993 Draft: Shawn Bradley (Philadelphia 76ers)

Um dos jogadores mais altos da história da NBA com 2,29 m (7'6), Bradley era um protetor de aro decente que ficou mais famoso por ser um dos maiores alvos de cravadas na cabeça da história da NBA, o que diz tudo sobre sua carreira.



Pode procurar no YouTube por Shawn Bradley + enterradas, e você vai achar vários exemplos - o mais famoso provavelmente sendo a de Tracy McGrady. Bradley simplesmente não tinha a mobilidade e coordenação motora para fazer uso da sua altura, e em seus 12 anos de NBA foi principalmente marcados pelas enterradas, lesões menores e ineficiência geral. O ponto alto da sua carreira foi provavelmente ter tido seu talento roubado pelos Monstars no filme Space Jam (que completou 21 anos quarta-feira passada, dia 15/11!).

Trivia: Khalid Reeves, um jogador totalmente irrelevante que jogou apenas 277 jogos em seus 6 anos de carreira na NBA, de alguma forma conseguiu entrar nessa coluna por um fato curioso - ele foi envolvido em trocas pelos 3 últimos jogadores dessa lista em algum momento da sua carreira. Fez parte do pacote que o Heat mandou por Mourning em 1995; foi com Kendall Gill para o Nets em 1996 por Kenny Anderson; e em 1997 fez parte do pacote que o Nets enviou para o Dallas junto de Shawn Bradley em uma troca por por Sam Cassell e Jim Jackson - uma troca que, ainda mais curiosamente, também está ligada ao próximo jogador da lista.


Jason Kidd (Foto: eBay)


1994 Draft: Jason Kidd (Dallas Mavericks)

Outro grande jogador, Jason Kidd foi selecionado pelo Mavs em 1994 e fazia parte de um empolgante e promissor trio de Dallas junto de outros grandes talentos em Jim Jackson e Jamal Mashburn, os famosos "Três Js". Mas antes que esse talentoso trio de personalidades difíceis pudesse dar frutos em quadra (Dallas venceu 13, 36 e 26 jogos entre 94 e 96) o vestiário implodiu. Kidd e Jim Jackson brigaram por causa de um triângulo amoroso com a cantora Toni Braxton (não, sério!), os três começaram a brigar por causa de salários, minutos, arremessos e papel no vestiário, e a situação se deteriorou de forma tão grande e tão rápida que Dallas precisou se livrar dos três o mais rápido possível: Kidd foi mandado para Phoenix por Sam Cassell, Michael Finley e AC Green; Cassell foi usado para despachar Jim Jackson para o Nets em troca de Shawn Bradley e do agora onipresente Khalid Reeves; e Mashburn foi despachado para o Heat por Sasha Danilovic e Kurt Thomas.

Em um piscar de olhos, o "time do futuro" de Dallas tinha ido para o chão e o tormento da franquia não acabaria até serem salvos por Dirk e Nash seis anos depois. Dallas viu de longe Kidd se desenvolver em um perene All Star e um dos melhores armadores da história da NBA em Phoenix e New Jersey antes dessa história enfim terminar em um final feliz: Kidd eventualmente voltou para Dallas e fez parte do time campeão de 2011.


1995 Draft: Antonio McDyess (Los Angeles Clippers)

Um ótimo jogador de garrafão, McDyess teve médias de 19 pontos, 9 rebotes e 2 tocos por jogo (e foi a um All Star Game) durante um ótimo período de 5 anos antes que lesões no joelho acabassem prematuramente com sua carreira. No entanto, nada disso foi feito pelo time que o selecionou no Draft, o Los Angeles Clippers: o Clippers trocou McDyess no dia seguinte ao Draft por Rodney Rodgers e Brent Berry, dois jogadores medianos que não ajudaram muito enquanto o Clippers continuou sendo um dos piores times da NBA durante anos a fio, enquanto assistiam McDyess chutando bundas - enquanto saudável - em outros times.

Trivia: Lembra a famosa saga do DeAndre Jordan reassinando com o Clippers depois de ser trancado numa casa com Chris Paul, Doc Rivers e mais alguém para "romper" seu compromisso com Dallas? McDyess viveu uma situação bizarramente semelhante em 1998, e que teria sido uma história muito maior e melhor hoje em dia na era da internet. Depois de defender o Suns em 1998 e virar Free Agent antes da temporada 1999 (do locaute), McDyess chegou a um acordo verbal com o Denver Nuggets antes de receber uma proposta do Suns que o fez balançar.

Na esperança de convencer McDyess, três companheiros de Suns - incluindo Jason Kidd - pegaram um avião e voaram para Denver para encontrar o pivô, possivelmente para fazer com ele o que o Clippers fez com DeAndre Jordan. McDyess estava então vendo um jogo do Colorado Avalanche com o GM do Nuggets, Dan Issel, que ao saber da aproximação dos três jogadores de Phoenix deu ordens para os seguranças do prédio barrarem a entrada deles no prédio enquanto Issel imediatamente levava McDyess para sua sala a fim de assinar seu contrato antes que algo mais pudesse acontecer. A saga só seria melhor se Paul Pierce estivesse lá twittando fotos de emojis de foguetes.


1996 Draft: Marcus Camby (Toronto Raptors)

Depois de dois anos sólidos mas não espetaculares, o Raptors estupidamente trocou Camby para o Knicks pelo fraco Sean Marks e um Charles Oakley de 35 anos. Camby eventualmente se desenvolveu em um excelente defensor e reboteiro fora de Toronto, sendo parte crucial do Knicks que foi às Finais em 1999 mesmo após a lesão de Patrick Ewing, e eventualmente tendo seu auge em Denver, onde foi eleito quatro vezes para o time de defesa ideal da temporada e ganhou o prêmio de Melhor Defensor da Temporada em 2007. Nunca uma estrela, mas um jogador bem sólido que novamente só foi ter seu auge depois de trocado pelo seu time de origem.


1997 Draft: Keith Van Horn (Philadelphia 76ers)

Mais famoso por ser um cover do Tintim, Van Horn foi trocado pelo time que o escolheu (o Sixers) pouco após o Draft por Jim Jackson, Eric Montross e Tim Thomas, e embora nunca tenha sido uma estrela (e tenha tido uma carreira estranhamente curta de 9 anos), Van Horn foi durante um bom tempo um jogador muito útil que tinha a estranha tendência de aparecer como um jogador importante para bons times. Teve média de 18 pontos e 8 rebotes para os bons times do Nets de Jason Kidd (eventualmente chegando nas Finais com o time em 2002), e voltando para as Finais com sexto homem do Dallas de 2006.

Van Horn também merece crédito por ser um pioneiro do basquete moderno: em sua carreira como ala de força, Van Horn chutou 3 bolas de 3 por jogo e acertou 36% delas.


1998 Draft: Mike Bibby (Vancouver Grizzlies)

Outro exemplo de um útil, mas nada espetacular jogador que só se encontrou depois de ser trocado (por Jason Williams - aquele - e um Nick Anderson decrépito). Útil no Grizzlies mas carregando uma carga excessiva em times horríveis no Canadá, Bibby teve seu auge como armador secundário dos famosos times do Kings dos anos 2000 que deveriam ter ido às Finais em 2002. Vancouver trocou Bibby em 2002 e perdeu seu time meses depois para Memphis. A Maldição de Sam Bowie, além de tudo, é criativa.


1999 Draft: Steve Francis (Vancouver Grizzlies)

Mais uma escolha #2 que não deu certo para o Grizzlies, mas dessa vez não foi totalmente culpa da franquia. Uma vez escolhido, Steve Francis declarou publicamente que não queria jogar pelo Grizzlies e exigindo uma troca, chegando até a dizer que era a vontade de Deus. Depois de diversos conflitos extra-quadra, a franquia enfim mandou o armador para Houston em uma troca imensa de 11 jogadores que eu não vou reviver aqui mas que não envolveu nada de espetacular.

Um estilo de jogo individualista, lesões e problemas extra-quadra acabaram por fazer Francis ser trocado de Houston e acabar fora da NBA aos 29 anos, mas durante seus cinco anos no Rockets foi um dos mais explosivos e promissores armadores da NBA, um All-Star por 3 vezes que atacava a cesta feito louco e enterrava na cabeça de todo mundo, mas que nunca atingiu todo o potencial que prometia.


2000 Draft: Stromile Swift (Vancouver Grizzlies)
Três seguidas para o Grizzlies, e mais um fracasso - dessa vez totalmente por culpa da franquia. Swift foi um enorme bust que jogou 5 anos na franquia (em Vancouver e Memphis) antes de ser dispensado e não deixar saudades algumas, e aos 29 anos já estava fora da NBA sendo titular em menos de 100 jogos durante sua carreira. Em defesa do Grizzlies, o Draft de 2000 foi um dos piores de todos os tempos, então não tinha muito o que fazer com essa escolha que não teria sido um grande fracasso.

Diga-se de passagem, Swift foi também um pioneiro - após sair da NBA em 2009, foi jogar na Liga Chinesa antes de ser moda.


Tyson Chandler (Foto: Bleacher Report)


2001 Draft: Tyson Chandler (Los Angeles Clippers)

Com uma classe de calouros MUITO hypeada que incluia Chandler, Pau Gasol, Eddy Curry e Kwame Brown (!!!!), o Bulls - que já tinha a escolha #4 - trocou seu melhor jogador e Franchise Player, Elton Brand, para o Clippers em busca de outra escolha Top4 para ficar com dois desse jovens extremamente promissores (irch!).

E se hoje lembramos do Tyson Chandler grande defensor, finalizando pontes aéreas, ajudando Dirk a ganhar um anel e ganhando prêmios de Defensor do Ano, o Chandler adolescente que chegou em Chicago era tudo menos isso. Chandler teve inúmeros problemas de adaptação e leitura de jogo, sofreu para ganhar minutos, e apesar das inúmeras chances que teve nunca correspondeu em Chicago. Chandler só foi se encontrar como parceiro de pick and roll de Chris Paul em New Orleans e depois explodiu como o defensor de elite que conhecemos em Dallas. Chandler acabou dando bem certo na NBA, mas foi uma longa jornada até chegar lá.


2002 Draft: Jay Williams (Chicago Bulls)

Outra escolha do Bulls que deu errado, por um motivo bizarro. Depois de um ano bastante fraco como calouro, Williams se envolveu em um acidente horrível de moto durante a offseason que o deixou extremamente machucado no joelho, nos nervos da perna e no quadril, uma lesão que encerrou sua carreira no basquete depois de apenas um ano de NBA.


2003 Draft: Darko Milicic (Detroit Pistons)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA, o Pistons decidiu pegar Darko Milicic #2 ao invés de Carmelo Anthony, Dwyane Wade e Chris Bosh. E, o pior de tudo, a decisão até fazia sentido na época: Darko era um prospecto bastante bem cotado, o Pistons tinha uma carência no garrafão (Rasheed Wallace só chegaria meses depois), o time já tinha um ala perfeito para seu esquema em Tayshaun Prince, e LeBron-Darko-Melo era o claro Top3 daquele Draft na época.

Ainda assim, Darko entra para a história como um dos maiores busts da história da NBA. Um adolescente que chegou na hora errada, com as expectativas erradas e para o time errado, Milicic nunca mostrou qualquer tipo de produção de bom nível na NBA e estava fora da liga aos 27 anos, seu desenvolvimento e sua confiança destruídos ao longo do tempo. Seu maior legado provavelmente é inspirar um dos melhores blogs de NBA da história, o hoje falecido FreeDarko.

E sabe o que é curioso? Se o Pistons pega Melo (a outra opção plausível à época), eu não acho que o time venceria o título. Melo não se encaixava em nada no esquema, teria comido minutos do ótimo Tayshaun Prince, e ele e o técnico Larry Brown se odiaram quando conviveram pela seleção americana. Em um ano apertado, esse elemento imprevisível e destoante teria implodido a cuidadosa dinâmica em cima do qual esse time foi concluído, e o Pistons talvez nunca chegasse ao seu objetivo. As vezes há males que vem para o bem.


2004 Draft: Emeka Okafor (Charlotte Bobcats)

Okafor não foi ruim como jogador, um bom reboteiro e defensor que acabou ganhando de Dwight Howard o prêmio de calouro do ano. O principal problema é que foi só isso que Okafor foi - o Bobcats e a NBA continuaram esperando que o pivô se desenvolvesse, e isso nunca aconteceu. Os anos passavam, e Okafor continuava sendo o mesmo jogador: 14 pontos, 10 rebotes, 1.5 tocos, boa defesa, mais nada, durante toda sua estadia em Charlotte. Okafor eventualmente foi trocado por Tyson Chandler e viu lesões encerrarem sua carreira. Não foi um bust, mas também não foi nada mais do que um jogador médio e um tanto quanto decepcionante.


2005 Draft: Marvin Williams (Atlanta Hawks)

Outro jogador que ficará marcado para sempre pelos jogadores escolhidos depois dele. No caso, a decisão inexplicável e horrível do Hawks de passar Chris Paul e Deron Williams para pegar Marvin Williams, que sequer fora titular em Syracuse na NCAA. Conforme Paul e Williams se desenvolviam em dois dos melhores armadores da NBA, Marvin foi um contribuidor estável mas extremamente decepcionante para uma série de times sólidos mas esquecíveis de Atlanta, com 11 pontos por jogo de média na Georgia e absolutamente nenhuma evolução ao longo da sua carreira por lá.

Williams eventualmente se reinventou com stretch-four na NBA moderna em Utah e depois Charlotte com bom chute de três pontos e sólida proteção de aro, e achou um bom nicho para si na liga, mas eternamente será lembrado como um dos jogadores mais decepcionantes da NBA - embora apenas em partes por motivos que estavam sob o seu controle.


2006 Draft: LaMarcus Aldridge (Chicago Bulls)

Outra grande estrela e perene All-Star que caiu no colo do Chicago Bulls... só que o Bulls optou por trocar Aldridge pela escolha #4 do Draft (Tyrus Thomas) e o ala ucraniano Viktor Khryapa em uma das piores decisões do século 21.

Tyrus Thomas foi um enorme bust que estava fora da NBA aos 26 anos enquanto LaMarcus Aldridge - agora em Portland - se tornou um dos mais consistentes e dominantes alas de força da NBA, uma garantia de 22 pontos, 9 rebotes, e boa defesa todas as noites por uma série de muito divertidos times do Blazers que nunca atingiram seu potencial por causa de lesões (Brandon Roy, Greg Oden, Wes Matthews... a lista é longa). Chicago ainda conseguiu alguns anos depois se remontar em um contender ao redor de Rose, Deng e Joakim Noah - todos grandes acertos no Draft - mas imagina como seria esse time de Chicago se fosse Aldridge e não Carlos Boozer jogando de PF. Mesmo que seria difícil concretizar essa visão devido aos múltiplos cenários possíveis, ainda foi um erro grotesco de Chicago.


Kevin Durant (Foto: USA Today)


2007 Draft: Kevin Durant (Seattle Supersonics)

Ai está, nosso segundo grande sucesso! Um dos maiores cestinhas de todos os tempos, MVP e atual MVP das Finais, alguém que já está no Panteão dos grandes jogadores de todos os tempos, Kevin Durant é o segundo e último grande acerto dessa lista no quesito "Tenha a escolha #2, selecione um Franchise Player, tenha grande sucesso com ele por muitos anos, aposente sua camisa", o primeiro sendo Gary Payton.

Agora me diga... o que os dois, as duas exceções da lista, tem em comum?

As duas foram pegas pelo Seattle Supersonics... uma franquia que NÃO EXISTE MAIS!!

Não mexa com a Maldição de Sam Bowie se não quer pagar o preço!! Ela tarda, ela pega caminhos tortuosos, mas ela nunca falha!


2008 Draft: Michael Beasley (Miami Heat)

Outro bust famoso. Beasley foi um MONSTRO na NCAA - 26 pontos, 12 rebotes por jogo em Kansas State - mas na NBA teve que lidar com problemas de condicionamento, desinteresse total por coisas como "defesa" e em geral um estilo muito ineficiente e egoísta de jogar. Depois de dois anos decepcionantes em Miami, foi enviado para Minnesota a fim de abrir espaço salarial para a vinda de LeBron James, e passou lá mais dois anos nos quais seus números foram razoáveis mas suas atuações, péssimas. Desde então tem flutuado entre times da NBA (e a liga chinesa), misturando alguns momentos bons no currículo com muito mais momentos de banco e falta de minutos.

(As escolhas #2 e #3 desse draft foram Beasley e OJ Mayo. As #4 e #5 do Draft? Russell Westbrook e Kevin Love).


2009 Draft: Hasheem Thabeet (Memphis Grizzlies)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA que incluiu Blake Griffin (#1), James Harden (#3), Ricky Rubio (#5), Stephen Curry (#7) e DeMar DeRozan (#9), de alguma forma o Grizzlies conseguiu fracassar DE NOVO com a escolha #2 escolhendo Hasheem Thabeet, de longe o pior jogador de toda essa lista. Um pivô enorme e comprido que não fazia ideia de como jogar basquete, Thabeet teve média de 3.1 pontos por jogo como calouro e nunca mais conseguiu chegar perto de atingir essa marca. O desenvolvimento nunca veio, a vontade de evoluir também não, e aos 26 anos Thabeet já não tinha mais chances na NBA. Uma das piores escolhas da história da NBA.


2010 Draft: Evan Turner (Philadelphia 76ers)

Outro grande fracasso do topo do Draft. Chegando com status de salvador e dividindo o topo do Draft com John Wall, Turner foi selecionado por um bom time de Philadelphia mas nunca conseguiu se adaptar e adicionar nada a um time sólido que precisava desesperadamente de um brilho individual. Seu estilo de jogo baseado na meia distância começava a virar passado na liga, e sua falta de explosão e agilidade impediram que suas habilidades como playmaker se traduzissem para a NBA. Turner acabou cavando um lugar na NBA como reserva de defesa/post ups/playmaking secundário, mas muito aquém do que se esperava quando chegou à NBA com tanta expectativa.


2011 Draft: Derrick Williams (Minnesota Timberwolves)

Oh boy, que sequência impressionante de busts temos aqui.

Elogiado à época por muitos (inclusive por mim, que cheguei a dizer que o Cavs deveria pegá-lo na escolha #1) como o PF perfeito para a nova era que a NBA estava se encaminhando, Williams na NBA se mostrou lento demais para jogar de SF, fraco e pouco físico demais para jogar de PF. Seu arremesso nunca veio, sua defesa também não, e basicamente viveu dos passe de Ricky Rubio e de algumas pontes aéreas durante muito mais tempo do que deveria. Atualmente está sem clube apesar de ter ainda 25 anos, uma casca do que acharam que ele seria.


2012 Draft: Michael Kidd-Gilchrist (Charlotte Bobcats)

Um jogador cru mas com ótimo físico e de enorme potencial, Kidd-Gilchrist não só nunca se desenvolveu como esperado como também não consegue de forma alguma ficar dentro de quadra. Seu péssimo arremesso - que nunca se desenvolveu - faz dele um encaixe complicado na NBA de hoje, e embora sua ótima defesa compense isso até certo ponto, MKG nunca teve a continuidade necessária para se estabelecer na NBA e acabou ficando para trás no desenvolvimento do atual Hornets. Kidd-Gilchrist ainda não é um bust completo, mas dadas as dificuldades de desenvolvimento e a dificuldade ainda maior de ficar saudável e em quadra, pode ser apenas questão de tempo para ser reconhecido como tal.


2013 Draft: Victor Oladipo (Orlando Magic)

Em um Draft reconhecidamente fraco (que parece um pouco menos fraco hoje que Giannis se tornou um candidato a MVP e Gobert um candidato eterno a DPOY), Oladipo - que muitos tinham como o melhor jogador do Draft - acabou caindo para o Magic no #2 e de modo geral se mostrou um jogador... ok. Seu físico impressionava e sua agilidade também, mas a situação ao seu redor era péssima para seu desenvolvimento: com um técnico retrógrado durante boa parte da estadia, jogando fora de posição, com um time sem nenhum tipo de espaçamento para Oladipo atacar a cesta (sua maior virtude), Oladipo pareceu estagnado em Orlando durante seus três anos antes de ser trocado para o Thunder, onde virou um dos reféns de Russell Westbrook em sua campanha pelo MVP.

Em seu terceiro time, o Pacers, Oladipo enfim parece estar realizando seu potencial. Ainda que seu aproveitamento esteja fora da realidade e deva normalizar com o tempo, o ritmo de jogo e o espaçamento do Pacers ajudou Dipo a maximizar sua velocidade, tornando-se uma força da natureza na transição ofensiva. Talvez Oladipo esteja começando a mostrar seu talento, e que realmente duas situações péssimas em Orlando e OKC eram o que estava impedindo sua carreira. Ainda é possível que um dia adicionemos Victor Oladipo na lista dos jogadores #2 que explodiram depois de serem trocados.


2014 Draft: Jabari Parker (Milwaukee Bucks)

Quanto mais no presente chegamos com essa lista, mais difícil é dizer onde esses jogadores se enquadram e qual seu futuro como escolhas amaldiçoadas por uma escolha feita muitos anos antes deles sequer nascerem. Jabari estaria hoje no seu quarto ano de NBA - mas só vimos basicamente fragmentos de um ano e meio de Jabari Parker em meio a lesões. Das 3 temporadas de Jabari na NBA, duas foram encerradas prematuramente por ligamentos rompidos (sempre um farol vermelho) e a outra foi uma temporada VOLTANDO dessa lesão grave, de forma que é difícil realmente avaliar o que Jabari Parker é como jogador - uma pergunta que Milwaukee deve se fazer com certa frequência. Ele é um 3 ou um 4? Ele é capaz de jogar junto de Giannis e Middleton? É capaz de defender o suficiente? Ainda não sabemos essas coisas.

O melhor parâmetro para Jabari que temos provavelmente é seu 2017 pré-lesão, seus jogos mais saudáveis até o momento. Se for, Jabari parece ser um ótimo pontuador com um arremesso em evolução, mas com uma defesa furada que torna difícil jogar certas lineups com ele, e um jogador preso entre posições. Seu potencial como pontuador ainda é muito intrigante e pode ser que Jabari ainda acabe sendo uma boa escolha #2, como mostrou flashes ano passado, especialmente se o loooongo time de Milwaukee conseguir cobrir sua defesa. Mas também é bastante fácil enxergar uma situação onde o Bucks, com problemas salariais e prestes a dar uma extensão cara para Jabari (que não deu nenhuma mostra de ficar saudável), simplesmente decida que ele é quem precisa ir embora. A ser definido.


2015 Draft: D'Angelo Russell (Los Angels Lakers)

Acaba sendo muito ignorado uma coisa quando falamos do desenvolvimento de jovens é a situação onde eles vão parar, e isso pode ser crítico entre um jogador talentoso acabar como uma revelação ou um fracasso. E D'Angelo Russell é alguém que teve uma das piores situações possíveis, e o Lakers não fez nada para ajudar: basicamente perdeu seu primeiro ano formativo (de calouro) atrás de uma péssima diretoria, o pior técnico da NBA que constantemente estava em conflito público com Russell, e o show de despedida do Kobe que deu a Russell zero espaço para desenvolver. No seu segundo ano, Russell teve seus problemas mas mostrou uma boa evolução sob um novo técnico e uma nova situação... só para ser jogado debaixo do ônibus pela nova diretoria e trocado para o Nets.

Russell tem potencial como passador e chutador, sendo bom em ambas as funções, mas ainda não entendendo como usar as duas dentro de quadra de forma a maximizar seu jogo e seus companheiros. Russell vinha fazendo grandes avanços nesse sentido no começo do ano sob o competente Kenny Atkinson no Nets antes de sofrer a lesão, então resta aguardar para ver o que acontece com o armador quando voltar. Pelo Lakers, ele já foi um fracasso - embora muito por culpa de outros.


2016 Draft: Brandon Ingram (Los Angeles Lakers)

Brandon Ingram foi horrível como calouro, parecendo totalmente perdido dos dois lados da quadra, incapaz de usar seus dotes físicos em quadra e sendo jogado de um lado para o outro como uma boneca de pano. Mas as pessoas esquecem que Ingram era um dos jogadores mais novos do Draft, e ainda é mais novo do que boa parte dos jogadores do Draft de 2017. Por exemplo, Ingram é só dois meses mais velho que Lonzo Ball. É preciso dar tempo a Ingram.

Na sua segunda temporada os progressos foram muito mais animadores. A falta de arremesso ainda é preocupante e será um problema enquanto continuar - Ingram parece muito mais confortável usando seus longos braços para atacar a cesta e finalizar, mas ele não é explosivo, forte ou ágil como Giannis (que, convenhamos, é um ponto fora da curva) para chegar na cesta quando quer, e o arremesso precisará vir para evitar que a quadra fique estrangulada. Ainda assim, Ingram parece um jogador bem diferente no seu segundo ano, e sua combinação de potencial defensivo, criação, passe e pontuação para um jogador do seu tamanho é bem atraente para qualquer time.


2017 Draft: Lonzo Ball (Los Angeles Lakers)

Vamos tirar isso do caminho: eu acho que Lonzo ficará bem. É cedo demais pra julgar demais, muito menos declarar o garoto Ball um bust. As pressões criadas ao seu redor - por um pai maluco, uma mídia ávida por cliques e um Lakers megalômano que já mostrou não ter nenhum tato para lidar com seus jovens jogadores - estão atrapalhando nossa percepção, e incentivando as conclusões precipitadas. Seu QI de basquete e seu passe são bons demais para não darem certo na NBA.

Dito isso, Lonzo tem sido simplesmente péssimo na NBA. Seu arremesso não está funcionado, e Lonzo parece incapaz de finalizar qualquer tipo de jogada que não seja livre. O arremesso ruim de 3 tem chamado mais atenção, mas os 35% de aproveitamento em bolas de dois é muito mais preocupante, a meu ver (em defesa de Lonzo, eu acho que ele tem sido muito mal usado pelo Lakers e teria se beneficiado de jogar ao lado de... D'Angelo Russell). E muito disso não teria importância - apenas os percalços de um calouro - se não fosse Lonzo sendo jogado totalmente no fogo por uma diretoria do Lakers que vendeu cedo demais Ball como seu salvador, o novo Magic, e que precisava que Lonzo fosse dominante logo de cara para vender seu projeto e sua imagem, ao invés de deixar isso se desenvolver naturalmente. Para mim, a situação ao seu redor - familiar, midiática, e a péssima condução do Lakers - é muito mais preocupante para o futuro de Lonzo do que seu arremesso torto.


Conclusão

Ok, agora que chegamos ao fim... HOLY SHIT, que lista horrível. É de doer o coração. Um número enorme de busts, tragédias com lesões, potenciais desperdiçados, e trocas ruins. Não foi fácil escrever essa coluna.

Olhando os números e estabelecendo 2012 como o último ano que podemos dar um veredito parcial (depois disso é cedo demais), eis os resultados em 29 anos de escolhas #2 de Draft entre Sam Bowie (1984) e Michael Kidd-Gilchrist (2012):

- Dessas 29 escolhas, 13 (!!!!!) foram busts, incluindo problemas com lesões (Bowie, Tisdale, Gilliam, Danny Ferry, Shawn Bradley, Stromile Swift, Jay Williams, Darko, Marvin Williams, Beasley, Hasheem Thabeet, Evan Turner e Derrick Williams). Ou seja, incríveis 45% das escolhas #2 desde Bowie foram busts.

- Dessas 29 escolhas, um morreu antes de sequer jogar um jogo de NBA (Lenny Bias).

- Das 29 escolhas, 5 (17%) tiveram uma carreira entre "Decepcionante" e "Abaixo do esperado para uma pick #2" (Smits, Kenny Anderson, Mike Bibby, Emeka Okafor e MKG)

- Das 29 escolhas, 8 (28%) delas acabaram virando realmente bons jogadores ou até estrelas... mas só depois de terem sido trocado pelos seus times de origem (Kidd, Aldridge, Camby, Van Horn, Tyson Chandler, McDyess, Alonzo Mourning e Steve Francis), e eu estou sendo generoso com alguns desse nomes (poderia ser limitada a Chandler, Kidd, Aldridge e Mourning, jogando o resto na categoria baixo).

- E apenas DOIS viraram realmente estrelas para os times que os draftaram, Payton e Durant.

Em outras palavras, 19 de 29 (incríveis 65%) dessas escolhas falharam em se tornar um grande jogador, sendo que 13 foram completamente inúteis para seus times no médio prazo. Olhando mais a fundo, apenas CINCO dessas 29 escolhas (Payton, KD, Aldridge, Kidd e Mourning - 17%) viraram estrelas de fato na NBA (para efeito de comparação, a escolha #3 teve 8 no período e isso sem contar Joel Embiid), e apenas dois, três (contando Smits) ou quatro (se quiser contar como sucesso Glen Rice como retorno de Alonzo) times REALMENTE podem dizer que tiveram sucesso escolhendo na posição #2 durante VINTE E NOVE ANOS.

E no final, chegamos nisso: apenas dois times que tinham a escolha #2, a segunda posição mais valiosa do Draft inteiro, conseguiram obter um Franchise Player para seu futuro e construir todo um futuro vencedor (mesmo que sem títulos) ao seu redor. Ambos foram draftados pelo Seattle Supersonics, a franquia que foi roubada da forma mais cruel da história da NBA.

E se isso tudo não é suficiente pra te convencer da Maldição de Sam Bowie, eu não sei o que é.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Uma coluna sobre mim, e Kevin Durant



Quando Kevin Durant anunciou sua decisão de ir para o Golden State Warriors formar um dos times mais talentosos da história da NBA, o que não faltou foi ver as famosas "hot takes" - opiniões fortes, polêmicas e muitas vezes idiotas - pipocando na internet. Muita gente ofendendo Durant e dizendo que ele era um covarde, ou um perdedor, ou coisa do tipo por ter tomado a decisão DELE, que fazia sentido para ELE, e que afeta a vida DELE. 

E é normal pessoas não gostarem da decisão do Durant. Ela afeta vários fatores que diversas pessoas consideram importantes: muitas valorizam a competição dentro da NBA, por exemplo, e a ida de Durant não só adicionou um jogador Top3 da NBA a um time que venceu 73 jogos ano passado e esteve a 5 minutos de dois títulos seguidos, como ainda derrubou da disputa o único time no Oeste que realmente assustava o Warriors. Outros podem valorizar o jogador que passa a carreira inteira no mesmo time e tem um peso enorme que vai muito além do basquete, virando um símbolo da franquia e da cidade (Duncan, Dirk, Kobe alguns exemplos recentes que vem à mente), e Durant - o símbolo do basquete de OKC - deixando a cidade nos privou de ver mais uma história dessas com um dos melhores atletas da nossa geração. A preferência dessas pessoas foi afetada negativamente pelo cenário que se formou na NBA após essa decisão.

Ou seja, é comum que pessoas se sintam, em um nível pessoal, incomodadas com a decisão de Durant. Cada um de nós tem um conjunto de preferências e vontades, coisas que valorizam e que buscam, e a decisão de Durant pode ter contrariado muitas dessas. Então a nossa reação natural é de decepção, afinal a realidade não seguiu as nossas expectativas, e por isso desgostamos dessa realidade. Gostaríamos que fosse diferente, ressentimos de como aconteceu, e lamentamos. É a natureza humana, e isso não tem nenhum problema.

O problema é não reconhecer que existe mais do que um tipo de preferência e de ponto de vista no mundo, e que não necessariamente todos tem que seguir o mesmo. Ao mesmo tempo que a decisão de Durant afetou negativamente muitas pessoas por ir de encontro às suas preferências, certamente existe muitas outras pessoas cujo conjunto de preferências foi afetado positivamente pela ida de KD a Golden State, e que agora estão felizes e elogiando a decisão.

E também, claro, tem o lado da pessoa mais importante nessa história toda: Kevin Durant. Todo mundo quis atribuir motivos à sua decisão - ele quer vencer do jeito mais fácil, ele não quer a pressão de ser uma estrela, etc - mas a verdade é que ninguém faz ideia do que levou ele a tomar a decisão. E se ele simplesmente não estivesse feliz jogando em OKC? E se ele não gostasse de jogar com Westbrook, ou no esquema ofensivo estagnado do Thunder? E se ele quisesse um novo começo, morar em San Francisco, ou jogar em um time com um estilo diferente? A gente não sabe, e nunca vai saber. Os motivos são dele. E por isso é besteira tentar atribuir motivos para o que o jogador fez ou deixou de fazer, especialmente aqueles que convenientemente servem à narrativa que queremos criar por causa das nossas próprias preferências.

Em outras palavras, o que nós discutimos não é se a decisão de Durant foi certa ou errada. Nós discutimos como ela afetou as NOSSAS preferências, e qual a nossa reação pessoal a elas. Mas ninguém admite isso. E um dos motivos é porque queremos excluir ao máximo o "eu" quando discutimos de esporte - se você começa a falar das suas visões e preferências, de repente sua opinião vai ser considerada mais subjetiva do que objetiva, e talvez ser menos considerada. E por isso tanta gente tenta omitir o "eu" da conversa e falar como se existissem fatos sobre o que é certo ou errado, sobre o que Durant deveria ou não ter feito, e começa a criar rótulos e narrativas imbecis para tentar explicar porque Kevin Durant - um ser humano tão complexo quanto todos nós, com gostos, preferências, ideias e objetivas totalmente próprios que não dizem respeito a nenhum de nós - tomou uma decisão que vai de contro à nossa configuração pessoal enquanto indivíduos.

Em resumo, é perfeitamente normal para um fã ou torcedor se sentir traído pela decisão de Kevin Durant (o lado irracional, passional do torcedor), mas não achar que isso faz de Kevin Durant um traidor (o racional, baseado em fatos)... mas é isso que as pessoas tentam fazer, racionalizar sua irracionalidade para torná-la mais "aceitável" e transformar aquilo em um fato... e isso que é o mais absurdo.

Kevin Durant tomou a decisão de ir para o Warriors, o que diminui a competitividade da NBA e forma um time claramente superior (no papel) aos demais. Mas eu gosto de competitividade e rivalidades, e não gosto de times favoritos. Então a decisão de Durant foi contra o meu gosto. Então, ao invés de reconhecer que ele funciona diferente de mim e teve razões diferentes das minhas para tomar uma decisão que não me dizia respeito, e assumir que eu simplesmente não gostei da decisão, eu vou ficar falando que o Durant é medroso, que é covarde, que é desleal, etc e tal para tentar justificar como EU me sinto em relação a ele.

Desnecessário dizer o quão idiota é isso. Mas é o mundo esportivo como vivemos hoje, infelizmente. Ninguém quer admitir que sua reação a um fator as vezes é totalmente pessoal e baseada nas suas individualidades. E claro, ninguém quer admitir que possa existir outras pessoas que veem o mundo diferente que você - todo mundo só quer estar certo (e isso se estende MUITO além dos esportes, btw).

Então claro que, quando eu declarei no Twitter que a decisão de Durant era interessante e que eu estava ansioso por ver como seria esse time do Warriors - ao invés de criticar seu caráter e sua decisão - nem todo mundo entendeu meu ponto de vista. Para colocar de forma leve.

E um seguidor, particularmente revoltado, declarou que meu problema era preferir ver um grande time do que ver a liga sendo equilibrada e competitiva. Quando eu neguei que fosse o caso, ele questionou então: "Então o que você quer ver da NBA?".

Embora a pergunta tenha sido feita em tom de crítica, ela me fez pensar. Assim como todo mundo tem suas preferências, eu tenho as minhas, mas nunca tinha parado para pensar a fundo na questão. Eu acompanho esportes desde que me lembro, e embora torça pelos meus times, eu sempre dei uma importância maior para os esportes em si do que só assistir pelos meus times. Eu, como qualquer um, também quero ver certas coisas acontecendo, e fico feliz ou triste, animado ou decepcionado, quando algum acontecimento ou fato vai de acordo ou contra meus gostos pessoais.

Mas, no final, eu voltava para a mesma pergunta.

O que eu quero quando se trata de esportes?

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Para responder a essa pergunta, eu preciso fazer um paralelo com uma das minhas obras favoritas.

Hunter x Hunter é um mangá de Yoshihiro Togashi, mais conhecido no Brasil por sua outra obra famosa, YuYu Hakusho (sim, aquele da Manchete). A obra conta a história de "hunters", ou "caçadores": são pessoas que passam a vida "caçando", "procurando" ou "buscando" alguma coisa (dependendo da tradução que você quiser usar). E o que um Hunter procura pode ser qualquer coisa que o atraia: alguns passam a vida procurando criminosos, outros procuram novas espécies de animais. Alguns procuram jóias raras, e outros procuram achados arqueológicos. Não importa o que, mas todos tem que procurar alguma coisa, em geral motivados pelo desejo de aventura e sede de conhecer o desconhecido. É uma das melhores obras que já li, tanto para o gênero de ação como pela genialidade da mensagem de algumas das suas sagas, e recomendo para os fãs do gênero.

E em Hunter x Hunter existe um personagem chamado Ging Freecs. Ging é um Hunter bastante famoso, considerado um dos personagens mais habilidosos e poderosos da saga e, por muitos, o melhor Hunter do mundo. No entanto, Ging também é considerado um grande mistério: alguém que desaparece com frequência, faz as coisas do seu jeito sem pensar em mais nada, que está constantemente mudando de ideia e de objetivos, e que é praticamente impossível de se encontrar já que nunca fica parado no mesmo lugar. Embora ele seja um Hunter de arqueologia, ninguém sabe exatamente o que ele quer ou o que está buscando na vida. Ele vai aparecer onde e quando quiser, e desaparecer para cuidar dos seus assuntos na maior parte do tempo.

Em dado momento, um outro personagem pergunta a Ging exatamente o que ele procura. Qual é seu objetivo final, o que ele almeja encontrar.

A resposta? "O que eu procuro... é alguma coisa que não consigo enxergar diante de mim".

Eu sempre achei isso genial. Ging não tem um objetivo fixo: ele sempre está à procura de algo novo, de algum novo desafio, algo que ele ainda não tem e terá prazer em ir atrás. O que é essa coisa, na verdade, não importa. O que ele quer é o desafio e a emoção da jornada, o que importa para ele é o caminho, e não onde esse caminho leva. Quando atingir seu objetivo, ele parou de ser interessante e é hora de procurar algo novo. Algo que ele não tem diante dele.

É exatamente assim que eu me sinto quando fã de esportes, e foi a conclusão que eu cheguei quando penso sobre o que eu quero como alguém que ama e acompanha esportes. O que eu quero ver acontecendo é algo que eu ainda não tenho.

Em outras palavras, respondendo à pergunta do internauta, eu não sei exatamente o que é que eu quero. E isso não é um problema, porque o que eu quero pode ser atingido independente de qual a forma. O que eu quero é algo novo, algo diferente e que nunca tenha visto antes. Eu quero a experiência de ver algo que me eleve a um patamar maior como fã de esporte. O que isso é, não importa de verdade. Pode vir sobre diferentes formas: uma virada espetacular, uma temporada que quebra recordes, um jogador diferente e único. Eu quero ver dois dos melhores jogadores da história da MLB tendo seus auges juntos. Eu quero ver uma rivalidade perfeita entre dois dos 5 maiores quarterbacks da história da NFL. Eu quero ver a maior virada da história dos esportes americanos. Eu quero ver um jogador aleatório vivendo uma história improvável e mágica com final feliz. Eu quero ver um jogador que muda a forma como eu (e a própria NBA) penso um esporte. Mesmo que, até essas coisas se concretizarem, eu não fazia ideia de que eu queria tanto elas.

Quando em 2010 LeBron anunciou sua decisão de deixar o Cavaliers para se juntar a Wade e Bosh em Miami, minha primeira reação foi negativa. Ao invés de vencer as dificuldades em Cleveland, LeBron parecia estar pegando o "caminho mais fácil" ao se juntar a duas outras superestrelas, e assim ele nunca se realizaria como completo superstar da NBA. Eu queria ver LeBron atingindo seu auge e superando as barreiras na própria força, não na força de Wade e Bosh.

Depois, eu percebi o quanto isso era idiotice. Eu ainda estava muito apegado ao estereótipo Jordan da superestrela que centraliza o jogo, arremessa todas as bolas e domina as atenções. O que eu percebi depois - e, felizmente, a tempo - é que LeBron era um jogador diferente, mais voltado para o jogo coletivo, e que ter grandes companheiros ao seu redor era uma condição importante para que James conseguisse tirar o máximo do seu jogo, e enfim atingisse todo seu imenso potencial como jogador de basquete. Isso nunca teria acontecido naqueles times horríveis de Cleveland. Então a decisão de LeBron, no final, acabou me proporcionando duas coisas que eu nunca poderia ter tido como fã de esportes se ele tivesse ficado em Cleveland: a possibilidade de ver o jogador mais talentoso que já assisti realizando seu potencial e atingindo seu auge como jogador de basquete, e ver um time tão bom, tão único e que jogava um basquete tão maravilhoso de se assistir como aquele Heat 2012-2013.

(Tangente rápida: uma grande pena que o Heat de LeBron nunca tenha conseguido uma temporada completa, do início ao fim, em plenos poderes. Em 2012, o time só atingiu seu auge nos playoffs, quando Bosh machucou, LeBron mudou para PF e o time descobriu seu small ball. E em 2013, o time chegou nos playoffs desgastado demais, cansado demais, e nunca jogou seu melhor basquete. Eles nunca tiveram aquela temporada completa chutando bundas a torto e a direito que mereciam. Nossa perda.)

Meu jogo favorito que assisti ao vivo? G4 da série entre Mavs e Blazers em 2011, na primeira rodada dos playoffs. Foi o jogo que Brandon Roy, praticamente fora da NBA a essa altura por causa dos problemas físicos que destruíram o que vinha sendo uma fantástica carreira, saiu do banco e milagrosamente voltou o relógio alguns anos, anotando 18 pontos - inclusive os oito finais do Blazers na partida - e dando quatro assistências no quarto período apenas, enquanto Portland tirou uma vantagem de 18 pontos de Dallas no período final para igualar a série em 2-2. Cinco anos depois, eu ainda lembro daquele jogo como se fosse hoje.

Esse jogo importou no grande esquema das coisas? Provavelmente não. Dallas ainda venceu a série em 6, e algumas semanas depois venceu o Miami Heat para conquistar seu primeiro título de NBA. Brandon Roy aposentou naquela offseason, voltou em 2012 e aposentou de vez algumas semanas depois.

Mas aquele ainda é, e sempre será, o jogo que eu lembro quando penso nos playoffs de 2011. Foi simplesmente perfeito: um dos meus jogadores favoritos e figura trágica da NBA, alguém que eu já tinha aceitado a decadência e sabia (ou achava que sabia) que nunca mais veria jogando no alto nível do passado, de repente se rejuvenescendo por 12 minutos e jogando talvez o basquete mais inspirado da sua vida, conduzindo uma das maiores viradas da história dos playoffs da NBA com uma das mais memoráveis performances da história da NBA em quartos períodos. Foi imprevisível, e foi emocionante de se contemplar. Ele me deu algo que eu nunca tinha visto, que eu nunca pensei que veria, e no final das coisas, uma memória para sempre.

Como Bill Simmons escreveu uma vez, nós fãs assistimos a 1000 jogos em busca de algo especial, algo único e fantástico, e 999 vezes ela não acontece. Mas quando tem a 1000th vez, ela acontece, e é algo que nunca mais vamos esquecer, e que fazem valer todo o esforço. A atuação de Brandon Roy foi a milionésima vez. Eu nunca esquecerei de assistir esse jogo enquanto viver.

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Então voltando ao ponto inicial: o que isso significa em relação a Kevin Durant?

Kevin Durant deixando o Thunder nos privou de muitas coisas boas. Ver aquele time jovem do Thunder que surgiu para o mundo em 2010 tentar subir a montanha, enfrentando seus próprios demônios e dificuldades para tentar chegar no topo da liga, era uma histórias mais interessantes de se acompanhar na NBA nesses últimos 7 anos. Ver aquele time enfim atingindo o topo, superando os poderosos Warriors e Cavs, sua crescente rivalidade com Golden State, a eterna dúvida se Durant e Westbrook algum dia achariam a forma ótima para conviver... são todas coisas que eram muito divertidas.

Eu queria muito ver a história do Thunder do começo ao fim, até por ser uma das histórias mais fáceis de se acompanhar: o time jovem e promissor de 2008/2009, o time dando um salto em 2010, a evolução nítida de 2011, finalmente chegando nas Finais em 2012, a troca de Harden e as lesões de Durant e Westbrook, a quase redenção em 2016... era uma história que muitos (inclusive eu) queriam ver tendo um final, e de preferência um final feliz. Era algo que eu queria ver, e agora (ou pelo menos por enquanto) não verei mais por causa da decisão de Durant.

Mas ao mesmo tempo, eu já vi antes times subindo a montanha e atingindo o título. Eu já vi times ultra-talentosos, mas de encaixe difícil, encontrando uma forma de coexistir e tirar o melhor de si mesmo rumo a um título. Eu já vi dois dos 5 melhores jogadores da NBA jogando juntos no seu auge. Não que seja uma história que não seja ótima de se rever várias vezes com diferentes protagonistas, mas não é exatamente algo novo para mim.

Mas eu nunca na vida vi um time de basquete tão talentoso - pelo menos no papel - quanto Golden State é agora com Kevin Durant. Eles tem a chance de fazer algo que eu nunca vi antes, de quebrar recordes e atingir um nível de basquete que eu nunca vi. Eu sempre me ressenti de nunca ter a chance de ver o Celtics de 86 ou o Bulls de 96 ao vivo - na minha opinião os dois melhores times de basquete da história da NBA - e agora tenho a chance de acompanhar um time que pode ser tão bom quanto, ou até melhor, do que esses dois times lendários. É uma oportunidade nova que essa decisão de Durant também trouxe.

E também tem o seguinte: é possível que, assim como LeBron, existe um jogador melhor dentro de Durant esperando para sair na situação certa, e com os companheiros certos. Larry Bird não teve seu auge como jogador de basquete em 1986 apenas porque, individualmente, ele estava no seu auge físico e técnico - um dos principais motivos é que o talento no Celtics ao seu redor teve um notório auge naquela temporada, e isso permitiu que Larry Legend explorasse mais partes do seu jogo que antes ele não tinha como: sua maestria nos passes, sua versatilidade para executar múltiplas funções, e até mesmo sua criatividade para tentar coisas novas quando os jogos estavam entediantes. Bird teve seu auge em parte porque o coletivo ao seu redor era melhor, e muito mais preparado para que ele tirasse o máximo de seu jogo.

Talvez o mesmo aconteça com Kevin Durant: em um time mais coletivo, com mais opções, com QI coletivo fora de série e tantos jogadores completos, talvez Durant agora pode focar em mostrar e elevar partes do seu jogo que não apareciam antes para nós tão bem. Com menor responsabilidade para pontuar, e com mais espaço do que nunca, pode ser que vejamos mais de Durant como passador e criador, ou que ele decida focar mais na sua defesa, que tem chance de ser excepcional. Talvez ele tenha mais assistências e mais roubos de bola do que nunca, e arremesse algo como 55-43-90 na temporada. Com seus companheiros melhores e jogando um estilo de basquete mais favorável, pode ser que o próprio Durant leve seu jogo a um nível que não tínhamos visto antes.

Isso tudo é melhor do que a chance de ver o Thunder ser campeão com Durant e Westbrook? Para mim agora é, e por um motivo simples: eu tenho a chance de ver tudo isso acontecendo agora, enquanto que ver o Thunder campeão com West e KD não. Qual é a graça de buscar algo que não existe mais? Por que se apegar a algo que deixou de existir, se eu posso ir atrás de novas possibilidades e novos objetivos, coisas que eu nunca tive antes e que podem cumprir seu papel para mim, de me levar a um patamar mais alto como fã do esporte? A decisão de Durant fechou algumas portas e nos privou de algo muito legal, mas ao mesmo tempo abriu outras portas e outras possibilidades. A grandeza que podemos ver hoje é diferente da de ontem, mas não necessariamente é pior.

Essa foi a lição que eu aprendi ao longo da vida esportiva. Ao invés de me apegar a algo que não existe mais, eu simplesmente começo a buscar algo novo toda vez que a situação mudar, e com isso eu - de novo, EU - posso aproveitar plenamente o que os esportes que eu tanto amo me oferecem. Durant nos tirou algumas coisas boas, mas nos oferece outras em troca: eu posso lamentar pela perda das primeiras, mas isso nunca pode me impedir de aproveitar e almejar as coisas novas que eu não poderia ter antes, e agora posso. As coisas mudam rápido demais nos esportes. Se não soubermos nos adaptar igualmente rápido, podemos perder chances únicas. Não importa o que eu quero. O que importa é que eu sempre quero algo novo, algo diferente, algo que vai me elevar a um patamar maior como fã de esportes. E quando isso acontecer, eu posso ficar satisfeito sabendo que, naquele momento, eu serei mais rico em experiências esportivas do que era antes. E, minutos depois, me preparar para buscar o próximo objetivo.

Ou pelo menos isso é o que eu sinto. Você é livre para sentir ou pensar algo totalmente diferente, com base nas suas próprias preferências e opiniões. Isso é perfeitamente normal.

Só é uma grande idiotice achar que o que você sente é a verdade do mundo, e que um jogador de basquete profissional que precisa pensar na sua própria vida e carreira e pensa diferente de você é um traidor. Ou um covarde. Ou qualquer outro adjetivo imbecil que tenha surgido desde o dia 4 de julho.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Hack a Cast #18 e #19 - Kevin Durant e a Free Agency



Tem Hack a Cast novo... e em dose dupla!!

Com a Free Agency em pleno vapor, eu e o Vinicius Veiga tivemos que fazer um podcast de emergência (com ajuda do Renato Gonçalves, do perfil NBA no Brasil) para discutir a polêmica decisão de Kevin Durant de se juntar ao Warriors: o que isso significa, como o Warriors deve ser daqui para frente, e quais as alternativas do Thunder nesse momento.

Depois, com mais calma, chamamos novamente o Renato para discutir o resto da Free Agency: Al Horford no Celtics, Dwight Howard no Hawks, os valores astronômicos da offseason, os grandes contratos da temporada, alguns times que fizeram barulho, e os nossos contratos preferidos.

Então aproveite nossa cobertura especial da offseason: duas horas e meia de podcast, só falando de NBA!!

Em tempo: Estamos agora no iTunes! Vocês podem nos achar procurando por Hack a Cast no iTunes ou em qualquer aplicativo de podcasts. Peço a todos os ouvintes que se possível nos avaliem e façam um comentário sobre o podcast: é pouca coisa, não custa mais do que cinco minutos, mas é importante para aumentar a projeção do nosso Hack a Cast e nos ajudar a continuar trazendo esse conteúdo para vocês.

Aproveitem!!

Hack a Cast #18 - Kevin Durant nos Warriors




Hack a Cast #19 - Free Agency da NBA










sexta-feira, 4 de março de 2016

O grande problema do Oklahoma City Thunder

OKC tem um problema sério, e nenhuma solução à vista



Na noite de quarta feira, no jogo mais esperado do dia, OKC tinha uma vantagem de 22 pontos sobre o Los Angeles Clippers no final do terceiro quarto. Com uma revanche contra Golden State no dia seguinte, parecia o cenário perfeito para o Thunder: uma boa vitória sobre um grande time para dar confiança, e um cenário no qual você poderia descansar alguns titulares no quarto período para se preparar para o confronto do dia seguinte.

Ao invés disso, tudo desandou: OKC manteve os titulares, os arremessos pararam de cair, e OKC perdeu a calma e implodiu em meio a uma sequência de más decisões, turnovers estúpidos, arremessos ruins e falhas defensivas. Nos últimos 7 minutos e meio, Thunder anotou 5 pontos, Westbrook foi 0-6 de quadra, e viu o Clippers destruir uma vantagem de 17 pontos rumo a uma vitória que deixou o terceiro colocado do Oeste cada vez mais próximo de um confronto com o Warriors na segunda rodada dos playoffs.

Infelizmente para OKC esse cenário não é uma novidade: os quartos períodos tem sido um problema real para o time. O time está 2-6 desde a volta do All Star Game, e em quatro dessas seis derrotas o time chegou a ter a vantagem no quarto período antes de tomar a virada. Aconteceu contra o Pacers logo na volta do "feriado", depois duas viradas épicas de Warriors e Clippers, e por fim a surra de ontem a noite do Warriors em Oakland. O Thunder agora soma incríveis 10 derrotas em jogos que entrou vencendo no quarto período, pior marca da NBA, na frente até mesmo do fraquíssimo Sixers

Isso também não é um fenômeno recente ou surpreendente. Ao longo da temporada, Oklahoma City tem o segundo melhor ataque da NBA e terceiro melhor Net Rating (saldo de pontos por 100 posses de bola), mas quando chegamos nos finais dos jogos isso cai por terra. Em quartos períodos, Oklahoma tem apenas o décimo melhor ataque, e é um fraquíssimo 19th em Net Rating. Pegando apenas o final dos jogos - o famoso crunch time - e definindo nosso parâmetro como 3 minutos finais de jogos separados por 5 pontos (para mais ou para menos), os números são ainda piores: O Thunder tem o 13th melhor ataque e o oitavo PIOR Net Rating da liga. Para efeito de comparação, o Net Rating do time nessas situações é de -10.6 - exatamente o mesmo que o Philadephia 76ers tem na temporada 2015-16 da NBA.

Dificuldade em crunch time é um problema antigo em OKC, e foi um dos fatores chaves da saída do técnico Scott Brooks. A chegada de Billy Donovan deveria corrigir essas questões, em particular a estagnação ofensiva que assola o time nessas situações de fim de jogo. Mas até agora, não funcionou. O time, que já era ruim, pareceu ter ficado ainda (relativamente) pior essa temporada. E embora isso possa ser atribuído em partes a uma amostra pequena e um período ainda de adaptação ao novo técnico, é um motivo para grande preocupação em uma temporada como essa - especialmente considerando o término do contrato de Kevin Durant ao final da temporada.

Como vocês ficarão chocados em saber, eu tenho algumas ideias sobre o que pode estar causando esse problema.

Um problema - e um dos principais - é a forma como o time reestruturou seu ataque. Embora a base seja a mesma - poucos passes, muita isolação, bola na mão das estrelas - o técnico Donovan fez uma mudança importante: Russell Westbrook agora é quem é o foco ofensivo da equipe (em termos de volume), e não mais Kevin Durant.

Para mim, era uma mudança que fazia muito sentido: Westbrook evoluiu em um excelente criador (#2 na NBA em assistências, com 10.3 por jogo), então deixar a bola nas suas mãos e deixar West operar através do pick and roll (E atacando a cesta) é a melhor forma de criar chances para o resto do elenco do Thunder, um elenco que (salvo Durant e talvez Waiters) não tem condições de criar seu próprio arremesso. Ao mesmo tempo, Durant é um jogador que comanda MUITO mais atenção do que Westbrook jogando longe da bola por conta de seu arremesso, o que força maiores movimentações do adversário e abre muito mais espaço para o resto da equipe (mais ou menos como Atlanta usa Korver e o Warriors usa Curry fora da bola, por exemplo). E no geral, parece estar funcionando: Oklahoma City tem hoje um Net Rating de 109.1 de acordo com os dados oficiais da NBA (2nd melhor da história da franquia) e de 112.8 de acordo com os dados extra-oficiais do Basketball-Reference (melhor da história da franquia), em ambos os casos #2 da NBA.

No entanto, vale questionar se essa abordagem tem contribuído para os problemas do time em crunch time. Durant é um dos melhores jogadores de crunch time da NBA, mas colocar a bola integralmente nas mãos de KD significa desviar do que o time faz normalmente e mudar toda sua forma ofensiva de jogar, o que naturalmente pode causar todo tipo de estranheza. Ao mesmo tempo, manter a bola nas mãos de Westbrook também não tem se mostrado uma grande opção: por melhor que Russ seja, ele ainda tem a tendência de as vezes jogar um pouco fora de controle e ficar um pouco tunnel vision, especialmente em crunch time, e sem um bom arremesso de longe para manter defesas honestas, adversários estão mais do que satisfeitos de fechar o caminho para o garrafão e deixar Russ se complicar sozinho. Em 130 minutos de crunch time na temporada, Russ está arremessando 38% de quadra, 13% de três pontos e tem 18 turnovers contra 26 assistências. Então ainda que de modo geral faça sentido essa nova forma de OKC atuar, é possível que tenha contribuído para aumentar as dificuldades da equipe em crunch time.

Outros problemas que tem contribuído para essa dificuldade do Thunder já são bem conhecidos. A equipe não tem um ataque dinâmico ou inteligente, o tipo de ataque que envolve espaçamento de quadra e muitos passes para achar os companheiros livres que consagrou times como Warriors ou Spurs. O que OKC tem é um sistema muito estático e de pouca criatividade que se baseia no fato de ter dois talentos ofensivos transcendentais em KD e Russ Westbrook capazes de destruírem sozinhos marcações e esquemas defensivos inteiros:  nenhum time passa menos a bola do que OKC, e nenhum termina mais posses de bola através de isolações, segundo dados da Synergy Sports. Não existe um esquema complexo, jogadas bem desenhadas e decisões de alto QI de basquete envolvidas, e sim o talento sobre-humano de duas superestrelas.

Na maior parte do tempo, isso funciona porque Russ e KD são aliens e conseguem carregar nas costas o time rumo a um ataque top5. Mas isso não tem sido verdade em crunch time. Em um momento do jogo onde as defesas ficam mais ligadas e o ritmo diminui, o ataque de OKC se torna extremamente previsível, com as defesas sabendo o que o Thunder fará e ajustando de acordo: fechando o garrafão contra Westbrook e mandando marcações duplas contra Durant, despreocupadas com movimentações ou jogadas criativas e decisões em alta velocidade que podem fazê-los pagar por essas decisões. Faça isso contra o Spurs ou o Warriors e eles irão te tirar da zona de conforto com trocentas screens, movimentações, cortes e passes destinados a liberar suas estrelas e/ou conseguir arremessos de altos aproveitamentos para os role players, e se a defesa se comprometer demais com uma opção, a versatilidade e inteligência desses times imediatamente vai aproveitar os espaços deixados para atingir seus objetivos. O Thunder não tem esses elementos em alto nível no seu ataque ou nos seus jogadores, então eles se tornam previsíveis e dependem continuamente de Russ e KD fazendo jogadas individuais, só que agora com defesas muito mais atentas e preparadas especificamente para parar essas jogadas individuais.

Claro que Donovan - assim como Brooks antes dele - tem jogadas e variações específicas para serem usadas nessas situações, mas quando é algo que o time não está acostumado a fazer normalmente é muito difícil que eles executem em situações de pressão contra defesas mais atentas e bem montadas. Muito do basquete de hoje não depende de algo desenhado e sim da capacidade dos jogadores de tomarem decisões certas em alta velocidade, e isso é algo que é impossível de fazer só em momentos específicos, depende de repetições, treino e experiência. Donovan chegou com a esperança de mudar exatamente esse aspecto do seu predecessor, mas até agora, está difícil achar grandes diferenças nesse sentido. 

Por fim, existe outro grande problema em Oklahoma City, que é o elenco de apoio ao redor de suas duas estrelas. Na verdade, são dois problemas que acabam se influenciando e tendo um único resultado, que eu inclusive já citei em mais de um Hack a Cast: OKC tem muita dificuldade de achar um time ideal para usar no final dos jogos, justamente por causa dessa limitação do elenco. Desde que trocaram James Harden (não se preocupem, não vou bater nesse cavalo morto) o time não tem outra peça confiável capaz de criar o seu arremesso de forma consistente e eficiente, para ajudar a aliviar a pressão de Russ e West em crunch time (com a possível exceção de Reggie Jackson). Harden não só oferecia mais uma opção para criar jogadas com a qual a defesa precisava se preocupar - abrindo o espaço para os companheiros - como também era uma opção para desafogar o ataque quando a ação iniciaç de Russ ou KD estagnava. Se a defesa matava a jogada inicial, Harden era uma opção capaz de manter o fluxo do ataque, atacar espaços e manter o ataque em funcionamento, sem deixar a defesa voltar a se estabelecer. Mas desde sua saída, OKC não tem nenhum jogador capaz de fazer essa função. Quem cerca o Big Three de OKC hoje são role players com pouca variação ou repertório, ninguém que a defesa precise respeitar ou seja capaz de aproveitar as ações iniciais do ataque ou mesmo de manter o ataque funcionando. 

Isso leva ao segundo problema, que é o cobertor curto de opções do time. Qual é a melhor lineup para fechar jogos para OKC? Russ, KD e Ibaka são no brainers, mas quem mais? Waiters e Kanter tem uma chance melhor de desafogar o ataque e oferecer opções de pontuação, mas Waiters é ineficiente (40 FG%) e imprevisível, e ambos são enormes problemas defensivos que o adversário pode simplesmente atacar de novo e de novo até Donovan não ter opção senão tirá-los de quadra. As outras opções são jogadores defensivos como Adams ou Robertson, que não arremessam e podem ser ignorados ofensivamente, congestionando novamente assim o ataque. Não existe uma solução para essa questão no elenco de OKC hoje. Em uma NBA que cada vez mais valoriza jogadores versáteis com nenhuma falha que possa ser explorada, o Thunder simplesmente não tem jogadores assim o suficiente para cercar KD e Westbrook de forma eficiente. Cameron Payne provavelmente seria quem mais se aproxima disso no papel, mas o calouro claramente não tem a confiança do técnico ainda para ganhar minutos significativos. E esse é o grande problema que OKC enfrenta hoje: não adianta jogar de igual para igual ou até um pouco melhor do que seus principais adversários durante 43 minutos se o time não consegue manter o ritmo nos 5 minutos finais e continua entregando grandes vantagens. E apesar de tudo que se aplica sobre amostra pequena e adaptação, existem motivos legítimos para crer que essas dificuldades não são passageiras.

Com duas estrelas do nível de KD e Westbrook, talvez isso não importe - OKC tem condição de bater de frente com qualquer um com base no talento bruto de suas estrelas, e enquanto elas estiverem saudáveis, o Thunder será um candidato ao título. Mas em uma temporada com tanta competição no topo - e dois times em níveis históricos como Golden State e San Antonio - você quer apresentar o mínimo possível de fraquezas, e nesse momento, Oklahoma City tem uma significativa que começou a mostrar sua cara na pior hora possível. Isso não acaba com as chances de título da franquia, mas se continuar assim, elas diminuem consideravelmente. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Escolhas altas de Draft garantem sucesso?

Não se preocupe, Greg Oden - você não está sozinho nessa coluna


Na temporada 2014-15, uma das histórias mais chamativas e polêmicas é o Philadelphia 76ers fazendo um esforço muito forte para se tornar o primeiro time 1-81 da história, desgraçando o esporte, a NBA, e seus torcedores no processo. No momento, o Sixers tem o pior ataque da NBA e a oitava pior defesa, com saldo de -12.8 pontos por 100 posses de bola, uma marca historicamente ruim que seria uma das piores marcas desde 1996 pelo menos (quando começa a database do NBA Stats). Para efeito de comparação, o Sixers de 2014 foi o pior da NBA com -10.7/100 posses, e essa marca esteve muito próxima alguns dias atrás (-15.9) do pior time da história da NBA (em W%), o Bobcats pós-lockout, que teve -15.5.

Tem que ser muito, muito ruim para chegar nesse ponto, e Philly chegou nisso se recusando a contratar jogadores, trocando todos os jogadores que poderiam contribuir um pouco que seja por nada (muitas vezes menos para acumular ativos em retorno e mais para se livrar de alguém que poderia ajudar a vencer jogos), draftando jogadores que ainda não estarão prontos para jogar por mais um tempo (Noel perdeu e Embiid deve perder a temporada de calouro inteira por lesão, Saric vai ficar na Europa mais dois anos), e enchendo seu elenco com jogadores ruins e irrelevantes ao invés de pegar alguém que realmente saiba jogar basquete. Em outras palavras, o Sixers está em meio a um gigantesco esforço a longo prazo para ser o pior possível. 

Por que um time faria isso consigo mesmo e com seus torcedores? Por causa do sistema de loteria atual. É um fato que, na NBA de hoje, é quase impossível ganhar um título sem uma estrela, um jogador Top10 ou Top15 na liga. Mas esses jogadores são raros, e nada fáceis de se adquirir uma vez que já estão estabelecidos na liga. A melhor forma de conseguir essas estrelas é achando uma no Draft, e o melhor lugar para isso é o topo do draft, onde teoricamente são escolhidos os melhores jogadores. Então o jeito mais fácil de conseguir uma estrela dessas é tendo uma escolha alta de Draft, e a melhor forma de conseguir isso hoje em dia é tendo o pior record da liga. O formato da loteria atual favorece isso: se você termina com a pior campanha da NBA, você tem 25% de chance de sair com a primeira escolha, e 100% de chance de sair com uma escolha Top4. É ai que você quer estar para achar os melhores jogadores possíveis que, em alguns anos, possam formar a espinha dorsal de um time vencedor.

Com a forma como a loteria hoje é montada, não existe lugar pior para se estar do que na classe média da NBA, quando você não é ruim o suficiente para ter escolhas altas de Draft e se reforçar com melhores jogadores, mas também não tem um time bom o suficiente para brigar pelo título, sem espaço salarial para fazer um splash. Nessa situação, é preferível você desmontar sua equipe, trocar seus jogadores estabelecidos por jovens talentos e escolhas de Draft, ser ruim um pouco, e reconstruir seu time usando escolhas de Draft.

Mas com o Sixers fazendo tudo isso de forma muito mais intensa, descarada e vergonhosa do que nunca foi feito antes (e olha que a idéia de "tank" vem desde 1984, quando Rockets e Bulls desesperadamente tankaram por Hakeem e Jordan), o debate reaqueceu, e uma mudança na loteria parece inevitável. No começo do ano eu fiz um post sugerindo três formas de mudar a loteria tendo em mente resolver os problemas que o formato atual cria: diminuir tanking, aumentar os incentivos para os times se reforçarem, e tornar a NBA mais divertida de acompanhar. Ainda acho que os três são bastante válidos, mas me permitam uma solução menos radical, em três passos:

1) Aumentar o sorteio para os 4 primeiros lugares do Draft, não só os 3 primeiros. Aumenta assim a chance de times do topo caírem, especialmente considerando o ponto 3 (abaixo).

2) Suavize as odds entre os times. Ou seja, diminua a chance do primeiro e aumente a chance do último ser sorteado, e obviamente, faça isso ao longo de todas as 14 escolhas. Assim você diminui o incentivo e as chances de sucesso para os piores times, e aumenta as chances de times no topo da loteria se reforçarem e darem o próximo passo.

3) Crie a seguinte regra: se um time for sorteado para a loteria (ou seja, para uma das 4 primeiras escolhas), esse time não participa do sorteio pelos próximos dois anos. Ele mantém sua escolha, claro, mas ela não estará participando do sorteio, e só sera encaixada depois. Essa é uma manobra crucial que impede (ou pelo menos dificulta) tanking a longo prazo (como o Sixers está fazendo) e impede que times consistentemente medíocres continuem dando sorte na loteria (Cavs, alguém?).

São três passos simples que mudariam totalmente o que o Sixers está fazendo, por exemplo, e dificultaria muito mais times que querem fazer o mesmo no futuro. As soluções estão ai, falta colocá-las em prática. And yet I digress.

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Mas enfim, eu estou fugindo do assunto da coluna. A pergunta que eu queria fazer aqui era: Tanking realmente trás bons resultados? Em outras palavras, será que escolher no topo da loteria realmente ajuda os times a se tornarem, eventualmente, candidatos ao título em pouco tempo? Ou será que não é tão simples assim, que depende de muitos outros fatores, e que times tem conseguido sucesso através de outros lugares?

Então é isso que essa coluna vai fazer de agora em diante. Vamos olhar para todas as escolhas Top4 de Draft (as quatro que você pode conseguir com o pior record da NBA) e ver aonde cada uma levou a franquia que as selecionou, para tentar entender o quão exatamente foi benéfico para as franquias essa escolha, e se não foi, ver o motivo. Depois, vamos fazer o contrário - olhar para todos os campeões pós-Jordan e entender de onde vieram suas principais peças e seu(s) Franchise Player(s), para entender melhor se o tank tem sido benéfico para esses times. Eu estabeleci também a aposentadoria de Jordan (1998 - e não venha me falar que ele jogou pelo Wizards, aquilo nunca aconteceu) como a nossa data limite, uma mistura de "esses jogadores ainda são conhecidos" e "uma amostra um pouco maior". Então vamos olhar para esses jogadores e ver o que exatamente eles fizeram pelas suas franquias.


Escolhas #1 de Draft

A primeira escolha do Draft, naturalmente, é a mais desejada e valiosa de todas. Ainda assim, vou começar essa parte com a seguinte estatística: desde 1995, apenas UM time na NBA inteira foi campeão com um jogador que draftou #1 - o Spurs, com Duncan e David Robinson. Na verdade, apenas CINCO deles sequer chegaram a uma Final de NBA com o time que os draftou (Duncan,  Kenyon Martin, Iverson, LeBron, Dwight Howard). Não exatamente o modelo de sucesso desejado.

Um dos motivos disso, é claro, é que normalmente para você ter a primeira escolha do Draft você precisa ser muito ruim, e se você é muito ruim, é uma montanha muito maior para subir até as Finais mesmo com uma estrela. Muitos times ainda cometem o erro de querer apressar demais as coisas ao redor de sua nova estrela para chegar mais rápido ao sucesso, e nisso oferecem contratos caros e longos e contratam as peças erradas, o que acaba atravancando o desenvolvimento do time. Ainda assim, não é uma boa forma de começar para quem está tankando.

Além disso, um outro ponto importante: graças a loteria, nem sempre ter a pior campanha significa ter a melhor escolha. Desde 1996, só DUAS VEZES o time com pior campanha teve sua escolha sorteada para ser a #1 (Cavs em 2003 e Magic em 2004). Então junto do nome do time que teve a primeira escolha em cada Draft, colocarei também qual colocação ele tinha antes da loteria começar (AKA qual pior campanha ele teve) para dar uma noção do quão aleatório pode ser ficar com a primeira escolha.


1998 Draft: Michael Olowokandi (Clippers, 3a pior campanha)
Yep, uma forma deprimente de começar essa lista. Olowokandi foi um dos maiores busts da história da NBA, a primeira escolha em um Draft que teve lendas da NBA como Vince Carter, Paul Pierce e Dirk Nowitzki. Olowokandi nunca foi um bom jogador, tendo sua carreira marcada por lesões e inconsistência. Quando saudável chegou a ter números decentes em rebotes e tocos, mas nunca mais do que isso e arremessou apenas 43.5% na sua carreira, número horrível para um pivô. Jogou apenas cinco temporadas com o Clippers e estava fora da NBA em 2007.

Curiosidade do dia: O Boston Celtics ainda tem um cap hold de 940 mil dólares na sua folha salarial até 2016 por Olowokandi. Não, sério.


1999 Draft: Elton Brand (Bulls, 3a pior campanha)
Brand foi escolhido #1 pelo Bulls e imediatamente alcançou muito sucesso individual, com duas temporadas seguidas com 20 pontos e 10 rebotes e se estabelecendo como um dos melhores jovens talentos da NBA e possível Franchise Player para Chicago, ainda que sua estadia em Chicago não tenha se traduzido em campanhas vitorias. Até que a diretoria teve a estúpida decisão de trocá-lo ao final da sua segunda temporada para o Clippers pela escolha #2 daquele Draft (Tyson Chandler).

Eu (e muitos outros) até hoje questionam porque diabos o Bulls faria isso quando Brand já era uma certeza. A história mais repetida é que o Bulls não estava ganhando com Brand (32 vitórias em ambos os anos com ele) e que, apaixonados por uma classe de calouros com muito potencial (em especial... wait for it... EDDY CURRY!) e já tendo a escolha #4 daquele ano (eventualmente Curry), decidiu que preferiria transformar Brand na escolha #2 para recomeçar sua reconstrução com dois jovens com mais potencial (Chandler e Curry). Com Chandler sendo um projeto ainda bem cru, a troca também serviria para abrir espaço para Curry se tornar o Franchise Player do time.

Bom, a troca foi um imenso fracasso. Falarei mais de Curry e Chandler quando chegar a vez deles, mas em resumo, Chandler nunca se desenvolveu como esperado em Chicago e Curry foi um bust bastante caro, que manteve o Bulls travado por anos até ser finalmente salvo por Isiah Thomas. Enquanto isso, Brand continuou tendo ótima carreira em Los Angeles, uma garantia de 20-10 toda noite. Lesões atrapalharam a segunda metade da sua carreira e lhe roubaram do seu auge, mas ele ainda era um sólido PF e possível All-Star enquanto saudável, e isso foi bem mais do que o Bulls conseguiu por ele.


2000 Draft: Kenyon Martin (Nets, 7a pior campanha)
2000 foi talvez o pior Draft da história da NBA, então o Nets pode ficar feliz por ter saído com pelo menos um jogador decente dele. Kenyon Martin nunca foi realmente um grande jogador, ele era mais um bom role player, alguém capaz de pegar uns rebotes, defender bem e acompanhar o resto do time em transição. Só foi a um All-Star na carreira e nunca teve uma temporada com double-double de média, por exemplo. Não é bem o que você espera de uma escolha #1.

Ainda assim, o Nets teve algum sucesso com Martin, chegando eventualmente a duas Finais de NBA em 2002 (perdendo para o Lakers) e 2004 (perdendo para o Spurs). Claro, isso se deveu muito mais a Richard Jefferson (draftado em 2001) e a troca que trouxe Jason Kidd de Phoenix, mas Martin foi parte desses times. Então ele nunca virou o jogador que se espera de uma escolha #1, mas foi um jogador bom o suficiente para ajudar o Nets a ter sucesso na NBA. Eventualmente ele foi trocado para o Nuggets por escolhas de Draft (em uma sign-and-trade), escolhas usadas depois para trazer Vince Carter de Toronto. Role player decente, nunca um grande jogador.

Curiosidade do dia: Martin era um tremendo babaca fora de quadra, brigando com o companheiro Alonzo Mourning por fazer piada com a grave doença no rim do companheiro, sendo suspenso duas vezes pelo próprio time, brigando com George Karl em Denver e quase chegando as vias de fato com um torcedor. Eventualmente ele acalmou e chegou a uma final de conferência com Denver em 2009, mas no geral ele deu mais problemas do que resultados no Colorado.


2001 Draft: Kwame Brown (Wizards, 3a pior campanha)
Kwame Brown é um dos piores jogadores da história da NBA selecionados com a escolha #1. Ainda naquela época onde colegiais crus estavam inundando a NBA, ganhando muito dinheiro e status cedo demais, e fracassando, Brown talvez tenha sido o ápice dessa era, um jogador muito hypeado vindo direto do colegial que foi vitimado por ser escolhido na hora errada, pelo time errado, com as expectativas erradas. Jogou quatro anos em Washington antes de ser trocado, nunca desenvolveu como esperado, e basicamente foi vaiado aonde quer que fosse. A história de Kwame Brown me insira mais pena do que outra coisa, mas é mais um exemplo de jogador com muita expectativa e potencial sendo escolhido #1, e nunca se desenvolvendo em nada útil.


2002 Draft: Yao Ming (Rockets, 5a pior campanha)
Yao é o primeiro jogador dessa lista de escolhidos #1 no Draft a realmente ser um franchise player. Um C tremendamente habilidoso, Yao desenvolveu bem rápido quando chegou na NBA, e depois de três anos já estava mandando 22-10 na cabeça das pessoas, arremessando 52% e ancorando uma boa defesa.

O problema do gigante chinês foram as lesões: seu corpo não era capaz de aguentar sua enorme altura, peso e o stress físico de uma pessoa de 2m27 correndo e pulando com os melhores atletas do mundo 40 minutos por dia. Seus pés autodestruiram na sua quarta temporada, e Yao nunca mais conseguiu ficar saudável tempo suficiente para seguir sua carreira na NBA. Aos 28 anos ele já estava praticamente aposentado. Uma gigante (sem trocadilho) pena, porque um Yao saudável era um dos melhores pivôs da NBA e um legítimo Franchise Player, alguém que provavelmente teria levado o Rockets (junto de Tracy McGrady) longe nos playoffs se tivesse tido a oportunidade.


2003 Draft: LeBron James (Cavaliers, pior campanha)
Agora sim!! Um franchise player sendo escolhido #1 do Draft! LeBron foi uma estrela por Cleveland desde o primeiro minuto que pisou em uma quadra da NBA, tendo médias de 21-5-6 como calouro e só melhorando a partir dai, eventualmente ganhando dois MVPs e tendo bastante sucesso.

Ainda assim, Cleveland nunca ganhou um título com LeBron porque nunca foi capaz de montar um bom time ao redor dele. Um ano depois de LeBron ter sido escolhido, Cleveland perdeu seu segundo melhor jogador (Carlos Boozer) e o pobre James teve que passar o começo da sua carreira jogando com Eric Snows, Drew Goodens e Sasha Pavlovics da vida. Alguns bons jogadores eventualmente vieram (Mo Williams, Jamison, Hickson), mas LeBron nunca teve um grande time lá por dois motivos: porque com LeBron o time nunca mais foi ruim o suficiente para ter boas escolhas de Draft e juntar talentos, e porque o time nunca teve uma diretoria inteligente e competente capaz de fazer movimentos para reforçar o time.

O Cavs ainda chegou a uma Final em 2007, mas foi basicamente nas costas de um esforço sobre-humano de LeBron e um Leste ridiculamente ruim. Em 2009 e 2010 o time teve mais duas chances e bateram na trave - em 2009 perdendo para o Magic porque ninguém no time era capaz de parar Dwight Howard, e em 2010 LeBron implodiu contra o Celtics. Eventualmente, LeBron decidiu sair de Cleveland como free agent depois disso, e em boa parte isso se deve ao fato de que ele nunca jogou com um bom time enquanto em Ohio, e ninguém no time tinha feito o suficiente para convencê-lo de que as coisas poderiam mudar no futuro.

Então o caso de LeBron é bastante interessante porque, dessa vez, o time que teve a pior escolha conseguiu EXATAMENTE o jogador com o qual todos sonham quando começam a tankar pela escolha #1 do Draft, mas não foi capaz de montar em torno dele um time bom o suficiente para chegar no seu objetivo final. E acabou perdendo esse jogador por nada anos depois, e passando quatro anos na miséria.


2004 Draft: Dwight Howard (Magic, pior campanha)
Pelo segundo ano seguido, o pior time da NBA tem a primeira escolha do Draft, um jogador saído direto do colegial é escolhido #1... e ainda mais raro, ele conseguiu se tornar o Franchise Player esperado. Ainda que não tenha sido imediato, Dwight logo se tornou um dos melhores reboteiros e defensores da NBA, e a âncora do time de Orlando. Entre 2007 e 2011, Dwight teve 5 All Stars, 3 Defensive Player of the Year, e médias de 20 pontos, 14 rebotes, 2.4 tocos. Eventualmente, Orlando conseguiu montar o time certo ao seu redor e, em 2009, venceu os favoritos Cavaliers para chegar as Finais da NBA contra o Lakers atrás de uma pós-temporada monstruosa de Dwight (incluindo um 40-14 no jogo decisivo contra Cleveland). Dwight eventualmente saiu de Orlando para jogar pelo Lakers em uma das separações mais ridículas da história da NBA, mas o saldo foi positivo: 5 All Stars, três DPOY, uma Final, e a âncora dos dois lados da quadra de um time que durante um bom tempo foi um candidato ao título no Leste.

Ainda assim, fica a sensação de que esses times de Dwight nunca realmente atingiram seu auge, porque Dwight nunca dominou como podia/devia. De longe o melhor C da NBA e colocando números impressionantes, Dwight ainda assim nunca foi um jogador que se impunha ofensivamente, concentrava o jogo no ataque e arremessava 18 vezes por jogo como Ewing, Robinson ou outros Cs antes dele. Durante aquele período 2007-2011 que eu citei no qual Dwight teve 20 pontos por jogo, ele foi apenas terceiro, terceiro, quarto e quarto em FGs tentados por jogo DENTRO DO PRÓPRIO TIME. Só no último ano Dwight liderou a equipe no quesito. Howard tinha o pedigree de Alpha Dog, mas nunca teve essa mentalidade, as vezes passa a impressão de que isso impediu seus times de serem ainda melhores.

Ainda assim, outro caso de sucesso, um Franchise Player draftado #1 que foi o pilar de um time que competiu nos playoffs por anos a fio, mesmo que sem um título.


2005 Draft: Andrew Bogut (Bucks, 6a pior campanha)
Bogut é o caso de um jogador muito sólido que nunca foi uma estrela e que nunca esteve na situação certa para contribuir para sua equipe. Saudável, Bogut é um dos Centers mais completos da NBA, um excelente defensor e passador capaz de contribuir dos dois lados da quadra mesmo sem nunca ser dominante. Mas não é o tipo de estrela que sozinho consegue mudar um time, e era disso que o Bucks precisava. Assim, Bogut acabou sendo mais um em um time cheio de jogadores talentosos mas que nunca foi excepcional, contribuindo como podia mas em um time onde essa sua contribuição era desperdiçada.

Bogut eventualmente explodiu na temporada 2010, com 16-10-2 e 2.5 tocos por jogo, terminando o ano como segundo melhor defensor da liga e o melhor jogador em um divertidissimo time do Bucks (o famoso time do Fear the Deer") que encerrou o ano com 46 vitórias... até que Bogut sofreu uma feia lesão no cotovelo em uma jogada desleal (cenas fortes) que o tirou dos playoffs e acabou com o melhor time que teve na sua carreira no Bucks. Bogut demorou para se recuperar dessa lesão e acabou perdendo muito mais tempo com novas lesões, eventualmente sendo trocado pelo Bucks por Monta Ellis (que foi um fracasso e acabou dispensado dois anos depois).

Bogut é um jogador muito bom (mesmo que não espetacular) quando saudável que deu azar: era o jogador errado na situação errada, machucou bem quando o Bucks tinha seu melhor time, e perdeu alguns anos por conta de outras lesões menores. Ainda hoje, Bogut é exatamente isso - um excelente All-Around Center quando saudável que provavelmente nunca irá a um All-Star Game. Tem coisas bem piores na NBA, mas não é o que você espera da sua escolha #1, especialmente considerando que Deron Williams e Chris Paul saíram pouco depois (#3 e #4).


2006 Draft: Andrea Bargnani (Raptors, 5a pior campanha)
Considerando que Adam Morisson, Tyrus Thomas e Shelden Williams também saíram no Top5, essa escolha poderia ter sido pior. Mas não é como se Bargnani tivesse tido muito sucesso na NBA. Ele foi draftado principalmente por suas habilidades como arremessador, algo que foi razoavelmente bem ao longo da carreira. O problema é que isso era tudo que ele tinha: um péssimo defensor e ainda pior reboteiro, nunca um bom passador ou se movimentando sem a bola, e não alguém capaz de criar seu arremesso muito bem. Bargnani nunca se desenvolveu no parceiro de garrafão para Chris Bosh que o Raptors sonhava, foi basicamente um jogador medíocre que coloca estatísticas razoáveis em um time horrível, e foi trocado assim que um comprador apareceu na típica troca "Não deixe a porta bater quando sair!". Jogador ruim, escolha ainda pior (a escolha #2? LaMarcus Aldridge).

Curiosidade do dia: Toronto estava tão desesperado para achar um parceiro para Bosh no garrafão que, em 2004, gastou uma escolha #8 de Draft no brasileiro Babby, sem dúvida um dos piores jogadores a pisar em uma quadra de NBA. Algumas escolhas que vieram depois: Andre Iguodala, Al Jefferson, Josh Smith, Tony Allen, JR Smith, e claro... Anderson Varejão.


2007 Draft: Greg Oden (Trail Blazers, 6a pior campanha)
Mesmo sem ter sido um grande jogador no College, Oden era considerado um dos melhores prospectos da NBA em muito tempo por causa do seu imenso potencial como reboteiro e protetor de aro. Ainda assim, Oden apresentava uma série de riscos: não tinha nenhum jogo ofensivo; já tinha tido problemas com lesões; e sua estrutura física frágil tornavam ele um imenso risco para lesões futuras. O Blazers pegou Oden mesmo assim, e foi um dos maiores fracassos da história da NBA: Oden jogou 82 jogos por Portland em dois anos apenas antes de se aposentar por conta de repetidas lesões no pé.

Além da óbvia frustração por gastar uma escolha #1 em alguém que jogou só 82 jogos por você antes de aposentar, esse fracasso é exponencialmente mais doloroso que o normal por dois motivos. Primeiro que o Blazers já possuía um excelente núcleo com Brandon Roy e LaMarcus Aldridge, e só precisava de uma peça final para montar um elenco para brigar por títulos, então perder a chance com uma #1 pick aqui é ainda pior. E segundo, para terminar de torturar torcedores do Blazers, na época muita gente (entre elas eu, que escrevi isso repetidamente na época) achava que o Blazers não deveria pegar Oden com sua escolha, e sim uma máquina de pontuar vinda da universidade de Texas que, ao contrário do pivô, ERA uma certeza. Você não deixa passar uma certeza para pegar um pivô com potencial e enorme risco de lesão. Esse pontuador? Kevin Durant, é claro. Em 2007, o Blazers esteve a um GM inteligente de montar um núcleo de Brandon Roy, Kevin Durant e LaMarcus Aldridge! Ao invés disso, escolheram Oden e os joelhos de Roy explodiram. Porque o Blazers nunca aparece na discussão dos times mais amaldiçoados de todos os tempos, mesmo?


2008 Draft: Derrick Rose (Bulls, 9a pior campanha) 
Na época do Draft, o consenso era de que a primeira escolha de 2008 devia ser Michael Beasley, então só por isso o Bulls já desviou de um problema. Mas Rose imediatamente entrou bem em um time bastante profundo (Hinrich, Ben Gordon, Luol Deng, Joakim Noah) que levou os então campeões Celtics a 7 jogos nos playoffs, e dois anos depois explodiu como Franchise Player e MVP da liga, sendo o melhor jogador de um time do Bulls que venceu 62 jogos e foi o melhor da NBA. O Bulls acabou caindo perante LeBron e o Heat nas Finais de conferência, mas parecia que seria um eterno candidato ao título atrás de Rose.

Todo mundo sabe o que aconteceu depois, então não vou entrar em detalhes: Rose machucou e nunca mais ficou saudável, e uma possível dinastia Bulls no Leste nunca aconteceu, abrindo caminho para o Heat dominar a conferência por 4 anos. Chicago conseguiu o jogador certo, mas infelizmente a NBA tem esse problema: não adianta ser bom, tem que ser bom E dar sorte. Poderia ter sido LeBron em 2007 estourando o joelho. Poderia ter sido Kobe em 2001. Mas foi Rose em 2011. A janela ainda está aberta para Rose voltar, ficar saudável e o Bulls voltar a competir na NBA, mas preciso ver para começar a acreditar. Má sorte com um grande talento.


2009 Draft: Blake Griffin (Clippers, 2a pior campanha)
Griffin era uma certeza desde o primeiro dia de Draft, tanto que o Clippers já tinha contrato assinado com ele duas semanas antes da noite do Draft em si. Então foi uma escolha fácil e que deu resultados - Griffin foi uma estrela desde que colocou os pés na NBA, e ano passado foi um dos cinco melhores jogadores da liga e terceiro no meu voto hipotético para MVP. Então eles acertaram em cheio aqui.


2010 Draft: John Wall (Wizards, 5a pior campanha)
Wall também era amplamente considerado o melhor jogador do Draft, e embora não seja o melhor jogador da classe atualmente, não decepcionou também. É um sólido All-Star e melhor jogador de um dos melhores times do Leste na atualidade, um dos melhores PGs da NBA e alguém que fez por merecer um gordo contrato. Não tem muito o que dizer aqui.


2011 Draft: Kyrie Irving (Cavs, via Clippers, 8a pior campanha)
Irving é a típica boa escolha de um Draft ruim. Ele não é um franchise player e foi bastante overrated nos seus primeiros anos da NBA (nos quais não conseguiu levar o Cavs aos playoffs em um ridículo Leste), mas é um possível All-Star (já foi 2x) e bom o suficiente para justificar a escolha #1. Coloque da seguinte maneira: Irving é muito talentoso, e um bom jogador individualmente. Mas se você quer que ele seus seu FP e montar um time ao redor dele, você está em maus lençóis a não ser que o melhor jogador da NBA decida ir pro seu time na free agency.


2012 Draft: Anthony Davis (Pelicans/Hornets, 3a pior campanha)
E enfim chegamos ao nosso "corte" da nossa lista, porque é quase impossível tirar alguma conclusão dos jogadores das duas últimas classes. Na verdade, o ideal era parar lá por 2010, mas eu gosto demais do Monocelha para não inclui-lo nessa coluna, considerando que ele talvez já seja um dos 5 melhores jogadores da NBA na atualidade. Depois do Hornets ter ganho uma loteria nada suspeita (bem quando a NBA era dona do time e queria vendê-lo e com um dos melhores prospectos em anos saindo na loteria), eles rapidamente se inventaram em torno do Brow, e passaram de time ridículo a candidato aos playoffs (ainda que eu não goste de algumas das decisões do time no processo). Brow já é um Franchise Player, e só deve melhorar com o tempo.


Resultado final: Em um resultado chocante, é uma boa coisa ter a escolha #1 do Draft. Existe uma grande possibilidade de que ela vai te render um jogador muito bom: das 15 primeiras escolhas que comentamos, 11 foram a pelo menos um All-Star Game (10 considerando apenas os que foram para um ASG pela equipe que os draftou).

Ainda assim, só três (LeBron, Dwight e Unibrow) se tornaram legítimos Franchise-Changing players, jogadores historicamente bons capazes sozinhos de ancorar uma franquia. Duas outras tiveram possíveis Franchise Players (Rose e Yao) e os perderam por lesão (pelo menos por ora). Considerando apenas jogadores que podem ser considerados "superestrelas", temos apenas quatro (Bron, Brow, Dwight e Griffin), mais Rose e Yao quando saudáveis. Em 15 anos, isso não é tanto assim. Sem dúvida tem um bom contingente, e Davis e LeBron são jogadores historicamente bons, mas se estamos tratando por "superestrelas", tivemos entre 4 (sem Rose e Yao) a 6 (com Rose e Yao) em 15 anos. Não é a proporção que você esperaria da primeira escolha. Sem dúvida ela te trás um bom jogador, mas não é a garantia de um jogador que vai mudar sua franquia para o futuro.

Olhando por outro ponto de vista, nesses 15 anos, apenas em 2003(LeBron), 2004 (Howard), 2012 (Brow), e talvez 2002 (Yao), 2008(Rose) e 2009 (Griffin) o melhor jogador acabou saindo com a primeira escolha do Draft.

Além disso, tem outro problema: se você acompanhou, é bem difícil ganhar a escolha #1 mesmo se você tem o pior record da liga. Nesses 15 anos, apenas duas vezes o pior time da NBA ficou com a #1; uma vez o segundo pior; quatro vezes o terceiro pior; nenhuma vez com o quarto pior; três vezes o quinto pior; duas vezes com o sexto pior; e uma vez cada com o sétimo, oitavo e nono piores times.

E para piorar, tem aquele fato de novo: nenhum desses jogadores levou um time ao título. E vendo individualmente cada um deles, não é difícil ver o motivo. As vezes você tem que ser tão ruim para conseguir uma escolha alta que é bem difícil montar em volta um time em torno da sua estrela (LeBron, e em parte Dwight Howard). Alguns já conseguem trazer a estrela para um time mais pronto, mas a estrela não dura o suficiente (Yao, Rose). E muitos outros não vencem simplesmente porque não trouxeram um jogador bom o suficiente para um time que já estava na loteria em primeiro lugar, e o jogador não era capaz sozinho de mudar o destino da franquia.

Então ter a primeira escolha no Draft é bom. Você tem boas chances de sair de lá com um futuro All-Star, no mínimo, e ainda tem a chance de sair com um Franchise Player ou até melhor. Mas confiar nessa primeira escolha para mudar o destino da sua franquia e vencer um título é traiçoeiro, porque você depende de muitas probabilidades dando certo ao mesmo tempo: você precisa vencer a loteria para chegar na #1, e como a gente viu, isso é bem difícil; você precisa ter a sorte daquele ano ter um jogador que realmente é um FP e não só um bom jogador (dependendo da sua conta, isso aconteceu entre três e seis vezes nos últimos 15 anos, então a chance não é tão grande); se você conseguir esse jogador, você ainda tem que montar um time ao redor dele porque o seu provavelmente fede; e se conseguir esse jogador para um time já avançado, você ainda tem que torcer para ele ficar saudável o suficiente.

Em resumo, você está contando que muita coisa junta vai dar certo quando você aposta o destino da sua franquia em uma escolha #1. Por isso muitos dizem que o maior benefício de ter o pior record da NBA não é só a maior chance da escolha #1, e sim por te GARANTIR uma escolha Top4. E é por isso que nós vamos olhar para as 4 primeiras escolhas de cada Draft. Por enquanto, fica a conclusão sobre a primeira escolha que cada um pode tirar. A minha é: apostar na primeira escolha do Draft para mudar o destino da sua franquia e te levar a um título não parece tão bom assim.


Escolhas #2 de Draft

Eu ia guardar essa informação bombástica para o final dessa seção, mas que seja, é algo importante e que precisa ser revelado agora: a escolha #2 do Draft está amaldiçoada. O que, você está rindo?! É verdade! Existe uma maldição em cima da escolha #2 do Draft, também conhecida como "A Maldição de Sam Bowie". Desde que o Blazers (sempre eles!) passou Michael Jordan no Draft de 1984 para pegar Sam Bowie, essa escolha carrega uma incrível maldição, muito poderosa.

Mas eu não quero estragar o resto dessa parte da coluna, então vou entrar em detalhes sobre a Maldição de Sam Bowie (esse nome é muito bom - não parece o nome de um general confederado morto na guerra civil americana?!) apenas no epílogo da parte sobre as Escolhas #2 do Draft.


1998 Draft: Mike Bibby (Vancouver Grizzlies)
Mike Bibby nunca foi uma estrela (ou um All-Star), mas foi um bom armador ao longo da sua carreira. Chegou a Vancouver com alguma fama (foi campeão da NCAA por Arizona) e teve bons três primeiros anos por lá (7.6 assistências por jogo) antes de ser trocado para Sacramento por Jason Williams e Nick Anderson (que machucou logo nos primeiros jogos e se aposentou depois de apenas 15 jogos pelo Grizzlies).

Foi em Sacramento que Bibby explodiu como um jogador All-Around em uma série de fortes e extremamente divertidos do Kings, imediatamente tendo os melhores cinco anos de sua carreira e chegando longe nos playoffs repetidas vezes. Ele acabou envelhecendo rápido depois de ir para Atlanta no final de sua carreira, mas o Mike Bibby do Kings era um jogador memorável e divertido de se assistir, ainda que nunca tenha sido uma estrela. Uma troca que o Grizzlies teve muitas oportunidades de lamentar.


1999 Draft: Steve Francis (Rockets, via Grizzlies)
Francis na verdade foi escolhido pelo Grizzlies, mas depois de se recusar a jogar pelo time e alguns incidentes desagradáveis, acabou sendo trocado para o Rockets em uma troca extremamente confusa de três times e 11 jogadores. Mas Francis logo se firmou como Steve Franchise, um dos jovens PGs mais promissores da liga: 18-5-7 e Rookie of the Year, depois 20-7-6 no seu segundo ano. Quando Yao Ming veio ao time em 2002 (depois de uma temporada ruim em 2001 devido a uma lesão de Francis), parecia que o Rockets tinha o melhor núcleo jovem da liga e iria dominar por anos a fio. Francis era basicamente um demônio da Tasmânia, um PF preso em um corpo de PG que enterrava na cabeça de todo mundo e vivia no ar.

OS primeiros anos foram bons, com Yao evoluindo e Francis continuando com seu ótimo desempenho. Mas sua estadia em Houston acabou depois de uma série de desentendimentos com o técnico Stan Van Gundy, supostamente porque ele não gostava do estilo de jogo do bigodudo, e foi logo trocado para Orlando por Trady McGrady. Francis começou muito bem em Orlando (21-6-7, vários game-winners), mas sua carreira de repente despencou por um dos motivos mais únicos da história da NBA: o Magic trocou seu melhor amigo Cuttino Mobley (que veio para Orlando com ele do Rockets) para o Clippers, e sem seu melhor amigo, Francis parou de ter com quem compartilhar suas experiências, tristezas e felicidades na NBA, começou a ficar triste e frustrado, entrou em depressão, e isso afetou demais seu jogo. Francis nunca se recuperou e nunca mais foi o mesmo, brigou com todo mundo em Orlando, foi trocado para o Knicks (Isiah de novo!) e estava fora da NBA antes de completar 30 anos. Uma das quedas mais estranhas e decepcionantes de um grande talento da NBA recentemente. Francis era um legítimo All-Star e possível Franchise Player, que nunca atingiu seu auge por motivos externos. Uma pena.


2000 Draft: Stromile Swift (Vancouver Grizzlies)
Sim, o Vancouver Grizzlies teve a escolha #2 do Draft por três anos seguidos. Trocaram uma por 15 jogos de Nick Anderson, a outra por nada, e com a que sobrou, escolheram Stromile Swift. Não é a toa que o time mudou para Memphis.

Swift foi um grande bust desde o minuto que pisou na NBA. Em cinco anos de Vancouver/Memphis, Swift nunca teve mais do que 11.8 pontos e 6.3 rebotes (médias do seu segundo ano), levava enterradas na cabeça toda hora, e parecia sempre estar lidando com uma lesão ou outra. Swift era tão ruim que, depois de seus cinco anos de Grizzlies, assinou com o Rockets na free agency... só que um ano depois o Rockets trocou Swift DE VOLTA PARA MEMPHIS junto com a escolha #8 do Draft (Rudy Gay) em troca de Shane Battier. Memphis trocou ele novamente um ano depois, e Swift estava fora da NBA aos 29 anos.


2001 Draft: Tyson Chandler (Bulls, via Clippers)
Como já foi dito, Chandler foi trocado por Elton Brand na noite do Draft para Chicago, que queria juntar Chandler com Eddy Curry em sua linha de frente do futuro. Mas Chandler foi um relativo bust para Chicago: era muito cru quando chegou a NBA, e demorou para se desenvolver atrás de Curry. Eventuamente Chandler arrumou um lugar como um defensor/reboteiro vindo do banco, mas com seu jogo ofensivo pouco desenvolvido e problemas de faltas, ainda tinha pouco espaço no time. O Bulls acabou trazendo Ben Wallace para seu lugar, e trocou seu decepcionante pivô para o New Orleans/Oklahoma City Hornets por (wait for it...) JR Smith!!! E PJ Brown, mas de novo, JR Smith!!!

Chandler acabou florescendo como defensor/reboteiro/finalizador de pontes aéreas jogando junto de Chris Paul no Hornets, e mais tarde (depois de ser trocado mais duas vezes - uma para o Bobcats por Emeka Okafor, outra para o Mavericks por Erick Dampier e Eduardo Najera) acabou tendo seu auge em Dallas (onde foi campeão como o segundo melhor jogador daquele time) e no Knicks (onde foi DEfensive Player of the Year e All-Star), muito longe daquele garoto cru que decepcionou no Bulls. Hoje, a imagem que temos de Chandler é de grande defensor e reboteiro que ajudou Dirk a ser campeão, mas isso só aconteceu depois de muitas etapas e muito sofrimento.

Curiosidade do dia: em 2009, o Oklahoma City Thunder trocou por Tyson Chandler com o Hornets, só para cancelar a troca quando Chandler não passou no exame médico por conta de uma lesão no pé. Dois anos depois, Chandler foi peça fundamental do Mavs que chegou nas Finais da NBA depois de passar por (wait for it... wait for it...) o Oklahoma City Thunder nas finais do Oeste!!


2002 Draft: Jay Williams (Chicago Bulls)
Williams foi ok como um calouro em Chicago, com 10 pontos, 5 assistências por jogo, e um triple double lindo contra o Nets (26-13-14). Foi inconsistente, mas mostrou alguma promessa ao longo da temporada e terminou bem o ano... até que sofreu um assustador acidente de moto na offseason, que destruiu seu corpo e chegou a danificar nervos da sua perna. Williams demorou muito para se recuperar, e nunca mais jogou uma partida profissional de basquete na carreira.

Curiosidade do dia: Williams hoje é um analista de College Basketball na ESPN, que eu confesso que gosto.


2003 Draft: Darko Milicic (Pistons, via Grizzlies)
O Pistons conseguiu essa escolha graças a uma troca de 1997 na qual o Grizz mandou uma escolha protegida por Otis Thorpe. E o Pistons rolou a escolha até 2003, onde a proteção era apenas Top1. Consegue imaginar Jerry West passando mal na loteria quando apenas Cavs e Grizzlies sobraram, e ou o Grizz conseguia LeBron James ou não conseguia ninguém? Por isso você não troca escolhas futuras por caras como Otis Thorpe.

Enfim, essa escolha foi para um bom time do Pistons que, precisando de um homem de garrafão (Rasheed Wallace só foi para Detroit alguns meses depois), pegou imediatamente Darko Milicic, um jogador vindo da Europa com muito hype e nada de concreto. As três escolhas seguintes: Carmelo Anthony, Chris Bosh, Dwyane Wade. So... yeah. Não é difícil ver porque Milicic é considerado um dos maiores busts da história. Milicic nunca recebeu os minutos que precisava em um time do Pistons que brigava pelo título (e, de fato, ganhou o título naquele ano), sua confiança foi destruída, ele nunca se desenvolveu, nunca foi tão bom assim em primeiro lugar, e estava fora da NBA aos 26 anos. Uma triste história.

Curiosidade do dia: no Combine pré-Draft daquele ano, Darko Milicic acertou 15 bolas de três pontos seguidas para os olheiros, que imediatamente ficaram malucos com seu potencial e acreditaram que ele seria um grande 3pt shooter na NBA. Ele nunca acertou uma bola de três na sua carreira nos EUA.


2004 Draft: Emeka Okafor (Bobcats, via Clippers)
Um jogador de sucesso no College que muitos (inclusive eu) achavam na época que devia ser a escolha #1, Okafor teve um bom ano de calouro pelos recém-criados Bobcats (que trocou sua escolha #4 com o Clippers para subir até o #2), com 15 pontos e 10 rebotes. E foi provavelmente o auge da sua carreira: Okafor machucou e perdeu boa parte da sua segunda temporada, e depois disso nunca mostrou evolução: os 15.1 pontos por jogo como calouro acabaram sendo a melhor marca da sua carreira, e só uma vez superou os 10.9 rebotes por jogo do mesmo ano. Eventualmente foi trocado para New Orleans (por Chandler), onde foi apenas mais um jogador em um time medíocre. Okafor acabou tendo uma carreira decente como protetor de aro e reboteiro, mas nunca se desenvolveu ou foi mais do que um role player na NBA.


2005 Draft: Marvin Williams (Hawks)
Williams não conseguiu sequer ser titular por UNC em 2004/05, mas de alguma forma o Hawks achou uma boa idéia selecionar o ala na frente de Chris Paul, o melhor jogador da classe. Para tornar ainda mais bizarro, o Hawks era um time com boa base - Joe Johnson, Josh Smith - e que DESESPERADAMENTE precisava de um PG! E com CP3 e Deron Williams disponíveis, o Hawks preferiu passar os dois para pegar Williams.

Desnecessário dizer, Williams foi um bust - um jogador medíocre que nunca fez nada demais na NBA - enquanto CP3 e Deron viraram dois dos melhores armadores da NBA inteira, com CP3 se tornando um dos melhores armadores de todos os tempos. Gastar uma escolha #2 em um cara ruim como Williams já é ruim; fazer isso com dois jogadores tão bons como Paul e Deron logo depois é ainda pior. Outro grande bust para as escolhas #2.


2006 Draft: LaMarcus Aldridge (Trail Blazers, via Bulls)
Finalmente um bom jogador, que claro, foi trocado na noite do Draft pelo time que o escolheu. O Bulls escolheu Aldridge com a escolha #2 e o trocou para o Blazers por Tyrus Thomas, a escolha #4. Como vocês verão mais em breve, foi uma PÉSSIMA escolha do Bulls. Mas um dos motivos para isso foi que Aldridge acabou virando um dos melhores PFs da NBA, uma máquina de arremessos e âncora constante de vários sólidos times do Blazers que tem média de 19 pontos por jogo na carreira. Não sei se Aldridge seria considerado um Franchise Player, mas ele é um excelente jogador e constante All-Star que está só agora atingindo seu auge e ainda tem chão pela frente. Uma raríssima escolha #2 que deu certo - menos para o Bulls, claro.


2007 Draft: Kevin Durant (Supersonics)
Desnecessário dizer qualquer coisa, certo? Ele é um dos melhores pontuadores da história da NBA, o MVP e segundo melhor jogador da liga. Provavelmente vai encerrar a carreira como um dos 30 ou 20 melhores jogadores da história do jogo. A primeira legítima superestrela e Franchise-Changing player entre as escolhas #2.


2008 Draft: Michael Beasley (Heat)
Outro bust histórico, especialmente considerando que as escolhas #4 e #5 desse Draft foram Russell Westbrook e Kevin Love. O que é ainda pior, Rose #1 foi uma escolha bastante impopular na época, (não por mim, defendi muito que Rose devia ser #1) quando Beasley era o favorito para a escolha, uma máquina indestrutível em Kansas State (26 pontos, 13 rebotes por jogo). Mas o Bulls foi de Rose no que foi uma das melhores decisões de Draft dos últimos anos, porque Beasley foi um gigantesco bust: um fominha que não fazia nada além de arremessar e não defendia ninguém, Beasley jogou dois anos decepcionantes em fracos times de Miami antes de ser trocado por um pacote de Trakinas para o Wolves (para abrir espaço salarial para LeBron/Bosh). Lá ele teve mais uma temporada arremessando demais para um time irrelevante antes de finalmente ir parar no banco em 2012 - ele começou 29 jogos desde então com média de 9 pontos por jogo. Aos 26 anos, Beasley hoje está fora da NBA (China).


2009 Draft: Hasheem Thabeet (Grizzlies) 
Mais um bust histórico na #2 - e você achou que eu estava brincando sobre a Maldição do Sam Bowie. Thabeet era um projeto atlético e cru como shot blocker que o Grizzlies achou que era uma boa idéia pegar na frente de James Harden, Ricky Rubio, Tyreke Evans, Stephen Curry e DeMar DeRozan (todos escolhidos no Top10). Logo no seu ano de calouro, ficou claro que ele realmente era capaz de dar tocos - o problema era que não era capaz de fazer mais nada em uma quadra de basquete, inclusive... hm... jogar basquete. Em 5 anos de NBA, Thabeet jogou 224 jogos por 4 times diferentes, com médias de 2 pontos, 3 rebotes e 2 faltas por jogo. Hoje Thabeet tem 27 anos e não está mais em um time da NBA (D-League).


2010 Draft: Evan Turner (76ers)
Oh boy...

Antes do Draft, dois jogadores eram vistos como potenciais Franchise Players: John Wall e Evan Turner. Digamos que estavam todos errados. Turner foi irrelevante em suas duas primeiras temporadas na Philadelphia atrás de Andre Iguodala, e mesmo quando finalmente virou titular e ganhou espaço, pouco produziu como um jogador que parecia não ter posição determinada (13-6-4 não é uma má média, mas também não chama a atenção). Eventualmente Turner ficou preso na máquina de tank do Sixers e foi trocado por migalhas para o Pacers, onde mais atrapalhou que ajudou. Acabou assinando como Free Agent com o Celtics, onde tem sido apenas um reserva decente. De novo, não exatamente o que se tem em mente com a escolha #2.


2011 Draft: Derrick Williams (Timberwolves)
O Wolves deu o azar de escolher a seguir da única escolha de Draft entre 2011 e 2013 que o Cavaliers não cometeu um grande erro. Não da nem para criticar a escolha - Williams era considerado por muitos (inclusive eu) o melhor jogador do Draft e provável escolha #1 - mas dento de campo, Williams foi apenas mais um bust. Lento e sem arremesso demais para jogar de SF, fraco e sem físico para jogar de PF, Williams acabou preso entre posições na NBA e afundou no banco atrás de Kevin Love. Até teve números decentes no seu segundo ano, mas não fez nada para convencer o mundo de que podia jogar na NBA, e acabou trocado para o Kings. Hoje tem médias de 4 pontos e 2 rebotes vindo do banco de Sacramento.


2012 Draft: Michael Kidd-Gilchrist (Bobcats)
Cedo demais para dizer qualquer coisa de MKG - eu só inclui o Draft de 2012 aqui por causa do Unibrow, e me parece agora uma má idéia. Até agora, MKG é um jogador interessante cujo desenvolvimento tem sido atrapalhado por lesões: um ótimo defensor e jogador muito físico/atlético que tem dificuldades com seu arremesso. Seu jumper parecia estar melhorando, por isso é tão decepcionante vê-lo perder tanto tempo com lesões, e como defensor parecia estar caminhando para a elite da NBA. Ficamos no aguardo.


Resultado final: A maldição de Sam Bowie ataca de novo!!!

Não adianta, é o destino das escolhas #2 do Draft. Desde que Bowie foi escolhido na frente de Michael Jordan, a maldição vem forte. Eis a relação de todos os jogadores escolhidos #2 overall desde 1985 até 2011: Wayman Tisdale, Len Bias (RIP), Armen Gillian, Rik Smits, Danny Ferry, Gary Payton, Kenny Anderson, Alonzo Mourning, Shawn Bradley, Jason Kidd, Antonio McDyess, Marcus Camby, Keith Van Horn, Mike Bibby, Steve Francis, Stromile Swift, Tyson Chandler, Jay Williams, Darko Milicic, Emeka Okafor, Marvin Williams, LaMarcus Aldridge, Kevin Durant, Michael Beasley, Hasheem Thabeet, Evan Turner e Derrick Williams.

Sei que você está pensando "Vitor, você está maluco, tem muitos bons jogadores ai". Calma, agora vamos separar esses 27 jogadores.

Desses 27 jogadores, um caiu morto antes de jogar (Bias), 10 foram busts (Ferry, Bradley, Swift, Jay Williams, Darko, Marvin Williams, Beasley, Thabeet, Turner e Williams), e outros quatro (Smits,  Gillian, Tisdale e Okafor) tiveram carreiras decentes mas nunca foram grandes jogadores - entre esses 14, só tem UM All-Star (um do Smits em 98 no fim da linha, com médias de 16-7 que até hoje ninguém sabe como aconteceu). Então 11 (contando Bias) de 27 escolhidos #2 do Draft foram TOTAL BUSTS, e 15 de 27 (mais de metade!) não foram bons o suficiente.

Dos outros 12 jogadores (Payton, Anderson, Mourning, Kidd, McDyess, Camby, Van Horn, Bibby, Francis, Chandler, Aldridge e Durant) temos bons jogadores e boas carreiras, mas ai que está: 10 deles não tiveram essas boas carreiras pelos times que os draftaram!

Aldridge (Bulls), Francis (Grizzlies), McDyess (Clippers) e Keith Van Horn (76ers) foram trocados ou durante o Draft ou antes da temporada começar, e nenhum deles trouxe em retorno qualquer coisa útil para os respectivos times, tendo feito suas carreiras em outro lugar. Marcus Camby (Raptors), Chandler (Clippers/Bulls) e Mike Bibby (Grizzlies) só foram estourar como jogadores depois de trocados pelas equipes, e apenas Chandler (para o Clippers) trouxe de volta um bom retorno. Jason Kidd foi despejado de Dallas por brigar com as outras estrelas de Dallas por minutos, arremessos, e a cantora Toni Braxton (não é brincadeira) e só virou um Franchise Player em Phoenix e depois New Jersey. Mourning foi trocado depois de três (boas) temporadas pelo Hornets para o Heat - onde teve seus melhores anos - por Glen Rice e sapatos velhos (Matt Geiger, Khalid Reeves e uma escolha de Draft que virou Tony Delk). E Kenny Anderson foi trocado depois de quatro temporadas no Nets por nada para o Hornets. 10 dos 12 jogadores que foram bons e/ou tiveram boas carreiras foram trocados ou durante o Draft, ou logo depois do Draft, ou nas suas primeiras temporadas. Nenhum virou um Franchise Player para o time que os draftou.

Então se você está acompanhando, no quesito "consiga a escolha #2, escolha um jogador, faça dele sua estrela pelos próximos 12 anos, aposente sua camisa", apenas DOIS jogadores escolhidos com a escolha #2 tiveram sucesso desde que começou a Maldição de Sam Bowie: Gary Payton e Kevin Durant. E se você está acompanhando... ambos foram draftados por uma franquia que não existe mais!!!! Não duvide da Maldição de Sam Bowie. Ela é real.

Mas em um assunto mais prático, qual é o saldo desses 15 anos de Draft que analisamos as escolhas #2? Sinceramente, muito ruim. Apenas um Franchise-chaning player ou superestrela (Durant), e apenas dois sólidos All-Stars (Francis e Aldridge). 3 em 15 anos é MUITO ruim (não estou contando Chandler porque ele só foi virar um bom jogador muito depois e depois de ter passado por vários times), e isso sem falar que um número absurdo deles (Williams, Williams, Thabeet, Beasley, Swift, Milicic) foram busts tão grandes que sequer viraram jogadores úteis - boa parte deles acabou fora da NBA ou com espaço mínimo.

Então o índice de sucesso individual foi baixíssimo, e de novo, pouco sucesso coletivo. Apenas um jogador selecionado nas duas primeiras escolhas dos últimos 15 anos foi campeão em um papel importante (Chandler), e mesmo assim foi um jogador que foi um bust para quem o draftou, passou por quatro times e se reinventou múltiplas vezes antes de ter finalmente seu espaço na NBA. Tirando ele, apenas Durant foi as Finais. Então mais uma vez, escolher no lugar #2 do Draft não tem ajudado muitos times nos últimos anos - apenas três conseguiram se reforçar rumo a uma mudança com um bom jogador, apenas um foi as Finais, e nenhum título.


Escolhas #3 de Draft

1998 Draft: Raef LaFrentz (Nuggets)
LaFrentz nunca foi um grande jogador, nunca chegando a 14 pontos ou 8 rebotes, mas que merece crédito por ter sido, de certa forma, um pioneiro. Um pivô de 2m10 e bom shot blocker, LaFrentz foi um dos primeiros pivôs da NBA a viver como um arremessador de três, tendo marcas melhores que 38% da linha dos três pontos quatro vezes diferentes na carreira e terminando sua vida profissional com 36.6%. LaFrentz foi um jogador decente para o Nuggets antes de ser trocado em uma enorme troca que mandou LaFrentz, Avery Johnson e Nick Van Exel para o Mavericks por Tim Hardaway e Juwan Howard. Ele foi um jogador útil, mas nada demais, o resto da carreira, protegendo o aro e chutando de três. No fundo, LaFrentz deu azar - se tivesse entrado na NBA 10 anos depois, teria tido muito mais mercado com seu conjunto de habilidades. Em 1998, ninguém ainda entendia bem o quão valioso é ter alguém capaz de espaçar a quadra E proteger o aro.


1999 Draft: Baron Davis (Hornets)
Davis nunca foi uma estrela, mas foi um jogador muito bom durante um bom tempo. Depois de estourar na sua terceira temporada pelo Hornets (19-9), Davis foi a dois All-Stars (inclusive com um incrível 23-8 com 2.5 steals em 2004) antes de ser trocado para Golden State (por Speedy Claxton e Dale Davis). No WArriors Davis continuou sendo um bom jogador jogando principalmente em times medianos. Lá ele teve temporadas de 19, 20 e 21 pontos por jogo com 8 assistências e comandou aquele divertido time de 2007 que fez história ao derrotar o Dallas Mavericks na primeira rodada dos playoffs como uma 8th seed (sem falar na antológica enterrada em cima do Andrei Kirilenko uma rodada depois). Nunca foi uma estrela, e muito da sua carreira pós-Hornets envolveu ser um bom jogador em times ruins. Mas no seu auge, ele era um All-Star e um grande jogador de pós-temporada, e teve uma carreira boa o suficiente para justificar uma escolha #3.


2000 Draft: Darius Miles (Clippers)
Darius Miles foi um dos talentos mais frustrantes da era "Too much, too young, too fast" da NBA, quando jogadores de colegial estavam indo direto para a NBA, recebendo muito dinheiro e atenção e falhando em desenvolver seus talentos. Miles foi um dos melhores exemplos, um ala talentoso que teve uma temporada decente de novato, sendo o primeiro jogador a ir direto do HS para a NBA a conseguir 1st Team All-Rookie (embora majoritariamente pela falta de talento no resto do Draft), mas nunca conseguiu desenvolver.

Em meio a más atuações, jogos letárgicos e desinteresse por defesa, Miles era o tipo de jogador que te deixava pronto para desistir dele... e quando você estava quase desistindo, ele colocava 40 pontos para fazer todo mundo pensar que ele finalmente ia atingir seu potencial e lhe dar um novo contrato e uma nova chance que ele não merecia. Eventualmente, em uma das suas muitas "últimas chances", Miles machucou o joelho, perdeu duas temporadas como consequência, voltou a NBA só para ferrar sua ex-franquia (Portland) e estava fora do basquete profissional aos 27 anos. Bust memorável.

Ps. Procure no google por "Bola Presa" + "Contagem regressiva para o Blazers se lascar" para os detalhes.


2001 Draft: Pau Gasol (Grizzlies, via Hawks)
No Draft de 2001, a primeira escolha estava sendo (na época) disputada por três jogadores vindos do High School: Kwame Brown (eventual #1), Tyson Chandler (#2) e Eddy Curry (#4). O Hawks trocou a escolha #3 desse Draft para o Grizzlies por Shareef Abdur-Rahim e Jamaal Tinsley, e Vancouver - queimado por algumas escolhas questionáveis em anos recentes - decidiu que preferia uma certeza a apostar nesses crus colegiais, então mudou de foco e pegou Pau Gasol, que já tinha experiência profissional na Europa. Foi a melhor coisa que eles poderiam ter feito, considerando que Curry foi um gigantesco bust e Gasol eventualmente evoluiu em uma estrela, um dos mais habilidosos e talentosos jogadores de garrafão da NBA, e foi o astro de um bom time de Memphis que foi a três playoffs seguidos no forte Oeste.

Memphis acabou trocando Gasol para o Lakers em uma das trocas mais polemicas da história da NBA. Gasol era uma estrela, e o Lakers o conseguiu por migalhas: Kwame Brown (irc!), Javaris Crittenton (IRC!!), Aaron McKie (?!), duas escolhas baixas de primeira rodada (eventualmente Donte Greene e Greivez Vazquez)... e os direitos sobre uma escolha de segunda rodada do irmãozinho gordo de Pau, Marc Gasol. No começo a troca foi um sucesso para o Lakers (três finais seguidas, dois títulos com Gasol como seu segundo astro) e um fracasso para o Grizzlies, até que usaram o alivio salarial da troca para trazer Z-Bo, Marc Gasol virou um dos melhores Centers da NBA, e Memphis se remontou em todo desses dois como um eterno candidato a playoffs no Oeste. Então eventualmente a troca funcionou para o Grizzlies também.


2002 Draft: Mike Dunleavy Jr (Warriors)
Dunleavy é o tipo de jogador que você espera conseguir com uma escolha do meio da primeira rodada, um role player útil capaz de arremessar de fora e dar bons passes, mas que sozinho não consegue mudar muita coisa. É aquele cara que, em um bom time, pode fazer a diferença, mas em um time mediano não vai mudar nada. Também não ajuda o fato de que o pobre Dunleavy passou quase toda sua carreira em uma série de times ruins: foi um titular consistentemente em uma série de times ruins de Golden State antes de ser trocado para Indiana, quando o Pacers estava tentando se livrar de todos seus jogadores pós-Malice at the Palace. Então quando o Warriors finalmente estava indo aos playffs, Dunleavy foi trocado para um péssimo time do Pacers em desmonte, onde gastou o resto da sua carreira. Só aos 33 anos no Bulls que Dunleavy foi fazer o seu papel verdadeiro de role player complementar em um bom time.


2003 Draft: Carmelo Anthony (Nuggets)
Considerado o segundo melhor jogador do Draft de 2003, Melo caiu no colo do Nuggets que logo se remontou em torno da sua nova estrela, que foi brilhante desde o primeiro ano: 21 pontos por jogo aos 19 anos, depois explodiu aos 21 e aos 22 anos com 26 e 29 pontos por jogo, respectivamente. Com Melo, o Nuggets chegou a quatro playoffs consecutivos, mas nunca passou da primeira rodada e só tinha vencido três jogos no total até a chegada de Chauncey Billups. Foi a melhor coisa que aconteceu a Melo e o Nuggets: finalmente com um armador de verdade, agora o time tinha alguém para controlar a bola, impedir que os jogadores a segurassem demais, oferecesse aos arremessadores e pontuadores do time a bola nas posições mais adequaras, controlasse o ritmo do jogo, e tudo que faltava ao time. Billups também foi fundamental mantendo o Nuggets no topo enquanto Melo lidava com algumas lesões menores, e nos playoffs, Billups e Melo levaram o Nuggets até as Finais de conferência. Foi provavelmente a melhor chance de Melo e Denver chegarem nas Finais, mas esbarraram em um forte time do Lakers e perderam em 6. Um ano depois Melo decidiu que não queria jogar mais por Denver e eventualmente forçou uma troca para o Knicks (Galinari, Wilson Chandler, Timofey Mozgov e escolhas de Draft), onde tem estado preso desde então como a única estrela de um time medíocre, sem muitas chances de título. Não exatamente o que Melo esperava, mas difícil dizer que essa escolha não deu muito certo para Denver.


2004 Draft: Ben Gordon (Bulls)
Ben Gordon era o protótipo do Heat Check Guy: um excelente pontuador e fantástico arremessador que pouco mais fazia por Chicago. Isso fez dele uma importante peça - especialmente vindo do banco - em uma série de divertidos times do Bulls, culminando na sua antológica performance contra o Celtics nos playoffs de 2009 naquela agora-lendária série de 7 jogos. Enquanto em Chicago, Gordon foi muito bem como pontuador e ataque instantâneo, passando de 20 pontos por jogo duas vezes... até que Gordon virou free agent, Detroit ofereceu um contrato milionário que ele aceitou, e sua carreira foi por água abaixo a partir dai. Ele nunca mais atingiu 14 pontos por jogo na vida ou foi mais que uma quarta opção em Detroit, bastante criticado por causa do seu contrato, desenvolveu uma má atitude e falta de interesse geral que só piorou sua situação. Hoje está mofando no banco do Magic.

Curiosidade do dia: Ben Gordon arremessou mais que 40% de três pontos em cada uma das suas cinco temporadas em Chicago, e em sete das suas oito primeiras temporadas na NBA. Sua média na carreira é de 40.1% de 3PT.


2005 Draft: Deron Williams (Jazz, via Trail Blazers)
Por algum motivo, todo mundo esquece disso hoje em dia, mas o Blazers teve na mão a escolha para selecionar Chris Paul (afinal, ele era o melhor jogador do Draft e tudo mais) e preferiu trocá-la pela escolha #6 (Martell Webster) e duas outras escolhas (eventualmente Linas Kleiza e Joel Freeland). Então se você está acompanhando, o Blazers pegou Sam Bowie na frente de Michael Jordan, Greg Oden na frente de Kevin Durant, e trocou a escolha que poderia ser Chris Paul por Martell Webster.

O Jazz se aproveitou da troca para selecionar Deron Williams, e Williams foi um enorme sucesso jogando no esquema de Jerry Sloan em Utah. Desde que virou titular em 2006/07 até 2010, Deron foi um dos melhores PGs da NBA, e sua média no período foi de 18 pontos e 10 assistências, tendo seu auge em 2009 com 19-11 e 47 FG%. Nesses quatro anos de Deron titular, Utah foi aos playoffs em todos, e chegou uma vez nas Finais do Oeste e duas nas Semifinais do Oeste com Deron sendo sua grande estrela e um dos melhores PGs da NBA.

Essa história, todo mundo sabe, não teve um final feliz: Deron brigou com Jerry Sloan (que se aposentou), passou de herói a vilão em Utah, e forçou uma troca para o Nets, que acabou acontecendo pouco depois (por Derrick Favors, Devin Harris, uma escolha futura que virou Enes Kanter, e outra escolha futura que foi trocada por Trey Burke - e acabou sendo Gorgui Dieng). No Brooklyn Deron ainda tem sido bom, mas nunca mais repetiu suas atuações de Utah e ninguém mais pensa nele como um dos grandes PGs da liga. Ainda assim, foi uma ótima escolha do Jazz que rendeu frutos.


2006 Draft: Adam Morrison (Bobcats)
Um dos mais famosos busts da NBA recente, Morrison foi uma máquina de pontuar por Gonzaga (28 ppg, 43 3PT%) antes de ser escolhido pelo Bobcats. Logo ficou claro que Morrison não tinha sido uma boa escolha: ele não tinha velocidade ou força parar criar separação na NBA, não defendia ninguém e seu arremesso de três estava tendo dificuldades para se adaptar a linha de três da NBA. Depois de uma decepcionante temporada de novato, Morrison estourou o ligamento e perdeu a temporada seguinte, foi trocado para o Lakers, e jogou apenas três temporadas no total na NBA antes de sair da liga em 2010. Estava fora da NBA aos 25 anos.

Curiosidade do dia: depois de jogar na Europa um tempo, Morrison voltou a Gonzaga para terminar os estudos, onde também é assistente no time de basquete.


2007 Draft: Al Horford (Hawks)
Apesar de alguns problemas recentes de lesão, Al Horford tem sido um dos mais estáveis e consistentes homens de garrafão na NBA desde que foi escolhido. Ele não é uma estrela que vai dominar jogos com freqüência, mas saudável é um All-Star que te garante 16 pontos e 10 rebotes toda noite, com ótimos passes e ótima defesa, e vai chutar 55% de quadra. Não vai mudar sozinho uma franquia, mas vai ajudar bastante, ancorar uma boa defesa e fazer o trabalho sujo. Muito bom jogador.


2008 Draft: OJ Mayo (Grizzlies, via Timberwolves)
O Wolves tinha a terceira escolha do Draft e pegou OJ Mayo, considerando que Rose/Beasley/Mayo era o claro Top3 daquele ano antes do Draft. Mas ao invés de manter Mayo, o Wolves trocou aquela escolha (em um pacote maior, mas esses são os que importam) para o Grizzlies por Mike Miller e a escolha #5 do Draft... Kevin Love! Se você está prestando atenção, em dois drafts consecutivos o Grizzlies trocou Kevin Love por OJ Mayo e pegou Hasheem Thabeet sobre Stephen Curry e James Harden... e ainda foi um dos melhores times do Oeste durante anos a fio. Eu não entendo a NBA.

Não da para dizer que Mayo foi um bust nem nada - ele teve 18 pontos por jogo de média em seus dois primeiros anos em Memphis chutando 38% de três, e depois virou uma peça importante vindo do banco naquele bom time de 2011. O problema é que sua carreira pareceu ter seu auge ai - depois de uma temporada 2012 decepcionante, Memphis decidiu que não queria pagar muito dinheiro para Mayo, que foi a Dallas. Mayo foi bem em um time decepcionante de Dallas, depois virou uma peça útil e fora de forma no banco de Milwaukee... certamente alguém que tem lugar na NBA, mas nem de longe o que esperavam antes do Draft, ou mesmo quando o pegaram #3.


2009 Draft: James Harden (Thunder)
Outra vez o Thunder achou ouro no Draft - só que dessa vez o time já tinha achado três vezes, e esse terceiro não teve tanto espaço como poderia. Harden era uma peça chave para o Thunder vindo do banco, chegando a ter médias de 16-4-4 em 2011... até que OKC decidiu que não queria pagar Harden mesmo ele sendo um dos seus melhores jogadores, e o trocou para o Rockets (por Jeremy Lamb, Kevin Martin e duas futuras 1st round picks, uma delas que já virou Steven Adams). No Rockets, com espaço e liberdade para atuar com a bola nas mãos, Harden logo virou uma grande estrela: 26-5-6 no seu primeiro ano e 25-5-6 no segundo, então é seguro dizer que o Thunder não tomou uma decisão sábia trocando aquele que virou um dos 10 melhores jogadores da NBA por migalhas. Harden hoje é uma legítima estrela e possivelmente vai assombrar os fãs do Thunder por anos a fio, especialmente se KD sair na free agency ano que vem.


2010 Draft: Derrick Favors (Nets)
Favors foi a peça chave daquela troca que mandou Deron Williams para o Nets em 2010. Até agora em sua curta carreira, Favors tem sido... irregular. Jogar em um time confuso de Utah não tem ajudado, e ele não tem recebido tantos minutos assim. Em um nível por-minutos, ele tem sido produtivo, algo como 15-11 com 2 tocos por 36 minutos, e esse ano pareceu ter dado um salto ofensivo, mais envolvido e mais eficiente do que nunca. Ele ainda tem 23 anos e tem o físico e habilidade atlética para virar um bom defensor, e ainda que pareça muito improvável que Favors vire uma estrela algum dia, ele ainda pode ser um sólido jogador acima da média por anos a fio.


2011 Draft: Enes Kanter (Jazz, via Nets)
A outra peça fundamental na troca por Deron (a escolha futura de primeira rodada), Kanter até agora tem sido um jogador pouco produtivo. Ele não é um grande defensor, e embora seu físico gere todo tipo de problemas para os adversários, ele não sabe muito bem usar isso de costas para a cesta ou algo parecido - ele tem médias de 16-10 nos ultimos anos por 36 minutos, mas nunca passa de 25 minutos por jogo na prática. Ele tem melhorado em 2014/15 - só 22 anos, by the way - mas ainda não se entrosou bem com Favors ou deu mostras de que vai ser mais do que um jogador de rotação na NBA. Utah não tem pressa e provavelmente vai continuar insistindo em Kanter e Favors (que ainda são jovens) se o preço não for absurdo, mas até agora nenhum parece que vai virar nada de excepcional.


2012 Draft: Bradley Beal (Wizards)
Bradley Beal, até agora, tem sido exatamente o que se esperava dele antes do Draft: um bom jogador ofensivo cujo principal foco é o arremesso de fora, bom o suficiente em outras áreas (especialmente como ball handler) para contribuir, mas sendo só secundário a sua produção ofensiva. Não é nem vai ser uma estrela, mas tem tudo para ser um bom jogador ofensivo e talvez um All-Star algum dia.


Resultado final: Graças a Deus a escolha #3 não tem nenhuma maldição. As escolhas #3 dos ultimos 15 anos não geraram nenhum Franchise-changing Superstar (Aquele jogador historicamente bom como Durant, LeBron ou Unibrow), mas gerou um ótimo número de estrelas (Harden, Gasol, Williams e Carmelo), outros dois All-Stars (Horford e Davis), um possível All-Star (Beal), e só dois grandes busts (Morrison e Miles). Em termos de aproveitamento, é uma boa safra, quase 7 em 15 anos. Ainda assim, apenas um (Gasol) e TALVEZ dois (Harden) jogadores acabaram sendo o melhor de suas classes.

Mas de novo, em termos de sucesso, nada excepcional. Apenas um dos 15 jogadores venceram um título (Gasol), e foi depois de ter sido trocado por um time que tinha decidido voltar a se reconstruir. Apenas um outro (Harden) chegou a uma final de NBA, e foi como reserva de um time que tinha duas outras estrelas maiores de titular (Durant e Westbrook). Carmelo (só com Billups a bordo) e Deron chegaram perto, mas falharam e logo forçaram uma troca, e os times que os trocaram ainda não estão em boa forma. Então enquanto tivemos ótimos jogadores saindo com a escolha #3, também é difícil achar times que tenham usado essa escolha alta rumo a uma Final de NBA ou um período prolongado de competição pelo título.


Escolhas #4 de Draft


1998 Draft: Antawn Jamison (Warriors, via Raptors)
Jamison foi escolhido pelo Raptors na escolha #4 e imediatamente trocado pela #5 + dinheiro. Como a #5 foi Vince Carter, é seguro dizer que o Raptors acabou fazendo a coisa certa.

Jamison é o típico jogador que nunca foi excepcional, mas foi muito bom por muito tempo e teve uma excelente carreira. Um ótimo jogador ofensivo, Jamison teve média de quase 19-8 na sua carreira, teve uma temporada 25-9 por Golden State, e ficou acima de 20 ppg três outras vezes. Sem falar em ter jogado por uma série de times divertidos de Warriors, Mavericks e Wizards. Jamison se aposentou ano passado depois de 16 temporadas bem sucedidas e 2 All-Stars.


1999 Draft: Lamar Odom (Clippers)
Yep, aquele. Odom é outro exemplo de jogador muito bom, com um skill set muito único e que foi bastante útil em alguns bons times, mas que nunca foi realmente uma estrela (ou um All-Star). Na verdade, Odom jogou quatro temporadas pelo Clippers apenas, com as últimas duas sendo marcadas por lesões e inconsistência, e o time não reassinou com ele. Ainda que Odom tenha sido um bom jogador com uma boa carreira, difícil dizer alguém que é dispensado depois de quatro anos do seu time foi um sucesso.

Odom acabou assinando com o Heat na offseason - depois que o Heat conseguiu o espaço salarial necessário porque o agente do Anthony Carter ESQUECEU de exercer sua player option - e foi uma peça importante na troca que trouxe Shaq a Miami. Odom acabou naqueles horríveis times do Lakers do meio dos anos 2000 que eventualmente foram salvos por Chris Wallace Pau Gasol, e era o quarto melhor jogador dos bicampeões Lakers. Nada espetacular, mas também sólido.


2000 Draft: Marcus Fizer (Bulls)
Quem?!

Fizer foi um PF que ninguém entendeu quando foi escolhido pelo Bulls em 2000, considerando que eles já tinham Elton Brand, e muitos acharam que tinha sido pego para uma futura troca. Essa troca nunca aconteceu, Fizer ficou mofando no banco atrás de Brand (e depois Curry/Chandler), eventualmente estourou um joelho, e estava fora da NBA aos 27 anos.


2001 Draft: Eddy Curry (Bulls)
Uma coluna bem infeliz para o Bulls. Tirando Rose na escolha #1, Bulls apareceu nessa coluna só com um acerto relativo (Ben Gordon) e um caminhão de erros: trocar Brand por Chandler, trocar Aldridge por Tyrus Thomas, e escolher Jay Williams e Marcus Fizer com as outras duas. E agora, Eddy Curry.

Não tem nada mais engraçado na NBA que reler colunas pré-Draft 2001 e ver Curry ser comparado a Shaq e Wilt Chamberlain. Um cara enorme, muito forte e muito gordo, todo mundo achava que Curry tinha o potencial para ser um pivô extremamente dominante na NBA. Só que ai ele chegou na NBA de fato e todo mundo viu que ele não conseguia pegar rebotes, defender o aro, ou mesmo se mover direito em quadra. Tudo que ele tinha era aquele jogo de costas para a cesta, o que era suficiente para fazer algumas pessoas acharem que ele tinha salvação quando na verdade ele era péssimo. E claro, ele convenceu Isiah Thomas a trocar não uma, mas DUAS escolhas de primeira rodada por ele. Essas escolhas acabaram virando Joakim Noah e, depois, LaMarcus Aldridge (que o Bulls estupidamente trocou). Quando Eddy Curry fez 25 anos, ninguém o queria mais - jogou apenas 26 jogos na carreira depois disso antes de se aposentar. Outro dos maiores busts de todos os tempos.

Curiosidade do dia: Eddy Curry tem 100% de aproveitamento em bolas de três na carreira. 2 de 2.


2002 Draft: Drew Gooden (Grizzlies)
Gooden foi basicamente um jogador irrelevante ao longo da carreira, nunca com mais que 14.4 pontos ou 9.2 rebotes em uma temporada, além de prover zero defesa ou passes. Algumas temporadas decentes e até chegou em uma Final de NBA por Cleveland, mas nunca foi um jogador que mudasse alguma coisa.

O engraçado da carreira de Gooden foram as trocas constantes e os nomes envolvidos: na temporada de calouro, foi trocado para o Magic em troca de Mike Miller e uma escolha futura de Draft (eventualmente Kendrick Perkins); ele depois foi mandado para o Cavs em troca de Tony Battie (!!) junto de (wait for it...) Anderson Varejão; ele depois foi trocado pelo Cavs junto de Shannon Brown e Larry Hughes em uma troca de quatro times que trouxe a Cleveland Ben Wallace, Delonte West e uma escolha de segunda rodada que acabou virando (wait for it...!) Danny Green; mais tarde foi trocado pelo Bulls por John Salmons; e depois de ir ao Mavs como free agent, foi trocado junto de Josh Howard por Caron Butler e DeShawn Stevenson, que ajudaram o Mavs a ser campeão em 2011. Eventualmente também foi envolvido na troca que trouxe Jamison ao Cavs. Por algum motivo eu acho muito engraçado Gooden ter estado envolvido em todas essas trocas com todos esses nomes, e o fato de que ele jogou por 10 times (33% da NBA!!!) ao longo de sua carreira.


2003 Draft: Chris Bosh (Raptors)
OS scouts da época achavam que Chris Bosh era magro demais para jogar no profissional, e que portanto Darko era um prospecto muito melhor. Scouts são burros. Lembrem disso.

Bosh foi uma escolha de enorme sucesso para o Raptors, e não demorou para se estabelecer como um dos melhores PFs da NBA, uma legítima estrela capaz de arremessar de fora, jogar no garrafão, ou colocar a bola no chão e criar a partir do drible. O problema é que o Raptors foi absolutamente incapaz de montar qualquer coisa ao redor do seu time: nos próximos três anos, Toronto escolheu 3x no Top10 (incluindo uma escolha #1) e gastou todas em jogadores de garrafão medíocres (o brasileiro Babby, Charlie Villanueva e Bargnani). Depois disso o time ficou menos horrível e Bosh começou a levar Toronto mais longe, mas dai o time ficou preso no topo da loteria/parte de baixo dos playoffs, sem condições de se reforçar mas muito longe de ter um time decente. Como acabou, todo mundo sabe: Bosh foi para Miami e ganhou dois títulos com LeBron e Wade. Bosh foi uma grande escolha que virou um grande jogador, mas a culpa é da diretoria de Toronto por não aproveitar.


2004 Draft: Shaun Livingston (Clippers, via Bobcats)
Antes do Draft, o Clippers trocou sua escolha #2 (eventualmente Okafor) para o Bobcats pela #4, uma escolha de segunda rodada (Lionel Chalmers) e um acordo sobre o Draft de expansão (não pergunte). E selecionou Livingston, um adolescente com muito potencial vindo direto do High School. Livingston teve um papel limitado nos primeiros anos mas demonstrou grande potencial como defensor e armador... até que sofreu uma lesão horrível no joelho, que o tirou da temporada, custou dois anos para voltar as quadras e o roubou de toda sua explosão e habilidade atlética.

Livingston nunca voltou a ser o que era e perdeu todo seu potencial, mas em um final feliz, Livingston conseguiu retomar sua carreira, um jogador útil capaz de jogar/defender três posições e pontuar de costas para a cesta que voltou aos playoffs ano passado como um importante jogador no Nets. Confesso que poucas vezes fiquei mais feliz por um atleta profissional que não envolvesse meu time.


2005 Draft: Chris Paul (Hornets)
O Hornets achou ouro com Paul depois que três times estupidamente passaram por ele, e Paul logo se revelou um Franchise-chaning player por New Orleans, um Isiah Thomas 2.0 e um dos 12 melhores PGs da história da NBA. Suas temporadas 2008 (21-12, líder em roubos, deveria ter sido MVP) e 2009 (23-11, líder em roubos) estão no Panteão das maiores de um PG em todos os tempos. O prolema, como acontece com tantas outras estrelas draftadas no topo do Draft, é que Paul era bom demais para um time que era ruim demais. Sua chegada e seu impacto imediatamente levantaram em muito a franquia, só que o time ao seu redor era ruim e não tinha boas peças de troca para trazer um bom complemento veterano, e agora com Paul o time não era mais ruim o suficiente para juntar várias escolhas altas de Draft. Então pobre Paul ficou preso carregando nas costas times fracos e sem esperança do Hornets, até que seu contrato chegou ao fim e ele foi trocado para Los Angeles (tecnicamente duas vezes) antes que o Hornets perdesse o jogador por nada. Ele mudou o destino do Clippers desde então junto de Blake Griffin.


2006 Draft: Tyrus Thomas (Bulls, via Trail Blazers)
Já critiquei muito essa escolha do Bulls, e com razão: Aldridge virou um All-Star e um dos melhores PFs da NBA, enquanto Tyrus Thomas foi um grande bust pra Chicago, nunca passando de 10.8 pontos e 6.4 rebotes e decepcionando de maneira geral. A única coisa boa a se dizer sobre Thomas no Bulls é que pelo menos conseguiram se livrar dele na quarta temporada para o Bobcats em uma das piores trocas da NBA moderna: Tyrus Thomas (jogou três anos e meio em Charlotte, foi anistiado e estava fora da NBA aos 26 anos) por Acie Law (meh), Ronald Murray (meh)... e uma escolha futura de primeira rodada. Que AINDA é de Chicago no presente momento, um doce ativo para trocas ou para tentar achar um jogador para o futuro.


2007 Draft: Mike Conley (Grizzlies)
Não foi uma escolha popular na época, e foi ainda mais criticada quando o Grizzlies eventualmente deu uma extensão contratual de 45M/5 anos para Conley, mas a verdade é que deu muito certo: Conley evoluiu em um dos melhores armadores da NBA, um excelente jogador all-around capaz de defender em altíssimo nível, armar o time e atacar a cesta mesmo com o pouco espaço que o Grizzlies costuma gerar. Conley não é uma estrela, mas é um ótimo jogador que é hoje provavelmente o segundo melhor do time com melhor record da NBA.


2008 Draft: Russell Westbrook (Supersonics)
Yep, três vezes o Sonics/Thunder achou ouro no Top4 do Draft. Eles acharam um Franchise-changing player (Durant), uma superestrela em Westbrook, e uma futura estrela em Harden (que só virou uma quando saiu, mas enfim). Essa é a sequência de Drafts que convenceu o mundo do basquete de que tankar era uma boa idéia e o caminho mais rápido para o sucesso (mais sobre isso daqui a pouco). Na época, Westbrook #4 foi uma surpresa e muita gente achou que tinha sido uma escolha ruim, só que Westbrook acabou virando um dos 15 melhores jogadores da NBA. Acontece. Nem todo mundo consegue ter esse tipo de seqüência. Quer dizer, Durant, Westbrook E Harden em Drafts consecutivos?! É que nem pegar um raio em uma garrafa. Três vezes seguidas.


2009 Draft: Tyreke Evans (Kings)
Evans tacou fogo na NBA em 2009, quando se tornou o quarto calouro da história (junto de Oscar, MJ e LeBron) a ter 20-5-5 de média (20-5-6, 46 FG%). Todo mundo engoliu o hype criado por essa temporada de calouro e achou que Evans estava pronto para explodir como a próxima estrela da NBA... só que não aconteceu. Tyreke decaiu na sua segunda temporada, batalhando algumas lesões. E na terceira. E na quarta. Sua temporada de calouro acabou sendo seu auge, e em cada uma das quatro temporadas subsequentes suas médias de pontos e rebotes foram caindo, ele parecia cada vez mais sem posição na NBA, até que o Kings decidiu não renovar seu contrato. Evans acabou no Pelicans e, em 2014/15, tem tido um certo renascimento na carreira (16-6-6, segundo melhor jogador do time), mas nunca chegou a ser a estrela que todos esperavam.


2010 Draft: Wesley Johnson (Timberwolves)
Yep, é isso ai, em drafts consecutivos o Wolves pegou Johnny Flynn sobre Stephen Curry e Wes Johnson sobre Boogie Cousins. Pelos velhos tempos... KAAAAAAAAAAHN!!!!

Johnson era considerado uma escolha "segura" no draft, alguém que já entrava na NBA com 23 anos depois de ter passado três anos no College. O enunciado era que ele fazia tudo um pouco: arremessava de fora, defendia, jogava com a bola nas mãos, etc. O que todo mundo logo descobriu é que não é que ele fazia um pouco de tudo... é que ele não sabia fazer nada direito. Ele durou duas temporadas horríveis em Minnesota antes de ser trocado sem cerimonia para Phoenix, e de lá para o Lakers, onde faz parte de um dos piores times da NBA. Ele nunca teve PER acima de 11 na carreira.


2011 Draft: Tristan Thompson (Cavaliers)
Outra escolha ruim de Draft do Cavs. Ta certo que o Draft não era muito bom, mas tinha vários jogadores melhores (e mais bem cotados) que Thompson disponíveis, como Valanciunas, Klay Thompson e Kawhi Leonard. Thompson nunca foi nada mais do que medíocre, um jogador que só tem uma habilidade em nível NBA: rebotes de ataque. Fora isso, ele não consegue arremessar, passar a bola, criar seu próprio arremesso, jogar de costas para a cesta ou defender o aro consistentemente. E ele ainda assim provavelmente vai ganhar uma extensão de uns 48M essa offseason simplesmente porque seu agente é o mesmo de LeBron James


2012 Draft: Dion Waiters (Cavaliers)
Outro fracasso do Cavs. Com Waiters, é comum as pessoas confundirem ser um jogador talentoso com ser um bom jogador. Waiters tem talento - sabe driblar, arremessar e criar a partir do drible - mas não é um bom jogador em um time. Ele arremessa demais e quando quer, não se movimenta tanto sem a bola, é um péssimo defensor, não parece ter noção da hora certa de fazer cada coisa, e não faz nenhum companheiro de time melhor. Em dois anos ele já brigou com Irving e LeBron, e atualmente está mofando no banco do Cavs com médias de 9 pontos e 38% nos arremessos. Algumas das próximas escolhas do mesmo Draft: Lillard, Terrence Ross, Harrison Barnes, Andre Drummond.


Resultado final: Dos 15 jogadores #4, vimos alguns casos se repetindo de bons, sólidos jogadores que nunca viraram estrelas, como Odom, Tyreke, Conley ou Jamison. É o que você quer garantir na loteria. Mas em termos de upside, apenas um Franchise-changing superstar (Paul) e duas grandes estrelas (Westbrook e Bosh), o que não é ruim considerando que essa é a quarta escolha, especialmente considerando os bons jogadores que também tivemos (apenas quatro grandes busts - Johnson, Curry, Fizer e Thomas).

E de novo, o mesmo tema: falta de sucesso. Apenas Westbrook chegou a uma Final de NBA com o time que o escolheu, e os dois jogadores da classe que ganharam anéis de campeões com alguma relevância fizeram isso depois de saírem do time que os draftou: Bosh saiu de Toronto como FA para ganhar um título em Miami, e Odom virou free agent uma vez e foi trocado outra antes de chegar no Lakers (e mesmo assim só foi campeão cinco anos depois). Poucos times que fizeram essas escolhas viram seu destino mudar positivamente, e os que viram não conseguiram fazer nada com isso a exceção do Thunder (que já tinha Durant do Draft anterior).


Conclusão

Em termos contáveis, eis nosso saldo final das 60 escolhas de Draft Top4 entre 1998 e 2012:

Cinco franchise-changing players. 3 escolhidos na primeira escolha, 1 na segunda e 1 na quarta (Lebron, Dwight, Davis, Durant e Chris Paul)

Nove estrelas, contando Rose e Yao. 3 na primeira escolha, 4 na terceira, e 2 na quarta (Rose, Yao, Griffin, Gasol, Melo, Deron Williams, Harden, Bosh, Westbrook)

8 consistentes All-Stars. 3 na primeira escolha, dois na segunda, dois na terceira e um na quarta: Brand, Wall, Irving, Aldridge, Francis, Baron Davis, Al Horford, Jamison

18 busts absolutos, o tipo de jogador que foi um fracasso inapelável na escolha.

Então na contagem final, temos 5 FP, 9 estrelas, 8 All-Stars, 18 busts, e os outros 20 jogadores ficam entre "muito sólido" (pense Odom/Conley) e "fraco, mas passível" (Gooden), com no meio alguns "esperamos para ver" (Beal, MKG, Favors). Então 22 de 60 escolhas (37%) no Top4 desses 15 anos renderam algo que você ficaria satisfeito, algo entre All-Star e Franchise Player. Confesso que é menos do que eu esperava - eu esperava que o Top4 consistentemente rendesse jogadores melhores para esses times. Se você tem uma escolha Top4, você tem quase tantas chances de sair de lá com um bust (30%) como com um All-Star. Isso é um pouco assustador. Além disso, talento claramente não falta nesse Top60, mas também não me parece que você tem grandes chances de sair de lá com uma estrela - 14 de 60, menos de 25% das escolhas, renderam esse tipo de jogador. Para ilustrar melhor, vamos ver como o resto da primeira rodada desses 15 Drafts rendeu nas categorias FP, estrela e All Star:

2 Franchise Players (Dirk, Wade)

10 estrelas (Pierce, Carter, Parker, Stoudamire, Roy, Rondo, Love, Curry, Cousins, Paul George )

10 All-Stars (Marion, Rip Hamilton, Artest, Z-Bo, Joe Johnson, Butler, Iguodala, Al Jefferson, Noah, Brook Lopez)

Bem parecido. Claro, o resto da primeira rodada tem muito mais escolhas, mas ainda assim é significativo o quão próximos tem sido os resultados dos times dentro do Top4 e dos times fora delas. O único considerável desequilíbrio é em Franchise Players - já que esses jogadores normalmente já são certezas ANTES da NBA, é raro que caiam das primeiras escolhas - mas ainda assim, Franchise Players em geral já são extremamente raros, menos de um a cada dois anos na nossa amostra. Considerando que menos de metade deles saíram na escolha #1 também serve para mostrar que, mesmo quando tem um FP disponível (o que não é tão comum), ainda assim não é fácil pegá-lo.

E tem também aquele complicado fato do qual não podemos escapar: nem um único desses 60 jogadores ganhou um título com o time que o escolheu. Na verdade, apenas CINCO deles sequer CHEGARAM a uma final de NBA, e três deles foram com o mesmo time (Durant, Harden e Westbrook com o Thunder de 2012). Os cinco jogadores dessa lista que chegaram a ser campeões com um papel importante (LEBron, Bosh, Gasol, Odom e Chandler) foram todos campeões depois de deixarem seus respectivos times: LeBron e Bosh saíram como free agents para pastos mais verdes depois de ficarem anos presos a times medíocres (e deixaram Cavs e Raptors sem nada); Odom virou free agent e foi trocado antes de virar campeão, onde era apenas o terceiro ou quarto melhor jogador; Gasol foi campeão depois de trocado por migalhas por um time que queria voltar a reconstruir; e Chandler passou por cinco times antes de realizar seu potencial no campeão Mavs. Para efeito de comparação, SEIS daqueles All-Stars ou melhores que foram draftados fora do Top4 foram campeões pelo time que os draftou (Dirk, Pierce, Wade, Rondo, Parker, Hamilton combinaram para 11 títulos).

Essa falta de sucesso é o que mais preocupa olhando esses 15 anos. Selecionar um grande jogador já é algo bem difícil e até raro, mesmo no topo do Draft, mas é significativo que mesmo os que conseguiram um não tenham alcançado tanto sucesso coletivo assim.

Os times que escolheram LeBron, Chris Paul e Chris Bosh nunca conseguiram montar algo em torno de suas estrelas. Os times que escolheram Deron e Gasol tiveram bons times, mas nunca bons o suficiente para realmente ser grande candidato ao título. O Denver de Carmelo era apenas razoável mesmo com Melo até a chegada de uma estrela veterana (Billups), que levou o time as Finais do Oeste, depois nunca mais. Yao e Rose quebraram. Os 8 All-Stars nunca foram bons o suficiente para levar sozinhos um time nas costas. E com uma exceção (chegaremos lá), a maior parte desses times que conseguiu um grande jogador não foi capaz de montar um time bom o suficiente. Isso é um problema grave.

Em grande parte, isso se deve ao fato de que tankar tem um custo. Se você quer sair do Draft com uma estrela ou o tipo de jogador que vai mudar o destino da sua franquia, então em geral o melhor lugar para conseguir esse tipo é o topo do Draft. E isso sem falar que, como já vimos, é raro e um tanto quanto imprevisível achar essas estrelas ano a ano, então se seu objetivo maior é conseguir uma estrela através do Draft, você provavelmente tende a se manter mais que um ano entre os piores. E para conseguir uma coisa dessas, você provavelmente teve que deixar o seu time muito ruim. Tipo, muito muito ruim. A não ser que você de um golpe de sorte a partir de um time já bom (como o Bulls em 2008, que conseguiu a #1 e Rose tendo apenas a nona pior campanha da NBA, e isso por causa de um ano em que tudo deu errado) ou de muita sorte em um projeto de tank de um ano devido a uma circunstância externa (como o Spurs tankando em 1996 porque David Robinson machucou e perdeu a temporada, e saindo com Tim Duncan), escolher no alto do Draft provavelmente significa que você tem um time bem ruim. Talvez até que tenha trocado seus jogadores mais veteranos e quem quer que pudesse ajudar você a ganhar jogos (e portanto atrapalhando o tank) por pouca coisa.

Então você fica com um time muito ruim, sem bons jogadores, porque isso aumenta suas chances de conseguir uma escolha alta... mas isso significa que mesmo se o tank funcionar e você conseguir uma estrela, você não tem nada que preste ao redor dela para construir em cima. E se sua estrela for boa o suficiente logo de cara, isso provavelmente significa que agora o seu time não é mais ruim o suficiente para contar com escolhas altas de Draft, mas também não terá nada ao redor dela para competir por um título a não ser que sua diretoria consiga ser bastante competente com poucos ativos (algo difícil nos dias de hoje, onde os times estão menos burros quanto a trocar escolhas desprotegidas de Draft, por exemplo). E isso antes de considerar que, como a NBA é estruturada hoje,  existe uma grande chance da sua estrela se mandar na free agency (ou forçar uma troca) dentro de alguns anos se você não conseguir montar um bom time ao redor dela, como aconteceu com vários jogadores dessa lista.

Se você for re-observar essa coluna, vai ver que essa história é a mais comum. Time muito ruim consegue uma escolha alta pela loteria, escolhe uma estrela, time se torna sólido ao seu redor, não consegue fazer os movimentos certos para montar um grande time com menos ativos, passa vários anos sendo bom-mas-não-bom-o-bastante-para-disputar-títulos, e eventualmente perde sua estrela porque ela se mandou na free agency ou porque você quer reconstruir mais uma vez. Denver provavelmente é o melhor exemplo: era um time horrível, pegou uma estrela em Melo no Top3 do Draft e imediatamente virou um time de playoffs... só que um time que não ia além da primeira rodada, onde ficaram presos durante anos a fio. Isso só foi mudar quando a diretoria trocou por uma estrela já estabelecida, Chauncey Billups, e o time chegou nas Finais do Oeste... e um ano depois Melo forçou uma troca para sair de Denver.

Em resumo, vendo essa análise toda, é difícil ficar convencido de que tankar realmente trás bons resultados. Estatisticamente, os números estão um tanto quanto contra você: você tem uma chance bem pequena de conseguir um Franchise-changing player mesmo com uma escolha Top4 (pelas minhas contas, 5 em 60 escolhas, o que da cerca de 8% de chance de conseguir um jogador assim com uma dessas escolhas), e mesmo uma estrela ou All-Star não são tão comuns assim como seria de imaginar. E a falta de sucesso geral desses times e desses jogadores é ainda mais preocupante, incluindo esse padrão de "não conseguir construir em torno mesmo se achar a estrela que querem". A não ser que você consiga aquele jogador historicamente excepcional (e mesmo com eles, mas em menor grau), você ainda vai precisar se desdobrar para reforçar sua equipe mesmo depois de conseguir sua estrela ou All-Star, só que agora sua tarefa vai ser muito mais difícil porque não vai mais contar com tantas escolhas altas... e isso antes de contar o quanto pode indispor jogadores a atuarem por uma equipe que foi ruim por muito tempo.

Então apesar de várias evidências da dificuldade que é transformar tank em sucesso, e da incrível falta de sucesso dos times que fizeram isso nos últimos 17 anos (zero títulos, apenas quatro desses times foram as Finais e ganharam quatro jogos TOTAIS lá), por que muitos times, analistas e torcedores ainda acham que esse é o melhor caminho para o sucesso?

Porque deu certo com o Thunder, que inclusive é o modelo que o Sixers está tentando seguir. Não apenas tankar até conseguir sua estrela, mas fazer isso consistentemente por anos a fio para conseguir VÁRIAS dessas estrelas. Deu certo para o Thunder, que em três anos pegou Durant, Westbrook e Harden - três dos 10 melhores jogadores da NBA na atualidade - e esse é o sucesso que todo mundo quer ter rumo a um título.

É claro, isso é que nem falar que todo mundo quer imitar o modelo de sucesso do Spurs. "Tudo que você tem a fazer é pegar um dos 6 melhores jogadores da história da NBA no Draft, juntar ele com um dos 4 melhores técnicos da história, cercar eles sempre dos jogadores certos, trabalhar sempre dentro do mesmo contexto voltado para o time, e ser a melhor franquia do mundo desenvolvendo role players por 15 anos para ganhar múltiplos títulos?!". Porque o Thunder fez também foi igualmente difícil, algo como pegar um raio em uma garrafa três vezes seguidas. Seja por pura sorte (ter uma escolha alta em Drafts com esses jogadores, ver Portland estupidamente passar Durant na escolha #1 e cair no seu colo um dos melhores pontuadores da história do esporte) ou por incrível competência avaliando talentos (Westbrook e Harden foram escolhas bastante surpreendentes na noite do Draft), é só você dar uma relida nas 60 escolhas analisadas nessa coluna para ver o quão difícil e improvável é você conseguir acertar três estrelas (inclusive uma sendo um talento histórico como Durant). Se quer tornar isso mais estatístico, 14 das 60 escolhas (23%) Top4 nesses 15 anos viraram uma estrela. Com essas chances, a chance de três escolhas seguidas virarem uma estrela é de ínfimos 1.2%, e isso antes de contar que uma delas era Durant (chances bem menores) E das chances de conseguir três escolhas seguidas dentro do Top5 (OKC tinha a quinta pior campanha em 2007 e a quarta pior em 2009). As chances são mínimas de conseguir algo assim, então chega a ser ingenuidade achar que qualquer time pode repetir esse modelo e sair com tanto sucesso assim.

E ainda assim, os times insistem. Nenhum desses times em 15 anos conseguiu sucesso sustentável na NBA (em termos de competir pelo título) tirando o que, como já vimos, fez algo extremamente raro e quase impossível de ser reproduzido. Nenhum ganhou um título ou chegou a mais de uma final. Então talvez seja hora de encarar o tank e o começo do Draft como a melhor forma de sucesso na NBA.


Como eles ganharam então?!

Então tank não é uma estratégia tão eficiente, e muito menos bem sucedida, na NBA moderna quanto as pessoas parecem acreditar. Então agora vamos fazer o contrário - olhar para os times que DE FATO venceram um título de NBA e tentar olhar um pouco para os caminhos que usaram para chegar lá.


1999 San Antonio Spurs
O Spurs é talvez o único time da NBA pós-Jordan a tirar sucesso de um tanking. Ainda assim, o sucesso do Spurs com esse tank confirma de certa forma tudo que eu disse, porque eles são a exceção da exceção: um time que fez um ano de tank sem necessariamente ser ruim. Eles aproveitaram uma lesão que tirou sua estrela (David Robinson, outra ex-escolha #1 que nunca tinha chegado a uma Final) da temporada para fazer um tank pontual de um ano, e tiveram a imensa sorte de conseguir a escolha #1 (com o terceiro pior record) naquele ano, e logo no ano que um dos 6 melhores jogadores da história da NBA estava saindo do College: Tim Duncan. 

Com sua nova estrela a bordo, a grande vantagem é que o Spurs não estava vazio de talento em torno da sua nova aquisição, eles já tinham um time razoável e uma segunda estrela a bordo! Duncan imediatamente assumiu o comando de Robinson, e o Spurs aproveitou sua dupla de pivôs fantásticos para ser campeões. O tank deu certo, mas só porque San Antonio já tinha uma boa estrutura anteriormente montada em torno de Timmy.


2000 Los Angeles Lakers
2001 Los Angeles Lakers
2002 Los Angeles Lakers
Eu juntei o three-peat do Lakers porque não houve nenhuma grande mudança de um ano a outro, a fórmula ainda era essencialmente a mesma. Esse é outro time que se aproveitou de duas estrelas (que, por acaso, eram dois dos cinco melhores jogadores da NBA), mas ao contrário do Spurs, o Lakers não conseguiu Shaq e Kobe através de tanking ou escolhas de Draft altas. Eles assinaram com Shaq como Free Agent em 1996, se aproveitando de seu status como franquia, da sua cidade e do dinheiro que tinham de sobra (e também que o Shaq saiu de Orlando depois de brigar com Penny Hardaway). Ainda assim, os Lakers de Shaq só foram atingir o sucesso quando Kobe Bryant se tornou um dos melhores jogadores da liga. E Kobe foi um achado no #13, escolha do Hornets que o Lakers adquiriu por Vlade Divac quando Kobe deixou claro que não iria jogar por New Orleans.

Quando Kobe virou uma estrela e Shaq finalmente atingiu seu ápice (30-14-4, 57%, MVP), o Lakers imediatamente virou um juggernault historico que engoliu três títulos e teria conseguido tantos outros se o ego de Kobe não explodisse e destruísse o time. Apesar das duas estrelas, nenhum tanking: uma delas veio por Free Agency, e a outra foi um grande talento achado na metade da primeira rodada do Draft.

(Tangente rápida: Jerry West é um dos 10 melhores jogadores da história da NBA, mas porque ele não é mais mencionado entre os maiores GMs da história do jogo? Depois de ganhar um título por Los Angeles como jogador, ele virou GM e foi responsável por montar os times campeões de Magic/Worthy/Kareem E a dinastia Shaq/Kobe em Los Angeles!! Entre jogador e GM, isso são NOVE títulos para o Lakers!! Inacreditável. Como sempre, ninguém da o valor que West merece).


2003 San Antonio Spurs
Apesar de um início de contribuição de alguns jogadores estrangeiros que viriam a ser famosos (mais sobre eles daqui a pouco), a verdade é que esse título foi vencido por San Antonio porque Tim Duncan é um monstro. A sua temporada 2003 tem meu voto para, do inicio ao final, a temporada mais underrated da história da NBA: venceu o MVP com 24-14-4 de média e dobrando como o melhor defensor da liga, e sendo de longe o jogador mais importante de San Antonio dos dois lados da quadra. Nos playoffs, ele destruiu tudo e todos na sua frente, com médias de 25 pontos, 15 rebotes, 5 assistências e 79 tocos em 23 jogos, destruindo o Lakers de Shaq e o Mavericks de Nowitzki no processo antes de finalizar o seu título com um histórico quase-quadruple double no G6 das Finais: 24 pontos, 20 rebotes, 10 assistências e 8 tocos em um jogo que eu não faço a menor idéia de porque não é mais lembrada entre as grandes performances da história dos playoffs. Duncan terminou os playoffs de 2003 com o maior Win Shares da história da pós temporada.

Então ainda que algumas peças já estivessem se encaixando em torno de Duncan, esse título ainda foi nas costas da sua superestrela ancorando responsabilidades titânicas dos dois lados da quadra e chutando mais traseiros do que deveria ser permitido.


2004 Detroit Pistons
A exceção entre as exceções da história do basquete. O Pistons de 2004 foi um time que se aproveitou de uma série de fatores para ser talvez o pior campeão da história da NBA: uma série de lesões atrasaram gravemente seus principais competidores (Sam Cassell no Wolves, Karl Malone no Lakers); o Leste era um vácuo histórico de bons times; a NBA passava talvez por sua maior entressafra de talento desde o Merger; e as regras da NBA tinham ido excessivamente na direção de times ultra-defensivos.

Ainda assim, é um tanto quanto fascinante ver como o Pistons montou esse time que é o único desde 1980 a vencer o título sem uma grande estrela. Eles pegaram Chauncey Billups (um armador talentoso mas que nunca tinha sido nada demais na NBA jogando por quatro times diferentes) como free agent em 2003 antes dele eventualmente virar um All-Star em Detroit; trocaram Jerry Stackhouse (um All-Star que conseguiram por Aaron McKie, Theo Ratliff e Carlos Delfino) por Rip Hamilton, ex-7th pick; pegaram Tayshaun Prince com a escolha #23 do Draft; pegaram Ben Wallace (um FA não-draftado) como parte do pacote de retorno quando o Free Agent Grant Hill (uma escolha #3 que, adivinhe!, nunca jogou uma Final de NBA) foi para Orlando; e por fim receberam a peça final do quebra-cabeça quando Danny Ainge mandou de presente para eles Rasheed Wallace em troca de alguns jogadores medíocres e duas futuras escolhas de Draft (eventualmente Josh Smith e Tony Allen).

Basicamente, eles montaram uma base razoável com free agents e trocas menores antes de complementar esse grupo com uma excelente escolhas de final de Draft e, com as peças encaixadas, fizeram uma troca final por uma estrela a venda (Sheed). Nenhum tanking, nenhuma escolha alta.

Ps. Se você está acompanhando, sim, eles também tinham a escolha #2 daquele Draft e pegaram Darko Milicic ao invés de Bosh, Melo ou Wade. Funhé.


2005 San Antonio Spurs
Finalmente a máquina do Spurs começa a se encaixar. Duncan ainda é o pilar do time, principalmente na defesa, mas outras peças importantes começam a surgir ao seu redor e Pop começa a aliviar um pouco a carga de sua grande estrela. Os principais fatores nessa mudança são dois estrangeiros: Tony Parker, que foi escolhido #28 no Draft alguns anos antes, e Manu Ginobili, argentino importado da Europa depois de ser escolhido na segunda rodada (escolha #57!). Então com o time campeão de 1999 se desmontando conforme a carreira de David Robinson foi terminando, San Antonio se remontou em torno de sua estrela com duas escolhas tardias de Draft que trouxeram dois futuros All-Stars e diversos role players pontuais, contratações inteligentes e um fantástico técnico.


2006 Miami Heat
Miami terminou 2003 com o quinto pior record da NBA quando sua estrela - Alonzo Mourning - perdeu a temporada com uma séria doença nos rins, e embora Mourning não voltasse mais a Miami até 2005 (quando já não era nem sombra do grande jogador que foi), Miami achou ouro naquele Draft, achando uma superestrela mesmo escolhendo fora do Top5 (Wade no #5, em uma decisão que na época foi uma grande surpresa, inclusive). Mas Miami só foi dar o salto em 2005, quando Miami trocou seu segundo melhor jogador (Lamar Odom, assinado como Free Agent) e seu terceiro melhor jogador (Caron Butler, escolha #10 do Draft uns anos atrás) pelo descontente Shaquille O'Neal. Shaq e Wade logo combinaram para uma das melhores duplas da NBA, e depois de uma lesão em Wade atrapalhar os planos para 2005, Miami finalmente venceu seu título em 2006 quando ganhou do Mavericks em uma das séries mais injustas e vergonhosas da história do basquete.

Então de novo, nenhum tank ou escolha Top4 aqui. Acharam uma superestrela fora do Top4, e aproveitaram um bom núcleo passado (construído através de drafts passados e free agents) para fazer uma troca pela segunda estrela que precisavam, e depois cercaram a dupla com jovens jogadores (incluindo um FA não draftado chamado Udonis Haslem) e alguns veteranos em fim de carreira em busca de um anel (Jason Williams, Gary Payton).


2007 San Antonio Spurs
Outro dos mais injustos títulos da história da NBA (a série contra Phoenix foi decidida por uma suspensão ridícula da NBA e um juiz que foi preso dois meses depois por manipular resultados), mas de novo na mesma fórmula de San Antonio: Duncan ancorando a defesa e fazendo a parte "suja" do ataque, Parker e Manu conduzindo a bola, e uma série de role players executando a perfeição um esquema tático brilhante de um técnico brilhante. De longe o jogador mais importante foi a estrela escolhida #1 10 anos antes, mas o time precisou da injeção de dois jovens talentos estrangeiros para chegar aonde esteve.

(E se você não acha que Tim Duncan era DE LONGE o melhor jogador do Spurs de 2007 só porque Tony Parker foi MVP das Finais, então você não entende de basquete. É simples assim.)


2008 Boston Celtics
Depois de tankar com tudo que tinha por Duncan e sair de mãos vazias (saíram com Ron Mercer na #6 e Billups na #3, mas trocaram Billups depois de CINQUENTA FREAKING JOGOS por nada), o Celtics eventualmente achou uma estrela (em menor grau, claro) em Paul Pierce um ano depois na #10, só para praticamente jogar fora seu auge inteiro com péssimas gestões, trocas e drafts. Boston eventualmente teve algum sucesso nos playoffs nas costas de Pierce, mas só porque jogava no fraquíssimo Leste, e na maior parte do tempo foi um time frustrante por anos a fio.

Em 2007, depois de uma lesão que tirou Pierce de boa parte do ano, o Celtics decidiu tentar tankar mais uma vez, dessa vez por Oden/Durant. De novo, não deu certo, e o Celtics ficou apenas com a quinta escolha. Então ao invés de insistir na reconstrução e trocar Pierce, Boston decidiu tentar o oposto: fazer uma troca por um veterano estabelecido para tentar aproveitar o resto da carreira do #34. Aproveitando que o Seattle Supersonics estava tentando se desmontar para reconstruir através do Draft, o Celtics pegou o veterano All-Star Ray Allen em troca de espaço salarial e escolhas de Draft, e usou os jovens talentos que tinha acumulado nos últimos anos - Al Jefferson (#15), Gerald Green (#18) e Bassy Telfair (via Blazers) - para trazer a grande cereja do bolo, Kevin Garnett (que não teria vindo se o time já não tivesse duas estrelas). O Big Three acabou recebendo o reforço de um jovem armador escolhido um ano antes com a escolha #21... Rajon Rondo!

Então o Celtics fez o oposto de tankar, de certa forma: ao invés de trocar sua estrela veterana por jovens e escolhas de Draft, o Celtics trocou seus jovens e escolhas de Draft (inclusive uma escolha futura que virou #5 para Minnesota... que pegou Johnny Flynn sobre Steph Curry) para duas estrelas velhas em times ruins para aproveitar os anos finais de Paul Pierce, a estrela que foi a base do time por tantos anos depois de ser escolhida bem depois do Top4. E com Rondo, esse núcleo acabou chegando a duas Finais e quatro Finais de conferência nos próximos anos.


2009 Los Angeles Lakers
2010 Los Angeles Lakers
Depois de passar boa parte do auge de Kobe na mediocridade pós-troca do Shaq, o Lakers só voltou a ser competitivo quando trouxe via troca - wait for it... - uma estrela veterana que estava presa em um time ruim e que queria reconstruir!! Usando contratos expirantes e escolhas futuras de Draft, o Lakers conseguiu roubar Pau Gasol do Memphis, e usando a estrela veterana descontente no time que a draftou e uma estrela que acharam no #13 do Draft, ganharam dois títulos seguidos.


2011 Dallas Mavericks 
Outro time bastante único aqui, sem uma segunda estrela acompanhando Dirk Nowitzki. A verdade é que, depois de conseguir sua superestrela em 1998 (trocando Robert Traylor por Dirk, a escolha #9) para se juntar a um bom time (Michael Finley, Cedric Ceballos, Steve Nash, Shawn Bradley), o Mavs passou quase 14 anos montando times competitivos sem chegar ao topo, um lembrete de como é difícil chegar a um título de NBA mesmo com um bom time (embora, para ser justo, Dirk e o Mavs teriam vencido em 2006 não fosse a arbitragem).

O Mavericks eventualmente chegou ao seu título em 2011, atrás de um esforço monstruoso de Dirk nos playoffs (28-8, 48 FG%, 46% de três pontos, 94 FT%) e um time com vários outros bons jogadores que não eram necessariamente estrelas: Tyson Chandler ancorando a defesa, Jason Terry trazendo poder de fogo do banco, Shawn Marion com defesa e velocidade, Jason Kidd rodando bem a bola, etc. Um bom exemplo de time bom que pegou uma superestrela sem precisar do topo do Draft e passou anos trocando essas boas peças ao redor dela até achar a situação certa para ganhar um título.


2012 Miami Heat
2013 Miami Heat
Eles ainda tinham aquela estrela que pegaram fora do Top4 como uma peça central, mas agora foram ajudados pelo fato de terem trazido outros dois free agents razoavelmente importantes. Primeiro, uma estrela 6-vezes All Star que saiu do time que o draftou por nada depois de passar anos sem ganhar nada por lá, e depois, o melhor jogador da NBA que saiu do time que o draftou por nada depois de passar anos sem ganhar nada por lá. Bosh e LeBron, claro, aparecem nessa lista, e Cavs e Raptors não ganham nada desde... oh, nenhum nunca ganhou nada.

Então em parte, vale a pena destacar Wade, a peça central do time por 8 longos anos que foi draftado fora do  Top4, mas o que realmente decidiu esses títulos foram os dois free agents.


2014 San Antonio Spurs
De novo, Duncan sendo a âncora e o pilar (dentro e fora de quadra) da franquia, e Parker e Manu conduzindo o ataque e fechando o Big Three, dessa vez com um esquema ofensivo ultra-inteligente, rápido e eficiente, cortesia como sempre de Pop. Mas dessa vez, a peça crucial que estava faltando era Kawhi Leonard, a jóia que o Spurs achou... na 15th escolha do Draft (que adquiriu trocando George Hill). Vale citar também o papel de Danny Green (free agent não draftado) e Tiago Splitter (#28 do Draft) em transformar o Spurs de volta em um candidato ao título. A base estava montada, mas precisou se reforçar para voltar ao topo, e fez isso sem precisar de uma escolha Top4 de Draft.



Em resumo, é difícil achar um padrão claro pelo qual ser campeão através desses ultimos 16 anos. Mas ainda da para tirar algumas lições interessantes. Depois que o Spurs foi campeão em 1999 nas costas de duas ex-1st picks frutos de tanking, tivemos os seguintes campeões: um time com um free agent e uma estrela escolhida #13 liderando; três times do Spurs que remontaram em torno de Duncan usando uma escolha #28 e uma #57, e que depois precisou de uma #15 para ganhar um título 6 anos depois; um Heat que usou uma estrela de outro time junto a uma estrela própria pega fora do Top4 (só possível por já ter bons jogadores antes da escolha); Celtics e Mavs pegaram suas estrelas #9 e #10 no mesmo Draft e eventualmente conseguiram montar o time ideal ao seu redor trocando por jogadores estabelecidos de outros times; Heat foi bicampeão atrás de uma free agency histórica e bizarra; Lakers ganhou mais dois nas costas de uma estrela escolhida #13 do Draft e de uma troca por uma estrela de outro time que quis reconstruir; e uma exceção histórica (2004 Pistons) sem uma estrela sequer.

Não é exatamente um grupo homogêneo, mas eu não vi nenhuma escolha Top4 ai tirando Duncan. E mesmo com Duncan o Spurs atingiu um ponto complicado depois da decadência de David Robinson que precisou se reforçar com dois achados incríveis no final do Draft.

E eis um tema comum em várias dessas histórias: um time sólido, mas um pouco abaixo dos principais candidatos ao título que se reinventa com uma escolha e sobe um degrau graças a uma escolha de Draft não de topo. Kawhi Leonard (#15), Kobe Bryant (#13), Parker (#28) e Manu (#57), Prince (#23) e até mesmo Rajon Rondo (#21, embora Rondo tenha explodido DEPOIS do título). Você também tem casos de um time que já tinha uma estrela trocando por uma segunda usando ativos acumulados de outros tempos: Pau Gasol, Shaq, Allen/Garnett, Rasheed, e até mesmo Chandler (embora ele não fosse uma estrela, ele foi a peça final do título do Mavs). Todos eles a partir de sólidos times com alguma base, e nenhum deles precisou de um Top4 pick tirando Duncan.

(Até OKC, que é a exceção aos times que tankaram recentemente e emergiram disso como contenders, precisou achar uma peça fundamental em Ibaka, escolha #22 do Draft)

Claro, todos ainda precisam de uma estrela, de um Alpha Dog. Mas tirando Duncan, esses jogadores vieram via Free Agency (LeBron, Shaq) ou escolhas de Draft não de topo, em geral com alguma base interior em cima da qual construir ou usar para futuras trocas (Wade #5, Dirk #9, Pierce #10, Kobe #13).

Sei que é um ponto um tanto quanto arbitrário, mas o que a história recente da NBA nos mostra é que, em termos de sucesso sustentável e de médio prazo (e, tipo, títulos) é muito melhor você ser aquele time acima da média que junta vários ativos enquanto tenta achar uma estrela no meio do Draft ou uma troca para dar o próximo, ou mesmo um time com uma boa base tentando achar uma estrela fora do Top4 do Draft e que quando a conseguir, vai ter algo em cima do que construir, do que ser um time que destrói todo seu elenco tentando ser o pior possível para conseguir uma estrela no topo do Draft e que, quando conseguir, não vai ser capaz de fazer nada com ela e acabará voltando ao limbo.

A questão, claro, é que você ainda precisa ter pelo menos uma estrela para conseguir tudo isso, e que é mais fácil conseguir uma no topo do Draft. Mas o que essa enrolação toda está nos mostrando é que, DEPOIS que você consegue uma estrela, você tem muito mais chances de ter sucesso se ela vier no meio do Draft (ou mesmo no topo, mas por fruto de pura sorte na loteria), por uma troca esperta ou mesmo um free agent descontente para um time que já tem alguma base em cima da qual se manter do que se vier para um time que se destruiu atrás desse jogador.

Não acredita ainda? Então vamos ver rapidamente como cada time candidato ao título de conferência esse ano se montou?

Cleveland sofreu por anos a fio com escolhas altas de Draft antes de ser salvo pelo puro acaso de jogar no estado natal do melhor jogador do mundo; Toronto é um time sem estrelas que vive de seu entrosamento e profundidade, e que achou DeRozan e Ross #9 e #10 do Draft, Lowry foi #24 e veio por uma troca (1st round futura, eventualmente Steven Adams), Amir Johnson foi #58 e veio de graça (80% do time titular), e que começou a ganhar depois que o time TENTOU tankar depois dos fracassos com montando times com as ex-escolhas #1 Bosh e Bargnani; Chicago foi o raro time bom e de meio de tabela que esbarrou em uma #1 por pura sorte (Rose), e que se manteve sólido com ótimo aproveitamento nas escolhas de Draft medianas (Noah #9, Butler #30, Mirotic #23); Mavericks e Spurs foi pelos mesmos motivos já expostos em títulos anteriores; Memphis tem como ponto forte um free agent com má fama (Z-Bo) e uma escolha de segunda rodada (Gasol) mesmo depois de errar grosseiramente na escolha #2 que foi Hasheem Thabeet; o Rockets se manteve no meio da tabela acumulando ativos até abrir uma brecha para trocar por uma estrela (Harden), e usou a sua presença e atratividade para trazer uma segunda na free agency (Dwight); e Portland tem como pilar uma ex-escolha #2 (Aldridge) mas que só foi voltar a ser grande porque acertou em cheio em uma série de escolhas fora do Top5 (Lillard - que foi via troca inclusive - e Batum), free agents (Matthews, Kaman), e trocas (Robin Lopez, Lillard de novo). O Clippers possivelmente é a única exceção - que tem Blake Griffin como seu segundo melhor jogador, uma ex-escolha #1 (por um time que já tinha vários jogadores interessantes, mas enfim), mas que só chegou aos playoffs quando trocou por uma estrela estabelecida em Chris Paul para fazer uma dupla.

Claro, o melhor exemplo seria um time que era do final da loteria com algum talento no seu plantel. Esse time eventualmente achou um franchise player em uma escolha menos valorizada, como a #7, trocou esse talento já no seu plantel por um All-Star já estabelecido de outro time, gastou muito bem suas escolhas intermediárias de Draft para trazer vários talentos, e eventualmente complementou esse bom núcleo com veteranos e free agents pontuais rumo a se tornar um forte candidato ao título. Mas espera... esse time existe! É o Golden State Warriors de 2014/15, que achou Stephen Curry no #7, trocou Monta Ellis por Andrew Bogut, acertou com escolhas # #11 (Thompson) e de segunda rodada (Draymond Green), e eventualmente completou esse time com bons veteranos rumo a 15-2 e o melhor saldo de pontos da NBA inteira!

Então para finalizar (ufa!), peço que olhem para tudo isso que vimos - a falta de sucesso das escolhas Top4 recentes (e mais importante, de seus times), o enorme número de busts, a forma como campeões se montaram com escolhas intermediárias, trocas e free agency, a importância de acertar suas escolhas medianas e de contar não só com o Draft mas também com um planejamento all-around. Veja o quão difícil é achar um Franchise-changing player pelo Draft, e mesmo a dificuldade dos times ruins de conseguir algo com esses jogadores, e compare com a importância e o resultado dos times que mantiveram sua folha salarial limpa, apostaram em jogadores jovens e conseguiram trocas por valores subestimados, fizeram trocas inteligentes e acertaram suas escolhas de Draft intermediárias. E agora me responda: ainda acha que tankar é o melhor jeito de atingir sucesso na NBA?

Eu duvido.