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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Pensamentos sobre Kyrie Irving e Isaiah Thomas


Obrigado por tudo, Isaiah


Caso vocês morem em uma bolha, terça feira Cleveland Cavaliers e Boston Celtics ontem acertaram uma troca bombástica envolvendo Kyrie Irving, Isaiah Thomas, Jae Crowder, Ante Zizic e a escolha de 2018 desprotegida do Brooklyn Nets.

Eu ainda estou em choque demais para escrever um texto coerente, mas queria discutir rapidamente alguns pontos sobre a troca que acho que merecem destaque, ou então que não tem recebido o suficiente.

(Nota: Um número surpreendentemente alto de pessoas não entendeu o objetivo da coluna, então deixa eu deixar mais claro ainda. A ideia NÃO é analisar a troca, apenas passar por alguns pontos que a meu ver não receberam a atenção devida, ou que eu gostaria de expandir!)

- Lealdade

Toda vez que um jogador importante muda de time os torcedores trazem a questão da lealdade à tona. Gordon Hayward foi para Boston, e torcedores queimaram a sua camisa. Por algum motivo, as pessoas são muito, muito fanáticas quando se trata desse conceito esquisito.

E o problema é que, quando os papeis estão invertidos, os times são elogiados por deixar de lado o subjetivo e tomar as melhores decisões racionais, a melhor decisão "para a franquia". É uma questão de dois pesos, duas medidas, nas quais os jogadores sempre saem perdendo. Hayward é um traidor ingrato por ter saído do time que apostou e investiu nele em Utah. Mas quando Hayward virou free agent em 2014, o Jazz não ofereceu ao ala um contrato máximo - ao invés disso o Jazz deixou Hayward livre para negociar com outros times um contrato que Utah poderia igualar, na esperança de economizar. O Jazz fez o que era melhor para si próprio, no que estava certo, mas o mesmo fez Hayward quando foi para Boston. Um é elogiado, o outro tem sua camisa queimada.

E a troca de Isaiah é mais um exemplo do quão idiotas somos de ficar chorando sobre a falta de lealdade dos jogadores. Isaiah sempre foi um jogador menosprezado por causa do tamanho, e que enfim tinha encontrado seu lugar em Boston. Isaiah logo vestiu a camisa da franquia, assumiu a identidade da cidade, e se tornou um embaixador do Celtics. Esteve envolvido no recrutamento de Durant e Gordon Hayward, escreveu um texto para o Player Tribune sobre o quanto amava Boston e o quão bom era enfim ter achado um lugar onde era valorizado, jogou nos playoffs pelo Celtics em meio a uma situação extremamente emotiva da morte da sua irmã... e foi trocado dois meses depois do final da temporada.

Da próxima vez que for reclamar da falta de lealdade de um jogador, lembre-se de Isaiah Thomas.


- Subjetividade

Objetivamente, foi uma boa troca para Boston. O time ficou mais jovem, mais alto (mais nisso daqui a pouco), trouxe uma opção de mais alto potencial, e evitou o problema de pagar um contrato máximo a um PG de 5-9 de 29 anos vindo de uma cirurgia grave no quadril daqui a um ano. Você pode argumentar que o custo foi muito alto (e foi), e quanto à forma como o time maximizou seus ativos (hold that thought), mas foi uma troca que fez bastante sentido e tornou Boston um time melhor.

Isso do ponto de vista de basquete. Do pessoal? Eu confesso que estou muito triste. Isaiah não merecia isso depois de tudo que fez pela franquia, e do o time e a torcida significavam para ele. Boston perdeu seu jogador mais amado, e três jogadores (Isaiah, Crowder, e o anteriormente trocado Bradley) que constituíam boa parte da identidade da franquia. O time de 2018 pode ser melhor que antes, mas não tem mais o sentimento familiar daquele grupo de jogadores que você se apegou e viu crescer.

Talvez mude de ideia com o tempo, mas mais do que gostar ou não da troca, eu admito que hoje estou triste.


- LeBron James

Um dos pontos mais crítcos da temporada 2017/18 do Cleveland Cavaliers é a permanência ou não de LeBron James mais um ano. E embora seja impossível dizer, a impressão é que essa troca aumenta as chances de LeBron ficar em Cleveland pelo menos mais um ano - o que já seria uma grande vitória do Cavs.

Um dos pontos de preocupação de LeBron supostamente seria a saída de David Griffin, GM do Cavs. Mas o novo GM, Koby Altman, se saiu muito bem em uma situação extremamente difícil com Kyrie Irving, e agora pode ser um novo foco de estabilidade na franquia. E em um bom cenário, o Cavs pode estar adicionando um role player perfeito para LeBron (Crowder), um PG semelhante a Kyrie para substituí-lo (Isaiah) e AINDA tem a chance de adquirir uma nova estrela para seu futuro dependendo de onde a escolha do Nets cair.

Claro, ainda tem muita coisa que poderia dar errado para o Cavs (mais daqui a pouco). Mas em um cenário onde parecia cada vez mais provável uma saída do King James, uma boa troca dessas pode dar vida nova para Cleveland com o melhor jogador da sua história.


- Golden State Warriors

Deixando de lado a questão do futuro por um momento, e pensando apenas em 2018, eu acho que para o Cavs existe apenas uma pergunta que importa: como essa troca me ajuda a enfrentar o Golden State Warriors?

E a resposta me parece ter duas faces. Por um lado, Jae Crowder é exatamente o tipo de jogador que você quer ao seu lado (e ao lado de LeBron) se você vai enfrentar o Warriors. Apesar da inconsistência, Crowder é um ala capaz de defender três posições, trocar a marcação e espaçar a quadra com seus arremessos. É alguém que te ajuda a enfrentar a altura e versatilidade de Golden State, oferece uma opção para tentar defender Durant sem sobrecarregar LeBron, e pode fazer tudo isso ainda ajudando do lado ofensivo da quadra. No papel, é o jogador que você quer do seu lado.

Mas por outro lado, Isaiah no lugar de Kyrie é uma considerável piora. É possível argumentar que, se Isaiah estiver saudável e conseguir reproduzir seu nível de 2017 (ambas dúvidas razoáveis), a diferença entre os dois jogadores é pequena, se existir. Mas basquete não se joga no papel, se joga em um contexto, e no contexto de enfrentar Golden State ter Kyrie é uma grande vantagem sobre Isaiah por dois motivos.

O primeiro é que Irving é um pesadelo de matchup para a defesa de Golden State. A defesa do Warriors é uma das melhores da história do jogo, e sua principal força vem do quão bem a defesa trabalha em conjunto, trocando marcação, fechando espaços coletivamente, negando a formação da jogada adversária. É talvez o ápice do que uma defesa moderna de basquete deveria ser. No entanto, o jogo mano-a-mano de Irving é quase uma kriptonita para essa defesa, pois ela tira o coletivo da equação e coloca apenas um defensor individual no confronto, que Irving é capaz de fazer valer por conta da sua habilidade surreal de criar arremessos. Isaiah é um bom pontuador em isolação, mas não está no nível de Kyrie (em parte porque talvez ninguém na NBA está) nesse quesito, e essa é uma jogada que realmente precisa ser de outro nível de eficiência para fazer valer. Isaiah dificilmente seria capaz de reproduzir esse nível de produção no mano a mano, e com isso Cleveland perde uma arma de extrema importância e que, repito, Golden State simplesmente não consegue marcar durante alguns momentos.

E segundo pela questão defensiva. Tanto Irving como Isaiah são péssimos defensores, mas esconder o primeiro na defesa é muito mais fácil. Kyrie é um defensor até decente no mano a mano, e muito ruim defendendo fora da bola, se perdendo com facilidade, mas isso em geral é mais fácil de se esconder em um bom time em um bom esquema - para atacá-lo você precisa envolver ele na jogada, e envolver outros jogadores. Kyrie vai errar bastante, claro, mas é mais difícil atacar um jogador assim. Você vai atacá-lo dentro do seu ataque, mas não vai ser um alvo a ser atacado individualmente de novo e de novo.

Isaiah é diferente. Além dos problemas fora da bola (E em screens), a falta de altura de Isaiah faz dele praticamente um missmatch ambulante para o adversário atacar, especialmente um time com tantas armas como o Warriors. Ele pode ser atacado de várias maneiras simplesmente pela sua limitação física que um jogador mais atlético e alto como Kyrie, por pior defensor que seja, não sofre tanto. Isso obriga seu time a se desdobrar muito mais para escondê-lo defensivamente, e não precisa voltar muito no tempo para lembrar o quanto Boston sofreu com suas lineups e formações para escondê-lo contra times como Bulls e Wizards.

Em geral, claro, Isaiah compensa isso com seu ataque fabuloso. Mas dentro do contexto desse duelo, o ataque de Isaiah é uma piora para o Cavs, e sua defesa também, fazendo dele um jogador muito menos efetivo do que Kyrie seria contra o adversário mais importante do ano.

Entre a piora (relativa!) com Isaiah e a melhora com Crowder, como o Cavs fica no matchup é difícil dizer. Em geral, eu diria que o Cavs se torna um time mais estável e com melhor piso na hora de enfrentar Golden State, mas com um teto menor, e contra um time superior esse teto pode fazer mais falta.


- Altura

Querendo ou não, altura importa - e muito - no basquete. E um dos pontos chave que não tem sido levantado o suficiente quando discutindo o Celtics de 2017 e sua projeção para 2018 é como a altura dos jogadores impactou o coletivo do time.

Em especial, o fato de que Boston jogou 2017 com Isaiah Thomas (5-9, jogador mais baixo da NBA) e Avery Bradley (6-2, baixo para um SG) cobrou mais do time do que se imaginaria. Eu já falei sobre como é difícil esconder as limitações defensivas de Isaiah por causa do tamanho, mas esse foi um problema que acabou composto com as limitações de altura de Bradley: um dos melhores defensores mano a mano da NBA, a falta de altura limita não só sua capacidade de ajudar na defesa trocando a marcação e cobrindo os demais companheiros, mas o fato de que ele já tem que fazer isso enquanto cobre a defesa de Isaiah - que não pode ser movido ao redor do alinhamento adversário por causa da altura - limita muito o que Bradley pode contribuir do lado defensivo, e força o time inteiro a ter que compensar por isso.

Esse déficit de altura foi um dos problemas por trás da defesa do Celtics ano passado, e também dos rebotes. A série contra o Bulls quando Rondo estava saudável: Chicago atacava Isaiah individualmente na defesa e nos rebotes, isso gerava uma quebra coletiva para ajudar, e Chicago conseguia mais rebotes de ataque em cima de jogadores fora de posição ou cestas fáceis. E, acima de tudo, um dos fatores que motivou algumas das trocas de Boston, em especial a de Avery Bradley por Marcus Morris, que tinha um objetivo claro de cercar Isaiah (na época) com tamanho para que esse problema ficasse muito menos evidente, e mais fácil de ser coberto. A montagem atual do time teve o foco de aumentar seu tamanho mantendo a flexibilidade e mobilidade de jogadores menores, e é um aspecto subestimado da evolução do time entre 2017 e 2018 e da chegada de Kyrie. Apesar de perder dois dos seus principais defensores, a defesa do time para 2018 pode ter uma evolução devido a ter resolvido aquele que foi secretamente um dos seus principais problemas do ano passado.


- Custo de oportunidade

Eu acho que foi uma troca boa para Boston. O Celtics (corretamente) estava bastante receoso de pagar um contrato máximo ano que vem para um Isaiah Thomas de 29 anos após uma lesão séria no quadril, e Crowder era mais dispensável após as aquisições de Tatum e Morris. A troca por Kyrie da ao time um jogador de maior potencial, mais jovem, e cuja linha do tempo encaixa melhor com o resto desse ainda bem jovem elenco. Você pode argumentar que o preço foi muito alto por causa da escolha desprotegida do Nets, e sem dúvida foi - dado o mercado frio, eu não sei com quem Boston estava competindo por essa troca de forma que o preço tenha subido tanto assim. Mas tornou Boston um time melhor no curto prazo, e manteve a perspectiva ainda mais favorável no médio/longo prazo.

O que eu acho que é um motivo mais complicado, e que merecem mais críticas, foi a forma como o time lidou com seus (muitos) ativos na busca de uma troca. O que é irônico, já que a grande crítica ao Danny Ainge é que ele era apegado demais aos seus ativos na hora de acordar trocas. Mas se era a hora de trocar a escolha do Nets, não poderia ter dado a ela um uso melhor, quando jogadores como Jimmy Butler e Paul George foram trocados por retornos muito menores? Irving é um upgrade sobre Isaiah, mas trocando por esses jogadores você manteria Isaiah, Hayward, Horford e adicionaria mais uma estrela.

Para mim essa é a grande crítica à forma como Boston conduziu sua offseason, e uma bastante válida. É possível que isso tenha sido mais relacionado à avaliação pessoal dos jogadores em questão por parte de Ainge, que é alguém muito confiante em sua avaliação de talentos. Mas de todo modo, não me parece que todo o processo dos últimos meses extraiu o máximo dos ativos que Boston tinha (por sorte eram, e ainda são, muitos), e com a chance de refazer essa offseason, Boston possivelmente teria como sair ainda melhor. E, justo ou não, fica a sensação de que o time pagou caro demais agora depois de se arrepender dos acordos que perdeu mais cedo na offseason. 

Dito isso...


- Big picture

É possível criticar o preço pago por Kyrie Irving. É ainda mais válido criticar a forma como Boston lidou com seus ativos, como descrito acima, e o custo de oportunidade que a franquia incorreu ao usar sua escolha mais valiosa em Irving quando outros jogadores talvez melhores poderiam ter sido adquiridos pela mesma escolha, sem perder Isaiah.

Mas a questão que também não pode ser perdida de vista é a seguinte: nessa offseason, Boston trouxe duas estrelas legítimas, montando assim um trio de All Stars em Kyrie, Hayward e Horford, mantendo também junto um excelente promissor núcleo jovem (Smart, Jaylen Brown, Jayson Tatum) E com ainda mais uma escolha valiosíssima do Draft de 2018 nas mangas para adquirir outro jovem talento. O resultado, sem a menor dúvida, ainda é excelente: Boston saiu dessa offseason melhor no presente, e melhor posicionado para o futuro. Esse é um excelente resultado para qualquer offseason.

E parte do motivo pelo qual Ainge pode pagar a mais por Irving é porque os passo anteriores permitiram. Trocar a escolha #1 foi criticada, mas gerou uma escolha Top5 extra, que por sua vez permitiu trocar a escolha do Nets e adquiri uma estrela na posição de PG para o futuro. Perder Crowder não vai doer tanto por causa das aquisições de Brown, Morris e Hayward. Boston passou um bom tempo valorizando os ganhos marginais de cada negociação e cada troca justamente para chegar no ponto onde poderia fazer uma troca podendo pagar a mais sem grandes perdas, e foi o que aconteceu aqui.

Se Boston estava certo em usar essa abertura com Kyrie Irving e não com jogadores com Butler ou George é questionável, mas não muda o fato de que Boston se reconstruiu com uma rapidez única na história da NBA, se estabelecendo como legítima força no Leste, enquanto ainda se mantém muitíssimo bem preparado para o futuro. Na big picture, a trajetória de Boston não é nada além de um grande sucesso.


- Riscos

Desnecessário dizer, essa foi uma troca excelente para Cleveland. Em uma situação difícil com a demanda de troca de Kyrie, em um momento onde o mercado da offseason já estava se fechando e os times estavam com os elencos quase prontos - e com a free agency de LeBron como uma sombra por cima de tudo isso - o novo GM Koby Altman conseguiu uma proeza de primeira ordem. O retorno que conseguiram de Boston é de longe o melhor que conseguiriam no mercado a esse ponto, e atinge três pontos importantes: Conseguem um PG pontuador All Star (e 2nd Team All-NBA) para o lugar de Kyrie, bem como um role player de alto nível, para ajudar a repor sua perda e continuar sendo um forte candidato ao título no curto prazo; adicionaram um jovem talento (Ante Zizic, não esqueçam dele) que teria sido uma escolha de loteria se estivesse nesse draft e mais uma escolha de Draft bastante valiosa, como base para seu futuro; e ainda impressionaram LeBron com essa troca. Cleveland saiu MUITO bem.

Mas o que me incomoda é que toda troca tem prós e contras, ganhos e riscos... mas de modo geral ninguém está comentando dos riscos que essa troca envolve para o Cavs. Todo mundo está assumindo o melhor cenário e avaliando a troca de acordo, esquecendo os pontos que ainda podem agir contra Cleveland na troca.

O primeiro e mais significativo é a saúde de Isaiah Thomas. Isaiah está vindo de uma lesão séria no quadril, e seu jogo depende muito do físico e da sua capacidade de explosão e agilidade. Qualquer lesão que tenha consequências pode afetar bastante seu jogo daqui para frente, e supostamente a lesão foi um dos motivos que levou Boston a fazer essa troca. Pode ser que não seja nada sério, mas com um PG de 5-9 vindo de uma lesão dessas e a um ano de um contrato milionário, a margem para erro é bem menor.

Outro risco é a escolha de Draft do Nets. Embora seja ainda uma escolha bastante valiosa, ela também carrega algum risco. Em um Draft que é considerado muito forte no topo (top4-5) e com uma grande queda depois, o Nets talvez não seja tão ruim quanto em 2017, e quanto se espera. O time foi surpreendentemente competitivo ano passado quando Jeremy Lin esteve saudável, e Brooklyn conseguiu bons reforços que não só melhoram o nível de talento da equipe, mas que encaixam bem no esquema que o seu bom técnico (Kenny Atkinson) quer implementar. Ano passado, o Nets jogou com um estilo divertido e veloz que gerou uma tonelada de boas bolas de três pontos, só não tinha quem as acertasse. Agora com DeMarree Carroll (37% 3PT  nos últimos 3 anos), D'Angelo Russell (35%) e Allen Crabbe (41%) a bordo, essas bolas de três vão começar a cair mais, e isso pode tornar esse time razoavelmente perigoso. É um time reforçado, com um bom técnico, e mais importante um que não tem qualquer incentivo para tankar em meio a uma queda no nível geral da NBA e do Leste. O time ainda vai ser ruim, mas isso pode ser a diferença entre uma escolha #3 e uma #6, e nesse Draft essa é uma diferença enorme.

É claro que a troca ainda é ótima, e a melhor que o Cavs poderia conseguir. Conseguiram um All-Star, um bom role player, um jovem jogador com potencial e uma escolha valiosa. Existe um cenário possível onde o time consegue se reforçar contra GSW, vence um título, o time ganha a escolha #1 (de novo!) e LeBron decide ficar em Cleveland. Mais realista, também existe um cenário possível onde o time se mantém bom o suficiente para desafiar GSW de novo esse ano, sem grandes perdas no curto prazo, e mesmo com a saída de LeBron o time se reconstrói em torno de uma escolha Top5 (Bagley, Bamba, Doncic, Ayton ou Michael Porter) de Draft e mais talentos sob contrato.

Mas também existe um cenário onde as lesões de Isaiah prejudicam seu futuro e a temporada 2017 do Cavs, LeBron sai, e a escolha do Nets não rende um dos cinco grandes nomes desse Draft, deixando o time pior no curto prazo e sem uma grande fundação para uma reconstrução. É uma possibilidade real.

Ainda vale a pena? Sem a menor dúvida - a recompensa supera os riscos, e é um excelente retorno mesmo por um jogador do nível de Kyrie. Mas os riscos existem, e não podemos ignorá-los quando discutimos a troca.


- Técnicos importam

Trocas não acontecem no vácuo. Novos jogadores precisam ser incorporados a novos esquemas táticos, e novas funções. Trocas são feitas pensando não no que jogadores fizeram, mas no que farão no futuro para seus novos times, e isso passa sempre por um contexto e uma adaptação difícil de antecipar. Por exemplo, Isaiah Thomas foi melhor que Kyrie em 2017, mas fez isso em um esquema tático montado ao seu redor, tendo como objetivo maximizar suas forças, enquanto Kyrie era  segunda opção em um sistema montado ao redor de LeBron James. Em 2018, as funções serão opostas: Kyrie será o foco do ataque, enquanto Isaiah precisará se adaptar a um jogador que gosta de segura a bola. Como cada um será nesse contexto, e quem será melhor? Não sabemos, e isso faz com que analisar trocas seja uma ciência bastante inexata.

Essa adaptação é um trabalho difícil e que muitas vezes vai depender do técnico em questão, o que é uma coisa boa para Boston: o Celtics tem Brad Stevens, um dos melhores técnicos da NBA e um mestre estrategista. E, por acaso, o esquema ofensivo que ele implementa é perfeito para Kyrie Irving: a movimentação de bola e a presença de playmakers como Hayward e Horford vai tira de Irving a necessidade de jogar tanto como criador de jogadas (o que não faz tão bem), e as movimentações usadas para abrir espaços para Isaiah funcionariam ainda melhor para liberar Kyrie para pontuar. Ainda é incerto se Kyrie - alguém que gosta de segurar a bola, jogar em isolação, e que supostamente quer ser a estrela do time - vai aceitar ou conseguir se adaptar ao esquema mais coletivo e a jogar sem a bola como Boston requer, mas sem dúvida jogar com um técnico criativo e um elenco versátil ajuda as chances de sucesso.

Do outro lado, isso é algo que me preocupa um pouco em Cleveland. Isaiah atingiu seu potencial em Boston através de um esquema voltado para sua movimentação sem bola, corta luzes para abri caminho, e uma série de jogadas desenhadas como hand-off. Dificilmente terá a mesma liberdade e atenção do ataque em Cleveland, onde LeBron controla muito mais o jogo. Integrar Isaiah e sua movimentação fora da bola ao ataque que costuma ficar concentrado nas mãos de um jogador só será um desafio, especialmente por causa dos problemas defensivos que Isaiah causa do outro lado.

A troca, em geral, foi boa para ambos os times, mas com isso se refletirá na corrida pelo Leste em 2018 vai depender do quão bem e quão rápido os times conseguem incorporar suas novas aquisições na sua rotação. Tanto Isaiah como Kyrie são jogadores com forças e deficiências bastante específicas, que não são fáceis de se maximizar, especialmente com pouco tempo. E aqui a falta de um grande técnico pode pesar para o Cavs, e Boston pode colher mais um benefício de ter começado sua reconstrução com Brad Stevens.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Uma coluna sobre mim, e Kevin Durant



Quando Kevin Durant anunciou sua decisão de ir para o Golden State Warriors formar um dos times mais talentosos da história da NBA, o que não faltou foi ver as famosas "hot takes" - opiniões fortes, polêmicas e muitas vezes idiotas - pipocando na internet. Muita gente ofendendo Durant e dizendo que ele era um covarde, ou um perdedor, ou coisa do tipo por ter tomado a decisão DELE, que fazia sentido para ELE, e que afeta a vida DELE. 

E é normal pessoas não gostarem da decisão do Durant. Ela afeta vários fatores que diversas pessoas consideram importantes: muitas valorizam a competição dentro da NBA, por exemplo, e a ida de Durant não só adicionou um jogador Top3 da NBA a um time que venceu 73 jogos ano passado e esteve a 5 minutos de dois títulos seguidos, como ainda derrubou da disputa o único time no Oeste que realmente assustava o Warriors. Outros podem valorizar o jogador que passa a carreira inteira no mesmo time e tem um peso enorme que vai muito além do basquete, virando um símbolo da franquia e da cidade (Duncan, Dirk, Kobe alguns exemplos recentes que vem à mente), e Durant - o símbolo do basquete de OKC - deixando a cidade nos privou de ver mais uma história dessas com um dos melhores atletas da nossa geração. A preferência dessas pessoas foi afetada negativamente pelo cenário que se formou na NBA após essa decisão.

Ou seja, é comum que pessoas se sintam, em um nível pessoal, incomodadas com a decisão de Durant. Cada um de nós tem um conjunto de preferências e vontades, coisas que valorizam e que buscam, e a decisão de Durant pode ter contrariado muitas dessas. Então a nossa reação natural é de decepção, afinal a realidade não seguiu as nossas expectativas, e por isso desgostamos dessa realidade. Gostaríamos que fosse diferente, ressentimos de como aconteceu, e lamentamos. É a natureza humana, e isso não tem nenhum problema.

O problema é não reconhecer que existe mais do que um tipo de preferência e de ponto de vista no mundo, e que não necessariamente todos tem que seguir o mesmo. Ao mesmo tempo que a decisão de Durant afetou negativamente muitas pessoas por ir de encontro às suas preferências, certamente existe muitas outras pessoas cujo conjunto de preferências foi afetado positivamente pela ida de KD a Golden State, e que agora estão felizes e elogiando a decisão.

E também, claro, tem o lado da pessoa mais importante nessa história toda: Kevin Durant. Todo mundo quis atribuir motivos à sua decisão - ele quer vencer do jeito mais fácil, ele não quer a pressão de ser uma estrela, etc - mas a verdade é que ninguém faz ideia do que levou ele a tomar a decisão. E se ele simplesmente não estivesse feliz jogando em OKC? E se ele não gostasse de jogar com Westbrook, ou no esquema ofensivo estagnado do Thunder? E se ele quisesse um novo começo, morar em San Francisco, ou jogar em um time com um estilo diferente? A gente não sabe, e nunca vai saber. Os motivos são dele. E por isso é besteira tentar atribuir motivos para o que o jogador fez ou deixou de fazer, especialmente aqueles que convenientemente servem à narrativa que queremos criar por causa das nossas próprias preferências.

Em outras palavras, o que nós discutimos não é se a decisão de Durant foi certa ou errada. Nós discutimos como ela afetou as NOSSAS preferências, e qual a nossa reação pessoal a elas. Mas ninguém admite isso. E um dos motivos é porque queremos excluir ao máximo o "eu" quando discutimos de esporte - se você começa a falar das suas visões e preferências, de repente sua opinião vai ser considerada mais subjetiva do que objetiva, e talvez ser menos considerada. E por isso tanta gente tenta omitir o "eu" da conversa e falar como se existissem fatos sobre o que é certo ou errado, sobre o que Durant deveria ou não ter feito, e começa a criar rótulos e narrativas imbecis para tentar explicar porque Kevin Durant - um ser humano tão complexo quanto todos nós, com gostos, preferências, ideias e objetivas totalmente próprios que não dizem respeito a nenhum de nós - tomou uma decisão que vai de contro à nossa configuração pessoal enquanto indivíduos.

Em resumo, é perfeitamente normal para um fã ou torcedor se sentir traído pela decisão de Kevin Durant (o lado irracional, passional do torcedor), mas não achar que isso faz de Kevin Durant um traidor (o racional, baseado em fatos)... mas é isso que as pessoas tentam fazer, racionalizar sua irracionalidade para torná-la mais "aceitável" e transformar aquilo em um fato... e isso que é o mais absurdo.

Kevin Durant tomou a decisão de ir para o Warriors, o que diminui a competitividade da NBA e forma um time claramente superior (no papel) aos demais. Mas eu gosto de competitividade e rivalidades, e não gosto de times favoritos. Então a decisão de Durant foi contra o meu gosto. Então, ao invés de reconhecer que ele funciona diferente de mim e teve razões diferentes das minhas para tomar uma decisão que não me dizia respeito, e assumir que eu simplesmente não gostei da decisão, eu vou ficar falando que o Durant é medroso, que é covarde, que é desleal, etc e tal para tentar justificar como EU me sinto em relação a ele.

Desnecessário dizer o quão idiota é isso. Mas é o mundo esportivo como vivemos hoje, infelizmente. Ninguém quer admitir que sua reação a um fator as vezes é totalmente pessoal e baseada nas suas individualidades. E claro, ninguém quer admitir que possa existir outras pessoas que veem o mundo diferente que você - todo mundo só quer estar certo (e isso se estende MUITO além dos esportes, btw).

Então claro que, quando eu declarei no Twitter que a decisão de Durant era interessante e que eu estava ansioso por ver como seria esse time do Warriors - ao invés de criticar seu caráter e sua decisão - nem todo mundo entendeu meu ponto de vista. Para colocar de forma leve.

E um seguidor, particularmente revoltado, declarou que meu problema era preferir ver um grande time do que ver a liga sendo equilibrada e competitiva. Quando eu neguei que fosse o caso, ele questionou então: "Então o que você quer ver da NBA?".

Embora a pergunta tenha sido feita em tom de crítica, ela me fez pensar. Assim como todo mundo tem suas preferências, eu tenho as minhas, mas nunca tinha parado para pensar a fundo na questão. Eu acompanho esportes desde que me lembro, e embora torça pelos meus times, eu sempre dei uma importância maior para os esportes em si do que só assistir pelos meus times. Eu, como qualquer um, também quero ver certas coisas acontecendo, e fico feliz ou triste, animado ou decepcionado, quando algum acontecimento ou fato vai de acordo ou contra meus gostos pessoais.

Mas, no final, eu voltava para a mesma pergunta.

O que eu quero quando se trata de esportes?

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Para responder a essa pergunta, eu preciso fazer um paralelo com uma das minhas obras favoritas.

Hunter x Hunter é um mangá de Yoshihiro Togashi, mais conhecido no Brasil por sua outra obra famosa, YuYu Hakusho (sim, aquele da Manchete). A obra conta a história de "hunters", ou "caçadores": são pessoas que passam a vida "caçando", "procurando" ou "buscando" alguma coisa (dependendo da tradução que você quiser usar). E o que um Hunter procura pode ser qualquer coisa que o atraia: alguns passam a vida procurando criminosos, outros procuram novas espécies de animais. Alguns procuram jóias raras, e outros procuram achados arqueológicos. Não importa o que, mas todos tem que procurar alguma coisa, em geral motivados pelo desejo de aventura e sede de conhecer o desconhecido. É uma das melhores obras que já li, tanto para o gênero de ação como pela genialidade da mensagem de algumas das suas sagas, e recomendo para os fãs do gênero.

E em Hunter x Hunter existe um personagem chamado Ging Freecs. Ging é um Hunter bastante famoso, considerado um dos personagens mais habilidosos e poderosos da saga e, por muitos, o melhor Hunter do mundo. No entanto, Ging também é considerado um grande mistério: alguém que desaparece com frequência, faz as coisas do seu jeito sem pensar em mais nada, que está constantemente mudando de ideia e de objetivos, e que é praticamente impossível de se encontrar já que nunca fica parado no mesmo lugar. Embora ele seja um Hunter de arqueologia, ninguém sabe exatamente o que ele quer ou o que está buscando na vida. Ele vai aparecer onde e quando quiser, e desaparecer para cuidar dos seus assuntos na maior parte do tempo.

Em dado momento, um outro personagem pergunta a Ging exatamente o que ele procura. Qual é seu objetivo final, o que ele almeja encontrar.

A resposta? "O que eu procuro... é alguma coisa que não consigo enxergar diante de mim".

Eu sempre achei isso genial. Ging não tem um objetivo fixo: ele sempre está à procura de algo novo, de algum novo desafio, algo que ele ainda não tem e terá prazer em ir atrás. O que é essa coisa, na verdade, não importa. O que ele quer é o desafio e a emoção da jornada, o que importa para ele é o caminho, e não onde esse caminho leva. Quando atingir seu objetivo, ele parou de ser interessante e é hora de procurar algo novo. Algo que ele não tem diante dele.

É exatamente assim que eu me sinto quando fã de esportes, e foi a conclusão que eu cheguei quando penso sobre o que eu quero como alguém que ama e acompanha esportes. O que eu quero ver acontecendo é algo que eu ainda não tenho.

Em outras palavras, respondendo à pergunta do internauta, eu não sei exatamente o que é que eu quero. E isso não é um problema, porque o que eu quero pode ser atingido independente de qual a forma. O que eu quero é algo novo, algo diferente e que nunca tenha visto antes. Eu quero a experiência de ver algo que me eleve a um patamar maior como fã de esporte. O que isso é, não importa de verdade. Pode vir sobre diferentes formas: uma virada espetacular, uma temporada que quebra recordes, um jogador diferente e único. Eu quero ver dois dos melhores jogadores da história da MLB tendo seus auges juntos. Eu quero ver uma rivalidade perfeita entre dois dos 5 maiores quarterbacks da história da NFL. Eu quero ver a maior virada da história dos esportes americanos. Eu quero ver um jogador aleatório vivendo uma história improvável e mágica com final feliz. Eu quero ver um jogador que muda a forma como eu (e a própria NBA) penso um esporte. Mesmo que, até essas coisas se concretizarem, eu não fazia ideia de que eu queria tanto elas.

Quando em 2010 LeBron anunciou sua decisão de deixar o Cavaliers para se juntar a Wade e Bosh em Miami, minha primeira reação foi negativa. Ao invés de vencer as dificuldades em Cleveland, LeBron parecia estar pegando o "caminho mais fácil" ao se juntar a duas outras superestrelas, e assim ele nunca se realizaria como completo superstar da NBA. Eu queria ver LeBron atingindo seu auge e superando as barreiras na própria força, não na força de Wade e Bosh.

Depois, eu percebi o quanto isso era idiotice. Eu ainda estava muito apegado ao estereótipo Jordan da superestrela que centraliza o jogo, arremessa todas as bolas e domina as atenções. O que eu percebi depois - e, felizmente, a tempo - é que LeBron era um jogador diferente, mais voltado para o jogo coletivo, e que ter grandes companheiros ao seu redor era uma condição importante para que James conseguisse tirar o máximo do seu jogo, e enfim atingisse todo seu imenso potencial como jogador de basquete. Isso nunca teria acontecido naqueles times horríveis de Cleveland. Então a decisão de LeBron, no final, acabou me proporcionando duas coisas que eu nunca poderia ter tido como fã de esportes se ele tivesse ficado em Cleveland: a possibilidade de ver o jogador mais talentoso que já assisti realizando seu potencial e atingindo seu auge como jogador de basquete, e ver um time tão bom, tão único e que jogava um basquete tão maravilhoso de se assistir como aquele Heat 2012-2013.

(Tangente rápida: uma grande pena que o Heat de LeBron nunca tenha conseguido uma temporada completa, do início ao fim, em plenos poderes. Em 2012, o time só atingiu seu auge nos playoffs, quando Bosh machucou, LeBron mudou para PF e o time descobriu seu small ball. E em 2013, o time chegou nos playoffs desgastado demais, cansado demais, e nunca jogou seu melhor basquete. Eles nunca tiveram aquela temporada completa chutando bundas a torto e a direito que mereciam. Nossa perda.)

Meu jogo favorito que assisti ao vivo? G4 da série entre Mavs e Blazers em 2011, na primeira rodada dos playoffs. Foi o jogo que Brandon Roy, praticamente fora da NBA a essa altura por causa dos problemas físicos que destruíram o que vinha sendo uma fantástica carreira, saiu do banco e milagrosamente voltou o relógio alguns anos, anotando 18 pontos - inclusive os oito finais do Blazers na partida - e dando quatro assistências no quarto período apenas, enquanto Portland tirou uma vantagem de 18 pontos de Dallas no período final para igualar a série em 2-2. Cinco anos depois, eu ainda lembro daquele jogo como se fosse hoje.

Esse jogo importou no grande esquema das coisas? Provavelmente não. Dallas ainda venceu a série em 6, e algumas semanas depois venceu o Miami Heat para conquistar seu primeiro título de NBA. Brandon Roy aposentou naquela offseason, voltou em 2012 e aposentou de vez algumas semanas depois.

Mas aquele ainda é, e sempre será, o jogo que eu lembro quando penso nos playoffs de 2011. Foi simplesmente perfeito: um dos meus jogadores favoritos e figura trágica da NBA, alguém que eu já tinha aceitado a decadência e sabia (ou achava que sabia) que nunca mais veria jogando no alto nível do passado, de repente se rejuvenescendo por 12 minutos e jogando talvez o basquete mais inspirado da sua vida, conduzindo uma das maiores viradas da história dos playoffs da NBA com uma das mais memoráveis performances da história da NBA em quartos períodos. Foi imprevisível, e foi emocionante de se contemplar. Ele me deu algo que eu nunca tinha visto, que eu nunca pensei que veria, e no final das coisas, uma memória para sempre.

Como Bill Simmons escreveu uma vez, nós fãs assistimos a 1000 jogos em busca de algo especial, algo único e fantástico, e 999 vezes ela não acontece. Mas quando tem a 1000th vez, ela acontece, e é algo que nunca mais vamos esquecer, e que fazem valer todo o esforço. A atuação de Brandon Roy foi a milionésima vez. Eu nunca esquecerei de assistir esse jogo enquanto viver.

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Então voltando ao ponto inicial: o que isso significa em relação a Kevin Durant?

Kevin Durant deixando o Thunder nos privou de muitas coisas boas. Ver aquele time jovem do Thunder que surgiu para o mundo em 2010 tentar subir a montanha, enfrentando seus próprios demônios e dificuldades para tentar chegar no topo da liga, era uma histórias mais interessantes de se acompanhar na NBA nesses últimos 7 anos. Ver aquele time enfim atingindo o topo, superando os poderosos Warriors e Cavs, sua crescente rivalidade com Golden State, a eterna dúvida se Durant e Westbrook algum dia achariam a forma ótima para conviver... são todas coisas que eram muito divertidas.

Eu queria muito ver a história do Thunder do começo ao fim, até por ser uma das histórias mais fáceis de se acompanhar: o time jovem e promissor de 2008/2009, o time dando um salto em 2010, a evolução nítida de 2011, finalmente chegando nas Finais em 2012, a troca de Harden e as lesões de Durant e Westbrook, a quase redenção em 2016... era uma história que muitos (inclusive eu) queriam ver tendo um final, e de preferência um final feliz. Era algo que eu queria ver, e agora (ou pelo menos por enquanto) não verei mais por causa da decisão de Durant.

Mas ao mesmo tempo, eu já vi antes times subindo a montanha e atingindo o título. Eu já vi times ultra-talentosos, mas de encaixe difícil, encontrando uma forma de coexistir e tirar o melhor de si mesmo rumo a um título. Eu já vi dois dos 5 melhores jogadores da NBA jogando juntos no seu auge. Não que seja uma história que não seja ótima de se rever várias vezes com diferentes protagonistas, mas não é exatamente algo novo para mim.

Mas eu nunca na vida vi um time de basquete tão talentoso - pelo menos no papel - quanto Golden State é agora com Kevin Durant. Eles tem a chance de fazer algo que eu nunca vi antes, de quebrar recordes e atingir um nível de basquete que eu nunca vi. Eu sempre me ressenti de nunca ter a chance de ver o Celtics de 86 ou o Bulls de 96 ao vivo - na minha opinião os dois melhores times de basquete da história da NBA - e agora tenho a chance de acompanhar um time que pode ser tão bom quanto, ou até melhor, do que esses dois times lendários. É uma oportunidade nova que essa decisão de Durant também trouxe.

E também tem o seguinte: é possível que, assim como LeBron, existe um jogador melhor dentro de Durant esperando para sair na situação certa, e com os companheiros certos. Larry Bird não teve seu auge como jogador de basquete em 1986 apenas porque, individualmente, ele estava no seu auge físico e técnico - um dos principais motivos é que o talento no Celtics ao seu redor teve um notório auge naquela temporada, e isso permitiu que Larry Legend explorasse mais partes do seu jogo que antes ele não tinha como: sua maestria nos passes, sua versatilidade para executar múltiplas funções, e até mesmo sua criatividade para tentar coisas novas quando os jogos estavam entediantes. Bird teve seu auge em parte porque o coletivo ao seu redor era melhor, e muito mais preparado para que ele tirasse o máximo de seu jogo.

Talvez o mesmo aconteça com Kevin Durant: em um time mais coletivo, com mais opções, com QI coletivo fora de série e tantos jogadores completos, talvez Durant agora pode focar em mostrar e elevar partes do seu jogo que não apareciam antes para nós tão bem. Com menor responsabilidade para pontuar, e com mais espaço do que nunca, pode ser que vejamos mais de Durant como passador e criador, ou que ele decida focar mais na sua defesa, que tem chance de ser excepcional. Talvez ele tenha mais assistências e mais roubos de bola do que nunca, e arremesse algo como 55-43-90 na temporada. Com seus companheiros melhores e jogando um estilo de basquete mais favorável, pode ser que o próprio Durant leve seu jogo a um nível que não tínhamos visto antes.

Isso tudo é melhor do que a chance de ver o Thunder ser campeão com Durant e Westbrook? Para mim agora é, e por um motivo simples: eu tenho a chance de ver tudo isso acontecendo agora, enquanto que ver o Thunder campeão com West e KD não. Qual é a graça de buscar algo que não existe mais? Por que se apegar a algo que deixou de existir, se eu posso ir atrás de novas possibilidades e novos objetivos, coisas que eu nunca tive antes e que podem cumprir seu papel para mim, de me levar a um patamar mais alto como fã do esporte? A decisão de Durant fechou algumas portas e nos privou de algo muito legal, mas ao mesmo tempo abriu outras portas e outras possibilidades. A grandeza que podemos ver hoje é diferente da de ontem, mas não necessariamente é pior.

Essa foi a lição que eu aprendi ao longo da vida esportiva. Ao invés de me apegar a algo que não existe mais, eu simplesmente começo a buscar algo novo toda vez que a situação mudar, e com isso eu - de novo, EU - posso aproveitar plenamente o que os esportes que eu tanto amo me oferecem. Durant nos tirou algumas coisas boas, mas nos oferece outras em troca: eu posso lamentar pela perda das primeiras, mas isso nunca pode me impedir de aproveitar e almejar as coisas novas que eu não poderia ter antes, e agora posso. As coisas mudam rápido demais nos esportes. Se não soubermos nos adaptar igualmente rápido, podemos perder chances únicas. Não importa o que eu quero. O que importa é que eu sempre quero algo novo, algo diferente, algo que vai me elevar a um patamar maior como fã de esportes. E quando isso acontecer, eu posso ficar satisfeito sabendo que, naquele momento, eu serei mais rico em experiências esportivas do que era antes. E, minutos depois, me preparar para buscar o próximo objetivo.

Ou pelo menos isso é o que eu sinto. Você é livre para sentir ou pensar algo totalmente diferente, com base nas suas próprias preferências e opiniões. Isso é perfeitamente normal.

Só é uma grande idiotice achar que o que você sente é a verdade do mundo, e que um jogador de basquete profissional que precisa pensar na sua própria vida e carreira e pensa diferente de você é um traidor. Ou um covarde. Ou qualquer outro adjetivo imbecil que tenha surgido desde o dia 4 de julho.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Hack a Cast #13 - Especial: Scott Rafferty



Nesse Hack a Cast especial, tive a chance de falar com um dos meus ídolos do meio esportivo e editor chefe do excelente site Hardwood Paroxysm: Scott Rafferty.

Scott não é só o editor chefe do HP, mas também escreve para a revista Rolling Stones e para o Sporting News  - vocês realmente deveriam ler o que ele escreve, porque ele é muito bom.

Nesse episódio - excepcionalmente em inglês- eu e o Scott falamos sobre loteria, draft, Ingram vs Simmons, reconstrução pelo Draft, as opções do Celtics no #3, jovens times, Finais de conferência, e até possíveis pontos de interesses para as Finais. Um dos nosso melhores episódios!! Ouçam, compartilhem e espero que se divirtam tanto escutando-o como eu me diverti gravando.

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On this very special Hack a Cast, I talked to one of my sportswriting idols and editor-in-chief of the excellent Hardwood ParoxysmScott Rafferty.

Scott also writes for The Rolling Stones magazine and Sporting News , so you should really check his stuff out because he is really freaking good at it.

On this episode, Scott and I talked about lottery, NBA Draft, Ingram vs Simmons, rebuilding through draft, Boston's options at #3, young teams, conference finals, and even possible Finals previews. One of our best episodes ever! Please listen and share, and I hope you have as much fun listening to it as I did recording it.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

30 perguntas sobre 30 times da NBA

"Calma gente, estão fazendo muitos pontos, tem que fazer menos!"


As primeiras duas semanas de NBA estão agora ano passado. Cada time jogou entre seis e nove jogos, e embora ainda esteja tudo muito longe de onde estará ao final do ano, é possível dizer que a temporada começa a tomar forma. Muita coisa ainda vai acontecer, e não podemos levar o que aprendemos nesses primeiros jogos como sendo definitivos para essas equipes... mas ao mesmo tempo, já vimos o suficiente para começar a questionar, analisar e especular.

Cada um dos 30 times da NBA entrou na temporada com um objetivo, uma situação previamente criada pelos seus investimentos e decisões. Ainda não é possível tirar nenhuma conclusão sobre se alcançarão ou não seus objetivos, mas podemos ver como o começo de temporada de cada time se adequava ou não ao que tinham em mente quinze dias atrás.

E é o que faremos. Uma pergunta para cada time, que mostre o momento atual da equipe. Pode ser uma dúvida legítima do que a equipe vai fazer, algo que mostre uma diferença entre o que está acontecendo e o que era previsto, uma pergunta retórica, ou só mais uma forma de zoar o Lakers. Em geral, tentarei fazer disso algo construtivo. Ainda assim, tenham em mente que a amostra é pequena ainda, e que é menos uma conclusão que estamos tirando e mais uma comparação entre o momento atual no começo de temporada e a expectativa um mês atrás.

Então sem mais de longas, vamos ver o que temos aqui: 30 perguntas para os 30 times da NBA.

(Notas: os times estão ordenados por ordem alfabética. As estatísticas abaixo vieram de Basketball-Reference, NBA Stats, ou Synergy Sports. Algumas das entradas foram escritas nos últimos dias e talvez não estejam totalmente atualizados alguns dados.).


Atlanta Hawks

Até quando Atlanta vai continuar se contentando com o meio da tabela?

Desde 2008, o Atlanta Hawks foi aos playoffs em cada temporada da NBA que disputou, nunca vencendo menos do que 37 jogos nesse período. Uma consistência impressionante. Por outro lado, o time só passou três vezes da primeira rodada, nunca chegou a uma final de conferência, e nunca venceu mais do que 53 jogos em uma dessas temporadas.

Essa tem sido a marca do Hawks nos últimos muito anos (especialmente desde que passou Chris Paul para pegar Marvin Williams - sou obrigado por contrato a lembrar disso): mediocridade consistente. Um time bom o suficiente para consistentemente chegar aos playoffs, mas nunca bom o suficiente para disputar títulos, nem ruim o suficiente para conseguir boas escolhas de Draft e reforçar a equipe para dar esse próximo passo. Para piorar, a folha salarial do time estava entupida demais, tirando toda flexibilidade. Em geral, essa é a pior situação para se encontrar na NBA, preso no meio da tabela, sem brigar pela parte de cima, nem ter oportunidades de dar o salto. Ainda assim, o Hawks era um time que parecia confortável nessa situação, se contentando com esses pequenos sucessos.

Mesmo com a chegada de Danny Ferry e uma mudança na diretriz do time - trocando o contrato caro de Joe Johnson e deixando Josh Smith ir embora, limpando assim boa parte da folha salarial - o resultado parece ser o mesmo. Um time um pouco acima da média, com uma identidade (no caso, muita movimentação de bola e 3pt shooting) definida e que está bem posicionado para vencer alguns jogos e ir aos playoffs, mas não para ameaçar um título. De novo o Hawks se encontra na mesma situação.

Até quando? Ninguém sabe. Depende do quanto a diretoria e os donos do time (agora provavelmente novos donos) estiverem satisfeitos com esse padrão. Também é difícil ver qual seria o caminho para o Hawks sair disso. O time não tem grandes ativos de troca para trazer uma estrela, e a folha salarial não está tão aberta assim - Atlanta está algo como 14M abaixo do cap em salários comprometidos para 2015/16, e isso envolveria perder DeMarre Carroll e Millsap, dois jogadores importantes na equipe. E mesmo se conseguissem o espaço salarial necessário, Atlanta não é um destino atraente para free agents - a história recente diz que jogadores não tem tanto interesse em jogar lá, que não gostam da torcida pouco vibrante e da cidade sem sal (o que não deve melhorar depois dos casos recentes de "racismo" dentro do Hawks, embora tenham sido em boa parte distorcidos e tirados de contexto). Não tem uma janela para o Hawks dar um salto para "competindo pelo título" tão cedo.

A alternativa seria trocar seus ativos e reconstruir, mas voltar a perder não parece ser uma opção que agrade a diretoria da franquia. Por enquanto, Atlanta parece que vai continuar insistindo na sua abordagem de meio de tabela. Até quando?


Boston Celtics

O que fazer com Rajon Rondo?

Ninguém sabe. A estrela de Boston começou bem a temporada (9-11-8 com excelente defesa) antes de se machucar de novo, sentindo os efeitos da cirurgia na mão. Não é como se seu valor de troca estivesse altíssimo, mas está bom o suficiente.

O problema é que tem muitos fatores influenciando nessa decisão. Rondo é um free agent ao final da temporada, então corre o risco dele sair de Boston por nada. Ao mesmo tempo, o Celtics tem o calouro Marcus Smart para assumir a posição de armador principal, sem falar no emergente Phil Pressey, e uma troca de Rondo abriria espaço para ambos. E, claro, trocar Rondo permitiria ao Celtics entrar um pouco mais forte em modo de tank nessa temporada em busca de outra boa escolha de Draft. 

Por outro lado, o Celtics não vai trocar Rondo só por trocar, se achar que o retorno não está a altura. A equipe não está tão interessada em uma reconstrução demorada, e os lineups com o trio Rondo-Bradley-Smart tem sido extremamente divertidos de assistir mesmo em uma amostra pequena (e colocando 118 pontos por 100 posses de bola. Isso também). Com Rondo, o Celtics sabe que pode brigar pelos playoffs no Leste, e é provável que a diretoria veja isso como uma opção melhor do que trocar Rondo por migalhas.

Então é uma decisão difícil. Eu acho que vai depender se o Celtics conseguir ou não uma boa oferta - talvez uma oferta McLemore + 1st round pick do Kings, ou um pacote envolvendo Shumpert, um expirante e escolhas de Draft do Knicks - porque a chance do time trocá-lo por 60 centavos no dólar é quase nula. Se essas ofertas se materializarão é outra história, e por enquanto, o Celtics vai mantendo sua estrela e sendo discretamente competitivo no fraco Leste. 


Brooklyn Nets

O que aconteceria se o time fosse realmente vendido?

Dentro de quadra, o Nets é um time que depende demais da saúde de jogadores frágeis como Brook Lopez e Deron Williams. Eles criaram uma identidade como um time de small ball desde o ano passado, e agora tem novos arremessadores para brincar com isso. É um time sólido o suficiente quando inteiro para causar problemas, mas acho que não tira o sono de ninguém no Leste.

A grande sombra pairando sobre o time no momento é uma possível troca de dono da franquia. O dono do Nets, Mikhael Prokhorov, aparentemente cansou de gastar milhões de dólares em um time que ele não se importa, e aparentemente colocou o time a venda. E caso a venda se concretize, isso provavelmente vai repercutir MUITO mal dentro de campo.

Por que, você pergunta? Porque o Nets de hoje é uma máquina de perder dinheiro. Esse ano o Nets está quase 20M acima da LUXURY TAX (não do salary cap - do luxury tax), o que significa que só de multa o Nets está pagando mais do que times da NBA pelo seu time inteiro em salários. Isso foi possível por Prokhorov não liga a mínima para pagar milhões, mas isso muito provavelmente vai mudar com seu próximo dono. Brooklyn é um mercado grande, mas existe uma diferença brutal entre pagar a luxury tax com parcimônia em casos específicos, e o que o Nets ta fazendo. Isso significa que uma troca de comando provavelmente significaria uma mudança brutal em quadra, provavelmente um corte desesperado de custos para tentar evitar perder essas somas impossíveis de dinheiro. O time se desmontaria, e sem boas perspectivas de futuro: Nets depende muito hoje de jogadores caros frágeis (Williams e Lopez) ou veteranos no final de suas carreiras (Garnett, Joe Johnson), e não tem escolhas de Draft interessantes graças aquela troca com Boston. A perspectiva de futuro não é das melhores a não ser que de alguma forma o novo dono consiga se livrar de Williams/Lopez em troca de bons ativos futuros (improvável).

É um peso complicado de se ter sobre sua cabeça. Esse provável (não certo, mas provável) cenário em caso da venda do time é suficiente para acabar com a competitividade do time no médio prazo, e é difícil dizer com que urgência isso tudo aconteceria (danificando o curto prazo). E no fundo, é a pergunta mais critica nesse momento para Brooklyn.


Charlotte Hornets

Lance Stephenson conseguirá acender o ataque do Hornets?

Ano passado, a principal força do Hornets foi sua defesa, que terminou o ano como a sexta que menos cedia pontos por posse de bola. O ataque, por outro lado, estava horrível, o sétimo pior do ano e sem dúvida o fator limitante da equipe. Mesmo considerando que alguma regressão defensiva era esperada para 2015 - em parte regressão natural, dada a falta de grandes defensores na equipe, e principalmente o fato de Marvin Williams ser o PF titular a equipe - a grande aquisição de Charlotte para a temporada foi uma destinada a acender seu dormente ataque: Lance Stephenson, um criativo jogador capaz de jogar em velocidade e a partir do drible.

Até agora... nada feito. A defesa caiu um pouco (a décima desse começo de temporada), mas o ataque conseguiu piorar ainda mais, sendo apenas o quinto até agora na liga, colocando 98 pontos por 100 posses de bola, uma marca que seria a segunda pior de 2014. Tem vários motivos para isso: Al Jefferson não começou tão bem a temporada, Marvin Williams tem sido um fracasso jogando de PF titular, o time sente falta dos passes de Josh McBob. Mas a verdade é que isso não era o que o Hornets tinha em mente quando trouxe Stephenson, que também está bastante mal no começo de temporada: 9 pontos, 5 assistências (e 11 rebotes, o que é bizarro) enquanto chuta 33% e 19% de três.

Quando Stephenson chegou, a expectativa de muitos (inclusive a minha) era de que ele teria um papel semelhante ao que fazia no Pacers, jogando muitos minutos comandando lineups com jogadores de banco, jogando com liberdade e puxando contra ataques. Isso não tem acontecido até aqui, o que me faz pensar que ele está sendo um pouco mal usado. Steve Clifford não é um técnico que goste muito de jogar em transição - Charlotte terminou 2014 como o sexto ataque que menos pontuava em transição, com 10.2 pontos por jogo. Mas é em transição que Stephenson era mais destrutivo, e eu imaginava que sua presença iria fazer Clifford soltar mais o time em velocidade para aproveitar essa característica. Até agora, não foi o caso: o Bobcats caiu para 8.4 pontos em transição por jogo, terceira pior marca da NBA. Não é a melhor forma de utilizar os talentos de sua nova contratação.

E também tem o seguinte: o trio Kemba-Lance-Al não tem funcionado até aqui. E faz sentido: Kemba e Stephenson não são bons chutadores de fora, o que dificulta as infiltrações e os post ups de Al, e tem bola de menos para os três jogarem juntos. Tanto Kemba como Stephenson gostam de jogar como ballhandlers dominantes, e Al é um jogador que também gosta de ocupar seu tempo de costas para a cesta. Com esses três juntos você acaba desperdiçando o lado bom dos três até certo ponto, não aproveitando cada um ao máximo. E os resultados tem sido desastrosos - com o trio em quadra junto, o Hornets tem saldo de -4.8 pontos por 100 posses de bola. Eu achei, antes da temporada, que a solução de Clifford seria usar Stephenson em lineups com muitos jogadores vindos do banco, onde ele poderia jogar com a bola nas mãos e correr em transição a vontade, mas também não tem acontecido: das seis lineups que o Bobcats mais usou até aqui das quais Stephenson fez parte, CINCO delas são junto de Kemba e Big Al. De novo, não a melhor forma de utilizar seus talentos.

O Bobcats parecia um candidato a dar um salto em 2015, mas até agora não aconteceu. Tem sido uma grande decepção, e o ataque e Stephenson são dois dos principais motivos.


Chicago Bulls

Existe alguma chance de Derrick Rose ficar saudável?

Eu sei, eu sei, é o "e se?" mais comentado da história recente da NBA. Mas não tem como escapar. Essa é a pedra sob a qual se sustenta toda a temporada do Bulls.

O Leste está mais aberto e vulnerável do que nunca em 2015. Os dois times que mais renderam nesse começo de ano fora Chicago são Raptors e Heat (#5 e #8 em rating), mas o Raptors ainda precisa se provar na NBA, e Miami ainda está tentando se achar depois de grandes mudanças no seu time. O Cavs, que deveria ser o grande juggernault do Leste, ainda está nas difíceis fases de aprendizado e não deu mostras de que pode vir a ser uma superpotência ainda. Washington ainda é um pouco incógnita. E o Bulls tem a chance de enfim voltar as Finais pela primeira vez desde Jordan em meio a um enorme buraco no Leste, atrás de um ataque surpreendentemente ativo e um banco reforçado, especialmente se a defesa voltar ao seu nível de sempre depois de um começo decepcionante.

O problema é que, não importa o quanto reforcem o banco e melhores o time, o Bulls não vai a lugar algum se Derrick Rose não estiver saudável. E claro, Rose já perdeu metade dos jogos da equipe por diferentes lesões. Nenhuma é séria, aparentemente, nem recorrente. Ainda assim, para um jogador que perdeu praticamente três anos da sua carreira para lesões e que precisa mostrar que é capaz de permanecer em quadra, esse não é o começo ideal. Não é possível contar com o Bulls como favoritos sem Derrick Rose, e infelizmente, nesse momento, o ex-MVP não está passando confiança. É verdade que o que importa é como chegará em Abril, mas primeiro ele precisa passar quatro jogos saudáveis jogando em alto nível. Ainda não fez isso.


Cleveland Cavaliers

É possível o Cavaliers montar uma defesa boa o suficiente para competir pelo título?

Eu já fiz um post inteiro dando exemplos para ilustrar alguns dos principais problemas da defesa de Cleveland nesse começo de ano, uma defesa que atualmente é a segunda pior da NBA cedendo 110.1 pontos a cada 100 posses de bola. Graças a isso, Cleveland tem um saldo de -3.6/100 posses que colocaria a equipe como a oitava pior da NBA. Então vocês podem ler essa coluna para alguns detalhes, embora tenha saído já faz algum tempo, ela continua bastante atual.

O Cavs tem um enorme potencial por causa do puro talento do time, especialmente no ataque, mas é dificilimo na NBA ser campeão sem uma defesa pelo menos decente. E o Cavs não tem isso agora, nem perto. E embora alguém possa dizer que isso virá com o tempo e com entrosamento, ainda existe um risco grande simplesmente porque o time não tem bons defensores! LeBron foi mal defensivamente em 2014 (e ganhou um All-NBA Defensive Team, porque claro que sim) e piorou em 2015, principalmente porque parece desinteressado; Kyrie Irving e Dion Waiters são dois dos piores defensores vivos; Kevin Love nunca foi um bom defensor e sempre pareceu mais interessado nos rebotes; Shawn Marion está velho; e Varejão é o único defensor acima da média, mas não é Apex Dwight Howard para sozinho ancorar uma defesa. A má defesa de Cleveland não é fruto de um sistema ruim ou de falta de entrosamento, até aqui ela parece ser um bando de maus defensores cometendo erros e não tendo ninguém para lhes cobrir as falhas. Isso é um problema.

Se o Cavs quer ser um candidato ao título, então ele precisa arrumar essa defesa para ser pelo menos decente. E eu tenho minhas dúvidas se isso será possível com o elenco atual, sem uma troca por um protetor de aro ou defensor de perímetro. 


Dallas Mavericks

Pode o Mavs voltar a jogar boa defesa ao redor de Tyson Chandler?

É, eu sei, é quase a mesma pergunta do Cavs. Mas a questão é que o Mavericks, hoje, é o Cavs mais avançado em seu processo de montagem. Eles tem hoje o que era o objetivo do Cavs, ou seja, o melhor ataque da NBA - 112.3 pontos por 100 posses de bola. E também tinham uma defesa bastante fraca, sétima pior da liga, o que despencava bastante seu saldo total - +4.9, apenas oitavo melhor da temporada (esses dois números já inflaram muito hoje por causa da ridícula vitória por 124 a 70 contra um patético time do Sixers, mas vamos fingir que esse jogo não existiu). Se você perguntasse pra alguem do Cavs se eles gostariam de ter o melhor ataque e a sétima pior defesa, todos eles responderiam "SIM!" antes que você terminasse de falar. Então hoje pra mim o Mavs é o Cavs Beta.

Eu estou convencido de que, desde que tenha Dirk Nowitzki, Rick Carlisle conseguiria montar um ataque Top5 comigo de PG, o Vinicius de SF e a Alinne Moraes de C. Ele é ridiculamente bom nisso, e Dallas terminou como o segundo melhor ataque de 2014, e o melhor pós-All Star Break. Com Dirk e Carlisle, Dallas terá um bom ataque sempre. A defesa? Esse é um problema maior. Assim como o Cavs, o time conta com muitos defensores individuais fracos, mas o "trunfo" do Mavs era a presença de Tyson Chandler. Ainda que agora mais velho, Apex Chandler era um dos melhores defensores da NBA e alguém capaz de ancorar sozinho uma boa defesa (ver: 2011), e a esperança do time era que Carlisle conseguiria usar sua presença para montar um grupo pelo menos respeitável.

Ainda não aconteceu. Dificilmente Dallas terá uma defesa Top5, mas com um ataque que coloca pontos no ritmo que o seu coloca, simplesmente uma defesa acima da média pode ser suficiente para colocar a equipe como uma concorrente ao título. Carlisle e Chandler já fizeram antes, e não tem técnico na NBA melhor que Rick fazendo pequenos ajustes. Mas é o obstáculo no caminho do time.


Denver Nuggets

O Nuggets conseguirá enfim boas trocas usando seus ativos?

O elenco do Nuggets não faz nenhum sentido faz dois anos. Ele tem bons jogadores, sem dúvida, mas que juntos não encaixam desde que George Karl e Masai Uriji saíram da cidade. Jogadores de perímetros de mais, nenhum bom defensor no time inteiro (tirando Afflalo), jogadores de garrafão que, a exceção talvez de Kennett Faried, não possuem nível para serem titulares na NBA. Ainda assim, lá está o Nuggets escalando um time com esses jogadores, um garrafão fraco sem ninguém que proteja o aro, jogue de costas para a cesta ou arremesse de fora, com vários jogadores de perímetros precisando de minutos, ninguém defendendo e em geral não se encaixando de nenhuma maneira. Não a toa o Nuggets esta 1-5 e começa o ano como um dos piores times da liga.

Eu não acho que Denver seja tão ruim assim, mas de todo modo, o que eles tem agora em quadra não é um time de basquete competente. Na verdade, o elenco do Nuggets me parece mais um mural de trocas, vários ativos de troca interessantes, mas que juntos não formam um bom time. O que é até estranho, considerando o quanto o Nuggets não tem feito muitas trocas ultimamente. Denver no momento não é um candidato a título nem um eterno candidato a playoffs como era com Karl, e tampouco tem um elenco jovem e promissor no curto prazo. O melhor que Denver tem a fazer é transformar o que tem nas mãos em jogadores jovens e escolhas de Draft e se preparar para o futuro.

Wilson Chandler, Aaron Afflalo, JJ Hickson, Timofey Mozgov, Randy Foye, Nate Robinson, todos fariam bons valores de troca, e poderiam conseguir ativos importantes em retorno. Tirando Lawson, Faried e os calouros Harris e Nurkic (e TALVEZ Galinari), o Nuggets não tem jogadores que deva segurar a todo custo. Afflalo, em especial, é um valor excelente - poderiam oferecê-lo ao Cavs por Dion Waiters, ou talvez um pacote Afflalo-Chandler possam tirar Harrison Barnes de Golden State. Opções não faltam, e provavelmente nem compradores, mas o Nuggets precisa começar a se mover para não acabar morrendo com todos os ativos na mão sem chegar a lugar nenhum. 


Detroit Pistons

Quem ficará no time para o futuro?

O Pistons tem um keeper e uma futura estrela em Andre Drummond. Ele é um monstro, de apenas 21 anos e que agora está jogando para um técnico que finalmente tem condições de fazer seu crescimento ir ainda mais rápido. Drummond é o tipo de jogador que pode constituir a espinha dorsal de uma franquia em alguns anos, e se oferecesse a alguém um jogador da NBA para começar uma franquia HOJE, não sei se 15 jogadores seriam citados antes de Drummond.

Mas o resto do time... é o problema. Greg Monroe é um free agent irrestrito ao final do ano, e depois dos problemas que time e jogador tiveram na hora de renovar o contrato, parece difícil que ele fique.  Brandon Jennings tem a habilidade, mas não é nem de longe o PG ideal para esse time. Josh Smith foi um dos piores contratos dos últimos tempos. Detroit tem tentado achar um equilíbrio entre brigar pelos playoffs enquanto monta um time de longo-prazo, mas não só o time tem sido um desastre por enquanto (2-6, sexto pior saldo da NBA) como o time parece desprovido de qualquer peça de valor para seu futuro tirando Drummond e TALVEZ Caldwell-Pope. Muito ruim para um time que tinha esperanças de mudança com a chegada de Van Gundy, mas os problemas da franquia são bem mais profundos. E Super Mario sabe disso, tanto que, até agora, sua prioridade no time parece ser desenvolver Drummond o melhor possível para o futuro.

Talvez Monroe fique com uma nova proposta. Talvez Smith possa ser trocado por algum jovem jogador (McLemore?). Mas por enquanto, o Pistons está tendo que apostar todas as suas fichas no jovem pivô.


Golden State Warriors

Conseguirá o time titular do Warriors ficar saudável?

Se sim, o Warriors é um candidato ao título. O problema é depender de jogadores como Stephen Curry e Andrew Bogut, que tem um histórico de lesões preocupante.

Acho que todo mundo sabe o papel de Stephen Curry na equipe e o quanto o time perde sem ele. Ele é o melhor arremessador do mundo, um jogador que sozinho é capaz de dobrar defesas e abrir todo o resto do jogo para seus companheiros. O seu pick and roll é uma das jogadas mais mortíferas da NBA e a base de todo o esquema ofensivo do Warriors. É fácil entender porque o Warriors precisa dele. Mas Bogut, por algum motivo, acaba sendo esquecido quando na verdade ele é talvez o segundo jogador mais importante do time. Ele é um excelente defensor de garrafão que ancorou uma excelente defesa em 2014 (e a terceira melhor de 2015 até aqui), e no ataque, apesar de não ter um jogo ofensivo refinado, é um exímio passador e screener, o tipo de jogador que pode não acumular grandes números mas faz uma diferença brutal quando está presente (pense Marc Gasol). Foi Bogut quem perdeu os playoffs ano passado e assim acabou com as chances do Warriors. O time precisa dele, e embora os tornozelos de Curry chamem mais a atenção, é Bogut o jogador mais frágil do time que pode acabar com suas chances.

Ano passado, o Warriors foi um time bastante dependente da sua lineup titular. O quinteto titular foi o melhor quinteto de TODA a NBA na temporada, mas sem Curry e Bogut, o time despencava. Esse ano, parece mais do mesmo: as duas lineups mais usadas pela equipe (Curry-Klay-Green-Bogut, e com Barnes ou Iguodala de SF) estão destruindo a oposição, mas ainda dependem muito de Curry, Klay e Bogut, jogadores sem os quais o time despenca.

O começo de temporada do Warriors tem sido promissor até aqui. A defesa continua sendo excelente, e Draymond Green de titular tem dado bons resultados (deveria ter sido ano passado também, by the way). O banco reforçado ainda não mostrou a que veio, mas isso deve melhorar com a volta de David Lee. O ataque de Steve Kerr ainda não é um upgrade em relação ao fraco de Mark Jackson, mas isso talvez venha com o tempo - o talento é grande demais para não evoluir conforme ficam mais confortáveis com o esquema. Mas no fim do dia, o que o Warriors mais tem que fazer é torcer para que Curry e Bogut cheguem aos playoffs saudáveis para ter uma chance.


Houston Rockets

Como o Rockets fará para defender os PFs do Oeste?

Para ser campeão no Oeste, você vai ter que enfrentar uma série de alas-pivô bem chata. Ir longe no Oeste significa que você terá que passar por cima de Dirk Nowitzki, Zach Randolph, Blake Griffin, LaMarcus Aldridge, Anthony Davis, Tim Duncan e/ou Serge Ibaka. Não é a seleção mais fácil do mundo, ainda mais considerando que muitos desses PFs ficam confortáveis jogando longe do garrafão. E para o Rockets, eles talvez sejam o principal obstáculo até uma eventual Final.

Ano passado, nos playoffs, o Rockets foi derrotado em 6 jogos para um inferior time do Blazers principalmente porque não tinha uma resposta a LaMarcus Aldridge, que anotou 124 pontos nas quatro vitórias de Portland. Esse era o grande ponto fraco do time, a falta de um bom PF ou SF capaz de marcar um jogador como Aldridge.

Esse problema ainda persiste em termos de montagem do elenco. Terrence Jones é o melhor PF da equipe, mas é baixo e tem dificuldade para conter PFs mais brutos no garrafão. Ariza é um bom defensor de perímetro que não tem o físico para aguentar Aldridge ou Griffin de costas para a cesta. Papanikolaus é um bom arremessador que não conseguiria conter esses jogadores a não ser que pudesse marcá-los com um taser. Dwight Howard poderia marcar alguns desses jogadores, mas assim como aconteceu ano passado, tudo que eles tem a fazer é se afastarem da cesta e atraírem Dwight com ele, roubando Houston de seu único defensor e shot blocker no garrafão e transformando a defesa de Houston em uma linha de bandejas.

A defesa de Houston tem sido a melhor da temporada até aqui, mas muito disso se deve a uma tabela ridícula de fácil, incluindo jogos contra Wolves, Sixers, Jazz, Lakers, Celtics e os reservas de San Antonio. Sua única vitória contra um time bom foi contra o Heat. Nas próximas semanas, jogos contra Memphis, Dallas e Los Angeles (Clippers) nos darão uma melhor chance de ver como o Houston se sai contra sua grande fraqueza de 2014. Se essa fraqueza for corrigida, então é hora de contar o Rockets como um dos favoritos ao título.


Indiana Pacers

O que o Pacers deveria fazer com 2014/15?

A temporada 2015 do Pacers acabou antes de começar. Um time que terminou muito mal 2014, o time perdeu Lance Stephenson - seu segundo melhor jogador ofensivo e melhor criador - na free agency sem achar um substituto real e depois viu Paul George ter uma lesão medonha jogando pela seleção americana, ficando fora para o ano. Em outras palavras, o Pacers perdeu os dois melhores jogadores ofensivos - e talvez os dois melhores jogadores, ponto - da equipe para a temporada 2014, depois de ter sido o segundo pior ataque pós-ASG temporada passada. Prenuncio do desastre.

E embora o Pacers tenha conseguido alguns jogos apertados com bastante correria, é óbvio que o time não vai a lugar nenhum tão cedo. Então fica a pergunta: o que o Pacers deveria fazer agora? Engolir uma temporada perdida e insistir nesse núcleo esperando a volta de Paul George para 2016 é uma opção, mas eu acho que o time precisa entender que a janela que eles tinham fechou, e que precisam pensar menos no curto prazo e mais em um projeto de continuidade. George deve ficar fora o resto do ano, então uma boa escolha de Draft é possível ou mesmo provável. O time também deveria trocar alguns veteranos enquanto pode, liberando sua folha salarial e abrindo espaços para jovens talentos.

A principal moeda de troca aqui seria David West, que já tem 34 anos, ganha dinheiro de sobra e está sendo desperdiçado em um time como Indiana caso volte de lesão. Um time jovem que aspira subir um degrau, como Charlotte ou Sacramento, pode morder a isca e oferecer um jogador jovem em troca. Indiana teve uma chance em 2013 e 2014, mas agora o Leste se reforçou, Stephenson saiu sem um substituto, e West envelhece. O melhor para Indiana seria compreender que no curto prazo suas chances são mínimas e que precisam apostar em montar um novo time para daqui a uns anos em torno de Paul George. Uma escolha alta de Draft (um draft muito profundo em PFs, vale citar), um novo talento e algum tempo é o que o Pacers precisa para voltar a disputar o Leste. 


Los Angeles Clippers

Porque as principais lineups do Clippers tem sido tão ruins?

Foram apenas sete jogos, então leve com um grão de sal. Mas o Clippers tem começado bem mal essa temporada para um time com tantas expectativas. A lineup titular do time tem sido um desastre (Paul-Redick-Barnes-Blake-DAJ), sendo dominada ao nível de -15.3 pontos por 100 posses de bola. A segunda lineup mais usada (essas são as dúas unicas a jogar mais de 25 minutos) tem Crawford no lugar de Barnes e tem sido um pouco melhor... perdendo dos adversários só por 12.4 pontos/100 posses. Não foi o começo ideal para um suposto favorito ao título.

O problema dessas lineups é bem diferente. No caso da primeira, o ataque despenca principalmente porque o espaçamento é horrível. Ninguém se importa em marcar Matt Barnes, e DeAndre Jordan regrediu essa temporada de forma que seu jogo voltou a ser apenas de enterradas em pontes aéreas. Isso significa que tem dois jogadores que não precisam ficar próximos de seus respectivos matchups e podem funcionar dobrando a marcação em Blake Griffin no garrafão ou atrapalhando o caminho de Chris Paul sem serem punidos. Essa lineup anota apenas 95.8 pontos por 100 posses de bola, inferior ao segundo pior ataque da NBA na temporada (Bucks, 96.1) e impensável para um time com Blake E CP3.

Quando Barnes sai e entra Crawford, o problema do ataque acaba: Crawford é um ótimo arremessador e criador, você impede que alguém abandone Barnes no perimetro, e ganha um segundo ballhandler capaz de criar a partir do drible e desmontar defesas. O ataque com ele no lugar de Barnes sobe de 95.8 para 106.1, uma marca Top10 na temporada. O problema é que o time despenca do outro lado da quadra, cedendo 118 pontos por 100 posses de bola, uma marca horrível. Crawford é um péssimo defensor, a defesa de DeAndre Jordan regrediu demais e está se resumindo a tocos novamente, e Redick e Blake não são bons o suficientes para compensarem. A defesa coletivamente fica péssima nessa situação.

Mas além da falta de opções de perímetro capazes de não comprometer dos dois lados da quadra, tem um outro problema nesse começo de ano das lineups do Clippers, que é a dupla Blake-DeAndre Jordan. Embora no papel os dois não se encaixem tão bem juntos, a dupla achou um ótimo equilíbrio em 2014 - com os dois juntos em quadra, o Clippers foi um time +9.7/100 posses. O time acelerou o ritmo para criar mais chances para ambos em transição sem congestionar o garrafão, e o jogo ofensivo de Jordan deu uma pequena evoluída para que ele não precisasse ficar sempre congestionando o garrafão. Esse ano, por outro lado, essa dupla tem sido um horror: com a dupla junta, o Clippers tem sido -8.3/100 posses.

Nada está funcionando para a dupla - Jordan voltou a se posicionar mal perto do aro, e isso tem atrapalhado bastante as infiltrações de Griffin. Ano passado, 56% de seus arremessos vieram próximos ao aro, e esse número agora caiu para 44%, incluindo um enorme aumento naquela região ao redor da região ao redor do aro (AKA aquele lugar da quadra que te obriga a lançar um floater ou arremesso torto quando você está atacando a cesta mas não tem espaço para chegar até o aro) porque seu caminho até o aro está sendo interrompido por Jordan e seu marcador. O Clippers também tem jogado em um ritmo muito mais lento com os dois em quadra, tirando aquelas cestas fáceis em transição e adicionando uma boa série de posses de bola esquisitas de meia quadra onde os dois batem cabeça. O Clippers tem muito talento para achar que o time ficará muito tempo nesse nível decepcionante, mas a falta de opções no perímetro é um problema, e muito da evolução de 2014 se deu por causa de DAJ e a boa dupla que ele passou a formar com Griffin. Se Jordan regrediu e essa dupla parar de ser uma força, então é hora de Doc começar a ficar mais criativo na hora de usar Spencer Hawes...


Los Angeles Lakers

Qual é a prioridade de Kobe Bryant?

Não importa o que os Buss tentem dizer essa temporada, o Lakers é um time simplesmente muito ruim que não tem qualquer chance de relevância por enquanto, e sendo sincero, até o contrato de Kobe expirar. O time vai perder, e se der sorte, vai perder o suficiente para ter uma escolha Top5 desse Draft, não tendo assim que oferecer uma valiosa escolha de loteria para o Suns de bandeja. Ah sim, o Lakers tentou, claro: eles trouxeram Lin, Boozer, Ed Davis e alguns veteranos em uma tentativa ridícula de montar um bom time. E, para completar o argumento do time, o Lakers teria de volta Kobe Bean Bryant de lesão, um cara ultra competitivo que nunca aceitaria fazer parte de um time que não estivesse competindo por vitórias.

A temporada começou, e francamente, está difícil dizer qual exatamente é a prioridade de Kobe nessa temporada. Ele quer realmente fazer o possível para seu time vencer, ou só está querendo jogar como quiser, arremessar o máximo possível e acumular estatísticas para eventualmente passar Jordan, Malone ou Kareem como o maior pontuador da história da NBA?

Até agora, parece ser o segundo. Kobe não tem tentado a mínima jogar para o time ou envolver seus companheiros, só arremessar o quanto quiser. Ele está tentando 24.5 arremessos por jogo, de LONGE a maior marca da liga (19.8 de Carmelo em segundo), e isso sem falar nas posses de bola que ele encerra com um turnover ou falta. Ele tem finalizado (via arremesso, falta ou TO) 38% das posses de bola do Lakers, de longe a maior marca da NBA também. E embora o argumento a favor dele seja "Mas se a alternativa é Lin ou Boozer, melhor que seja ele a arremessar!", é um argumento estúpido. Kobe está arremessando 39% apenas e forçando demais o jogo, de forma que isso acaba sendo muito mais prejudicial porque não trabalha a bola, não acha bons arremessos -  é só um jogador jogando 1 vs 1 quando toda a defesa sabe que ele fará isso. Sem falar na energia que ele poderia gastar na defesa - onde está TOTALMENTE desinteressado porque, afinal, você não tem estatísticas por defender bem. Não é a toa que o Lakers é um time -14.5 com Kobe em quadra e +3.6 com ele no banco (embora, para ser sincero, esses minutos sem Kobe são em sua maior parte garbage time). Kobe não quer saber de vencer, só quer saber de acumular pontos e continuar ganhando sua grana. Não que eu esteja criticando alguém por não ter vontade de jogar basquete quando seus companheiros são Xavier Henry e Boozer, mas é a verdade.

Para ilustrar esse ponto, uma coisa que eu fiz a pedido do Lucas Pastore. Algum tempo atrás, o Lakers perdeu um jogo apertado para o Suns no qual Kobe fez 39 pontos. A primeira vista, parece impressionante, mas começa a ficar ridículo quando você repara que Kobe também arremessou 37 vezes. Outras seis posses de bola de Kobe viraram faltas, e 3 turnovers. Ou seja, foram 39 pontos em 46 posses de bola, o que da a péssima marca de 0.85 pontos por posse de bola. Funhé. O que o Lucas me pediu para ver era quais jogadores do Lakers, usando suas médias, conseguiriam fazer 39 pontos se arremessassem tanto quanto Kobe naquele dia.

Desnecessário dizer, eu aceitei o desafio. Desconsiderando os turnovers, usei as marcas dos jogadores na temporada para ver quantos pontos cada jogador do Lakers faria se finalizasse 43 posses de bola em um jogo (minimo: jogadores com 30 minutos de quadra). O resultado abaixo.


Good God! Todos os jogadores que tiveram mais de 60 minutos de quadra essa temporada (todos menos os três últimos) teriam mais de 40 pontos por 43 posses de bola a exceção de Ronnie Price. Por motivos de "a amostra é muito pequena na jovem temporada", fiz o mesmo exercício para o Lakers de 2013/14, com jogadores que jogaram pelo menos 200 minutos:


Welp.

Claro, existe uma diferença grande em criar o seu arremesso como Kobe faz e simplesmente arremessar uma bola, e não quer dizer que todos esses jogadores acertariam os arremessos que Kobe acertou. Mas serve para ilustrar bem o quão ridículo é um jogador que faz 39 pontos arremessando tanto quanto ele fez aquele dia. Se ele arremessasse umas 12 bolas a menos (as piores), rodasse mais os passes, distribuísse o jogo e gastasse essa energia extra na defesa (onde ele tem sido atroz), isso não daria ao seu próprio time uma chance MUITO maior de vencer o jogo?! É claro que sim! Não tem a menor dúvida de que sim. Mas essa não parece ser a prioridade dele no momento. Não cabe a mim julgar, mas não tem a menor dúvida de que como ele tem jogado, ele está fazendo muito pelos seus recordes e muito pouco pelo time.

(De certa forma, talvez assim seja até melhor - o Lakers não ganharia anyway, sua lenda consegue alguns recordes, o time é pior e pega uma escolha Top5 para não perder sua escolha pro Suns. Kobe é um gênio do mal)


Memphis Grizzlies

Porque Tyshaun Prince ainda faz parte de um time de NBA?

O Grizzlies tem uma identidade bem determinada: muita defesa, e um ataque difícil, que depende demais do jogo de garrafão, com espaçamento de menos e bolas de três ainda mais raras. As chances do time vencer dependem diretamente do quanto seu ataque pode produzir pontos. Então a pergunta óbvia aqui seria "O Grizzlies pode anotar pontos o suficiente para competir pelo título?". Mas o problema é mais simples: Prince demais.

Piedosamente, Prince jogou apenas 5 dos 9 jogos do Memphis na temporada, mas quando jogou, esteve em quadra por um tempo ridiculamente grande, 21 minutos por jogo. Eu prefiro acreditar que isso se deve a Quincy Pondexter ainda estar voltando de lesão e aos jogos perdidos por Lee e Carter, mas o fato é que Prince é o grande problema do Grizzlies nesse começo de temporada. Com ele no banco, Memphis está pontuando a um sólido ritmo de 106.3 pontos por 100 posses, o equivalente ao ataque de Houston. Mas com Prince em quadra, esse número cai para 94.3, o equivalente a tortura testicular. Prince a esse ponto da carreira não consegue driblar, passar ou arremessar, e ninguém marca ele quando está na linha de três, permitindo ao adversário que entupa o garrafão e corte linhas de passe. Não existe nenhum motivo para ele estar com 21 minutos por jogo e atrasando um excelente time de Memphis no processo.

A verdade é que, se Z-Bo e Gasol ficarem saudáveis, esse é provavelmente o melhor time que Memphis já teve. Gasol está no auge de seus poderes, assim como Mike Conley, e o elenco de coadjuvantes é o melhor que o time já teve. Quincy Pondexter e Courtney Lee oferecem as bolas longas que o time precisa para abrir o garrafão, e Carter um pouco de criatividade a partir do drible que falta a equipe. O lineup titular do time (Conley, Allen, Lee, Zach e Gasol) está dominando oponentes com +10.1 de saldo... e a segunda lineup mais usada, que tem Prince no lugar de Lee, está sendo superada a -8.5 pontos por 100 posses. Enquanto Prince estiver do lado de fora, o time estará bem, especialmente com o trio Conley-Bo-Gasol em quadra (+12.4). Todas as lineups com dois dos três entre Lee, Pondexter e Carter anotam mais de 110 pontos por 100 posses de bola (ainda que em amostras, naturalmente, pequenas). As opções estão lá para tornar o time perigoso o suficiente no ataque, resta ver se Memphis vai conseguir usá-las e afundar Prince de uma vez por todas no banco.


Miami Heat

O mundo finalmente vai reconhecer Chris Bosh como uma estrela?

Nenhum jogador do Big Three recebeu mais críticas ao longo da Era LeBron em Miami - ganhando ou perdendo - do que Chris Bosh. Bosh era uma superestrela em Toronto antes de ir ganhar um anel em South Beach, e como ele passou a ser a terceira opção ofensiva e a jogar cada vez menos com a bola nas mãos, ele foi acusado de "aceitar" ser um role player ou jogador secundário, e até com o tempo de não ser bom suficiente. Por causa de seu papel aparentemente secundário, muitos especulavam se Miami não deveria trocar Bosh por um jogador inferior mas que fizesse o mesmo papel, liberando assim salário ou trazendo mais reservas.

Isso era ridículo porque, tirando LeBron, Bosh sempre foi o jogador mais importante daqueles times. Ele assumiu um papel menor com a bola nas mãos, é verdade, mas era a sua presença e as pequenas coisas que ele fazia que permitiam a Miami jogar como fazia: poucos jogadores de garrafão tem a velocidade, agilidade e técnica de Bosh para fazer aquelas blitz no pick and roll que era a espinha dorsal da defesa feroz de Miami, e pouquíssimos seriam capazes de recuperar com a mesma velocidade para não deixar a defesa desguarnecida. Ofensivamente ele era um jogador capaz de espaçar a quadra, atacar missmatches, jogar sem a bola nas mãos e manter o ataque rodando durante os 24 segundos. Nenhum outro jogador de garrafão na NBA inteira seria capaz de fazer o papel que Bosh assumiu dos dois lados da quadra por Miami, e ele foi uma importante força motriz por trás daquelas quatro finais: em 2014, Miami era +9.8 com Bosh em quadra e -0.4 com ele no banco; em 2013, eram +10.8 com ele e +8.4 sem ele; em 2012 era +10.8 com ele e +1.1 sem ele; e em 2011, +11.4 com ele e +1.6 sem ele. Vocês entenderam.

Bosh raramente recebeu crédito por isso durante a era Big Three, mas agora que LeBron saiu, ele finalmente está recebendo o reconhecimento que lhe deviam. Miami se manteve bem no Leste sem o King, e Bosh é um dos principais motivos disso: 22 pontos, 9 rebotes e 3 assistências enquanto ancora a defesa e é basicamente o ponto focal do ataque do time. Ele tem sido de longe o melhor jogador de um time que é o terceiro melhor do Leste e oitavo melhor da NBA com saldo de +4.0/100 posses, e é praticamente um susto quando ele erra um jumper sem marcação. Ele lidera Miami em pontos e rebotes, em PER, e é quarto (!!!) em assistências. Ele continua fazendo tudo de importante que fazia com LeBron, só que agora além disso tem jogado com a bola nas mãos mais que nunca. E agora está sendo reconhecido por isso.


Milwaukee Bucks

Brandon Knight é uma peça de longo prazo para o Bucks?

Ano passado, em um Draft bastante fraco, o Bucks saiu com o grande prêmio quando pegou Giannis Antetokounmpo com a escolha #16, um moleque de 2m10 de altura que domina a bola e se mexe como um guard, e tem um potencial imenso. Se o Draft fosse re-feito hoje, ele provavelmente seria a primeira escolha. Um ano depois, o Bucks teve a pior campanha da liga e ficou com a escolha #2, onde escolheu Jabari Parker, que apesar do começo decepcionante foi uma máquina de pontuar em Duke que tem grandes esperanças no profissional. Com Giannis e Jabari, de repente Milwaukee tem uma excelente dupla em torno da qual se construir, uma base muito promissora para seu futuro.

Ai entra Brandon Knight. Knight veio em uma troca de free agent restrito que levou Brandon Jennings a Detroit, e que o Bucks já venceu só por ter se livrado de Jennings e ter trazido Khris Middleton. Mas com o contrato de Knight a acabar, o Bucks precisa se perguntar se ele também faz parte do futuro da equipe.

Knight foi escolha #3 de um Draft fraco (2011), e nunca correspondeu em Detroit as expectativas. Ele nunca foi um PG natural, sempre alguém mais confortável jogando fora da bola e arremessando de longe. Mas ele tem só 23 anos e muito espaço pela frente, e Knight começou bem esse ano: 17 pontos, 6 rebotes, 7 assistências e chutando 40% de três. Isso tem vindo as custas de bastante tempo de bola e turnovers (lidera a liga com 32 junto de Tony Wroten, que tem um jogo a menos), mas pelo menos é algo que ele finalmente está mostrando dentro de quadra. Seu PER é o mais alto da carreira, e ele tem feito papel importante em uma defesa que é a segunda melhor desse começo de temporada.

Milwaukee tem que escolher se oferece uma extensão contratual ou não. E o valor desse contrato pode depender do quanto eles veem Knight como essa peça de longo prazo. Por um lado, ele está tendo a melhor temporada estatística de sua carreira e mostrando alguma promessa. Por outro, o ataque de Milwaukee DESPENCA com ele em quadra (88.5 com ele, 112.4 sem ele), um resultado de seu hábito de segurar demais a bola e criar a partir do drible, ao invés de rodá-la para o time. A próxima grande decisão que Milwaukee terá que tomar para seu futuro.


Minnesota Timberwolves

Porque o Timberwolves está tentando vencer?

Pode parecer uma pergunta estúpida, mas fato é que o Wolves atual não faz sentido. Depois de perceberem que não iriam a lugar nenhum no forte Oeste e que Kevin Love sairia por nada, o time trocou-o por dois jovens talentos (Wiggins e Bennett). Agora com Wiggins, Bennett e LaVine, três jovens talentos com muito potencial e que poderiam constituir a espinha-dorsal do próximo time de playoffs do Wolves em alguns anos... e ao invés de apostar nos jovens talentos, acumular escolhas de Draft e apostar nos próximos drafts para complementá-los (o de 2015, em particular, é ótimo para achar um pivô), eles gastaram uma escolha de primeira rodada para trazer Thad Young, Kevin Martin joga 33 minutos por jogo, Mo Williams 22, e Anthony Bennett tem apenas 12. Funhé.

Isso me deixa maluco. Porque não apostar nos seus jovens talentos e deixar que evoluam juntos, joguem juntos? Porque gastar ativos valiosos (como a 1st round pick que trocaram por Young) e dar amplos minutos a veteranos medíocres ao invés de deixar seus garotos se desenvolverem e aprenderem? Minnesota está sacrificando do seu futuro para isso, e os resultados que colherá no presente são pífios. Não existe nenhum motivo legitimo para o Wolves estar gastando tanto no momento que mais deveriam deixar os garotos evoluírem e apanharem um pouco, descobrindo o que tem e o que não tem nas mãos. Andrew Wiggins deveria jogar 34 minutos por jogo e dando 14 arremessos, Anthony Bennett precisava de amplos minutos em quadra e espaço para se recuperar, e Young e Martin não deveriam estar na equipe se a alternativa fossem escolhas de Draft. 

Eu entendo que o Wolves esteja cansado de perder e de reconstruir, entendo o quanto as derrotas podem acabar pesando para a franquia. Mas francamente, o Wolves não tem NADA a ganhar e tudo a perder. Ao invés de focar em uma escolha Top5 de draft, dar o comando da franquia a Rubio (de extensão nova) e Wiggins (que precisa de bastante repetições como astro do time), dar o espaço e os minutos para jovens como LaVine e Bennett precisam para virarem bons jogadores e acumular ativos, o time está gastando minutos e escolhas de Draft com veteranos medíocres, tirando minutos e repetições de seus jogadores jovens e atrasando seu desenvolvimento... para ganhar o que? O time não vai ser bom esse ano e muito menos brigar por playoffs, não importa o que façam. A melhora no curto prazo é mínima, e não trás NENHUM benefício. Esses jogadores não estarão no próximo bom time de Minny. Se é pra ser ruim, porque não fazer isso de forma construtiva a pensar no médio prazo, desenvolvendo seus jogadores e tendo boas escolhas de Draft? Se o Wolves continuar gastando recursos no presente e prejudicando seu futuro, Flip Saunders precisa ser preso por estragar o que poderia ser uma das franquias de maior futuro da NBA.


New Orleans Pelicans

Como um time com Asik e Anthony Davis pode ser tão ruim na defesa?

Omer Asik é um dos melhores defensores de garrafão da NBA, a contratação trunfo do Pelicans para formar uma destrutível dupla com Anthony Davis no garrafão. E Davis é uma força da natureza que da 4.4 tocos por jogo. É difícil encontrar dois jogadores tão temíveis defensivamente jogando juntos no garrafão na NBA de hoje.

É incrível que, para um time que possui tão formidável dupla de garrafão, a defesa do Pelicans seja tão ruim. New Orleans possui a oitava pior defesa da temporada até aqui, um ano depois de terminar com a sexta pior defesa. E o que é mais incrível, o Pelicans é particularmente vulnerável próximo a cesta: os adversários tentam 31.4 arremessos por jogo dentro da área restrita, e embora não os acertem a um nível dos melhores (59%, décima melhor marca da NBA), ainda é um número enorme de arremessos fáceis e de alto aproveitamento. Com uma muralha como Asik e um monstro que da mais de quatro tocos por jogo, é surpreendente a facilidade com que os adversários entrem no garrafão de New Orelans.

Olhando a fundo, a verdade é que a defesa de New Orelans é bastante forte quando Davis E Asik jogam juntos. Com seus dois homens de garrafão, New Orleans cedeu apenas 97.5 pontos por 100 posses de bola, uma marca que é melhor do que 29 times da NBA em 2014. A lineup titular do time - Holiday, Gordon, Evans, Davis e Asik - cede 99.4 pontos por 100 posses, uma ótima marca. Mas quando um dos dois senta... ai começam os problemas. A dupla Davis-Anderson junta em quadra cede 108 pontos por 100 posses, e a dupla Anderson-Asik cede... erm.. 113. As quatro lineups mais usadas pelo Pelicans na temporada que não tem Asik e Davis jogando juntas cedem 124, 128 206 e 120 pontos por 100 posses de bola. Muito ruim.

Em outras palavras, o Pelicans consegue uma boa defesa quando seus protetores de aro de elite estão jogando juntos, mas não separados. E isso é um grande problema. Entendo a limitação dos defensores de perímetro do time, mas com defensores como Asik e Davis, você deveria ser capaz pelo menos montar uma defesa decente, que proteja bem o aro, quando um deles está em quadra. O Pelicans investiu muito (Nerlens Noel, uma pick que virou Elfrid Payton/Dario Saric, mais uma escolha de primeira rodada de 2015, vários milhões em contratos e cap space) para montar um time vencedor para seu dono idoso, e o relógio do técnico Monty Williams está correndo.


New York Knicks

Como o triângulo tem se saído em New York?

Como todo torcedor do Knicks sabe, 2014/15 é uma pedra no caminho. A torcida de bom grado pularia esse ano se pudesse. O time é ruim e limitado, NY terá toneladas de cap space na próxima free agent, e todo mundo sabe que esse ano não vai chegar a lugar nenhum - no máximo vai disputar por uma das ultimas vagas aos playoffs, se tanto. 2015 é um ano para se beber, e muito.

Considerando que esse ano é um ano "perdido", o Knicks tem usado para fazer algumas experiências. Mais especificamente, implementar o triângulo como seu esquema padrão, agora que Phil Jax esta no comando. O triângulo é um esquema tático extremamente complexo (e que, precisa ser dito, nunca deu certo na NBA sem Jordan ou Kobe) e que demora para ser assimilado, então 2015 virou, por assim dizer, a fase de testes.

Se a pergunta é se está dando resultados... bom, não está. Ano passado, o Knicks terminou com um decente 105 pontos por 100 posses no ataque, 11th melhor marca da NBA. Esse ano o número caiu para 97.9, 9th pior da liga. Ainda assim, como eu já disse, esse não é o ano do resultado, é o ano do processo. E ele está acontecendo, e na direção certa. Ano passado, 52.4% das cestas do time vieram de assistências, a quarta pior marca da NBA e fruto de constantes isolações e jogadas mau trabalhadas. Esse ano, o número subiu para 61.7%, sexta melhor marca da liga e um resultado do triângulo, um esquema com mais passes e movimentação de bola. E assistindo ao Knicks jogar, isso realmente chama a atenção. O time parece estranhamente confortável passando a bola, rodando posições e trocando passes dentro do triângulo. Claro, muitas vezes isso acaba em um momento que o ataque não consegue mais continuar as ações, algum jogador tem uma pane mental ou em um arremesso ruim, mas isso é normal. A equipe começou recentemente a usar o triângulo, e francamente, os jogadores são muito fracos. Ainda assim, tem algo de encorajador em como a equipe parece ter incorporado bem o esquema tático mesmo sem Calderon.

O grande problema do triângulo até aqui - tirando a incapacidade de quem o tem executado - é que, por causa do constante fluxo, tem tirado um pouco demais a bola das mãos de Carmelo, o único bom jogador do time. Seus números de pontos caíram (em parte por arremessar menos, em parte por estar arremessando pior) e os de rebotes também (por jogar mais longe da cesta, de SF). Ainda assim, pensando no futuro, não é uma coisa ruim - Melo parece estar bem integrado ao triângulo em termos de passes, mostrando boa visão de jogo para achar seus companheiros. A volta de Bargnani, um PF capaz de acertar arremessos e abrir um pouco a quadra, provavelmente vai ajudar. Os resultados estão ruins, mas o processo parece ter começado bem.


Oklahoma City Thunder

Quantas vitórias OKC precisa antes da volta de Durant e Westbrook?

Sem Westbrook em boa parte do ano, Durant conseguiu levar muito bem OKC a 58 vitórias em 2014. Sem Durant para começar o ano, era esperado que Westbrook fizesse algo semelhante ao time nesse começo de temporada. Sem Durant E Westbrook? Ai as coisas começam a se complicar.

Durant e Westbrook devem perder entre quatro e seis semanas, o que da algo como 20 jogos, talvez um pouco mais. Enquanto isso, sem eles, OKC tem uma das piores lineups da NBA inteira: Reggie Jackson, Jeremy Lamb, Perry Jones, Serge Ibaka e Steven Adams. Desnecessário dizer, OKC tem sido um dos piores times desse começo, com apenas três vitórias e um saldo de -7.0 pontos por 100 posses de bola, quinta pior marca da liga. E esse é o grupo que tem que manter o time vivo até a volta de Durant e Westbrook se OKC não quer perder os playoffs, ainda mais com Kevin Durant tão próximo de virar Free agent. O que pede essa pergunta: qual tem que ser o record da equipe nesses primeiros jogos para que, com suas estrelas de volta, o time ainda tenha condições de ir aos playoffs?

O Oeste é uma conferência brutal, e ano passado a 8th seed (Dallas) precisou de 49 vitórias para chegar a pós-temporada. Com a conferência ainda bastante forte - e talvez até mais forte que antes - 50 vitórias me parece o ponto que OKC precisa cruzar para chegar aos playoffs com algum conforto. Digamos que Durant e Westbrook joguem os 60 jogos finais da temporada, sem perder mais tempo e sem nenhuma ferrugem de seu tempo parado. Nos últimos dois anos, OKC venceu 72% de seus jogos, o que daria 43 vitórias em 60 jogos. Digamos, entre 43 e 45 vitórias para um OKC completo. Então para chegar a 50 vitórias, o Thunder precisaria de entre 5 e 7 vitórias de seus reservas em 22 jogos. É possível, sem dúvida - já tem três - mas não será fácil. Ainda assim, o calendário pode ajudar - enfrentam Pistons 2x, mais 76ers, Knicks, Jazz e Nuggets antes da volta de suas estrelas. Mas o time atual é ruim, e ainda que 6-16 esteja dentro das possibilidades da equipe, também está 4-19. A equipe desfalcada terá que fazer o possível para sequer manter seu time vivo antes da chegada da cavalaria... e isso sem contar o quanto mando de campo pode importar em um disputado Oeste.


Orlando Magic

O Magic consegue arremessar consistentemente bem?

O problema com Orlando antes da temporada começar era que o time não apresentava em seu núcleo nenhum arremessador tirando o recém-contratado Channing Frye, e que isso prometia ser um problema em termos de espaçamento. Até aqui, foi metade verdade: o Magic está chutando um respeitável 39% da linha dos três pontos, mas por outro lado, a verdade é que ninguém se importa de marcar Orlando fora do garrafão. E isso tem sido um problema para Orlando.

Os números de Orlando de fora são bons graças a algumas boas seqüências (insustentáveis) de alguns jogadores como Evan Fournier e Aaron Gordon, mas basicamente são bolas de três livres porque ninguém se encarrega de marcar Orlando fora do garrafão. O Magic é o sexto time que menos arremessa de fora na NBA, e o oitavo que menos arremessa da zona morta, o melhor arremesso de três do jogo e o que mais abre espaços. Sem nenhum jogador além de Frye que exige atenção da defesa de fora, os adversários de Orlando ficam mais do que contentes em congestionar o garrafão e deixar que o time aproveite bolas livres da linha dos três pontos. E na NBA moderna, isso é morte. Sem abrir espaço no garrafão você tem muito mais dificuldade para atacar a cesta, driblar e fazer passes rápidos, e é isso que Orlando tem sofrido tanto - não é a toa o time aparece como o quarto que mais comete turnovers e o que mais tenta arremessos difíceis e de pouco aproveitamento da cabeça do garrafão (o tipo de floater difícil que você tenta em uma infiltração quando seu caminho até a cesta está interrompido). E como consequência, Orlando tem o quinto pior ataque da NBA e está 2-6 nesse começo de ano. 

Para mim sempre houve um problema na montagem de time em Orlando, e ainda que a equipe não tenha pressa, a essa altura já esperava um pouco mais de retorno no seu investimento dentro de quadra. Algo para se monitorar com o tempo. 


Philadelphia 76ers

O Sixers deveria ser rebaixado para a D-League?

Sim.

Ok, deixa eu tentar outra pergunta: será que é hora do Sixers começar a ouvir propostas de troca por seus jovens?

A verdade é que o Sixers deu azar no Draft de 2015. Esse Draft tem uma coisa em abundância - homens de garrafão. Tirando um PG (Mundiay), todos os principais prospectos são Cs ou PFs, e o Sixers com quase toda a certeza terá uma escolha Top4, onde nenhum jogador que não seja um PF, C ou Mundiay sairia de jeito nenhum. Mesmo ao longo da primeira rodada, predominam os homens de garrafão com poucas boas opções de perímetro... Só que o Sixers já tem Nerlens Noel, Joel Embiid e até Saric esperando na Europa. Não acho que tenha pressa, muita coisa pode acontecer entre hoje e o fim do ano, mas conforme o Draft e a temporada do Sixers for tomando forma, acho bem possível que a conclusão seja de que a melhor opção para a equipe seja draftar logo um PF ou C (para mim, Towns seria o complemento perfeito a Embiid ou Noel). 

Se for o caso, o Sixers vai ameaçar ficar com QUATRO jogadores de garrafão escolhidos alto no Draft, três deles nunca tendo jogado um minuto de basquete na NBA. É impossível dar minutos e espaço a todos esses jogadores e desenvolver todos ao mesmo tempo, então a conclusão óbvia é que alguém tem que ser trocado. Assim com Phily não tem pressa para vencer, não deve ter pressa para achar uma troca, mas ficaria muito surpreso se não estivessem começando pelo menos a escutar e procurar discretamente algumas ofertas por Noel, ainda mais se ele continuar jogando bem.


Phoenix Suns

Como o Suns dará o próximo passo?

Ano passado, o Suns trocou alguns jogadores, acumulou escolhas de Draft, e parecia pronto para fazer um projeto de reconstrução... até que de repente Goran Dragic explodiu, o time achou uma identidade, correu e arremessou muito de três, e quase foi aos playoffs no forte Oeste. Um ano depois, o Suns deixou de ser um time em tank para ser um competidor sério no Oeste, inclusive gastando dinheiro em free agents, como Isaiah Thomas.

O problema é que o Suns não é um candidato ao título ainda, então fica a dúvida de como podem dar o próximo passo para se tornar um. Eles não possuem uma grande estrela ou um jovem talento que possa se tornar uma. Eles possuem muitos bons jogadores, e uma identidade estabelecida, mas não é suficiente para que em alguns anos estejam disputando títulos.

A melhor solução para o Suns seria arrumar uma troca. O time tem um valioso ativo em uma escolha de Draft do Lakers (protegida Top5 para 2015), e vários jovens ativos que podem ser trocados, incluindo Bledsoe, Ennis, Warren, um Morris, e por ai vai. Dragic é um free agent, então se acharem que ele não voltará para o futuro, também podem trocá-lo em um pacote. Quem ir atrás é mais difícil. Al Horford dificilmente estaria disponível, e Rondo não faz tanto sentido em um time que já tem tantos armadores. As opções atuais não são das melhores, e a não ser que alguma oferta apareça no mercado, não vai ser fácil.

Outra opção seria manter o espaço salarial limpo para tentar trazer um free agent no futuro próximo. Phoenix é uma cidade quente e atrativa, o Suns joga em um ritmo veloz e divertido, e eles ganharam boa visibilidade no mercado quando pagaram o pouco a mais que Eric Bledsoe queria para reassinar o contrato - se conseguirem se manter relevantes no Oeste enquanto isso, pode facilmente se tornar  um destino muito atraente para jogadores sem contrato.

Vai ser interessante ver o que o Suns tenta fazer daqui, porque não existe um caminho claro a ser seguido.


Portland Trail Blazers

Chris Kaman era a peça que faltava para o Blazers competir por um título de verdade?

Ano passado, o time titular do Blazers foi muito bom, um grupo bem entrosado de bolas longas que rodava muito bem a bola, se movia bem e vivia de achar o companheiro livre. O quinteto titular terminou o ano com +8.3 de saldo por 100 posses jogando junto. O problema era que o time dependia um pouco DEMAIS desses titulares, e quando o banco entrava, começava a desgraça: com NENHUM jogador de banco do Blazers de 2014 (que jogou pelo menos 200 minutos) em quadra o time teve saldo acima de +1.2. Isso foi especialmente verdade no garrafão: quando Meyers Leonard (-12.1 em quadra) ou Thomas Robinson (-4.9) entravam no lugar de Aldridge e/ou Robin Lopez, o time despencava dos dois lados da quadra. A diferença do Blazers com e sem Aldridge era de 9.6 pontos por 100 posses (7.1 para -2.5), e para Lopez era de 6.5 (5.8 para -0.7). O time titular era muito bom, mas não aguentava o ritmo sem os reservas para ajudar.

Em 2015, o Blazers de novo começou muito bem. Como era de se esperar de um grupo que manteve a base, o entrosamento melhorou ainda mais e o time parece estar sempre na mesma página, mantendo o estilo de bolas longas e trocas de passe: é o segundo melhor ataque do ano até aqui (109.1), e não é difícil achar a causa. Portland atualmente é segundo na temporada em assistências por jogo, e terceiro em assistências por posse de bola, um time que sabe perfeitamente achar os espaços e dobrar defesas. Como consequência, é um time que sempre acha os arremessos que quer, em geral atrás do aro: é segundo em 3PT por jogo, segundo em porcentagem dos pontos vindo de 3PTs, e quinto em aproveitamento de três pontos.

O time titular tem sido ótimo, como esperado (+8.5), mas a grande diferença nesse ano para o Blazers é que agora o banco (até aqui) deixou de ser um grande ponto fraco. E isso se deve principalmente a chegada de alguém para tirar os minutos dos Freelands, Robinsons e Leonards da vida: Chris Kaman. Kaman imediatamente assumiu o papel de sexto homem para ancorar as lineups vindas do banco, e ele tem sido absolutamente dominante, com 10-7 e 1.6 tocos em apenas 19 minutos por jogo (isso da 19-12-3 por 36 minutos). Quando Aldridge ou Lopez saem, Kaman tem conseguido muito bem comandar as lineups dos dois lados da quadra, protegendo o aro de um lado (adversários estão chutando apenas 44% perto do aro contra Kaman) e rodando a bola e jogando bem de costas para a cesta do outro. Com Kaman em quadra, o Portland tem superado os adversários por 16.9 pontos (!!!) a cada 100 posses de bola, uma marca incrível. Ele é o principal motivo para o banco do Blazers estar sendo realmente um ativo e não mais uma fraqueza.

Não da para dizer se isso vai durar por muito tempo, especialmente dadas as lesões de Kaman ao longo da carreira, mas nesse começo de ano o pivô tem sido a grande diferença do Blazers. A lineup titular continua ótima, rodando a bola e chutando de três, mas agora eles possuem um jogador para fazer a diferença vindo do banco, alguém que permita ao técnico Terry Stotts tirar seus homens de garrafão sem destruir o funcionamento da equipe e usar mais o banco sem perder o ritmo. Essa pode ser a diferença para o Blazers entre uma surra na segunda rodada e uma vaga nas Finais do Oeste.


Sacramento Kings

Stauskas?!

Ok, ok, falando sério...

Boogie Cousins vai conseguir ficar em quadra o suficiente?

Em 2014/15, Cousins tem médias de 26.2 pontos, 13.2 rebotes e 1.7 tocos por 36 minutos. As três, se mantidas, seriam as melhores marcas da sua carreira.

O problema aqui é o "por 36 minutos", porque Cousins não está jogando tanto tempo assim. Seus 30.4 minutos por jogo em quadra são sua pior marca desde a temporada de calouro. E isso acontece porque Boogie Cousins lidera a NBA, com folga, em faltas - são 44 em 9 jogos. Em outras palavras, HOLY SHIT!!! Até agora, em 9 jogos, Boogie foi expulso de quadra duas vezes e terminou o jogo com cinco faltas em outras cinco ocasiões. Em quatro dessas, seus minutos foram limitados por causa das faltas, e ele ainda não jogou 35 minutos em nenhum jogo essa temporada. Ele falhou em atingir 30 minutos três vezes na temporada.

O Kings é um time que está cansado de perder e está investindo para tentar ser competitivo o quanto antes, e Boogie é o centro desse projeto, um dos mais destrutivos jogadores da NBA e que está evoluindo muito dos dois lados da quadra. Esse era para ser o ano que Boogie iria estourar, e em um nível por-minutos ele está realmente jogando seu melhor basquete. Mas ele precisa parar com tantas faltas e permanecer em quadra o máximo possível, porque sem ele, Sacramento despenca: com Boogie em quadra, Sacramento é um time +14.2 por 100 posses, mas com ele no banco, é um time -19.3. Essa é a diferença entre o melhor time da NBA e o time do meu condomínio.

Você pode procurar na NBA inteira que não vai achar um jogador que faz tanta diferença nesse sentido quanto Cousins, e se você está querendo vencer agora - como o Kings quer - então você precisa de Boogie em quadra, não no banco remoendo uma falta besta. Ele precisa evoluir nesse quesito se o Kings quer ser competitivo, porque talento para fazer a diferença ele tem.


San Antonio Spurs

Devemos nos preocupar com San Antonio?

Nope. Todo ano San Antonio começa o ano lento, lidando com lesões, Pop descansando seus jogadores e com o time ainda encontrando seu melhor ritmo. Enquanto isso, jogadores como Cory Joseph e Aaron Baynes vão ganhando minutos e experiência, se tornam armas legitimas da equipe, e eventualmente o time inteiro de San Antonio começa a encaixar, fica descansado para a reta final, e quando percebemos eles ainda tem 60 vitórias e o topo do Oeste. Muitas vezes vimos o Spurs começar o ano devagar, muitas delas nos perguntamos se deveriam nos preocupar, e sempre San Antonio nos fez comer nossas palavras, muitas vezes até com títulos. Não caiam nessa.


Toronto Raptors

O Raptors é um legítimo candidato ao título (do Leste)?

Em poucas palavras, sim, especialmente se Cleveland continuar sem engrenar na defesa. Ano passado, Toronto foi o terceiro melhor time do Leste em diferencial, terminando em nono na NBA inteira e atrás apenas de Pacers e Heat. Com Stephenson fora e George machucado, o Pacers fede, e o Heat não tem mais o melhor jogador do mundo. Toronto trouxe de volta todo mundo de 2014, então não só não perdeu como até evoluiu: James Johnson reforçou o banco e tem vindo bem do banco, e alguns jovens jogadores estão cada vez mais próximos de seu auge. Não é de surpreender que o Raptors entre em 2015 mais forte que terminou 2014.

Hoje, nessa temporada ainda jovem, Toronto é o quinto melhor time da NBA em saldo (+7.1/100) e o melhor do Leste. Seu ataque tem sido espetacular nesse começo de ano, terceiro melhor da liga. E talvez mais importante, o Raptors tem pouca concorrência no Leste no momento. Chicago não é ameaça enquanto Rose não ficar saudável. Cleveland tem muito chão para andar. Pacers não é mais competitivo. A temporada ainda é jovem demais e muito ainda vai acontecer, mas hoje, o Raptors parece ser o time mais bem posicionado para ir as Finais do que qualquer outro do Leste até que algo mude. E eles estão jogando para tanto.

Eu sei os problemas do time. Falta aquela superestrela, e é um time muito jovem, não testado nos playoffs. Chicago expôs alguns dos problemas ontem a noite. Ainda assim, em algum momento o talento começa a falar. Entre o que fez em 2014 e o que está fazendo em 2015, é hora de reconhecer Toronto como um legitimo contender. Por mais estranho que isso pareça de se ler.


Utah Jazz

Porque Dante Exum está jogando tão pouco?

Dante Exum era a grande jóia desconhecida do Draft de 2014, um jogador talentoso e com enorme potencial que ninguém sabia o que esperar, já que nunca tinha jogado acima do nível colegial na Austrália. Ninguém tinha visto Exum em ação além disso e da seleção Sub-19 da Austrália, e apesar de muito talentoso, ainda parecia bastante cru. 

E sim, eu entendo a idéia de não gastar seus calouros tão cedo. Entendo que o Jazz não queria expor tanto um jogador jovem e cru como Exum. Mas isso não quer dizer que o Jazz precisa fazer de tudo para evitar usá-lo, especialmente porque o australiano já se mostrou muito mais avançado do que todos esperavam: ele tem a paciência de um veterano e sabe muito bem encontrar os ângulos abertos ao invés de atacar a defesa sem pensar. Ele consegue ver o jogo muito melhor do que o esperado, e apesar das ocasionais besteiras de calouro, ele já está muito acima do que todos esperavam. Eu, pessoalmente, estou convencido que Exum vai ser uma estrela.

E ainda assim, o Jazz tem sido relutante em usá-lo. Quatro noites atrás, contra o Pistons, Exum estava sendo possivelmente o melhor jogador de Utah em quadra e acabou com um 9-5-3 em 20 minutos... e mesmo assim teve só 6 minutos no primeiro tempo, e só jogou no segundo porque Burke estava com problemas de faltas. Mesmo que os minutos de Exum tenha aumentado, seu papel continua baixo, muitas vezes ficando esperando de lado enquanto Burke, Burks ou Heyward driblam a bola e finalizam com arremessos ruins.

Sinceramente, não tem nenhum motivo para Exum ser tão pouco usado em Utah. Por um lado, ele precisa de experiência e rodagem para continuar desenvolvendo seu jogo. Por outro, ele tem jogado muito bem, e mesmo que Utah esteja começando a querer ganhar para dar o próximo passo em sua reconstrução, e o Jazz tem jogador melhor com o garoto em quadra - Utah é um time +2.3 por 100 posses com ele em quadra e -7.6 com ele no banco. Além disso, Trey Burke está horrível nesse começo de ano e tem um potencial bem menor. Usar Exum o máximo possível - e não só por tempo, como com a bola nas mãos e com mais responsabilidades - é melhor para Utah no curto E no médio prazo. Porque está demorando tanto?


Washington Wizards

Washington pode vencer um titulo com Beal e Wall?

Washington começou muito bem a temporada. Seu record 6-2 é o terceiro melhor do Leste, assim como seu diferencial é o quarto (+3.4, atrás de Raptors, Bulls e Heat). E fizeram tudo isso apesar de estarem sem o seu segundo melhor jovem jogador, Bradley Beal.

Beal, que ano passado teve média de 17-3-3 chutando 40% de três em sua segunda temporada apenas na NBA, vai perder as primeiras 8 semanas da temporada com uma mão quebrada. E não é difícil imaginar o impacto que ele teria quando voltasse - Washington tem uma forte defesa, mas o ataque tem sido apenas mediano. Isso acontece em grande parte porque o time não tem aproveitado os chutes de fora: só o Kings e o Wolves anotam uma porcentagem menor dos seus pontos em chutes de três, e só Wolves e Grizzlies tentam menos arremessos de fora. O arremesso de três não é importante só por valer mais, mas sim porque isso obriga a defesa a marcar jogadores mais longe do garrafão, abrindo assim espaços para o ataque. Digamos que ter de volta Bradley Beal - um exímio chutador de três que tem 40% de média na carreira em 4.5 arremessos por jogo - vai ajudar bastante esse ataque. Beal arremessou 42% ano passado do topo do arco, onde o Wizards é o time que menos tenta arremessos da NBA. A presença dele vai ajudar bastante esse ataque que precisa de reforços.

Se a defesa - atualmente no Top5 - conseguir se manter boa com a volta de Beal, os arremessos do terceiro-anista tem tudo para reforçar ainda mais esse ataque e tornar Washington um time realmente forte. Quando junto em quadra, o quarteto Beal-Wall-Gortat-Nene superou os adversários por quase 11 pontos por 100 posses em 2014, e o time atual é mais versátil e mais profundo do que o do ano passado, com um ano extra de entrosamento. Se isso acontecer, o Wizards entra naquele grupo de bons times do Leste que estão definitivamente brigando por uma vaga nas Finais enquanto um time dominante não se manifestar.

Mas a grande vantagem do Wizards é que, apesar de condições de brigar no Leste atualmente, a espinha dorsal da equipe consiste de dois jogos com menos de 24 anos, Wall e Beal. Mesmo que no curto prazo a janela se feche, a equipe ainda controlará esses dois por mais um bom tempo, com a perspectiva de um bom espaço salarial se abrindo em breve para tentar talvez a grande estrela (Durant, que é de Washington e supostamente estaria pensando em uma volta para casa) ou pelo menos algum bom jogador. No curto prazo, a janela do Wizards no Leste está aberta, mas ao contrário de outros times, o seu potencial no médio e longo prazo é ainda maior.