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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Carolina Panthers


Homens crescidos também brincam de pular cela


Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North, os previews da NFC North, e agora os da AFC South, começamos a falar da NFC South pelo interessante Atlanta Falconspelo campeão de 2009 New Orleans Saints e pelo promissor Tampa Bay Bucs. Hoje é a vez do Carolina Panthers. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Carolina Panthers

2012 Record: 7-9
Ataque ajustado: 10th
Defesa ajustada: 11th


Se não fosse pelo Saint Louis Rams, o Panthers provavelmente ganharia meu "Troféu de Melhor Time que Ninguém Presta Atenção". Eles foram um time muito bom em 2012 se olharmos os dados, tiveram indicadores de azar, possuem um núcleo razoavelmente jovem e promissor... mas mesmo assim foi um time que todo mundo descartou e ninguém prestou atenção na parte boa.

E isso acontece por uma variedade de motivos, o mais importante sendo provavelmente que o Panthers só se encontrou e explodiu no final da temporada, ganhando cinco dos seus últimos seis jogos depois de começar 2-8. Outro foi porque a tabela da equipe foi uma montanha russa, alternando momentos bem difíceis com adversários bem fracos, tornando difícil separar as coisas. Outro foi porque, por algum motivo, Cam Newton virou o novo QB que todos adoram reclamar e desconstruir (na verdade, tem alguns motivos, mas chegaremos nisso) e então isso acabou dominando as manchetes sempre que alguem falava do Panthers. Mas não se enganem, o Panthers foi um bom time que está caminhando para voltar aos playoffs... só provavelmente não esse ano.

Para começar, precisamos falar pelo Cam Newton, o principal e mais polarizador jogador dessa equipe, e para isso precisamos voltar um pouco no tempo. No caso, voltamos para 2010. Newton estava terminando uma sensacional temporada em Auburn, ganhando o Heisman Trophy e liderando Auburn a um título do BCS com a melhor campanha (invicta) do país. Foi uma das melhores temporadas dos últimos anos no nível universitário, mas mesmo tendo sido o melhor jogador do país, no draft do ano seguinte Newton não era uma unanimidade. Eu já falei um pouco sobre esse draft quando falei do Titans, mas para aprofundar mais na questão de Cam, ainda tinham dúvidas se ele sequer era o melhor QB da classe (alguns defendiam, sim, Blaine Gabbert como sendo o melhor). Seu talento era inegável e seu potencial era fora de série, mas as questões sobre sua atitude e dedicação colocavam algumas dúvidas sobre como ele iria evoluir e render em uma liga onde, ao contrário da NCAA, ele não poderia dominar somente com seu talento natural. Lembrava um pouco as questões da época que o Michael Vick entrou na liga: grande talento, fenomenal potencial, o que tiver a chance de pegá-lo não pode deixar passar... mas ninguém tinha muita certeza se queria ele no seu time, também. Na época, o Chargers trocou a 1st pick para o Falcons (que pegou Vick) por outra 1st round pick (LaDainian Tomlinson) e uma escolha futura de segunda rodada (e depois usaram a sua própria 2nd rounder para pegar Drew Brees), e a gente sabe o que aconteceu com Vick, Brees e LT. Newton proporcionava uma questão semelhante, chegando perto do draft todos o viam como a 1st pick, mas todos tinham aquele olhar de "sorte que não sou eu que tenho que tomar essa decisão".

O Panthers acabou ficando com Newton, e no primeiro ano foi um sucesso. Newton foi muito bem, quebrou uma meia dúzia de records e conseguiu nota máxima no quesito "você nunca muda de canal quando esse cara está jogando" apesar do time fraco. Ele era explosivo, conseguia fazer boas jogadas com seu braço de canhão e era fenomenal correndo com a bola, e logo todo mundo subiu na Cam Bandwagon esperando para ver o que esse cara iria aprontar no seu segundo ano. Ao final da temporada, Cam ganhou Rookie of the Year e parecia uma garantia para estourar no segundo ano... o que não aconteceu. As defesas adversárias entraram para 2012 mais preparadas para enfrentá-lo, Newton não conseguiu se adaptar, e o Panthers começou muito mal a temporada. E como sempre acontece nesses casos, as pessoas pararam de olhar para o lado bom de Newton e começaram a olhar para o lado ruim (apesar de uma tabela brutal para começar o ano): sua falta de liderança (alguns companheiros de time até reclamaram disso na imprensa), o fato de sua falta de evolução ano a ano ser atribuído a uma falta de dedicação nos treinos e nos estudos, sua ineficiência dentro da red zone, o fato de que com cada derrota ele parecia mais irritado e mais inconsistente, etc. As frustrações acabaram levando a melhor de Newton, que pareceu sentir o golpe, reclamou dos companheiros e da mídia, pareceu uma criança mimada e recebeu ainda mais críticas por isso, dentro e fora do time. Quando o ângulo "Cam Newton é uma criança mimada que não tem como funcionar na NFL" já estava batido até dizer chega, o calendário do Panthers passou da fase "corredor polonês" para "AFC West", a equipe ganhou um ou dois jogos, o time parou de reclamar e focou em jogar bola, Newton explodiu e o Panthers varreu todo mundo que passou na sua frente... claro, quando ninguém mais prestava atenção na equipe.

Minha teoria sobre Cam Newton: ele nunca perdeu na vida. Nunca. Nunca perdeu na High School, e não perdeu um jogo sequer em Auburn (seu único ano como titular no College) antes de conquistar o título e o Heisman. Tudo sempre veio fácil para ele, com seu físico e seu talento natural, e ele simplesmente não sabe perder, e lidar com a derrota. Jogadores profissionais aprendem com os erros na derrota e aprendem a deixar isso para trás e focar no próximo jogo, mas como ensinar a um QB de 23 anos que nunca perdeu um jogo na vida a lidar com isso de uma hora para outra, explicar para ele que agora ele vai ter que perder por alguns anos antes de competir com os grandes, e que seu enorme talento aqui é só mais um no meio de vários? É sequer possível fazer isso? Não sei, temos exemplos históricos de jogadores assim que funcionaram e que não, e no final depende de Cam. O que eu sei é o seguinte: Newton tem apenas 24 anos e toneladas de talento. Ele já é um QB acima da média da NFL (15th em produção ajustada, 16th em QBR para 2012) e tem as ferramentas para ser ainda mais especial, com um incrível 7.8 jardas por passe (embora complete menos de 60% deles) e como um dos melhores corredores da liga entre QBs. Ele tem tudo pra evoluir em um Top10 QB daqui a poucos anos quando Manning, Brady e os vovôs estiverem aposentando. Claro, Newton ainda tem muito para se tornar um QB de elite, desde os intangíveis até coisas muito mais práticas como melhor tomada de decisões na red zone, aproveitar melhor os passes e capacidade de ler a defesa adversária antes do snap, mas se você está descartando um QB com tudo isso de positivo depois de apenas duas temporadas como profissional, você provavelmente nasceu de sete meses ou algo assim.

E não é como se Newton tivesse um ataque muito bem montado e complexo ao seu redor como, digamos, Colin Kaepernick (embora sim, eu prefira ter Kaepernick do que Newton a esse ponto). Ele é praticamente todo o ataque, liderando o time a um 8th melhor ataque terrestre apesar de seu melhor RB (DeAngelo Williams) não estar entre os 25 melhores da temporada pelas estatísticas do Football Outsiders (ou se quiser ser mais prático, Williams não passou de 750 jardas - Newton teve 7 jardas a mais, na verdade) e jogando sem nenhum outro WR confiável além de Steve Smith (seu aproveitamento nos passes realmente poderia usar um WR de meia distância). Sua linha ofensiva não é das melhores, e mesmo assim o ataque conseguiu terminar entre os 10 melhores da temporada. Isso é impressionante. Também vale destacar que um pouco dessa enorme variação - começar o ano muito mal e terminar muito bem - aconteceu por causa do calendário que passou de "brutal" para "moleza" mais ou menos lá pela rodada 9 ou 10, e o Panthers não está entre os times com maior variação (ajustada) de performance ao longo do ano. Mas ainda existe uma melhora gradual ao longo do ano, de forma que o Panthers - que terminou o ano 13th em eficiência ajustada - terminaria a temporada em 9th usando a estatística ponderada (ou seja, atribuindo maior peso as rodadas tardias da temporada).

Um dos meus problemas com esse ataque, na verdade, é como ele é construído. Eles pagaram um dinheiro enorme para DOIS RBs que deveriam ser o foco da equipe (Williams e Jonathan Stewart) sendo que os dois JUNTOS mal combinaram para 1000 jardas e são secundários nesse ataque. Times como 49ers, Redskins e Patriots já não mostraram que a melhor forma de conseguir um grupo profundo de RBs hoje em dia é apostar nas rodadas tardias do draft e seus salários menores ao invés de pagar um absurdo para alguém como Stewart não chegar nas 400 jardas? E isso sem falar no fato de que as peças colocadas ao redor de Newton (tirando a boa contratação de Greg Olsen) não são exatamente as mais inteligentes. Adicionar jogadores de velocidade como Ted Ginn significa que o Panthers quer dar mais opções para Newton explorar seu fortíssimo braço, eu entendo, mas ele já não mostrou que consegue fazer isso com os jogadores em mãos? Porque não ir atrás de um bom slot ou possession receiver para dar a ele o que ele NÃO tem e ver se isso contribui para seu desenvolvimento ou mesmo se ele é capaz de jogar dessa maneira? Eu entendo a idéia de montar um ataque em torno das forças de um certo QB (você não vai encher o ataque de jogadores de velocidade como DeSean Jackson para Alex Smith, por exemplo), mas com um jogador indo para seu terceiro ano é um absurdo assumir que você já sabe quais são exatamente suas forças e fraquezas jogando em um ataque tão incompleto. Isso é algo que me incomoda e que, pelo menos por enquanto, vai limitando o potencial desse time de verdade, tornando-o muito mais simples de defender. E Newton também.

Mas onde o Panthers realmente não recebe a atenção merecida é na defesa. Eu realmente questiono se o salto de pior da NFL para 11th melhor em uma temporada é sustentável (provavelmente não, especialmente considerando que foram o quarto time mais sortudo recuperando fumbles), mas o fato é que essa é uma unidade que está se montando muito bem. Em 2012, o grupo evoluiu muito com a chegada do espetacular calouro Luke Kuechly, uma força no meio dessa defesa tanto contra o jogo terrestre (103 tackles solos) como contra o passe (duas interceptações, oito passes desviados). Kuechly surgiu na liga como o melhor jovem MLB e um verdadeiro monstro, e juntando isso a mais uma boa temporada de Charles Johnson (12.5 sacks), essa defesa finalmente achou algo para se montar em torno, e o resultado foi positivo. Os role players foram sólidos, o meio da defesa foi uma fortaleza, e basicamente tudo encaixou no seu lugar durante esses 16 jogos.

Se você quer descartar o nível (11th overall) como sendo uma aberração, tudo bem, tem muitas coisas que nos levam a essa conclusão. Mas uma coisa não pode ser descartada, que é a evolução que esse grupo teve, especialmente com a chegada do que parece ser uma estrela em Kuechly. E em 2013, considerando que a equipe trouxe um dos meus LBs favoritos em Chase Blackburn e draftou o que muitos consideravam o melhor defensor dessa classe (Star Lotulelei), a evolução dessa defesa provavelmente vai continuar em 2013. A linha de frente, pelo menos, promete ser espetacular com duas forças dominantes na linha (Lotulelei e Johnson) e o que pode ser um dos melhores grupos de LBs (numa defesa 4-3) dos últimos anos se Jon Beason ficar saudável (o que ele não vai, mas enfim, ainda é um grupo muito bom). Pelo menos no papel esse é um grupo assustador para os ataques terrestres, especialmente considerando que o Panthers já teve uma defesa terrestre muito boa em 2012 (11th) sem Lotulelei e Blackburn. Mesmo com a regressão esperada, esse grupo ainda tem tudo para ser muito bom e evoluir rumo a um dos melhores grupos da liga.

A secundária preocupa mais, especialmente considerando que dos quatro titulares de 2012 um era um calouro, um era um veterano da equipe que sempre foi um jogador mediano, e os outros dois eram castoffs com pouca ou nenhuma experiência como titulares em tempo integral... e de repente esse grupo começou a jogar muito bem. Não que seja impossível que os jogadores simplesmente tenham evoluído ou aproveitado bem sua primeira chance a jogar todo dia, mas eu sempre fico um pouco em dúvida quando um grupo de jogadores assim de repente começa a render depois de anos de mediocridade. A equipe não fez nenhum movimento para reforçar a secundária além de trazer DJ Moore - um decente nickel - possivelmente porque confiam nesse grupo para manter o bom nível, mas ainda é uma aposta interessante. A chegada de Lotulelei provavelmente significará mais pressão no QB, o que ajuda qualquer secundária, mas as dúvidas vão acompanhar esse grupo, e eles limitam consideravelmente o potencial dessa defesa. Vão precisar de mais do que isso para provar que não foi um ano fora da curva, especialmente com a pedreira que vão enfrentar pela frente.

Mas além de toda essa evolução esperada, o caso para colocar o Panthers em 8-8 ou acima vem também do seu record em jogos decididos por uma posse de bola. O Pythagoran Expectations do time foi um pouco abaixo de 8-8, então isso já poderia indicar alguma evolução pequena, mas o fato é que a equipe terminou o ano um incrível 0-7 em jogos decididos por uma posse de bola, o que da alguma margem para confusão. Se tivessem ido 3-4 nesses jogos, terminariam o ano 10-6 com uma Pythagorean Expectation de quase 8-8, o que indicaria regressão. Agora, estão próximos da sua PE com um record que indica regressão positiva. No que acreditar? Vale citar também que, embora não se enquadrem normalmente na estatística, o Panthers terminou o ano com três vitórias por exatos oito pontos. É realmente difícil indicar qual vai ser o sentido disso, embora a Pythagorean seja em geral mais precisa medindo o verdadeiro nível de um time. 

Eu não consigo colocar o Panthers acima de 8-8 ainda por alguns simples motivos. Apesar dessa possível evolução do último parágrafo, a equipe ainda vai regredir nos fumbles (62.5% recuperados em 2012, quarta melhor marca da liga, e em geral foram fumbles na red zone do seu ataque que fizeram muita diferença) e essa defesa provavelmente vai sentir a queda da secundária, ainda que esteja melhor na linha de frente. Mas o motivos mais importante é esse: em 2012 a equipe, apesar de sua evolução ao longo do ano, sofreu bastante contra os adversários mais fortes e aproveitou os mais fracos. Foram apenas duas vitórias contra times 8-8 ou acima (Falcons, at Washington) e seis derrotas. Isso é relevante porque em 2012 o Panthers teve um calendário acima da média, mas em 2013, ele projeta ter o PIOR calendário de toda a liga. Claro que isso é baseado nos dados de 2012 e muda de um ano a outro, mas é um calendário que inclui quatro jogos contra a absurda NFC West, seis dentro dessa divisão que promete ser insanamente competitiva, e mais três jogos contra Vikings, Giants e Patriots. Então mesmo por senso comum, é uma tabela que promete ser dificílima, e por isso acho que mais um ano evoluindo e ficando nesse 7-9/8-8 vai ser mais realista, especialmente se Newton não continuar sua evolução. Mas fica o aviso para prestar mais atenção nesse time jovem e cheio de potencial para o futuro que é melhor do que muita gente imagina nesse momento.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - Tampa Bay Buccaneers

LeGarrett Blount tem como passatempo dar cambalhotas na Red Zone


Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North, os previews da NFC North, e agora os da AFC South, começamos a falar da NFC South pelo interessante Atlanta Falcons e pelo campeão de 2009, New Orleans Saints. Hoje é a vez do "novo rico" Tampa Bay Bucs. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Tampa Bay Buccaneers

2012 Record: 7-9
Ataque ajustado: 14th
Defesa ajustada: 20th


Nos últimos dois anos, o Bucs chamou a atenção por ter arrancado uma página do manual do Mônaco ou do Mancherster City, quando saiu torrando todo seu espaço salarial em contratos milionários para jogadores de elite. Ano passado foram três, quando contrataram Vincent Jackson (5 anos, 55M), Carl Nicks (5 anos, 47M) e Eric Wright (5 anos, 37.5M) na free agency aproveitando de ser o time com mais espaço salarial. Um ano depois que não deu certo, os contratos de Jackson e Nicks foram reconstruídos e Wright dispensado depois de ser pego no antidoping, então a equipe novamente se viu com toneladas de espaço salarial e novamente correu para gastar tudo em reforçar sua secundária, trocando por Darrelle Revis e oferecendo um contrato que até o Dr. Evil ia achar enorme, 6 anos e 96M, e ainda pagando mais 41M (por 5 anos) no Dashon Goldson. Essa rodada de gastos da equipe montou um time que muitos estão ficando profundamente intrigados para 2013, e com razão. Mas antes de chegar nisso, vamos dar uma pequena volta pelo Bucs de 2012 para entender exatamente como isso é importante.

Antes da temporada passada começar, meu amigo Adelmo me desafiou a fazer um post sobre "bold predictions" para a temporada 2012 da NFL. Eu fiz (tem um post sobre ela chegando quando terminarmos os previews) e uma delas era a seguinte: "Greg Schianno será técnico do ano e o Bucs terminará o ano 8-8 ou melhor", inspirado pelo que Jim Harbaugh fez no 49ers um ano antes. Embora hoje você possa rir da minha cara e falar que eu estava maluco, na verdade esse palpite passou mais perto do que vocês imaginam. Primeiro, porque ninguém esperava que o Colts fosse ganhar 9 jogos a mais contrariando todos os indicadores estatísticos e sendo um dos times mais sortudos da história da NFL, obrigando o prêmio a ir para seus técnicos. Segundo, porque na verdade o Bucs começou a temporada 6-4 contra uma tabela bastante forte antes de perder cinco jogos seguidos e jogar tudo isso pela janela - e mesmo assim terminou 7-9 com uma Pythagorean Expectations de 8-8, então tem isso também. Então até que passou perto. 

Esses cinco jogos seguidos me fascinam (eles eventualmente ganharam o último jogo da temporada contra um Falcons quase reserva), na verdade. Durante os primeiros 10 jogos eles foram um time muito bom e muito sólido, com record de 6-4 contra uma tabela difícil e parecendo que iria realmente vindicar minhas previsões e terminar 8-8 ou 9-7. De repente, o time esquece o bom futebol (americano) na gaveta, perde cinco seguidos e termina 7-9 em uma temporada decepcionante que deveria ser melhor. O que exatamente aconteceu naqueles cinco jogos para a equipe despencar tanto de produção?

Sua primeira reação pode ser do tipo "Espera ai, cinco jogos é uma amostra muito pequena!", e é verdade. É uma amostra minúscula, e se procurarmos muitos times bons ao longo dos últimos 10 anos, com certeza vamos achar períodos curtos onde eles foram muito inferiores ao normal. Mas ainda assim, é absurdo reparar que a equipe teve um saldo de +57 nos outros onze jogos mas -62 em apenas esses cinco. Então mesmo considerando todas as amostras pequenas do mundo, tem mais coisa ai a ser explicada, e eu acho particularmente interessante porque diz muito sobre a equipe para 2012 e seu grande ponto de interrogação.

Olhando aqueles jogos, a primeira coisa que saltou aos olhos foi como o jogo terrestre decaiu em relação aos 10 primeiros jogos da temporada. Durante os 10 primeiros jogos, o ataque terrestre de Tampa teve média de 111.1 jardas por partida, conseguindo 4.8 jardas por tentativa e basicamente sendo a principal força ofensiva da equipe - o que, aliás, era a proposta de Schianno antes da temporada começar. A equipe draftou Doug Martin e abriu o cofre por Nicks com o objetivo de direcionar seu ataque pelo chão para tirar a pressão de Josh Freeman, depois de uma temporada decepcionante do seu QB. E pelos primeiros 10 jogos, esse foi o caso: o ataque terrestre abriu caminho, Freeman aproveitou muito bem disso e foi um jogador muito sólido. Mas durante essa sequência de derrotas, o ataque terrestre teve média de apenas 80.8 jardas por jogo, com 3.6 jardas por corrida. E não é como se enfrentassem uma penca de defesas de elite, um jogo foi contra o Broncos mas três foram contra Saints, Falcons e Eagles. Então o jogo terrestre despencou e a equipe perdeu sua principal força ofensiva, e daí Freeman teve que assumir o controle do time.

O problema é que Freeman foi muito, mas muito mal mesmo nesses jogos. Veja a diferença entre os primeiros 11 jogos da equipe (incluindo a derrota por 24 a 23 para o Falcons) e os quatro jogos seguintes (as quatro derrotas):

Jogos 1-11: 199/349, 57%, 2761 jardas, 21 TDs, 7 INTs, 7.9 Y/A
Jogos 12-15: 88/174, 50.6%, 1082 jardas, 5 TDs, 9 INTs, 6.2 Y/A

Mesmo reconhecendo que quatro jogos é uma amostra muito pequena, é uma queda fenomenal, certo? Só para deixar mais claro, vamos ver como cada um desses dois Josh Freemans seriam ao longo de 16 jogos mantendo o nível...

Freeman bom: 289/508, 57%, 4016 jardas, 30 TDs, 10 INTs, 7.9 Y/A
Freeman ruim: 352/698, 50.6%, 4328 jardas, 20 TDs, 36 INTs, 6.2 Y/A

Claro que os números de "Freeman ruim" são insustentáveis (especialmente suas interceptações) ao longo de 16 jogos, mas isso da uma noção de perspectiva melhor desses números e do quanto ele foi mal nesses quatro jogos. Vale notar também que, em parte porque o jogo terrestre parou de funcionar e em parte porque em muitos desses jogos o time esteve atrás do placar, a quantidade de passes aumentou absurdamente e não foi a toa que sua eficiência despencou. Mas mesmo assim, é uma diferença grande demais para uma pessoa só e alguma coisa a mais deve ter acontecido para justificar essa massiva diferença.

E aconteceu. Começando pelo jogo terrestre, é fácil identificar uma causa principal para esse grande declínio que vá além da amostra pequena: a lesão de Carl Nicks. Nicks machucou duas semanas antes do jogo contra o Falcons, e vale citar que no primeiro jogo sem ele contra o fraco Chargers o ataque terrestre teve apenas 74 jardas terrestres. A verdade é que a lesão de Nicks, um All-Pro um ano antes, foi o segundo golpe importante que essa linha ofensiva sofreu. Antes da temporada começar, o prognóstico de trazer Nicks e Martin envolvia também juntar esses dois ao seu outro guard Pro-Bowler,  Devin Joseph. A idéia era justamente usar Joseph e Nicks (junto com o bom LT Donald Penn) para formar uma excelente e dominante linha ofensiva na frente, especialmente pelo meio abrindo espaços para as corridas de Martin, protegendo Freeman e dando a ele espaço para fazer sua mágica pelo ar, esperando que ele reeditasse seu excelente 2010 (61.4%, 7.3 Y/A, 25 TDs, 6 INTs e um 64.9 QBR). Mas Joseph machucou antes da temporada começar e não jogou um snap sequer em 2012, e Nicks perdeu oito jogos. Então a dupla de guards Pro-Bowler que deveria ser a fundação da equipe em 2012 não jogou sequer um jogo junta e perdeu 24 de possíveis 32 jogos, com Nicks saindo logo antes dessa fatídica sequência 0-5 e coincidindo com o jogo terrestre despencando. Ao final da temporada, apenas um jogador que começou o ano de titular (Penn) estava jogando na mesma posição que começou, todos os outros estavam machucados ou improvisados em outro lugar. Algo me diz que não foi uma coincidência.

E o que essa lesão do Nicks expôs nesses cinco jogos e que foi talvez a principal causa desse fiasco foi o seguinte: Josh Freeman é HORRÍVEL sob pressão. Legitimamente horrível, ele foi o segundo pior QB da NFL em 2012 quando pressionado (adivinhem o primeiro, rima com Park Manchez), e o que você ve em campo coincide com os números: ele simplesmente não tem idéia do que fazer, se livra da bola forçando passes para jogadores marcados (que normalmente flutuam demais e levam a interceptações), toma más decisões e não consegue manter a calma para fazer passes rápidos antes que a pressão chegue, talvez por medo de levar uma pancada. O fato dele não ter um bom slot receiver ou TE com certeza atrapalha, já que essas são normalmente as válvulas de segurança nesses passes apressados, especialmente para um time cujas duas principais opções de passe (Vincent Jackson e Mike Williams) são jogadores de velocidade que gostam de trabalhar em rotas mais longas e que exigem tempo, não são boas opções para um QB que precisa se livrar da bola. E a lesão de seu melhor lineman e a queda do jogo terrestre juntaram com tudo isso para colocar Freeman em uma péssima situação, onde a pressão aumentou consideravelmente e ele não soube o que fazer com a bola, levando a essa queda brutal dos números.

A questão é como isso vai funcionar em 2013. Os problemas de Freeman sob pressão sem dúvida foram parte dos motivos que levaram Schianno a focar seu ataque no jogo terrestre e tirar a pressão do seu QB. E apesar de Freeman já ter quatro temporadas de NFL no seu currículo, a verdade é que ele tem apenas 25 anos e é dois meses mais novo que Colin Kaepernick. Ainda tem tempo para desenvolver e corrigir seus problemas, mas será que ele consegue? Em geral, é uma característica difícil de perder mesmo com o tempo, então a forma mais simples de lidar com isso é lhe dar uma grande linha ofensiva, um bom jogo terrestre como carro chefe, e tirar a pressão das suas costas. E foi o que o Bucs vinha fazendo eficientemente em 2012 até Nicks machucar, o jogo terrestre cair e Freeman lançar oito interceptações em dois jogos. Quanto mais longe de Freeman a defesa ficar, maiores as chances de sucesso da equipe. Por isso a volta de Joseph e Nicks, e uma temporada completa dessa excelente dupla, vai ser importantíssima tanto para impulsionar o jogo terrestre como para manter as defesas afastadas de seu QB. E vale lembrar que Freeman, em um ano de contrato, provavelmente tem mais em jogo do que qualquer outro jogador na NFL em 2013: uma temporada sólida provavelmente vai lhe garantir um gordo contrato, e uma temporada decepcionante provavelmente vai render a ele um lugar no banco (provavelmente de outro time). Mas se a linha conseguir ficar saudável, e em um ano de contrato (nós vimos como isso acabou para Joe Flacco ano passado), Freeman é um candidato interessante a ter um bom ano.

Mas na defesa é onde começa a ficar realmente interessante. Eles terminaram 20th ano passado no total, um número que fica mais claro quando dividimos em defesa aérea, 26th overall, e defesa terrestre... 3rd overall. Esse grande número da defesa terrestre é de uma importância especial para a equipe pelo seguinte motivo: de volta ao Draft de 2010, o Bucs usou suas duas primeiras picks em dois DTs, Gerald McCoy e Brian Price, numa tentativa de reforçar sua linha defensiva e retomar o que funcionou no começo dos anos 2000, quando a defesa da equipe era uma das melhores da NFL e levou o time a um título de Super Bowl em 2002 com uma linha defensiva ancorada por Warren Sapp e Anthony McFarland. A idéia de draftar sua dupla de DTs era começar a remontar sua defesa nesses moldes, mas não funcionou: Price foi um bust que jogou apenas uma temporada saudável (2011) antes de se acabar em lesões (foi trocado em 2012 para o Bears por uma 7th rounder, perdeu o ano inteiro, e agora está sem time porque não fica saudável), mas McCoy - considerado por muitos o segundo melhor jogador daquele draft depois de Ndamukong Suh - era o principal jogador da dupla, e não foram anos muito felizes para ele, entre uma temporada de calouro decepcionante e um 2011 marcado por lesões. Mas em 2012, McCoy finalmente explodiu como o jogador que todos esperavam: dominante indo atrás do QB (cinco sacks) mas ainda mais brilhante contra a corrida, o tipo de jogador capaz de ocupar dois bloqueadores e ainda fazer o tackle, praticamente uma parede com braços no meio da linha defensiva. Foi uma performance digna de All-Pro (não entrou, mas foi ao Pro-Bowl) e foi a explosão que todo mundo esperava no meio da linha, o tipo de game-changer que a equipe precisava.

Com McCoy sendo um monstro no meio da linha, ficou mais fácil para o resto do time, em especial Michael Bennett, que assumiu a função de principal pass rusher do time e terminou o ano com 9 sacks e foi jogar em Seattle. Bennett é um pass rusher especialista que se beneficiou muito da presença de McCoy para conseguir 9 sacks, mas para um jogador que somou seis nos primeiros três anos na Liga, algo ai indica uma aberração amplamente beneficiada pela presença de McCoy. Ainda assim, Bennett e seus sacks farão falta se DaQuan Bowers - um talento Top5 dois anos atrás que caiu para a segunda rodada por problemas de lesões - não conseguir assumir a função. Bowers era um dos melhores rushers da NCAA, mas não teve espaço por lesões e agora é a grande esperança da equipe para substituir Bennett. Em 2012 foram 3 sacks em 10 jogos jogando apenas em algumas situações específicas, então potencial existe, mas ainda é um risco. Essa defesa na frente foi excelente, mas o potencial de regressão é grande depois de subir de 30th para 3rd em apenas uma temporada.

A parte muito boa para o Bucs é que se a secundária foi uma peneira em 2012, a equipe fez tudo ao seu alcance - e ao alcance de sua conta bancária - para reforçar a unidade. Na verdade, das quatro posições padrões da secundária (dois cornerbacks, um free safety e um strong safety), o Bucs trocou três do ano passado para esse por jogadores de alto nível. O único que continuou foi a 7th pick do ano passado, o safety Mark Barron, que mostrou promessa na sua temporada de calouro. Mas ele foi o único que ficou: o Bucs overpaid (5 anos, 47M) o FS Dashon Goldson, do San Francisco 49ers, para fazer par com Barron no fundo da defesa. Goldson é um bom jogador que foi ao Pro Bowl em 2011 e até ao time All-Pro em 2012 (um absurdo, mas enfim), mas sempre jogou dentro de uma excelente defesa do 49ers e tinha a tendência de ser meio maluco demais indo atrás de jogadores, deixando muito espaço na cobertura e tomando muita bola nas costas, então foi um risco alto aqui porque não sabemos como ele vai jogar fora de contexto. Mas ele torna a secundária melhor, e isso é antes de falar da dupla que o Bucs trouxe para CB depois que seu casamento com Eric Wright deu errado: um calouro escolhido no topo da segunda rodada e muito promissor, Jonathan Banks (que eu pessoalmente gosto mais do que alguns CBs que saíram na primeira rodada como Trufant ou Rhodes), e trocou sua escolha de primeira rodada para o Jets pelo melhor CB da NFL, Darrelle Revis. Revis vem de um ligamento rompido que o tirou da temporada 2012, então não sabemos o quanto do velho Revis devemos esperar para 2013, mas considerando casos recentes e a medicina moderna, e o quão bom Revis era no seu auge, não devemos esperar menos que um CB de elite. Se tiverem cerca de 80% do camisa 24, então já possuem o melhor cornerback da NFL por uma boa margem e alguém que consegue ocupar o melhor recebedor adversário sozinho, o que facilita muito a vida do resto da defesa, especialmente uma tão cheia de talento como essa. As pessoas estão descartando um pouco Revis pela sua lesão, mas mesmo se não voltar a 100%, ele ainda é um dos melhores da liga.

Então se você está marcando pontos, a equipe teve uma das melhores defesas terrestres da NFL em 2012 em torno de um dos DTs mais dominantes da liga, e agora adereçou sua secundária adicionando dois All-Pros e um calouro do topo da segunda rodada a uma escolha Top10 de draft que tem tudo para continuar evoluindo nos próximos anos. Ainda sobram algumas dúvidas, sobre como a falta de Bennett será sentida, se Bowers (que tem enfurecido a comissão técnica por estar fora de forma) vai conseguir se estabelecer como uma força (ou pelo menos compensar a falta de Bennett), e sobra a sustentabilidade desse salto de terceira pior defesa terrestre para terceira melhor em apenas um ano (provavelmente não sustenta). Mas só pela enorme quantidade de talento adicionada na defesa (deixando de lado a parte financeira da questão um instante), já é possível esperar um imenso salto em 2013 com uma das melhores secundárias da liga - pelo menos no papel.

Por isso o Bucs é um time tão interessante de se observar. Se as peças encaixarem no lugar certo, qual o teto desse time? Eu não sei, mas é bem alto, certo? A equipe foi um underachiever em 2012, 7-9 com Pythagorean Expectation de 8-8 e record de 3-6 em jogos decididos por uma posse de bola, e isso ainda considerando aquele período absurdo de cinco jogos onde a equipe foi uma versão piorada do Lions de 2009. O Bucs poderia facilmente ter ido 9-7 (em record e/ou Pythagorean), e o time de 2013 AINDA seria uma versão melhorada dos dois lados do campo, tanto na frente (pelas voltas de Nicks e Joseph) como na defesa (pela chegada desses reforços absurdos na secundária). A tabela é mais difícil em 2013, mas ainda assim, é um time que deve ter uma excelente defesa e um ataque muito sólido se ficar saudável e Josh Freeman não tiver muitos momentos de pressão. Considerando algumas incertezas - Nicks ainda lida com uma lesão no pé, Freeman teve altos e baixos ao longo da carreira, Revis voltando de lesão - ainda acho cedo para ficar super otimista e colocar Tampa nos playoffs, mas um record em torno de 9-7 é de se esperar para esse grupo lotado de talento. Vale acompanhar.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - New Orleans Saints

A defesa do Saints - e os torcedores - adorariam fazer isso com Goodell



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North, os previews da NFC North, e agora os da AFC South, começamos a falar da NFC South pelo interessante Atlanta Falcons. Agora é a vez do campeão de 2009, New Orleans Saints. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

New Orleans Saints

2012 Record: 7-9
Ataque ajustado: 9th
Defesa ajustada: 32nd


Provavelmente não tem nada mais difícil na NFL, hoje e sempre, do que determinar o impacto que um técnico tem sobre um time quando entra, sai ou se ausenta. Na verdade, esse é um dos meus problemas com o prêmio de técnico do ano: como medir exatamente o quanto um certo técnico foi valioso para um time, especialmente quando ele está lá ano a ano sendo valioso? Isso é mais fácil quando tem um outro parâmetro para comparação (um outro técnico entrando ou perdendo o lugar para ele, por exemplo) e mesmo assim ainda é muito difícil porque é extremamente difícil separar onde acaba a influência do técnico e onde começam as mudanças do elenco, os fatores aleatórios (que temos analisado por aqui) e pontos fora da curva. Por exemplo, esse ano o Coach of the Year foi dado para Chuck Pagano e Bruce Arians, do Colts, por terem levado o 2-14 Colts a 11-5 e uma vaga nos playoffs, um feito impressionante. Mas quanto disso foi efeito das chegadas de Pagano e Arians? A incrível sorte da equipe em 2012 e a chegada daquele cara chamado Andrew Luck provavelmente não tiveram também muito a ver com isso, até mais a ver? O impacto de Pagano e Arians no lugar de Jim Caldwell foi maior do que impacto estável de Jim Harbaugh e Bill Belichick em seus respectivos times, com a diferença que esses últimos não conseguimos analisar pois estavam lá ano passado já? (Para mim não, Jim e Bill são melhores). Não sabemos, e não temos como saber.

O que não quer dizer que mudanças de técnicos não tenham impacto. Peguem meu 49ers, por exemplo, quando seu técnico era o horrível Mike Singletary. Em 2009, a equipe terminou uma boa e extremamente azarada temporada que deixou um gosto amargo na boca porque todos sabiam que era um time que merecia ir aos playoffs, um 10-6 Pythagorean Expectation que acabou ficando como um record de 8-8 por causa de um record 2-6 em jogos decididos por uma posse de bola. A defesa era espetacular (Top5), o time parecia estar se encontrando, o time teve alguns jogos marcantes (em particular um 24-9 contra o atual campeão da NFC Cardinals que foi a melhor performance defensiva que eu já vi na vida, forçando 7 turnovers), e tudo indicava que o primeiro ano completo de Mike Singletary (que assumiu no final da temporada 2009) seria o ano da redenção.

Não aconteceu. Singletary foi o pior técnico que eu vi na minha vida e fez tudo errado, mudando frequentemente de quarterbacks e não dando qualquer confiança ou entrosamento para nenhum, trocando de coordenador ofensivo, usando um playbook muito malfeito, se mostrando incapaz de planejar um esquema de jogo em torno das forças e fraquezas de seus jogadores (pior ainda, tentando adaptar seus jogadores ao esquema de jogo pré-determinado), e basicamente sendo horrível em tudo que fez. A equipe caiu para 6-10 (com PE de 7-9, nenhum consolo), a quebra de expectativas foi absurda, e Singletary foi demitido antes do final da temporada. Na offseason, a equipe inteligentemente foi atrás de Jim Harbaugh... e tudo mudou. Foi como largar a Mara Maravilha e começar a namorar a Mila Kunis: Jim mudou a cultura da equipe, controlou cada aspecto da franquia junto do GM Trent Balkee, fez boas contratações e ajustes, montou um playbook genial em torno de Alex Smith, e levou o time a 13-3 em uma temporada embora fosse basicamente o mesmo que em 2010 (mais Aldon Smith). Se existisse algo como WAR para técnicos da NFL (podiamos nomear de Wins Above Singletary, ou WAS), o de Jim provavelmente seria o mais alto da história da NFL em 2011. Em 2012 ele pegou esse mesmo time e levou um passo a frente com Colin Kaepernick, mas como a base de comparação era um espetacular ano anterior dele mesmo, ninguém prestou atenção (o mesmo motivo de Jerry Sloan, Greg Popovich e Phil Jackson combinarem para menos de cinco prêmios de Coach of the Year na NBA).

E essa é a parte difícil de avaliar o Saints, que caiu de 13-3 para 7-9 no ano que seu técnico Sean Payton foi suspenso por causa do "Bountygate". Quanto exatamente disso foi influência da saída de Payton - um dos cinco melhores técnicos da NFL, sem dúvida - e quanto foi uma piora real e orgânica de seu time? Payton está de volta esse ano, então essa é uma discussão importante e central para podermos avaliar o que esperar da equipe para 2013. Então vamos ver exatamente o que mudou, ano a ano, e tentar separar o que a volta do Payton deve mudar e o que deve continuar ruim. Começamos com a seguite tabela:



(Só para lembrar: todos os números são ajustados, e os percentuais indicam quão superior (ou inferior) um time foi em relação a média da Liga. No caso de defesas, quantos pontos a mais cedeu, então quanto mais negativo, melhor).

Incluí na tabela 2010 também para dar uma amostra melhor da equipe com Sean Payton para evitar pontos fora da curva (embora 2010 tenha sido sim um ponto fora da curva ofensivamente, para pior). Acho que não preciso destacar como a queda da equipe de 2011 para 2012 foi brutal. Não apenas em termos de record (e mesmo assim, seis vitórias de diferença é muita coisa), mas em praticamente tudo. O ataque despencou (especialmente pelo chão, mas também pelo ar), a defesa continuou o declínio pelo qual já vinha passando e isso tudo se refletiu na imensa e absurda queda de eficiência da equipe. Isso tudo pode ser visto nos dados acima. A questão agora é tentar separar um pouco do que deve continuar para o ano que vem e do que deve voltar.

Se você for observador e entendeu bem algumas das estatísticas que temos usado nesses previews, talvez tenha pensado o seguinte: "Espera, se Drew Brees e o Saints não tem um histórico sustentável de vencer jogos decididos por uma posse de bola e superar sua Pythagorean Expectation (e não tem mesmo), a diferença entre os dois times foi de apenas quatro vitórias, não poderiamos atribuir isso a enfrentar um calendário MUITO mais forte? Talvez não tudo, mas uma boa parte?". Se você pensou isso, meus parabéns, está indo pelo caminho certo. Um time 12-4 (em PE) cair para 8-8 (de novo em PE) apenas com um calendário mais difícil é bem improvável, mas certamente podia motivar uma parte disso aliada aos fatores normais da saída do Payton, sem dúvida. Infelizmente, tem um outro fator que me faz crer que não é o caso: o Saints de 2012 foi o quinto time mais sortudo da Liga recuperando fumbles, com 61.3%, mas o de 2011 foi um dos piores da década nesse aspecto, recuperando 24.3%, um número absurdamente baixo. Considerando o impacto dessa enorme mudança de azar para sorte no seu record e saldo de pontos, da para concluir que ainda tem muito mais a explicar do que somente a mudança no calendário.

Embora, é claro, a mudança na dificuldade da tabela seja um fator que deva ser levado em conta. Os números de ataque, defesa e eficiência acima são todos ajustados por adversário, mas ainda teve um impacto sem dúvida na qualidade de jogo da equipe em geral e sobre seu saldo de pontos/Pythagorean Expectations. Um outro ponto interessante a ser levado em consideração é que esses números refletem a eficiência da equipe em relação a média da NFL, mas a liga foi mais forte em 2012 do que em 2011 (especialmente ofensivamente) com a explosão de times como Seattle, Washington, Indianapolis e até San Francisco e seus novos QBs, bem como a volta de Peyton Manning. A chegada de basicamente CINCO novos QBs de alto nível na NFL sem dúvida colocou a barra bem mais alto do que um ano antes, e portanto é natural que os números ofensivos do Saints em relação a média da liga sejam muito menos dominantes(vale citar que SF, Redskins, Seahawks e Broncos foram quatro dos times que passaram NO em ataque nessa temporada). Então isso ajudou em relação aos números acima, sem dúvida.

Mas isso ainda deixa muito a ser explicado. Chequem por um instante os números de Drew Brees em 2011 e 2012:

2011: 468/657, 71.2%, 5476 jardas (recorde da NFL), 46 TDs, 14 INTs, 8.3 Y/A, 84.01 QBR
2012: 422/670, 63.0%, 5177 jardas, 43 TDs, 19 INTs, 7.7 Y/A, 67.87 QBR

Mesmo com a diferença de força no calendário, ainda é uma diferença significativa, certo? E embora a temporada de 2011 tenha sido a melhor de Brees, não é como se fosse uma aberração: ele tinha liderado a NFL em aproveitamento dois anos seguidos antes de 201, suas jardas por passe foram ainda maiores em 2009 (8.5), e suas taxas de TDs e interceptações também já foram maiores em 2009. Então 2011 foi uma grande temporada com uma grande carga de trabalho, mas não foi uma aberração. 2012 foi muito pior: o aproveitamento foi seu pior desde 2003, e tantos em Y/A, TD% e INT% Brees sofreu um setback para essa temporada. Claro, Brees tem 33 anos, mas Brady e Manning tem mais e estão mantendo seu nível. Embora não seja absurdo supor que a idade esteja começando a alcançar Brees, não é explicação suficiente com apenas uma temporada desse "declínio" logo depois de sua melhor temporada como profissional. 

A outra explicação possível seria uma saída de jogadores importantes do ataque, o que foi um pouco mas também não tanto o caso. Robert Meachem saiu mas era dispensável, sua saída facilmente foi suprida pelo aumento das repetições de Lance Moore quando Meachem foi ser um bust em San Diego. A saída de Carl Nicks é outra história. Nicks e Jahri Evans formavam provavelmente a melhor dupla de guards da NFL em 2011, sendo os dois All-Pros aquele ano. Em 2012, Nicks levou seu talento para a Flórida para jogar no Bucs, e embora seu substituto tenha se saído ok, ele não era Carl Nicks. Se quer procurar o principal motivo pela queda do bom jogo terrestre da equipe, não precisa procurar mais: a linha ofensiva do time foi a melhor correndo com a bola em 2011, e sem Nicks caiu para uma boa e acima da média, mas nem de longe tão dominante 11th melhor (embora ainda fosse muito boa em corridas de força, 3rd overall). Mas quanto ao impacto disso no jogo aéreo e na queda de produção de Brees, ainda não foi um grande motivador. A piora no jogo terrestre sem dúvida foi um fator, mas nenhuma defesa entra para enfrentar o Saints planejando sobre como parar Mark Ingram e Pierre Thomas, o foco é todo no jogo aéreo, então provavelmente não foi um fator tão grande. E quanto a proteção ao QB, a linha do Saints continuou como uma das melhores da NFL (3rd para 6th) mesmo com a saída de Evans, então a saída de seu Pro-Bowl Guard provavelmente teve um impacto consideravelmente maior na queda no jogo terrestre do que no jogo aéreo.

Então a queda no jogo terrestre pode ser explicada, mas a do jogo aéreo não. Alguma queda era normal depois dos patamares altíssimos de 2011 e do reforço no calendário, mas ainda não faz sentido. E é aqui que Payton supostamente faz mais falta: no jogo aéreo. Payton é um excelente pensador ofensivo, um cara que sabe muito bem planejar para adversários, chamar jogadas, ler defesas e trabalhar em sintonia com Brees. Ele sabe adaptar o playbook em conjunto com seu QB, ele sabe quando seu time deve ou não usar um certo tipo de formação... basicamente, ele tem um controle incrível sobre seu ataque, o tipo de controle que só vem quando você tem um grande técnico ofensivo com uma fundação estável por um longo período de tempo. E enquanto é muito fácil colocar a culpa de tudo de ruim que aconteceu no Saints em 2012 em cima da ausência de seu técnico, eis aqui um ponto onde eu acho que Payton foi realmente o que fez a diferença. Não estou dizendo que o Saints teria tido um ataque tão bom quanto em 2011 com um calendário consideravelmente mais difícil e alguma regressão natural de um patamar absurdo para Brees (especialmente em relação a média da Liga, que subiu bastante em 2012), mas acredito que teria sido melhor e mais eficiente pelo ar. 

A defesa é um problema diferente. Payton é daqueles técnicos que gostam de estar envolvidos em tudo que se passa, desde ataque a special teams, mas ele não é exatamente um estrategista defensivo que planeja e toma conta de sua defesa. Ele sempre deixou esse trabalho mais para seus coordenadores, sem se envolver pessoalmente. Por isso acho que dificilmente a volta de Payton vá resultar no retorno de uma boa defesa. Até porque a defesa já vinha caindo consideravelmente desde o título de 2009, de 10th para 28th para 32nd, muito antes de Payton ser afastado. Muitos motivos levaram a isso, entre eles os principais sendo o envelhecimento e perda de alguns jogadores, e uma queda no volume de turnovers forçados. Em particular, quem despencou mesmo foi a secundária desde as lesões e subsequente aposentadoria do Darren Sharper. Em parte porque Roman Harper está envelhecendo em anos de cachorro, em parte porque a linha de frente parou de conseguir colocar boa pressão nos adversários (Will Smith nunca explodiu como se esperava, o meio da linha não conseguiu os mesmos resultados de 2010, Sedrick Ellis teve 6 sacks em 2010 e 0.5 sacks nos dois últimos anos somados...) e em parte porque a saída de Tracy Porter foi mais sentida do que o esperado, mas o fato é que essa declínio não é algo pontual ou inesperado. A defesa do Saints comprometeu dinheiro demais para alguns poucos jogadores (em particular Smith) na esperança de que estourassem, mas nunca aconteceu e a defesa se viu presa a jogadores medianos e com pouca flexibilidade para achar novas peças de elite.

Para o ano que vem, as coisas vão mudar um pouco... o que não quer dizer que vão melhorar. O Saints trouxe Rob Ryan de Dallas para ser coordenador defensivo, e Ryan já avisou que vai mudar a defesa para uma formação base 3-4. Isso é sempre difícil de projetar ano a ano porque envolve uma mudança muito grande na forma como o time vai defender, como ele vai se adaptar, e como essa nova defesa vai explorar as forças do grupo. Mas Ryan - que não tem feito bons trabalhos em Dallas e já devia ter saído faz muito tempo, vale citar - vai ter muito trabalho para lidar com uma defesa que não só estava acostumada demais ao 4-3 como, francamente, não tem muito talento, como suas campanhas ruins na defesa tem indicado. A equipe investiu pesado na secundária, draftando Kenny Vaccaro na primeira rodada para misericordiosamente substituir Roman Harper, e trouxe o bom Kennan Lewis e Jim Leonhard, muito bom alguns anos atrás mas que caiu devido a lesões (ainda pode ser uma adição interessantes). Então alguma coisa melhor deve ser esse ano.

Mas a equipe perdeu Ellis, e eu tenho dúvidas de como esse elenco vai se adaptar ao esquema 3-4 de Ryan: o melhor jogador defensivo da equipe (tirando Jonathan Vilma, que alias operou o joelho) provavelmente é o DE Cameron Jordan, que teve 8 sacks em 2012, mas será que ele vai conseguir colocar tanta pressão no QB jogando de DE em uma defesa 3-4, enfrentando bloqueadores maiores e mais marcações duplas? Será que Will Smith, aos 32 anos de idade, vai conseguir manter alguma da sua decadente produção fazendo a conversão para OLB? Será que Jordan vai conseguir ser produtivo sem um OLB de impacto ou um NT capaz de exigir marcações duplas? Será que seus calouros de terceira rodada de 2012 e 2013 (os dois disputando a vaga de NT titular) darão conta do recado? A falta de OLBs confiáveis e de ofício e o fato de que agora você está colocando seu melhor pass rusher mais para o interior da linha (sem um NT que tenha se mostrado até agora sólido) podem anular boa parte do impacto da maior agressividade desse esquema, deixando a defesa ainda mais exposta. Claro, é difícil demais saber com certeza qual vai ser o impacto dessa mudança, pode ser que vários jogadores surjam ou se descubram em novas funções, mas até ver algo assim na prática, eu estou cético. Os dois melhores pass rushers de um time que já tem dificuldade para pressionar o QB estão mudando de posição, e um deles tem 32 anos. A equipe não tem - ou pelo menos não mostrou que tem - as peças para jogar nesse esquema, então enquanto essa mudança pode ter sido feita pensando no futuro e nas peças que eventualmente chegarão, eu ainda não acho que vá ser um bom ano para esse grupo. Apesar das melhorias na secundária - consideráveis - ainda acho que vai ser um grupo melhor do que ano passado, mas ainda ruim.

Então enquanto é muito fácil fechar os olhos e atribuir todos os problemas da equipe a saída do Sean Payton - e não se enganem, teve impacto sim - o fato é que o Saints foi pior em 2012 por uma série de diversos motivos que tem pouco ou nada a ver com Payton, como sua defesa, a perda de Nicks e por ai vai. O maior efeito que, pelo que vimos, pode ser sentido em campo da saída de Payton foi principalmente no ataque aéreo, um efeito que não é pequeno considerando que é o carro chefe da equipe e conta com seu melhor jogador, mas a queda do Saints pode ser atribuída a muitos outros motivos, como um calendário muito mais forte, a perda de Nicks e Porter, o envelhecimento de uma defesa que já era ruim para começar e alguma regressão. Então sim, a volta de Payton vai reforçar o time: o ataque vai evoluir, o time vai chegar maior preparado, e presença de um técnico como ele via dar mais tranquilidade e estabilidade a equipe. Mas Payton não vai transformar Will Smith em Von Miller ou Malcolm Jenkins em Ed Reed, e Payton não vai jogar de LG para a equipe. A saída de Payton obscureceu o fato de que o Saints de 2012 era um time pior que o Saints de 2011, e para falar a verdade, é possível que o de 2013 seja ainda pior considerando a saída do ótimo Jermon Bushrod, o LT que protegia o lado cego de Brees, e as mudanças na defesa. O Saints vai evoluir por diversas das razões que falamos aqui: o impacto de Payton no jogo aéreo (e no ataque em geral), uma provável melhora de Brees, regressão contra sua Pythagorean Expectation, as melhoras na secundária e tudo mais, mas eles ainda enfrentam o terceiro calendário mais forte da liga em 2013, ainda tiveram sorte em 2012 com fumbles, ainda devem ter uma defesa ruim (embora com potencial de melhora na secundária, é uma incógnita demais no 3-4) e perderam dois dos seus três melhores linemans.

Com a volta de Payton e Brees dando a volta por cima, eles podem chegar a 9-7? Sem dúvida. 10-6? Talvez... mas eu já não sei. E esse é o problema: não da para saber se o efeito de Payton é apenas o que identificamos no jogo aéreo ou se tem mais escondido por todo o resto que não se reflete em estatísticas.  Existem motivos concretos para a defesa ter piorado e para o jogo terrestre ter piorado, mas quanto exatamente? Não sei. Não temos como medir o impacto de um técnico ano a ano. Por isso essa talvez seja a previsão mais difícil de todos os 32 previews, e por isso não gosto do meu 9-7 para o Saints. Acho que abaixo de 8-8 não vai ficar, eles ainda tem Brees e Payton é um dos melhores técnicos da Liga, mas considerando a perda de Bushrod, a falta de reforços e a tabela ridiculamente forte (em uma divisão que promete ser ridiculamente forte)... eu não me sinto confortável projetando 10-6 ou playoffs. Então fico com 9-7 com uma vitória de margem de erro (mais inclinado para 10-6) porque é impossível apostar contra um QB de elite, mas com peso na consciência. E se Sean Payton voltar para calar minha boca, que seja!