Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Recolhendo os cacos: NFL Divisional Round

Super Kap dando o troco no Panthers


Para participar do nosso mailbag, ou seja, enviar uma pergunta/comentário/dúvida/tópico de debate para ser respondida aqui no blog e no Esporte Interativo, é só mandar um email para tmwarning@hotmail.com com o título "Mailbag" que ele pode aparecer por ai. Forma de tornar isso mais interativo e próximo dos leitores. Então participem! O tema do próximo será playoffs, então aproveitem para enviar seus emails!


No próximo bimestre, começaremos uma série chamada Sports Mythbusters. A idéia é bem simples, pegar clichês, mitos ou lugares comuns dos esportes americanos e colocá-los a prova. Então estamos aceitando sugestões, e qualquer mito, frase comum, chavão ou coisa assim dos esportes que vocês querem ver testada e comprovada (ou ao contrário, que quer ver desmentida) podem mandar que vamos analisar os melhores. Mais uma chance de vocês sugerirem nossas pautas. Podem mandar emails com as sugestões para tmwarning@hotmail.com, para o twitter @tmwarning, ou simplesmente colocar nos comentários quando der na telha.
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Semana passada, tivemos que correr um pouco para conseguir cobrir tudo que a NFL estava nos oferecendo. Então falamos rapidamente da rodada de Wild Card que tinha passado, e fizemos dois previews para os jogos do final de semana, para falar dos jogos de sábado e dos jogos de domingo. Ta tudo ai para você ler e pensar "o que, esse animal achou que o Colts ia ganhar?! No que ele estava pensando?!" (em minha defesa, foi a primeira vez em nove anos que a segunda rodada dos playoffs não teve uma zebra de pelo menos 4 pontos. Eu quis apostar em uma zebra, e apostei na que tinha Andrew Luck e enfrentava a pior defesa).

Mas deixando isso tudo no passado (btw, ainda estou 6-2 nos playoffs!), e deixando as duas finais de conferências que foram um presente dos céus ainda no futuro (sério, se um fã de NFL imparcial fosse escolher as Finais de Conferência ideais em Setembro, ele escolheria essas duas), vamos dar uma olhada em alguns fatores importantes ou interessantes que chamaram minha atenção nos jogos (um tanto decepcionantes) desse final de semana. Já aviso também que vou dar mais espaço aos times eliminados e ao que rolou de importante no jogo em si do que nas coisas que os times podem carregar para o futuro, porque essas últimas terão um espaço maior nos previews da rodada.

Em tempo: Somos um blog moderno que temos uma página no facebook agora! Entrem lá e curtam nossa página, vamos usá-la para informar de quaisquer novidades (bem como posts novos, promoções, avisos, etc) e postar coisas mais rápidas ou curtas que não teriam espaço aqui no blog.


New Orleans Saints 15 vs 23 Seattle Seahawks


Jogando como uma zebra

Quando seu time entra em uma partida com um spread de +8, isso é um sinal seguro de que poucas pessoas esperam que você ganhe. Na hora de criar um spread, os modelos de Vegas criam uma simulação de quantas vezes um time deve vencer uma dada partida, e quanto menor a chance de um "azarão" vencer um dado jogo, maior vai ser o seu spread. Um spread de +8 indica que os modelos de Vegas esperam que você vença seu jogo apenas 25.8% do tempo, e a realidade pode ser ainda mais complicada: na história da NFL, apenas 18.3% dos times que foram zebras por exatos 8 pontos conseguiram vencer suas partidas. Desde 2004 (quando as regras começaram a mudar e favorecer o jogo aéreo), as porcentagens tem sido mais favoráveis, mas ainda abaixo do esperado: apenas 12 dos 58 times desfavorecidos por oito pontos conseguiram vencer suas partidas, 20.7%.

Claro, você não precisa ser um especialista em estatística ou em Vegas para saber que o Saints era uma grande zebra nessa partida. O Seahawks foi provavelmente o melhor time da temporada regular, terminando #1 em DVOA por uma larga margem, 20 pontos percentuais na frente do Saints (um respeitável quarto lugar). Além disso, o Saints ainda tinha que jogar em Seattle, que possui a maior home-field advantage da NFL desde que abriu o Century Link Field, um lugar extremamente barulhento com uma torcida fanática. Considerando ainda que o Saints não terminou tão bem a temporada regular (caindo para 7th em DVOA ajustado), era claro que o Seahawks ia ser o franco favorito.

A questão é que quando você está em uma situação tão desfavorável, você tem que saber que sua margem de erro é muito menor. Você tem chance de vencer, sempre, mas para isso você não só precisa ter um bom plano de jogo e tudo mais, você também precisa executar isso de forma muito mais eficiente do que normalmente, evitando todo tipo de erros e dando a menor janela possível para seus adversários tirarem vantagem. Eles já estão em vantagem em relação a você, então você tem que fazer de tudo para evitar criar ainda mais.

E foi exatamente isso que o Saints não fez, e foi isso que custou ao time o jogo. O plano de jogo da equipe, quando começou a partida, era bem claro (e foi, inclusive, o que eu disse no preview): correr bastante com a bola para encurtar as descidas, controlar o relógio e não expor Drew Brees a excelente secundária de Seattle. Sean Payton até incluiu um truque interessante: alinhar seu ataque em muitas formações de apenas um WR (uma formação que o time quase nunca usa, mas que times como SF e Arizona tiveram muito sucesso contra Seattle) para neutralizar a secundária do adversário e forçar um CB (em geral Richard Sherman) e ficar marcando um TE próximo da linha. E na verdade o Saints executou muito bem seu plano de jogo, correndo para 106 jardas só no primeiro tempo, controlando o relógio e deixando Brees lançando pouco.

Mas não importa o quão bom for seu plano de jogo, você não vai conseguir vencer um time como o Seahawks em casa cometendo tantos erros e dando tanta margem para seu adversário aproveitar. A primeira campanha do Saints terminou com Mark Ingram soltando um screen pass que deveria ser para uma conversão de 3rd down tranquila, e em seguida, Thomas Morstead deu um punt de 16 (não, sério, 16) jardas que deu a Seattle a bola na linha de 40 jardas do campo de ataque, que rendeu ao Hawks um FG... depois que o safety de NO recebeu uma falta pessoal de 15 jardas em uma 3rd and 11. A campanha seguinte, New Orleans fez um bom trabalho movendo a bola e chegando no campo de ataque, mas o kicker Shayne Graham errou um FG de 45 jardas (mais sobre isso em um minuto). Depois de outro FG de Seattle, o Saints recuperou a bola... e duas jogadas depois, Mark Ingram sofreu um fumble recuperado por Seattle na linha de 24 jardas do campo de ataque, dando ao Seahawks uma ótima posição de campo mais uma vez. Dessa vez, Marshawn Lynch aproveitou e transformou isso em um touchdown para fazer 13-0 Seahawks. Algumas campanhas depois, New Orleans chegou na linha de 29 do campo de ataque... para tentar e falhar em converter uma quarta descida. Seattle aproveitou e anotou mais um FG para deixar em 16 pontos a diferença no intervalo, um buraco enorme para voltar fora de casa, em um tempo ruim, contra a melhor secundária da NFL.

No segundo tempo, New Orleans colocou a cabeça no lugar, parou de cometer erros e esse foi um dos motivos que levou o time a conseguir voltar para o jogo, mas o buraco que o time tinha cavado para si mesmo acabou sendo grande demais. Entre o FG errado, o punt e o fumble que renderam a Seattle ótima posição de campo, são 13 pontos que você deixa de ganhar ou dá de presente para seu adversário (e isso sem contar a boa posição de campo após errar o FG ou falhar na conversão de quarta descida). Em um jogo contra uma defesa tão boa, em que você sabe que precisa de cada ponto e oportunidade a seu favor, você não pode cometer tantos erros e esperar sair com a vitória. E mesmo depois que o time improvavelmente conseguiu reagir e recuperar a bola nos segundos finais, o jogo acabou, é claro, com um erro grosseiro do time: Drew Brees fez grande jogada para acertar um passe para Marques Colston faltando 5 segundos, o que significa que o time teria uma última chance de conseguir um Hail Mary da linha de 35 jardas do campo de ataque para tentar empatar o jogo. Só que Colston esqueceu de sair pela lateral para parar o relógio, e ao invés disso tentou um passe lateral horrível que acabou com as chances da equipe de vez. É o tipo de erro mental que destrói um time, e esse aconteceu logo no momento decisivo.

E a verdade é que esse festival de erros do Saints, que deram diversas oportunidades para Seattle, na verdade esconderam um jogo bem ruim do Seahawks (ofensivamente, pelo menos) que poderia ter levado a uma derrota. Russell Wilson teve apenas 9/18 passes para 108 jardas, números péssimos, e até a corrida final de Marshawn Lynch o ataque terrestre conseguiu apenas 4.2 jardas por corrida (não ruim, mas não ótimo). Era tudo que o Saints queria quando se preparou para essa partida, e poderia ter levado a um resultado diferente se o time visitante conseguisse se controlar e se ater a um jogo mais eficiente. Você pode cometer alguns erros quando é o favorito, mas é difícil demais ganhar um jogo tão desfavorável se você continua dando chances ao adversário. E foi por isso que o Saints perdeu.

Dificuldades técnicas

Um outro ponto que acabou muito custoso ao Saints nessa partida foi, bem, o trabalho do seu técnico.  Eu gosto muito do Sean Payton como técnico, acho ele um dos melhores da NFL e um dos grandes motivos pelos quais o Saints voltou aos playoffs em 2013, mas o trabalho dele nesses playoffs deixou muito a desejar. Ele quase custou ao seu time a partida contra o Eagles com algumas decisões incompreensíveis (a mais maluca talvez fosse correr com a bola em uma 3rd and 11 próximo de FG range quando ainda faltavam 13 minutos no relógio e o time estava apenas 6 pontos na frente. A corrida não chegou em FG range, o time foi para o punt, e o Eagles eventualmente viraria a partida aproveitando essa burrice), mas contra o Seattle a margem para erro era ainda menor e portanto suas decisões acabaram custando ainda mais caro.

Você poderia questionar também se foi uma boa idéia Payton segurar tanto o braço de Drew Brees até o jogo já estar 16-0 - ele não lançou uma bola que passou da linha de scrimmage até o segundo quarto, e só lançou uma bola para um não-RB na mesma altura - mas além desses detalhes, o que chamou minha atenção foi como ele lidou com situações complicadas de quarta descida.

A primeira foi o já mencionado FG errado por Graham. Na situação, o Saints estava enfrentando uma 4th and 4 na linha de 27 jardas do campo de ataque, o que nos da um FG de 45 jardas. Claro, em um vácuo, o FG era a decisão comum. É uma distância confiável para um bom kicker, e é difícil converter uma 4th and 4 contra uma defesa tão boa quanto a do Seahawks, então você pode garantir os pontos - ainda que a 4th Down Calculator indique que você tem mais a ganhar tentando a conversão. O problema é que o jogo não acontece em um vácuo, e sim em um estádio onde estava chovendo e ventando muito, e o pior, ventando contra o chute de Graham. Esse mesmo vento já tinha influenciado o punt de 16 jardas do Morstead, e portanto era claro que a chance de acertar um FG dessa distância era muito menor nessas condições, o que faria a tentativa de conversão ser a decisão lógica (ainda mais considerando que um FG errado da ao adversário uma posição de campo melhor). Mas Payton, normalmente muito agressivo, decidiu chutar, e o chute de Graham não tinha a menor chance de entrar desde o momento que saiu do chão.

Pouco depois, no segundo quarto, o Saints se viu em situação semelhante. 4th and 4 na linha de 29 jardas do campo do Seattle, um FG de 47 jardas. Dessa vez, Payton tentou a conversão e não o FG, e Michael Bennett (o melhor jogador em campo) pressionou um arremesso ruim de Brees que acabou incompleto. Eu realmente não tenho nenhum problema com essa conversão: o time perdia por 13 (então precisava do máximo de pontos possíveis contra uma ótima defesa), as condições não eram favoráveis a um chute, e o 4th Down Calculator indica que você tem mais a ganhar indo para a conversão (e isso antes de levar em conta o quão difícil seria tirar a vantagem no segundo tempo contra a defesa do Seahawks). Então foi uma boa decisão. A questão é que se você acha o FG vantajoso para 45 jardas contra o vento, porque você vai achar um FG de 47 jardas A FAVOR do vento pior? Claro, a situações eram diferentes, mas se tem uma que faz mais sentido ir para o chute é a segunda. As situações eram diferentes, por isso digo que ele fez certo em tentar a conversão, mas só torna a primeira ainda mais inexplicável (e custosa).

Por fim, Payton teve outra decisão em 4th down para tomar no final da partida. Faltando 4 minutos e perdendo por 8, o Saints teve uma 4th and 15 da linha de 30 jardas do campo do Seattle. O FG seria de 48 jardas e sem dúvida ajudaria o Saints em sua busca pela virada, e uma conversão de 15 jardas contra essa defesa sem dúvida tem uma chance de sucesso muito pequena, de forma que não era a melhor opção. O FG seria o mais simples... de novo, se não fosse o vento. O vento voltou muito forte no quarto período, e mais uma vez estava contrário ao chute de Graham. 48 jardas com vento é um chute extremamente difícil, e Graham já tinha errado um em condições pouco menos desfavoráveis. A chance do FG entrar, embora seja difícil precisar, com certeza era muito baixa - tanto que assim que o FG foi chutado, ele já desviou para muito longe do alvo e nunca sequer chegou perto do Y. Então considerando a baixíssima probabilidade de certo no FG e a ótima posição de campo que você da ao Seattle em caso de erro - Lynch anotou o TD quatro jogadas depois - porque você iria tentar o FG? Mesmo que achasse que uma 4th and 15 teria uma chance de insucesso semelhante, porque não ir para o punt e tentar colocar Seattle na sua linha de 10? Com vento forte é mais difícil passar a bola, e assim você aumenta suas chances de recuperar a posse com tempo no relógio e o placar inalterado. O FG errado deu a Seattle grande posição de campo, e sabemos como isso acabou. Se enfrentando um jogo tão difícil você tem que minimizar seus erros, então a atuação de Sean Payton não ajudou.

Indianapolis Colts 23 vs 43 New England Patriots


É fácil (e errado) colocar a culpa em Andrew Luck

Então o Colts tomou uma surra do Patriots e foi eliminado dos playoffs. E claro, como sempre acontece, todo mundo teve que correr para achar alguém em colocar a culpa. A simples lógica de "venceu o melhor time, que entrou com o melhor plano de jogo e executou esse plano melhor" parece não ser boa o bastante, então todo mundo precisa de um bode expiatório. E foi ai que muita gente se voltou contra Andrew Luck.

O QB do time perdedor sempre está sujeito a levar a culpa. E no caso de Luck, muita gente correu para apontar que ele tinha lançado quatro interceptações (sete em dois jogos) e que isso prejudicou sua equipe, e todo tipo de derivação dessa narrativa que vocês podem imaginar. Claro, sempre é ruim quando seu QB está lançando interceptações. Uma, logo na primeira campanha do jogo, deu a bola ao Patriots na linha de duas jardas e um TD na jogada seguinte. Outra (que não foi culpa sua e veio depois do fulback soltar um passe curto) evitou que o Colts aproveitasse um safety em um punt bizarro.

O problema desse raciocínio é colocar em um contexto de jogo como essas interceptações ocorreram. O Colts entrou em campo procurando explorar a grande fraqueza de New England, sua defesa terrestre, e para isso precisou correr muito com a bola, especialmente pelo meio da linha defensiva de seu adversário. Bom, não funcionou - os dois guards de Indianapolis tiveram péssimas atuações, Donald Brown foi mal com a bola nas mãos, e isso significou basicamente que o time não conseguiu encurtar as descidas e precisou que seu QB convertesse todo tipo de jogada longa a cada campanha. Não ajuda que a defesa de Indianapolis se tornou apenas a segunda da história da NFL a tomar jogos consecutivos de 40 pontos, o que diminuiu ainda mais a margem do Colts para gastar o relógio e fez  o time precisar ainda mais do jogo aéreo.

Em outras palavras, para o Colts se manter no jogo, eles precisaram que Andrew Luck os mantesse lá sem ajuda de um jogo terrestre. Para piorar, com Reggie Wayne machucado, o Colts só tinha um recebedor bom no seu time (TY Hilton), e a defesa do Pats fez seu plano de jogo exatamente para tirar Hilton do jogo, sabendo que Luck ficaria sem outras opções. Então o resultado não foi agradável para Andrew Luck, que teve que jogar praticamente sozinho, o dia todo, atrás no placar, precisando acertar passes para recebedores que não estavam muito livres ou com um bom espaço para poder avançar. A falta de separação que seus WRs e TEs conseguiam obrigava Luck a colocar cada bola em um espaço pequeno cercado de defensores. Então é claro que alguns arremessos de Luck foram ruins e acabaram nas mãos dos defensores, mas é isso que acontece quando você não tem alternativa senão ficar forçando esses passes o jogo todo. Pouquíssimas vezes Luck teve o luxo de lançar para um recebedor que tinha espaço, e na maioria das vezes era um WR com dois defensores em volta pegando uma bola colocada exatamente no alcance das suas mãos e fora do alcance do defensor. Como você pode culpar alguém por isso?

A verdade é que se não fosse Luck mantendo o Colts na partida com arremesso ridículo atrás de arremesso ridículo o jogo todo (alguns entre os mais bonitos que eu vi na temporada inteira), o jogo teria acabado muito antes e Indianapolis não estaria ainda com chances no meio do terceiro período. Como disse alguém no twitter, não teve nada mais emocionante nesses playoffs do que ver Luck lançando para algum jogador fora da tela da TV. Ganhou o melhor time, o mais bem preparado e o mais experiente, mas não tenham a menor dúvida: o Colts perdeu apesar de Andrew Luck, não por causa dele.

O lixo de um é o tesouro do outro

Só por diversão, temos dois RBs desse final de semana:

RB A - 24 corridas, 166 jardas, 4 TDs
RB B - 3 corridas, 1 jarda, 0 TDs

Os dois RBs foram trocados recentemente de seus times antigos para os atuais. Um custou uma escolha de primeira rodada. Outro custou uma escolha de sétima rodada. Tempo!!

Claro, todo mundo já deve saber a essa altura que o RB A, LeGarrette Blount, foi o que custou a escolha de sétima rodada e o RB B, Trent Richardson, foi o que custou uma escolha de primeira rodada. Esse é o parte de porque o Patriots tem um time tão bom e competitivo a tanto tempo: eles são excelentes achando talentos sub-valorizados a preços baixos (Blount ganha um salário mínimo, btw) e tirando o máximo deles colocando-os em um contexto favorável e um plano de jogo inteligente, e foi o mesmo com Blount, que foi chutado de Tampa Bay mesmo correndo para 1000 jardas como calouro para se tornar o RB #1 de um time como o Patriots. Enquanto isso, o Colts pagou um preço altíssimo em inflacionado por um jogador com mais "status" e que nunca tinha feito nada para mostrar que era um bom jogador.  Um foi uma operação de baixo risco que rendeu ótima recompensa, outro foi uma troca de altíssimo risco que até agora foi um fiasco homérico. O Patriots ri com seu sucesso, enquanto o Colts vai ter que montar um time ao redor do seu excelente QB sem poder contar com essa escolha valiosa. Esses erros e sucessos contam e muito para o sucesso de cada equipe na NFL.

San Francisco 49ers 23 vs 10 Carolina Panthers


A ascensão e queda de Riverboat Ron

Uma das histórias mais divertidas da temporada foi a transformação de Ron Rivera em Riverboat Ron. Ron Rivera era um dos técnicos mais conservadores da NFL, um cara que se recusava a pensar de forma alternativa e tentar conversões curtas mesmo tendo Cam Newton e três bons RBs a sua disposição. Esse pensamento retrógrado causou muitas derrotas aos seus times ao longo dos últimos anos, e também foi bastante prejudicial para Carolina no começo do ano, de forma que até escrevi sobre isso em uma coluna depois da semana 2. Mas em algum momento ao longo da temporada, inexplicavelmente (eu assumo que envolveu uma experiência de quase morte e sonhos com espíritos), Rivera entendeu que estava prejudicando seu time com isso, e decidiu que iria se tornar o técnico mais agressivo da NFL. De repente, o Panthers estava indo para todo tipo de 4th and 1 e 4th and 2 durante os jogos, convertendo um número ridículo dessas jogadas e tendo grande sucesso com essa agressividade. Rivera até se deu o apelido de Riverboat Ron para simbolizar sua transformação, e não tenho dúvida de que essa transformação teve papel importante na grande temporada do Panthers.

Domingo, no seu primeiro jogo de playoffs como técnico do Panthers, Riverboat Ron teve uma chance de mostrar seu novo e mais agressivo eu. Depois de uma 1st and goal da linha de 6 jardas e duas corridas de Mike Tolbert e Cam Newton, o Panthers se viu em uma situação de 3rd and 1 para anotar o TD. Tolbert correu com a bola e foi parado para nenhum ganho, criando uma 4th and 1 e uma clássica situação de Riverboat Ron.

A decisão de Rivera aqui deveria ser clara como água: ele tem que tentar o touchdown. Não tem nem muito o que discutir. Você tem um dos melhores ataques de curta distância da NFL e o melhor QB de curta distância da NFL, e anotar o TD te da quatro pontos a mais do que um FG. A 4th DQ diz que um time vai converter na média 68% dessas jogadas, o que dá ao time uma expectativa de anotar 4.8 pontos ao tentar a conversão, enquanto ganha apenas 3 chutando o FG. Além disso, existe um benefício oculto em tentar a conversão que muita gente ignora: mesmo em caso de falha, você ainda vai ter seu adversário preso na linha de meia jarda, uma situação muito difícil que pode render um safety para a defesa, ou pelo menos uma boa chance de recuperar a bola em grande posição de campo (especialmente em uma defesa tão boa como a de Carolina). Considerando ainda que esse era um jogo entre duas defesas muito fortes e que anotar TDs seria difícil, você tem ainda mais motivos para aproveitar essa chance que pode ser a única. Então Rivera estava 100% certo quando alinhou para tentar a conversão.

Apesar da boa chamada, Newton foi pego na linha de meia jarda e o Panthers saiu sem o TD. Mas tudo funcionou mesmo assim, porque como já disse é a vantagem de tentar a conversão: o 49ers não conseguiu nada da linha de meia jarda (quase sendo interceptado), na hora de ir para o punt o time alinhou em uma formação mais conservadora que o normal (por conta da falta de espaço para evitar um bloquei), o que deu bastante espaço para o retorno de Ted Ginn até a linha de 31 jardas. No lance seguinte, Cam Newton mandou uma bomba perfeita para Steve Smith anotar o TD, um TD que acabou sendo consequência direta da agressividade do time na 4th down.

No entanto, pouco depois, o Panthers se viu com uma decisão quase igual para Riverboat Ron. Depois de uma corrida de Newton, Carolina esteve em uma 2nd and goal da linha de 1 jarda. Newton tentou um scramble que não deu em nada na 2nd down, e Tolbert foi parado novamente na linha de uma jarda na terceira descida, criando mais um 4th and goal da linha de uma jarda. Mas dessa vez, provavelmente por conta dos seus insucessos nessas situações na partida, decidiu ir para o FG. O PAnthers anotou o FG para abrir 10-6 no placar, mas San Francisco logo recebeu a bola, gastou os 4 minutos restantes na partida para anotar o TD e virar 13-10, e o Niners dominou o resto do jogo a partir desse ponto sem dar chance ao rival.

É difícil dizer que um lance apenas como esse mudou todo o jogo e foi o responsável em transformar um primeiro tempo de total dominação de Carolina em um segundo tempo perfeito de San Francisco, mas é fácil ver que Ron Rivera errou feio ao chutar o FG e o quanto isso custou ao seu time. A lógica para tentar a conversão é a mesma de antes: você tem um bom ataque terrestre, o TD vale muito mais pontos que o FG, e você coloca o ataque adversário em péssima situação caso não funcione. E nesse caso ainda por cima tem a questão do tempo, já que você provavelmente recebe a bola em tempo de tentar uma última campanha sem deixar nada  para o adversário, mais um motivo para tentar o TD. Claro, muita gente vai apontar que foi bom porque o time não vinha conseguindo anotar o TD nessa situação, mas isso é overreact a uma amostra pequena: Carolina converteu 90% das situações semelhantes ao longo da temporada, e a defesa de SF permitiu TDs em 66% de jogadas na linha de uma jarda ao longo dos últimos dois anos. Além disso, tinha a questão da posição de campo e do relógio a serem considerados. Então tentar era uma decisão clara. Rivera ficou com medo e chutou o FG. Carolina anotou os três pontos, mas devolveu a bola para SF na linha de 20 jardas ao invés da de uma jarda, SF anotou o TD para virar o jogo faltando 5 segundos e foi para o vestiário na frente, 13-10, em um primeiro tempo dominado por Carolina, e o time nunca mais olhou para trás.

Os cenários que Rivera deixou de considerar são um bom exemplo de porque ele errou. Se o TD é anotado, o time abre 14-13 e iria para o vestiário em vantagem mesmo após o TD de San Francisco. Se a conversão é falha, San Francisco começa da linha de uma jarda, provavelmente vai para o punt, e Carolina ainda teria tempo de tentar um FG ou mesmo um TD, indo para o vestiário na frente 7-6 ou mesmo 10-6 ou 14-6. Ao invés disso, foram para o intervalo perdendo de 13-10, algo que poderia ser evitado se Riverboat Ron tivesse falado mais alto na lateral. Ao invés disso Rivera ficou com medo pelo seu insucesso anterior, esqueceu um fator importante que fez do seu time tão bem sucedido, e seu time pagou o preço.

A diferença que um treinador faz

A falha de Rivera em ser Riverboat Ron custou ao seu time no final do primeiro tempo, e coincidentemente ou não, foi o momento que o jogo mudou (SF iria ganhar o jogo por 17-3 a partir daquele ponto). Mas teve outro motivo para essa mudança drástica, e também teve a ver com técnicos. Dessa vez, com Jim Harbaugh e Vic Fangio.

Um dos motivos pelos quais o Panthers foi tão bom no primeiro tempo, especialmente no ataque, foi porque eles pegaram o Niners desprevenido em seu plano de jogo. Assim como ano passado SF pegou Green Bay de surpresa com o read option, Carolina também incluiu em seu plano de jogo uma série de pequenos ajustes e formações diferentes que tinha usado pouco durante a temporada regular e que, certamente, não estavam nos vídeos estudados pelo Niners. Ao invés do pacote pesado de corridas, o time usou muitos disfarces para deixar Cam Newton a vontade no pocket e pegando a defesa desprevenida nas laterais. O time também usou alguns read options para correr com a bola e também, menos comum neles, para fazer simples play actions e deixar seus WRs velozes no mano-a-mano contra a secundária desfalcada de SF. A defesa não estava esperando isso, e Carolina aproveitou para fazer seu ataque funcionar (menos na linha de uma jarda).

Mas no intervalo, especialmente com a vantagem proporcionada pelo erro de Riverboat Ron, o Niners fez seus ajustes. Ofensivamente, o time pouco fez de excepcional, alguns ajustes na proteção e mais lançamentos na direção de Anquan Boldin (especialmente explorando Dayton Florence). Mas defensivamente, o time voltou preparado para o novo plano de Carolina. Com a vantagem (que subiu para 20 na primeira campanha ofensiva do time) e maior confiança na sua defesa terrestre, o time começou a ser muito mais agressivo ofensivamente, mandando muitas blitzes de diferentes locais e pressionando os CBs na linha de scrimmage, tirando a opção dos passes curtos e rápidos e obrigando Cam Newton a fazer seus passes depois de algum tempo, em geral sem espaço no pocket ou fugindo de um sack. Newton não funciona tão bem nessas situações, ainda tem alguns hábitos ruins (especialmente lançar a partir do pé de trás) e não tem a criatividade e precisão de Wilson ou Aaron Rodgers. Muitas vezes ele tentou ganhar tempo no pocket esperando seus WRs ficarem livres para logo ser engolido pelo pass rush, e quando tentou sair pouco espaço teve para fazer qualquer coisa. O read option parou de funcionar e foi abandonado, e ai o Panthers teve que voltar para seu plano tradicional, que não teve sucesso contra uma fortíssima defesa. A maior diferença foi a pressão gerada, com cinco sacks só no segundo tempo em cima de Cam (contra apenas um no primeiro). O ataque de Carolina não iria mais ameaçar o resto do jogo, o ataque terrestre de SF começou a achar espaços, e o time carimbou sua viagem a Seattle. Então nunca subestimem a importância dos ajustes dentro de jogo dos técnicos. O 49ers ajustou brilhantemente, e Carolina não conseguiu responder.

Em tempo, já que o assunto é a importância de um técnico, San Francisco passou 8 anos sem sequer ir aos playoffs, ganhando 7, 2, 4, 7, 5, 7, 8 e 6 jogos entre 2003 e 2010. No ano seguinte chegou Jim Harbaugh, e San Francisco ganhou 13, 11.5 e 12 jogos nos três anos seguintes, chegando a três finais de conferência consecutivas. Um bom lembrete sobre o impacto que um bom técnico pode ter, para todos os times que estão mudando seus técnicos nessa offseason.

San Diego Chargers 17 vs 24 Denver Broncos


Quando tudo da certo, e você não aproveita

Um primo próximo do que falamos sobre o Saints, sobre como quando você enfrenta um adversário que é franco favorito você não pode continuar dando a ele presentes e oportunidades para causar estrago. A situação do Chargers, embora semelhante, não é a mesma. Se o Saints deu oportunidades ao adversário e não podia, o Chargers foi o time que recebeu diversas oportunidades (uma parte delas menos por causa de erros do Broncos e mais por pura sorte) para tentar a zebra, mas não conseguiu aproveitar. E as duas são mortais, lembrando que San Diego era +9.5 para esse jogo - isso significa que esperam que você vença 22.2% do tempo apenas (curiosamente, na história da NFL, times + 9.5 venceram 22.1% das vezes antes desse jogo).

Deixando de lado um instante a má atuação do Chargers durante os primeiros 40 minutos de jogo e a boa atuação da defesa do Broncos, a verdade é que o placar deveria ser muito mais elástico do que foi. O Broncos foi o time que vacilou ao longo da partida, as vezes por más jogadas, as vezes por puro azar. O que eu falei que o Saints não podia fazer com o Seattle, o Broncos fez um pouco aqui. A questão é que o Chargers não transformou isso em nada.

Logo na primeira campanha do Broncos (após uma boa campanha de SD terminar em um sack e um punt), Peyton Manning teve a bola na linha de 29 do campo de ataque e tentou achar um Wes Welker em velocidade na end zone. Mas o passe foi muito ruim e sem controle, e ficou pendurado tempo o suficiente para o CB Shareece Wright cortar a rota do passe e se colocar em posição para conseguir uma interceptação. A bola foi perfeito no meio do peito de Wright, que não conseguiu segurar e fazer a interceptação. Algumas jogadas depois, Manning transformou o erro de Wright em 7 pontos com um passe para Demaryius Thomas. Depois de outro punt, Chargers teve uma nova chance: em um passe esquisito para Julius Thomas, o TE de Denver não conseguiu controlar a bola direito, tomou um tackle e soltou a carne, que foi recuperada por San Diego. No replay é quase impossível ver com certeza se foi fumble, down by contact ou passe incompleto, então permaneceu a marcação original, para sorte do Chargers. De novo, o time não aproveitou a boa posição de campo (linha de 45): o time avançou 26 jardas antes de Philip Rivers tomar um sack, e Nick Novak errar o FG. Então San Diego poderia ter evitado os 7 pontos de Denver e/ou anotado mais pontos seus com esse fumble sortudo, mas ao final dessas campanhas, o placar ainda era 7-0 para Denver. Aproveitando a boa posição de campo do FG errado, Manning logo anotou outro TD para fazer 14-0, um 14-0 que o Chargers teve a chance de evitar ou fazer algo melhor e não aproveitou.

Mas espera, tem mais. Faltando 3 minutos para o fim do primeiro tempo, o Broncos recuperou a bola novamente e se lançou em uma campanha. O time chegou dentro da linha de 5 jardas, mas na terceira descida, um bom passe de Manning para Eric Decker não foi seguro pelo WR, pipocou no ar, e Donald Butler  fez ótima jogada na bola pendurada para conseguir com uma interceptação, salvando assim pelo menos três pontos. Com 30 segundos e dois tempos para pedir, San Diego preferiu ajoelhar na bola mesmo sabendo que ela começaria com Denver no segundo tempo. Logo no retorno, Eric Decker quebrou seis tackles e tinha caminho livre até a end zone, mas tropeçou sozinho e caiu na linha de 40 jardas. Logo depois, Manning fez passe lindo para um livre Wes Welker na end zone, que deixou a bola cair e forçou o FG de Denver. Então o que deveria ter sido 10 ou mesmo 14 pontos para Denver acabou resultado em apenas três, por pura sorte e pela boa jogada de Butler. Pouco depois, Matt Prater ainda erraria um FG de 47 jardas.

Eventualmente no quarto período, Philip Rivers e o ataque do Chargers acordou, anotou 14 pontos porque a defesa do Broncos inexplicavelmente decidiu que não precisava cobrir Keenan Allen e ainda recuperou um onside kick milagroso para trazer a diferença para sete pontos, antes de Manning tirar o jogo de alcance com dois passes cruciais em terceiras descidas (uma em 3rd and 18). O Chargers chegou perto de conseguir uma grande zebra, mas a verdade é que o jogo não foi nem tão apertado como pareceu pelo que os dois times jogaram, e também não é difícil ver aonde o Chargers não conseguiu. O Broncos e o acaso deram várias oportunidades para o Chargers, e eles não aproveitaram. Tiveram uma interceptação na mão para evitar 7 pontos do Broncos e não conseguiram. Recuperaram um fumble em grande posição de campo, não geraram pontos e ainda deram boa posição para o Broncos anotar mais sete. Conseguiram sair de alguma forma tomando só 3 pontos quando deveriam ter tomado 14, e mesmo assim só foram anotar um TD no quarto período.

Se o Saints nos ensinou que quando você quer superar um time superior você não pode continuar atirando no próprio pé e dando chances ao adversário, então o Chargers é um exemplo de como você também não pode deixar passar todas as chances que colocam nas suas mãos, senão o buraco fica grande demais para sair depois. O Chargers não conseguiu, e é por isso que a Bolo Tie não está indo para New England semana que vem.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Preview NFL 2013 - New Orleans Saints

A defesa do Saints - e os torcedores - adorariam fazer isso com Goodell



Para saber do que estamos falando aqui e dessas estatísticas, recomendo a leitura desse post antes
Se quiser opinioes e analises sobre o Draft, voces podem ler o Running Diary da primeira rodada ou o manual de como avaliar um Draft na NFL


Depois de terminar a série de previews da AFC East, os previews da NFC East, os previews da AFC North, os previews da NFC North, e agora os da AFC South, começamos a falar da NFC South pelo interessante Atlanta Falcons. Agora é a vez do campeão de 2009, New Orleans Saints. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

New Orleans Saints

2012 Record: 7-9
Ataque ajustado: 9th
Defesa ajustada: 32nd


Provavelmente não tem nada mais difícil na NFL, hoje e sempre, do que determinar o impacto que um técnico tem sobre um time quando entra, sai ou se ausenta. Na verdade, esse é um dos meus problemas com o prêmio de técnico do ano: como medir exatamente o quanto um certo técnico foi valioso para um time, especialmente quando ele está lá ano a ano sendo valioso? Isso é mais fácil quando tem um outro parâmetro para comparação (um outro técnico entrando ou perdendo o lugar para ele, por exemplo) e mesmo assim ainda é muito difícil porque é extremamente difícil separar onde acaba a influência do técnico e onde começam as mudanças do elenco, os fatores aleatórios (que temos analisado por aqui) e pontos fora da curva. Por exemplo, esse ano o Coach of the Year foi dado para Chuck Pagano e Bruce Arians, do Colts, por terem levado o 2-14 Colts a 11-5 e uma vaga nos playoffs, um feito impressionante. Mas quanto disso foi efeito das chegadas de Pagano e Arians? A incrível sorte da equipe em 2012 e a chegada daquele cara chamado Andrew Luck provavelmente não tiveram também muito a ver com isso, até mais a ver? O impacto de Pagano e Arians no lugar de Jim Caldwell foi maior do que impacto estável de Jim Harbaugh e Bill Belichick em seus respectivos times, com a diferença que esses últimos não conseguimos analisar pois estavam lá ano passado já? (Para mim não, Jim e Bill são melhores). Não sabemos, e não temos como saber.

O que não quer dizer que mudanças de técnicos não tenham impacto. Peguem meu 49ers, por exemplo, quando seu técnico era o horrível Mike Singletary. Em 2009, a equipe terminou uma boa e extremamente azarada temporada que deixou um gosto amargo na boca porque todos sabiam que era um time que merecia ir aos playoffs, um 10-6 Pythagorean Expectation que acabou ficando como um record de 8-8 por causa de um record 2-6 em jogos decididos por uma posse de bola. A defesa era espetacular (Top5), o time parecia estar se encontrando, o time teve alguns jogos marcantes (em particular um 24-9 contra o atual campeão da NFC Cardinals que foi a melhor performance defensiva que eu já vi na vida, forçando 7 turnovers), e tudo indicava que o primeiro ano completo de Mike Singletary (que assumiu no final da temporada 2009) seria o ano da redenção.

Não aconteceu. Singletary foi o pior técnico que eu vi na minha vida e fez tudo errado, mudando frequentemente de quarterbacks e não dando qualquer confiança ou entrosamento para nenhum, trocando de coordenador ofensivo, usando um playbook muito malfeito, se mostrando incapaz de planejar um esquema de jogo em torno das forças e fraquezas de seus jogadores (pior ainda, tentando adaptar seus jogadores ao esquema de jogo pré-determinado), e basicamente sendo horrível em tudo que fez. A equipe caiu para 6-10 (com PE de 7-9, nenhum consolo), a quebra de expectativas foi absurda, e Singletary foi demitido antes do final da temporada. Na offseason, a equipe inteligentemente foi atrás de Jim Harbaugh... e tudo mudou. Foi como largar a Mara Maravilha e começar a namorar a Mila Kunis: Jim mudou a cultura da equipe, controlou cada aspecto da franquia junto do GM Trent Balkee, fez boas contratações e ajustes, montou um playbook genial em torno de Alex Smith, e levou o time a 13-3 em uma temporada embora fosse basicamente o mesmo que em 2010 (mais Aldon Smith). Se existisse algo como WAR para técnicos da NFL (podiamos nomear de Wins Above Singletary, ou WAS), o de Jim provavelmente seria o mais alto da história da NFL em 2011. Em 2012 ele pegou esse mesmo time e levou um passo a frente com Colin Kaepernick, mas como a base de comparação era um espetacular ano anterior dele mesmo, ninguém prestou atenção (o mesmo motivo de Jerry Sloan, Greg Popovich e Phil Jackson combinarem para menos de cinco prêmios de Coach of the Year na NBA).

E essa é a parte difícil de avaliar o Saints, que caiu de 13-3 para 7-9 no ano que seu técnico Sean Payton foi suspenso por causa do "Bountygate". Quanto exatamente disso foi influência da saída de Payton - um dos cinco melhores técnicos da NFL, sem dúvida - e quanto foi uma piora real e orgânica de seu time? Payton está de volta esse ano, então essa é uma discussão importante e central para podermos avaliar o que esperar da equipe para 2013. Então vamos ver exatamente o que mudou, ano a ano, e tentar separar o que a volta do Payton deve mudar e o que deve continuar ruim. Começamos com a seguite tabela:



(Só para lembrar: todos os números são ajustados, e os percentuais indicam quão superior (ou inferior) um time foi em relação a média da Liga. No caso de defesas, quantos pontos a mais cedeu, então quanto mais negativo, melhor).

Incluí na tabela 2010 também para dar uma amostra melhor da equipe com Sean Payton para evitar pontos fora da curva (embora 2010 tenha sido sim um ponto fora da curva ofensivamente, para pior). Acho que não preciso destacar como a queda da equipe de 2011 para 2012 foi brutal. Não apenas em termos de record (e mesmo assim, seis vitórias de diferença é muita coisa), mas em praticamente tudo. O ataque despencou (especialmente pelo chão, mas também pelo ar), a defesa continuou o declínio pelo qual já vinha passando e isso tudo se refletiu na imensa e absurda queda de eficiência da equipe. Isso tudo pode ser visto nos dados acima. A questão agora é tentar separar um pouco do que deve continuar para o ano que vem e do que deve voltar.

Se você for observador e entendeu bem algumas das estatísticas que temos usado nesses previews, talvez tenha pensado o seguinte: "Espera, se Drew Brees e o Saints não tem um histórico sustentável de vencer jogos decididos por uma posse de bola e superar sua Pythagorean Expectation (e não tem mesmo), a diferença entre os dois times foi de apenas quatro vitórias, não poderiamos atribuir isso a enfrentar um calendário MUITO mais forte? Talvez não tudo, mas uma boa parte?". Se você pensou isso, meus parabéns, está indo pelo caminho certo. Um time 12-4 (em PE) cair para 8-8 (de novo em PE) apenas com um calendário mais difícil é bem improvável, mas certamente podia motivar uma parte disso aliada aos fatores normais da saída do Payton, sem dúvida. Infelizmente, tem um outro fator que me faz crer que não é o caso: o Saints de 2012 foi o quinto time mais sortudo da Liga recuperando fumbles, com 61.3%, mas o de 2011 foi um dos piores da década nesse aspecto, recuperando 24.3%, um número absurdamente baixo. Considerando o impacto dessa enorme mudança de azar para sorte no seu record e saldo de pontos, da para concluir que ainda tem muito mais a explicar do que somente a mudança no calendário.

Embora, é claro, a mudança na dificuldade da tabela seja um fator que deva ser levado em conta. Os números de ataque, defesa e eficiência acima são todos ajustados por adversário, mas ainda teve um impacto sem dúvida na qualidade de jogo da equipe em geral e sobre seu saldo de pontos/Pythagorean Expectations. Um outro ponto interessante a ser levado em consideração é que esses números refletem a eficiência da equipe em relação a média da NFL, mas a liga foi mais forte em 2012 do que em 2011 (especialmente ofensivamente) com a explosão de times como Seattle, Washington, Indianapolis e até San Francisco e seus novos QBs, bem como a volta de Peyton Manning. A chegada de basicamente CINCO novos QBs de alto nível na NFL sem dúvida colocou a barra bem mais alto do que um ano antes, e portanto é natural que os números ofensivos do Saints em relação a média da liga sejam muito menos dominantes(vale citar que SF, Redskins, Seahawks e Broncos foram quatro dos times que passaram NO em ataque nessa temporada). Então isso ajudou em relação aos números acima, sem dúvida.

Mas isso ainda deixa muito a ser explicado. Chequem por um instante os números de Drew Brees em 2011 e 2012:

2011: 468/657, 71.2%, 5476 jardas (recorde da NFL), 46 TDs, 14 INTs, 8.3 Y/A, 84.01 QBR
2012: 422/670, 63.0%, 5177 jardas, 43 TDs, 19 INTs, 7.7 Y/A, 67.87 QBR

Mesmo com a diferença de força no calendário, ainda é uma diferença significativa, certo? E embora a temporada de 2011 tenha sido a melhor de Brees, não é como se fosse uma aberração: ele tinha liderado a NFL em aproveitamento dois anos seguidos antes de 201, suas jardas por passe foram ainda maiores em 2009 (8.5), e suas taxas de TDs e interceptações também já foram maiores em 2009. Então 2011 foi uma grande temporada com uma grande carga de trabalho, mas não foi uma aberração. 2012 foi muito pior: o aproveitamento foi seu pior desde 2003, e tantos em Y/A, TD% e INT% Brees sofreu um setback para essa temporada. Claro, Brees tem 33 anos, mas Brady e Manning tem mais e estão mantendo seu nível. Embora não seja absurdo supor que a idade esteja começando a alcançar Brees, não é explicação suficiente com apenas uma temporada desse "declínio" logo depois de sua melhor temporada como profissional. 

A outra explicação possível seria uma saída de jogadores importantes do ataque, o que foi um pouco mas também não tanto o caso. Robert Meachem saiu mas era dispensável, sua saída facilmente foi suprida pelo aumento das repetições de Lance Moore quando Meachem foi ser um bust em San Diego. A saída de Carl Nicks é outra história. Nicks e Jahri Evans formavam provavelmente a melhor dupla de guards da NFL em 2011, sendo os dois All-Pros aquele ano. Em 2012, Nicks levou seu talento para a Flórida para jogar no Bucs, e embora seu substituto tenha se saído ok, ele não era Carl Nicks. Se quer procurar o principal motivo pela queda do bom jogo terrestre da equipe, não precisa procurar mais: a linha ofensiva do time foi a melhor correndo com a bola em 2011, e sem Nicks caiu para uma boa e acima da média, mas nem de longe tão dominante 11th melhor (embora ainda fosse muito boa em corridas de força, 3rd overall). Mas quanto ao impacto disso no jogo aéreo e na queda de produção de Brees, ainda não foi um grande motivador. A piora no jogo terrestre sem dúvida foi um fator, mas nenhuma defesa entra para enfrentar o Saints planejando sobre como parar Mark Ingram e Pierre Thomas, o foco é todo no jogo aéreo, então provavelmente não foi um fator tão grande. E quanto a proteção ao QB, a linha do Saints continuou como uma das melhores da NFL (3rd para 6th) mesmo com a saída de Evans, então a saída de seu Pro-Bowl Guard provavelmente teve um impacto consideravelmente maior na queda no jogo terrestre do que no jogo aéreo.

Então a queda no jogo terrestre pode ser explicada, mas a do jogo aéreo não. Alguma queda era normal depois dos patamares altíssimos de 2011 e do reforço no calendário, mas ainda não faz sentido. E é aqui que Payton supostamente faz mais falta: no jogo aéreo. Payton é um excelente pensador ofensivo, um cara que sabe muito bem planejar para adversários, chamar jogadas, ler defesas e trabalhar em sintonia com Brees. Ele sabe adaptar o playbook em conjunto com seu QB, ele sabe quando seu time deve ou não usar um certo tipo de formação... basicamente, ele tem um controle incrível sobre seu ataque, o tipo de controle que só vem quando você tem um grande técnico ofensivo com uma fundação estável por um longo período de tempo. E enquanto é muito fácil colocar a culpa de tudo de ruim que aconteceu no Saints em 2012 em cima da ausência de seu técnico, eis aqui um ponto onde eu acho que Payton foi realmente o que fez a diferença. Não estou dizendo que o Saints teria tido um ataque tão bom quanto em 2011 com um calendário consideravelmente mais difícil e alguma regressão natural de um patamar absurdo para Brees (especialmente em relação a média da Liga, que subiu bastante em 2012), mas acredito que teria sido melhor e mais eficiente pelo ar. 

A defesa é um problema diferente. Payton é daqueles técnicos que gostam de estar envolvidos em tudo que se passa, desde ataque a special teams, mas ele não é exatamente um estrategista defensivo que planeja e toma conta de sua defesa. Ele sempre deixou esse trabalho mais para seus coordenadores, sem se envolver pessoalmente. Por isso acho que dificilmente a volta de Payton vá resultar no retorno de uma boa defesa. Até porque a defesa já vinha caindo consideravelmente desde o título de 2009, de 10th para 28th para 32nd, muito antes de Payton ser afastado. Muitos motivos levaram a isso, entre eles os principais sendo o envelhecimento e perda de alguns jogadores, e uma queda no volume de turnovers forçados. Em particular, quem despencou mesmo foi a secundária desde as lesões e subsequente aposentadoria do Darren Sharper. Em parte porque Roman Harper está envelhecendo em anos de cachorro, em parte porque a linha de frente parou de conseguir colocar boa pressão nos adversários (Will Smith nunca explodiu como se esperava, o meio da linha não conseguiu os mesmos resultados de 2010, Sedrick Ellis teve 6 sacks em 2010 e 0.5 sacks nos dois últimos anos somados...) e em parte porque a saída de Tracy Porter foi mais sentida do que o esperado, mas o fato é que essa declínio não é algo pontual ou inesperado. A defesa do Saints comprometeu dinheiro demais para alguns poucos jogadores (em particular Smith) na esperança de que estourassem, mas nunca aconteceu e a defesa se viu presa a jogadores medianos e com pouca flexibilidade para achar novas peças de elite.

Para o ano que vem, as coisas vão mudar um pouco... o que não quer dizer que vão melhorar. O Saints trouxe Rob Ryan de Dallas para ser coordenador defensivo, e Ryan já avisou que vai mudar a defesa para uma formação base 3-4. Isso é sempre difícil de projetar ano a ano porque envolve uma mudança muito grande na forma como o time vai defender, como ele vai se adaptar, e como essa nova defesa vai explorar as forças do grupo. Mas Ryan - que não tem feito bons trabalhos em Dallas e já devia ter saído faz muito tempo, vale citar - vai ter muito trabalho para lidar com uma defesa que não só estava acostumada demais ao 4-3 como, francamente, não tem muito talento, como suas campanhas ruins na defesa tem indicado. A equipe investiu pesado na secundária, draftando Kenny Vaccaro na primeira rodada para misericordiosamente substituir Roman Harper, e trouxe o bom Kennan Lewis e Jim Leonhard, muito bom alguns anos atrás mas que caiu devido a lesões (ainda pode ser uma adição interessantes). Então alguma coisa melhor deve ser esse ano.

Mas a equipe perdeu Ellis, e eu tenho dúvidas de como esse elenco vai se adaptar ao esquema 3-4 de Ryan: o melhor jogador defensivo da equipe (tirando Jonathan Vilma, que alias operou o joelho) provavelmente é o DE Cameron Jordan, que teve 8 sacks em 2012, mas será que ele vai conseguir colocar tanta pressão no QB jogando de DE em uma defesa 3-4, enfrentando bloqueadores maiores e mais marcações duplas? Será que Will Smith, aos 32 anos de idade, vai conseguir manter alguma da sua decadente produção fazendo a conversão para OLB? Será que Jordan vai conseguir ser produtivo sem um OLB de impacto ou um NT capaz de exigir marcações duplas? Será que seus calouros de terceira rodada de 2012 e 2013 (os dois disputando a vaga de NT titular) darão conta do recado? A falta de OLBs confiáveis e de ofício e o fato de que agora você está colocando seu melhor pass rusher mais para o interior da linha (sem um NT que tenha se mostrado até agora sólido) podem anular boa parte do impacto da maior agressividade desse esquema, deixando a defesa ainda mais exposta. Claro, é difícil demais saber com certeza qual vai ser o impacto dessa mudança, pode ser que vários jogadores surjam ou se descubram em novas funções, mas até ver algo assim na prática, eu estou cético. Os dois melhores pass rushers de um time que já tem dificuldade para pressionar o QB estão mudando de posição, e um deles tem 32 anos. A equipe não tem - ou pelo menos não mostrou que tem - as peças para jogar nesse esquema, então enquanto essa mudança pode ter sido feita pensando no futuro e nas peças que eventualmente chegarão, eu ainda não acho que vá ser um bom ano para esse grupo. Apesar das melhorias na secundária - consideráveis - ainda acho que vai ser um grupo melhor do que ano passado, mas ainda ruim.

Então enquanto é muito fácil fechar os olhos e atribuir todos os problemas da equipe a saída do Sean Payton - e não se enganem, teve impacto sim - o fato é que o Saints foi pior em 2012 por uma série de diversos motivos que tem pouco ou nada a ver com Payton, como sua defesa, a perda de Nicks e por ai vai. O maior efeito que, pelo que vimos, pode ser sentido em campo da saída de Payton foi principalmente no ataque aéreo, um efeito que não é pequeno considerando que é o carro chefe da equipe e conta com seu melhor jogador, mas a queda do Saints pode ser atribuída a muitos outros motivos, como um calendário muito mais forte, a perda de Nicks e Porter, o envelhecimento de uma defesa que já era ruim para começar e alguma regressão. Então sim, a volta de Payton vai reforçar o time: o ataque vai evoluir, o time vai chegar maior preparado, e presença de um técnico como ele via dar mais tranquilidade e estabilidade a equipe. Mas Payton não vai transformar Will Smith em Von Miller ou Malcolm Jenkins em Ed Reed, e Payton não vai jogar de LG para a equipe. A saída de Payton obscureceu o fato de que o Saints de 2012 era um time pior que o Saints de 2011, e para falar a verdade, é possível que o de 2013 seja ainda pior considerando a saída do ótimo Jermon Bushrod, o LT que protegia o lado cego de Brees, e as mudanças na defesa. O Saints vai evoluir por diversas das razões que falamos aqui: o impacto de Payton no jogo aéreo (e no ataque em geral), uma provável melhora de Brees, regressão contra sua Pythagorean Expectation, as melhoras na secundária e tudo mais, mas eles ainda enfrentam o terceiro calendário mais forte da liga em 2013, ainda tiveram sorte em 2012 com fumbles, ainda devem ter uma defesa ruim (embora com potencial de melhora na secundária, é uma incógnita demais no 3-4) e perderam dois dos seus três melhores linemans.

Com a volta de Payton e Brees dando a volta por cima, eles podem chegar a 9-7? Sem dúvida. 10-6? Talvez... mas eu já não sei. E esse é o problema: não da para saber se o efeito de Payton é apenas o que identificamos no jogo aéreo ou se tem mais escondido por todo o resto que não se reflete em estatísticas.  Existem motivos concretos para a defesa ter piorado e para o jogo terrestre ter piorado, mas quanto exatamente? Não sei. Não temos como medir o impacto de um técnico ano a ano. Por isso essa talvez seja a previsão mais difícil de todos os 32 previews, e por isso não gosto do meu 9-7 para o Saints. Acho que abaixo de 8-8 não vai ficar, eles ainda tem Brees e Payton é um dos melhores técnicos da Liga, mas considerando a perda de Bushrod, a falta de reforços e a tabela ridiculamente forte (em uma divisão que promete ser ridiculamente forte)... eu não me sinto confortável projetando 10-6 ou playoffs. Então fico com 9-7 com uma vitória de margem de erro (mais inclinado para 10-6) porque é impossível apostar contra um QB de elite, mas com peso na consciência. E se Sean Payton voltar para calar minha boca, que seja!

domingo, 12 de dezembro de 2010

A dança dos técnicos

"Como eu faço pra arrumar um bico de juiz?"

Não é exatamente comum o que vem acontecendo com os técnicos na NFL. Claro, como em todo esporte, o técnico é o principal responsavel por administrar seu time dentro de quadra (as vezes até fora) e muitas vezes é deles a culpa por um fracasso. Quem acompanha futebol, especialmente o brasileiro, sabe do que eu tou falando: Quantas vezes um técnico que nao consegue ganhar com um elenco fraco acaba demitido? Quantas vezes um time ou uma seleção com muitas expectativas acaba nao as cumprindo e o técnico acaba saindo? Claro que os técnicos tem grande e direta influencia nos seus times e muitas vezes um técnico realmente não consegue extrair o que poderia de um elenco, e ai é hora de trocar. Ou então a convivencia de um técnico com um grupo se esgota, o tecnico começa a perder o controle e nao tem mais como ficar. São coisas que acontecem.

Mesmo assim, os técnicos tambem servem como ótimas valvulas de escape. O time nao está rendendo? Bem... É culpa do técnico! Jogadores importantes deixaram de produzir bem? Claro que é o técnico! O calouro que era pra ser o salvador da patria nao joga nada? Porque o técnico nao faz ele jogar! Nossos tres QBs titulares machucaram? O técnico que é ruim! A Grécia faliu? Culpa do técnico! Mas o que o técnico tem a ver com a Grécia? A verdade é que não tem nenhuma e nem ninguem liga, mas as pessoas insatisfeitas que nao veem o que gostariam ficam mais calmas se tiverem alguem pra colocar a culpa. E o técnico é o mais facil de pagar o pato: Como voce vai negar que aquele timasso que voce montou não está rendendo tudo isso por culpa do cara responsavel por colocar ele em campo?

Claro que nao estou negando a importancia do técnico no time. Eles são importantissimos em varios aspectos, servem de mentores pros jogadores fora de quadra, sao responsaveis por achar a melhor forma do time funcionar dentro de quadra, explorar os pontos fortes do time e camuflar os fracos. O técnico é extremamente importante e muitas vezes, seja por incompetencia, estilo de jogo ou quaisquer outras razões, o técnico realmente nao consegue começar um trabalho e acaba sendo o responsavel por um desempenho ruim. Mas tambem nao da pra negar que eles viram, muitas vezes, bodes espiatorios.

É até engraçado pensar nisso, mas o contrario nao é tao comum. Muitas vezes, em times vencedores ou que se superam, os jogadores sao os responsaveis, tem muito talento no time e tudo mais. O técnico é importante, claro, mas como ele poderia fazer o time ser tao bom se nao fossem os jogadores? Muito comum ver por exemplo o Bill Belichick sendo considerado um genio e talz, mas o Belichick é uma excessão: Quantas vezes alguem atribuiu o sucesso do Chiefs à comissão técnica? Ah não, mas o Matt Cassell está jogando muito bem, o Dwayne Bowe é o novo Randy Moss, o Jamaal Charles é isso e aquilo, o técnico só aproveitou bem o que ele tinha em mãos. Porque o Titans, depois de começar 0-6 ano passado, se reerguer, terminar 8-8 a temporada, ninguem fala que o que causou essa arrancada foi o Jeff Fisher e a sua sacada que ele poderia usar o Vince Young e sua habilidade atlética pra transformar o Chris Johnson na arma mais letal da NFL?? Lembro que no Super Bowl desse ano, quando acabou a partida e o Saints foi campeão, eu falei pro meu amigo que via o jogo comigo: "Deviam dar o MVP pro Sean Payton!". O Drew Brees foi genial, absolutamente brilhante, e praticamente pavimentou seu caminho pro Hall da Fama com isso, mas o onside kick que o Sean Payton mandou o time dar foi a manobra mais doentia e genial que eu vi num Super Bowl e se nao fosse ela provavelmente o Colts teria saido vencedor daquele Super Bowl. Ele foi ousado, e colheu os louros por isso: foi campeão. Outro exemplo que eu dei recentemente foi o proprio Bill Belichick e sua importancia no Patriots vencedor. Desde esse post sobre o Patriots, tem um diferencial importantissimo, que é o nível doentio que o Brady vem jogando desde então. Mas antes dele começar a jogar nesse nivel, a boa campanha do Patriots era 90% merito do Belichick. Mas quase ninguem falava nele: era Benjarvus Green-Ellis pra ca e Danny Woodhead pra lá.

Mas na NFL, bem mais do que no futebol brasileiro, a galera costuma deixar o técnico ir até o final. Geralmente as mudanças de técnico ocorrem no final das temporadas, e muitas vezes no final do contrato. A temporada é vista como um projeto, até porque ela é curta demais pra tentar uma mudança drástica dessas. Cada técnico tem a offseason pra treinar e armar o time no seu esquema de jogo, montar o seu playbook, ou livro de jogadas, e o time vai com essa cara pra temporada. Durante a temporada voce tme tempo de menos pra tentar mudar isso tudo, entao voce pega um técnico novo com um playbook que nao é dele, com um time que ele tem nas maos ha pouco tempo, e com uma pressão ainda maior. Rarissimas vezes isso funciona pra salvar uma temporada. Mas só essa temporada ja tivemos tres mudanças de técnicos, e parece que teremos mais por vir.

Primeiro foi Wade Phillips, do Cowboys. Depois, Brad Childress, do Vikings. E finalmente Josh McDaniels do Denver. O que esses tres técnicos tem em comum? Bom, apesar do McDaniels em menor nivel, eram tres times que tinham expectativas em alta. Os Cowboys tinham um ótimo time, muito completo, que chegou aos playoffs ano passado, viu jogadores como Miles Austin explodirem e ainda contava com um calouro extremamente promissor no Dez Bryant, eram favoritissimos a serem o primeiro time a jogar um Super Bowl no seu estádio. O Vikings teve Brett Favre de volta e manteve o time do ano passado que chegou à final de conferência e só perdeu na prorrogação pro campeão Saints, outro time que entrava com status de favorito a ir jogar em Arlington. E o Denver Broncos, apesar de ter perdido Brandon Marshall e nao contar com um elenco estrelado, jogava numa divisão relativamente fraca, com um Chargers enfraquecido tanto no ataque como na defesa e alem disso era um time que tinha começado a temporada 2009 com um record de 6-0, antes de refugar e terminar a temporada 8-8 e perder os playoffs.

Eu ja tinha falado aqui da demissão desses técnicos, e pra mim duas delas foram acertadas, Phillips e Childress. Nao acho Phillips um técnico ruim, mas acho que o estilo dele no Dallas nao estava funcionando, a mentalidade do time não estava bem e ele nada conseguiu fazer pra mudá-la (só foi mudar quando mudou o técnico) e ele clarmente nao tinha mais o grupo nas mãos. Numa temporada perdida, aplaudi a decisão da diretoria de dar uma chance ao Jason "Sorriso Colgate" Garrett de mostrar do que era capaz. E realmente, a postura do time mudou, a mentalidade mudou e mesmo sem o Tony Romo o time tem ganho partidas e dado muito trabalho em outras. O Childress eu achava um técnico abaixo da media desde o começo: errou quando nao insistiu no Adrian Peterson pra dar o controle do ataque ao Favre, nao teve jogo de cintura em nenhum momento pra adaptar o time à realidade que eles enfrentavam e não teve culhões de botar o Favre no banco pra jogar com o mais perigoso (e doeu escrever isso) Tarvaris Jackson. Tudo bem que nao foi culpa dele que o Sidney Rice machucou cedo e que o Favre voltou jogando muito mal, mas faltou inteligencia pra contornar o problema, e achei que uma mudança de ares tambem faria bem ao time.

Ja o McDaniels eu nao achei boa. O Denver nunca teve um grande time pra começar, e o sucesso do começo da temporada do Denver ano passado se deu devido a duas fontes: Sorte e Elvis Dumerville. Dumerville era o OLB do time mas nunca tinha se destacado muito, até que em 2009 foi o lider da NFL em sacks e deu uma dimensao absurda pra defesa do Denver, que agora podia colar o Champ Bayley no melhor WR do adversário, colocar o Brian Dawkins olhando a bola e contar que o Dumerville ia conseguir fungar no pescoço do QB pra nao dar tempo dele pensar, podia se dar ao luxo de colocar mais gente na linha pra parar a corrida. Bayley no mano a mano e Dawkins de ball hawk metem medo em qualquer QB da Liga. Acontece que o elenco fraco do Denver acabou sucumbindo e nao foi aos playoffs. Essa temporada, mesmo antes de começar, estava perdida pro Denver: Dumerville machcou sério e ia perder toda a temporada. Tudo bem que a divisao nao era das mais fortes, mas Chiefs e Raiders melhoraram e era dificilimo ir pros playoffs assim. O que acabou dando esperanças pro Denver é que o Kyle Orton começou a jogar demais e chegou a liderar a NFL em jardas aéreas. Mas quando dava pro Josh McDaniels - um renomado coordenador ofensivo do seu tempo em New England - começar a estruturar um ataque ai, machuca o Knowshow Moreno, pra acabar de vez com as chances do Denver lidar com isso. Alem disso, Dawkins tambem teve que lidar com lesões e jogar no sacrificio boa parte do ano. Isso tudo estava alem do controle do Josh McDaniels, que conseguiu fazer milagre com o Orton e o Brandon Lloyd mas nao conseguiu levar esse time limitadissimo e sem seus principais jogadores mais longe. Era hora do Denver recolher os cacos e começar a planejar pro ano que vem, quando o Denver de repente me demite o McDaniels. O McDaniels é um encrenqueiro e isso é fato, e nao vazou na imprensa se tinha algum racha no grupo contra o técnico ou algo assim. Se sim, torna mais facil entender essa demissão. Mas se não, o McDaniels ja brigou e causou a saida do Brandon Marshall e do Jay Cutler. A diretoria ficou do lado do McDaniels, deu backup pro técnico e disse que tava mandando os dois embora por contar com o trabalho dele. E de repente ele é demitido: Faz sentido?? Pra mim não faz nenhum. A demissão do McDaniels, pra mim, foi puramente uma tentativa de achar um bode espiatorio por causa de uma expectativa que nunca deveria ter existido.

Mas a dança dos técnicos nao parou por ai. O Titans, que começou 5-2, agora está 5-8 depois de uma derrota pro Colts quinta a noite. E agora ja começaram a falar em demitir o Jeff Fisher dentro de Nashville, Tennessee. Quando eu li, eu confesso que fiquei estarrecido. Eu nao acreditava que o dono do Titans ia ser tão louco a esse ponto. O Fisher foi o responsavel, como eu disse ali em cima, em perceber que colocando o Vince Young pra fazer o bootleg era perfeito pra abrir espaços pro Chris Johnson, e conforme isso acontecia, isso ia abrir espaços pro Young lançar a bola. Foi isso que reergueu o Titans de 0-6 pra 8-8 e quase os levou aos playoffs. E agora o mesmo Fisher que fez isso leva a culpa pelo Vince Young ter machucado, ter dado de louco, ter tido que escalar o calouro Rusty Smith porque o Kerry Collins tava mal ou machucado?? Pra mim o erro do time foi ter ido atrás do Randy Moss, mas culpar a queda de produção de Titans no Moss é desespero ou ódio do cara. O Titans nao consegue estabilizar sua situação de Quarterback e o Chris Johnson teve uma temporada tão boa em 2009 que virou figurinha marcada em 2010: todo mundo sabe do que ele é capaz entao vai fazer de tudo pra pará-lo. Acontece que pra voce conseguir reverter isso a seu favor voce precisa de um QB bom: e faz tempo que isso nao acontece em Nashville. Foi isso que impulsionou o time no começo e é isso que ta causando a decadencia do time. A defesa está jogando bem, mas o ataque nao tem como aproveitar seu melhor jogador porque ele nao tem um QB capaz de fazer a defesa colocar mais de quatro jogadores na secundária. O Kerry Collins tem história, teve uma temporada excelente, de MVP em 2008, mas desde a temporada passada ele nao tem jogado bem e nao da pra confiar mais nele. A solução é o Vince Young, mas lesões e falta de dedicação tem minado seu trabalho por lá.

Outros técnicos que tem seu trabalho marcado são Mike Singletary, do 49ers, e o Mike Shanahan, do Redskins. Eu acho que nenhum dos dois tem feito um grande trabalho esse ano, mas nenhum dos dois é o responsavel pelo fracasso parcial dos seus times. A linha do 49ers tem uma falta de jogadores que nenhum técnico no mundo pode suprir e lesões a jogadores importantes e que matou um time que depende muito do jogo terrestre, que nao encontra espaços, e de um QB que precisa de tempo no pocket pra fazer boas jogadas. Alem disso, o coordenador ofensivo do time não soube em nenhum momento cobrir as falhas do time. Ou seja, o problema ali vai muito alem do técnico, e nao acho que trocar o HEAD COACH seja a solução, embora eu ficaria dando pulos de alegria se trouxessem o McDaniels pra coordenador ofensivo. O Alex Smith conseguir recuperar sua forma do ano passado nao seria nada mau tambem. Por isso acho que, pelo menos agora, Singletary nao deve sair. Ja o caso do Shanahan é mais delicado. A falta de peças realmente tem atrapalhado demais, e o Donovan McNabb ta numa temporada muito fraca, mas nesse caso eu vejo um pouco mais de dedo do Shanahan: ele em nenhum momento passou confiança ao McNabb e ainda fez o favor de botar o Rex Grossman (um minuto de silencio) no lugar dele porque 'estava mais preparado' ou 'estava mais em forma'. Tudo besteira, ele realmente nao confia no cara. Outro problema ali de ordem disciplinar é o Albert Haynesworth, que nao ta sendo contornado, mas pra mim o problema ai foi da diretoria que deu pra ele esse contrato insano. Alem disso, muitas lesões tanto no ataque como a defesa tão segurando o time que, realmente, tem um elenco velho e limitado. Mas talvez esteja faltando algum pulso pro Shanahan nesse time, eu tou sentindo que ele está começando a perder o controle do elenco, e isso é péssimo.

Mas pra voces verem que nem tudo cai em cima dos técnicos, peguem o exemplo do Jim Caldwell e sua cara de coitado. O Caldwell é um técnico limitado e que com certeza nao vai preencher o lugar deixado pelo Tony Dungy, mas o Colts perdeu mais de cinco jogadores importantes com lesões: Isso está muito alem do controle do técnico. Ele é limitado sim, mas todo mundo na organização reconhece que nenhum técnico seria capaz de trabalhar com tantas baixas quanto ele está tendo que lidar. Eu falei num comentario que fiz ao comentário do Lucas no post sobre o Peyton Manning que adorei uma frase que li sobre o Colts "Voce tem que tacar no google o nome de metade do elenco de apoio". O Caldwell, repito, é limitado, mas nao da pra julgar o trabalho do cara sendo que tem muitas coisas alem do controle dele que tão dando errado pro time. E nisso acho que o Broncos foi extremente precipitado e tambem o será o Titans se mandar o Fisher embora: Voce tem que ter cabeça fria e principalmente coragem pra reconhecer onde está o que é de controle do técnico que está dando errado, e o que está alheio a ele e afeta diretamente o rendimento do trabalho dele. Técnicos nao fazem milagres, e resultados não são a melhor forma de analisar o trabalho d técnicos. Mas as vezes falta a coragem de explicar pra torcida que o planejamento foi errado, que as lesões atrapalharam, que simplesmente é hora de esquecer essa temporada e começar a pensar na proxima. Mas as vezes é essa coragem que leva umas pedradas agora e monta um elenco vencedor no ano que vem. Quer um exemplo? Sean Payton, que amargou por dois anos Drew Brees jogando em nivel de MVP com um elenco de apoio mediocre incapaz de ganhar jogos, mas pressão da torcida e da mídia ficaram de lado, Payton ficou no comando do time e, a meu ver, foi o MVP - ou MVC, Most Valuable Coach - do Super Bowl XLIV.