Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Como avaliar um Draft na NFL

Trent Balkee dizendo: "Come at me bro!!". Só porque ele pode.

Esclarecimento: Essa é uma coluna que eu escrevi um ano atrás, depois do Draft de 2013. Estou repostando a dita cuja aqui simplesmente porque cada palavra dela ainda é extremamente relevante, e trata de um assunto que é sempre muito importante e muito esquecido no pós-Draft, quando todo mundo corre para dar notas e fazer avaliações apressadas.

A coluna original terminava com alguns exemplos dos times que eu achei que tinham se dado bem ou mal no Draft seguindo esses critérios. Eu tirei isso dessa coluna porque dessa vez pretendo escrever uma coluna inteira (na verdade duas, NFC e AFC) separada sobre o assunto, de preferência ainda essa semana.

Se vocês querem ler meu Running Diary do Draft 2014, com todas minhas reações e opiniões pessoais em tempo real, é só clicar aqui. Eu recomendo, está muito bom.

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É muito comum, depois de um Draft (especialmente o da NFL), aparecerem posts falando sobre quem ganhou e quem perdeu o Draft. A premissa é simples: Olhando o talento dos jogadores que foram Draftados, quem "ganhou" foi o time que mais pegou grandes jogadores que vão causar impacto e dominar a NFL, e quem "perdeu" foi o time que usou suas escolhas pra pegar jogadors piores que não vão render. O problema lógico com essa abordagem é simples: Ninguém sabe, dias depois do Draft, quais jogadores vão dar certo e quais não vão. Só podemos usar esse tipo de visão alguns anos depois do Draft em questão, depois de ver os jogadores em seus clubes e o tipo de impacto que tiveram. Por exemplo, se alguém fosse fazer uma história do tipo depois do Draft da NFL de 2000, o Patriots provavelmente não seria citado ou seria citado como um dos "perdedores": Não tendo uma 1st round pick (enviada para o Jets como "compensação" por lhes tirar o técnico, Bill Belichick, no meio do seu contrato), o Pats usou escolhas de segunda e terceira rodada em jogadores duvidosos e não pegaram nenhum daqueles jogadores que eram considerados possiveis "steals". Hoje? Eles foram os grandes vencedores daquele Draft por saírem com Tom Brady da sexta rodada do Draft! E ninguém tinha como saber isso.

Isso acontece por causa de um grande problema quando se trata de esportes: Muitas pessoas preferem julgar as coisas pelo resultado do que pelo processo. Ao invés de avaliar todo o processo, que diz muito mais sobre uma pessoa ou uma ideia, elas preferem decidir se esse processo foi bom ou não com base apenas em ter funcionado no final ou não.

Meu exemplo favorito, é claro, são os Oakland Athletics da era "Moneyball". Para quem perdeu o filme e o livro (heresia!), o Athletics era o time mais pobre da MLB no começo dos anos 2000 mas, usando estatísticas avançadas e contrariando o senso comum (algo ignorado pelos outros 29 times na época), sempre conseguiam ter um dos melhores records da Liga mesmo com a menor folha salarial. Só que como o A's nunca foi campeão, toda a mídia descartava o método de Billy Beane como sendo um fracassado que nunca levaria um time ao sucesso. E dai que esse método tinha feito do Athletics, todo santo ano, o melhor time da Liga por 162 jogos mesmo perdendo seus melhores jogadores todo ano e montando o elenco com jogadores que todos os outros times descartavam? O resultado final - a derrota nos playoffs, em series de cinco jogos onde a variância estatística é absurda - só provava que o método era falho. Alguns anos depois, Theo Epstein remontou o Red Sox com esses mesmos princípios do Athletics e levou o time ao título de 2004... E ai de repente todo o método rejeitado anteriormente passou a ser visto como um sucesso, todos os times adotaram o modelo, e o Red Sox passou a ser visto como o time que tinha feito isso funcionar, embora fosse exatamente o mesmo metodo que levava os A's aos playoffs todo ano.

O problema do Draft é exatamente esse: Todo mundo quer julgar o Draft com base nos resultados, mas ninguém tem como saber exatamente qual vai ser esse resultado, então todo mundo tenta projetá-lo  com base em palpites e suas avaliaçōes anteriores ao Draft, o que é um absurdo porque cada caso é um caso, e o impacto que um time tem sobre um calouro é diferente em cada situação. Não é apenas sobre talento e instrumental: Depende de como o jogador se encaixa em um certo estilo, como uma comissão técnica consegue desenvolver um jogador, como sua personalidade se adapta ao elenco, as oportunidades que ele terá para crescer... É uma infinidade de variáveis que torna isso tão dificil de prever. Então sim, daqui a cinco anos podemos sentar e discutir quem acabou se saindo melhor desse Draft e quem acabou quebrando a cara. Mas agora, dias depois do Draft, a unica coisa que podemos fazer é avaliar o processo pelo qual esses times acabaram com esses jogadores.

Então se você espera que eu diga quais times saíram com jogadores melhores aqui, lamento decepcionar. Se quer meus pensamentos sobre cada jogador e as decisōes dos times em draftá-los, então leia meu Running Diary da primeira rodada do Draft. Lá eu dei meus palpites, disse como cada jogador faz sentido naquela escolha e tudo mais, critiquei alguns por algumas escolhas que eu achei equivocadas, e pronto.

O objetivo desse post  é outro: Explicar quais são as formas de se avaliar o "processo" de um time no Draft, e como um time se coloca numa posição de sucesso. O resultado aqui é basicamente irrelevante, e vamos focar muito menos no "talento" dos jogadores, uma coisa extremamente subjetiva. Por exemplo, eu acho que o Cardinals errou ao Draftar Deone Bucannon na frente de Jimmy Ward, os dois jogam na mesma posição e eu acho Ward simplesmente melhor. Mas essa é apenas uma questão de avaliação, de tentar prever o resultado antes dele acontecer. Então podem ficar tranquilos, NYJ fans, vocês não vão ver o Jets entre os "perdedores" aqui.

Mas bem, vamos a isto: Quais são as formas de se avaliar o processo de um time no dia do Draft?


1. Como o time lidou com o valor de suas escolhas de Draft?

A primeira e mais importante faceta do Draft envolve uma palavra apenas: "Valor". Pense numa escolha de Draft como um ativo. Ela te dá direito a escolher um jogador entre um grupo de jogadores, e quanto antes você escolher, maior será a chance de escolher o cara que é avaliado como o melhor, ou mais valioso. Portanto, a forma como voce usa essas escolhas pra adquirir esse talento faz toda a diferença. O que eu estou falando nao é que você tem sempre que usar suas escolhas pra adquirir o jogador mais valioso disponível, essa é apenas uma abordagem possível e a abordagem depende do caso em questão (já chegaremos lá). O que eu estou falando é que, quando você está no Draft, você tem que maximizar o valor das suas escolhas quando está decidindo o que fazer com cada escolha, seja trocar ou escolher um jogador. 

Pense na seguinte situação. Voltemos ao Draft de 2000, quando Tom Brady entrou na NFL. Brady era avaliado pela Liga como uma escolha de sexta/sétima rodada ou até mesmo não-draftado, aquele QB que voce pega no final do draft pra competir pelo banco. Agora suponha que alguém entrou numa máquina do tempo hoje, voltou pra 2000 e disse ao Bill Belichick "Hey, sabe o garoto Brady? Daqui a 13 anos vão estar discutindo ele contra os maiores QBs de todos os tempos! Você TEM que pegar esse cara!!". Só Belichick sabe disso. Agora me diga: Belichick usa sua escolha de primeira rodada (suponha que ele tivesse uma) pra pegar Brady agora que ele sabe que ele vai ser tão espetacular?

Pense... Pense...

E... Tempo!

NÃO!!! NÃO!!!!!!!! CLARO QUE NÃO!! Porque ele faria isso? Brady está avaliado pela Liga como uma escolha de sexta rodada no máximo, porque ele iria gastar uma escolha de primeira rodada em um jogador que ele pode pegar com uma de quinta ou sexta? Ele tem que usar sua escolha de primeira rodada em um atleta avaliado como tal que ele não seria capaz de pegar mais tarde. Mesmo se ele tiver medo de outro time pegar Brady antes dele na sexta rodada, pode usar uma escolha de quinta ou quarta pra garantir o jogador sem sacrificar o valor das suas escolhas mais altas. E não precisamos nem ir em casos tão extremos: Suponha que um bom time (escolha 25th, digamos) quer pegar um certo jogador cotado como uma escolha de meio de segunda rodada, e não vê nenhum jogador que vale essa 25th pick. Ele pode simplesmente pegar o seu jogador, não é um gap tão absurdo, mas a melhor forma de maximizar o valor dessa escolha seria trocar pra descer no Draft, ainda pegando seu jogador numa posição mais adequada e pegando mais escolhas no processo. É uma forma de transformar a diferença de valor entre o jogador e a escolha (no caso, 25th), que você teria no primeiro caso, em outros ativos.

Claro que isso depende de outra questão: A avaliação de jogadores. O importante nesse caso não é o verdadeiro valor do jogador (algo impossível de medir), mas o valor que é atribuído ao jogador antes do Draft por analistas, especialistas e pelos times. Nem todo time vai avaliar os jogadores igual, mas hoje em dia na era da informação, os times em geral tem avaliaçōes bastante próximas, sem grandes desvios. Voltando pra questão do Cardinals, Bucannon e Ward tinham um valor semelhante pra escolha 27 do Cards, nenhum deveria cair muito mais. Era apenas uma questão de avaliação. A liga em geral avaliava Ward como melhor, o Cards avaliou Bucannon como melhor (ou mais adequado ao seu time)... Mas ambos avaliavam os dois jogadores como sendo um talento de valor semelhante no Draft. Por isso mesmo que haja algumas diferenças - que tende a aumentar nas rodadas posteriores - em geral a variação não é tão grande. 

E no final, essa é simplesmente a face mais importante do Draft. Cada pick carrega um certo valor, que decresce conforme a escolha vai sendo mais tardia. Conseguir usar bem o valor dessas picks, seja na hora de escolher um jogador ou de fazer uma troca por outras picks, o importante é sempre maximizar o valor das escolhas que você tem na mão. E como voces vão reparar, mesmo as categorias abaixo envolvem o valor que voce tira das suas escolhas também, só que de outras formas.


2. Como os jogadores escolhidos se encaixam no time?

No fundo, isso esta intimamente relacionado à questão do valor, mas mais específica. O item anterior envolve o valor absoluto dos jogadores mas ainda mais das escolhas, em maximizar o valor de cada escolha na hora de tomar decisōes. Essa envolve uma outra simples verdade: Assim como um objeto não tem o mesmo valor pra cada pessoa, o valor de cada jogador não é igual para todos os times. 

Isso acontece por uma variedade de motivos. O primeiro, e mais obvio, é que os times jogam de formas diferentes, com estilos diferentes e com playbooks diferentes. Portanto, cada time vai precisar de jogadores com características que se encaixem no que o time vai usar em campo. Por exemplo, se eu jogo com uma defesa 4-3 como base, eu posso até draftar um OLB cuja força é ir atrás do QB, mas esse tipo de jogador vai ter menos valor pra mim do que pra um time que jogue em uma defesa 3-4, por exemplo. Ou de forma mais sutil, se meu ataque é baseado mais fortemente no jogo terrestre do que no jogo aéreo (pense 49ers com Alex Smith), um OG ou um OT mais veloz e mais eficiente na corrida tem mais valor do que pra um time como Patriots onde o trabalho da OL é proteger o QB na maior parte do tempo. 

Uma outra forma de se pensar em valor relativo é a seguinte: Alguns times simplesmente sabem desenvolver jogadores melhores do que outros em dadas posiçōes. Pense na defesa do Steelers: Eles tem o mesmo DC faz anos, e jogam com o mesmo esquema faz um tempão. Eles sabem exatamente o que precisam nos seus jogadores de defesa e por isso tem mais facilidade que qualquer outro time da Liga desenvolvendo esses jogadores, em especial seus LBs. Portanto, pra um LB pego na terceira rodada do Draft, ele tem muito mais chance de se desenvolver em um bom jogador no Steelers, seus técnicos excelentes e seu esquema consolidado,  do que qualquer outro time que tente pegá-lo mais pra frente. Por esse motivo, o Steelers sabe que pode pegar um OLB mais pra frente e desenvolvê-lo, então não precisa usar suas escolhas mais altas - e mais valiosas - pegando jogadores dessa posição com tanta frequência, podendo dedicá-las a jogadores de outras posiçōes que o time não desenvolva tão bem sabendo que pode conseguir um bom OLB em outro momento do Draft.

Então esse tipo de encaixe importa. Valor não depende apenas da escolha que está sendo usada, mas do encaixe do jogador com o time. Um jogador tem maior valor relativo pra um time se ele se encaixar melhor no seu estilo de jogo (o que não quer dizer que um time não vá pegar um grande talento cujo instrumental não seja o mais perfeito ao seu estilo, claro), e um time eficiente em certas áreas pode usar isso pra buscar maior valor em áreas deficientes. Combinar isso com o valor de cada escolha é uma constante em times que draftam bem (Steelers, Ravens, etc).


3. Como a abordagem do time no Draft impacta na situação atual do time?

De novo, valor é algo relativo. A chave do Draft é maximizar o valor de cada escolha que você tem, mas cada time tenta fazer isso seguindo uma estratégia diferente baseado em uma necessidade diferente. A ideia do Draft é que não apenas ela trás valor na forma de jogadores, mas duas outras coisas: Jogadores baratos (contrato de calouro) e jogadores jovens (portanto você pode desenvolvê-los). A segunda parte, nesse caso, é um pouco mais importante: Jogadores não saem do Draft prontos, eles passam por um processo de alguns anos de adaptação e desenvolvimento. E até por uma questão estatística, quanto mais jogadores você tiver, maior a chance de um deles virar um bom titular mesmo vindo de rodadas mais tardias. Pra um time ruim e com vários buracos, é interessante ter o maior número possível de escolhas pra ter maior numero de chances de conseguir bons jogadores. Da mesma forma, pra um time mais pronto e com poucos buracos, as vezes vale a pena sacrificar algumas escolhas de Draft, subir posiçōes e pegar um jogador mais pronto e explosivo pra ajudar em uma área chave do seu time.

Um bom exemplo recente é o do Atlanta Falcons. Dois anos atrás, o Falcons tinha um bom time: Boa linha, bom QB, boa defesa. Era um time bem completo que tinha apenas um buraco grande: O time precisava de outro WR. Com um bom numero de picks no Draft, o Falcons decidiu trocar uma cacetada de escolhass (duas 1st round, duas second, uma 4th) pela sexta escolha do Draft (Browns) e pegar o WR Julio Jones. Em um vácuo, o valor das escolhas que o Falcons enviou para o Browns valiam mais do que a que eles receberam em troca. Mas pra um time tão lotado e com poucas falhas como o Falcons, o valor marginal de Julio Jones (ou seja, o valor que a adição do jogador adiciona ao conjunto) era maior do que o valor marginal que eles iriam conseguir adicionando cinco outros jogadores inferiores que não encaixassem tão bem no time como JJ. E para o Browns, cheio de buracos no time, o valor adicional desse monte de escolhas de Draft, jogadores que cobrem mais funçōes no time, compensava a perda de uma possível estrela. Tudo depende da situação.

Claro, você não pode ser cego e fazer as coisas sem pensar. Um time ruim pode trocar todas suas escolhas altas por dezenas de escolhas baixas, e pode sair com um monte de bom role players disso, mas vai perder a chance de adicionar jogadores mais garantidos e com maior potencial. Da mesma forma, um time não pode trocar suas 7 escolhas por uma só lá no alto, o risco eé alto demais de uma lesão ou um bust acabar com um ano. Entao tudo depende de achar o equilíbrio certo e a estratégia certa pra otimizar o valor para seu time.


4. Como o Draft supriu as necessidades do time?

O último ponto pode parecer óbvio - e de certa forma é - e está intimamente ligado aos outros três pontos: Praticamente todo time tem alguma posição de necessidade, alguma posição deficiente que precisa ser adereçada, e o Draft é muitas vezes a ferramenta perfeita pra isso já que a essa altura, um bom numero de Free Agents já saiu do mercado. Então, a lógica diz que você deve usar o Draft, de alguma forma, pra suprir essas necessidades ou se arriscar a ir pra temporada com essa falha.

Esse ponto aparece aqui por ultimo porque ele é o mais simples, mais fácil de se ver, e justamente por isso é o que mais GMs retardados usam como o ponto principal, quando na verdade ele deve sempre estar sujeito aos três primeiros pontos. O pior pecado que um GM pode cometer com regularidade no Draft é ficar cego pelas necessidades do time e ignorar os outros três pontos cruciais, e pegar cegamente um jogador que ele precisa.

Por exemplo, pegue o San Francisco 49ers. Ano passado eles trocaram uma escolha de terceira rodada pra subir na primeira rodada e pegar um FS, Eric Reid, que tapava a maior necessidade do time no lugar do Free Agent Dashon Goldson. Em termos de valor, as picks que o 49ers perdeu são 20% mais valiosas (de acordo com Football Perspective) do que a que eles receberam. Só que ai entra o contexto: O 49ers tinha 13 escolhas de Draft e um elenco recheado de tal modo que teria pouco espaços pra muitos calouros, então fazia todo o sentido pra equipe subir no Draft (conforme dito no item anterior) e pegar o jogador que seria o melhor encaixe no seu time. Se um time tipo Raiders fizesse isso, eu iria rir da cara deles. Entao tudo depende de contexto.

Pense de outra forma: Na média, os times avaliam os jogadores de forma semelhante antes do Draft. Alguns avaliam certos jogadores melhor, outros pior, mas na média - ainda mais hoje em dia nessa época de tanto acesso à informação - a avaliação é semelhante pros 30 clubes. Então porque os mesmos times e GMs sempre saem do Draft melhores do que a média dos times enquanto outros sempre parecem sair mal do Draft?? Porque os GMs/técnicos inteligentes (Bill Belichick, Trent Balkee, John Schneider, Ozzie Newsome, etc) sabem muito bem como trabalhar o valor no dia do Draft ao invés de simplesmente ir cegamente atrás dos bons jogadores ou que cobrem as necessidades, enquanto os outros não pensam dessa forma e só pegam os jogadores que querem independente da possibilidade de extrair maior valor da situação. E por isso essa categoria, ainda que importante, é apenas a quarta.


Então essas são as quatro melhores formas de se avaliar um Draft. Os times inteligentes sabem como lidar com todas essas faces do Draft e extrair o maior proveito deles no dia do Draft em si, apesar de toda a incerteza em relação aos resultados, enquanto times burros escolhem punters na terceira rodada porque "prefere escolher um titular do que um reserva com a 3rd rounder" (FYI, esse time tinha Blaine Gabbert de QB e passou Russell Wilson pra pegar esse punter). Obviamente, a chave é equilibrio. Não existe uma resposta certa e cada situação exige uma resposta diferente, e os capazes de juntar esses conceitos nessa resposta são os que tem sucesso. E acreditem, é bem fácil enxergar ano a ano quais são os times que acertam e erram na noite do Draft. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O caminho dos 32 times na offseason - Times de playoff

As preocupações de Sherman e do Seahawks na offseason


AVISO IMPORTANTE: Para compensar a ausência no final da temporada, e colocar um ponto final decente na boa temporada 2013 da NFL, a idéia é fazer um mega-Mailbag daqui a duas semanas. A semana que vem vai ser dedicada a olhar o caminho dos 32 times para o ano que vem, e a idéia então é que só na outra semana a gente faça o Mailbag mesmo. Qualquer tópico é válido, qualquer coisa sobre a temporada regular, playoffs, técnicos, jogadores, Free Agency e etc. Perguntas sobre o Draft também serão respondidas, mas terão menor preferência pois é um assunto que ainda vai ter sua cobertura. Então aproveitem para mandar suas perguntas/dúvidas/comentários finais da temporada para tmwarning@hotmail.com com o assunto "Mailbag", que você pode ver sua pergunta aqui e no Esporte Interativo (perguntas enviadas a Mailbags anteriores e não respondidas também serão respondidas, se ainda relevantes, btw). Então participem e vamos fazer desse último MB da temporada 2013 um sucesso.

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Depois de olhar para o passado - mais especificamente, olhar para nossos palpites de antes da temporada começar e ver quais deram certo e quais foram fiascos homéricos - é hora de olhar um pouco para o futuro de cada uma das 32 franquias da NFL. A temporada 2013 agora é passado,  e estamos entrando na pior época do ano (o tempo entre o Super Bowl e o começo do Draft e da Free Agency, que é quando por bem ou por mal a NFL começa de novo). Então é hora de pegar todos os times da NFL e ver em que ponto exatamente cada um deles se encontra nesse momento da offseason, quando estamos todos recolhendo os cacos de 2013 e se preparando para 2014. Qual a direção que cada time deve tomar para 2014? Quais mudanças devem ser feitas? Quais as incógnitas e quais as certezas? É isso que vamos tentar achar nesses posts. Serão três: um para os times de playoffs, um pra os times que não foram aos playoffs na AFC, e um aos times que não foram aos playoffs na NFC.

Então vamos começar hoje com o primeiro grupo: os 12 times que foram aos playoffs em 2013 e que esperam dar um passo a mais em 2014.

Os times de playoffs


Seattle Seahawks

Quer dizer... eles ACABARAM de vencer o Super Bowl, anotando em New Jersey 5 pontos a mais do que o time sofreu em TODOS os jogos de playoffs somados. Acredito que a preocupação com 2014 não esteja tão alta nos lados de Washington. Ainda mais que lá a maconha é legalizada.

Além disso, para repetir em 2014, o Seattle está muito bem posicionado. Graças ao fato de que muitos dos seus principais jogadores (Russell Wilson, Etan Thomas, Richard Sherman, Bruce Irvin, Bobby Wagner, etc) ainda estão em contratos de calouros que pagam um vigésimo do que esses caras mereceriam no mercado pelas suas performances, o Seahawks é um time que tem bastante espaço salarial indo para a offseason. E um dos segredos do Seattle nos últimos dois anos tem sido aproveitar  esse espaço extra na folha salarial para ir na free agency em busca de jogadores veteranos em contratos curtos, como fez esse ano com Cliff Avril e Michael Bennett. Então não só a base do time é ótima, eles tem totais condições de irem no mercado e saírem de lá com veteranos competentes (minha aposta para 2014: Jared Allen) que se encaixem na equipe e mantenham o ótimo nível dos antecessores. Não é a toa que Seattle é o grande favorito em Vegas a vencer o Super Bowl XLIX.

As questões mais complicadas para Seattle são duas. Em primeiro lugar, o time tem alguns free agents relevantes, inclusive Golden Tate e principalmente Michael Bennett. Bennett em especial teve um 2013 espetacular, foi o terceiro melhor jogador dessa defesa, e vai exigir um contrato longo e caro. Então cabe a Seattle decidir o que fazer, e não é a pior das decisões: renovar com seu melhor WR de 2013 e um dos melhores DEs da NFL, ou deixar os dois saírem e usar suas toneladas de espaço salarial para trazer substitutos baratos em contratos curtos? Eu aposto no segundo, especialmente porque chegamos no segundo "problema de Seattle". A consequência de ter uma tonelada de grandes jovens talentos em contrato de calouro é que esses contratos favoráveis não duram para sempre. Em 2015, diversos desses (inclusive Sherman, Thomas e Wilson) irão exigir um novo contrato que os pague de acordo com seu valor real, e talvez seja impossível acomodar todos esses novos milionários no teto salarial da equipe. Então o Seattle pode optar por, ao invés de usar seu espaço salarial para trazer novos jogadores, usá-lo para reconstruir o contrato de Sherman e Thomas em um novo e longo contrato com foco no primeiro ano, aproveitando assim o espaço salarial atual para absorver o grosso do contrato desses dois, e assim deixando a situação mais controlada para 2015 quando Wilson, Irvin e outros devem receber o mesmo tratamento. De qualquer forma, é apenas uma forma de antecipar a offseason de 2015, e considerando a combinação de ótimo núcleo e espaço salarial, Seattle é o favorito a ser o primeiro bi-campeão do Super Bowl desde 2004.


Denver Broncos

O Denver Broncos, basicamente, é um time apostando uma corrida contra o tempo. Eles possuem um dos cinco maiores QBs da história da NFL no seu elenco, montaram um ataque excepcional ao seu redor para maximizar suas habilidades nessa etapa da sua carreira, e possuem bastante talento do outro lado da bola para fazer desse um time equilibrado e sólido. E considerando como Peyton Manning continua batendo recordes aos 37 anos, eles possuem totais condições de serem campeões no presente.

Mas a questão é que a cada ano que passa, Manning fica mais velho e mais perto da aposentadoria, que sinceramente ninguém sabe quando pode acontecer (seu contrato vai até 2016, mas anualmente ele faz exames delicados no pescoço que passou por quatro cirurgias). Então esse é um time voltado justamente para vencer agora, e tem feito isso bem. São dois anos seguidos com a melhor campanha da AFC, e um Super Bowl desde que Manning chegou ao Colorado. Muita gente vai correr para apontar a vergonha que passou no Super Bowl, mas foi contra um time superior de Seattle estando sem Ryan Clady e Von Miller (dois dos seus seis melhores jogadores). Se o time continuar chegando perto, uma hora os fatores vão alinhar a seu favor e o título vai chegar.

O problema é que o teto salarial está apertando e Von Miller está prestes a receber um contrato mastodôntico, e então a não ser que Denver consiga algo muito criativo em termos salariais, eles terão que abrir mão de um dos seus dois principais free agents (Knowshow Moreno também é FA, mas me parece muito mais fácil substituir sua produção a um custo baixo). Dominique-Rodgers Cromartie, um dos CBs mais underrateds da temporada 2013 da NFL, e Eric Decker, com suas 1300 jardas e 11 TDs, foram duas peças essenciais para a ótima campanha do Broncos na temporada, mas parece bastante improvável que ambos consigam ser encaixados no salary cap de Denver quando os dois certamente exigirão um contrato bem lucrativo. Cabe a Denver escolher qual dos dois manter. Eu pessoalmente me inclino por Cromartie: a defesa de Denver é mais frágil que o ataque, os outros dois CBs de Denver não passam confiança para 2014 (Champ Bailey está velho e lidando com lesões, e Tony Carter vindo de um ACL rompido), e basicamente me parece que um CB acima da média é mais importante para Denver nesse momento que um WR. Decker é ótimo e teve um grande 2013, mas o time já tem Julius Thomas, Demaryus Thomas e Wes Welker no ataque aéreo, é mais fácil substituir um cara que já seria sua terceira ou quarta opção no ataque do que o melhor jogador da sua secundária. Mas essa é a vida do Denver agora: fazer seus ajustes a cada offseason, tentar resolver as carências, e dar a bola nas mãos de Peyton Manning em busca de um título.


San Francisco 49ers

Possivelmente o time mais underrated em 2013, o Niners pela terceira vez seguida chegou extremamente perto de seu objetivo e não conseguiu levantar o caneco. Em 2011, o time esteve a três fumbles e uma colisão entre dois DBs indo atrás da mesma interceptação de ir ao Super Bowl. Em 2012, o time esteve a uns 8 passes milagrosos de Joe Flacco e uma falta não marcada do título. E em 2013,  o time esteve a 22 segundos de vencer o Seahawks (o melhor time de 2013) em Seattle (o mais difícil estádio para se jogar na NFL) se não fosse uma jogada espetacular de um jogador espetacular (no caso, Sherman). Então por mais triste que seja sempre chegar perto e nunca conseguir, o lado bom é que se durante três anos, mudando diversas peças importantes do seu time (e inclusive seu QB) seu time continua um dos mais fortes e competitivos da NFL, é porque você tem feito algo certo.

2013 foi uma temporada complicada para San Francisco. Seu melhor WR se machucou na preseason, demorou 11 jogos para voltar, e não esteve a 100% quando voltou. Chris Culliver rompeu o ACL na pré-temporada. Aldon Smith e Patrick Willis, dois dos melhores defensores da NFL, tiveram seus problemas ao longo do ano por questões de saúde. Bruce Miller, um dos jogadores mais importantes taticamente do ataque, machucou na véspera dos playoffs. A questão não é a quantidade de lesões, e sim como todas elas pareceram atingir justamente os problemas do time: o ataque sem Michael Crabtree demorou demais para estabelecer o playbook que queria e teve pouco tempo para entrosar; a saída de Culliver na secundária tirou do time talvez seu melhor CB em 2012; e uma defesa que mudou muitas peças importantes demorou para engrenar sem Smith e Willis. E eles ainda terminaram 12-4  e quase foram ao Super Bowl, então motivos para otimismo não faltam.

Mas diferente dos times citados anteriormente, San Fran tem mais buracos para adereçar nessa offseason, e ainda tem o mesmo problema que o Seahawks vai ter em 2015: descobrir uma forma de dar a todos seus jogadores chave em contrato de calouro (Crabtree, Colin Kaepernick e Aldon Smith, principalmente) sem estourar o teto salarial. A diretoria já tinha se antecipado a isso e os contratos de diversos jogadores importantes (Willis, NaVorro Bowman, Vernon Davis e Joe Staley) já estão entrando na sua fase mais barata, dando alívio salarial, mas não vai ser fácil manter esses caras dentro do cap E adereçar seus principais problemas. Carlos Rogers provavelmente vai ser cortado, salvando 6M em salários, mas mesmo com esses jogadores e suas situações contratuais sob controle, ainda vai sobrar pouco espaço para trazer a ajuda de WR que o time precisa (a não ser que Anquan Boldin fique a um valor mais baixo) e reforçar a secundária. Então o time vai ter que ser criativo com suas dispensas e trocas, ou ainda melhor, apostar no draft. San Francisco tem cinco escolhas entre as três primeiras rodadas do draft e é um forte candidato a algumas trocas na noite do draft para subir e pegar jogadores de maior nível, e o time tem feito um excelente trabalho achando jogadores no draft. Então não tenho dúvida de que essa vai ser a rota favorita do time para tapar os buracos da equipe.

Em geral, muita gente tem tentado overreact e descartar SF, mas é pura besteira. 2013 foi cheio dessas. O ataque era um grande problema que estava segurando o time... até que o melhor WR do time voltou e o ataque decolou na reta final da temporada. Colin Kaepernick não era um QB de verdade (mesmo com QBR acima de Wilson e Cam Newton)... até ele ter números espetaculares com Crabtree e ser o melhor jogador em campo nas duas vitórias de pós-temporada da equipe. O ataque decepcionou anotando apenas 16 pontos contra Seattle... até o melhor ataque da NFL anotar 8. Então sinceramente, descartem esse time por sua própria conta e risco.


New England Patriots

É extremamente difícil colocar a temporada 2013 do Patriots em contexto. Por um lado, foi uma temporada em que tudo deu errado e New England conseguiu sair muito bem mesmo assim. O time viu Sebastian Vollmer, Rob Gronkowski, Jerod Mayo, Vince Wilfork e seu reserva Tom Kelly, e Brandon Spikes irem parar no IR, seis dos principais jogadores de um time cujo sucesso recente vinha da sua capacidade de colocar um monte de jogadores aleatórios ou de menor expressão em um esquema ancorado por grandes talentos, e fazer isso funcionar a perfeição (isso sem contar que Aqib Talib, ótimo no começo da temporada, se machucou e não foi o mesmo o resto do ano). Em 2013 isso não foi possível, e mesmo assim New England conseguiu se sair bem com uma 2nd seed e o quarto melhor ataque da temporada.

Por outro lado, é difícil não olhar para 2013 como uma temporada perdida em um time que também briga com o relógio enquanto tenta aproveitar os últimos anos da carreira de outro QB lendário. Tom Brady ainda é um ótimo QB, mas seus números tem caído nos últimos anos e ele tem começado a dar alguns sinais de declínio nessa idade. Isso pode indicar que a janela de New England com Brady está se fechando, e cada ano é importante para aproveitar seu futuro Hall of Famer. Então um ano como 2013, que foi basicamente perdido por conta das lesões, é um problema para New England.

Claro, para 2014, o primeiro passo do Patriots rumo a uma temporada de sucesso vai ser um pouco de regressão para a média. É extremamente improvável que o time sofra novamente com tantas lesões para tantos jogadores importantes, e isso sozinho já seria suficiente para o time retomar a estabilidade, com Wilfork na linha de frente e Mayo ancorando o miolo, mais um Rob Gronkowski saudável (sim, eu sei que Gronk é injury prone, mas não da para atribuir sua lesão de 2013 a isso de forma alguma). A saúde que faltou em 2013 pode ser suficiente para fazer New England novamente um candidato em 2014, especialmente com Bill Belichick e Brady por lá.

No entanto, algumas dificuldades precisam ser superadas no processo. A defesa foi muito mal em 2013 e isso obviamente teve influência das lesões que Mayo e Wilfork sofreram, mas não justificam tudo. O time ainda não tem pass rush confiável, e perdendo Brandon Spikes o time perde seu melhor LB contra o jogo terrestre (que foi a quinta pior defesa terrestre da NFL, btw, embora obviamente Wilfork vá ajudar). Além disso, a secundária do Patriots pode passar a ser um problema. Apenas Talib e Devin McCourty (espetacular de safety em 2013) foram acima da média na secundária, e Talib pode estar de saída. A situação salarial do Patriots está apertando, e parece que o time vai ter que decidir entre manter Talib ou Julian Edelman. Indepentende de quem for a causalidade, vai custar caro a New England: a perda de Talib vai abrir um buraco imenso na secundária do Patriots (especialmente sem pass rush), e Edelman foi o melhor jogador ofensivo da equipe em 2013 com números Wes Welkerianos, e sua perda vai tirar o alvo de segurança de Brady e o cara que manteve esse ataque vivo sem Gronk. E considerando o espaço salarial apertado, não vai ser nada fácil para New England trazer jogadores para suprir essas carências. O time achou uma identidade ofensiva sólida em torno do jogo terrestre e play actions, e jogando na AFC, não vejo porque o ataque do Pats iria deixar de ser eficiente de uma hora para outra. Mas com Broncos como o chefão da AFC e a ascensão de times como Colts e das potências defensivas da NFC, a margem de erro para o time parece bem pequena nessa offseason.


Carolina Panthers

O Panthers foi uma das histórias mais interessantes de 2013, se transformando em uma potência defensiva e vendo sua "sorte" mudar quando Ron Rivera decidiu que ia passar do técnico mais conservador da NFL para o mais agressivo. Deu tudo certo, o time teve uma temporada espetacular, e por ai vai. Mas ao contrário de muitos times jovens em reconstrução, o Panthers tem que lidar com dois problemas simultaneamente: os buracos na equipe que precisam ser corrigidos, e a falta de teto salarial.

O problema é que o Panthers passou muito rapidamente pela etapa de desconstrução de um time veterano para a montagem do seu time jovem em ascensão. Não que isso seja uma coisa ruim, claro, você sempre quer que seu time vença o quanto antes e perca o mínimo possível. O problema é que isso deixou o time ainda com alguns contratos problemáticos e sufocos salariais do time e da gestão anterior, e isso impede que o time de o próximo passo. O Panthers hoje tem diversas áreas que precisam de reforços: o corpo de recebedores é fraco e precisa de alguém para pegar a tocha de Steve Smith, principalmente, e a secundária precisa de ajuda. O Panthers rende muito quando consegue dominar a linha de scrimmage dos dois lados da bola, mas quando algum time consegue igualar essa pressão, o time perde no backfield: Cam Newton é um grande jogador mas seu potencial é limitado pela falta de WRs capazes de criar separação e manterem jogadas vivas quando Newton precisa usar as pernas para ganhar tempo, e quando a defesa não está criando pressão no QB adversário ela pode ser muito explorada pelo ar (ver: Boldin, Anquan). Foram dois dos principais fatores que levaram ao massacre que foi o segundo tempo de Niners-Panthers nos playoffs, e dois que Carolina precisa adereçar.

Ai entra a questão do teto salarial. Panthers, com seu núcleo jovem, era um grande candidato a ir atrás de um jogador como Hakeem Nicks ou Anterraun Vernum para dar um grande reforço a essas áreas, ou então ir atrás de diversos jogadores de menor nome (Emmanuel Sanders, Dunta Robinson e Donte Whitner, digamos) para complementar os problemas. A questão é que todo o espaço salarial livre do time já deve ser usado para reassinar o espetacular Greg Hardy, e com isso a margem de manobra da equipe diminui muito. Muitos contratos reestruturados e salários "mortos" estão impedindo que o time saia no mercado e resolva seus problemas mesmo com um ou dois veteranos bem colocados, então isso força o time a buscar seus reforços em outras áreas. O draft normalmente seria a principal solução, mas você não vai sair com uma secundária nova e três WRs de elite dele. Então a não ser que o Panthers esteja satisfeito em trazer de volta o time de 2013 e contar com o desenvolvimento de seus jogadores para suprir as carências, eles terão que ficar criativos. Trocar um jogador como Charles Johnson pode ser uma solução interessante (embora eu duvido que exista mercado), mas provavelmente terão que ser mais criativos do que isso para conseguir seu espaço - e isso antes de entrar na questão do novo contrato de Cam Newton, que vira free agent ao final do ano. Então me parece que se o Panthers quiser ser campeão em 2014, esse desenvolvimento terá que vir do que já está na equipe, e não de ajuda externa.


Indianapolis Colts

Apesar de superar de forma prática a regressão que deveria sofrer em 2013, as duas partidas do Colts nos playoffs serviram para mostrar exatamente em que ponto o time se encontra em sua reconstrução, e o que o time tem indo para frente.

Basicamente, o Colts tem o melhor jovem QB de toda a NFL, um cara que provavelmente vai ser o melhor QB da NFL em alguns anos. Ele fez mágica nesses playoffs, e como disse Bill Barnwell, não teve nada mais emocionante nesses playoffs do que quando Andrew Luck fazia um passe para um jogador que não estava na tela. Se eu fosse fazer uma lista dos 10 passes mais lindos ou perfeitos desses playoffs, metade seria de Luck. Enquanto você tiver um QB desse calibre, você vai estar bem na NFL.

O problema é que ficou claro que o Colts não tem muito mais a oferecer, nem um grande time a colocar em torno da sua grande estrela. A verdade é que ao redor do seu franchise QB, é um time bem fraco e limitado: com Reggie Wayne (em final de carreira) machucado, os únicos jogadores ofensivos do time acima da média além de Luck era TY Hilton e talvez Coby Fleener. A linha ofensiva melhorou em relação ao péssimo 2012, mas ainda foi uma unidade abaixo da média cujas deficiências foram mascaradas pela incrível habilidade de Luck de manter jogadas vivas e se livrar da pressão. E a defesa foi absolutamente medíocre em 2013 mesmo contando com o meu candidato a DPOY, Robert Mathis, na temporada da sua carreira - foram apenas três jogadores acima da média em 2013 (Vontae Davis, Jerrell Freeman e Mathis) e apenas um é realmente um jogador de grande impacto. Basicamente, esse foi o Colts nos playoffs: um time incapaz de parar quem quer que fosse, de controlar o jogo no relógio e que dependia de Andrew Luck acertando passes perfeitos para recebedores que não criavam separação para avançar.

Com um QB como Luck e um bom técnico como Chuck Pagano, você tem boas condições de sempre ser competitivo na NFL, mas a verdade é que se o Colts quiser sonhar com o título, vai precisar de um time muito melhor ao redor da sua jovem estrela que isso. Falta ajuda na linha ofensiva, faltam alvos para Luck, e falta praticamente tudo na defesa da equipe. Então o time vai ter que ir atrás desse tipo de ajuda, e não graças ao trabalho recente da diretoria: o time deu dinheiro garantido demais a jogadores medianos como Gosder Cherilus e Jean-Ricky François só porque eram de posições que o time precisava, e trocou sua escolha de primeira rodada por, claro, Trent Richardson. Então apesar de ter bastante espaço salarial, ele não é tão confortável no médio prazo por conta de salários longos (o que diminui as opções da equipe) e o time está sem uma comodidade valiosa para reforçar seu time no draft, o que torna a tarefa do time mais complicada. Esperem que o Colts seja um comprador agressivo nessa free agent (possivelmente com mais gastos exagerados em jogadores na FA por serem upgrades em relação aos jogadores atuais), e torçam para Indianapolis acertar nas rodadas intermediárias do draft, porque Luck me parece pronto para vencer agora e o time ao seu redor não está acompanhando sua evolução. Se o plano do Colts era acelerar sua reconstrução, agora é a hora de dar a Luck o talento que ele precisa para vencer, e duvido que Jim Irsay fique parado - por bem ou por mal (de novo, Trent Richardson).


New Orleans Saints

O Saints é o caso oposto do Colts, mas ainda assim é possível notar um bom número de semelhanças. O Saints também possui um grande QB que sozinho é capaz de ancorar um bom ataque, e um técnico que sabe como maximizar as habilidades de seu quarterback. O time também é todo montado em torno disso: depois que voltou de suspensão, Sean Payton voltou a fazer sua mágica e remontou o ataque de forma espetacular em torno de Drew Brees usando praticamente jogadores menores, dispensados de outros times ou veteranos que já estavam no elenco, de forma que New Orleans terminou o ano com o quinto melhor ataque, principalmente por ter o terceiro melhor ataque aéreo. O problema é o que o time tem a oferecer além de seu QB e o ataque por ele comandado.

Claro, New Orleans é um time melhor que o Colts fora disso - se não fosse, não teria a menor chance de ir aos playoffs em uma hipercompetitiva NFC. A defesa da equipe foi na verdade boa, terminando fora do Top10 por pouco no ano. Kenny Vaccaro teve um grande impacto como calouro, e a secundária segurou bem as pontas durante boa parte da temporada, e isso contribuiu em muito para o bom ano que a equipe teve. Mas a questão é que todo mundo sabia que, mesmo com uma defesa sólida, não ia ser a defesa que iria vencer as partidas para o Saints, era o ataque (nos playoffs, a defesa foi ótima contra Seattle mas perdeu porque o ataque não conseguiu anotar pontos e ainda entregou um TD de presente com um fumble).

Para o Saints, no entanto, a situação é oposta a do Colts porque o time TEM algum complemento ao redor de Brees (embora não tão bom quanto poderia ser), mas que ao invés de trabalhar para aumentar esses complementos, o Saints é um time que ironicamente precisa se desfazer de alguns. O Saints é um dos times que começam a offseason de 2014 ACIMA do teto salarial permitido pela NFL, o que obviamente acarreta em um problema duplo: por um lado, o time não tem condições de trazer novos jogadores para compor as áreas carentes da equipe (e em uma NFC tão ridiculamente forte, a margem de erro dos times é muito menor que na fraca AFC), reforçar seu pass rush, sua defesa terrestre e mesmo sua linha ofensiva, as principais áreas de necessidade. Por outro, o time não só não tem muitas formas de se reforçar estando 13M acima do cap como também vai precisar dar um jeito de descer para o patamar adequado, algo que vai exigir a renúncia a muitos dos free agents da equipe e dispensa de tantos outros jogadores que já estão no time... e isso é ANTES de considerar que o segundo melhor jogador do time, Jimmy Graham, é um free agent que vai exigir um contrato absurdo para continuar em New Orleans. O Saints já anunciou que dispensou os veteranos Jabari Greer, Will Smith e Roman Harper, todos veteranos da conquista de 2009, e também que não vai reassinar com Jonathan Vilma, por tanto tempo um dos pilares dessa defesa. Mais cortes devem vir por ai.

O problema é que mesmo com essas perdas, o time ainda não tem condições de reassinar com Graham (a chave para o 2014 se o time quiser disputar o título), trazer jogadores bons para as posições carentes, dar contratos aos seus calouros, e AINDA ficar abaixo do cap. Isso limita os jogadores que podem chegar, e indica também que outras dispensas ainda podem ou devem ocorrer. O Saints tem feito o possível para vender a idéia de que Graham deve receber a Franchise Tag de tight end, muito mais barata que a de WR e que salvaria ao time preciosos milhões de dólares de espaço salarial, mas essa opção me parece cada vez mais distante. Para manter sua estrela no elenco, o time vai precisar de ainda mais criatividade e mais cortes, o que tornam sua offseason ainda mais turbulenta. Vamos ver se a boa diretoria de NO consegue entrar dentro da taxa salarial e ainda reforçar as áreas carentes do time. Hoje, os prognósticos não parecem muito bons.


San Diego Chargers

Entre todos os times citados até agora, o Chargers provavelmente é quem mais olhou para a temporada 2013 como uma grata e grande surpresa. Niners, Patriots, Broncos e Seahawks começaram o ano como os favoritos ao Super Bowl. Colts e Panthers possivelmente não esperavam uma temporada como essa, mas eram jovens times em ascensão que esperavam chegar nesse ponto em breve. O Saints esperava se reerguer com a volta de seu técnico. Ainda que nem todos começassem o ano como candidatos a chegar até esse ponto - eu tinha apenas os quatro primeiros chegando aos playoffs nos meus palpites - todos eram times cujo caminho indicava, cedo ou tarde, uma trajetória semelhante.

O Chargers era diferente. Depois de dois anos consecutivos muito abaixo do esperado, a expectativa era de que o time fosse passar por uma pequena reformulação. Philip Rivers vinha de duas péssimas temporadas e parecia questão de tempo até deixar de ser titular, os jovens talento da equipe não vinham contribuindo como esperado, a linha ofensiva era um desastre da natureza, e em uma divisão com o juggernault Broncos e o promissor Chiefs, não vi ninguém no começo do ano achando que o Chargers iria conseguir sequer brigar por playoffs. A idéia era reformulação, e que talvez o próximo bom time do Chargers tivesse outro QB e outra base. Por isso a temporada 2013 foi uma surpresa tão grande: não era para o Chargers dar essa volta por cima e sair vencendo jogos quando tudo indicava que o time estava acabado. Philip Rivers se recuperou de dois péssimos anos para ser o segundo melhor QB de 2013, a linha ofensiva mudou da água para o vinho com algumas contratações inteligentes, Ryan Matthews finalmente ficou saudável e teve a temporada que todo mundo cobrava dele (1255 jardas, 7 TDs, 4.4 YPC), Antonio Gates finalmente conseguiu jogar em alto nível de novo, Keenan Allen teve uma das melhores temporadas de um WR calouro na memória recente da NFL, e tudo se encaixou para que esse ataque funcionasse as mil maravilhas e acabasse o ano como o terceiro melhor da NFL e com uma vaga nos playoffs.

Esse sucesso recente, especialmente de um ataque que foi tão bom mesmo contando com tantos desfalques e lesões no começo do ano, provavelmente muda um pouco o foco do time para o curto prazo. Claro, a reconstrução não vai parar por aqui: a defesa foi uma atrocidade durante boa parte da temporada 2013 (embora para ser justo tenha melhorado na reta final e tenha ido bem nos playoffs), e o time ainda está bastante próximo do teto salarial (algumas estimativas colocam o time apenas 1.5M abaixo do limite). Então até para tornar mais viável a questão financeira do time, a idéia é que o time caminhe em direção a um núcleo mais jovem, como um processo comum de reconstrução. A diferença é que agora a diretoria deve focar esse rejuvenescimento da equipe em torno de um núcleo competente e pronto para ganhar jogos agora (especialmente se Philip Rivers mantiver o nível) ao invés de através de um processo de desconstrução do elenco.

Então para continuar essa reformulação, a defesa deve ser o foco. Rivers está garantido por um bom tempo ainda, Matthews e Allen são jogadores bons, jovens e baratos e alguns jogadores estão voltando de lesão que não atuaram em 2013. A linha ofensiva se deu muito bem com DJ Flucker e alguns veteranos e deve trazer algum sangue novo, mas o maior problema do time foi mesmo sua defesa, que foi a pior da NFL durante toda a temporada e terminou justamente como a 32nd de toda a liga. Então eu espero que seja o foco do time, especialmente no draft (já que a FA não me parece uma boa opção). O time precisa pelo menos conseguir estabilizar sua defesa em um nível médio na NFL, e eu espero que o time vá pesado atrás desses jogadores no draft. O time encerrou razoavelmente bem na defesa o ano, então a expectativa é que possam construir em cima disso. Um pass rusher, mais um pouco de bife na linha defensiva e um novo cornerback titular me parecem as maiores necessidades da equipe, e esse é um draft bem profundo nas duas primeiras, então o Chargers parece estar em boa situação. Resta ver se o time conseguirá resolver suas questões salariais primeiro.


Philadelphia Eagles
Eu já escrevi isso antes, mas entre os quatro times que perderam na rodada de wild card, três deles não tem grandes motivos para se sentirem tristes. Claro, ninguém quer perder nos playoffs, especialmente de forma apertada, mas em geral são times que estão na trajetória certa.

Em nenhum time isso fica mais evidente que no Eagles. Ano passado, o time era uma zona, tentando juntar os cacos do fracassado "Dream Team", cheio de contratos caros, passando vergonha e acabando em último lugar na NFC East. Na última offseason, o time se livrou de tudo isso, praticamente recomeçando do zero com um novo técnico, Chip Kelly... e não poderia ter funcionado mais. Kelly fez o ataque voar em 2013 mesmo com todas as dúvidas sobre seus QBs (2nd melhor ataque), Nick Foles emergiu como um sólido QB titular, LeSean McCoy e DeSean Jackson brilharam, e o Eagles ganhou a divisão e foi aos playoffs. Então um ano depois do time decidir explodir tudo e recomeçar, o time ganhou 10 jogos e foi aos offs. Parece bom para mim.

E felizmente para o Eagles, as coisas não param por ai. Philadelphia tem uma ótima combinação indo em frente, com um time jovem e uma folha salarial livre de contratos absurdos. Isso dá ao time grande flexibilidade, pois pode ir no mercado atrás de grandes jogadores e ainda tem dinheiro para começar a reestruturar ou renovar alguns contratos dos seus jogadores mais jovens. É uma situação excelente.

Claro, uma consequência de uma reconstrução tão rápida é que o time tem muitos buracos a serem adereçados. A defesa em particular não foi bem em 2013 (embora tenha melhorado próximo ao final da temporada), e com vários veteranos de saída nos dois últimos anos, deve passar por uma renovação grande. O time achou alguns jovens talentos como Brandon Boykins (espetacular na segunda metade da temporada) e Cedric Thorton, mas ainda precisa reforçar principalmente a sua defesa aérea - nenhum jogador tirando Boykins foi bem na cobertura em 2013, especialmente os linebackers, e quando você combina as duas principais áreas de dificuldade da defesa em 2013 - o pass rush e a cobertura - o resultado normalmente é uma peneira pelo ar... e foi o que aconteceu.

Então o Eagles deve ter dois focos. Refinar seu já muito explosivo ataque, principalmente no que tange a QB. Nick Foles foi espetacular na segunda metade da temporada, mas é possível que seja um candidato a alguma regressão, ou então que Chip Kelly conclua que foi mais mérito do sistema que do jogador, e que um QB novo poderia levar esse time a novas alturas (btw, isso é só especulação, e duvido que para 2014. Não vejo nada além de uma lesão tirando a titularidade de Foles). E principalmente, dar um jeito nessa defesa. A secundária precisa de ajuda, e o grupo de linebackers do time foi bom contra a corrida, mas atroz contra o passe - apenas quatro times foram piores contra TEs e slot WRs pelo meio do campo. Então essa deve ser a direção da equipe, e embora a linha defensiva tenha sido boa em 2013, esperem um novo DE por lá essa temporada para ajudar na pressão. Com um grande técnico, um grande ataque, boas escolhas de draft e uma tonelada de espaço salarial, não sei se existe um time que seja mais candidato a dar um salto entre 2013 e 2014 nesse grupo.


Kansas City Chiefs

O Chiefs é outro time que deu um salto enorme em 2013, passando de pior time da NFL aos playoffs graças a uma mudança de técnico e de QB. Mas ao contrário do Eagles, que tem uma força definida (seu ataque) e uma clara fraqueza (a defesa), o balanceado Chiefs tem mais dúvidas sobre quais áreas merecem maior atenção.

Em 2013, pelo menos no começo, a história do time era sobre sua fortíssima defesa e seu ataque conservador. E de fato, era assim que o time vencia, nas costas de Jamaal Charles, sua defesa forçando toneladas de turnovers, e posições de campo. Acontece que isso, de forma improvável, se reverteu ao longo do ano: Alex Smith ficou mais a vontade, Charles explodiu de vez, e o ataque teve que se virar para compensar uma defesa frágil e pouco explosiva. Contra o Broncos o time perdeu mesmo com 28 pontos do ataque, e nos playoffs foi a defesa que cedeu 45 pontos para o Colts conseguir a virada depois do ataque abrir uma larga vantagem (nas últimas sete semanas, foram jogos de 38, 28, 45, 56 e 44 pontos e só um abaixo de 24). Então mesmo que no papel o ataque seja a área frágil da equipe, esse final de temporada e a performance surpreendentemente fraca da defesa deixam alguma dúvida no ar.

Claro, o ataque ainda vai ser a prioridade. Alex Smith se firmou definitivamente como o titular, e Jamaal Charles foi o melhor RB de 2013, mas isso não vai impedir o Chiefs de reforçar o grupo ao seu redor. O time precisa principalmente melhorar os alvos da equipe: tirando Dwayne Bowe, o time não tem nenhum recebedor acima da média, e considerando o quanto Alex Smith gosta de passes curtos e precisos, um jogador mais explosivo nos moldes de um Tavon Austin ou Percy Harvin (o tipo de jogador que pode causar estrago DEPOIS da recepção) seria fundamental para elevar ainda mais o nível desse ataque. Um tight end também iria ajudar muito, especialmente considerando o estrago que Alex Smith fazia com Vernon Davis em SF e o que conseguiu fazer com o limitado Anthony Fasano.

Mas o maior problema desse ataque é a linha ofensiva. Os dois melhores linemen do time em 2013 são free agents, e tanto Branden Albert como Geoff Schwartz não devem retornar em 2014 por questões salariais. Schwartz foi substituido de forma competente por Jon Asamoah quando machucou, então não me parece um problema, mas Albert é um dos melhores LTs da NFL e não possui um substituto com rodagem. O substituto natural seria Eric Fisher, 1st pick do draft passado que não jogou bem fora da sua posição de origem em 2013, e que esperam que renda mais voltando ao lado esquerdo da linha. Mas para um time que depende tanto do jogo terrestre, preocupa tanta incerteza na linha, e portanto é provável que o time queira reforçar o resto do quinteto para não deixar dúvidas.

Com tantos buracos no ataque, a defesa deve mesmo ficar em segundo plano, mas isso não significa que o time não tenha problemas. O time precisa repor a produção de Tyson Jackson na linha defensiva, e a secundária precisa urgentemente de ajuda, seja um novo CB (Dunta Robinson foi dispensado por questões salariais) um um novo safety para jogar ao lado de Eric Berry (ou ambos). A prioridade no momento me parece ser a secundária, embora a volta de Justin Houston de OLB vá ajudar bastante. O problema é que os recursos da equipe são um tanto quanto limitados - uma escolha de segunda rodada vai para San Francisco, e o espaço salarial da equipe, embora exista, não seja imenso. O time deve conseguir um CB no mercado a preços razoáveis e deveria ir atrás de Emmanuel Sanders, que não deve sair muito caro, mas vai ter que confiar na sua capacidade de continuar achando talentos no draft para conseguir tapar esse monte de buracos criados. Resta ver se conseguirão ou não.


Green Bay Packers

Foi basicamente uma temporada direto do inferno para o Packers. Clay MAtthews machucou e perdeu mais de metade dos jogos, Colin Kaepernick apareceu duas vezes no caminho do time, Aaron Rodgers perdeu jogos e seus reservas eram Seneca Wallace, Matt Flynn e Scott Tolzien, Casey Heyward rompeu o ligamento, Randall Cobb perdeu grande parte da temporada... e de alguma forma o Packers ainda venceu a divisão e chegou perto de vencer San Francisco nos playoffs. Obrigado, Lions.

Como tem sido a norma desde que foram campeões em 2010, o Packers viveu pelo seu ataque e a defesa não foi capaz de acompanhar. Com o Offensive Rookie of the Year Eddie Lacy a bordo, o Packers agora tem um dos melhores combos QB/WR da NFL, e Jordy Nelson provavelmente foi o WR mais underrated de 2013. Mesmo com seis jogos de Wallace, Flynn e Tolzien, o Packers ainda terminou com o nono melhor ataque da NFL, e não tenho dúvidas de que com Rodgers estaria no Top5. Por outro lado, a defesa foi a segunda pior da temporada. Adivinhem onde o Packers deve concentrar seus esforços essa offseason??

A verdade é que Green Bay tem algumas decisões importantes a tomar. Por um lado, o time tem muitos free agents: no ataque os principais são James Jones e Jermichael Finley, e na defesa o time está perdendo seus três DT (Johnny Jolly, BJ Raji e Ryan Pickett) e dois importantes defensive backs (MD Jennings e Sam Shields). Por outro, o time tem uma quantidade razoável de cap space para gastar como parecer mais adequado ao time. A defesa deve ser prioridade, mas também me parece mais difícil de arrumar: a secundária ainda tem Tramon Williams, a volta de Heyward e o bom Micah Hyde, mas ainda foi abaixo da média em 2013 e precisa de mais ajuda, especialmente um safety. A linha defensiva provavelmente vai continuar com Raji, não tem nada que salve nessa linha de frente: os linebackers foram horríveis tanto na cobertura como no jogo terrestre como no pass rush, e os muitos jogadores para a função que o time trouxe usando escolhas altas de draft não engrenaram. Mesmo se Clay Matthews finalmente ficar saudável, tem coisa demais que o time precisa: outro pass rusher, pelo menos um MLB que seja capaz de acompanhar um TE e cobrir sua área do campo, e mais bife para a linha defensiva que seja capaz de executar alguma função decentemente. Então tem um buraco imenso ai que mesmo com bom cap o time não vai ser capaz de preencher.

Isso pode levar o time a focar do outro lado da quadra, esperando que ter um dos melhores QBs da NFL e um ataque devastador possa levar o time longe de novo. Embora o ataque tenha seus problemas (faltou WRs quando Cobb e Jones machucaram, e a linha ofensiva é um desastre), eles são menores e podem ser mais mascarados pela presença de um jogador fora de série dando as ordens. O time não vai com tudo atrás de um WR tendo Nelson e Cobb (e dificilmente irá dar muito dinheiro para Jones ser seu WR #3), especialmente com o sucesso que o time tem tido achando WRs no draft, e pode investir um pouco mais pesado em um novo tackle e um guard para fazer a vida de Lacy e Rodgers mais confortável. Com o que sobrar, devem atacar a defesa, e para sua sorte não faltam jogadores de linha nessa free agency - embora seja difícil dizer quais o time vai estar disposto a pagar. Com o histórico do Packers de não ir atrás de free agents, esperem um time bastante agitado na noite do draft.


Cincinnati Bengals

Eu falei antes, e defendo de novo, que entre os quatro times que foram eliminados na rodada de WC dos playoffs, o Bengals é quem menos deve estar satisfeito. Mesmo com uma temporada que viu Leon Hall e Geno Atkins se machucarem e perderem o resto da temporada, foi um final decepcionante para um time que todo ano promete e não cumpre. Então vamos começar com as boas notícias: Hall e Atkins devem estar de volta para 2014, fazendo do Bengals um dos times com base mais completa e talentosa da NFL... e uma TONELADA de espaço salarial.  Nada mau, certo?

Esse espaço salarial depende, claro, do DE Michael Johnson. Johnson é um free agent saindo de uma temporada espetacular, e que certamente vai ganhar um salário imenso em 2014. O Bengals tem o espaço salarial para trazer Johnson de volta ou mesmo usar a franchise tag no jogador, mas a organização acabou de comprometer muito dinheiro com Carlos Dunlap e Geno Atkins, e não me parece que o Bengals iria gostar de ter seus três jogadores mais caros sendo de posições tão semelhantes. O time tem tido muito sucesso achando DLs no draft, e possivelmente será mais vantajoso para a equipe achar e desenvolver 80% do jogador que Johnson era dessa maneira do que pagar 20 vezes mais para Johnson continuar na equipe, especialmente considerando dois potenciais free agents de 2015, que agora podem negociar uma extensão e que tornam a situação salarial do time tão interessante: AJ Green, e Andy Dalton.

AJ Green é simples: ele vai receber um contrato mastodôntico, seja hoje ou daqui a um ano, Cincy nunca vai deixá-lo ir embora. Já Dalton é um problema diferente. Embora seja um QB mediano ou até mesmo acima da média as vezes, ele não é muito mais do que isso e as vezes parece verdadeiramente medíocre. Embora tenha melhorado um pouco em 2013 com alvos cada vez melhores, Dalton ainda é basicamente o que tem sido sua carreira toda: um QB sólido que pode vencer com um grande time ao seu redor, mas dificilmente vá vencer grandes times sozinho. E embora a amostra seja pequena e eu ache inútil exagerar na reação com apenas três anos de carreira, muitos apontam para seus péssimos números em playoffs (um TD, seis interceptações, três derrotas decepcionantes) como uma prova de que ele não vai ser o tipo de jogador que levaria o time ao Super Bowl. A verdade é que ninguém sabe exatamente o quanto Dalton tem a oferecer e o quanto ele estaria segurando um potencial candidato ao Super Bowl, nem mesmo Cincy, então até eles descobrirem me parece muito improvável que se comprometam com o QB com um contrato longo. Eles muito provavelmente vão deixar Dalton jogar esse último ano, ver o processo e o resultado, e tomar uma decisão em 2015. Ent ão considerando que Dalton não deve ganhar um novo contrato até 2015, que o time tem bastante espaço salarial, e que Green está elegível para uma extensão... os cenários da equipe são muito interessantes.

O primeiro seria assinar logo com AJ Green uma extensão salarial, mas acho que o time não deve ter pressa. Assinar logo o contrato daria ao time a possibilidade de estruturá-lo de antemão da forma como fosse mais conveniente, mas isso pode ser feito ao longo da temporada, não existe motivo para pressa. Eles sabem que o contrato será finalizado em algum ponto, e a questão é o que fazer com o resto desse espaço salarial. Sem Johnson na folha de pagamentos, o time também não deve ter grande problemas mesmo que Dalton e Green tenham que reassinar juntos ao final da temporada, então cabe a grande pergunta: o que eles devem fazer com o espaço salarial restante? E a melhor resposta é contratar o máximo possível de bons jogadores, especialmente vindo de temporadas complicadas, em contratos de um ano (o modelo do Seahawks, inclusive). Esses jogadores não estarão mais no cap em 2015 quando os contratos de Green e talvez Dalton aumentarem, e eles aumentam as chances de sucesso no curto prazo da equipe. E se o time eventualmente decidir não renovar com Dalton, eles sempre podem renovar com os jogadores que já estão na equipe para continuarem no time enquanto procuram outra solução para QB. Me parece o mais razoável.

A questão ai seria quem buscar, pois o Bengals tem um dos times mais completos da NFL. O que não significa que o time não possa se beneficiar de upgrades em certas áreas: o time ainda precisa de um bom safety, e alguma profundidade para CB não seria de todo ruim com Leon Hall voltando de lesão. Um DE como Jared Allen, em contrato de um ano, seria ótimo para manter o nível de Johnson e suavizar a transição para o próximo jogador da posição. Um WR como Anquan Boldin também seria ótima companhia para Green no ataque e pode ajudar esse time a deslanchar. Não é tão fácil achar um bom encaixe em contratos curtos que ainda sejam um upgrade nesse time tão completo, mas não é um problema ruim para se ter. Na "pior" das hipóteses, o time pode assinar um free agent mais de topo (Michael Bennett?) a um contrato extremamente concentrado no primeiro ano, de forma a absorver o maior impacto salarial em 2014 e deixar a folha ainda estável para o futuro. Não me parece nada mau.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Recolhendo os cacos: NFL Divisional Round

Super Kap dando o troco no Panthers


Para participar do nosso mailbag, ou seja, enviar uma pergunta/comentário/dúvida/tópico de debate para ser respondida aqui no blog e no Esporte Interativo, é só mandar um email para tmwarning@hotmail.com com o título "Mailbag" que ele pode aparecer por ai. Forma de tornar isso mais interativo e próximo dos leitores. Então participem! O tema do próximo será playoffs, então aproveitem para enviar seus emails!


No próximo bimestre, começaremos uma série chamada Sports Mythbusters. A idéia é bem simples, pegar clichês, mitos ou lugares comuns dos esportes americanos e colocá-los a prova. Então estamos aceitando sugestões, e qualquer mito, frase comum, chavão ou coisa assim dos esportes que vocês querem ver testada e comprovada (ou ao contrário, que quer ver desmentida) podem mandar que vamos analisar os melhores. Mais uma chance de vocês sugerirem nossas pautas. Podem mandar emails com as sugestões para tmwarning@hotmail.com, para o twitter @tmwarning, ou simplesmente colocar nos comentários quando der na telha.
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Semana passada, tivemos que correr um pouco para conseguir cobrir tudo que a NFL estava nos oferecendo. Então falamos rapidamente da rodada de Wild Card que tinha passado, e fizemos dois previews para os jogos do final de semana, para falar dos jogos de sábado e dos jogos de domingo. Ta tudo ai para você ler e pensar "o que, esse animal achou que o Colts ia ganhar?! No que ele estava pensando?!" (em minha defesa, foi a primeira vez em nove anos que a segunda rodada dos playoffs não teve uma zebra de pelo menos 4 pontos. Eu quis apostar em uma zebra, e apostei na que tinha Andrew Luck e enfrentava a pior defesa).

Mas deixando isso tudo no passado (btw, ainda estou 6-2 nos playoffs!), e deixando as duas finais de conferências que foram um presente dos céus ainda no futuro (sério, se um fã de NFL imparcial fosse escolher as Finais de Conferência ideais em Setembro, ele escolheria essas duas), vamos dar uma olhada em alguns fatores importantes ou interessantes que chamaram minha atenção nos jogos (um tanto decepcionantes) desse final de semana. Já aviso também que vou dar mais espaço aos times eliminados e ao que rolou de importante no jogo em si do que nas coisas que os times podem carregar para o futuro, porque essas últimas terão um espaço maior nos previews da rodada.

Em tempo: Somos um blog moderno que temos uma página no facebook agora! Entrem lá e curtam nossa página, vamos usá-la para informar de quaisquer novidades (bem como posts novos, promoções, avisos, etc) e postar coisas mais rápidas ou curtas que não teriam espaço aqui no blog.


New Orleans Saints 15 vs 23 Seattle Seahawks


Jogando como uma zebra

Quando seu time entra em uma partida com um spread de +8, isso é um sinal seguro de que poucas pessoas esperam que você ganhe. Na hora de criar um spread, os modelos de Vegas criam uma simulação de quantas vezes um time deve vencer uma dada partida, e quanto menor a chance de um "azarão" vencer um dado jogo, maior vai ser o seu spread. Um spread de +8 indica que os modelos de Vegas esperam que você vença seu jogo apenas 25.8% do tempo, e a realidade pode ser ainda mais complicada: na história da NFL, apenas 18.3% dos times que foram zebras por exatos 8 pontos conseguiram vencer suas partidas. Desde 2004 (quando as regras começaram a mudar e favorecer o jogo aéreo), as porcentagens tem sido mais favoráveis, mas ainda abaixo do esperado: apenas 12 dos 58 times desfavorecidos por oito pontos conseguiram vencer suas partidas, 20.7%.

Claro, você não precisa ser um especialista em estatística ou em Vegas para saber que o Saints era uma grande zebra nessa partida. O Seahawks foi provavelmente o melhor time da temporada regular, terminando #1 em DVOA por uma larga margem, 20 pontos percentuais na frente do Saints (um respeitável quarto lugar). Além disso, o Saints ainda tinha que jogar em Seattle, que possui a maior home-field advantage da NFL desde que abriu o Century Link Field, um lugar extremamente barulhento com uma torcida fanática. Considerando ainda que o Saints não terminou tão bem a temporada regular (caindo para 7th em DVOA ajustado), era claro que o Seahawks ia ser o franco favorito.

A questão é que quando você está em uma situação tão desfavorável, você tem que saber que sua margem de erro é muito menor. Você tem chance de vencer, sempre, mas para isso você não só precisa ter um bom plano de jogo e tudo mais, você também precisa executar isso de forma muito mais eficiente do que normalmente, evitando todo tipo de erros e dando a menor janela possível para seus adversários tirarem vantagem. Eles já estão em vantagem em relação a você, então você tem que fazer de tudo para evitar criar ainda mais.

E foi exatamente isso que o Saints não fez, e foi isso que custou ao time o jogo. O plano de jogo da equipe, quando começou a partida, era bem claro (e foi, inclusive, o que eu disse no preview): correr bastante com a bola para encurtar as descidas, controlar o relógio e não expor Drew Brees a excelente secundária de Seattle. Sean Payton até incluiu um truque interessante: alinhar seu ataque em muitas formações de apenas um WR (uma formação que o time quase nunca usa, mas que times como SF e Arizona tiveram muito sucesso contra Seattle) para neutralizar a secundária do adversário e forçar um CB (em geral Richard Sherman) e ficar marcando um TE próximo da linha. E na verdade o Saints executou muito bem seu plano de jogo, correndo para 106 jardas só no primeiro tempo, controlando o relógio e deixando Brees lançando pouco.

Mas não importa o quão bom for seu plano de jogo, você não vai conseguir vencer um time como o Seahawks em casa cometendo tantos erros e dando tanta margem para seu adversário aproveitar. A primeira campanha do Saints terminou com Mark Ingram soltando um screen pass que deveria ser para uma conversão de 3rd down tranquila, e em seguida, Thomas Morstead deu um punt de 16 (não, sério, 16) jardas que deu a Seattle a bola na linha de 40 jardas do campo de ataque, que rendeu ao Hawks um FG... depois que o safety de NO recebeu uma falta pessoal de 15 jardas em uma 3rd and 11. A campanha seguinte, New Orleans fez um bom trabalho movendo a bola e chegando no campo de ataque, mas o kicker Shayne Graham errou um FG de 45 jardas (mais sobre isso em um minuto). Depois de outro FG de Seattle, o Saints recuperou a bola... e duas jogadas depois, Mark Ingram sofreu um fumble recuperado por Seattle na linha de 24 jardas do campo de ataque, dando ao Seahawks uma ótima posição de campo mais uma vez. Dessa vez, Marshawn Lynch aproveitou e transformou isso em um touchdown para fazer 13-0 Seahawks. Algumas campanhas depois, New Orleans chegou na linha de 29 do campo de ataque... para tentar e falhar em converter uma quarta descida. Seattle aproveitou e anotou mais um FG para deixar em 16 pontos a diferença no intervalo, um buraco enorme para voltar fora de casa, em um tempo ruim, contra a melhor secundária da NFL.

No segundo tempo, New Orleans colocou a cabeça no lugar, parou de cometer erros e esse foi um dos motivos que levou o time a conseguir voltar para o jogo, mas o buraco que o time tinha cavado para si mesmo acabou sendo grande demais. Entre o FG errado, o punt e o fumble que renderam a Seattle ótima posição de campo, são 13 pontos que você deixa de ganhar ou dá de presente para seu adversário (e isso sem contar a boa posição de campo após errar o FG ou falhar na conversão de quarta descida). Em um jogo contra uma defesa tão boa, em que você sabe que precisa de cada ponto e oportunidade a seu favor, você não pode cometer tantos erros e esperar sair com a vitória. E mesmo depois que o time improvavelmente conseguiu reagir e recuperar a bola nos segundos finais, o jogo acabou, é claro, com um erro grosseiro do time: Drew Brees fez grande jogada para acertar um passe para Marques Colston faltando 5 segundos, o que significa que o time teria uma última chance de conseguir um Hail Mary da linha de 35 jardas do campo de ataque para tentar empatar o jogo. Só que Colston esqueceu de sair pela lateral para parar o relógio, e ao invés disso tentou um passe lateral horrível que acabou com as chances da equipe de vez. É o tipo de erro mental que destrói um time, e esse aconteceu logo no momento decisivo.

E a verdade é que esse festival de erros do Saints, que deram diversas oportunidades para Seattle, na verdade esconderam um jogo bem ruim do Seahawks (ofensivamente, pelo menos) que poderia ter levado a uma derrota. Russell Wilson teve apenas 9/18 passes para 108 jardas, números péssimos, e até a corrida final de Marshawn Lynch o ataque terrestre conseguiu apenas 4.2 jardas por corrida (não ruim, mas não ótimo). Era tudo que o Saints queria quando se preparou para essa partida, e poderia ter levado a um resultado diferente se o time visitante conseguisse se controlar e se ater a um jogo mais eficiente. Você pode cometer alguns erros quando é o favorito, mas é difícil demais ganhar um jogo tão desfavorável se você continua dando chances ao adversário. E foi por isso que o Saints perdeu.

Dificuldades técnicas

Um outro ponto que acabou muito custoso ao Saints nessa partida foi, bem, o trabalho do seu técnico.  Eu gosto muito do Sean Payton como técnico, acho ele um dos melhores da NFL e um dos grandes motivos pelos quais o Saints voltou aos playoffs em 2013, mas o trabalho dele nesses playoffs deixou muito a desejar. Ele quase custou ao seu time a partida contra o Eagles com algumas decisões incompreensíveis (a mais maluca talvez fosse correr com a bola em uma 3rd and 11 próximo de FG range quando ainda faltavam 13 minutos no relógio e o time estava apenas 6 pontos na frente. A corrida não chegou em FG range, o time foi para o punt, e o Eagles eventualmente viraria a partida aproveitando essa burrice), mas contra o Seattle a margem para erro era ainda menor e portanto suas decisões acabaram custando ainda mais caro.

Você poderia questionar também se foi uma boa idéia Payton segurar tanto o braço de Drew Brees até o jogo já estar 16-0 - ele não lançou uma bola que passou da linha de scrimmage até o segundo quarto, e só lançou uma bola para um não-RB na mesma altura - mas além desses detalhes, o que chamou minha atenção foi como ele lidou com situações complicadas de quarta descida.

A primeira foi o já mencionado FG errado por Graham. Na situação, o Saints estava enfrentando uma 4th and 4 na linha de 27 jardas do campo de ataque, o que nos da um FG de 45 jardas. Claro, em um vácuo, o FG era a decisão comum. É uma distância confiável para um bom kicker, e é difícil converter uma 4th and 4 contra uma defesa tão boa quanto a do Seahawks, então você pode garantir os pontos - ainda que a 4th Down Calculator indique que você tem mais a ganhar tentando a conversão. O problema é que o jogo não acontece em um vácuo, e sim em um estádio onde estava chovendo e ventando muito, e o pior, ventando contra o chute de Graham. Esse mesmo vento já tinha influenciado o punt de 16 jardas do Morstead, e portanto era claro que a chance de acertar um FG dessa distância era muito menor nessas condições, o que faria a tentativa de conversão ser a decisão lógica (ainda mais considerando que um FG errado da ao adversário uma posição de campo melhor). Mas Payton, normalmente muito agressivo, decidiu chutar, e o chute de Graham não tinha a menor chance de entrar desde o momento que saiu do chão.

Pouco depois, no segundo quarto, o Saints se viu em situação semelhante. 4th and 4 na linha de 29 jardas do campo do Seattle, um FG de 47 jardas. Dessa vez, Payton tentou a conversão e não o FG, e Michael Bennett (o melhor jogador em campo) pressionou um arremesso ruim de Brees que acabou incompleto. Eu realmente não tenho nenhum problema com essa conversão: o time perdia por 13 (então precisava do máximo de pontos possíveis contra uma ótima defesa), as condições não eram favoráveis a um chute, e o 4th Down Calculator indica que você tem mais a ganhar indo para a conversão (e isso antes de levar em conta o quão difícil seria tirar a vantagem no segundo tempo contra a defesa do Seahawks). Então foi uma boa decisão. A questão é que se você acha o FG vantajoso para 45 jardas contra o vento, porque você vai achar um FG de 47 jardas A FAVOR do vento pior? Claro, a situações eram diferentes, mas se tem uma que faz mais sentido ir para o chute é a segunda. As situações eram diferentes, por isso digo que ele fez certo em tentar a conversão, mas só torna a primeira ainda mais inexplicável (e custosa).

Por fim, Payton teve outra decisão em 4th down para tomar no final da partida. Faltando 4 minutos e perdendo por 8, o Saints teve uma 4th and 15 da linha de 30 jardas do campo do Seattle. O FG seria de 48 jardas e sem dúvida ajudaria o Saints em sua busca pela virada, e uma conversão de 15 jardas contra essa defesa sem dúvida tem uma chance de sucesso muito pequena, de forma que não era a melhor opção. O FG seria o mais simples... de novo, se não fosse o vento. O vento voltou muito forte no quarto período, e mais uma vez estava contrário ao chute de Graham. 48 jardas com vento é um chute extremamente difícil, e Graham já tinha errado um em condições pouco menos desfavoráveis. A chance do FG entrar, embora seja difícil precisar, com certeza era muito baixa - tanto que assim que o FG foi chutado, ele já desviou para muito longe do alvo e nunca sequer chegou perto do Y. Então considerando a baixíssima probabilidade de certo no FG e a ótima posição de campo que você da ao Seattle em caso de erro - Lynch anotou o TD quatro jogadas depois - porque você iria tentar o FG? Mesmo que achasse que uma 4th and 15 teria uma chance de insucesso semelhante, porque não ir para o punt e tentar colocar Seattle na sua linha de 10? Com vento forte é mais difícil passar a bola, e assim você aumenta suas chances de recuperar a posse com tempo no relógio e o placar inalterado. O FG errado deu a Seattle grande posição de campo, e sabemos como isso acabou. Se enfrentando um jogo tão difícil você tem que minimizar seus erros, então a atuação de Sean Payton não ajudou.

Indianapolis Colts 23 vs 43 New England Patriots


É fácil (e errado) colocar a culpa em Andrew Luck

Então o Colts tomou uma surra do Patriots e foi eliminado dos playoffs. E claro, como sempre acontece, todo mundo teve que correr para achar alguém em colocar a culpa. A simples lógica de "venceu o melhor time, que entrou com o melhor plano de jogo e executou esse plano melhor" parece não ser boa o bastante, então todo mundo precisa de um bode expiatório. E foi ai que muita gente se voltou contra Andrew Luck.

O QB do time perdedor sempre está sujeito a levar a culpa. E no caso de Luck, muita gente correu para apontar que ele tinha lançado quatro interceptações (sete em dois jogos) e que isso prejudicou sua equipe, e todo tipo de derivação dessa narrativa que vocês podem imaginar. Claro, sempre é ruim quando seu QB está lançando interceptações. Uma, logo na primeira campanha do jogo, deu a bola ao Patriots na linha de duas jardas e um TD na jogada seguinte. Outra (que não foi culpa sua e veio depois do fulback soltar um passe curto) evitou que o Colts aproveitasse um safety em um punt bizarro.

O problema desse raciocínio é colocar em um contexto de jogo como essas interceptações ocorreram. O Colts entrou em campo procurando explorar a grande fraqueza de New England, sua defesa terrestre, e para isso precisou correr muito com a bola, especialmente pelo meio da linha defensiva de seu adversário. Bom, não funcionou - os dois guards de Indianapolis tiveram péssimas atuações, Donald Brown foi mal com a bola nas mãos, e isso significou basicamente que o time não conseguiu encurtar as descidas e precisou que seu QB convertesse todo tipo de jogada longa a cada campanha. Não ajuda que a defesa de Indianapolis se tornou apenas a segunda da história da NFL a tomar jogos consecutivos de 40 pontos, o que diminuiu ainda mais a margem do Colts para gastar o relógio e fez  o time precisar ainda mais do jogo aéreo.

Em outras palavras, para o Colts se manter no jogo, eles precisaram que Andrew Luck os mantesse lá sem ajuda de um jogo terrestre. Para piorar, com Reggie Wayne machucado, o Colts só tinha um recebedor bom no seu time (TY Hilton), e a defesa do Pats fez seu plano de jogo exatamente para tirar Hilton do jogo, sabendo que Luck ficaria sem outras opções. Então o resultado não foi agradável para Andrew Luck, que teve que jogar praticamente sozinho, o dia todo, atrás no placar, precisando acertar passes para recebedores que não estavam muito livres ou com um bom espaço para poder avançar. A falta de separação que seus WRs e TEs conseguiam obrigava Luck a colocar cada bola em um espaço pequeno cercado de defensores. Então é claro que alguns arremessos de Luck foram ruins e acabaram nas mãos dos defensores, mas é isso que acontece quando você não tem alternativa senão ficar forçando esses passes o jogo todo. Pouquíssimas vezes Luck teve o luxo de lançar para um recebedor que tinha espaço, e na maioria das vezes era um WR com dois defensores em volta pegando uma bola colocada exatamente no alcance das suas mãos e fora do alcance do defensor. Como você pode culpar alguém por isso?

A verdade é que se não fosse Luck mantendo o Colts na partida com arremesso ridículo atrás de arremesso ridículo o jogo todo (alguns entre os mais bonitos que eu vi na temporada inteira), o jogo teria acabado muito antes e Indianapolis não estaria ainda com chances no meio do terceiro período. Como disse alguém no twitter, não teve nada mais emocionante nesses playoffs do que ver Luck lançando para algum jogador fora da tela da TV. Ganhou o melhor time, o mais bem preparado e o mais experiente, mas não tenham a menor dúvida: o Colts perdeu apesar de Andrew Luck, não por causa dele.

O lixo de um é o tesouro do outro

Só por diversão, temos dois RBs desse final de semana:

RB A - 24 corridas, 166 jardas, 4 TDs
RB B - 3 corridas, 1 jarda, 0 TDs

Os dois RBs foram trocados recentemente de seus times antigos para os atuais. Um custou uma escolha de primeira rodada. Outro custou uma escolha de sétima rodada. Tempo!!

Claro, todo mundo já deve saber a essa altura que o RB A, LeGarrette Blount, foi o que custou a escolha de sétima rodada e o RB B, Trent Richardson, foi o que custou uma escolha de primeira rodada. Esse é o parte de porque o Patriots tem um time tão bom e competitivo a tanto tempo: eles são excelentes achando talentos sub-valorizados a preços baixos (Blount ganha um salário mínimo, btw) e tirando o máximo deles colocando-os em um contexto favorável e um plano de jogo inteligente, e foi o mesmo com Blount, que foi chutado de Tampa Bay mesmo correndo para 1000 jardas como calouro para se tornar o RB #1 de um time como o Patriots. Enquanto isso, o Colts pagou um preço altíssimo em inflacionado por um jogador com mais "status" e que nunca tinha feito nada para mostrar que era um bom jogador.  Um foi uma operação de baixo risco que rendeu ótima recompensa, outro foi uma troca de altíssimo risco que até agora foi um fiasco homérico. O Patriots ri com seu sucesso, enquanto o Colts vai ter que montar um time ao redor do seu excelente QB sem poder contar com essa escolha valiosa. Esses erros e sucessos contam e muito para o sucesso de cada equipe na NFL.

San Francisco 49ers 23 vs 10 Carolina Panthers


A ascensão e queda de Riverboat Ron

Uma das histórias mais divertidas da temporada foi a transformação de Ron Rivera em Riverboat Ron. Ron Rivera era um dos técnicos mais conservadores da NFL, um cara que se recusava a pensar de forma alternativa e tentar conversões curtas mesmo tendo Cam Newton e três bons RBs a sua disposição. Esse pensamento retrógrado causou muitas derrotas aos seus times ao longo dos últimos anos, e também foi bastante prejudicial para Carolina no começo do ano, de forma que até escrevi sobre isso em uma coluna depois da semana 2. Mas em algum momento ao longo da temporada, inexplicavelmente (eu assumo que envolveu uma experiência de quase morte e sonhos com espíritos), Rivera entendeu que estava prejudicando seu time com isso, e decidiu que iria se tornar o técnico mais agressivo da NFL. De repente, o Panthers estava indo para todo tipo de 4th and 1 e 4th and 2 durante os jogos, convertendo um número ridículo dessas jogadas e tendo grande sucesso com essa agressividade. Rivera até se deu o apelido de Riverboat Ron para simbolizar sua transformação, e não tenho dúvida de que essa transformação teve papel importante na grande temporada do Panthers.

Domingo, no seu primeiro jogo de playoffs como técnico do Panthers, Riverboat Ron teve uma chance de mostrar seu novo e mais agressivo eu. Depois de uma 1st and goal da linha de 6 jardas e duas corridas de Mike Tolbert e Cam Newton, o Panthers se viu em uma situação de 3rd and 1 para anotar o TD. Tolbert correu com a bola e foi parado para nenhum ganho, criando uma 4th and 1 e uma clássica situação de Riverboat Ron.

A decisão de Rivera aqui deveria ser clara como água: ele tem que tentar o touchdown. Não tem nem muito o que discutir. Você tem um dos melhores ataques de curta distância da NFL e o melhor QB de curta distância da NFL, e anotar o TD te da quatro pontos a mais do que um FG. A 4th DQ diz que um time vai converter na média 68% dessas jogadas, o que dá ao time uma expectativa de anotar 4.8 pontos ao tentar a conversão, enquanto ganha apenas 3 chutando o FG. Além disso, existe um benefício oculto em tentar a conversão que muita gente ignora: mesmo em caso de falha, você ainda vai ter seu adversário preso na linha de meia jarda, uma situação muito difícil que pode render um safety para a defesa, ou pelo menos uma boa chance de recuperar a bola em grande posição de campo (especialmente em uma defesa tão boa como a de Carolina). Considerando ainda que esse era um jogo entre duas defesas muito fortes e que anotar TDs seria difícil, você tem ainda mais motivos para aproveitar essa chance que pode ser a única. Então Rivera estava 100% certo quando alinhou para tentar a conversão.

Apesar da boa chamada, Newton foi pego na linha de meia jarda e o Panthers saiu sem o TD. Mas tudo funcionou mesmo assim, porque como já disse é a vantagem de tentar a conversão: o 49ers não conseguiu nada da linha de meia jarda (quase sendo interceptado), na hora de ir para o punt o time alinhou em uma formação mais conservadora que o normal (por conta da falta de espaço para evitar um bloquei), o que deu bastante espaço para o retorno de Ted Ginn até a linha de 31 jardas. No lance seguinte, Cam Newton mandou uma bomba perfeita para Steve Smith anotar o TD, um TD que acabou sendo consequência direta da agressividade do time na 4th down.

No entanto, pouco depois, o Panthers se viu com uma decisão quase igual para Riverboat Ron. Depois de uma corrida de Newton, Carolina esteve em uma 2nd and goal da linha de 1 jarda. Newton tentou um scramble que não deu em nada na 2nd down, e Tolbert foi parado novamente na linha de uma jarda na terceira descida, criando mais um 4th and goal da linha de uma jarda. Mas dessa vez, provavelmente por conta dos seus insucessos nessas situações na partida, decidiu ir para o FG. O PAnthers anotou o FG para abrir 10-6 no placar, mas San Francisco logo recebeu a bola, gastou os 4 minutos restantes na partida para anotar o TD e virar 13-10, e o Niners dominou o resto do jogo a partir desse ponto sem dar chance ao rival.

É difícil dizer que um lance apenas como esse mudou todo o jogo e foi o responsável em transformar um primeiro tempo de total dominação de Carolina em um segundo tempo perfeito de San Francisco, mas é fácil ver que Ron Rivera errou feio ao chutar o FG e o quanto isso custou ao seu time. A lógica para tentar a conversão é a mesma de antes: você tem um bom ataque terrestre, o TD vale muito mais pontos que o FG, e você coloca o ataque adversário em péssima situação caso não funcione. E nesse caso ainda por cima tem a questão do tempo, já que você provavelmente recebe a bola em tempo de tentar uma última campanha sem deixar nada  para o adversário, mais um motivo para tentar o TD. Claro, muita gente vai apontar que foi bom porque o time não vinha conseguindo anotar o TD nessa situação, mas isso é overreact a uma amostra pequena: Carolina converteu 90% das situações semelhantes ao longo da temporada, e a defesa de SF permitiu TDs em 66% de jogadas na linha de uma jarda ao longo dos últimos dois anos. Além disso, tinha a questão da posição de campo e do relógio a serem considerados. Então tentar era uma decisão clara. Rivera ficou com medo e chutou o FG. Carolina anotou os três pontos, mas devolveu a bola para SF na linha de 20 jardas ao invés da de uma jarda, SF anotou o TD para virar o jogo faltando 5 segundos e foi para o vestiário na frente, 13-10, em um primeiro tempo dominado por Carolina, e o time nunca mais olhou para trás.

Os cenários que Rivera deixou de considerar são um bom exemplo de porque ele errou. Se o TD é anotado, o time abre 14-13 e iria para o vestiário em vantagem mesmo após o TD de San Francisco. Se a conversão é falha, San Francisco começa da linha de uma jarda, provavelmente vai para o punt, e Carolina ainda teria tempo de tentar um FG ou mesmo um TD, indo para o vestiário na frente 7-6 ou mesmo 10-6 ou 14-6. Ao invés disso, foram para o intervalo perdendo de 13-10, algo que poderia ser evitado se Riverboat Ron tivesse falado mais alto na lateral. Ao invés disso Rivera ficou com medo pelo seu insucesso anterior, esqueceu um fator importante que fez do seu time tão bem sucedido, e seu time pagou o preço.

A diferença que um treinador faz

A falha de Rivera em ser Riverboat Ron custou ao seu time no final do primeiro tempo, e coincidentemente ou não, foi o momento que o jogo mudou (SF iria ganhar o jogo por 17-3 a partir daquele ponto). Mas teve outro motivo para essa mudança drástica, e também teve a ver com técnicos. Dessa vez, com Jim Harbaugh e Vic Fangio.

Um dos motivos pelos quais o Panthers foi tão bom no primeiro tempo, especialmente no ataque, foi porque eles pegaram o Niners desprevenido em seu plano de jogo. Assim como ano passado SF pegou Green Bay de surpresa com o read option, Carolina também incluiu em seu plano de jogo uma série de pequenos ajustes e formações diferentes que tinha usado pouco durante a temporada regular e que, certamente, não estavam nos vídeos estudados pelo Niners. Ao invés do pacote pesado de corridas, o time usou muitos disfarces para deixar Cam Newton a vontade no pocket e pegando a defesa desprevenida nas laterais. O time também usou alguns read options para correr com a bola e também, menos comum neles, para fazer simples play actions e deixar seus WRs velozes no mano-a-mano contra a secundária desfalcada de SF. A defesa não estava esperando isso, e Carolina aproveitou para fazer seu ataque funcionar (menos na linha de uma jarda).

Mas no intervalo, especialmente com a vantagem proporcionada pelo erro de Riverboat Ron, o Niners fez seus ajustes. Ofensivamente, o time pouco fez de excepcional, alguns ajustes na proteção e mais lançamentos na direção de Anquan Boldin (especialmente explorando Dayton Florence). Mas defensivamente, o time voltou preparado para o novo plano de Carolina. Com a vantagem (que subiu para 20 na primeira campanha ofensiva do time) e maior confiança na sua defesa terrestre, o time começou a ser muito mais agressivo ofensivamente, mandando muitas blitzes de diferentes locais e pressionando os CBs na linha de scrimmage, tirando a opção dos passes curtos e rápidos e obrigando Cam Newton a fazer seus passes depois de algum tempo, em geral sem espaço no pocket ou fugindo de um sack. Newton não funciona tão bem nessas situações, ainda tem alguns hábitos ruins (especialmente lançar a partir do pé de trás) e não tem a criatividade e precisão de Wilson ou Aaron Rodgers. Muitas vezes ele tentou ganhar tempo no pocket esperando seus WRs ficarem livres para logo ser engolido pelo pass rush, e quando tentou sair pouco espaço teve para fazer qualquer coisa. O read option parou de funcionar e foi abandonado, e ai o Panthers teve que voltar para seu plano tradicional, que não teve sucesso contra uma fortíssima defesa. A maior diferença foi a pressão gerada, com cinco sacks só no segundo tempo em cima de Cam (contra apenas um no primeiro). O ataque de Carolina não iria mais ameaçar o resto do jogo, o ataque terrestre de SF começou a achar espaços, e o time carimbou sua viagem a Seattle. Então nunca subestimem a importância dos ajustes dentro de jogo dos técnicos. O 49ers ajustou brilhantemente, e Carolina não conseguiu responder.

Em tempo, já que o assunto é a importância de um técnico, San Francisco passou 8 anos sem sequer ir aos playoffs, ganhando 7, 2, 4, 7, 5, 7, 8 e 6 jogos entre 2003 e 2010. No ano seguinte chegou Jim Harbaugh, e San Francisco ganhou 13, 11.5 e 12 jogos nos três anos seguintes, chegando a três finais de conferência consecutivas. Um bom lembrete sobre o impacto que um bom técnico pode ter, para todos os times que estão mudando seus técnicos nessa offseason.

San Diego Chargers 17 vs 24 Denver Broncos


Quando tudo da certo, e você não aproveita

Um primo próximo do que falamos sobre o Saints, sobre como quando você enfrenta um adversário que é franco favorito você não pode continuar dando a ele presentes e oportunidades para causar estrago. A situação do Chargers, embora semelhante, não é a mesma. Se o Saints deu oportunidades ao adversário e não podia, o Chargers foi o time que recebeu diversas oportunidades (uma parte delas menos por causa de erros do Broncos e mais por pura sorte) para tentar a zebra, mas não conseguiu aproveitar. E as duas são mortais, lembrando que San Diego era +9.5 para esse jogo - isso significa que esperam que você vença 22.2% do tempo apenas (curiosamente, na história da NFL, times + 9.5 venceram 22.1% das vezes antes desse jogo).

Deixando de lado um instante a má atuação do Chargers durante os primeiros 40 minutos de jogo e a boa atuação da defesa do Broncos, a verdade é que o placar deveria ser muito mais elástico do que foi. O Broncos foi o time que vacilou ao longo da partida, as vezes por más jogadas, as vezes por puro azar. O que eu falei que o Saints não podia fazer com o Seattle, o Broncos fez um pouco aqui. A questão é que o Chargers não transformou isso em nada.

Logo na primeira campanha do Broncos (após uma boa campanha de SD terminar em um sack e um punt), Peyton Manning teve a bola na linha de 29 do campo de ataque e tentou achar um Wes Welker em velocidade na end zone. Mas o passe foi muito ruim e sem controle, e ficou pendurado tempo o suficiente para o CB Shareece Wright cortar a rota do passe e se colocar em posição para conseguir uma interceptação. A bola foi perfeito no meio do peito de Wright, que não conseguiu segurar e fazer a interceptação. Algumas jogadas depois, Manning transformou o erro de Wright em 7 pontos com um passe para Demaryius Thomas. Depois de outro punt, Chargers teve uma nova chance: em um passe esquisito para Julius Thomas, o TE de Denver não conseguiu controlar a bola direito, tomou um tackle e soltou a carne, que foi recuperada por San Diego. No replay é quase impossível ver com certeza se foi fumble, down by contact ou passe incompleto, então permaneceu a marcação original, para sorte do Chargers. De novo, o time não aproveitou a boa posição de campo (linha de 45): o time avançou 26 jardas antes de Philip Rivers tomar um sack, e Nick Novak errar o FG. Então San Diego poderia ter evitado os 7 pontos de Denver e/ou anotado mais pontos seus com esse fumble sortudo, mas ao final dessas campanhas, o placar ainda era 7-0 para Denver. Aproveitando a boa posição de campo do FG errado, Manning logo anotou outro TD para fazer 14-0, um 14-0 que o Chargers teve a chance de evitar ou fazer algo melhor e não aproveitou.

Mas espera, tem mais. Faltando 3 minutos para o fim do primeiro tempo, o Broncos recuperou a bola novamente e se lançou em uma campanha. O time chegou dentro da linha de 5 jardas, mas na terceira descida, um bom passe de Manning para Eric Decker não foi seguro pelo WR, pipocou no ar, e Donald Butler  fez ótima jogada na bola pendurada para conseguir com uma interceptação, salvando assim pelo menos três pontos. Com 30 segundos e dois tempos para pedir, San Diego preferiu ajoelhar na bola mesmo sabendo que ela começaria com Denver no segundo tempo. Logo no retorno, Eric Decker quebrou seis tackles e tinha caminho livre até a end zone, mas tropeçou sozinho e caiu na linha de 40 jardas. Logo depois, Manning fez passe lindo para um livre Wes Welker na end zone, que deixou a bola cair e forçou o FG de Denver. Então o que deveria ter sido 10 ou mesmo 14 pontos para Denver acabou resultado em apenas três, por pura sorte e pela boa jogada de Butler. Pouco depois, Matt Prater ainda erraria um FG de 47 jardas.

Eventualmente no quarto período, Philip Rivers e o ataque do Chargers acordou, anotou 14 pontos porque a defesa do Broncos inexplicavelmente decidiu que não precisava cobrir Keenan Allen e ainda recuperou um onside kick milagroso para trazer a diferença para sete pontos, antes de Manning tirar o jogo de alcance com dois passes cruciais em terceiras descidas (uma em 3rd and 18). O Chargers chegou perto de conseguir uma grande zebra, mas a verdade é que o jogo não foi nem tão apertado como pareceu pelo que os dois times jogaram, e também não é difícil ver aonde o Chargers não conseguiu. O Broncos e o acaso deram várias oportunidades para o Chargers, e eles não aproveitaram. Tiveram uma interceptação na mão para evitar 7 pontos do Broncos e não conseguiram. Recuperaram um fumble em grande posição de campo, não geraram pontos e ainda deram boa posição para o Broncos anotar mais sete. Conseguiram sair de alguma forma tomando só 3 pontos quando deveriam ter tomado 14, e mesmo assim só foram anotar um TD no quarto período.

Se o Saints nos ensinou que quando você quer superar um time superior você não pode continuar atirando no próprio pé e dando chances ao adversário, então o Chargers é um exemplo de como você também não pode deixar passar todas as chances que colocam nas suas mãos, senão o buraco fica grande demais para sair depois. O Chargers não conseguiu, e é por isso que a Bolo Tie não está indo para New England semana que vem.