Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Especial NBA - Bill Russell e Wilt Chamberlain


Pra quem não sabe que Especial é esse e pra que ele serve, leiam esse post antes.

Bill Russell (Boston Celtics, 1965)
Wilt Chamberlein (Los Angeles Lakers, 1972)


Começando nosso Especial, acabei achando que era melhor fazer os posts seguindo algum tipo de cronologia. Por que? Porque eu cheguei à conclusão que a história da NBA é como a história que estudamos no colégio. Em outras palavras, ela não é composta de fatos isolados, e sim uma coisa contínua que vai se construindo em cima de si mesma, evoluindo e mudando. O jogo de basquete em 1965 era totalmente diferente do jogo jogado em 1996. As pessoas que jogavam eram diferentes. As regras, os estilos eram diferentes. E portanto, como vamos abordar diversos times em épocas diferentes ao longo desse Especial, é extremamente importante colocar cada time no seu contexto histórico, cada um jogando em uma Liga um pouco diferente. E portanto, vamos começar do time mais antigo, o Celtics de 1965 do Bill Russell, e do time do seu maior rival, o Lakers de 1972 de Wilt Chamberlain.

Antes de mais nada, a história da NBA pode ser dividida em quatro etapas: Pre-Shot Clock, Pre-Russell, Pre-Merger, e o que veio depois. A primeira delas, Pre-Shot Clock, basicamente não interessa do nosso ponto de vista. Pra quem não sabe, até 1955, os jogos de basquete não tinham o relógio de 24 segundos, e portanto placares como 42 a 36 eram extremamente comuns. Afinal, o time que estava ganhando podia simplesmente ficar segurando a bola, sem nenhuma regra que o forçasse a arremessar. O resultado obvio era que os jogos ficavam extremamente chatos, lentos e de placares baixos, o que ameaçou acabar com a Liga, com sua popularidade muito em baixa. Foi apenas em 1955 que o grande Danny Biasone decidiu criar o Shot Clock, que dava um tempo limite (24 segundos) para os times arremessarem. A partir dai apenas que o basquete virou realmente basquete de verdade, e portanto eu praticamente descarto o que aconteceu em quadra antes disso. Não era realmente basquete. Mas então se o basquete da NBA virou basquete de verdade depois da criação do Shot Clock em 1955, e a NBA virou a NBA que conhecemos hoje depois da fusão entre a NBA e a ABA em 1977 (falaremos mais disso em outro post), porque separar o período entre esses dois marcos entre Pre-Russell e Pós-Russell??

Porque a chegada de Russell (não apenas ele, mas ele foi o mais importante de todos junto com Elgin Baylor) mudou a cara da NBA pra sempre. A NBA, antes de Russell e Elgin, era composta quase que só por atletas brancos, mais baixos e mais lentos, e infinitamente menos atléticos do que vemos hoje. O jogo de basquete era jogado apenas abaixo do aro, onde ninguém defendia. Praticamente consistia de jogadores pegando rebotes, saindo na correria, tentando um arremesso rápido e voltando correndo pra defesa. Não tinha nenhuma eficiência (o FG% da Liga pre-Russell era abaixo dos 40%, ridiculo), era um jogo extremamente cansativo e chato de assistir (tirando uns poucos jogadores como Bob Cousy) e a Liga começou a enfrentar cada vez mais problemas de falta de popularidade pelo seu jogo chato e pouco atraente para os fãs. 

Isso mudou com a chegada na Liga de Russell e Baylor. Pela primeira vez, a NBA teve dois jogadores que mostraram que basquete poderia ser jogado acima do aro. Tanto Baylor (com seu ataque baseado em saltos e no tempo que ele conseguia permanecer no ar pra criar arremessos de alto aproveitamento que ninguém era capaz de contestar além de Russell) como Russell (com sua explosão, impulsão e capacidade atlética em geral, virou a maior máquina de tocos da história do esporte - imagine soltar o Dwight Howard na WNBA) foram os pioneiros desse novo estilo de basquete explosivo, acima do aro (e infinitamente mais divertido) que mudou a direção da Liga e pavimentou o caminho pra NBA como conhecemos hoje. E por conta a superioridade física, jogadores como Russell, Baylor e, futuramente, Wilt estavam num nível muito superior em relação ao resto da Liga (A chegada de Russell quase sozinha acabou com a carreira dos muitos pivôs branquelos e lentos que dominavam a Liga antes da sua chegada. Antes esses pivôs podiam dar seus arremessos e ganchos, lentos e baixo, a vontade, pois ninguém tinha altura e atleticismo pra bloquea-los. Com Russell e o influxo subsequente de jogadores negros e fortes? Eles não tinham a menor chance).

Ainda assim, estamos falando do final dos anos 50/começo dos anos 60. O racismo não era de forma alguma um assunto passado nos EUA, e mesmo com a entrada de jogadores negros na NBA empurrando o jogo em uma direção muito melhor, ainda havia muita resistência a esses jogadores. A Liga ainda era predominante branca, muitos times (como o Hawks, por exemplo) não tinham nenhum jogador negro, e por mais que ficasse claro que os negros eram mais adequados ao esporte com jogadores como Russell, Wilt e Baylor dominando a Liga, a regra não escrita da época ainda era de "No máximo dois jogadores negros por time" (o único time que constantemente ignorava isso era justamente o Boston Celtics. Adivinhe que time ganhou 11 titulos em 13 anos?).

E ai entra a figura mais importante da cartolagem da NBA nos anos 60, Red Auerbach. O técnico/GM do Boston Celtics era, sem outra palavra pra isso, um visionário, à frente do seu tempo. Percebeu logo de cara o potencial de jogadores como Russell e Elgin para dominar essa Liga, investiu em Russell (draftado em 1958 junto com Tommy Heinson), e começou a recrutar jogadores negros (Sam Jones, KC Jones, etc) pra jogar junto de seu pivô. O Boston Celtics, que já tinha um bom núcleo com os veteranos Cousy e Bill Sherman, e as infusōes de Russell, Heinson e Frank Ramsey (calouros), dominou a NBA rumo ao título, cenário que se repetiu nos anos seguintes (Tirando o ano seguinte, 1958, quando perderam para os campeōes Hawks graças a uma lesão em Russell). Aos poucos, juntando o bom núcleo, a liderança de Russell e os recém-chegados como os Jones, o Celtics acabou montando os times mais recheados de talento da história da NBA (numa época onde só tinhamos 8 times era mais fácil) entre 1960 e 1962, ganhando vários títulos. Até hoje, a lembrança que fica daqueles times de Auerbach é a imagem dos times sempre lotados de talento de 1960-62.

No entanto, o time que está no NBA 2K12 é o Celtics de 1965, três anos depois de 1962. Entre 63 e 65, o time já tinha perdido muito em termo de talento: Sherman, Cousy e Ramsey tinham aposentado, Heinson estava muito menos efetivo do que antes, e o time jogava sem nenhum armador além de KC Jones (um excelente defensor, mas incapaz de arremessar ou pontuar, e nunca um bom criador). Ainda que tivesse um bom núcleo com Russell, Sam Jones e um John Havlicek sophomore (ainda longe de ser o Havlicek que viria a ser um dos melhores jogadores da história), nem de longe era o time recheado de talento, claramente superior ao resto da Liga que fora alguns anos antes. O time vivia basicamente confiando em Russell pra defender o aro, cobrindo as falhas de todo mundo, e KC Jones pro perímetro (enquanto todo mundo guardava as energias pro ataque), e todo o ataque do time era baseado na habilidade de passes e de defesa de Russell, seja dando um toco de forma a começar um contra ataque, seja pegando um rebote e fazendo o passe pra algum jogador em velocidade, ou até mesmo na meia quadra confiando na sua capacidade de distribuir o jogo e achar companheiros cortando em direção à cesta, como viria a fazer Bill Walton 12 anos depois (curiosamente, a capacidade transcendental de Russell nos passes, fazendo todo o ataque do time rodar em torno disso apos a aposentadoria de Cousy, acabou sendo esquecida historicamente - não é o tipo de coisa que se possa captar com estatísticas, certo?). Mas o Celtics ainda teve dificuldades pra ganhar o título esse ano, especialmente sete jogos pra passar por cima do Philadelphia 76ers, um time lotado de talento e liderado por Wilt Chamberlain.

Wilt, na verdade, não começou sua carreira no Sixers, e sim no San Francisco Warriors, onde colecionou números impressionantes, recordes e até um MVP, mas nunca conseguiu fazer nada nos playoffs mesmo jogando com dois Hall of Famers (futuramente um terceiro) e alguns All-Stars. Quando o Warriors se encheu de ter que lidar com a individualidade e problemas de vestiário do Wilt, e tendo Nate Thurmond pra apostar no futuro de pivô, trocaram ele por umas migalhas com o Sixers. Lá, a rivalidade Russell x Wilt ressurgiu de novo (afinal, Wilt cansou de ter seu traseiro chutado por Russell em SF). Wilt estava no auge dos seus poderes, e embora Russell já tivesse passado um ou dois anos desse ponto, ainda estava jogando em altíssimo nível. Ainda que o time de Wilt em SF não fosse ruim (não da pra ter times ruins com apenas 8 na Liga, é impossível), sempre fora inferior aos times de Russell (a excessão foi justamente em 1964, quando eram bem parelhos), mas agora em Philly com Hal Greer, Lucious Jackson e Chet Walker, a história era que Wilt finalmente iria assumir seu lugar no topo da Liga.

A rivalidade entre Wilt e Russell, desde o começo, era previsível. Dois jogadores que estavam em outro plano em relação ao resto da Liga. Russell chegou primeiro e estabeleceu o Celtics como uma dinastia com suas proezas defensivas e jogo voltado para o time. Quando Wilt entrou na Liga alguns anos depois, a expectativa era de que ele fosse dominar no nível de Russell e transformar o Warriors na potência do Oeste pra bater de frente com o Celtics. De certa forma, aconteceu: Wilt dominou a Liga como ninguém, acumulou estatísticas que impressionam qualquer um até hoje e se estabeleceu como uma força imparável... Individualmente, porque ele nunca conseguiu transformar isso em sucesso de equipe. Ainda assim, o confronto entre os opostos Russell (ápice da excelência defensiva, jogador de equipe) e Wilt (extremamente individualista, personificação da dominação ofensiva) como os dois melhores jogadores da NBA sempre foi um assunto fascinante pra Liga e pros que a acompanhavam. Eles passaram boa parte dos anos 60 se enfrentando diretamente (com os times de Russell sempre levando a melhor, mas enfim), seus times sempre foram os que atraíram mais atenção, e junto com Elgin foram os três jogadores mais importantes da década de 60. 

E na verdade, esse é meu maior problema com os times históricos do 2K12 (junto com o fato de que deixaram Elgin de fora e incluiram Patrick Ewing): Eles colocaram o time de Wilt sendo o Lakers de 72, um ano que Russell já estava aposentado da Liga! O time de Russell sendo o de 65, mesmo não sendo o melhor ou mais recheado de talento da sua carreira, pode ser explicado por ter tido o melhor record da era Russell (62-18) e porque esse ano teve talvez o momento mais famoso dessa epoca e um dos mais famosos da história da NBA (já chegaremos la). Wilt no Lakers, onde ele já estava na descendente da sua carreira, e pra piorar em um ano onde ele não enfrentou Russell? Absurdo! Wilt pegou o Lakers de 1972 simpesmente porque não dava pra deixar esse time de fora (foi o melhor Lakers pré-Magic e um time muito importante), mas por que não colocar Jerry West com o Lakers de 72 (onde ele foi o melhor jogador) e Wilt no Sixers de 67, no auge de seus poderes e durante sua rivalidade com Russell (e no único ano que ele venceu)? Não faz sentido. Realmente não faz.

(Tangente rápida: Um dos problemas pra dar um time ao Russell vem do fato de que o Celtics nunca teve uma temporada Keyser Soze, aquela temporada que o time simplesmente joga não pra vencer, mas pra destruir e massacrar todo mundo e provar um ponto e que geralmente vingam por anos a fio, como por exemplo o Bulls de 96, o Celtics de 86 ou o Lakers de 87. Por que? Porque eles ganhavam todo ano!! Como motivar um time pra temporada regular quando eles nunca tinham nada a provar e só esperavam os playoffs? Se o Celtics tivesse perdido, digamos, para o Lakers em 62, em 63 eles teriam vindo soltando fogo, jogando com sangue nos olhos e sede de vingança, ganho 70 jogos e teriamos a nossa temporada marcante para o Celtics de Russell. Mas eles só foram perder em 67, quando já estavam muito enfraquecidos pra fazer esse tipo de massacre. E surpresa, eles ganharam em 68 mesmo assim)

A temporada de 1965 acabou com o Celtics vencendo o Lakers, mas o jogo definitivo da temporada foi o jogo 7 das Finais do Leste, onde o Sixers de Wilt levou a série a 7 jogos. O Jogo 7 dessa série é um dos mais famosos de todos os tempos da NBA, um jogo que foi decidido nos segundos finais, com Celtics um ponto na frente e que terminou com a lendária roubada de Hondo ao som de "Havlicek stole the ball!! It's all over!!". Foi o sétimo título consecutivo do Celtics (eles ainda chegariam a oito antes de Auerbach aposentar e o Celtics perder para o Sixers em 67) em um time que nem de longe estava tão estocado de talento mas que ainda tinha Sam e KC Jones, Havlicek novinho e, claro, Russell comandando o time. Abaixo o vídeo da roubada de Havlicek que definiu a série:


Os anos seguintes foram duros para o Celtics. Heinson aposentou antes da temporada de 1966 (venceram Philly em 5, depois Lakers em 7 nas Finais), e KC Jones e principalmente Auerbach aposentaram (com Russell assumindo de jogador-técnico) antes da temporada 1967. Com o pior time do Celtics da era Russell e com Wilt - pela primeira vez - aceitando jogar coletivamente e envolver os companheiros ao invés de arremessar 40 bolas por jogo, Wilt conseguiu seu primeiro titulo com o Sixers e parecia que finalmente ele iria sair da sombra de Russell... Até o Celtics ganhar em 68, o Sixers ficar de saco cheio de lidar com as manias de Wilt e trocá-lo para o Lakers por mais um pacote de Bono vencido (Em 1968, Wilt se irritou com a imprensa o chamando de "egoista" e decidiu provar de uma vez por todas que não o era. Como? Liderando a liga em assistências - perfeito pra quem achava que estatísticas eram tudo no basquete - mesmo que as custas da sua equipe. O Sixers terminou com a melhor campanha mesmo assim - o time estava transbordando talento - mas perdeu para o Celtics nos playoffs em sete principalmente porque Wilt estava tão obcecado em assistências que deu apenas dois arremessos no segundo tempo do jogo 7, e reclamou depois que seus companheiros erraram os arremessos. Depois não entendem porque Wilt foi trocado duas vezes no seu auge).

A chegada de Wilt em Los Angeles, é claro, foi um fenômeno de mídia nacional. Não só o jogador mais polarizador em termos de mídia (e que declarou ter dormido com 20.000 mulheres) estava indo pra Hollywood, como o Lakers era um time que tinha vindo de várias finais e que tinha Elgin (um pouco passado do seu auge graças a uma lesão no joelho) e West. O Lakers destruiu todo mundo pelo seu caminho na temporada regular, chegou na Final como favorito, abriu 2 a 0 no Celtics (um time extremamente velho e baleado que terminou em quarto no Leste)... E perdeu em sete jogos, em Los Angeles, com Wilt mofando no banco apesar de Jerry West ter média de mais de 45 pontos por jogo. So there! (A grande injustiça de 1969 não foi West não ganhar o título, e sim Russell não ter ganho Coach of the Year - me diga outro técnico na NBA que jogasse 40 minutos por jogo)

Apos o titulo, Russell aposentou e Wilt (já passado do seu auge) herdou o titulo de melhor jogador da NBA por default. Passando rapidamente por 1970 (quando o Lakers perdeu na final para o Knicks, no famoso jogo do "And here comes Willis!" que vai ganhar o devido respeito se um dia eu postar do Knicks de 1970) e 1971 (esperem o próximo post, mas Wilt estava machucado), o Lakers chegou em 72 com a definitiva cara de quem está puto e querendo provar um ponto: Foram três anos onde tudo estava a favor do Lakers e eles perderam, mas ainda era um time estocado de talento e com Wilt, West e Gail Goodrich. Se tinha um ano pro Lakers emendar uma temporada Keyser Soze e aniquilar todo mundo no seu caminho, era essa.

E aconteceu? Pode apostar que sim! No começo da temporada, Elgin Baylor aposentou, sentindo as lesōes e o desgaste e afirmando que "O time é muito bom, e eu não quero atrasá-los, que é o que aconteceria se eu ficasse" (o que me faz gostar mais ainda do Baylor - me diga outro jogador na história da NBA que teria feito isso, lembrando que Baylor nunca tinha ganho um anel e esse ano o Lakers era de longe o favorito). O Lakers (porque infelizmente Baylor tinha razão) se encaixou, West assumiu de vez o comando do time, o técnico Bill Sharman convenceu Wilt a jogar em equipe e se focar mais em defesa e rebotes (o que ele fez), Goodrich emergiu como um excelente coadjuvante pra West, e o Lakers acabou emendando uma sequência de 33 vitórias seguidas (mais longa da história da NBA) e colocou o ponto de exclamação numa temporada quase perfeita com um título. 

Entre todos os times campeōes pre-Merger, o Lakers de 1972 provavelmente foi o segundo colocado no quesito Keyser Soze de "Holy hell, esses caras realmente dominaram e massacraram todo mundo no caminho!" atrás do Bucks de 1971 e logo na frente do Sixers de 67 e do Knicks de 70 (de novo, o time que ganhou 11 titulos em 13 anos nunca teve uma temporada dessas porque eles se entediavam demais durante a temporada regular). Além de ter tido a maior sequencia de vitórias da história da NBA, o Lakers terminou com um point diferential medio de 12.3, teve o melhor ataque E a melhor defesa da temporada, e terminou o ano 20-6 contra times com 49 vitórias ou mais. Ninguém estava encostando nesse time em 1972, ponto! Essa temporada só precisa ser engolida com um grão de sal porque em 1972 a Liga estava começando a expandir (e portanto a diluir) - sem falar no efeito concorrencial da ABA, que estava tirando da Liga vários talentos jovens e, em geral, os jogadores negros e atléticos - e porque Willis Reed estava machucado (e ele era o melhor jogador do maior rival do Lakers), mas ainda assim, 33 vitórias é um recorde que provavelmente nunca vai cair e não da pra negar que o Lakers era um time lotado de talento que destruiu todo mundo no caminho, finalmente dando a West o título que ele merecia. E sem Bill Russell pra atrapalhar (que aliás foi dar um abraço no Jerry West, feliz da vida por ver o Logo ganhando finalmente um anel. Não tinha maior fã de Russell que Jerry West, e vice versa). De novo, porque esse time não foi do West, mesmo? Ele era o astro, ele foi o melhor jogador, e ele que ganhou o primeiro título esse ano! Mas não importa, porque esse Lakers merecia estar aonde está. Uma pena que Baylor não pudesse ter estado lá.

Dois últimos pensamentos rápidos: Primeiro, sempre aceitem estatísticas dessa época entre 55 e 70 com uns quinze grãos de sal. Estatisticamente, não existe período mais inflacionado do que esse na NBA. Era uma época sem linha de três pontos, onde a correria e a má seleção de arremessos ainda predominavam, e qualidade sobre quantidade ainda dominava a Liga apesar de jogadores como Baylor. Cada time arremessava cerca de 110 bolas, e cada time pegava cerca de 90 rebotes por jogo, ou mais. Fica mais fácil entender como Russell e Wilt tinham médias de 20 rebotes por jogo, certo? Sabia que em termos de aproveitamento nos rebotes, Russ e West tiveram apenas as terceiras e quartas melhores marcas da história da NBA, atrás de Dennis Rodman e Moses Malone, por exemplo? Além disso, temos que considerar o fato de que esses jogadores jogavam numa liga predominante branca, baixa e onde ninguém jogava acima do aro além de uns poucos (e goaltendings ofensivos eram válidos). Dwight Howard solto numa liga de jogadores predominantemente brancos, baixos e pouco atléticos (algo como Brian Scalabrines clonados), sem goaltending e arremessando 42 bolas por jogo não dominaria como Wilt dominou e teria médias de 50-22? Provavelmente sim. Talvez eles tivessem dificuldade de se adaptar ao jogo de hoje, por exemplo, e com certeza não dominariam daquela forma. Não podemos descartar, portanto, o efeito da era sobre essas estatísticas. Mas não importa. Não muda o fato de que eles foram pioneiros, dominaram a Liga por anos a fio, e mudaram de vez o jogo pra melhor. Um Rolls-Royce de 2010 é um carro melhor que um de 1960, mas o de 1960 era muito mais impactante pra época, e mais importante. 

Pra terminar, eu sei que tinha prometido não entrar em comparaçōes entre jogadores, mas tem uma que eu não consigo ignorar, que é entre Russell e Wilt (e btw, já aviso que não vou aprofundar no assunto. Isso é assunto para outro post, que eu talvez faça simplesmente porque esse debate envolve tudo que eu acredito sobre basquete). O que eu acho mais engraçado nisso é que isso não era um debate quando Russell (e depois Wilt) se aposentou e nunca foi. Mas isso prova exatamente o ponto que eu fiz no post anterior, usando como exemplo Tim Duncan e Karl Malone: Conforme o tempo passa, as memórias vão se apagando, os vídeos vão ficando mais raros e difíceis de serem encontrados, testemunhas oculares vão envelhecendo... E tudo o que sobra desses jogadores são alguns poucos relatos e diversos dados - pontos, rebotes, assistências, títulos, MVPs, All-Star Games, All-NBA e All-Defenses Teams, etc. E quando não temos mais nos que nos basear, acabamos recorrendo a isso para formar nossas opiniōes. Quando isso aconteceu com Wilt e Russell, as pessoas começaram a olhar os dados e falar "Wilt teve médias de 50 pontos e 22 rebotes em 1962?? Russell nunca passou de 25!! Wilt era muito superior!!" e "Wilt marcou 100 pontos em um jogo?? Woah!", e isso acabou ficando quase definitivo paara avaliar os dois jogadores. E quando essas concepçōes baseadas em fatos tão parciais começam a não bater com a realidade (o fato de que Russell que ganhou 11 títulos, e Wilt apenas dois), começa a se distorcer a realidade para se encaixar nessas preconcepçōes, gerando mitos como o famoso "Wilt não ganhava títulos porque sempre teve times fracos enquanto Russell sempre teve grandes times!" (uma grande mentira quando olhamos pros últimos cinco ou seis anos da carreira de Russell), e tudo porque a avaliação baseada apenas nos números é uma avaliação extremamente limitada. Os números servem pra refletir o melhor no jogo de Wilt (sua capacidade para dominar um jogo individualmente), mas os números não mostram os muitos defeitos de Wilt (o quanto ele destruia seus times por ser um fominha, o fato dele colocar seus números e sua "imagem" na frente da equipe, sua aversão à bola em jogos apertados pelo medo de sofrer faltas, sua má influência no vestiário, etc), enquanto que Russell não tem números tão imponentes (principalmente porque não contavam tocos na época) como Wilt, principalmente porque o melhor do seu jogo (seus passes magistrais que foram o centro do jogo do Boston por tantos anos, sua liderança, o efeito dele colocar o time e a vitória na frente de gloria pessoal ou números, sua inteligência em quadra, o fato dele sempre aparecer quando seu time mais precisa) não podem ser capturados por nenhum número além do fato de que ele ganhou onze títulos. Ainda que "número de títulos" seja muito vagos pra avaliar a amplitude da carreira de um jogador, nada reflete melhor o jogo de Russell do que o fato de que ele acabou sua carreira com mais títulos que qualquer outro jogador.

Adequadamente, o legado que Wilt e Russell deixaram pras geraçōes posteriores foram exatamente o que eles mais valorizaram ao longo de suas carreiras: Wilt, que valorizava os seus números e sua, digamos, imagem mais do que tudo, deixa números espetaculares e superiores a todos os outros. Russell, que valorizava seu time e a vitória acima de tudo, deixa seus onze títulos. Mas infelizmente, nós nunca aprendemos a valorizar o que fez Russell ganhar esses onze aneis, porque não temos outros números mais simples e diretos apoiando. E justamente porque isso é o que acaba ficando de uma era passada, Russell vs Wilt virou um debate. Mas nunca deveria ter virado. Porque, francamente, nunca foi um até o tempo interferir.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Especial NBA - Os times históricos

Provavelmente, ninguém aqui sabe quem é esse cara. Ainda.



Tudo começou com uma declaração dada pouco antes das Olimpiadas pelo técnico Mike Kra... Krz.. Hmm, pelo Coach K, técnico da seleção masculina de basquete dos EUA. A declaração, feita quando perguntaram pra ele sobre o que o Kobe Bryant significa pro time em relação a experiência e sua carreira vitoriosa, envolveu a seguinte afirmação: Kobe Bryant é um dos cinco maiores jogadores de todos os tempos.

Até aí, tudo bem. É a opinião dele, não é uma opinião absurda (como seria se ele disesse, por exemplo, que Eddy Curry é um dos melhores pivôs da NBA), e como o Denis do Bola Presa disse, é o tipo de coisa que os técnicos falam com um número qualquer, sem fazer um ranking ou coisa assim, apenas pra ilustrar um ponto (no caso, que Kobe era um jogador muito importante pela sua história na NBA e era diferente ter uma lenda como ele no time - dois fatos). Não tenho nenhum problema com ele dar a declaração ou mesmo em ele achar isso, embora eu discorde do status que ele deu ao Kobe pelos meus critérios pessoais uma pessoa pode tranquilamente montar um argumento a favor desse status e terá um caso bem forte a favor do Kobe. E ponto!

O problema foi que essa declaração foi feita na era da internet. Isso significa que, em questão de segundos, surgiram duzentas discussōes sobre o assunto, que logo evoluiram para o ridículo "Kobe ou Michael Jordan?". Primeiro de tudo, eu já odeio qualquer comparação com Jordan. MJ é nosso parâmetro de excelência no basquete, e por esse motivo de repente TODO mundo que é bom num nível diferente do resto (Kobe, Lebron, etc) tem que ser comparado ao Jordan e tem que fazer o que o Jordan fazia. Tudo bem, até entendo a vontade que todo mundo tem de ver outro Jordan, mas o problema é que de repente passa a impressão de que se o jogador NÃO for igual ao Michael Jordan, então ele fracassou, o que não tem nada a ver, simplesmente porque (pra mim) Jordan foi o maior jogador de todos os tempos. É que nem ir no cinema assistir The Dark Knight Rises e falar depois "The Dark Knight é melhor". Porque isso significaria algo RUIM pra TDKR? Dark Knight é sensacional, um dos meus filmes favoritos em todos os tempos, e ser inferior a ele nunca será um demérito. O mesmo pras comparaçōes com Jordan (que não deveriam acontecer antes de mais nada), ser diferente (ou inferior) a Jordan nunca será algo ruim para ninguém. Mas o problema é que com o excesso de comparaçōes vem a ideia de que ou o jogador foi/é/será igual a MJ, e se não for, ele fracassou. E por esse motivo, essas discussōes "Jogador X ou Jordan?" geralmente acabam com a galera tirando tudo de contexto e proporção, distorcendo fatos pra defender um ou outro, numa comparação que não deveria existir, simplesmente pra evitar que Jogador X seja "diminuido".

Mas pra falar a verdade, isso nem foi o que mais me incomodou. Conforme a discussão avançava, a galera começava a fazer seu próprio Top5 da história da NBA, e eu fiquei inconformado em como a galera era ignorante em termos da história da NBA. Não todo mundo, claro, mas uma boa maioria. Muitos Top5 eram coisas como "MJ, Kobe, Shaq", e quando alguém colocava um Larry Bird ou Kareem na sua, muita gente reagia com coisas como "Top5 esses caras não são!" ou "Nunca foram tão bons como Kobe/Shaq/Jason Kidd/etc". A galera cresceu vendo essa galera jogar, entendo isso, mas não saber quase nada sobre essas lendas é demais. E não foi a primeira vez que eu vi isso acontecendo por aqui: Quando eu falei, casualmente, sobre o Celtics de 86 e o Lakers de 87 num tópico do Facebook, muita gente só conhecia os times por terem Bird e Magic Johnson, por exemplo, ninguém sabia o impacto que esses times tiveram e exatamente o quão bom eles eram. Quando eu joguei no twitter um video do Blazers de 77' (Um dos meus times favoritos), alguém me perguntou porque ninguém falava desse time sendo que ele era tão espetacular de assistir - e quase ninguém sabia que esse time sequer tinha existido no twitter. As pessoas lembram de Wilt Chamberlein pelos seus 100 pontos e de Jerry West por ser o Logo da NBA, mas é só. Jogadores como Bill Walton, Earl Monroe, Dennis Johnson ou Bob Cousy, que não tem grandes números para sustentá-los, acabaram sendo esquecidos. Jogadores cujos números não mediam o tamanho do seu impacto no jogo, como Bird, Magic, Bill Russell e Walton acabaram historicamente prejudicados - nós sabemos que eram bons porque todo mundo fala que eram bons, mas quanto? (E sim, Tim Duncan será o próximo). E jogadores como Wilt, Karl Malone e Patrick Ewing, que tem números que saltam aos olhos, acabaram tendo seus defeitos "escondidos", o que se lembra deles em primeiro lugar são suas vantagens porque elas são captadas por algo palpável.

Claro, não é difícil entender porque isso acontece, especialmente com jogadores mais antigos. Conforme o tempo passa, as memórias vão se apagando, os vídeos vão ficando mais raros e difíceis de serem encontrados (menos agora que temos Youtube, mas enfim), testemunhas oculares vão envelhecendo... E tudo o que sobra desses jogadores são alguns poucos relatos e diversos dados - pontos, rebotes, assistências, títulos, MVPs, All-Star Games, All-NBA e All-Defenses Teams, etc. E quando não temos mais nos que nos basear, acabamos recorrendo a isso para formar nossas opiniōes. Isso não tem tanto problema em um esporte como baseball, que pode ser quase totalmente medido por estatísticas, mas basquete é um esporte extremamente mais difícil e subjetivo, e as estatísticas simplesmente não conseguem captar todo o impacto de um jogador. Daqui a 30 anos, um fã de basquete vai entrar no basketball-reference.com, ver as páginas de Karl Malone e Tim Duncan, comparar os números, e chegar à conclusão de que Malone foi melhor do que Duncan. E ele estará errado. 

Porque isso importa tanto? Eu não sei. Talvez não importe. Não pra vocês. Mas pra mim importa, e muito. Como alguém apaixonado por esportes, digo que tem coisas que não deveriam ser esquecidas, e basquete é um que vai muito além de números (como eu já disse), depende de observação, relatos históricos e tudo mais. E já que ir atrás de tudo isso é um uber-trabalho, a ideia aqui é facilitar o trabalho de vocês e entregar tudo já mastigado. Não faço isso por pensar que atualmente não temos times tão bons como antigamente (isso é verdade, aliás, mas já digo porque - e não tem nada a ver com talento) e por isso a NBA hoje é mais chata, digo porque tem coisas que deveriam viver. Assim como vou falar aos meus filhos que vi Kobe e Lebron, todo mundo que gosta de basquete deveria saber de como eram bons Bird, Magic e companhia. Não melhores ou piores, mas todos fazendo parte da mesma historia, a história da NBA.

E enquanto eu conversava disso com alguns seguidores no twitter sobre o assunto, o leitor Andre Stabile deu uma sugestão que eu achei excelente: Porque não fazer uma série de posts falando sobre os times históricos do NBA 2K12, um jogo que quase todo mundo comece e/ou já jogou? A galera conhece os times, eu só terei o trabalho de colocar cada um em seu contexto histórico e mostrar o que cada um significou pra Liga e pra Franquia em si. Achei a ideia excelente, e decidi colocar em prática.

Pra quem não sabe, a 2K pegou 15 estrelas aposentadas da NBA e colocou um jogo especial para cada um desses jogadores. Esses jogadores e seus times foram:

Michael Jordan (Chicago Bulls, 1993)
Magic Johnson (Los Angeles Lakers, 1991)
Larry Bird (Boston Celtics, 1986)
Kareem Abdul-Jabaar (Los Angeles Lakers, 1987)
Bill Russell (Boston Celtics, 1965)
Wilt Chamberlein (Los Angeles Lakers, 1972)
Jerry West (Los Angeles Lakers, 1971)
Oscar Robertson (Milwaukee Bucks, 1971)
Hakeem Olajuwon (Houston Rockets, 1994)
Isiah Thomas (Detroit Pistons, 1989)
Scottie Pippen (Chicago Bulls, 1996)
Julius Erving (Philadelphia 76ers, 1985)
Karl Malone (Utah Jazz, 1998)
John Stockton (Utah Jazz, 1998)
Patrick Ewing (New York Knicks, 1994)

O critério da 2K não foi pegar os 15 melhores jogadores da história ou algo assim, e sim pegar jogadores conhecidos do povo, que tiveram uma importância especial, um estilo de jogo interessante e/ou divertido, ou simplesmente os mais bolados. Por exemplo, Moses Malone foi um jogador melhor do que boa parte dessa lista, mas ele e Erving jogaram juntos nos 76ers e Erving sempre foi um jogador mais marketable e mais conhecido do publido, com um estilo de jogo mais empolgante, então colocaram Erving como a estrela e o time com os dois, simples assim. Entre os que ficaram de fora, destaco Elgin Baylor, o primeiro ala high-flying da NBA (Já tem West e Wilt daquele Lakers, ok, mas não podia ter colocado Wilt no Sixers de 67 - no auge dos seus poderes - e mais um Lakers com Baylor? E aliás, é ele na foto do começo do post), Charles Barkley (Um dos jogadores mais carismáticos da história da NBA) e Bill Walton (ficou saudável durante apenas 2 anos e meios... Mas nesses dois anos e meio, foi transcendental e ancorou um dos times mais espetaculares da história da Liga). Entre os principais times deixados de fora, destaco Sixers 67', Knicks 70', Blazers 77', Sixers 83' (segure essa até falarmos do Erving), Lakers de 2001 (segure mais quatro linhas)... E enquanto estamos falando disso, é um absurdo o Rockets de 94 ser o time do Hakeem quando o de 95 era bem melhor.

(Vale lembrar, três jogadores provavelmente estariam na lista caso já tivessem aposentados: Kobe, Duncan e Shaq, que ainda não tinha aposentado quando o jogo foi feito. Shaq provavelmente seria o Lakers de 2001, o melhor time pós-Jordan; Duncan teve seu auge em 2003, mas seu melhor time em 2007; e Kobe provavelmente ficaria com o Lakers de 2010, a não ser que o Shaq deixe o Lakers de 01 vago. Btw, tem 96% de chance do Lebron ser adicionado a essa lista em alguns anos).

Esses, portanto, serão os times a serem analisados aqui. E como eu disse, vale a pena, porque eram times como não vemos mais hoje em dia. Não, não se preocupem, eu não sou daqueles nostalgicos que ficam com frescura por "Mimimi, antigamente era tão bom, hoje a NBA não tem a mesma graça porque não temos mais jogadores como Magic, Bird e Jordan!". Essa minha afirmação nada tem a ver com o talento existente na NBA. Mas o fato é que os times hoje são piores que os de antigamente por dois motivos: Expansão, e crescimento dos salários. Imagine se a NBA eliminasse 8 times e distribuisse seus jogadores pelos demais times. Imagine agora também que os salários caíram drasticamente, o que permite que os times acomodem mais jogadores de alto nível nas suas folhas salariais. Bom, essa era a NBA nos anos 80, por exemplo. A expansão nos anos 90 diluiu em muito o talento na Liga, os times passaram a acomodar menos jogadores de alto nível, as rotaçōes pararam de ser tão profundas. Hoje, é muito difícil pra um time ter muitas estrelas ou jogadores de alto nível na rotação, mas sumindo com oito franquias e diminuindo os salários, você vai dizer que o nível dos times ficaria melhor, a Liga ficaria mais competitiva e os melhores times ficariam ainda melhores? É claro que sim!!

Um exemplo pra ilustrar. Em 1986, o Celtics tinha um time montado da seguinte maneira: Larry Bird, Kevin McHale, Robert PArish, Dennis Johnson, Danny Ainge, Bill Walton, Scott Wedman, Jerry Sichting, Sam Vincent, Greg Kite. Imagine se isso seria possível hoje em dia. Com mais times, muito dificilmente o Celtics teria ficado com Bird, McHale E Parish, muito menos DJ. Provavelmente dois deles teriam saidos, seja pros novos times ou seja pra times já existentes mas que teriam "perdido" outros jogadores pra essas franquias. A chance do Celtics ter tido um time titular com tantos craques era quase zero, e nem de longe o Celtics teria uma rotação com Walton, Wedman e Sichting quando Wedman, em uma Liga mais diluida, provavelmente teria recebido uma oferta de 10M do Kings ou algo que o valha. Alem disso, com os salários de hoje e o teto salarial, qual a chance desse time manter todo esse núcleo junto? Em seu excelente livro The Book of Basketball, Bill Simmons faz uma estimativa conservadora do teto salarial que esse time teria em 2010... E a conclusão era que a folha salarial seria de 90M, muito acima do teto. O time teria que trocar McHale e/ou Parish pra conseguir abaixar a folha salarial, provavelmente perderia jogadores como Wedman e Ainge na Free Agency por estar acima do teto, e era em capaz de ter que trocar DJ com uma escolha de primeira rodada pra terminar de livrar o salário. O time nunca teria sido capaz de trocar por Bill Walton se não se livrasse do contrato monstro de Cedric Maxwell (Trocado pouco antes), e como ele seria abusivo, algum jogador teria que ir junto para aceitarem. Qual a chance de vermos um time tão bom assim em quantidade de jogadores de elite e profundidade na Liga de hoje, com salarios inflados e 30 times? Zero (Igualmente, qual a chance do Lakers ter Kareem, Magic, James Worthy, Mychael Thompson e Michael Cooper ao mesmo tempo em um time? Zero. Ou menos). Então sim, infelizmente, os times naquela época tinham duas coisas trabalhando a seu favor que nenhum outro time tem hoje, e por isso os times de hoje não conseguem mais manter seus núcleos juntos por muito tempo e uma rotação tão profunda. 

Então é assim que vai funcionar, vou postar sobre os 15 times presentes no NBA 2K12 em alguma ordem, provavelmente dois de cada vez, que se relacionem de alguma maneira. Ainda não decidi se vou seguir uma certa cronologia ou não, mas aceito sugestōes sobre o assunto. Não garanto que a série será continua - a ideia é que seja, mas talvez tenha que interromper pra falar da temporada da NFL, mas logo retomamos. E se o pessoal gostar do Especial e quiser, faço mais posts do tipo extrapolando o NBA 2k12 pra incluir outros times históricos que eu achei interessantes pra voces conhecerem e que marcaram seu nome na história da NBA. Então começa semana que vem, e uma eventual continuação fica nas mãos de vocês. Espero que gostem e aproveitem pra conhecer mais sobre o passado da Liga.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Baseball e as estatísticas

Vamos dar um passeio pelo livro que começou a mudar a história do baseball


Pra quem não sabe, fizemos algum tempo um post aqui no blog chamado "As regras do Baseball". A ideia era simples: Apresentar não só as regras de um jogo de baseball, mas também o funcionamento de uma partida, para que alguém que nada conhecesse do esporte pudesse assistir a uma partida e pelo menos entender o que estava acontecendo. Entender o que era marcado e o papel de cada jogada ou jogador em campo. E, pra mim, o post cumpriu essa finalidade.

No entanto, como eu sempre digo, baseball as vezes pode ser um pouco chato de assistir, especialmente um jogo inteiro. Mas ele tem uma grande vantagem: Ele pode ser medido, mais eficientemente do que qualquer outro esporte, em estatísticas. O baseball, de certa forma, é um esporte individual disfarçado de esporte coletivo, e tem as estatísticas capazes de medir com uma precisão absurda tudo que acontece num campo de baseball. Se você me mostrar as estatísticas de um jogo de NBA, é possível ter uma boa noção de como esse jogador joga... Mas isso não diz tudo. Tem muita coisa que eu preciso assistir pra poder entender, porque cada jogador afeta a partida de formas que nenhum número capta. Se for uma estatística de futebol americano, me diz ainda menos - sabia por exemplo que 50% dos Quarterbacks que passam de 300 jardas perdem o jogo? Mas no baseball não, se eu souber olhar os números corretos, eu sei interpretar de forma muito eficiente praticamente todas as formas como um jogador afetou o jogo e no que ele é capaz de colaborar para um time.

Um dos motivos disso acontecer é que a temporada regular da MLB é absurdamente grande (162 jogos), e portanto a amostra dos dados também é absurdamente grande, nos dando assim dados amostrais com variância muito menor. Hmm, não entendeu? Ok, deixa eu elaborar. Por exemplo, Ted Williams uma vez teve uma temporada com .420 de aproveitamento no bastão (42,0%, pros leigos), e ninguém chegou perto disso desde então (foi lá por 1942). Mas em uma série de 7 jogos de playoffs, já tivemos jogadores rebatendo coisas como .667 (66,7%). Porque? Porque esse ritmo que está muito acima do normal pode ser mantido por 7 jogos, mas nunca por 162. Com um numero enorme de jogos, as estatísticas tendem a regredir para sua média verdadeira. E mesmo assim, as estatísticas do baseball são tão boas (e o esporte tão propício a isso) que são capazes até de medir quando uma estatística está fora do seu número "correto", ou quando um jogador deve sofrer uma "regressão" em determinada categoria. Isso vai fazer 257% mais sentido quando chegarmos na parte de estatísticas dos arremessadores.

Então o objetivo desse post é continuar de onde paramos no antigo: Se antes ensinamos a acompanhar o jogo, como ele funciona e o que acontece dentro de campo, agora vou mostrar um pouco das estatísticas usadas no baseball, o que significa cada uma e como interpretá-las (e também como essa avaliação mudou ao longo dos anos, mas sem aprofundar demais pra não ficar chato). Dividi essas estatísticas em quatro tipos, dependendo do que elas são usadas para medir: Ataque, defesa, arremesso e geral. Isso vai fazer sentido em alguns parágrafos. (By the way, estou considerando que se você está lendo esse post, então você conhece o básico do jogo de baseball, como Home Runs, Walks, Strikeouts e tudo mais - o que pode ser alcançado lendo o post linkado lá em cima. Algumas explicaçōes adicionais serão dadas ao longo do post).

Ah sim, eu acrescentei uma pequena seção antes disso para explicar um pouco da história das estatísticas avançadas - chamada Sabermetrics - e sua aplicação na MLB. Se não tiver interesse, pode pular pra seção de Estatísticas de Ataque direto que não tem problema.


Moneyball e as estatísticas avançadas

Quem já viu o filme (ou melhor ainda, leu o livro) Moneyball - um dos meus favoritos - sabe que, até o Oakland Athletics do GM Billy Beane começar a usar estatísticas e números para avaliar o verdadeiro valor dos jogadores para o time (e usar isso para descobrir quais eram os atributos que mais contribuiam para a vitória e que eram menos valorizados pelo mercado, o segredo do time para montar equipes competitivos com o segundo time mais pobre da Liga em uma MLB sem teto salarial mesmo perdendo seus melhores jogadores quase todo ano para times que pagavam mais) lá pelo ano 2000, a avaliação de jogadores - seja pra Draft, seja para negociar salários, seja para trocas/contrataçōes, whatever - ainda era extremamente primiva. Essa avaliação era baseada nas mesmas estatísticas usadas desde 1900 (A velha historia do "Sempre foi feito asim!") e com base no "conhecimento empírico" dos envolvidos, um conceito bem arrogante dos GMs, olheiros, técnicos e afins mais influentes na Liga, em geral ex-jogadores ou pessoas criadas nos meios do baseball. Eles simplesmente "sabiam" por causa dos seus "conhecimentos do esporte" e "experiência". Depois perguntam porque o baseball sempre foi o esporte com mais busts...

Mas o engraçado é, as estatísticas (mais elaboradas, muitas vezes com sua importância determinada a partir de regressōes econométricas) usadas como forma predominante de avaliar jogadores e o jogo em si já existiam desde o final de 1970, quando o agora lendário Bill James - um cidadão comum que simplesmente gostava de basquete - começou a compilar estatísticas e interpretá-las a cada temporada, evoluindo cada vez mais nas estatísticas e análises, muitas vezes se beneficiando do crescente poder tecnológico à sua disposição (Vocês vão entender quando chegarmos no UZR). E isso acabou virando uma grande tendência... Entre os fãs! Essas novas estatísticas e interpretaçōes foram amplamente adotadas por - wait for it... - jogadores de fantasy (!) e entusiastas ao redor do país, amplamente discutidas... Mas os dinossauros que compunham a cartolagem da MLB continuavam ignorando essas tendências como "subversivas" ou "não se comparam à experiência de anos de prática", ou até mesmo a minha favorita, "os números tentam destruir a pureza do jogo". Enquanto eles continuavam usando os metodos primitivos para avaliar jogadores de forma menos eficiente do que os fãs, o GM do pobre Athletics decidiu aplicar isso para construir seu time que não tinha direito.

Se funcionou? Bem, o segundo time mais pobre da Liga (e segundo menor folha salarial) teve o melhor record da temporada regular por três anos consecutivos, o Red Sox foi campeão em 2004 após adotar o mesmo modelo, e desde então todos o adotam. Eu diria que sim, e por isso eu estou fazendo esse post.


Estatísticas de ataque
Principais estatísticas: OBP, SLG%, OPS, OPS+, wRC+

Antes de surgir o Moneyball e revolucionar como olhamos pras estatísticas que medem a produtividade dos jogadores no bastão, apenas três estatísticas eram observadas de verdade: Média de rebatidas (Identificada por Avg.), Home Runs (HRs) e corridas impulsionadas (RBIs).

(Um pouco de paciência aqui, vou dar umas voltas pra chegar nas estatísticas novas a partir das velhas, pra poder explicar de forma mais intuitiva pra quem não conhece tanto o esporte. Se tiverem sem paciência, sigam os negritos. A partir da próxima seção vou acelerar um pouco mais)

Essas três estatísticas são na verdade bem simples. Avg. é uma estatística que era usada para medir o aproveitamento de um jogador como rebatedor. Ou seja, você pega o número total de rebatidas de um jogador, e divide isso pelo total de vezes que ele foi ao bastão e ou tentou a rebatida ou foi eliminado por três strikes (o chamado Strikeout). Essa medida leva em consideração apenas as vezes que o rebatedor foi ao bastão e teria acontecido uma chance de rebatida, descartando portanto quando o jogador chega em base por um Walk, considerado uma falta do arremessador, e nesse caso o rebatedor não teria tido a "chance" de rebater. Então se eu rebato 100 bolas e em 30 delas eu consigo chegar em base sem um erro dos adversários (já vamos explicar na proxima seção os erros), seja uma rebatida simples, dupla, tripla, Home Run, o que quer que seja, então meu Avg. é .300, ou 30%.

O Home Run é mais simples, é o número de vezes que você rebateu um HR e ponto. Essa estatística era usada pelos times pra medir a força de um jogadores, já que o Home Run é a rebatida de mais "força" de um jogo, que anota mais corridas e que gera mais bases ao rebatedor (quatro).

Por fim, o RBI é a estatística mais estúpida da história do baseball. Basicamente, ele mede quantas vezes um dado rebatedor, ao rebater, fez uma corrida ser anotada. Por exemplo, um jogador vai ao bastão e tem um companheiro na segunda base. Esse rebatedor da uma rebatida simples, e o seu companheiro consegue correr até o home plate e anotar uma corrida. Assim o rebatedor ganha um RBI, pois sua rebatida fez uma corrida ser anotada. Se esse rebatedor conseguisse um Home Run, por exemplo, ele ganha dois RBIs: Um pela corrida anotada pelo companheiro em base, e outra pela corrida que ele anotou ele mesmo, ambas por causa da sua rebatida. Acho que eu não preciso explicar porque essa estatística realmente não diz nada, certo? Ela depende demais da produção dos seus companheiros! Se dois jogadores que joga em times diferentes e rebatem na mesma posição do lineup tem exatamente os mesmos números, um deles podem ter o dobro de RBIs do outro simplesmente porque seus companheiros chegam muito em base e portanto as rebatidas desse jogador impulsionarão mais corridas do que a do outro. Mas isso de forma alguma reflete a produção de um jogador individual, embora fosse usada como uma medida de produtividade. Eu digo que as estatísticas antigas eram estúpidas, mas enfim...

Bem, acontecem que o peso enorme que se dava para Avg. e HRs não refletia, de forma alguma, o quanto um jogador contribui para a vitória de um time.

Concentrando primeiro na questão do aproveitamento dos jogadores, os estatisticos começaram a fazer regressōes envolvendo diversos aspectos do jogo e chegaram a uma simples conclusão: Que no ataque, o mais importante era evitar ter jogadores eliminados. Isso faz todo o sentido do mundo. Baseball não é um esporte medido por tempo, como basquete ou futebol, e sim por eliminaçōes. Um jogo acaba quando um dos times tem 27 eliminados (3 a cada uma das 9 entradas, tirando prorrogaçōes e afins), e portanto evitando eliminaçōes, você mantém seu time no jogo por mais tempo para anotar mais corridas.

Considere agora o seguinte cenário: Dois jogadores, A e B, que foram ao bastão 100 vezes. Jogador A rebateu todas essas bolas, e 30 delas viraram rebatidas. Jogador B rebateu 80 delas bolas e conseguiu 20 rebatidas válidas, mas nas outras 20 vezes que foi ao bastão ele trabalhou a contagem, evitou a eliminação, não rebateu bolas ruins, e conseguiu vinte Walks. Portanto, o jogador B foi eliminado menos vezes e chegou mais em base, sendo assim mais útil para seu time. Mas os números nos indicariam que jogador A teve .300 de aproveitamento e o jogador B teve .250 (lembrando que, para Avg., Walks não são computados como idas ao bastão), e portanto seria concluido - erroneamente - que o jogador A foi um rebatedor mais eficiente que o jogador B. E isso estaria errado, porque o jogador A foi eliminado 70 vezes e o jogador B foi eliminado apenas 60.

E aí ficou claro que a estatística de Avg., ainda que mostrasse como um jogador era capaz de conseguir rebatidas, isso não era exatamente a melhor coisa para o time. Para um time vencer, era muito mais importante o quanto o jogador chegava em base - e portanto evitava eliminaçōes. Por isso, uma nova estatística começou a aparecer como uma medida mais eficiente do que a antiga Avg., a chamada On Base Percentage (OBP), que mede exatamente isso: De todas as vezes que um jogador subiu ao bastão, em quantas ele chegou em base, seja por rebatida ou por walk. Usando o exemplo anterior, o jogador A teria um OBP de .300, enquanto o jogador B teria um OBP de .400. Então os números me diriam algo diferente: O jogador A era melhor conseguindo rebatidas, mas o jogador B era mais eficiente no bastão porque sabia chegar em base e evitar eliminaçōes. OBP, portanto, é um indicador melhor de eficiência no bastão do que Avg.

Mas tem uma outra coisa a ser levada em conta, que é a força dos jogadores. Se dois jogadores conseguem 10 rebatidas em 30 tentativas, só que um deles rebate 10 Home Runs e o outro 10 rebatidas simples, ambos teriam o mesmo aproveitamento e o mesmo OBP, mas o primeiro teria sido um jogador muito mais importante pro seu time. Por isso Home Runs é uma boa medida de força, certo?

Hmm, não. Imagine o seguinte cenário: Jogadores A e B, cada um foi ao bastão 150 vezes e teve 50 rebatidas. O jogador A acertou 10 Home Runs, e o jogador B acertou 5 HRs e mais 20 rebatidas duplas. Ambos teriam o mesmo aproveitamento e o OBP, mas o jogador A teve mais Home Runs... Mas será que sua força ao rebater 10 HRs foi mais útil do que a força do jogador B, que rebateu apenas 5 Home Runs mas teve outras 20 rebatidas duplas? Por isso foi criada uma medida chamada Slugging Percentagem (SLG%), que é calculada como o Avg, mas com uma diferença: Ao invés de dividirmos o número de rebatidas pelo número de at bats, dividimos o número de bases que esse jogador conseguiu com suas rebatidas. Portanto cada rebatida simples ganha 1 base, rebatidas duplas ganham 2 bases, triplas 3 bases, e Home Runs ganham quatro bases. Essa estatística serve pra mostrar a habilidade do jogador para rebater pra ganhar bases (portanto não faz sentido incluir walks), e no nosso exemplo, teriamos que o jogador A ganhou 80 bases em 150 rebatidas (.533) e o jogador B ganhou 85 para um SLG% de .567. Portanto, o jogador B rebateu por força melhor que o jogador A, apesar de ter tido menos Home Runs.

Agora temos duas medidas eficientes pra medir o valor de um jogador no bastão: OBP pra medir a capacidade do jogador pra chegar em base e evitar eliminaçōes, e SLG% pra medir a produção de bases extras desse jogador. Como podemos combinar, portanto, essas duas coisas em uma só? Somando as duas, é claro! Surgiu assim a chamada On Base Plus Slugging (OPS) que é simplesmente a soma da OBP com a SLG% de um jogador. Portanto se um jogador tem um OBP de .350 e um SLG de .550, seu OPS será um bom .900. Essa medida tem falhas (ja vamos chegar nelas), mas é uma medida simples, fácil e eficiente de medir como o jogador é capaz de conseguir as duas coisas mais importantes pra um ataque: Chegar em base, e conseguir rebatidas extras.

Também temos o On Base Plus Slugging Ajustado (OPS+), cujo cálculo é muito difícil pra explicar em detalhes, mas que corrige os três últimos problemas do OPS simples: Os jogadores rebatem em campos com dimensōes diferentes, e portanto isso influenciar (e influencia bastante) os números de um jogador (quem rebate em um campo menor tem maior facilidade em rebater Home Runs, por exemplo) na hora de conseguir rebatidas; .100 em SLG% e .100 em OBP não significam a mesma coisa para um ataque em termos de contribuição, mas no OPS elas são tratadas com o mesmo peso (estudos mostram que OBP tem um peso entre 2 e 3 vezes maior do que SLG%. Vale citar também, porém, que o máximo que pode se ter em OBP é 1.000 - chega em base a cada vez que vai ao bastão - mas o máximo que se pode ter em SLG% é 4.000, conseguindo quatro bases - ou HRs - cada vez que rebater); e por fim, a dificuldade de usar OPS para comparar jogadores de diferentes eras, principalmente por causas nas diferenças no jogo (e sim, especialmente a era dos esteroides). Portanto, OPS+ usa o OPS normal, msa com pesos diferentes para SLG% e OBP e com um termo de ajuste para estádio e para o resto da Liga naquela temporada. É uma fórmula mais complicada, mas mais precisa que OPS, pra medir o valor individual de um jogador como rebatedor.

Por fim, foi criada uma estatística chamada Weighted Runs Created Ajustada (wRC+). Essa estatística é uma forma de aperfeiçoar o OPS+, mas utiliza os mesmos princípios: ela considera os dois fatores mais importantes de um rebatedor, capacidade de chegar em base e de conseguir rebatidas extras, combina esses dois fatores, e ajusta para todo tipo de fator externo (como estádio, por exemplo). Para finalizar, a estatística ainda é ajustada com base no resto da liga, tendo o mesmo efeito do OPS+ para comparar diferentes eras, se tornando assim um indicador sobre quantas corridas um jogador gerou com seu bastão relativo ao "médio" na liga. Então sendo 100 a "média" de qualquer normalização, se um jogador termina a temporada com wRC+ de 150, isso significa que ajustando para o estádio no qual jogou metade de seus jogos, ele gerou 50% a mais de corridas do que um jogador médio na liga. Da mesma forma, se ele teve um wRC+ de 80, ele foi 20% menos produtivo no bastão do que um jogador comum. É a forma mais condensada e avançada para medir, em um vácuo, a produção no bastão de um jogador em comparação com o resto da MLB.


Estatísticas de defesa
Principal estatística: UZR

Se você acha que as estatísticas usadas antigamente (ou nem tão antigamente por GMs) pra medir a eficiência ofensiva dos jogadores era primitiva, esperem até ver essa aqui. Ate Bill James, a única estatística defensiva que existia eram os chamados Erros.

Muito simplesmente, um Erro é quando um jogador comete algum erro que resulta em uma vantagem para o adversário, seja um jogador que deveria ser eliminado e não foi, um errou de lançamento que resultou em uma base extra para um jogador, etc. Por exemplo, se eu rebato a bola para o Shortstop de forma que ele possa me eliminar antes de chegar na primeira base, mas o shortstop fura a bola e eu consigo chegar em base, ele cometeu um erro (e isso não conta como rebatida válida para mim). Se eu consigo uma rebatida simples, mas na hora de jogar a bola de volta o RF lança a bola longe e eu consigo correr até a segunda base (o que eu não conseguiria se ele não errasse o arremesso), conta como uma rebatida simples pra mim e um erro do RF. E por ai vai.

Ok, por onde eu começo a falar dos problemas dessa estatística?? Primeiro, ela é extremamente subjetiva, quem determina o que "deveria" ter acontecido é o juiz da mesa, e ele que vai portanto interpretar se a jogada foi um erro, merito do rebatedor, e por ai vai. Duas pessoas podem interpretar diferente o mesmo lance, e por ai vai. Mas segundo e muito mais importante, ela é extremamente limitada! Se você cometeu um erro, é porque estava na bola no primeiro lugar, então você tem algum mérito por isso. Eu posso ter feito uma excelente jogada, lido perfeitamente a rebatida, me movimentado numa velocidade sobre humana pra chegar numa bola... Só que na hora que eu pulei pra pegar a bola e fazer a eliminação, a bola bateu na minha luva e caiu, e o juiz me deu um erro. Isso é extremamente injusto, pois com qualquer defensor da Liga alem de mim teria sido uma rebatida simples, mas por causa da minha habilidade superior, eu consegui chegar na bola... E fui penalizado por isso. Antigamente, os erros eram somados e quem cometia menos era o melhor defensor, mas imagine a seguinte situação: Numa temporada, dois RFs terminam com zero erros. Só que um deles é extremamente rapido, inteligente, chega em mais bolas do que nenhum outro jogador chega... E o outro é um gordão, lento e preguiçoso, que não comete erros simplesmente porque nunca chega em nenhuma bola por conta da sua falta de habilidade. Como você diferencia entre os dois? Como é possível saber, sem assistir a um jogo, qual o melhor defensor? Será que um jogador com mais erros as vezes não é um defensor melhor, e comete erros porque faz mais jogadas?

Por isso foi criado o Ultimate Zone Rating (UZR), a minha segunda estatística preferida depois de WAR, uma daquelas estatísticas que é extremamente difícil de calcular, mas extremamente precisa e extremamente fácil de entender. Para calcular o UZR, você divide o campo em 64 zonas e computa onde cada bola rebatida foi cair, com que velocidade e com que inclinação. E dai, a cada jogada que envolve um jogador defensivo, usasse essa base de dados pra ver qual foi o resultado da jogada envolvendo esse jogador em relação a todas as outras jogadas defensivas que envolveram essa bola sendo rebatida dessa forma para o mesmo lugar, e ve como essa jogada defensiva - em relação ao "normal" desse tipo de jogada - afetou as chances do adversário de anotar uma corrida.

Um exemplo pra ilustrar: Imagine que o primeiro rebatedor de um jogo sobe ao bastão. Nessa situação (nenhum eliminado, bases vazias), um time marca em média cerca de 0,5 corridas (não tenho o número exato aqui). Agora o primeiro rebatedor rebate a bola para o campo direito, com velocidade/ângulo e para um certo lugar onde, 95% das jogadas, ele é eliminado. No entanto, o RF estava desatento e saiu atrasado, permitindo que a bola passasse por ele para uma rebatida dupla. Nesse caso, o UZR computa para o RF a diferença entre o que aconteceu nos casos casos computados anteriormente (uma média ponderada entre todas as situaçōes, mas na grande maioria dos casos seria um eliminado e nenhum em base, e nessa situação um time anota em média 0,35 corridas) e o que aconteceu de fato (uma rebatida dupla - nessa nova situação, nenhum eliminado e um homem na segunda base, um time anota em média 1,2 corridas). Nesse caso, portanto, o jogador sairá da jogada com um UZR igual a 0,35 - 1,2 = - 0,85. Em outras palavras, defensivamente, esse RF custou ao time (estatisticamente) 0,85 corridas em relação a um jogador "médio".

Portanto, o UZR é dificil de calcular, mas bem fácil de interpretar: Ele representa o número de corridas que a defesa daquele jogador impediu (estatisticamente!) em relação a um jogador médio da mesma posição. Quando eu digo que o melhor defensor da MLB em 2011 é o Brendan Ryan com um UZR de 15,2, isso significa que ter Ryan no seu time ao invés de um Shortstop "médio" evitou que fossem marcadas 15,2 corridas contra o Mariners. Quando eu digo que o Curtis Granderson é o pior CF defensivo da MLB com um UZR de -15,9, é fácil entender que sua defesa é tão ruim que substituindo-o defensivamente por um CF médio teria evitado quase 16 corridas contra o Yankees. E por ai vai. Facil de entender, muito preciso e muito útil - eu realmente adoro essa estatística.


Estatísticas de arremesso
Principais estatísticas: ERA, BABIP, FIP

Tradicionalmente, arremessadores sempre foram medidos por uma estatística muito útil chamado ERA (e antigamente, bons arremessadores só eram bons se tivessem bolas muito rápidas - mais uma estupidez dogmática que faz a gente entender porque a MLB era a Liga que pior aproveitava talento nos EUA).

O ERA - Earned Runs Average - pega todas as Earned Runs (Quando um pitcher está arremesando e cede uma corrida, é computado uma Earned Run  A NÃO SER QUE essa corrida pudesse ter sido evitada, em algum momento, mas não foi por causa de um Erro da defesa - seja esse erro pra ele chegar em base, pra eliminar um terceiro jogador que teria encerrado a entrada antes dessa corrida, e por ai vai. Se for o caso, é uma Unearned Run, e não conta no ERA) cedidas por um pitcher, divididas pelo número de entradas arremessadas, multiplicadas por 9. Em outras palavras, mede quantas corridas um arremessador cede a cada nove entradas (ou um jogo completo) arremessado, e é uma boa medida de avaliar a produção de um pitcher até um dado momento.

Mas o ERA tem uma limitação: Ele mede apenas o que aconteceu, mas não separa exatamente o que nisso foi graças ao arremessador ou aos demais fatores. Dois pitchers exatamente iguais, mas um jogando com uma excelente defesa e outro jogando com uma defesa ruim, provavelmente vão ter ERAs diferentes mesmo se jogarem igualmente bem, porque a quantidade de corridas cedidas por um time certamente será menor quanto melhor for a defesa, mesmo que a ruim não cometa Erros. E além disso, tem o fator sorte: O quanto ela influencia na produção de um arremessador? E se, ao longo de uma temporada, essa sorte normalmente "zera" (mas nem sempre), quando ela vai mudar e como isso influencia o arremessador (quem joga fantasy sabe do que eu falo)?

Essa última de "sorte" parece um pouco forçada, não é? Então volte comigo pro final dos anos 90, quando um cara chamado Voros McCracken - um fã de baseball que brincava com estatísticas nas horas vagas - concluiu que tinha apenas três fatores em um jogo de baseball que o arremessador controlava: Home Runs cedidos, Walks, e Strikeouts (quando um jogador é eliminado com três strikes). Em outras palavras, ele concluiu que, sobre as bolas que os rebatedores colocavam em jogo (Home Run tecnicamente não entra em jogo), os arremessadores não tinham nenhum controle.

Parece um absurdo, certo? Afinal, grandes arremessadores, com grandes arremessos, deveriam ser capazes de segurar os adversários a um aproveitamento menor uma vez que a bola é colocada em jogo. A comunidade da MLB achou um absurdo sem tamanho, e mesmo a comunidade das Sabermetrics achou algo ridículo, e o próprio Bill James começou a coletar dados pra mostrar que Voros estava errado. Mas ele não estava. E foi aí que surgiu a estatística chamada BABIP - Bating Average for Balls in Play (Ou aproveitamento das rebatidas pras bolas em jogo). Os estudos de Voros - futuramente comprovados pela comunidade estatística - mostram que o valor dessa estatística (a proporção das bolas colocadas em jogo que efetivamente viram rebatidas) tende a ser praticamente igual pra todos os pitchers, geralmente em torno dos .300 (pitchers cujo jogo depende mais de bolas que caem - bolas de curva, sinkers, splitters, knucleball, etc - tendem a ter um BABIP um pouco mais baixo, mas nao tanto).  Ainda que as vezes tenhamos alguns pitchers com uma temporada acima ou abaixo dessa média, nunca isso se manteve ao longo das demais temporadas. Portanto, o BABIP é bem simples de interpretar: Se um pitcher está com um BABIP muito fora da curva, é porque a sorte tem interferido bastante nesse tipo de jogada - seja acima (tendo azar) ou abaixo (tendo sorte) do nível normal, isso indica que dificilmente o pitcher vá continuar com esse tipo de atuação por muito tempo.

Adição rapida sobre BABIP: Alguns fatores podem afetar o BABIP de um pitcher, principalmente a composição das suas eliminaçōes (eliminaçōes pelo chao, pelo ar, etc), então alguns sites tem um BABIP "projetado"ou "normal" para o pitcher de acordo com essa composição. Essas variaçōes não são enormes, mas podem afetar de forma significante em alguns casos mais extremos, então em alguns casos vale ver o BABIP "projetado" pra um pitcher ao invés de usar o da Liga como referencia. Exemplo rapido - Em 2009, Andy Pettitte teve um BABIP de .297 e Joel Pineiro um BABIP de .295. No entanto, examinando os tipos de rebatidas que eles induziam, Pineiro foi o principal pitcher da Liga eliminando jogadores por bola rasteira - que tem maior chance de eliminação - de forma que era normal que ele tivesse um BABIP mais baixo, de forma que ele possivelmente teve azar no ano. PEttite, ao contrario, eliminou mais jogadores por lineuots - que tem menor chance de eliminação - e portanto seu BABIP deveria ter sido acima do normal, de forma que ele provavelmente teve sorte em 2009.

Mas o BABIP explica apenas a parte da sorte nas bolas em jogo que o arremessador tem. Isso não é a única coisa que influencia o ERA de um arremessador. A defesa da equipe, por exemplo, tem um papel importante nisso. Por isso foi criado o FIP - Fielding Independent Pitching - que mede exatamente o que o nome sugere, o seu ERA uma vez removidas as influências da defesa e demais fatores (inclusive sorte) focando exatamente nas três coisas que um pitcher é capaz de controlar: Strikeouts, Walks e Home Runs. A conta é complicada e alguns centros ainda divergem no melhor método pra calcular o FIP, mas a interpretação é simples: Quanto seria, aproximadamente, o ERA de um pitcher levando em conta APENAS a sua performance individual, e não fatores como sorte ou defesa. Portanto se um pitcher está com um ERA de 3.30, você pode olhar e pensar "nossa, esse cara ta destruindo!"... Mas ai você ve que ele também está com um BABIP de .270 e um FIP de 4.4, e percebe que não é exatamente assim, e que ele tem tido uma boa ajuda tanto da sua defesa como da sorte e demais fatores que ele não controla, e provavelmente vai sofrer uma regressão conforme a temporada avança pois esses fatores tendem a nivelar. Da mesma forma, um pitcher com um ERA de 3.8 mas com um BABIP de .300 e um FIP de 3.7 tem um mérito individual muito maior que o outro, mas não tem sido tão ajudado.

Tangente rápida/curiosidade: Como voces devem ter percebido, isso é extremamente util quando se está jogando fantasy. Ano passado, Josh Beckett estava com um ERA de 2.10 e vindo de três one-hitters consecutivos lá pelo meio da temporada e meu amigo aproveitou isso pra pular pra primeiro na nossa Liga de fantasy baseball. Eu imediatamente liguei pra ele e avisei "Cara, troque Beckett agora pela melhor oferta que voce tiver (Albert Pujols e algum pitcher que eu não lembro) antes que ele mude de ideia!". Ele achou que eu estava louco ou zuando com a cara dele, mas eu tinha meus motivos: Beckett estava com um BABIP de .220 e um FIP de 3.1 praticamente gritando "REGRESSÃO!" na minha cara, enquanto que Pujols voltava de lesão devagar mas tava com um BABIP - não confiem em BABIP pra rebatedores a não ser em casos muito extremos, btw - abaixo de .200. e o pitcher que vinha junto na troca tinha um FIP respeitavel. Ele fez a troca, Beckett regrediu e não voltou a arremessar naquele nível, Pujols pegou fogo, e meu amigo ganhou a Liga de fantasy. A lição, como sempre: As vezes fãs realmente sabem mais que GMs, até em times de fantasy.


Estatísticas gerais
Principais estatísticas: VORP, WAR

Ok, estamos quase acabando. Agora que temos estatísticas eficientes para medir a produtividade e eficiência de jogadores em termos de arremessos, rebatidas e defesa, ta na hora de juntar tudo isso em uma só medida para a produtividade geral de um jogador num campo de baseball. E pra isso temos duas estatísticas principais, VORP e WAR.

Embora eu não seja muito fã de Value Over Replacement Player (VORP), algo como valor acima de um jogador substituto, por não levar em conta defesa, eu decidi colocar ela aqui por um simples motivo: Ela é precisa e é extremamente fácil de entender. Ela basicamente mede a capacidade de um jogador de produzir corridas (ou, no caso dos arremessadores, evitá-las) acima do que produziria um jogador de Replacement Level (Algo como "Nível de substituição"), que geralmente é definido como sendo entre 70 e 85% de um jogador médio daquela posição, com a porcentagem dependendo da posição. Portanto, se eu te digo que o VORP do Jose Bautista ano passado foi de 77, quer dizer que ele produziu 77 corridas a mais para o seu time no ataque (Rebatendo, chegando em base, correndo nas bases, tudo) do que um RF um pouco abaixo da média (no caso dos pitchers, o contrário, evitou X corridas a mais do que um arremessador assim). Simples, direto, leva em conta quase todos os aspectos relevantes (tirando defesa) como roubos de base, velocidade nas bases, jogos perdidos, etc e é bem fácil de entender, bom pra comparar jogadores... Pena que seja dificílimo calcular. Mas tudo bem, tem sites que calculam pra gente.

Então ok, VORP é uma boa estatística pra comparar jogadores. Mas mesmo assim, nao ganha de WAR - Wins Above Replacement. Outra estatística difícil de calcular, mas que pega o VORP e leva a um outro nível, incorporando defesa e qualquer outro aspecto presente no jogo de um determinado jogador e nos diz quantas vitórias um certo jogador da a um time sobre o famoso "Replacement Player". Ou seja, ele é mais preciso que o VORP porque o VORP é uma medida apenas ofensiva e o WAR mede todos os aspectos desse jogador e no que ele afeta o jogo, mas ao invés de nos dizer em corridas, nos diz em vitórias, mais fácil impossível. Portanto se ano passado Jose Bautista (8.3) foi o lider em WAR, isso quer dizer que se tirassemos ele do Jays e colocassemos no lugar um substituto um pouco abaixo da média da posição, o Jays teria 8.3 vitórias a menos, levando em conta ai também o quanto ele perdeu de jogos e tudo mais. E ela é minha favorita porque, se você pegar uma lista de WAR de uma temporada, vai ver que não necessariamente ela te da os melhores jogadores, mas te da os mais valiosos de uma forma as vezes sutil: Por exemplo, em 2009 o melhor WAR da Liga (8.6) foi do Ben Zobrist, acima dos MVPs Joe Mauer (8.1) e Albert Pujols (8.5). Apesar de Mauer e Pujols terem números ofensivos melhores, Zobrist (que também teve bons números ofensivos e um OBP quase ofensivo de .406) provavelmente foi mais valioso pra Tampa por dois motivos: Primeiro, ele não perdeu nenhum jogo na temporada inteira; e segundo, ele jogou em SETE posiçōes diferentes ao longo da temporada, passando a maior parte do tempo mudando entre 2B e RF... E teve um UZR positivo em todas elas, inclusive 15 e 10 em 2B e RF, respectivamente. Ele cobria qualquer buraco do time, e isso significava demais pra flexibilidade do time.

WAR tem apenas um pequeno problema: Como as duas Ligas possuem regras diferentes quanto ao DH, o WAR normaliza a AL e a NL de forma separada pra tirar essa diferença. O problema é que isso assume que o talento nos dois lados é aproximadamente igual... E quanto não é o caso e temos uma clara disparidade, fica um pouco difícil usar WAR pra comparar jogadores de diferentes Ligas - especialmente pitchers. Ainda assim, um problema pequeno pra uma estatística sensacional.


Resumo final

Ufa, ta acabando. Então vamos lá ver o que vimos hoje:

Principais estatísticas de ataque: OBP (Aproveitamento para chegar em base e evitar eliminaçōes), SLG% (Medida de força pra quantas bases um jogador consegue por rebatida), OPS (produtividade total no bastão), OPS+ (OPS ajustada por estádio, era e com pesos adequados) e wRC+ (medida condensada do valor de um jogador rebatendo, ajustado por era e estádio); são as medidas usadas pra verificar a produtividade de um jogador no bastão e como ele contribui assim para a equipe.

Principal estatística de defesa: UZR (Quantas corridas um jogador cede a menos defensivamente que um jogador "médio" na mesma situação) é usada pra medir a eficiência defensiva de um jogador.

Principais estatísticas de arremesso: ERA (Corridas cedidas por nove entradas), BABIP (Bolas em jogo que viram rebatidas) e FIP (ERA tirando tudo que não está no controle do arremessador); são usadas pra avaliar a produtividade real de um arremessador e o quanto ele tem sido ajudado por sorte e demais fatores além do seu controle.

Principais estatísticas gerais: VORP (Quantas corridas a mais - ou a menos - um jogador  - ou pitcher -gera para seu time em relação a um jogador de RL), WAR (Quantas vitórias um certo jogador te da acima de um jogador de RL); são usadas pra avaliar o valor total de um jogador a um determinado time.

Deu pra entender tudo? Espero que sim, porque deu um trabalho do cão. Foi mal se ficou muito longo, mas queria fazer o mais detalhado e intuitivo o possível pra quem está vendo isso pela primeira vez, e também pra servir caso alguém precise consultar os detalhes algum dia. Espero que tenham aproveitado e que se interessem mais agora por baseball e pelo que os números nos dizem. Até a próxima.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O verão de Nova York, parte II (Nets)

Essa quase foi a grande estrela do Brooklyn Nets


Ontem começamos a falar dos times de Nova York, com o Knicks. Hoje, continuamos falando do outro time de NY, o recém-mudado Brooklyn Nets.

Pra quem não lembra, o Nets amargou em 2010 uma das piores temporadas da história da NBA. O time (que nem era tão ruim assim!) ganhou apenas 12 jogos, teve de longe a pior campanha da Liga e por boa parte do ano correu o risco de bater o recorde de pior campanha da história da NBA, recorde do Philadelphia 76ers de 1973 (9-73) antes de engrenar uma boa sequência no final e deixar essa honra duvidosa para trás. No final do ano, pra piorar, ficou apenas com a terceira escolha do Draft de 2011 (Derrick Favors), vendo o Wizards sair com o grande prêmio daquele Draft (John Wall, 1st Overall).

Na temporada seguinte, o Nets fez de tudo pra se distanciar dessa temporada historicamente ruim. Novos uniformes, novas cores, estádio novo, um novo logo, e até um novo dono, o bilionário russo Mikhael Prohorov. E Prokhorov, quando assumiu o controle do time, anunciou seus planos de mudar a Franquia de New Jersey para o Brooklyn, onde estava sendo construída uma nova arena. A mudança supostamente ocorreria em 2012, ao final da temporada.

Claro, um bom plano: NY é um mercado maior, muito mais atenção da mídia e muito mais atraente para jogadores do que a fraca New Jersey (onde o time colecionou fracasso atrás de fracasso ao longo dos anos, vale lembrar). Era um local para o time se distanciar de seu passado, construir uma base de fãs numa das cidades mais obcecadas por esportes dos EUA, e aproveitar da visibilidade e do dinheiro que a cidade trazia pro time pra montar times competitivos.  Esse plano só tinha um problema: O Nets não podia fazer sua grande mudança rumo (ou pelo menos o que eles esperavam que fosse) a um novo futuro mais promissor na sua nova cidade com um elenco cujas estrelas eram Devin Harris, Brook Lopez e o pirralho extremamente cru Derrick Favors sem passar vergonha. Se você vai mudar para uma cidade que já tem um time de basquete, e pior, se esse é um dos times mais tradicionais e com a torcida mais fanática da NBA, você precisa ter um time que gere interesse, que seja competitivo e que atraia torcedores, senão iria virar o Clippers de New York. E Harris-Lopez-Favors definitivamente não é um núcleo interessante ou competitivo.

Por esse motivo, em 2011, o Nets aproveitou a moda lançada em 2010 de “Estrelas saindo dos times de mercado pequeno” para sair à caça de pelo menos uma grande estrela para tornar sua mudança para o Brooklyn mais interessante e atraente para os fãs. E a principal superestrela cujo contrato terminava no final do ano, não demonstrava interesse em reassinar o contrato com seu time de mercado pequeno e que estava forçando uma troca pro time não perder seu jogador de graça era o Carmelo Anthony, que fez um dos maiores corpo moles da NBA no Nuggets pra forçar essa troca (o famoso “Não é que eu não jogue sério, eu só não estou nem um pouco envolvido no que estou fazendo” que o Dwight Howard aperfeiçoou ano passado).  O Nets juntou os ativos que tinha - uma escolha de Draft (que com certeza seria alta) junto com Derrick Favors (cru mas com muito potencial) e Devin Harris - e ofereceu ao Nuggets pelo Melo, com o argumento de “Se não aceitar nossa troca, ele vai sair de qualquer jeito no final do ano e vocês não vão receber nada por ele” para conseguir a estrela que faria a mudança do time mais… Marketable.

Mas todo mundo sabe o que aconteceu: O Knicks atravessou o negócio e ficou com Melo em troca de Danilo Gallinari, Wilson Chandler, Ray Felton, Timofey Mozgov e uma escolha de Draft (com a promessa de que assinaria uma extensão contratual por lá), enquanto o Nets de novo se viu diante da possibilidade real de se mudar para o Brooklyn sem um bom time ou uma estrela. Mas ai o Nets juntou seu pacote anterior e ofereceu ao Jazz por Deron Williams, o excelente armador que ainda tinha mais um ano no contrato pra gastar, mas que tinha causado problemas o suficientes por lá pro Jazz não esperar pra trocar o jogador antes que ele saisse de Free Agent (reinventando o time do Jazz com a troca). O problema era que Deron também não tinha se comprometido a assinar uma extensão contractual com o Nets, virando Free Agent no final da temporada 2012, quando o Nets estaria se mudando para sua nova casa. O desafio do Nets, portanto, era simples: Eles tinham que construir um time bom o suficiente pra convencer o Deron Williams a ficar com eles quando acabasse seu contrato, ou então ficariam sem a estrela e sem os ativos que mandaram para o Jazz.

Em 2011/12, o Nets tentou duas abordagens que ninguém aguenta mais ouvir: Trocar por Dwight Howard (o pu-pu-platter de Brook Lopez, Marshon Brooks, escolhas de Draft e contratos expirantes), ou então limpar espaço salarial o suficiente pra assinar Dwight com um Free Agent ao final da temporada junto com Deron, já que o pivô tinha a opção de terminar seu contrato mais cedo. A segunda foi pro saco quando Dwight, cedendo à pressão dos torcedores, decidiu não terminar seu contrato mais cedo, deixando assim Deron Williams como o unico Free Agent de nome no final da temporada. Em pânico, o Nets trocou sua escolha de primeira rodada – protegida Top3 – por dois meses do Gerald Wallace, cujo contrato também acabava no final do ano. Eu não vou nem entrar nos méritos da estupidez dessa troca, uma escolha destinada a ser alta num Draft profundo por um jogador que poderia dar o fora em três meses, mas o fato é que o Nets terminou a temporada, a sua escolha de Draft (6th) foi pro Blazers, e o Nets viu Deron Williams, Wallace e Kris Humphries saindo da equipe como Free Agents. E pra piorar, o Magic não só não parecia disposto a aceitar a troca por Dwight Howard (não que eu possa culpá-los, o melhor jogador que receberiam era Brook Lopez, um pivô que não defende, pega 4 rebotes por jogo – o que Dwight pega em um quarto – não toma uma boa decisão em quadra e que teria que receber uma extensão maxima para fazer a troca funcionar) como mais times – Lakers, Rockets, Hawks – entraram na briga pelo pivô do Magic.

E ai o Nets reassinou com Wallace por 4 anos, 40 milhōes (Um absurdo! Não os 10M por ano, e sim os 4 anos – Crash tem 30 anos, um estilo que machuca demais e raramente fica saudável, qual a chance dele ainda estar jogando bem daqui a dois anos?) e fez a seguinde troca: Adquiriu Joe Johnson em troca de uma montanha de contratos expirantes e role players pouco importantes (Jordan Farmar, Johan Petro, Jordan Williams, DeShawn Stevenson, Anthony Morrow e uma escolha de primeira rodada protegida do Rockets) junto ao Hawks. E quer saber? Foi a melhor coisa que o Nets poderia ter feito.

Eu explico. O Joe Johnson é de longe o jogador mais overpaid da NBA inteira, mas pro Nets isso não é bem problema pra um time cujo dono é a versão russa do Mark Cuban. E apesar de não valer metade do que ganha, o Joe Johnson ainda é um All Star, um dos SGs mais confiáveis da Liga, um excelente arremessador, capaz de criar o próprio arremesso e que ainda é capaz de armar o jogo. O Nets mandou um monte de role players inúteis, e matou seu teto salarial, mas sabia exatamente o que adquiria: O SG mais confiável da Liga depois de Kobe e Dwyane Wade e que complementa muito bem o Deron Williams.

Talvez o mais importante aqui seja o seguinte: O Nets era uma droga, e o Nets não ia conseguir trocar por Dwight Howard – O Magic definitivamente não queria pagar um contrato máximo do Brook Lopez, tinha opçōes mais interessantes, provavelmente iria preferir segurar o pivô até aparecer algo melhor, um tempo que o Nets não tinha. E se o Nets não se mexesse, Deron Williams ia concluir que o time era ruim e que não valia a pena ficar por lá, e se mandar pra Dallas (Onde jogaria com Dirk Nowitzki, e onde ele cresceu). O Nets precisava se mexer pra adicionar mais peças pro seu time, a única disponível era JJ, e o time não pensou duas vezes antes de puxar o gatilho pra trazer JJ pro Brooklyn. Joe Johnson é overpaid? Sem dúvida. Mas a troca foi necessária. Sem ela, o Nets não traria Dwight e ainda perderia Deron (que admitiu que só voltou pro Nets por causa da troca por Joe Johnson). Ao invés disso, manteve sua estrela e a trouxe um All Star, um dos melhores SGs da NBA, pra jogar junto dela.

O “problema” era que essa troca tornava quase impossível trazer Dwight Howard por causa de restriçōes salariais. Teria que ser um sign and trade máximo pelo Lopez (e o próprio Brook admitiu que talvez não assinasse se fosse para ser trocado pro Magic) e teria que envolver mais QUATRO sign and trades diferentes nessa troca, extremamente improvável (e mesmo se conseguisse, o Magic mesmo assim provavelmente não trocaria). Então o Nets, sabendo que estava fora da briga por Dwight, reassinou Kris Humphries por um assalto de 2 anos, 28M e deu – adivinhe! – um contrato máximo pro Brook Lopez.

O time do Nets para 2012/13? Deron, JJ, Wallace, Humphries, Lopez. É um puta time? Definitivamente não, vai ter problemas defensivos demais, por exemplo, e vai apanhar de times mais atléticos. Ele também está alto demais no teto salarial (salario anual de cada titular: 18M, 22M, 10M, 14M, 16M. YIEEEKES!!!) e isso provavelmenta vai tirar um pouco da flexibilidade do time para se reforçar nos próximos anos. Mas ele cumpre o que o Nets tinha como o objetivo – montar um time decente e com uma superestrela para sua mudança para o Brooklyn. Se o time quisesse Dwight Howard, teria que esperar o final do ano que vem para assiná-lo como Free Agent… Mas isso significaria perder Deron e ir pro Brooklyn com Brook Lopez e Gerald Wallace de grandes estrelas. O time optou por agir antes com JJ, perdeu a chance de trazer Dwight, mas pelo menos agora o Brooklyn tem um time que deve ir aos playoffs e atrair algum interesse na sua nova casa. E quer saber? O Nets fez a coisa certa, dadas as circunstâncias. Dinheiro não é problema, Prokhorov paga as multas numa boa, e faz muito mais sentido apostar no garantido – Johnson – do que esperar por um Dwight que pode nunca acontecer. O essencial para o Nets era garantir uma estrela, e o time garantiu Deron. Tem um bom time titular (o banco é fraco, mas enfim), deve atrair interesse em sua nova casa, ir aos playoffs e pelo menos ser algo que o time não foi nos últimos oito anos: Um time de basquete de verdade.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O verão de Nova York, parte I (Knicks)


Eu realmente tava evitando esse texto, mas foram duas discussōes tão fortes da offseason da NBA que eu acabei decidindo que não podia deixar passar. Então vamos falar agora da offseason dos dois times de New York, o Knicks e o recém-mudado para o Brooklyn, o Nets (esse deve ser mais curto).

O Knicks foi um time que teve um 2011/2012 muitíssimo complicado. O time começou mal sua primeira temporada com Carmelo Anthony, o técnico Mike D’Anthony não conseguiu fazer o time render, e o Knicks parecia destinado ao fracasso mesmo com a chegada de Tyson Chander (E a ressureição da defesa do Knicks). Quando Melo e Amare Stoudamire se machucaram, parecia que a temporada do time estava condenada de vez e que o Knicks seria um time de loteria. Até que surgiu Jeremy Lin, jogador não draftado que ganhava o mínimo da Liga (e dormia no sofá da casa do Landry Fields), emendou uma sequência louca de double-doubles e jogos com mais de 20 pontos e 10 assistências, colocou vida no time do Knicks e comandou uma virada incrível no momento da equipe, ganhando a internet e a mídia de forma assustadora e virando o fenômeno Linsanity. Quando Melo e Amare voltaram, o técnico D’Anthony não conseguiu fazer o time achar o seu melhor equilíbrio com Lin, Melo e Amare, e acabou saindo. Logo depois, Lin estourou o menisco e o Knicks teve que jogar com Baron Davis de armador, ficando com um ataque estagnado e sem nenhuma variação ofensiva, levando a uma derrota fácil nas mãos do Heat nos playoffs.

Portanto, não era de surpreender que uma das principais histórias envolvendo o Knicks na offseason fosse a do Free Agent (restrito) Jeremy Lin. Desde o começo, ambos os lados foram bem diretos: Lin disse que queria voltar pra NY, Mike Woodson disse que contava com o chinês pra ser seu armador titular, e a direção do Knicks disse que era para Lin ir para o mercado e achar o melhor contrato possível, e que então o Knicks igualaria essa oferta. Parecia bom para todos os lados, certo? Bom, acabou que o Rockets ofereceu ao Lin 25 milhōes or 3 anos, o Knicks optou por não igualar, e de repente a Linsanity em New York chegou ao fim. O que diabos aconteceu?

Acho que essa saída do Lin acabou sendo um choque pela maneira como aconteceu e pelo que ele representava pra NY. Lin tinha sido o cara que salvou a temporada 2012 do Knicks, deu ao time vida nova, deu à torcida um ídolo e chamou atenção do mundo inteiro, e claro, da China. O fato do time ter o primeiro chinês (eu sei que ele nasceu em Palo Alto, mas ele é chinês e ponto) desde Yao Ming a vingar na NBA atraiu para o Knicks todo o enorme mercado chinês, e acreditem, isso quer dizer muita coisa em termos econômicos. Os chineses adoram basquete, eles são os malucos que criaram um canal de TV só pra passar os jogos do Bucks porque tinha um chinês jogando lá! Desde que surgiu a Linsanity, o valor de mercado do Knicks subiu em 600 milhōes de dólares (!!!!) e ganhou ainda mais exposição na mídia. Ou seja, mesmo fora de quadra, Jeremy Lin era excelente para se ter no time.

Mas quando Lin assinou o contrato com o Rockets, de repente o Knicks parou de cortejar sua mina de ouro. James Dolan, dono do time, alegou que teria que pagar muitas multas por estar acima do teto salarial se cobrisse a oferta, e disse que Lin “traiu” o Knicks ao assinar um contrato que lhe pagava 15 milhōes no terceiro ano de contrato, o que faria o Knicks ficar com uma situação salarial muito delicada, pois já tem os contratos monstrous de Amare, Melo e Chandler. Disse que Lin tinha traído a franquia que lhe tinha dado uma chance quando ninguém mais lhe queria, e que não precisavam dele por lá.

Ok, eu não preciso falar pra ninguém o quanto isso é ridículo, certo? A parte financeira especialmente, pois o retorno financeiro em termos de marketing, açōes e pelo mercado chines já compensam qualquer multa por estar acima do teto salarial (especialmente porque Dolan NUNCA ligou de gastar dinheiro e pagar salários absurdos com o Knicks – ele é o cara que pagou 90 milhōes por Eddy Curry e Jerome Jones, for Christ sake!). A segunda parte é ainda pior: O Knicks não tinha dito para o Lin procurar o melhor contrato pra ele, que o Knicks iria igualar? Não sei se ninguém percebeu, mas o Knicks nunca ofereceu ao Lin um contrato! Esperavam o que? O Rockets fez a melhor proposta, esperou que o Knicks igualasse, só que isso nunca aconteceu. Essa cartada da “lealdade” do Dolan foi ainda mais patética: O Knicks nunca deu ao Lin essa “chance” por pena de um jogador não draftado e sem emprego, o Knicks foi atrás dele porque precisava de armadores! Acabou dando certo, Lin jogou muito acima do seu contrato de 450 mil patacas, e esperava ser pago de acordo nesse contrato. Como voce pode esperar que um jogador que tava dormindo no sofá da casa de um amigo fosse recusar um contrato gordo que lhe ofereciam, especialmente quando seu time tinha dito que iria igualar qualquer proposta??

A verdade? Dolan não reassinou com Lin por motivos exclusivamente pessoais e infantis. Dolan ficou enciumado pela atenção que Lin recebeu da mídia e da torcida, ficou bravo quando Lin contratou um diretor de imagem diferente do que ele e boa parte do Knicks usava (aparentemente isso significa que ele não mostrou lealdade ao time, segundo Dolan... E não, não é brincadeira), e não ligou a minima pro resto. Foi uma decisão totalmente motivada por questōes pessoais e infantis que não tinham nada a ver com basquete, porque ele realmente se sentiu traído que Lin assinou uma oferta com o Rockets, contratou um diretor de imagem próprio, e não ficou abanando o rabo pro dono do time como ele gosta que as pessoas façam. Dolan é o mesmo cara que teve a chance de trazer Phil Jackson pra ser técnico do time esse ano – ele mesmo se ofereceu – mas recusou porque chou que Jackson palpitava demais nos movimentos da direção, preferindo o infinitamente pior  Mike Woodson como técnico, que obedece cegamente tudo que Dolan fala.

Agora vamos aos fatos que envolvem basquete. Dolan já tinha trazido dois armadores mesmo antes de Lin assinar o contrato com o Rockets: O idoso Jason Kidd e o jogador mais odiado de Portland, Ray Felton, que teve uma boa passagem pelo clube em 2011 mas nunca mais fez nada de útil e teve um péssimo 2012, acima do peso, desinteressado e emputecendo a torcida dos times pelos quais passou. Já Lin era um bom armador, muito bom atacando a cesta, com bom arremesso e bom passe, mas abaixo da média defensivamente e que cometia um número alto de desperdícios de bola. E mais importante, por melhor que Lin tenha sido no Knicks, ele jogou apenas 22 jogos, uma amostra pequena demais pra poder dar um parecer definitivo.

E aqui está o grande erro que muitas pessoas (em especial torcedores do Knicks em estado de negação) estão cometendo: Elas estão confundindo “Jeremy Lin não é o novo Chris Paul e ainda tem muito a provar na NBA” (dois fatos inegáveis) com “O Knicks é um time melhor com Felton e Kidd”. Fica realmente difícil de avaliar Lin depois de só 22 jogos, não sabemos o que ele ainda vai melhorar e o que ali não vai se manter. O que eu posso falar que vi é que ele é um jogador muito inteligente, excelente no pick and roll (seja passando ou atacando a cesta), e que joga com muita intensidade, tem alguma dificuldade na defesa e teve um alto índice de turnovers (indice que esteve entre os maiores da NBA... Logo entre Steve Nash e Rajon Rondo, dois dos melhores playmakers da NBA. So there!). Acho que no melhor cenário ele vai ser um titular de alto nível (mas não de elite), e no pior vai ser um bom jogador para vir o banco, criar cestas pra si mesmo e pros outros, e mudar o ritmo da partida (um JJ Barea bem melhorado). Vale 8 milhōes por ano dentro de quadra? Pra mim, sim. Mas não podemos saber até ele ter mais tempo de jogo.

E como eu disse, acabou se confundindo essa incerteza em torno de Lin com o fato (irreal) de que o Knicks estaria melhor sem ele. Kidd foi um dos melhores armadores da história da NBA, mas já faz uns bons anos que ele não está jogando em alto nível, ele não tem mais físico pra conduzir o ataque e criar problemas para defesa ou pra defender jogadores mais rápidos, e hoje vive basicamente de sua inteligência no jogo (impar) e de um bom (mas não ótimo) arremesso de longa distância, o que é pouco pro que o Knicks precisa. Já Felton a gente não sabe o que esperar, pode ser o bom jogador de 2011, mas está vindo de uma temporada pavorosa e fora de forma, incapaz de arremessar ou conduzir o ataque, dificil imaginar ele assumindo um papel como o de Lin ano passado.

E o Knicks acabou caindo em um lugar perigoso na NBA sem Jeremy Lin. Na NBA, é extremamente difícil ir longe se você não tiver no ataque uma de três coisas: Um armador que crie arremessos para o time, boa movimentação de bola, ou um jogador que force ajustes da defesa (como dobras) e use isso para achar companheiros livres (Com duas exceçōes - Pistons de 2004, a eternal exceção da NBA de uma era de pouco talento onde defesas mandavam, e o Celtics de 2008 que contava com uma defesa histórica e três Hall of Famers no ataque). Por exemplo, o Heat de 2012 tinha Lebron fazendo o terceiro. O Mavs de 2011 tinha a excelente movimentação de bola, bem como os Lakers de 2009/2010. O Spurs quatro vezes campeão combinava a excelente movimentação de bola com o Tim Duncan atraindo marcaçōes duplas e distribuindo o jogo perfeitamente do garrafão. E o Knicks não tem nenhuma dessas três coisas. A rotação de bola do time desde a saída do Mike D’Anthony é bem fraca, e Carmelo não é tão eficiente forçando ajustes da defesa e usando isso pra distribuir o jogo. Se o time for incapaz de desenvolver alguma dessas duas coisas, o time precisaria de um armador capaz  de criar arremessos para todos pra fazer o ataque engrenar. Só que agora o time jogou fora a sua única chance de ter em 2012 um jogador capaz de fazer esse papel.  Não admira que o ataque do Knicks seja tão estagnado sem Lin, não é mesmo?

Por falar nisso, não caiam no conto de que o Knicks não funcionava com Lin e Melo jogando juntos. Sim, o Knicks nunca achou a melhor forma de usar os dois juntos em quadra, mas a verdade é que com os dois juntos em quadra e sem Amare, o time tinha um point diferential de +14 por 48 minutos, uma excelente marca. Sim, a amostra é pequena, mas isso mostra que pelo menos durante esse tempo, os dois funcionaram bem juntos em quadra (especialmente porque Lin fazia de Chandler uma poderosa arma no pick and roll e isso abria muito pro Melo). O que matava mesmo era quando o Amare entrava em quadra, que dai o PD caia pra +2,4 por 48 minutos. Yikes!!

A verdade é que essa história em torno do Lin ser “infiel” e de que ele ainda tem muito o que provar, que o contrato prejudicava o Knicks no teto salarial, etc e tal, evitava que todo mundo olhasse pro verdadeiro elefante na sala, o contrato monstruoso do Amare Stoudamire. Estamos falando de um contrato de 100 milhōes por 5 anos pra um jogador que tem joelhos tão ferrados que o time foi incapaz de colocar um seguro neles quando assinou seu contrato, um jogador que sempre foi um defensor e reboteiro muito fraco, e que ofensivamente sempre teve excelentes numerous… Até que lembramos que ele passou sua carreira quase inteira recebendo passes açucarados do Steve Nash, foi incapaz de coexistir ofensivamente com o Shaq (não que eu o culpe por isso) ocupando o garrafão, e que só voltou a demolir todo mundo ofensivamente em 2010 quando o time voltou a jogar na velocidade e com o Nash controlando o ataque no pick and roll. Amare nunca deveria ter ganho um contrato de 100 milhōes que não viesse com o Nash de brinde, e agora ele é um jogador que ninguém aceitaria numa troca pelo seu contrato, um jogador que assassina a eficiência ofensiva do time toda vez que entra em quadra (e não contribui positivamente com rebotes ou defesa), que mata o salary cap da equipe e que sempre se machuca porque, de novo, seus joelhos estão tão ferrados que não puderam nem ser assegurados!! O cenário ideal seria um Amare vindo do banco pra fazer um pick and roll com um armador de alto nível (Nash e Lin seria perfeito, Lin de titular, Nash vindo com Amare do banco) cercado por role players e arremessadores de longe, mas isso não vai acontecer. Ao invés disso Amare vai continuar no ataque, empatando a movimentação de bola, trombando com Chandler no garrafão e matando o teto salarial da equipe. E depois o salário de 8 Mi do Lin que era o problema, né?

Então sim, o Lin ainda tinha muito a provar. Sim, 8 Mi é um salário alto e que atrapalharia o cap do Knicks (embora isso seja um bilhão de vezes mais culpa do Amare e seu salário-assalto, mas whatever). Mas você também perdeu sua maior chance de tirar a estagnação ofensiva da equipe, um jogador que rendia um dinheiro absurdo fora de quadra pra equipe (acreditem, não foi por acaso que ele foi pro unico time que sabe exatamente o tamanho da vantagem de explorar o mercado internacional por ter tido Yao) e que fez as açōes do Knicks caírem 60M só por causa da possibilidade dele sair do time quando assinou o primeiro contrato com o Rockets. O Knicks ainda tem uma defesa muito boa, um dos melhores pontuadores da Liga no Melo e um elenco profundo, não é um time pra loteria ou que deva perder os playoffs… Mas isso não quer dizer que o Knicks esteja pronto pra bater de frente com os melhores times do Leste, simplesmente porque ele não tem um padrão ofensivo eficiente pela falta de um bom armador, boa movimentação de bola ou um jogador que force ajustes da defesa e faça o ataque funcionar em torno disso. A chance do Knicks de ter isso era caso Lin repetisse as atuaçōes de 2012. Ao invés disso, o Knicks perdeu essa chance e deve voltar a ter o mesmo problema do ano passado, um ataque que não tem uma segunda opção ao Melo e que não consegue envolver os demais jogadores.

A verdade é que para 2013, o Knicks tinha muito mais chances de título com Lin do que sem ele, e for a de quadra ganhava muito mais dinheiro com ele (foi a camisa mais vendida da temporada, por exemplo). E ele queria ficar, mas o ego e as babaquices de Dolan fizeram o time perder essa chance. E vale citar também que o técnico Mike Woodson nunca foi um grande técnico ofensivamente capaz de dar movimentação de bola ao ataque (uma das fontes desse problema no time), mas Phil Jackson era um dos melhores da história nisso… E Jackson não é técnico do Knicks porque Dolan não quis um técnico influente, preferindo um pau mandado. Então Dolan e seu ego custaram ao Knicks a chance de ter um bom armador controlando o ataque E/OU um técnico capaz de implementar ao time a movimentação de bola que tanto precisa. Muito obrigado, James Dolan. Se eu fosse torcedor do Knicks, começaria a preparer as desculpas pra mudar pro Nets – ninguém merece um dono tão incompetente (corte para os torcedores do Suns concordando freneticamente).

Por fim, um aspecto da saída do Lin que acabou muito underrated aqui no Brasil, mas foi um tópico importante nos EUA: Os torcedores do Knicks. Lin não era só um bom armador, ele era um dos grandes ídolos da torcida do Knicks. Eu acabei ligando para meu amigo Ian (americano de New York, nascido e criado por lá, torcedor do Knicks há muito tempo e a unica pessoa que eu conheço que tem - ou que admite que tem - uma camisa do Latrell Sprewell) via skype pra perguntar o que ela achava disso, como torcedor. A resposta dele, em tradução livre e tirando os  “man…” do final de cada frase:

“Eu, e provavelmente a grande parte dos torcedores do Knicks, nos sentimos traídos quando vimos que Dolan não quis manter Lin depois de ter prometido que o faria. Foi um choque coletivo, um tapa na cara dessa fanbase. A cidade parecia de luto do basquete. Não é pelo que Lin significava dentro de quadra… Era pro que ele significava pra todos nós que torcemos pelo time, que acompanhamos esse time durante tantos anos e aguentamos muita incompetência e jogadores pouco carismáticos ao longo do tempo. Lin era o nosso jogador. Eu sei que Carmelo é o nosso Franchise Player e nosso melhor jogador, e vamos aonde ele nos levar… Mas Melo foi criado no Nuggets. Nós só o trouxemos para NY. Lin era nosso desde o começo. Ele surgiu aqui, tinha orgulho em ser um Knick e de jogar no MSG enquanto assistíamos. E ele conectava com a torcida de uma forma que Melo ou Stoud (Quem diabos chama o Amare de Stoud??) nunca seriam capazes. Ele trouxe o interesse de volta pro time, ao ponto de que os ingressos subiram de preço no seu terceiro jogo e ninguém ligou de pagar o extra. Não nos importávamos, nós só queriamos estar lá para ver Lin e o Knicks. E agora esse jogador saiu daqui por causa do mesmo dono incompetente que tem nos torturado há anos. Alguns jogadores simplesmente conectam com a torcida de uma forma diferente, especial. Alguns de nós esperam a vida toda por um jogador assim. Pros torcedores do seu Celtics, é o Pierce. Pro Yankees, é o Alex Rodriguez (Ok, ok, essa talvez ele não tenha falado, eu só queria colocar aqui). E pros torcedores do  Knicks, era Jeremy Lin. E ele se foi.”

(Se eu fosse tão direto assim, vocês teriam acabado esse post 15 minutos atrás)

Ta aí pra vocês de um torcedor do Knicks direto de New York. E ele está certo em uma coisa: Alguns jogadores REALMENTE conectam com a torcida de uma forma diferente dos outros. E não era difícil ver que a relação deles com Lin era diferente. Talvez não no nivel Bernard King ou Willis Reed… Mas sem dúvida diferenciada. Um jogador esforçado, que todo mundo tinha descartado e deu a volta por cima, e que tinha genuino orgulho de ser um Knick. Você nunca quer ver um jogador assim jogando para outro time, com outro uniforme, especialmente quando foi por uma decisão do seu próprio time… E especialmente quando foi por um motivo idiota. O time do Knicks vai sentir falta de Jeremy Lin dentro de quadra, mas talvez quem mais vá sentir vai ser a torcida do Knicks. Depois de anos de má gestão, fracassos e jogadores pouco carismáticos, o Knicks montou um bom time, e pegou um raio numa garrafa com Jeremy Lin, a peça que faltava pra esse time dentro de campo e o jogador carismático e divertido que a torcida queria e precisava fora dele pra voltar a conectar com o time. E deixou esse jogador sair sem nenhum esforço para mantê-lo. E depois se perguntam porque os torcedores do Knicks odeiam James Dolan.