Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

The Playbook - A defesa do Cavaliers

Playbook errado, bro...



Lembra ano passado quando eu fiz alguns posts rápidos analisando a anatomia de algumas jogadas da NBA durante os playoffs, e foi um grande sucesso? Pois bem, acontece que é bem divertido fazer esses posts também, então achei legal trazer de volta isso para a temporada 2015 da NBA. Acabei chamando essa coluna de The Playbook.

Pra quem não lembra, a idéia é pegar algumas jogadas importantes por algum motivo (seja porque foi uma jogada chave, seja porque ilustra algum ponto importante) e mostrar, lance a lance, o que aconteceu, o que não aconteceu, e porque isso é relevante. 

Para inaugurar essa coluna, decidi falar hoje sobre um assunto que tem chamado alguma atenção mesmo antes da temporada começar: a defesa do Cleveland Cavaliers.

O Cavs foi o time mais polarizador da ultima offseason, trazendo de volta LeBron e juntando ele com Kyrie Irving e Kevin Love. Entre três grandes jogadores ofensivos, o potencial desse lado da quadra para Cleveland era praticamente ilimitado, cheio de jogadores capazes de espaçar a quadra, arremessar de fora, criar o próprio arremesso, ou jogar de costas para a cesta. Tinha tudo para ser um dos melhores ataques da história recente da NBA - pelo menos no papel.

A grande interrogação era do outro lado da quadra. Enquanto o talento ofensivo da equipe era único, o talento defensivo deixava muito a desejar. O time contava com apenas UM defensor acima da média em Anderson Varejão, o que é muito pouco para um time que busca o título (sim, eu sei que LeBron é um fantástico defensor quando ele quer. Mas ele não quer faz mais de um ano, foi bem mal ano passado, e até ver ele se interessar de novo, não vou considerá-lo um bom defensor). O Cavs não tinha nenhum shot blocker no elenco, nenhum defensor de perímetro para vir do banco (tirando Marion, que tem 37 anos e decaiu muito nos últimos dois anos), sua dupla titular de perímetro (Irving e Waiters) é possivelmente a pior defensivamente da liga... em resumo, tinha tudo para ser um desastre defensivo. A idéia fácil, claro, era que o Cavs simplesmente teria que compensar essa deficiência no ataque, mas David Blatt sabia que para ser um forte candidato ao título precisaria conseguir pelo menos tirar algo decente dessa defesa.

Considerando a falta de talento em mãos, seria interessante observar como Blatt iria querer compensar isso com base em um esquema defensivo elaborado. E até agora, a primeira solução que Blatt tentou foi uma que surpreendeu muita gente: uma defesa bastante agressiva, lembrando inclusive a defesa que LeBron usava no Heat. Muitas blitzes, muita pressão no ballhandler.

A idéia não é ruim. O Cavs não tem qualquer tipo de proteção ao aro (adversários estão acertando 53% de seus arremessos no aro contra Varejão ou Tristan Thompson, e 62% contra Love) ou bons defensores mano-a-mano, então é uma forma de atrapalhar os ataques alheios ANTES de executarem suas jogadas, ao invés de usar um esquema tático mais conservador que simplesmente impeça arremessos fáceis e confie na sua defesa para fazer boas jogadas.

Bom, até agora, não tem funcionado como desejado. A defesa do Cavs foi horrível nos três primeiros jogos, cedendo 108 pontos por 100 posses de bola, quinta pior marca desse começo de temporada. Mas assistindo aos jogos, o problema não é a blitz e o esquema agressivo de Blatt - é que os jogadores não são bons o suficiente para executá-la consistentemente. Muitas vezes, a dobra de marcação e a pressão no ballhandler estão sendo bem executadas, taticamente falando, mas o problema é que os defensores não estão mostrando capacidade de continuar executando as movimentações e jogadas corretas depois de um primeiro "ataque". No fundo, tem sido basicamente maus jogadores defensivos fazendo más jogadas defensivas.

Eu separei duas jogadas do jogo de ontem contra o Blazers para mostrar essas dificuldades, uma em situações agressivas de blitz e outra em uma jogada normal de movimentação de bola, que mostram  a dificuldade e até o desinteresse dos jogadores do Cavs em defender direito.


Primeira jogada: Blitz no pick and roll

Essa jogada inicia de forma muito simples. Steve Blake recebe a bola perto do meio de campo depois de um lateral normal, com cada defensor ainda marcando seu jogador respectivo.

A jogada do Blazers começa quando Blake faz um passe em direção a Will Barton na lateral, que estava começando um deslocamento na sua direção, como mostra a imagem abaixo. Cada jogador ainda está marcando seu respectivo jogador, individualmente.




Em velocidade, Will Barton pega a bola e começa a contornar a linha dos três pontos. Aproveitando que Barton já tem um head start e uma vantagem sobre seu marcador, Thomas Robinson (#41) corre para fazer uma screen, liberando Barton na direção do meio da quadra, onde teria espaço para atacar a cesta ou iniciar outra movimentação ofensiva.

Usar Robinson como o screener aqui tem duas vantagens principais: primeiro, que você mantém Kaman (um passador muito melhor) na cabeça do garrafão como uma opção de emergência contra um blitz; e segundo que você tira Varejão, o melhor defensor do Cavs, de perto do garrafão. Matthews está do lado oposto da quadra para espaçá-la, e assim que a ação de Barton e Robinson começa, notem como Blake corre para se juntar a ele do lado oposto, liberando o lado direito da quadra para o pick and roll.




O Cavs responde usando a defesa agressiva que tanto tem usado nesse começo de temporada, com Varejão passando por Robinson para atacar Barton e impedir seu avanço. Dion Waiters, o marcador original de Barton, completa a blitz atacando o SG pelas costas, "travando" assim o jogador naquele ponto, a base de qualquer defesa com blitz.




No entanto, Varejão - um senhor de 30 anos de idade - não é tão atlético ou tão rápido na blitz como era, por exemplo, Chris Bosh. Ainda que tenha conseguido impedir o avanço de Barton, essa fração de segundos que Varejão demorou a mais para atacar o ballhandler deu a ele uma janela para fazer um passe para sua válvula de escape, Chris Kaman, ao invés de forçar uma dobra rápida que impediria qualquer movimentação de Barton ou mesmo forçar um turnover. Veja na imagem acima como a bola já está indo na direção do camisa 35 quando Varejão e Waiters completam a dobra no Barton.

Ainda assim, é um passe difícil e apressado que o Cavs conseguiu forçar. Foi uma bola difícil e não-precisa que Kaman precisou de algum tempo para conseguir dominar e se colocar em posição de seguir com a jogada. Tempo suficiente para o Cavs se rearmar defensivamente e evitar uma situação 4 vs 3 mais perigosa.




Quando Kaman finalmente domina a bola, o Cavs já está em posição. Olhe de novo a imagem acima: Barton está inofensivamente atrás da linha dos três pontos, e Tristan Thompson está atrapalhando Kaman. Dellavedova escorregou para marcar Thomas Robinson (lateral do garrafão) - deixado livre por Varejão na blitz - e Shawn Marion está do lado oposto impedindo um passe mais difícil para Matthews ou Blake. A blitz, em um primeiro momento, foi executada com sucesso.

Mas dai começam os problemas. Com Varejão se recuperando na jogada e voltando para o garrafão, Dellavedova tem que começar a se deslocar para o outro lado da quadra, para evitar que Marion fique preso marcando dois jogadores e retomar sua marcação em Blake. No entanto, Dellavedova nunca faz essa movimentação - ele continua parado mercando Robinson. Isso força um Varejão voltando da blitz - um jogador muito mais lento - a atravessar a quadra inteira para marcar Blake, que fica completamente livre enquanto isso.

Com Dellavedova demorando para começar uma rotação e ainda marcando Robinson do outro lado da quadra, e Varejão totalmente perdido no meio do nada, isso significa que quando Chris Kaman começa sua movimentação ofensiva na direção do lado "fraco", Blake está completamente livre na zona morta sem ninguém perto dele para marcá-lo. Apenas Marion teria como recuperar para marcar o armador de Portland, mas com o perigoso Wesley Matthews ameaçando um corte para a cesta, Marion é obrigado a continuar próximo de Matthews. 

Repare na imagem abaixo como só então - com Blake lá livre na zona morta e a jogada do lado direito praticamente morta - é que o armador do Cavs começa sua recuperação.




Matthews percebe essa recuperação, e  corre para fazer uma screen em Dellavedova para atrasar sua rotação e não deixar que ele atrapalhe Steve Blake na zona morta. Por algum motivo bizarro, mesmo com Matthews indo na direção de Dellavedova e com Varejão a poucos passos do lado dele protegendo o garrafão, Shawn Marion continua acompanhando Matthews, ao invés de fazer a rotação correta para Blake, que agora está totalmente livre na zona morta. O Cavs tem dois jogadores perdidos com Wes, e Blake arremessa uma bola de três totalmente livre que ele vai acertar na maior parte do tempo.




Wes acabou fazendo uma péssima screen e Dellavedova até se recuperou bem, mas ainda é um arremesso que qualquer time ficaria muito feliz em conseguir e que Blake errou por meio centímetro.

É um bom resumo dos resultados dessa defesa agressiva do Cleveland nesse começo de ano: a blitz foi bem executada, e conseguiu interromper a ação inicial de Portland. O esquema tático de Blatt, que tinha como objetivo conseguir exatamente isso, deu resultados. O problema é que, a partir do momento que a primeira ação ofensiva do time é desmontada com a blitz e o Portland (e em geral os adversários do Cavs) partem para suas ações ofensivas secundárias - muitas vezes improvisadas - a defesa para de ser um esquema previamente montado (no caso, a blitz) para depender da reação, percepção e movimentação dos defensores de Cleveland. E nisso o time tem se perdido com muita freqüência, em boa parte porque seus jogadores não são bons defensores.

O ataque do Blazers nessa jogada foi inteligente, mas não particularmente bem executado - os passes e reações foram um pouco lentos, e Cleveland teve várias chances de fazer a rotação correta. Mas em nenhuma vez eles conseguiram - Varejão demorou para recuperar, Dellavedova nunca fez a rotação correta deixando Robinson para Varejão e demorou demais para perceber Blake, Shawn Marion desnecessariamente deixou Blake livre para acompanhar um Matthews que estava indo para o meio do nada... um show de erros, em geral erros individuais, leituras erradas e movimentações desnecessárias. Tem sido o mais comum quando se assiste jogos de Cleveland nesse começo de ano.


Segunda jogada: Transição, preguiça e péssima ajuda

Essa jogada é ainda mais fácil e mais simples de se ver porque o Cavs está tão ruim defensivamente. Ao contrário da primeira, ela não envolve um esquema defensivo ou nenhum lado tático complicado - ela é simplesmente péssima defesa por parte dos jogadores do Cavs.

Essa jogada começa em uma semi-transição, depois que Lillard ganhou uma disputa de rebote contra LeBron na defesa e apressou o ataque para tentar pegar a defesa de Cleveland desprevenida. Mas, a exceção de LeBron, a defesa de Cleveland se recuperou muito bem, e quando Lillard chega no ataque, eles estão já razoavelmente bem posicionados e em superioridade numérica.



Ainda assim, Lillard decide aproveitar a vantagem em velocidade e agilidade de seus jogadores para pegar a defesa do Cavs desprevenida e ainda se arrumando em semi-transição. Antes que o resto de seus jogadores possam chegar, Lillard chama uma screen de LaMarcus Aldridge, que corre para fazer o bloqueio em Irving.




Essa é uma boa jogada, bem executada pelo Blazers. Mas a defesa do Cavs aqui é genuinamente horrível desde o começo. Irving não ve a screen chegando, e simplesmente vai de cabeça em Aldridge. Ele demora para passar pela screen, dando muito espaço para Lillard fazer o que quiser. Thompson, por sua vez (defendendo Aldridge na screen), pula na frente de Lillard para impedir seu avanço, mas só por um segundo - ele logo volta a sua posição original entre o armador e Aldridge, dando caminho livre ao armador. Com Irving demorando tanto tempo pra fazer a volta em Aldridge, Thompson precisaria se manter na frente de Lillard o suficiente para permitir que Irving volte a entrar em boa posição defensiva, ou então caso o camisa 0 acelere, Thompson precisa acompanhar sua trajetória para não deixá-lo livre.

Mas como Irving demora muito para conseguir passar da screen e não consegue se recuperar, e como Thompson apenas deu um passo na sua frente antes de recuar para perto de Aldridge, Lillard agora não tem ninguém pela frente, apenas um caminho livre até a cesta sem um armador ou ala-pivô para acompanhar e atrapalhar sua progressão até o aro.



Reparem no espaço deixado por Irving e Thompson para Lillard infiltrar. Isso é simplesmente péssima defesa de pick and roll - ninguém fez qualquer esforço para atrapalhar a progressão do armador ou acompanhá-lo no seu caminho até a cesta, apenas estenderam um tapete vermelho para ele passar. 

Mais duas coisas importantes de se observar na imagem acima: primeiro, que enquanto Thompson não fez muito esforço para bloquear Lillard e logo retomou sua posição inicial, ele também em nenhum momento volta para marcar Aldridge, um perigoso arremessador. Ele simplesmente volta a sua posição e continua acompanhando Lillard, só que agora paralelamente a ele e a uma considerável distância. Ele não tem qualquer papel no desenvolvimento dessa jogada se não for para ficar marcando Aldridge ou o lado "fraco" da jogada, que não tem nenhum jogador do Cavs cobrindo.

Segundo, LeBron James não está marcando absolutamente ninguém. Ele está parado no perímetro olhando para... ninguém, pois todos os jogadores do Blazers que ele poderia marcar estão nas suas costas. O jogador que LeBron deveria estar marcando na transição, Wesley Matthews, já está se deslocando em alta velocidade para oferecer uma opção completamente livre na zona morta oposta.



A imagem acima é o desenvolvimento da jogada um pouco depois, e mostra melhor os pontos acima. Irving está muito atrasado para conter a infiltração de Lillard, e Tristan Thompson está perdido no meio do nada - não está marcando ninguém, não está cortando qualquer linha de passe, nem oferecendo nenhum tipo de ajuda a impedir a jogada de Lillard. LeBron também continua desinteressado em defender - ele não faz QUALQUER esforço para impedir o avanço do armador, enquanto Wes Matthews continua correndo completamente livre em direção a zona morta.




Lillard chega no ponto final da sua infiltração, com Love na sua frente e um espaçamento muito ruim do Robin Lopez impedindo que ele continuasse. Importante frisar que não tem qualquer motivo para Tristan Thompson estar aonde está - Love já esta fechando o caminho para o garrafão, e dificilmente TT teria como contestar esse arremesso. Mas nessa tentativa de "ajudar", ele está deixando Matthews e Aldridge livres. Idealmente, LeBron teria rodado para marcar Aldridge e Thompson estaria impedindo o passe para Matthews tentando minimizar o estrago, mas não é o que acontece - Thompson está perdido e LeBron continua sem interesse na jogada. Lillard tem um Matthews totalmente livre na zona morta, e é para lá que ele faz o passe. 




Matthews recebe o passe em ótimas condições de tentar um arremesso livre de três pontos, tamanho o espaço que ele tem ao receber a bola. No entanto, Matthews percebe que Thompson está tentando corrigir o erro, mudando de direção para ir até ele. Com LeBron ainda parado no meio do nada, a seis metros de qualquer jogador do Blazers que ele poderia estar marcando e nem sequer fingindo tentar defender, Wes percebe que Aldridge está completamente livre no seu lugar favorito da quadra, e é para lá que faz o passe. 

Aldridge recebe a bola com ninguém a menos de cinco metros dele. LeBron FINALMENTE percebe que tem que se mexer ao invés de ficar pensando na vida, e começa sua movimentação na direção de Aldridge.




LeBron corre que nem uma paca louca na direção do camisa 12, que simplesmente faz um pump fake, pelo qual James passa totalmente lotado e não faz qualquer esforço para se recuperar. Com Love marcando Robin Lopez de perto e fora de posição, Aldridge tem um caminho completamente livre até a cesta. 




O espaço deixado no meio e a movimentação de Aldridge, que teria uma cesta fácil, forçam Thompson - que finalmente percebeu que precisa marcar Matthews na zona morta - a ajudar na marcação e correr para fechar seu caminho. O que, claro, deixa Wes completamente linha na zona morta, que é para onde Aldridge faz o passe.




LeBron desistiu da jogada depois de cair no pump fake de Aldridge e não faz qualquer esforço para contestar o arremesso. Wes Matthews recebe o passe e faz a cesta de três pontos mais fácil da sua carreira.

É sério, olhem na imagem abaixo - ele recebe a bola sem ninguém a UM QUILOMETRO dele. E reparem, de novo, aonde está LeBron.




Swish.

No fundo, essa foi uma jogada sensacional do Blazers. Os jogadores a executaram muito bem, com grande movimentação, passes excepcionais e muito altruísmo. Basquete de alta qualidade. Ainda assim, é bem possível ver como o Cavs torna isso tão mais fácil para a equipe. Irving e Thompson marcam horrivelmente o pick and roll inicial, dando um espaço absurdo para Lillard infiltrar, o que força a defesa atrás a fazer rotações... que ninguém faz corretamente. Thompson está completamente fora de posição a jogada inteira, assim como Love não tenta fechar o espaço de Aldridge mais para o final. LeBron não fez qualquer esforço a jogada inteira para ajudar seus companheiros. E o resultado é que Portland consegue fazer o que quer e conseguir um arremesso fácil demais nessa jogada. Eles tiveram três ou quatro bons arremessos na jogada, mas preferiram renunciar a eles porque a má defesa do Cavs continuava dando oportunidades ainda melhores. 

No fundo, isso se resume a duas coisas: desinteresse, e pura e simples incompetência. Jogadores que não conseguem conter uma infiltração ou marcar um pick and roll, que constantemente estão se colocando fora de posição e oferecendo passes bons para o ataque, que não conseguem fazer uma rotação correta ou compensar isso de qualquer forma. E o único jogador desse time que projetava como um possível bom defensor está totalmente desinteressado e preguiçoso na defesa, ao ponto de que o Cavs é TRINTA PONTOS POR 100 POSSES DE BOLA MELHOR COM LEBRON NO BANCO (defensivamente)! Claro que essas são apenas duas jogadas, mas são duas jogadas que ilustram bem os problemas que levaram o Cavs a ter uma das piores defesas da NBA nesse começo de ano. 


A temporada ainda é longa, e tem muito chão. Blatt vai tentar diferentes sistemas para tentar tirar mais coisa da sua defesa, e ainda tem condições da equipe evoluir desse lado da quadra com maior entrosamento e confiança. Mas no fundo, o que se destaca nesse começo de temporada (pelo menos na defesa) é algo que todo mundo já temia em Setembro: os jogadores do Cavs são simplesmente ruins defensivamente! Ao contrário do ataque - que não está bem, mas que é esperado que melhore conforme os jogadores se entrosam e se acostumam melhor a um complicado sistema ofensivo - a defesa não tem a qualidade para tal. Não da para dizer em três jogos que a defesa do Cavs vai ser horrível assim o ano todo, mas até agora, não vimos nada para nos encorajar para o futuro. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Preview NFL 2013 - Saint Louis Rams

Trenzinho Carreta Furacão, edição Saint Louis


Nessa série de previews já falamos de 30 times diferentes, incluindo toda a AFC East, South, North e West e das NFC East, South e North, mais o San Francisco 49ers e o Seattle Seahawks. Você pode acessar todos os previews direto do nosso índice. Se você não tem ideia do que estou falando, recomendo que leia esse post introdutório. Btw, a falta de crases nesse texto é porque esse teclado não tem crase, então não reparem, ok?

Saint Louis Rams

2012 Record: 7-8-1
Ataque ajustado: 21st
Defesa ajustada: 7th


Parabéns! Acabamos de chegar no ganhador de 2012 do "Troféu de Melhor Time que Ninguém Presta Atenção" da NFL! Seu prêmio são mais 1000 palavras sobre o Rams!

Por algum motivo, muita gente correu para descartar o Rams como um time insignificante durante e ao final da temporada, mesmo com a equipe terminando 7-8-1 com uma tabela insanamente difícil e terminando 4-1-1 dentro da divisão. Na verdade, Saint Louis terminou em 15th em eficiência ajustada na NFL (logo atrás e quase empatado com Minnesota) e, usando as estatísticas de eficiência ponderadas (ou seja, que atribuem maior peso aos jogos mais tardios no campeonato), o Rams termina com um bom 12th lugar, na frente de times como Vikings, Houston e Atlanta. Claro que isso não significa que o Rams seja melhor que o Atlanta, especialmente porque essa melhora ao longo do ano não teve uma causa direta como um jogador voltando de lesão ou uma mudança de coordenador (como foi o caso do Tampa Bay despencando sem Carl Nicks), e então no fundo os jogos do começo do campeonato tem tanta significância quanto os do final (especialmente porque o Falcons relaxou quando garantiu sua vaga). Mas ainda assim, é algo impressionante, certo? Serve para mostrar um pouco que esse time do Rams é, na verdade, bem sólido.

Então porque ninguém presta atenção neles? Primeiro, porque eles jogam numa divisão insanamente difícil com dois dos melhores times da NFL ano passado, 49ers e Seahawks. Não só esses dois chamam toda a atenção (merecidamente, mas enfim) como os dois logo mostraram que iriam garantir a divisão e deixaram o Rams para trás e fora da briga, o que deixou a equipe de Saint Louis em uma posição secundária na temporada. Um outro motivo foi o mesmo do Panthers: a equipe melhorou mais para o final da temporada, ganhando quatro dos últimos seis jogos depois de começar a temporada com um irrelevante 3-6-1, outro motivo que fez muita gente descartar a equipe cedo e não prestar atenção quando ela jogou seu melhor futebol. E por fim, o fato de que o Rams teve a segunda tabela mais forte de toda a NFL: oito de seis jogos foram contra times de playoffs, e mais dois contra Bears (melhor time da NFL a não ir para a pós-temporada) e Lions (muito melhor do que seu record indica) - só o Cardinals teve uma tabela pior. Por isso que as métricas ajustadas por adversário são generosas com o Rams: eles não tiveram uma grande temporada, mas tiveram uma temporada decente contra uma tabela extremamente difícil, e essa tabela tornou difícil ver o quão bom era o Rams já que toda semana estavam enfrentando (e perdendo de) pedreiras. Então motivos nós temos para não ter prestado atenção no Rams, mas o importante é saber exatamente o que estamos perdendo com isso.

Para começar, estamos perdendo uma das melhores defesas da NFL. Ter uma defesa dominante é quase um pré-requisito para jogar na NFC West atualmente, na verdade: das sete melhores defesas de 2012, quatro são dos times da West, inclusive a número 2 e a número 4 que foram tema dos dois últimos previews (49ers e Seattle, respectivamente). O Rams não é exceção, terminando 2013 com a sétima melhor defesa da liga. E talvez até mais importante é o fato de que não só é uma defesa forte e dominante, mas também uma defesa muito jovem e com muitas peças em evolução. 

A defesa começa por dois jogadores que durante anos foram dois dos mais underrateds jogadores defensivos da NFL, Chris Long e James Laurianaitis, dois daqueles "excelentes jogadores presos em um time horrível" por anos a fio. Long, em particular, foi sempre o que mais me chamou a atenção por um simples motivo: ele nunca para de se mexer. É assustador, mas ele é daqueles DEs que não dão um passo, travam uma batalha parada com o OL adversário para abrir um espaço e usam esse espaço para atacar o QB: ele está sempre mexendo as pernas, sempre buscando um contorno ou coisa assim, sempre se movimentando lateralmente para fechar espaços... enfim, é basicamente o jogador com o motor mais impressionante da NFL, e por isso um dos meus favoritos de assistir. Nos últimos dois anos, quando Saint Louis finalmente deu a ele um bom parceiro na linha defensiva (Robert Quinn) Long totalizou 24.5 sacks (sétima melhor marca nesse período) e ancorou o que promete ser uma defesa muito dominante. Quinn teve também uma temporada muito boa em 2012 (sua primeira como titular) com 10.5 sacks, então é realmente uma dupla que tem tudo para ser muito dominante, especialmente com Quinn indo para sua terceira temporada e com bastante potencial de evoluir ainda mais.

Atrás dessa forte dupla de frente, o Rams também montou um grupo de linebackers muito forte. Em uma defesa 4-3 base, os OLBs não são daqueles que vão para a blitz na maior parte do tempo como Aldon Smith ou DeMarcus Ware, mas prometem ser sólidos: em adição ao eterno James Laurianaitis (apenas "James" daqui para frente porque ninguém merece escrever Laurianaitis), a equipe draftou o bom e problemático Alec Ogletree e trouxe o veterano Will Weatherspoon para compor seu trio de LBs. Laurianaitis é um dos melhores MLBs da liga e Ogletree era considerado o melhor LB dessa classe de calouros (apesar dos problemas extra-campo), e considerando que essa defesa terrestre já foi uma sólida 8th melhor contra o jogo terrestre em 2013, existe ainda mais potencial aqui. A chave provavelmente vai ser como os DTs se comportam em 2012, já que a equipe não possui um dominante, mas com esse ótimo pass rush e bom grupo de LBs, ainda tem tudo para ser um bom grupo.

O draft de Ogletree mostra novamente uma tendência desse time do Rams nos anos recentes, que é a de se preocupar mais com talento e menos com problemas fora de campo. Ogletree era o típico caso de jogador muito talentoso que acaba caindo no draft pelos seus problemas, mas o Rams se focou (e admitiu isso depois) apenas no que ele pode oferecer dentro de campo. Na verdade, foi essa mentalidade que o time usou para montar sua secundária em 2012, trazendo o talentoso, problemático e um pouco overrated Cortland Finnigan na free agency, e no draft foi atrás de Jannoris Jenkins, um talento de primeira rodada que caiu para a segunda rodada por ter sido preso algumas vezes. A estratégia deu certo: a defesa aérea saltou para 10th melhor da liga em 2012, conseguiu um sólido número de 17 intereptações mesmo contra uma tabela forte e gerou bastante interesse ao redor da liga. O sucesso dessa estratégia em 2012 provavelmente foi o que motivou a seleção de Ogletree, e vai continuar inspirando esse tipo de posicionamento até algo dar errado.

E ai chegamos ao maior ponto positivo dessa defesa: idade. Os dois veteranos dessa defesa, Long e James, ainda estão em seu auge (28 e 27, respectivamente). Quinn está indo apenas para seu terceiro ano, Jenkins para seu segundo. Ogletree é calouro, e Finnegan - o mais velho desse núcleo - faz 29 em fevereiro. Para um time como o Rams que provavelmente ainda está pensando alguns anos no futuro, essa é uma ótima notícia: seu núcleo ainda vai jogar junto por um bom tempo, e ainda tem muito espaço para evoluir. Para 2013 isso não necessariamente vai ajudar tanto, considerando algum possível sophomore slump de Jenkins (que pareceu ser um pouco "exposto" mais para o fim da temporada) e pelo fato da equipe ter perdido seus dois safeties titulares (Quintin Mikell foi para o Panthers e Craig Dahl para o 49ers) sem nenhum bom substituto disponível, então é possível esperar alguma piora dessa unidade. Mas mesmo assim o Rams deve continuar com uma das melhores linhas de frente de qualquer time na liga, e isso provavelmente vai ser suficiente para ancorar uma defesa extremamente forte, especialmente se os CBs continuarem com a boa fase.

O ataque é mais problemático. Desde que fizeram de Sam Bradford a primeira escolha do draft em 2010, esse grupo terminou a temporada 30th, 32nd e 21st em ataque ajustado. Enquanto um otimista pode olhar e falar que pelo menos o grupo evoluiu para 2012, um realista vai apontar que esses são três péssimos números. Embora seja mais do que óbvio que não seja possível atribuir tudo isso a Bradford quando ele tem jogado em um ataque muito fraco e sem o pessoal adequado para ajudá-lo, o fato é que ele também não tem se destacado positivamente. Nesses três anos, Bradford ainda não mostrou o que se esperava dele quando se tornou a primeira escolha do draft: seu braço não é forte e ele tem mostrado dificuldade nas bolas longas (como o grande Bill Barnwell nota, Bradford é o QB que menos tenta passes de mais de 20 jardas na NFL), e sua precisão no resto dos passes deixa muito a desejar. Ele não compensa seu baixo aproveitamento com ganhos longos e vice versa, e isso é um problema quando seu QB ainda tem metade de um contrato de 6 anos, 78M para cumprir (com absurdos 50M garantidos). Parte disso não é culpa de Bradford - ele nunca jogou com uma boa linha ofensiva ou teve alvos competentes além de Steven Jackson e Danny Amendola - mas ele também não se destacou com o que teve em mãos de alguma forma, ou mostrou as ferramentas de um grande QB na NFL.

E embora não seja exatamente culpa de Bradford, o fato é que ele gerou muitos problemas, junto com uma série de decisões da diretoria  cujos resultados foram desastrosos (algumas eu também critiquei na época). O primeiro problema é que Bradford foi a última 1st pick no antigo CBA. O grande problema a ser resolvido no lockout de 2011 foi a questão dos contratos de calouros, que tinham escalado demais e saído de controle. Isso foi eficientemente controlado no novo CBA, mas times que ainda mantinham jogadores com seus contratos antigos se viram em uma situação complicada. Para efeito de comparação, Bradford ganhou um contrato de 6 anos, 78M quando calouro... a próxima 1st pick, Cam Newton, assinou um de 4 anos, 22M. Então é uma diferença brutal, e isso tem causado alguns problemas para o Rams. Esse foi, inclusive, o motivo pelo qual a equipe deveria ter mantido a 2nd pick em 2012 (e Robert Griffin) ao invés de trocá-la e manter Bradford: Sam come um pedaço imensamente maior do espaço salarial da equipe do que Griffin (falamos segunda no preview do Seahawks sobre a enorme vantagem que é ter um franchise QB em contrato de calouro). Eu entendo os motivos que levaram o Rams a tomar essa decisão - em particular que o retorno por uma eventual troca de Bradford seria muito menor do que o que Griffin trouxe - mas na época muita gente já defendia manter Griffin pela questão salarial, o que fica ainda mais claro quando vemos o resultado disso um ano depois. Na verdade, se o Rams tivesse feito a coisa mais fácil em 2010 e draftado Ndamukong Suh em primeiro (que era claramente o melhor jogador do draft na época), poderia ter hoje Suh E Griffin no seu time, então tem isso também - bem como o fato de que Bradford pode ser cortado ao final dessa temporada para economizar salário enquanto Griffin revive o esporte em Washington.

Um tema clichê nos previews do Rams desde 2011 é que esse é o ano que Bradford tem ao seu redor o melhor grupo da sua vida. Foi dito em 2011, foi dito em 2012, e tem que ser dito em 2013: pela primeira vez ele tem um bom LT em Jake Long, o que via dar muita estabilidade na linha ofensiva, e adicionaram duas armas importantes para seu QB nessa offseason em Jared Cook (muito talento, nunca despontou como esperado) e Tavon Austin (8th pick nesse draft), que a equipe espera que possa adicionar dois alvos confiáveis e explosivos para Bradford finalmente se desenvolver... apesar de ele já ter 26 anos. Então é fato que no papel o Rams está oferecendo a ele um grupo melhor do que ele já viu em anos, mas isso já foi dito antes e não rendeu nenhum tipo de resultado, então não me culpem se me sinto um pouco cético. Também vale citar que Bradford perdeu o seu melhor recebedor em Amendola, que quando esteve saudável era o principal alvo aéreo da equipe. Como Barnwell nota em seu excelente preview, Bradford completou 66.5% de seus passes para Amendola e apenas 56.8% para o resto de seu time, uma diferença absurda que só reforça a importância de Amendola saindo do slot como uma opção nesse ataque. Mas Amendola saiu, e nao se sabe ainda se Tavon Austin vai conseguir realizar essa função ou ser usado em um papel mais explosivo estilo DeSean Jackson (a comparação mais comum para Austin) em rotas longas que não vão oferecer para Bradford a opção de segurança que ele precisa. Então ainda existe algum motivo para dúvida, ainda que no papel esse ataque tenha evoluido um pouco (principalmente por causa de Long, na verdade) - de novo. Vamos ver se dessa vez a melhora no papel se traduz para uma melhora dentro de campo.

Mas o fator mais duvidoso nesse ataque é o jogo terrestre, simplesmente porque ele pode cair para qualquer lado. A equipe se livrou do grande Steven Jackson, um dos melhores RBs da sua geração, por questões salariais antes de dar o comando da equipe aos jovens Daryl Richardson e Isaiah Pead, e é difícil saber exatamente qual vai ser o impacto disso na equipe. Jackson foi um grande RB, isso é inegável, mas já tem 30 anos, sendo 8 deles como o titular de uma equipe fraca tendo que carregar nas costas o time com uma carga de trabalho imensa, e nos últimos anos viu sua produtividade decair um pouco. Jackson sempre foi uma grande válvula de escape para Bradford por sua versatilidade recebendo passes, algo que provavelmente não vai acontecer (ou pelo menos no mesmo nível) com a nova dupla de RBs, mas ao mesmo tempo vale destacar que em 2012 Jax teve uma média de 4.1 jardas por corrida e Richardson teve 4.8 atrás da mesma linha ofensiva. Claro que é mais fácil ter uma média alta com menos corridas e em situações mais favoráveis, mas ainda é uma boa diferença e Richardson projeta como sendo uma opção mais jovem e explosiva para esse jogo terrestre. É difícil saber exatamente o impacto dessa mudança, mas diria vai ter impacto importante no destino dessa equipe.

Em resumo, o Rams é um bom time que muita gente negligencia. Mas infelizmente para eles, eles ainda tiveram alguma sorte em 2012 (uma vitória acima da sua Pythagorean Expectation) e apesar de não ser o inferno de 2012, a tabela ainda vai ser consideravelmente difícil em 2013 com um Cardinals reforçado e quatro jogos contra a fortíssima NFC South. A defesa vai continuar sendo forte como sempre, com potencial para evoluir (jovens jogadores, Ogletree chegando) ou regredir (sem seus safeties), mas dividindo a diferença ainda tem tudo para ser uma das melhores da liga. O wild card para a equipe, naturalmente, é seu ataque, e como Bradford vai render naquela que pode ser sua última chance como titular da equipe com uma linha ofensiva reforçada e um conjunto totalmente diferente ao seu redor. Eu confesso que não me sinto otimista em relação a essa última, acredito que vá ser um ataque decente mas não bom o suficiente, e por isso não vejo o Rams sendo melhor do que 7-9 ou 8-8, o que não quer dizer que seja um time ruim: se enfrentasse a tabela de um time como Chiefs ou jogasse na AFC South, seria um forte candidato a ganhar 10 jogos e ir aos playoffs. Por enquanto, vai ter que se contentar com uma forte defesa e com o trabalho que sempre dá aos favoritos Niners e Seahawks enquanto pensa no que fazer com Sam Bradford.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A evolução das defesas na NFL

Richard Dent faz uma ótima demonstração de 
como a defesa deve jogar sob as novas regras



Desculpem a inatividade recente, a ressaca pós-Super Bowl ainda não passou e o nosso Mailbag não está recebendo perguntas suficientes pra justificar um post até agora. Enquanto esperamos mais perguntas (Vamos, galera, não desanimem agora, mandem seus emails para tmwarning@hotmail.com!), vamos falar um pouco sobre a evolução das defesas na NFL.

Alguns aqui talvez se lembrem de um post que fizemos já faz algum tempo sobre a evolução do jogo aéreo na NFL. Nesse post, nós comentamos sobre como as regras que surgiram ao longo dos anos - em especial de 2004 pra frente - tiveram o efeito de facilitar em muito o jogo aéreo na NFL. Isso causou, é claro, um grande direcionamento do jogo na NFL para o ar, e os Quarterbacks e os ataques passaram a ter um peso muito maior do que tinham até então. Isso também fez com que os números dos Quarterbacks e Wide Receivers pós-2004 explodissem se comparado aos números anteriores, e em nossa mania de querer comparar tudo em números sem pensar no que está por trás deles, acabávamos olhando pra números extremamente inflados e exaltando as estatísticas dos jogadores de hoje como sendo superiores às dos jogadores de 20 anos atrás. As 5300 jardas do Drew Brees em 2011 foram incríveis, claro, mas nós olhamos pro número 5300 em absoluto, esquecendo que conseguir 5300 jardas hoje é muito mais fácil do que conseguir 5000 trinta anos atrás. O jogo muda, as regras mudam, e nós esquecemos disso, continuamos tratando os números como se significassem a mesma coisa em qualquer época.

Mas voltando ao tópico principal, as mudanças que o jogo aéreo sofreu ao longo dos anos, e em especial na década de 2000, determinaram como os ataques iam jogar, deram ênfase ao jogo aéreo, colocaram o jogo terrestre em segundo plano e tornaram a NFL numa Liga onde o jogo terrestre é o que da o tom do jogo, e onde eé cada vez mais difícil vencer sem um grande QB. Mas hoje, vamos olhar o lado contrário da questão, e analisar como as defesas na NFL ficaram com essas mudanças nas regras e no jogo, e qual o panorama pras defesas da NFL nos próximos anos.

Para quem não leu ou não lembra desse post e está com preguiça de clicar no link acima, um breve resumo. Ao longo dos anos - e em especial na década de 2000 - a NFL começou a mudar algumas regras e instituir algumas regras novas visando incentivar o jogo aéreo na NFL. Os principais motivos para essa mudança foi a mentalidade defensiva que dominou a NFL no começo da década e levava a muitos jogos lentos e de placares baixos, com defesas dominando os ataques. Isso se deu, em parte, por uma certa entresafra de grandes Quarterbacks na Liga. A geração anterior (Troy Aikman, Dan Marino, Joe Montana, Steve Young, John Elway, Jim Kelly, etc) estava saindo de cena e a nova geração (Tom Brady, Peyton Manning, Ben Roethlisberger, Drew Brees, etc) ainda não tinha aparecido o suficiente para dominar o cenário da NFL. Ainda que tivéssemos Brett Favre e Kurt Warner destruindo recordes diariamente, era muito pouco frente ao maior cenário da Liga. Tirando o extremamente ofensivo Rams (The Greatest Show on Turf), que foi campeão do Super Bowl em 1999, quem aparecia em peso eram as defesas. O Ravens de 2000 (Trent Dilfer de Quarterback), o Patriots de 2001 (Um Tom Brady burocrático e eficiente de QB, mas secundário a uma grande defesa), o Bucs de 2002 e até mesmo o Pats de 2003 eram todos times que tinham uma grande defesa e um ataque medíocre, em geral que contava com um forte jogo terrestre mas que tinha como grande âncora sua defesa. As defesas de Ravens e Bucs, em particular, estão entre as maiores de todos os tempos. Os jogos truncados, defensivos e de poucos pontos começaram a dominar o cenário da NFL, e a Liga decidiu mudar as regras pra aumentar o poder dos ataques.

Não é a toa que desde 2004 os campeões do Super Bowl tiveram como QBs titulares Brees, Brady (Em 2004 pela primeira vez assumindo uma posição central no time), Manning, Aaron Rodgers, Eli Manning e Big Ben, depois de ver um Brady pirralho e burocrático, Trent Dilfer e Brad Johnson ganhando Super Bowls no começo da década. As novas regras restringiram e muito o que a defesa podia fazer - não podiam mais acertar jogadores com o capacete, não podiam mais atingir jogadores na área da cabeça, não podiam mais encostar nos recebedores, não podiam derrubar QBs abaixo da cintura... Ou seja, na década de 80/90 a defesa tinha muito mais recursos tanto pra marcar os recebedores adversários como para atacar o QB como para dar tackles. Agora os defensores estão muito mais limitados, o jogo aéreo domina a NFL e estatísticas de passe e recepções são quebradas diariamente. A NFL pode justificar essas regras dizendo que estão protegendo a saúde dos jogadores, o que até é verdade em algum nível, mas o verdadeiro motivo era aumentar os placares, tornar os jogos mais abertos e, na avaliação deles, mais atraentes para o público.

Uma vez que o principal impacto dessas mudanças foi o incentivo ao jogo aéreo, era de se esperar que o caminho para o sucesso das defesas fosse fortalecer a defesa contra o passe. Formações Nickel (com um cornerback extra), melhores safetys e cornerbacks, estratégias de cobertura complexas... Esse parecia, no primeiro momento, ser o caminho de sucesso para defesas. Se você conseguisse montar uma grande secundária e limitar o jogo terrestre, os adversários seriam obrigados a recorrer ao jogo terrestre mais e mais. No começo, após as mudanças, esse realmente foi o foco das defesas, fortalecer a secundária em busca de uma chance de lutar contra os ataques aéreos, agora fortalecidos pelas regras. Mas com o tempo, e cada vez mais, se percebe que o caminho para o sucesso das defesas na NFL não é a secundária, ou a defesa aérea, e sim o pass rush, ou a capacidade da defesa de pressionar o Quarterback.

Claro que se você tiver uma grande secundária você vai ter uma vantagem. A secundária do Jets, com Darrelle Revis e Antonio Cromartie (vindo de ótima temporada depois de uma temporada inicial medíocre), com certeza inibiu passes contra o time de NY. Também ter safetys capazes de forçar interceptações como Ed Reed continuam colocando pressão no QB e fazendo eles pensarem duas vezes antes de passar a bola em profundidade (O que é um efeito lógico, se o índice de interceptações de um QB fica constante e ele começa a passar a bola mais vezes por jogo, o número de interceptações tende a aumentar - o que explica o aumento em interceptações recente). Grandes jogadores e secundárias bem montadas vão ter seu efeito, em qualquer época. Se você tiver a oportunidade de montar uma grande secundária, tem que montar.

O que acontece é que não é todo time que que é capaz de montar uma secundária com tanto impacto. Não estamos em uma era de boom em jogadores de secundária, temos vários bons jogadores mas não em número excessivo, que fosse suficiente para dar à maioria dos times da Liga uma unidade capaz de alterar jogos por conta própria. A grande maioria dos times tem que se contentar em ter uma secundária mediana, sem jogadores de nível All-Pro como Ravens, Jets e Steelers. Isso se dá também pelo fato de que a secundária teve uma redução no seu papel. Em 2002, uma dupla determinada dupla de Cornerbacks teria mais impacto no jogo do que em 2011, onde as regras são desenhadas para que eles justamente tenham menos impacto. Pra que um cornerback médio hoje impacte o jogo da mesma forma que um cornerback médio impactava o jogo em 2002, o cornerback médio de hoje precisa ser consideravelmente superior do que o cornerback médio de 2002. Como não estamos tendo um grande aumento no nível dos jogadores da secundária desde então, o número de jogadores capazes de impactar o jogo da secundária caiu em muito, e poucos times tem esse luxo.

No começo, a solução parecia uma enorme disputa entre os times para ver quem pagava mais a esses jogadores. No entanto, a solução que foi encontrada era muito mais barata e acessível: Se você não pode marcar os recebedores de forma a impedir que o QB tenha um alvo para o passe, você tem que impedir que o Quarterback passe, derrubando ele antes que ele lance - ou pelo menos causando pressão o suficiente para que ele não tenha tempo e calma de achar seus recebedores. Ou seja, os times decidiram que a melhor forma de combater o ataque aéreo não era na secundária,  sim com o pass rush, pressionando o QB antes do passe.

De certa forma, isso faz todo o sentido do mundo. Não importa se a sua secundária é boa ou não, ela recebeu muitas limitaçōes e pode fazer muito pouco pra evitar que o recebedor tenha uma posição favorável em campo, logo logo vão proibir os defensores sequer de tocar na bola. Com tantas restriçōes, é muito difícil manter um jogador do ataque sob controle por muito tempo, e se tiver tempo, cedo ou tarde alguém vai conseguir abrir espaço. O truque então é diminuir cada vez mais esse tempo. Os jogadores que pressionam o QB também receberam restriçōes ao longo do tempo, especialmente limitando o quanto do Quarterback eles podem visar, mas essas restriçōes são bem menores do que as restriçōes que os jogadores da secundária tem.

Isso chega, também, associado a uma certa abundância de jogadores da posição na NFL, o que facilita a vida dos times. Pelas limitaçōes que a regra oferece, pressionar o QB já é relativamente mais vantajoso do que jogar só com a cobertura e dar tempo ao QB adversário, e além disso atualmente o mercado tem muito mais jogadores de qualidade para jogarem na linha defensiva do que jogadores de secundária, o que torna montar um bom pass rush bem mais acessível do que montar uma boa secundária tanto em termos de quantidade quanto em termos financeiros. Pensem que só no último Draft tivemos Von Miller, Aldon Smith e JJ Watt, três pass rushers de altíssima qualidade que já estão jogando num nível entre os mais altos da posição.

Isso explica também a popularização crescente da defesa 3-4 nos últimos anos depois da defesa 4-3 ter dominado por tanto tempo a NFL (Pra saber mais sobre as defesas 3-4 e 4-3, recomendo esse post do nosso Especial NFL destinado às defesas). A defesa 3-4 é uma defesa que é muito mais agressiva, na sua forma padrão ela envia um homem a mais do que a 4-3 e permite variaçōes mais criativas para a blitz. Em outras palavras, é uma defesa que sacrifica um pouco da cobertura para colocar mais pressão no Quarterback. Ela naão era muito usada até as novas regras, quando elas começaram a se popularizar e estão em grande parte das defesas de sucesso da NFL (Steelers, 49ers, Ravens, Packers versão 2010, Jets, Washington Redskins e Houston Texans). Por ser uma defesa que coloca mais ênfase no pass rush, ela é a defesa ideal para enfrentar a situação atual do jogo aéreo, e embora qual defesa usar dependa muito dos jogadores que você tem, o fato dela ser uma defesa mais agressiva tem sido o principal motivo dela ter voltado a ganhar popularidade nos últimos anos.

Dois times de sucesso em 2011 nos mostraram como a secundária não precisa ser uma unidade forte, desde que sua defesa tenha outros fatores. No caso do Packers, a secundária era uma droga em termos de jardas, foi uma das piores da NFL e todo mundo conseguia produzir em quantidade. Mas ela compensava isso forçando turnovers e ganhando posses de bola extra para o time, então o Packers não se importava. Ter uma secundária sólida está cada vez mais difícil, então os times deixam de se preocupar com isso em alguma medida para usar sua defesa de outras formas. O que causou a queda do Packers foi a dificuldade da sua defesa de pressionar o Quarterback usando sua linha de frente, tirando o Clay Matthews. O outro exemplo é o campeão Giants, que tinha uma secundária fraca e desfalcada por lesōes mas cuja defesa era absolutamente dominante graças à sua capacidade de pressionar o Quarterback. Aaron Rodgers e Tom Brady, dois dos três melhores QBs saudáveis da NFL na atualidade, tiveram muitos problemas pra jogar contra essa defesa porque eles não tinham tempo para pensar ou para aguardar seus recebedores se desmarcassem, logo que eles recuavam para o passe eles precisava fugir de alguém ou apressar a jogada para evitar um sack.

O grande Bill Parcels já dizia: Quando você faz o QB deixar de olhar a secundária (onde estão seus recebedores) e passa a olhar a linha de scrimmage (de onde está vindo a pressão), você ganhou o jogo. E é pura verdade, quando um QB olha pra linha de scrimmage antes de soltar o passe ele está condenado, ele perde um tempo precioso, para de ter controle sobre as  movimentaçōes da defesa e do ataque e quando ele finalmente olha para a secundária precisa gastar mais tempo ainda para avaliar a situação, o que pode levar a um passe apressado e a um turnover. Sem falar que com sacks você queima jogadas do ataque e aumenta a distância das descidas.

O pass rush sempre foi parte importante de uma defesa, e jogadores como Derrick Thomas e Lawrence Taylor sempre foram diferenciais nos times que jogaram. Como eu sempre digo, grandes jogadores vão fazer diferença não importa em que era jogarem, e o pass rush sempre foi um componente importante das defesas, assim como a secundária, a defesa terrestre e tudo mais. Só que as novas regras estão dificultando ainda mais as coisas para a defesa, e a forma que tem se mostrado eficiente pra combater os fortes ataques aéreos até agora eé aumentar a pressão, tirar o QB da zona de conforto e não deixar o jogo aéreo estabelecer seu ritmo. Essa sempre foi uma opção pra defesas ao longo do tempo, ao lado de muita outras, que ficavam a crédito do pessoal envolvido, dos coordenadores e técnicos, etc. Mas com as novas regras - associado a uma certa abundância de pass rushers de qualidade - está tornando essa opção cada vez mais vantajosa se comparado com as outras. Cada vez mais os times estão menos preocupados com sua secundária e mais preocupados com a pressão que são capazes de colocar no QB adversário. Essa foi a forma encontrada pelos times de combater os ataques ajudados pelas regras. E essa é a tendência para as defesas da NFL daqui pra frente, especialmente com jogadores como Jason Pierre-Paul, Von Miller e Aldon Smith surgindo a cada ano. Cada vez mais, enquanto o ataque se direciona para o ar, as defesas se direcionam para o chão para combatê-los. Como não podem atacar o adversário no terreno onde elas levam vantagem, elas buscaram uma nova forma.

E até agora, está dando resultados: O Steelers de 2008, o Packers de 2010 e o Giants de 2011 eram times cujo principal foco defensivo era a pressão. O 49ers de 2011 ressurgiu atrás de uma defesa com uma boa secundária mas com uma linha de frente espetacular. O Ravens se manteve um Juggernault defensivo ao longo dos anos porque tem sido constantemente capaz de pressionar o QB e vencer a batalha das linhas. Times como Broncos, com defesas medianas, se mantiveram competitivos porque eram capazes de colocar pressão sem recorrer a blitz suicidas. Então por mais que as novas regras tenham direcionado o jogo pro ar, por mais que elas favoreçam os ataques e gerem estatísticas muito infladas para os QBs que nós insistamos em comparar sem lembrar de como o jogo tem mudado, é um erro pensar que com as novas regras só dos ataques vivem a NFL. As defesas também estão em constante adaptação pra poderem ter uma chance mesmo com as mudanças de regras. E os resultados estão bem na nossa frente.

domingo, 4 de setembro de 2011

Especial NFL - O Jogo

Finalmente chegamos na quinta e mais aguardada parte do nosso Especial NFL. Depois de termos explciado o que exatamente é esse especial, termos contado um pouco mais sobre a história do futebol americano e depois comentamos mais sobre o esporte e a Liga nos dias de hoje, junto com a estrutura financeira e administrativa da NFL, e explicado de forma específica qual é o papel de cada uma das posições de ataque e o papel de cada uma das posições de defesa de um jogo de futebol americano, finalmente chegou a hora de falarmos do talvez mais importante: O jogo em si.

Nós estamos finalmente chegando ao final do nosso Especial, teoricamente só temos mais um post, mas vocês ainda podem mandar ainda sugestões ou dúvidas para nosso email tmwarning@hotmail.com ou para nosso twitter, www.twitter.com/tmwarning. A ideia aqui é justamente apresentar e ensinar um pouco do esporte a quem não conhece, então podem mandar emails para perguntar o que tiverem interesse em saber. Espero que depois do nosso Especial as pessoas que antes não tinham muito contato com esse esporte tenham maior interesse em ir atrás e acompanhar a temporada, e por isso peço novamente ajuda para divulgar nosso projeto para o maior número de pessoas possível. Muito obrigado e espero que gostem!

Como já virou rotina, antes de começar a explicar o jogo em si eu queria deixar algumas coisas claras. Quem não leu os posts sobre as posições de ataque e as posições de defesa (Nossos dois últimos posts, os links estão logo aí em cima), eu recomendo fortemente que leia. Como vamos explicar o jogo em si agora, vou assumir que tudo que eu expliquei anteriormente é do conhecimento de quem ler esse texto, e portanto vou explicar o jogo dessa forma. No caso de alguma dúvida sobre as posições, é só deixar um comentário lá mesmo ou aqui que a gente responde assim que der.

Também, para melhor ilustrar o que eu vou explicar, deixo aqui um diagrama do campo de jogo em si.

Diagrama 1: O Campo de Futebol Americano


Sobre esse campo, alguns esclarecimentos:
- As regiões em vermelho e azul são as chamadas End Zones. No futebol americano, o Touchdown acontece quando um time leva a bola até a End Zone do time adversário. Vamos explicar isso com calma, mas só avisando que o objetivo do jogo é levar a bola até a End Zone do adversário.

- Como eu já deixei implícito acima, sempre que eu me referir à "End Zone" ou ao "campo" de algum time, é o que ele defende, sempre. Quando eu digo "O time X está no campo do adversário" quer dizer que ele está na metade do campo que o outro time defende.

- Como vocês devem ter reparado, o campo de futebol americano (tirando as End Zones) tem 100 jardas, todas elas marcadas. Cada End Zone tem mais 10 jardas de comprimento. Essa marcação para cada jarda será muito importante mais pra frente.

- Quando eu falar "A jogada começou da linha de tantas jardas", eu quero dizer que o Snap foi feito com a bola naquela linha. Como o snap é feito para trás, naturalmente a bola vai voltar um pouco na jogada, especialmente nos chutes que vocês já verão.

- Colocado exatamente no final de cada End Zone (logo depois que ela acaba) aquele famoso Y gigante, que eu chamarei aqui de Goal Posts, que é por onde os times podem chutar a bola em algumas ocasiões. Novamente, vou explicar mais na frente, mas por enquanto basta lembrarem que ele fica logo após o término da End Zone.

Agora vocês já sabem das posições de ataque e defesa, e do campo de jogo em si. Estamos prontos para o principal do dia.


O Jogo

Para começar o jogo, primeiro se decide num emocionante cara ou coroa que time começa com a bola. O time que ganhou pode escolher entre chutar ou receber (ou então escolher o campo). O time que começar recebendo naturalmente vai começar chutando no segundo tempo. O jogo de futebol americano tem quatro quartos de 15 minutos cada, sendo que o relógio para sempre que o jogador que estiver com a bola sair de campo ou então tivermos um passe incompleto. A posse de bola só vai mudar automaticamente no final do segundo quarto. Quando passamos do primeiro pro segundo e do terceiro para o quarto quartos, não temos nenhuma realocação da posse de bola.

O jogo efetivamente começa com um Kickoff, ou seja, o time que não começa (escolheu chutar) com a posse de bola vai pedir ao seu Kicker (K, o jogador encarregado dos chutes do time, que você vai ver muito ao longo desse post) que chute a bola da linha de 35 jardas do seu campo até o outro lado do campo. O time que vai ter a posse da bola vai ter um jogador, chamado de Kickoff Returner (KR, que geralmente é um WR, S ou CB, ou seja, algum jogador rápido), posicionado no fundo do seu campo esperando a bola que vai ser chutada. Quando essa bola for chutada, ela provavelmente vai ser chutada o mais longe possível para o campo do adversário, e então o KR vai ser o encarregado de pegar o chute quando ele for cair (normalmente próximo da sua própria End Zone) e aí ele tem duas opções: Primeiro, se ele receber a bola dentro da própria End Zone, ele pode optar por não tentar fazer nada e ajoelhar, o que configura um "Touchback" e aí esse time irá começar sua campanha ofensiva da sua linha de 20 jardas. Segundo, ele pode segurar a bola e correr em direção à End Zone adversária, e aí seus companheiros de time vão ter a função de bloquear os jogadores adversários para abrir espaço para o KR correr. Se ele conseguir chegar até a End Zone, temos um Touchdown, caso não consiga a campanha ofensiva vai começar do ponto em que ele foi derrubado. (Um parênteses aqui: Até o final da temporada passada, o Kickoff era dado da linha de 30 jardas, o que fazia com que os Retornadores (KR) pegassem a bola numa condição melhor de correr. Com a nova regra das 35 jardas, o número de touchbacks aumentou e o número de jogadas caiu bastante). Vejam abaixo um Kickoff no qual o KR optou por fazer o retorno e conseguiu o Touchdown em pleno Super Bowl. Se ele fosse derrubado em algum momento, a jogada seguinte começaria daquele ponto.



Reparem no vídeo que, depois que o Touchdown foi anotado, o time ganhou seis pontos e chutou uma bola da linha de duas jardas para anotar um sétimo ponto. O que acontece é o seguinte: O Touchdown SEMPRE vale seis pontos, mas além dos pontos você tem a chance de fazer um Extra Point, no qual você vai ter uma única jogada começando da linha de duas jardas (ou seja, muito próximo da linha da End Zone novamente) e pode fazer duas coisas: Primeiro e muito mais comum, você pode chutar a bola lá dentro para conseguir um ponto extra, totalizando sete. É de longe a mais comum, e o que acontece é que uma vez feito o snap alguém vai pegar a bola e colocar no chão para o Kicker (de novo ele) chutar a bola entre os Goal Posts, e se a bola passar no meio dele, é válido o chamad Extra Point. A segunda alternativa e muito menos comum é que você pode usar essa jogada como uma jogada normal (Passe ou corrida) para tentar colocar a bola novamente dentro da End Zone. Se você conseguir, você ganha dois pontos ao invés de um (e não tem a chance de chutar depois), totalizando oito. É mais raro porque é mais difícil, é muito mais prático ficar com o um ponto do chute que tem um aproveitamento infinitamente maior, geralmente só se usa essa Two-Point Conversion em jogos apertados nos momentos importantes da partida. Esclarecido isso, voltamos ao jogo.

Se o Touchdown acontecer - e isso vai se repetir toda vez que algum time pontuar, exceto por Safetys, que vamos explicar mais tarde - o time que pontuou vai fazer um novo Kickoff, e aí tudo que eu disse acima vai se repetir, só que quem vai estar recebendo o Kickoff para um eventual retorno dessa vez vai ser o time que sofreu os pontos.

Quando tivermos um Touchback ou então um retornador for derrubado, digamos, na linha de 20 jardas (mas pode ser em qualquer outra), começa uma nova série ofensiva para o time em posse de bola. O time então tem quatro jogadas para avançar 10 jardas. Ou seja, nessas quatro jogadas, o time tem que conseguir avançar 10 jardas no campo, anotar o chamado First Down. Quando o time consegue avançar 10 jardas e anotar um First Down, o time vai ganhar mais quatro jogadas para avançar 10 jardas do lugar onde parou a jogada anterior. Por exemplo, a primeira jogada será uma 1st and 10, o que significa que é a primeira tentativa (das quatro) e ele precisa avançar 10 jardas. Suponhamos que a primeira jogada seja uma corrida e o corredor ganha três jardas. Nesse caso, a jogada seguinte será uma 2nd (indicando que é a segunda tentativa das quatro) and 7 (o número de jardas restantes para completar as 10). Se nessa jogada o Quarterback acerta um passe de 10 jardas, então a jogada seguinte será uma nova 1st and 10 começando do ponto onde a última jogada acabou. Uma jogada vai acabar com um passe incompleto encostando no chão, com um turnover (Vamos explicar mais abaixo) ou então quando o jogador que está em posse da bola encosta alguma parte do corpo entre o joelho e o cotovelo no chão.


Como eu já disse quando falei das posições de ataque, cada jogada vai ser combinada antes pelo técnico, o Quarterback e os demais jogadores de ataque. Esse time pode chamar uma jogada de corrida ou de passe (Novamente vou deixar as Tricky Plays pro final), com o objetivo de ganhar essas 10 jardas. Na jogada de corrida, após o Snap, o Quarterback pode correr ele mesmo ou, mais comum, deixar a bola para o Running Back, fazendo o chamado Hand Off (Que é quando o QB coloca a bola nas mãos do RB que está vindo correndo de trás) e então ele será encarregado de correr. Ou então o Quarterback irá receber o Snap, andar alguns passos para trás e escanear o campo à procura de um alvo livre. Geralmente nas jogadas desenhadas de passe, a jogada é desenhada para um certo Wide Receiver receber a bola, mas os outros também devem seguir suas rotas não só para confundir a defesa mas também para dar a opção de um outro passe caso o WR designado esteja marcardo. O trabalho do QB, então, é identificar qual é a melhor opção de passe e realizar esse passe com precisão, de forma que a bola chegue ao seu alvo sem risco de ser interceptada pela defesa e sem tocar no chão, porque quando um passe toca no chão ele é dado como incompleto e a jogada acaba. Naturalmente ele pode ser um passe de três jardas ou um passe de oitenta, vai depender dos jogadores, da ousadia do técnico e também da jogada. Numa 1st and 10 você pode tentar um passe de cinco jardas porque terá mais duas tentativas para uma distância mais curta, mas numa 3rd and 13 você precisa desesperadamente de jardas, então o passe terá que ser mais longo.

Reparem como na jogada abaixo, numa 3rd and 18 (o que é muita coisa), como o ataque tem que recorrer a um passe longo e a defesa, sabendo disso, mantém oito jogadores no fundo do campo (e mesmo assim o passe é completo).




 
Aliás, queria aproveitar pra esclarecer uma questão acerca dos passes no futebol americano. Em cada jogada, o ataque tem direito a realizar um único passe para a frente. Ele pode ser executado por qualquer jogador (exceto um da linha ofensiva), mas para que ele possa acontecer naturalmente não pode ter acontecido nenhum outro passe para a frente na mesma jogada E a bola não pode ter ultrapassado a Linha de Scrimmage, que é a linha do campo onde a jogada começou. Se a bola não atravessou essa linha, o time ainda pode realizar um passe para a frente não importa quanto tempo se passou desde o início da jogada. Além disso, um time pode realizar quantos passes laterais ou para trás o time quiser, como no Rugby, tanto antes como depois da linha de Scrimmage, não importa, o número é ilimitado. Pra melhor ilustrar, reparem na Tricky Play abaixa: O Patriots realiza dois passes para trás (ou para o lado) antes de passar da linha de scrimmage, portanto o Tom Brady fica livre para acertar o passe longo.



Tentar chegar à End Zone adversária pode ser com passes e corridas mais curtas ou então bolas longas, não existe um padrão, vai depender muito de inúmeros fatores como momento do jogo, característica dos seus jogadores, características da defesa do adversário, etc. No entanto, existem algumas coisas a serem consideradas. Se o seu time não consegue estabelecer um jogo de corrida decente e só joga pelo ar, uma hora a defesa adversária vai ficar de saco cheio e vai começar a jogar só com Nickel e Dimes contra você. Mesmo que você não tenha um RB de elite no seu time que consiga carregar o seu ataque, você vai precisar em 95% dos casos de estabelecer pelo menos um jogo terrestre decente de forma a não viciar seu ataque, de fazer a defesa se preocupar também em defender pelo chão e abrir mais os espaços aéreos. Da mesma forma, um time que depende só de um grande RB, por melhor que seja, não vai conseguir nada sem um QB que consiga pelo menos completar alguns passes de 10 jardas para manter a defesa esperta, caso contrário a defesa vai colocar nove caras perto da linha e aí não tem RB que consiga se virar. De forma geral, um Quarterback de elite vai conseguir levar nas costas um ataque sem jogo terrestre melhor do que um RB de elite na situação oposta, mas mesmo grandes QBs como Peyton Manning e Tom Brady (Dois futuros Hall of Famers que estão entre os 15 melhores QBs de todos os tempos) tiveram problemas recentemente pela falta de jogo terrestre das suas equipes.

Outra coisa a se considerar é o tempo. Eu disse lá em cima sobre o relógio parar ou não após uma jogada, mas vou explicar direito agora: Eu já citei isso, mas após o fim de uma jogada, o ataque tem exatos 40 segundos para começar a jogada seguinte (pode começar em menos, mas nunca pode passar de 40, senão o time é penalizado). E quando algum jogador tem a posse de bola (Pode ser porque ele pegou a bola para correr, um Quarterback que foi derrubado ou até mesmo um recebedor depois que recebeu o passe) e ele é derrubado dentro do campo, o relógio da partida continua correndo durante esses 40 segundos. No entanto, caso seja tentado um passe e o passe acabe incompleto (tocou no chão antes de alguem segurá-lo), o relógio da partida vai parar e só vai voltar a correr quando a jogada seguinte começar (mas ela ainda deve obedecer o limite de 40 segundos, claro). O fator "relógio", portanto, é muito usado pelos times na hora de montar uma estratégia. Um time que tem uma defesa fraca ou que enfrenta um adversário com um ataque muito forte muitas vezes vai optar por usar mais o jogo terrestre para gastar mais o relógio, de forma que sua defesa fraca ou o forte ataque adversário tenha menos tempo pra ficar em campo, se você abusar das corridas e dos passes curtos e gastar 10 minutos do relógio, são 10 minutos a menos pra uma situação na qual você estaria em desvantagem (defesa fraca ou contra um ataque forte). Também é muito comum vermos, no final das partidas, o time que está na frente no placar usando mais o jogo terrestre e os passes curtos para gastar mais tempo do relógio e terminar a partida mais rapidamente, dando menos tempo para o adversário reagir. Isso tudo vai ser levado em consideração na hora de combinar o estilo de ataque.

E qual vai ser o papel da defesa durante tudo isso que o ataque vai fazer? Naturalmente, a função básica da defesa é impedir que o ataque consiga avançar as 10 jardas e portanto perca a posse de bola. Uma coisa muito importante que eu preciso destacar antes é que o ataque raramente vai utilizar as quatro jogadas que tem direito para tentar avançar as 10 jardas. Pense na seguinte situação: O ataque está começando sua campanha da linha de 20 jardas do seu campo. Depois de três passes incompletos, o time está numa 4th and 10. Se o time tentar converter o First Down nessa jogada e falhar, digamos, com outro passe incompleto, o ataque adversário vai começar sua campanha da linha de 20 jardas do campo de ataque! Quando um time falha uma quarta descida, o adversário começa sua campanha exatamente do ponto onde a última parou, o que obviamente é uma desgraça para o time que perdeu a posse de bola. A alternativa que o time tem na quarta descida (4th Down, ou quarta tentativa), portanto, é dar um Punt. No Punt, um jogador chamado de Punter (P, que tem como dar o Punt sua única função) vai receber um snap longo e chutar a bola em direção ao campo do adversário para afastar a bola o máximo que ele conseguir.

Ao dar um Punt numa quarta descida, o time abdica de usar sua quarta tentativa para conseguir o First Down mas ele impede que o adversário de começar sua campanha numa boa posição de campo, mais perto da End Zone. O Punt, ao contrário do Kickoff, pode ser chutado para fora do campo e aí a campanha ofensiva do outro time começa aonde a bola saiu, mas caso ele fique dentro de campo, o outro time designa um Punt Returner (PR, que geralmente é o mesmo jogador que o Kickoff Returner, ainda que isso não seja sempre) que pode optar por retornar o chute até onde ele conseguir, mais ou menos como no Kickoff. Um bom Punt tem que ficar no ar por muito tempo para dar tempo o suficiente para que o time que chutou a bola consiga chegar perto do PR e impedir assim que ele retorne a bola, fazendo com que ele peça um Fair Catch (Quando o Fair Catch é pedido, nenhum jogador do time que chutou pode encostar no PR, mas ele também perde o direito de tentar o retorno. Será pedido quando ele não tem chances de retornar o Punt e não quer levar uma pancada desnecessária). Veja nesse vídeo como o Punt, faltando 14 segundos pra acabar um jogo empatado, faz o erro de não chutar para fora de campo a bola, da a possibilidade do retorno para o DeSean Jackson e paga o preço (Sem falar que esse punt foi em linha reta, não foi alto, o que deu ao Jackson tempo o suficiente para se recuperar do seu erro).



No ataque, também, um time dificilmente vai converter uma quarta descida. Isso porque ele corre o risco de perder a bola e sair sem nenhum ponto da campanha quando ele tem a opção de chutar um Field Goal. O Field Goal é quando o ataque opta por gastar sua jogada tentando chutar a bola entre os Goal Posts. Nesse caso, o time vai fazer o Snap, alguém vai segurar a bola e o Kicker vai chutar para anotar três pontos se a bola passar entre os Posts. É igual ao Extra Point, só que é numa jogada normal e não depois de um Touchdown, vale três pontos e não um e pode ser de qualquer linha do campo, não da linha de duas jardas. Em geral, um bom Kicker consegue acertar com bom aproveitamento chutes de até 50 jardas (A "distância" do chute será a distância que resta até a End Zone e mais 17 jardas. Se um time tiver a bola na linha de 33 jardas, portanto, o Field Goal será de 50 jardas: 33 que faltam até a End Zone, mais 10 que são o comprimento da própria End Zone, mais 7 que é o quanto a bola recua com o Snap). O Field Goal é uma forma de não sair de uma campanha ofensiva sem pontos mesmo quando se chega numa quarta descida. Caso o Field Goal seja errado, o time perde a posse de bola e o adversário começará sua campanha ofensiva do ponto onde foi realizado o chute. Veja um exemplo de Field Goal de 50 jardas abaixo.



De forma geral, um ataque só irá tentar uma quarta descida se a distância for muito pequena (4th and 1, 4th and inches), e mesmo assim só de vez em quando, ou então se for num momento importante no final da partida, quando o time não pode se dar ao luxo de devolver a bola para o adversário. Tirando essas ocasiões, 99% das vezes os times optarão por um chute nas quartas descidas, e se vai ser um Punt ou um Field Goal vai depender da posição de campo na qual os times se enfrentam.

Voltando agora ao papel da defesa, a defesa vai ter que basicamente impedir o avanço das 10 jardas nas três tentativas para que o ataque seja forçado a chutar a bola, e aí a defesa cumpriu seu papel de recuperar a posse de bola. Para isso, o time vai ter que naturalmente impedir que o adversário avance com a bola, seja parando as corridas como impedindo os passes. Mas uma forma muito importante de impedir um First Down é colocando pressão no Quarterback e conseguindo um Sack. Eu disse quando falei das defesas que alguns jogadores estão encarregados de fazer pressão no QB adversário. Essa pressão é importantíssima para impedir que o Quarterback tenha muito tempo para fazer um passe, se ele tiver tempo demais uma hora alguém vai se desmarcar e ele vai atingir o alvo sem dúvida. A pressão tem que forçar ele a se decidir rapidamente na pior das hipóteses, mas quando possível a pressão tem que chegar até o QB, forçar ele a fugir dos jogadores ou então apressar um passe ruim para se livrar da bola. No melhor caso, o time vai conseguir um Sack, que é quando a defesa derruba o QB antes que ele consiga lançar a bola. Nesse caso, o ataque perde jardas dependendo do lugar onde o QB foi derrubado, pois a jogada seguinte vai começar daquele ponto. As defesas nem sempre vão contar só com o Pass Rush (a pressão no Quarterback) padrão das defesas (Linha defensiva nas defesas 4-3 e também dos OLBs nas defesas 3-4) e muitas vezes vão apelar para Blitzes, que é quando um jogador que não tem como função padrão ir atrás do QB abandona sua posição para fazê-lo, o que muitas vezes vai confundir a defesa. Veja na jogada abaixo como o Cornerback abandona sua posição e consegue atacar o QB com sucesso, roubando a bola e fazendo o Touchdown.



O Sack e as pressões/blitzes são a forma mais básica de se desmontar um ataque, porque vai forçar conversões mais longas. Por exemplo, um sack de oito jardas numa 1st and 10 vai obrigar o ataque a conseguir 18 jardas nas próximas duas tentativas, provavelmente por passe, e aí a defesa vai estar esperando as bolas longas e vai se posicionar melhor pra evitar. No entanto, se a defesa simplesmente evitar conversões de First Downs, o ataque vai chutar a bola e a nova campanha ofensiva vai começar mais perto do seu campo de defesa. Por isso a defesa tem uma outra função, que é a de forçar Turnovers.

Ainda que a principal função da defesa (impedir pontos e recuperar a posse da bola) seja conseguida impedindo First Downs e forçando chutes, uma boa defesa sempre vai aproveitar as oportunidades para forçar Turnovers. Um Turnover é quando um time perde a posse de bola para o outro, mais ou menos como no basquete. Punts não são considerados Turnovers porque você está fazendo isso de propósito, ainda que seja para evitar uma desgraça maior. A grande vantagem dos Turnovers (Além do fato de que a defesa pode retorná-los para Touchdown) é que eles vão dar a posse de bola à defesa no ponto onde o turnover aconteceu, tirando a oportunidade do ataque de dar um Punt ou até de continuar sua campanha ofensiva que eventualmente faria a próxima posse de bola ofensiva do time começar mais atrás.Existem dois tipos de turnovers que ocorrem nas campanhas ofensivas: Interceptações e fumbles.

Interceptações são simples, que é quando um passe do QB (que obviamente vai ter como alvo algum dos seus recebedores) é pego pela defesa antes que toque no chão. Nesse caso, a posse de bola vai mudar de dono imediatamente após o passe ser pego e então o jogador em posse da bola, antes um defensor, vai tentar correr o máximo possível para o campo de ataque para dar ao seu time uma melhor posição de campo ou até conseguir um Touchdown, e os jogadores que antes eram do ataque agora tem como função derrubar esse jogador para encerrar a jogada. Naturalmente quando isso acontece a posse de bola muda de time e o time que antes estava na defesa, ao final da jogada (Se não for um Touchdown), vai trazer seu ataque para campo. Quando o assunto é interceptação, vale dar mais uma olhada nesse lindo Touchdown do Ed Reed.



O Fumble também é simples, é quando algum jogador que está em posse da bola (um Wide Receiver que agarra um passe só vai estar em posse da bola se ele tiver total controle sobre ela E colocar ambos os pés no campo. Caso ele segure a bola no ar com total controle, mas solte antes de colocar os dois pés, ele nunca teve controle da bola), seja um QB esperando para dar um passe, um RB correndo, um recebedor após receber um passe e até mesmo um defensor após uma interceptação perde o controle da bola e a deixa cair no chão. Quando isso acontece, a bola está viva e é de quem pegar primeiro. Um exemplo prático: Suponha uma 1st and 10 na qual o ataque joga com o Running Back para uma corrida, mas ele sofre um tackle duro e solta a bola, que cai no chão. Se algum jogador do ataque recuperar a bola, a jogada para nesse exato instante (ele não tem a possibilidade de continuar correndo) e o ataque terá uma 2nd Down, dependendo de onde a bola foi recuperada para mais ou menos do que 10 jardas (caso ela seja recuperada depois da marca do First Down, então será uma 1st and 10). No entanto, caso algum jogador da defesa recupere essa bola, aí ele tem o direito de correr até onde ele conseguir e aonde ele for derrubado começará a nova campanha ofensiva do time que recuperou a bola. O Fumble só será um turnover se o time adversário recuperar a posse da bola. Um bom exemplo de fumble está naquele vídeo logo acima do Sack do Antoine Winfield.

A defesa também tem mais uma forma de pontuar mesmo sem o ataque entrar em campo, que é através do chamado Safety. Eu disse que, quando um jogador de ataque é derrubado para acabar uma jogada, a jogada seguinte se inicia daquele ponto. No entanto, se a defesa de alguma forma conseguir derrubar um jogador do ataque dentro da sua própria End Zone desse jogador, acontece um Safety. Nesse caso, o time da defesa ganha dois pontos no placar e o time que antes estava no ataque vai ser obrigado a dar um Punt (não um Kickoff, o que faz com que a bola viaje menos) da linha de 30 jardas do seu campo. Ou seja, ao conseguir o Safety, a defesa vai anotar dois pontos e ainda vai recuperar a posse de bola para uma campanha ofensiva

De certa forma, é isso que acontece em um jogo de futebol americano. Eu sei que é muito confuso explicar, mas acredito que se vocês leram os últimos três posts com atenção, e daí assistirem a um jogo de NFL, vão conseguir entender o que está acontecendo em pouco tempo. Naturalmente isso vai se repetir ao longo de todo o jogo, e situações diferentes (como por exemplo ao final do segundo quarto, quando a posse de bola vai mudar de dono para começar o terceiro) vão exigir adaptações, mas com esse nosso resumo (se é que se pode chamar isso de resumo!) vocês já tem acesso ao básico: First Downs, Turnovers, Touchdowns, Extra Points e Two-Points Conversion, Field Goals, Punts e o funcionamento, de modo geral, de uma partida de futebol americano. Eu só queria esclarecer mais quatro coisas antes de acabar.

Primeiro, cada time tem três pedidos de tempo por tempo. Um pedido de tempo para o jogo e da tempo para o ataque ou a defesa conversarem com calma com seus técnicos e coordenadores e estruturarem melhor suas próximas jogadas, já que eles vão ter muito mais tempo que os 40 segundos normais. Mas mais importante, um pedido de tempo faz o relógio da partida parar. Por exemplo, time X está ganhando do time Y no final da partida e está com a posse de bola. O time X vai correr com a bola três vezes para ter 40 segundos entre cada jogada e assim queimar dois minutos do relógio. No entanto, se após cada jogada o time Y pedir um tempo, o relógio congela e só vai voltar a correr quando a jogada seguinte começar. Ou seja, o time que está perdendo vai evitar perder dois minutos do tempo de jogo pedindo esses tempos. Eles não tem muita importancia com 10 minutos faltando no primeiro quarto, mas nos finais dos dois tempos eles serão muito importantes.

Segundo, cada time tem direito a dois Challenges, ou desafios, por tempo. O Challenge é quando o técnico de um time discorda da marcação dos juizes para uma jogada e pede esse "desafio". Quando ele é pedido, o técnico explica o que ele acha que aconteceu e que os juizes não marcaram e aí os juizes vão analisar o vídeo da jogada para ver se o certo é o que foi marcado ou o que o técnico está pedindo. Se os juizes, analisando o vídeo, concluirem que o pedido do técnico estava certo, a jogada é mudada. Se os juizes não mudarem de ideia, a jogada se mantém e o técnico é penalizado com a perda de um pedido de tempo. Cada técnico só tem dois Challenges por tempo, mas se ele pedir os dois e ambos estiverem corretos, ele ganha um terceiro Challenge para pedir.

Terceiro, queria explicar o que significa Two-Minute Warning, que da nome ao nosso blog. O Two-Minute Warning é um "aviso" que é dado dois minutos antes do final de cada tempo (não quarto, tempo), ou então assim que alguma jogada terminar caso a marca de dois minutos seja atingida durante uma jogada. Quando esse "aviso" acontece, o relógio imediatamente para e dentro desses dois minutos nenhum técnico pode pedir Challenge, mas os juizes tem o poder de analisar em vídeo qualquer jogada que considerarem difícil ou duvidosa. Ele também tem um significado bem simbólico, por serem os minutos decisivos.

E quarto queria explicar um conceito importante e raro que é o do Onside Kick. Imagine que seu time está perdendo por 11 pontos e fez um Touchdown faltando dois minutos e sem tempos para pedir. Primeiro de tudo, você tenta uma Two-Point Conversion. Se você chutar o Extra Point, sua diferença cai para quatro e você ainda precisaria de um Touchdown para ganhar o jogo. Ao tentar uma Two-Point Conversion e dar certo, no entanto, a diferença cai para três pontos e aí com um Field Goal você vai poder empatar o jogo, sem a necessidade do Touchdown. Se falhar, não tem problema, a diferença de cinco pontos não vai ser pior pra você do que a diferença de quatro, ainda vai precisar de um Touchdown. Isso é irrelevante pro conceito de Onside Kick, é só pra ilustrar essa questãod o Extra Point/Two-Point Conversion mesmo. Mas suponha que sua Two-Point deu certo e você está perdendo por 3 pontos apenas. Mas você tem que fazer o Kickoff para recomeçar o jogo, mas com dois minutos e sem tempos para pedir, tudo que seu adversário tem que fazer é ajoelhar com a bola três vezes (o que encerra a jogada e faz o relógio continuar correndo) e esperar esgotar o tempo. Ou seja, você perdeu no momento que a bola cair nas mãos do adversário.

O que você faz então? Simples, um Onside Kick. Num Kickoff, você geralmente chuta a bola o mais longe possível pra que o adversário comece o mais perto que der da sua própria End Zone. No entanto, como nesse caso você absolutamente não pode deixar a bola cair nas mãos do outro time, o que você faz é chutar o kickoff para bem perto dos seus jogadores para que um deles recupere a bola e então o seu time mantém a posse da bola. No entanto, isso é bem difícil de fazer. Primeiro porque nenhum jogador da defesa (o time que está chutando) pode tocar na bola antes de um de ataque antes que a bola viaje 10 jardas, ou seja, passe da marca de 45 jardas. Isso da uma enorme vantagem ao ataque, especialmente se ele já estiver esperando o Onside Kick. Além de muito difícil de se recuperar um Onside Kick, o risco é grande: em caso de falha, o ataque do outro time já vai começar a campanha no seu campo, o que é uma posição muito boa para pelo menos chutar um Field Goal. Veja por exemplo no vídeo abaixo como o Saints faz um Onside Kick sem o Colts esperar, o que deixa o time de Indianapolis confuso e faz com que o Saints consiga recuperar o chute e portanto manter a posse da bola. Quando a defesa adversária já está esperando, é mil vezes mais difícil.



Bom, eu acho que por hoje está bom. Eu sei, é muito confuso num primeiro momento, mas assistindo aos jogos eu acho que vai ficar mais fácil para todo mundo. Se vocês não entenderam alguma coisa, por favor perguntem, por email ou deixando nos comentários. Entender o funcionamento do jogo é um passo importantíssimo para gostar do esporte, e eu quero fazer com que o máximo possível de pessoas consigam, depois de ler ao Especial NFL, possam entender o que está acontecendo no meio dessa aparente bagunça. Espero realmente que isso tenha tornado mais fácil para todos vocês, por mais difícil que seja, assistir a um jogo de futebol americano com consciência total do que está acontecendo lá dentro.

Grande abraço a todos e até o nosso próximo post!