Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Prêmios da Temporada 2016/17 da NBA - Parte II

Steph pode ter ficado fora do 1st Team, mas ganhou uma parte só para ele no texto



Se você está chegando agora: sim, o Two-Minute Warning está de volta!!

E é hora de continuar nossa cobertura de final de ano da NBA. Eu sei que os playoffs já estão rolando e tal, mas eles não vão acabar essa semana. Então antes de mudar de vez de foco, a ideia é falar tudo que tem de pendente da temporada regular.

Para quem perdeu, semana passada nós começamos essa cobertura falando dos prêmios individuais da temporada da NBA. Ou seja, foi uma coluna inteira discutindo os seis prêmios individuais do basquete: Defensive Player of the Year, Rookie of the Year, Coach of the Year, 6th Man of the Year, e Most Improved Player... e claro, a tão discutida e debatida disputa pelo prêmio de MVP.  Simplesmente não me foi possível não dar meus palpites e minha visão em uma questão tão debatida, e foram 8.000 palavras explicando meu ponto de vista.

Então agora é hora de continuar de onde paramos e iniciar nossa Parte II (de 3) dessa cobertura dos prêmios da temporada da NBA para falar dos times ideais da temporada: os três All-NBA Teams, os dois All-Defense Teams, e os dois All-Rookie Teams.

A cobertura acaba na semana que vem com a parte final desse especial: os Prêmios Alternativos da temporada. Não percam!

Parte I: Prêmios individuais da temporada
Parte II: Times ideais da temporada
Parte III: Prêmios alternativos

Vamos ao que importa.

1st, 2nd e 3rd All-NBA Teams

Para quem esqueceu como funcionam os All-NBA Teams, ou como são chamados em português, os quintetos ideais da temporada, um rápido lembrete: cada time é composto por 2 "guards", 2 "forwards" ou alas, e 1 pivô. Sim, isso leva a algumas interpretações dúbias, dúvidas, e algumas "trapaças" (na falta de um termo melhor) para encaixar todos os jogadores. Tivemos inclusive uma dúvida desse tipo nos meus times, como vocês verão em breve.

E ao contrário do prêmio de MVP, onde o critério de "mais valioso" acaba influenciando os votantes, aqui é mais simples e direto: quem foi o melhor jogador, ponto. Isso pode levar, em alguns momentos, a coisas engraçadas - o melhor exemplo foi em 1962, quando Bill Russell foi (corretamente) o MVP da NBA, mas Wilt Chamberlain foi o pivô do 1st Team All NBA. A lógica dos votantes foi simples: nenhum pivô conseguia ser individualmente mais produtivo e dominante que Wilt, mas Russell era claramente o jogador mais valioso para fazer seu time vencer.

Em uma nota relacionada, o Boston Celtics de Russell acabou ganhando o título aquele ano.




1st Team All NBA: Russell Westbrook, James Harden, Kawhi Leonard, LeBron James, Anthony Davis.

Esse primeiro time foi relativamente fácil comparado a outros anos que eu já montei meus prêmios de fim de ano. Apenas três pontos geraram dúvidas e precisaram de decisões mais complicadas.

A primeira foi quais seriam meus dois guards do time titular. Pode parecer maluquice, especialmente considerando que eu coloquei Russell Westbrook e James Harden como meus dois primeiros colocados na disputa pelo prêmio de MVP. Mas quando tiramos o conceito de "mais valioso" e o quão dependentes seus times foram de Russ e Harden, e colocamos apenas o jogador e seu jogo na comparação, é impossível não se impressionar com o que Stephen Curry fez - de novo.

Curry sofreu um pouco com o que eu chamo de "Síndrome de LeBron James", quando o jogador é tão consistentemente fora de série que começamos a tomar isso como dado e avaliar o jogador não pelo que ele fez, mas contra nossas próprias expectativas fora de tamanho: atinja-as, e não fez mais que a obrigação; falhe nisso, e de repente sua temporada não tem mais tanto valor. E foi o que aconteceu com Curry depois de duas temporadas de MVP, uma delas em 2016 não só unânime como sendo também uma das melhores temporadas individuais da história do esporte.

Os casos para Westbrook e Harden já foram feitos na coluna passada, então não vou repetir. Curry, por sua vez, teve um ano "decepcionante" com médias de 25.3 pontos, 4.5 rebotes, 6.6 assistências por jogo (com 1.8 roubos de bola) e médias de arremesso de 46.8 FG%, 41.1 3PT% e 89.8 FT% enquanto provê defesa acima da média e lidera a NBA em +/- em apenas 33 minutos por jogo. Sim, esse é o ano "decepcionante" para Steph Curry.

E enquanto o armador do Warriors não consegue competir com Harden e Westbrook em termos de produção total, Curry tem uma vantagem grande em termos de eficiência: sua linha de 47-41-90 é boa para um eFG% de 58.0, quase obsceno para um jogador que vive no perímetro e tenta arremessos tão difíceis quanto ele - para efeito de comparação, Harden e West tem 53.0 e 45.9 de eFG%, respectivamente - e comete muito menos turnovers, a 3.2 por 36 minutos contra 5.7 e 5.6 de seus rivais. Curry também é um jogador defensivo consideravelmente melhor, defendendo em nível quase All-Defense em 2017, enquanto Westbrook e Harden são defensores abaixo da média - pelo menos.

Mas o que torna Curry realmente especial, e tão difícil de quantificar, é o impacto que ele tem mesmo fora da bola. Seu impacto em uma quadra de basquete não pode ser medido só pela sua produção direta, e não tem paralelo na história do esporte. Por conta de sua movimentação e arremesso mortal, a simples presença de Curry em quadra é suficiente para mudar toda a geografia de uma defesa, abrindo espaços que não existiriam com qualquer outro jogador, e ajudando todo seu time e seus companheiros no processo. Seu defensor tem que marcá-lo mais de perto do que qualquer outro, e um segundo defensor já tem que ficar por perto, e talvez um terceiro já se movimente para esses espaços para cobrir esse vazio... e de repente, mesmo sem fazer nada além de ficar andando pela lateral da quadra, o jogo é totalmente outro para o Warriors. Deveríamos dar crédito para Curry por aquilo que acontece quando ele sequer tem a bola? Sem a menor dúvida - é um fruto direto do seu estilo de jogo, das suas habilidades, e da sua capacidade incrível de usar esses fatores a seu favor e a favor do seu time. Só que embora isso sozinho já faça de Curry um dos jogadores mais importantes do mundo, não existe uma forma objetiva de medir esse tipo de impacto... embora não seja ruim dizer que Curry lidera toda a NBA em +/-, ou seja, o saldo do seu time quando ele está em quadra.

Agora, você leu a última frase do parágrafo anterior e pensou "Mas é claro que ele lidera a NBA, ele joga em um time com Kevin Durant, Klay Thompson e Draymond Green! É uma estatística do time, não dele!". E existe mérito nesse pensamento, é claro: é um número muito influenciado pelo coletivo. Mas vamos então olhar esse número mais de perto, e ver o quanto ele diz sobre Curry em si.

Para começar, é importante destacar que Golden State teve um Net Rating (ou seja, saldo de pontos por 100 posses de bola) de 17.2 com Stephen Curry em quadra, um número obsceno que seria a melhor marca da história da NBA de um time por muito - o Spurs, segundo melhor time da NBA, teve Net Rating de 7.9. Mas o que é realmente interessante é que, com Curry no banco, esse número despenca totalmente para um medíocre +1.0 por 100 posses de bola, basicamente o equivalente ao Miami Heat na temporada. E o argumento começa a ficar esquisito: se o time de Curry é tão bom além dele, como o time não consegue manter o altíssimo nível sem o seu armador? Talvez porque esse armador está fazendo algo de excepcional em quadra que nem sempre aparece nos números diretos, não?

Olhando mais a fundo, o caso fica ainda mais interessante. Considerando apenas os minutos em quadra de Curry SEM Kevin Durant, Golden State ainda tem um excelente saldo de +14.4 por 100 posses que ainda lideraria a NBA com quase o dobro de pontos do segundo colocado. O mesmo também é verdade quando se considera os números do Warriors com Curry e sem Draymond Green (+15.5) e sem Klay Thompson (+13.3), enquanto que a recíproca não é tão verdadeira para qualquer um desses jogadores (+6.5, +6.8, +5.1, respectivamente).

E levando para o extremo, os números de Curry em quadra sem NENHUMA das outras três estrelas do Warriors é ainda mais assustador: +9.7 em 105 minutos SEM Draymond, Klay OU Durant em quadra. Analogamente, os três juntos mas sem Curry tem +6.5 de Net Rating. Em outras palavras, Curry mais um bando de reservas tem números melhores do que o segundo MELHOR time da NBA. E um abraço para aquela conversa de que seus números fantásticos em quadra vem apenas de seus companheiros. A estatística agora parece mais impressionante, não? Adicione a isso o fato de Curry ser o melhor jogador do melhor time da NBA, e não é nada fácil decidir por deixá-lo de fora do 1st Team All-NBA.

Ao final do dia, eu simplesmente não consegui me forçar a tirar Harden ou Westbrook do primeiro time para abrir uma vaga para Curry - não parecia certo deixar Harden, meu MVP, de fora do 1st Team na sua temporada espetacular, e Westbrook também merece ter o reconhecimento devido pelo ano que teve. Então acabei mantendo os dois no 1st Team All-NBA e derrubei Curry (dolorosamente) para o 2nd Team. Mas, a meu ver, a sua temporada não deveu em nada para os outros dois.

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As outras decisões foram um pouco mais simples. A primeira delas, e de certa forma uma decisão chave para destravar a forma como o resto dos meus times iriam cair, era decidir a posição de Anthony Davis. Embora nominalmente um PF, e portanto alguém que entraria no grupo dos "forwards", ou alas, Davis também jogou bastante do ano como pivô em formações mais baixas, e além disso o grupo dos alas já está EXTREMAMENTE atulhado de grandes talentos, enquanto a safra de pivôs desse ano não foi das melhores. Me parecia mais justo colocar Davis de C e abrir espaço para mais um ala no meu time - mas eu só faria isso se realmente tivesse uma justificativa real, dentro de quadra, para isso.

No final, acabei decidindo que fazia mais sentido colocar mesmo Davis como center. De acordo com a distribuição do site Basketball-Reference, Davis jogou 64% de seus minutos essa temporada como pivô nominal das suas formações. Na verdade, das 5 lineups mais usadas pelo Pelicans na temporada, Davis era o pivô em 3 delas. É verdade que o monocelha tem jogado menos na posição depois da chegada de DeMarcus Cousins, mas foi como jogou a maior parte da temporada, e mesmo com a chegada de Boogie ainda tem sobrado tempo para Davis de 5 em meio a suspensões, lesões, e lineups híbridas. Então Davis ficou como um center na minha lista.

Por fim, a decisão final (já que LeBron e Kawhi eram impossíveis de se tirar do 1st Team All-NBA) foi entre quem seria o pivô do 1st Team: Anthony Davis ou Rudy Gobert.

Foi uma decisão bem difícil essa, acabei mudando de ideia 20 vezes, e até agora não estou convencido que escolhi certo. Por um lado, Gobert é um dos 3 melhores defensores da NBA, meu segundo colocado no prêmio de defensor da temporada, e basicamente por tudo que escrevi sobre sua defesa na coluna da semana passada. Mas o que fez de Gobert realmente especial esse ano foi mais do que sua defesa, mas sua evolução ofensiva (combinada com o impacto na defesa, claro). O francês anotou 14 pontos por jogo em hipereficientes 66.3 FG%, se reinventando como uma devastadora arma no pick and roll (Gobert teve média de 1.38 pontos por posse de bola que finalizou a partir do PnR, terceira melhor marca da NBA) e funcionando muitas vezes como foco ofensivo da equipe em alguns momentos em que Gordon Heyward estava fora. Embora não seja um jogador ofensivo versátil ou mesmo de grande USG%, existe grande valor no que o grandalhão fez pelo Jazz nesse lado da quadra.

Talvez ainda mais interessante seja como as estatísticas avançadas adoram Gobert. Embora eu não seja muito fã dessas estatísticas que tentam consolidar tudo em um número só na NBA (um esporte muito coletivo onde é impossível isolar adequadamente o impacto de cada jogador), Gobert lidera a NBA inteira em Defensive Win Shares e é #2 na NBA inteira em Win Shares totais, atrás apenas de James Harden. Gobert também é 13th em Box Score Plus Minus, 8th em VORP, e acabou de se tornar o primeiro jogador da HISTÓRIA da NBA a terminar a temporada no Top5 de Offensive Rating E Defensive Rating individual em uma temporada. É bem impressionante. Independente do que você achar dessas estatísticas, é inegável o ano fantástico que o francês teve, e que seu jogo realmente se elevou esse ano a níveis All-NBA.

Davis é o oposto. Uma legítima superestrela, o principal de Davis sempre foi sua incrível capacidade ofensiva, um dos jogadores mais imparáveis da NBA, capaz de pontuar de qualquer lugar da quadra e contra qualquer defensor, mas cuja defesa não acompanhava essa produção ofensiva. E ao contrário de Gobert, a peça perfeita para um elenco bom e completo, Davis precisou ser a peça central para carregar nas costas um elenco bastante fraco, cortesia de uma das piores diretorias da NBA. E talvez por causa disso, mas praticamente sumiu da mídia e dos círculos de debate uma temporada na qual Davis teve médias de 28 pontos, 12 rebotes, 2.2 tocos por jogo com 50.4 FG% e PER de 27.5... e de alguma forma conseguiu fazer esse time ter um saldo positivo (+1.7 Net Rating) quando esteve em quadra (-8.7 Net Rating no banco). Foi um dos grandes esforços individuais dos últimos anos, e em uma temporada com menos performances históricas - e um time melhor ao seu redor - Davis provavelmente receberia mais crédito pelo que fez esse ano.

Davis também mostrou uma grande evolução do lado menos dominante do seu jogo, o defensivo. O camisa 23 sempre deu muitos tocos por conta da sua capacidade atlética e dimensões absurdas, mas muitas vezes isso era uma forma de compensar mau posicionamento e má movimentação. Não que Davis fosse um defensor ruim, mas não era o jogador que parecia olhando os números de tocos. Esse ano foi diferente: seu posicionamento foi o melhor que eu vi desde que chegou à NBA, usando sua mobilidade e envergadura para fechar linhas de passe sem precisar abandonar a posição perto do aro, bloqueando pivô e armador no pick and roll ao mesmo tempo (a especialidade de Gobert, aliás), e sendo muito mais eficiente em ignorar ações secundárias e focar nas jogadas importantes.

No final, eu acabei decidindo pelo jogo mais completo de Davis sobre a dominação defensiva e estatística de Gobert por causa do quanto Davis precisou fazer dos dois lados da quadra. Gobert é o foco e o centro da defesa do Jazz, e uma peça importante no ataque, mas Davis é o pilar do ataque E da defesa do Pelicans, alguém que precisa dominar para o time ter alguma chance de sobreviver. E aguentar essa enorme carga dos dois lados da quadra e ainda conseguir ser extremamente produtivo, eficiente e dominante colocou Davis um pouco à frente nessa disputa para mim. Mas se você preferir Gobert e derrubar Davis para o 2nd Team, não serei eu a criticar.

(Mas sério, como um jogador de 23 anos com médias de 28-12, 2.2 tocos por jogo, números de eficiência fantásticos e defesa de altíssimo nível de alguma forma escapou da nossa atenção? Mesmo em uma temporada com tantas performances históricas como essa, isso é absurdo)




2nd Team All-NBA: Stephen Curry; John Wall; Kevin Durant; Giannis Antetokounmpo; Rudy Gobert.

Com Stephen Curry sobrando para o 2nd Team, como explicado acima, a dificuldade foi escolher qual seria seu companheiro como guard entre duas opções extremamente válidas: John Wall e Isaiah Thomas.

É outro caso extremamente difícil, e sem uma resposta certa. John Wall teve médias de 23.1 pontos e 10.7 assistências (#2 na NBA) para Washington, com eficiência média (48.2 eFG%, 4.1 turnovers) e defesa bastante instável; Isaiah Thomas teve 28.9 pontos e 5.9 assistências com grande eficiência (54.6 eFG%), defesa consistentemente ruim, e sendo um dos mais devastadores pontuadores de quartos períodos na temporada. Ambos foram o foco do ataque do seu time, e viram os números ofensivos da equipe despencar quando sentavam: de 113.6 pontos por 100 posses a 99.0 para Isaiah, e de 111.2 para 101.3 no caso de Wall.

E ambos fizeram isso do seu próprio jeito único e empolgante. Wall é talvez o jogador mais rápido da NBA, e que combina isso com uma fantástica habilidade nos passes e na manipulação de quadra para gerar mais arremessos de 3 da zona morta do que qualquer outro jogador da liga e causar o terror perto do aro. Wall sempre foi um terror na transição, onde sua capacidade atlética, velocidade e visão de jogo fazem dele um dos melhores jogadores da NBA, mas hoje o armador do Wizards se tornou também um jogador devastador na meia quadra. Wall vai manipular a quadra lentamente, achar o espaço que quer, e chamar a jogada. De um centímetro de espaço, e ele vai explodir por você e atacar a cesta. Se afaste demais, e ele vai te castigar com arremessos de meia distância da quina do garrafão. Traga um defensor extra, e Wall vai achar um companheiro livre. Wall evoluiu de um criador atlético em uma das armas ofensivas mais cerebrais e versáteis da NBA - boa sorte defendendo esse jogador.

Já Isaiah é totalmente diferente de qualquer coisa que eu já vi, um armador de um 1 metro e 75 com um arsenal infinito de dribles, bandejas e arremessos perto do aro que é capaz de finalizar por cima de qualquer gigante e desmontar qualquer defensor. Sua combinação de habilidade ofensiva, resistência física (alguém daquele tamanho que apanha tanto quanto Isaiah não deveria sobreviver mais de duas semanas) e intensidade atacando o aro e desafiando jogadores maiores tornaram Isaiah um dos jogadores mais obrigatórios de se assistir da NBA, e fazer isso com o tamanho que tem fez com que o baixinho se destacasse ainda mais.

O que separa esses dois jogadores realmente é muito pouco. Se você preferir um jogo mais completo, mais criação e melhor defesa (em especial seus patenteados tocos em transição), John Wall é sua escolha; se você valoriza a maior eficiência, carga individual, e pontuação em quarto período, sua escolha é Isaiah Thomas, the King in the Fourth. Eu fiquei com Wall porque acho que é um jogador mais difícil de se preparar para enfrentar, especialmente na defesa: sua defesa é irregular, e caiu na segunda metade da temporada, mas Wall é capaz de defender duas posições em alto nível quando engajado, e você não precisa escondê-lo, ao contrário de Isaiah, que joga duro e com vontade mas sempre será um alvo a ser escondido por causa do tamanho. Por causa disso, eu acho que Wall trás tanto ofensivamente quanto Isaiah (de formas diferentes), mas também tira menos de cima da mesa. Mas a diferença é mínima, e se Isaiah ficar no 2nd Team, terá sido extremamente merecido.

Com Gobert estabelecido na posição de pivô desse time, a única dúvida restante ficou por conta da dupla de forwards. E isso foi definido pela grande dúvida que eu tinha no começo dessa coluna: onde colocar Kevin Durant.

Durant jogou apenas 59 jogos antes de uma lesão no joelho tirar o ala de Golden State de boa parte do resto da temporada (ele terminou com 62 jogos), o que torna impossível colocá-lo no 1st Team sobre LeBron e Kawhi, que jogaram uma temporada completa... mas ao mesmo tempo, a meu ver durante esses primeiros 59 jogos da temporada que Durant disputou, ele estava sendo O MELHOR jogador da NBA, alguém que certamente estaria na disputa pelo MVP se tivesse ficado saudável, e era o melhor jogador (até ali) do melhor time da liga. Durant combinava um alto poder ofensivo (25-8-5 de médias) e extrema eficiência (54-38-89 e um eFG% de 59.4) com defesa de elite, em uma temporada onde KD se reinventou como protetor de aro e durante esses 60 jogos foi uma parte tão integral da defesa do Warriors quanto Draymond. Não teve durante esse tem um jogador melhor ofensiva E defensivamente que Durant, e se não fosse a lesão, estaria na briga para ser não só MVP como talvez DPOY.

E por isso é tão difícil realmente medir KD para esses prêmios. Em geral, eu sou bem rígido com jogos perdidos para times All-NBA - afinal, é uma parte do ano que você deixou de impactar - mas os jogos que KD participou foram tão fora de série, tão absurdamente bons, que foram suficientes para valer uma temporada completa de outros jogadores, mesmo em uma temporada tão boa para alas como essa. Então dando o devido desconto pelos jogos perdidos, e dando o devido crédito pela dominação mostrada nesses dias, acabei colocando Durant como meu quarto melhor ala, atrás de Kawhi, LeBron e Giannis.

E não deveria precisar gastar muito tempo falando de Giannis Antetokounmpo - tudo já foi falado, inclusive na outra coluna. Ainda assim, sua evolução (com apenas 22 anos) em um dos 12 melhores jogadores da NBA, um monstro multifuncional capaz de jogar em 5 posições, ter média de 23-8-5 (com 1.6 roubos e 1.9 tocos por jogo) e proteger o aro num nível Top10 da liga foi um dos pontos mais interessantes e emocionantes da temporada. O potencial do grego é quase ilimitado, e se algum dia ele aprender a arremessar consistentemente, a NBA vai ter que mudar suas regras. E embora isso seja arbitrário, Giannis também se tornou o primeiro jogador da história da NBA a estar no Top10 de uma mesma temporada temporada em pontos, rebotes, assistências, tocos E roubos de bola. E embora isso não influencie na votação, vale citar que Giannis tem uma das personalidades mais carismáticas da NBA e um dos jogos mais únicos que você jamais verá na sua vida. Na era dos chamados "unicórnios" da NBA, Giannis parece estar se destacando como o maior deles.




3rd Team All-NBA: Isaiah Thomas; Damian Lillard; Draymond Green; Jimmy Butler; Marc Gasol.

Com Isaiah ou Wall (acabou sendo Isaiah) garantindo um lugar no terceiro time, acabou sobrando apenas um lugar no time para um verdadeiro exército de armadores merecedores de consideração. Ter que escolher apenas um entre DeMar DeRozan, Kyle Lowry, Chris Paul, Damian Lillard, Mike Conley, Goran Dragic, Klay Thompson e Kyrie Irving foi cruel, e também um tema comum na hora de escolher esse 3rd Team All-NBA que só valoriza o quão boa foi a temporada 2017 da NBA, e o bom lugar que a liga se encontra no momento.

O mais difícil foi decidir o que fazer com Lowry e Chris Paul, que são os dois que se encontram na situação parecida com Kevin Durant: ambos jogaram apenas 60 jogos da temporada, mas nessas partidas que participaram foram melhores do que todos os outros que disputam a mesma vaga. Então se eu votei Durant no 2nd Team, eu não posso excluir Paul e Lowry da disputa por uma questão de critério... mas ao mesmo tempo, nenhum deles foi tão sobrenatural quando esteve em quadra igual Durant, que como disse eu via como o melhor jogador da temporada antes da lesão. Com Durant, ele foi suficientemente melhor do que o resto da competição para compensar a perda dos 20 jogos, mas não tenho certeza que Paul e Lowry atingiram esse nível, especialmente dada a força da competição.

Eu acabei me decidindo por Damian Lillard por alguns motivos. Embora o armador do Blazers não tenha sido tão bom em quadra quanto Lowry e Paul, Lillard jogou 75 jogos da temporada (15 a mais que os outros dois), e teve um enorme impacto em seu próprio mérito: 27 pontos, 6 assistências e 51.6 eFG% não é nada mau em termos de produção, mesmo com uma defesa tão fraca como a sua. Mais importante do que isso, Lillard também tem (em menor grau) aquele efeito Steph Curry descrito acima, que seu arremesso e capacidade de elevar para o chute a qualquer momento força defesas a marcá-lo de forma diferente e abre espaço para todo o time. Lillard também, a meu ver, foi aquele que teve que carregar a maior carga, o jogador que seu time TINHA que produzir em alto nível para seu time ter chance de continuar ganhando... e o fato do armador ter elevado seu nível de jogo e explodido depois do All Star Game com 30 pontos, 6 assistências, 46.7 FG% e 41.3 3PT% de médias enquanto o Blazers subia de nível e fazia sua arrancada definitiva rumo a uma vaga nos playoffs também conta para alguma coisa.

E não me leve a mal, tem motivos de sobra pra votar nos outros, pelo impacto mais completo e consistente de Conley, ou dando créditos a DeRozan por manter o Raptors bem mesmo sem Lowry, ou mesmo valorizando mais a melhor performance indexada de Lowry e Paul. Foi apenas uma opção que tive que fazer em uma discussão muito apertada, e achei que a produção, responsabilidade, produção nos finais de jogos (#3 da NBA em pontos em situações "clutch"), impacto geral e explosão na hora certa para salvar a temporada do seu time colocaram Lillard um pouco acima dos demais.

Seguindo para os alas, tinha um jogador que eu não consegui deixar de fora de jeito nenhum, que foi Draymond Green (na verdade, Green quase tirou Durant do 2nd Team All-NBA). Além de ser o meu voto para Defensive Player of the Year, Green é um jogador dos mais únicos da liga, assim como o seu impacto em quadra. Por causa da sua imensa versatilidade, ele é chave para destravar todo o tipo de jogo e lineup para o Warriors, sendo essa inclusive a chave da sua identidade. Assim como Steph Curry muda toda a geometria de uma quadra de basquete ofensivamente simplesmente estando em quadra, Draymond tem o mesmo efeito do outro lado, com sua capacidade de antecipação e de marcar jogador fechando a possibilidade de vários tipos de jogada antes mesmo delas acontecerem... e isso antes de entrar nos méritos do quanto sua capacidade de agir como armador no ataque destrava as dominantes movimentações fora da bola do Warriors. Stephen Curry pode ser a peça em torno do qual o jogo do melhor time do mundo é montado, mas Green é quem permite que esse jogo seja maximizado em um nível histórico.

Isso nos deixa com uma vaga restante de ala para quatro nomes merecedores: Paul George, Jimmy Butler, Gordon Hayward e Paul Millsap (Blake Griffin teria entrado na briga se não perdesse tanto tempo). Entre os quatro, é difícil não escolher Butler: foi quem jogou mais tempo, foi quem teve a maior responsabilidade de carregar nas costas o seu time, e foi o mais individualmente dominante dos quatro. Em um time disfuncional e sem nenhum tipo de espaçamento, Butler teve que carregar o ano inteiro o ataque nas costas atacando a cesta, cavando faltas, e controlando as ações durante longos minutos. Ele FOI o ataque do Bulls durante grande parte do ano, assumindo de vez o controle quando Dwyane Wade se machucou - e levando o time aos playoffs depois de perder Wade, Taj Gibson E Doug McDermott. Butler teve médias de 24 pontos, 6 rebotes e 5 assistências, e foi um monstro se impondo fisicamente repetidas vezes, atacando o garrafão, e cavando faltas.

Isso nos deixa com apenas o último lugar por decidir, o de pivô. Nessa posição, Davis e Gobert são as certezas, e quatro jogadores brigam pela vaga final: Marc Gasol, DeAndre Jordan, Nikola Jokic e Karl-Anthony Towns.

O primeiro que eu descartei dos quatro foi DeAndre Jordan. Jordan é daqueles jogadores que foi tão overrated que agora virou underrated: depois de alguns prêmios não totalmente merecidos e Doc Rivers falando que o pivô era o melhor defensor da NBA e o novo Bill Russell, todo mundo começou a se cansar disso e procurar motivos para desconstruir o pivô e descreditar esses exageros, o que acabou fazendo todo mundo só olhar os defeitos de DeAndre e esquecer o bom jogador do que ele é. Ainda assim, não consigo colocar na frente dos outros três: DeAndre é uma ótima peça complementar, de grande impacto, mas não é um jogador para construir seu time ao redor, alguém capaz de carregar sozinho um time, como fizeram os outros três.

Quanto a Jokic, o seu grande problema foi ter demorado para realmente engrenar: suas atuações e as atuações do Nuggets foram históricas uma vez que Jokic enfim se consolidou como estrela do time e Denver se reinventou ao seu redor, com seus passes fabulosos e habilidades únicas... mas também demorou dois meses para isso acontecer, período esse onde Jokic veio do banco ou jogou fora de posição. A culpa não é realmente do sérvio, é muito mais um problema do time (sério, como demorou DOIS MESES para o Nuggets concluir que Jokic era seu melhor jogador?!), mas que custou a Jokic quase um tempo considerável de produção em altíssimo nível e acabou tirando ele da disputa.

Towns muito possivelmente será o vencedor da vaga. Ele é a escolha mais chamativa, e ter médias 25 pontos e 12 rebotes arremessando 54% de quadra e 36.7% de três pontos (sim, isso é tão surreal quanto parece). Depois do começo de março até o final da temporada, Towns teve médias de 28 pontos, 13 rebotes, e chutou 58.6% de quadra e 42.5% de três pontos. Isso é tão inacreditável que seu cérebro até desliga.

Mas eu não consigo superar o quão ruins são os números do Wolves com Towns em quadra. Minny é um time -0.9 por 100 posses com Towns em quadra, e só -1.4 com ele fora, uma diferença mínima para alguém tão dominante - e um testemunho ao nível atual da sua defesa, muito fraco. Mesmo durante essa sequência histórica para terminar a temporada, o Wolves na verdade foi melhor SEM Towns: -3.1 com ele em quadra, e -1.0 com ele no banco. E os números ficam ainda mais bizarros quando consideramos sua parceria com o destaque discreto do Wolves nessa reta final, Ricky Rubio: O Wolves teve um bom saldo de +1.0 por 100 posses com Rubio e Towns em quadra, mas quando Towns jogou sem o armador espanhol, esses números despencam para -12.9 por 100 posses de bola (!!!!!!!!!!!!!!!). Analogamente, o time teve um ótimo saldo de +2.5 por 100 posses quando Rubio jogou sem Towns.

Em outras palavras, apesar das performances dominantes de Towns, o time jogou melhor quando não tinha sua presença centralizadora no ataque e sua fraca defesa, colocou as bolas nas mãos de Rubio e deixou que o armador distribuísse o jogo para os coadjuvantes. Então para todas suas qualidades, Towns ainda não está conseguindo canalizar isso e transformar em uma forma de ajudar seu time vencer jogos. Muito disso tem a ver com esquemas e rotações, claro, por isso precisamos dar algum desconto ao pivô e não levar esses números ao pé da letra, mas eles parecem corresponder ao que o teste visual nos diz - que o Wolves ainda não conseguiu achar uma forma de jogar em torno dos talentos excepcionais de Towns.

Então a vaga ficou com quem desde o começo parecia a escolha certa: Marc Gasol. Embora menos dominante e com um jogo menos chamativo que seus concorrentes, Gasol ganha a vaga porque seu efeito se faz sentir em basicamente tudo: sua defesa ainda é bastante sólida, seu jogo ofensivo continua funcionando muito bem para melhorar seus companheiros (com boas screens, movimentação inteligente e passes geniais) e o espanhol até mesmo adicionou uma dose nova de agressividade ao seu jogo, controlando mais a bola, atacando e arremessando mais do que nunca, anotando 19.5 pontos por jogo (maior marca da carreira) e até mesmo se transformando em um excelente arremessador de três (38.8%). O impacto de Gasol pode ser mais discreto, mas ele é muito mais completo e em todas as áreas do jogo, fazendo aquilo que o time precisa sem se importar com seus números, tornando seus companheiros melhores e oferecendo um pilar de estabilidade para um time de Memphis que sofreu ao longo de todo o ano com múltiplas lesões, trocas de lineups e más atuações. Tire Gasol desse time, e ele despenca para a loteria. E por tudo isso, ele foi minha escolha final para fechar meu 3rd Team All NBA.

Bem, hora de passar seguir em frente e falar dos times defensivos da NBA. Mas antes disso...

4th Team All-NBA: Chris Paul, Kyle Lowry, Paul George, Gordon Hayward, Karl-Anthony Towns.

Me processem.


1st and 2nd Team All-Defense

Os times de defesa são apenas dois, mas as regras são as mesmas: 2 guards, 2 forwards, 1 pivô. Mas aqui, ao contrário dos All-NBA Teams, os jogadores já são designados com uma posição fixa, tornando mais difícil o famoso "jeitinho" para encaixar os jogadores mais merecedores independente da posição.




1st Team All Defense: Patrick Beverly, Danny Green, Kawhi Leonard, Draymond Green, Rudy Gobert.

Os três últimos nomes são fáceis - foram minhas três primeiras escolhas para o prêmio de Defensive Player of the Year, e são os três melhores defensores da NBA. Nada a se discutir aqui.

O problema é que eu tinha Andre Roberson - quarto da minha lista de DPOY - como um guard nesse primeiro time. Embora nominalmente Roberson jogue como SF titular do time ao lado de Oladipo e Westbrook, Roberson ainda joga bastante na posição 2, e é mais usado defendendo jogadores de perímetro (especialmente para proteger Westbrook) do que alas. E com o altíssimo número de grandes alas defensivos que tivemos esse ano, colocar Roberson não só era uma forma de reconhecer sua temporada com uma vaga no 1st Team All-Defense, como uma forma de colocar mais alas nos times.

Mas infelizmente não é possível, porque a NBA listou Roberson como apenas um ala na sua relação oficial. Ou seja, não seria possível escalá-lo como guard. Por isso Roberson acabou caindo para o 2nd team (mais sobre isso daqui a pouco) e precisei achar mais guards merecedores da vaga.

Isso é um problema porque, embora tenhamos um altíssimo número de alas tendo temporadas ótimos na defesa (e vários terão de ficar de fora desses times), a safra entre guards não está nem de longe tão boa. Temos alguns com boas temporadas defensivas, sem dúvida, mas nenhuma realmente que tenha se destacado. Chris Paul, eterna presença nesses times, perdeu 20 jogos. Avery Bradley também perdeu 25. Ricky Rubio, outro dos melhores defensores da NBA, teve uma temporada abaixo do seu padrão em um time que sofreu defensivamente durante boa parte do ano. Então temos que mergulhar mais fundo do que seria ideal para achar os candidatos às vagas desse ano.

O primeiro nome, e o mais fácil, é o de Danny Green. Green é aquele tipo de defensor que não chama muito a atenção, que não vai grudar no seu adversário como um Kawhi Leonard e imitá-lo passo a passo até sair com a bola. Mas muito de ser um bom defensor vem não só de fazer boas jogadas, mas de evitar jogadas ruins, e isso é o que mais chama a atenção com Green: ele quase nunca comete erros, está sempre no lugar certo na hora certa, toma as decisões inteligentes, e consegue dar conta do recado mesmo contra os melhores armadores no pick and roll. Ter alguém que sempre faz a jogada certa facilita demais para o resto da equipe produzir.

Green também é talvez o melhor defensor de transição que eu vi na vida, com uma combinação incrível de antecipação, inteligência e leitura de jogo. 3 contra 1? Green consegue antecipar (ou direcionar) quem vai receber a bola por último e vai contestar esse arremesso. Armador atlético puxando contra ataque? Pode ter certeza que Green vai estar entre você e a cesta durante todo o seu caminho, sem fazer falta, e tornando seu arremesso em movimento muito mais difícil. Tem o caminho livre à sua frente? Green vai atacar a bola por trás e te forçar a antecipar ou pegar seu drible. Green é um dos principais motivos pelos quais San Antonio tem uma das melhores defesas de transição da NBA, e embora chame menos atenção que Kawhi, também é parte crucial da melhor defesa da NBA.

A outra posição no perímetro foi mais dificil, mas acabei dando vantagem à excelente temporada de Patrick Beverly. James Harden pode ter assumido de vez o papel de armador principal do Rockets, e sua defesa está bem melhor esse ano, mas Harden não tem capacidade de marcar em tempo integral os melhores jogadores da posição mais atlética da NBA na atualidade. Por isso esse papel cabe a Beverly, um dos defensores mais físicos da atualidade. Beverly é aquele jogador que vai ficar na sua cara, colado no seu corpo, durante todo seu caminho em quadra, não te dando o menor espaço para respirar ou driblar a bola. As vezes isso gera problemas de faltas e lances livres, mas na grande maioria do tempo isso quebra o ritmo dos adversários e mantém aquele que costuma ser o iniciador do ataque sob controle. E por fazer essa tarefa contra geralmente armadores principais, Beverly consegue afetar mais posses de bola, atrapalhando a formação das jogadas no seu ponto inicial. Em um ano sem grandes destaques individuais na posição (defensivamente), o impacto consistente de Beverly foi suficiente para ganhar meu voto no primeiro time.


"2nd Team All Defense!!"


2st Team All Defense: Tony Allen, Chris Paul, Andre Roberson, Giannis Antetokounmpo, Anthony Davis.

Considerando que Roberson e Giannis foram #4 e #5 no meu ballot de DPOY, parece justo que devem ocupar as duas vagas do segundo time nas posições de ala. O que deixa de foram um número enorme de jogadores defensivos muito merecedores, como PJ Tucker, Paul Millsap, Jimmy Butler, Luc Richard Mbah a Moute, Robert Covington, LaMarcus Aldridge e até mesmo Kevin Durant. Lugar de menos para temporadas fantásticas de mais.

Na posição de C, por outro lado, tivemos uma temporada relativamente decepcionante. Os melhores jovens pivôs da NBA são jogadores como Jokic ou Towns, mas ambos são defensores ruins nesse momento das respectivas carreiras. Marc Gasol é sempre uma opção, mas sua defesa caiu um pouco esse ano. Jogadores como Robin Lopez são sólidos, mas que não vão mudar a história da sua defesa. Myles Turner ainda não está pronto. Whiteside parece uma boa opção considerando seus tocos e proteção de aro, mas comete muitos erros de marcação e rotação e pode ser explorado por jogadores físicos que joguem de costas para a cesta. Eu cheguei a considerar DeAndre Jordan, mais explosivo, e Steven Adams, mais consistente, para o prêmio.

Mas por fim decidi premiar a boa temporada e enorme evolução defensiva de Anthony Davis. Eu não vou repetir o que já falei na primeira parte da coluna, mas Davis se tornou um defensor muito mais completo do que só alguém que usa o físico para dar tocos, se tornando uma ameaça no pick and roll. Além disso, e talvez mais importante, Davis teve que assumir um papel defensivo muito mais central do que Jordan ou Adams, que são bons defensores mas são uma parte de uma defesa maior, composta de bons defensores de modo geral. Davis teve que SER a defesa, basicamente, para um time muito fraco do Pelicans, e o fato de ter conseguido desempenhar tão bem esse papel - fazendo do Pelicans a nona melhor defesa da NBA - colocou sua candidatura acima dos demais para mim (New Orleans teve a terceira melhor defesa da NBA com Davis em quadra e a terceira pior sem ele).

Para os guards, o primeiro nome foi o de Tony Allen, um dos legítimos "stoppers" da NBA, aquele defensor individual que vai te guardar no mano a mano e não deixar você fazer nada. Allen perdeu bastante tempo e até suas performances foram mais irregulares, mas quando está saudável e focado, talvez seja o defensor de perímetro mais temido da liga não chamado Kawhi. Seu impacto total não foi TÃO grande que nem em outros anos, mas ainda causou destruição suficiente para garantir a vaga.

E para terminar, minha dúvida do último armador ficou enter Ricky Rubio e Chris Paul. Rubio é um dos melhores e mais subestimados defensores da NBA, um monstro defendendo armadores no pick and roll e talvez o melhor jogador da NBA (depois de Draymond) antecipando jogadas, se movendo de acordo para conseguir roubos ou extinguir uma ação, e recuperando caso de errado. Mas esse ano, Rubio pareceu um pouco menos eficiente com sua usual defesa fantástica, em parte porque o esquema do Wolves não o favoreceu, em parte porque seus colegas de time durante grande parte do ano foram tão mal na defesa. Embora sua defesa individual continue muito boa, ela não beneficiou tanto seu time como de costume.

É pouco, mas essa queda de produção é o que abriu a porta para Chris Paul roubar a vaga apesar de 15 jogos menos. O armador do Clippers simplesmente foi mais dominante quando esteve em quadra, um grude de altíssimo QI de basquete que parece sempre estar atrapalhando alguma jogada, mas também capaz de defender no mano a mano quando necessário. A defesa do Clippers foi melhor que a do Wolves, e embora isso se de por ter companheiros MUITO melhores do que Rubio, Chris Paul foi parte importante disso, não só pela sua atuação individual na defesa, mas também por ser excelente direcionando os lances e os jogadores que marca (e, como costuma marcar PGs, são muitas jogadas) para os pontos que sabe que facilitarão sua defesa e levarão a uma performance coletiva melhor. Paul jogou 15 jogos a menos do que Rubio, por isso a dúvida entre os dois, mas Paul foi mais dominante quando esteve em quadra, e fez mais por uma defesa melhor suficiente para tirar essa diferença. 


1st and 2nd Team All-Rookie

Ao contrário dos outros "times ideais" da NBA, o All-Rookie tem uma gigantesca vantagem: ele não liga para posições, e portanto você pode escolher os 5 melhores jogadores independente de onde eles jogam para montar a equipe. Nada de ter que escalar jogadores fora de posição, ou deixar jogadores mais merecedores de fora só para encaixar de acordo com as premissas. Aqui são 5 jogadores, e ponto.




1st Team All Rookie: Jamal Murray, Malcolm Brogdon, Jaylen Brown, Dario Saric, Joel Embiid.


Brogdon, Saric e Embiid são as três certezas desse grupo, e os três que eu falei extensivamente quando debati o prêmio de calouro do ano. Então não vou voltar no assunto, tudo que tinha para falar sobre os três já foi dito. A questão, então, foi selecionar os dois últimos lugares.

Jaylen Brown
é um caso interessante. Ultimamente, quando tento avaliar a temporada de calouros ou jogadores jovens, eu comecei a focar menos na sua produção total e nos números superficiais, e comecei a valorizar mais aqueles calouros que fazem uma contribuição mais intangível, mas mais significativa, para ajudar times bons e já montados. Isso é algo que se pode notar na minha escolha por Malcolm Brogdon para Calouro do Ano, por exemplo. Um jogador em um time ruim pode estar colocando bons números por ter mais liberdade, mais espaço e menos compromisso com a vitória, de forma que terá mais chances de acumular números, mas exige um nível ainda maior de dificuldade e basquete se adaptar a um time maior, realizar seu papel e jogar de forma a ajudar esse time a vencer.

Com isso chegamos em Jaylen Brown. Seus números não são nada espetaculares - 6.6 pontos e 2.8 rebotes em 17.2 minutos por jogo - e ficaram abaixo de vários outros calouros. Mas Brown foi parte integral da rotação e produção de um time que acabou vencendo 53 jogos e conquistando a #1 seed do Leste, e é claro que não teria a bola nas mãos, a liberdade e a carga para conseguir grandes números. A importância de Brown se deu em outras coisas: sua excelente defesa, sua versatilidade, a energia e a capacidade de jogar (e defender) três posições deu a um time de Boston que estava surpreendentemente magro grande capacidade de variação e adaptação. E não é como se Brown tivesse jogado mal e só estivesse em um time bom: sua produção foi melhorando ao longo do ano, e momentos de evolução foram se notando. Seu arremesso foi respeitável (34% de três), e Brown começou a usar isso a seu favor para abrir espaços e atacar o aro. Em certo momento no final da temporada em que lesões começaram a acumular e Boston ameaçou cair para trás no Leste, a energia e garra de Jaylen foram ingredientes importantíssimos para manter o Celtics vivo, ao ponto de que Brad Stevens não conseguia mais deixá-lo de fora da rotação. Esse tipo de impacto para mim é muito mais relevante do que alguém como Buddy Hield, por exemplo, que teve bons números mas pouco fez para ajudar seu time a vencer (mesmo que não por sua culpa).

A vaga final ficou a ser decidida entre Jamal Murray e Buddy Hield. À primeira vista, Hield parece ter sido melhor: sua média na temporada foi de 10.6 pontos, 3.3 rebotes, 1.5 assistências em 42.6 FG% e 39.1 3PT%, contra 9,9-2.6-2.1 em 40.5 FG% e 33.4 3PT%. Mas por isso é tão importante e interessante olhar aquilo que falei acima, sobre diferenciar o jogador que está contribuindo para um time competitivo, e o jogador que tem liberdade para fazer o que for melhor para ele. Pegando apenas os números de Hield quando esteve no Pelicans, um time que estava brigando por playoffs e não podia se dar ao luxo de deixar Hield jogar como queria, seus números são inferiores aos de Murray: 8.6-2.9-1.4, 39.2 FG%, 36.9 3PT%, e em geral sofreu muito mais para se encaixar e contribuir organicamente para seu time do que Murray, que com seu bom uso da gravidade, movimentação sem a bola e maior QI de basquete conseguia contribuir de forma muito mais orgânica para o Nuggets.

Os números de Hield estão melhores no total por causa do seu tempo em Sacramento, onde foi o centro do time depois do All-Star Game e teve total espaço e condições de jogar como achasse melhor sem nenhum compromisso de levar seu time a vitórias. Hield teve média de 15 pontos por jogo em 48-43-81 nos arremessos, e merece sem dúvidas crédito por isso, assim como Saric merece créditos por jogar tão bem no fraco Sixers, mas na hora de comparar dois jogadores tão próximos e parecidos, eu preferi premiar o jogo mais coletivo e o impacto em um time que disputou até o fim uma vaga nos playoffs de Murray.






2st Team All Rookie: Buddy Hield, Caris LeVert, Rodney McGruder, Juancho Hernangomez, Marquese Chriss.

Depois de Hield, foi uma classe de calouros difícil de separar. Tivemos muitos jogadores que jogaram ao longo de todo o ano, tiveram mais minutos e mais oportunidades, mas não tiveram uma produção diferenciada, e outros que jogaram menos (em geral na reta final do ano) mas que pelo menos tiveram atuações de mais destaque. Separar entre os demais novatos é uma tarefa que envole mais critérios e observações pessoais do que outra coisa.

Entre as demais opções, Rodney McGruder foi um dos nomes que não podiam ficar de fora. Se você nunca ouviu falar de McGruder, é porque o SG do Miami Heat é um calouro de 25 anos que não foi draftado em 2013 e passou sua carreira desde então entre a liga húngara e a D-League. Para a sorte de McGruder, Miami é um dos melhores times da liga achando esses talentos, e McGruder se aproveitou disso para achar seu lugar na NBA. O calouro pode não ter o jogo mais chamativo e produtivo da classe, mas foi o titular de Miami durante a maior parte da temporada (65 jogos), jogou 25 minutos por jogo, e contribuiu bastante dentro de quadra: seu jogo não é baseado em números, mas em fazer as pequenas coisas que ajudam seu time em quadra - tomar decisões rapidamente, fazer as jogadas certas, defender em alto nível, saber seu papel e não tentar fazer o que não sabe. Pode parecer besteira, mas existe muito valor nisso. Miami não era o time com mais talento do mundo, e muito de seu sucesso veio de cada jogador fazer o melhor possível seu papel tirando o mínimo possível de cima da mesa, e é exatamente o que McGruder faz. Ótimo achado.

Caris LeVert era outro jogador que desde o começo não poderia ficar de fora. Vocês talvez não lembrem, mas LeVert já foi um prospecto Top10 do Draft que despencou por causa de múltiplas lesões e temporadas perdidas em Michigan, e é exatamente esse tipo de talento de alto potencial que um time como o Brooklyn Nets precisa apostar nesse momento. E saudável, LeVert é um ótimo jogador, um ala muito versátil capaz de defender em alto nível, bom arremessador, e um criador muito avançado para a posição com altíssimo QI de basquete. LeVert começou o ano machucado mas jogou 57 jogos, e seu crescimento foi um dos grandes motivos pelos quais o Nets cresceu tanto nos últimos dois meses da temporada. Se ficar saudável, foi um grande achado de um time que precisa urgentemente desses talentos.

Juancho Hernangomez foi um dos jogadores que mais me surpreendeu dessa classe. Confesso que não esperava muito, mas Hernangomez se mostrou logo um talento de nível NBA, não como estrela, mas como o tipo de role player que todo time precisa: capaz de jogar tanto de SF como de PF, defender em alto nível, e chutar bem de fora (41.1 3PT%). Alas com esse tipo de habilidades são extremamente valiosos na NBA moderna, e Hernangomez mostrou já ótima capacidade de encaixar seu jogo em um bom time brigando por playoffs.

Por fim, eu fiquei meio triste de colocar Marquese Chriss no time, porque é um jogador do qual não sou fã. Apesar do talento e atleticismo, é um jogador que não le muito bem o jogo, e vive mais da produção individual do que em se encaixar em um time e maximizar o coletivo. Não sou muito fã de jogadores assim, e a falta de QI de basquete me incomoda, um jogador que não sabe exatamente em velocidade de NBA o que deve fazer a cada momento. Mas se falamos da temporada 2017 apenas, Chriss jogou durante todo o ano (82 jogos), foi titular por 75, totalizou mais de 1700 minutos (21 por jogo) e ainda conseguiu produzir bem (9 pontos, 4 rebotes, 0.7 roubos, 0.8 tocos, 32 3PT%). Embora não seja o jogador mais produtivo ou eficiente, ou mesmo o estilo que eu mais valorize, a produção bruta total de Chriss durante mais tempo foi o suficiente para o ala se destacar em um ano onde os calouros não tiveram as melhores temporadas.

Com minhas melhores desculpas a Tyler Ulis, Skal Labissiere (tarde demais), Brandon Ingram (vai ser bom, mas foi muito mal durante muito do ano), Yogi Ferrell, Patrick McCaw, Paul Zipser, Domatas Sabonis (Westbrook assassinou sua temporada de calouro), Kuzminskas, Thon Maker (mais flashes do que produção ainda), Willy Hernangomez e mais uns três ou quatro.

Fontes: Synergy Sports; NBA.com/stats; Basketball-Reference; NBA Stats & Info; e uma tonelada de horas no NBA League Pass.

Agradecimentos especiais ao ótimo Scott Rafferty pela ajuda com alguns pontos.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Prêmios da Temporada 2016/17 da NBA - Parte I

Um resumo das redes sociais nas últimas semanas


Se você está chegando agora: sim, o Two-Minute Warning está de volta!!

E como prometido na coluna da semana passada, chegou a hora de falar de basquete. E bastante. A temporada terminou essa quarta feira, os playoffs começam sábado, e temos muito a tratar antes de atingirmos a parte realmente crítica da temporada da NBA.

Mas como de modo geral a primeira rodada dos playoffs é principalmente burocrática, com só algumas poucas séries realmente sendo divertidas e oferecendo potencial de surpresas, tem algo mais urgente para falarmos: os prêmios da temporada.

Eu não lembro de uma temporada mais polarizadora nesse sentido, liderada por uma discussão para MVP que atingiu proporções que eu não lembro de ter visto antes na minha vida. Para onde quer que você vire, as pessoas estão falando a respeito da corrida pelo prêmio, e atrasando em uns 20 anos a parte analítica do basquete no processo: alguns estão buscando se aprofundar cada vez mais nas análises, nas comparações, e tentando atingir um critério cada vez mais racional para separar os candidatos... enquanto que a grande maioria só está preocupada em gritar mais alto e usar parâmetros arbitrários para discutir.

Então como alguém que sempre tenta trazer essa visão mais analítica e crítica, eu não poderia deixar de passar a chance de dar minhas opiniões e trazer minhas visões para a mesa. Além disso, eu gosto de discutir esses prêmios individuais, e a chance que eles nos oferecem para discutir pontos específicos e interessantes da temporada.

E essa na verdade é uma coluna gigante que foi separada em três partes. Essa é a Parte I, que trata dos prêmios individuais da temporada: MVP, Defensive Player of the Year, Rookie of the Year, Coach of the Year, 6th Man of the Year, e Most Improved Player.

A Parte II e a Parte III virão semana que vem, com meus palpites para os times da temporada (All NBA, All Rookie, All Defense) na Parte II, e os Prêmios Alternativos na Parte III.

Parte I: Prêmios individuais da temporada
Parte II: Times ideais da temporada
Parte III: Prêmios alternativos

Vamos ao que importa.


Most Improved Player



Então vamos começar pelo prêmio que eu mais detesto: Most Improved Player, ou o jogador que mais evoluiu na temporada.

O principal motivo para eu detestar esse prêmio é que, embora todos os prêmios da NBA carreguem consigo um bom nível de subjetividades e tenham critérios muito pouco definidos, esse prêmio é de longe o que existe as piores interpretações. O prêmio é para o jogador que "Mais evoluiu", o que indicaria um jogador que fez grandes evoluções no seu jogo e atingiu um nível novo do que o esperado. Mas na grande maioria do tempo, esse prêmio é dado para algum jogador talentoso que por algum motivo viu um aumento de minutos e/ou de papel e viu seus números aumentarem... mesmo que isso tenha acontecido com o jogador fazendo exatamente o que sempre fez antes. Não acredita? Olhe os números abaixo:

A: 17.2 PPG, 9.0 RPG, 1.3 APG, 1.0 BPG, 43.0 FG%, 39.3 3PT%, 21.2 PER
B: 18.0 PPG, 8.3 RPG, 1.0 APG, 0.5 BPG, 43.3 FG%, 39.3 3PT%, 18.1 PER

Esses são os números por 36 minutos de Ryan Anderson nas temporadas 2011 e 2012 da NBA. Anderson venceu o prêmio de MIP em 2012 com números de produção virtualmente idênticos aos da temporada anterior. Então o que aconteceu? Mudanças no elenco do Orlando Magic resultaram em um aumento de minutos para Anderson, que passou de 22 minutos por jogo para 33 minutos por jogo em 2012. Esse aumento em minutos levou a um aumento proporcional na produção bruta de Anderson, e foi isso que os votantes viram e acabaram por elegê-lo o jogador que mais evoluiu de 2012... embora Anderson fosse basicamente o mesmo jogador de um ano antes, fazendo as mesmas coisas, mas só com mais minutos. Para mim isso não é evoluir. Anderson merece crédito por manter a produtividade com uma maior carga, sem dúvida, mas não houve realmente uma mudança no jogador que ele era.

Dito isso, a verdade é que temos bons candidatos a esse prêmio na temporada 2016/17 quando focamos em jogadores realmente mudando seus jogos. E de uma variedade bastante impressionante: temos veteranos que adicionaram algo ao seu repertório para tornar seus times mais eficientes (como Marc Gasol, que se tornou um letal arremessador de 3 pontos da noite para o dia); temos jovens jogadores finalmente colocando seus talentos no lugar e atingindo um novo nível de jogo (como Otto Porter e Bradley Beal); e até veteranos dando passos lentos na direção de um nível maior (Gordon Hayward).

Mas passando por todos os candidatos, esse prêmio para mim ficou entre 5 jogadores, que já é um número muito maior do que o normal, e uma mudança muito bem vinda.

Entre os cinco, talvez o caso mais interessante seja o de James Johnson. Um veterano de menor expressão, Johnson passou sete anos na NBA vagando de time em time, sem nunca achar seu lugar ou seu nicho dentro da NBA. Até que em 2017, no seu quinto time e oitavo ano de NBA, Johnson perdeu 18 quilos e se reinventou como um point-center, capaz de jogar em cinco posições, tapar todo tipo de buraco, e marcar todos tipos de jogadores. Sua versatilidade e energia se tornou uma parte chave de um surpreendente time do Miami Heat, alguém que funciona como um canivete suíço que permite a Miami usar todo tipo de formação e maximizar seu talento. Johnson só não está mais alto na minha lista por um motivo: foi menos uma questão de Johnson desenvolver habilidades novas, e mais de achar um time e um papel que maximizasse as habilidades que ele já possuía. Ainda assim, existe valor e dificuldade de sobra nesse tipo de transformação que JJ fez, e a forma como adaptou-se a essa função precisa ser reconhecida.

(Em tempo: a emergência de Johnson como uma das personalidades mais divertidas da NBA - um faixa preta em kickboxing, lutador invicto de MMA (7-0) e kickboxer (18-0) que enterra na cabeça de todo mundo, da passes insanos ( no bom e no mau sentido) o tempo todo e joga em sexta marcha o jogo inteiro não afetou nesse ranking).

Harrison Barnes é outro exemplo bom, um jogador que veio para a NBA e cresceu em meio a um esquema extremamente favorável, sendo sempre a terceira ou quarta opção de um time que prezava pelo espaçamento e movimentação de bola, e que de repente recebeu uma bolada na free agency para ser o foco de um time muito menos talentoso. Embora uma parte seja a questão de um jogador com um papel menor vendo seus números aumentarem em uma nova situação, a adaptação de Barnes em Dallas foi muito maior do que apenas isso, mostrando grande evolução com pontuador em isolações e com a bola nas mãos de modo geral - e, mais importante, se adaptou de forma impressionante a um novo papel como small ball PF, jogando sem a bola e marcando jogadores maiores em tempo quase integral. Pouca gente apostou nisso, mas Barnes está valendo cada centavo do contrato que recebeu.

Um candidato mais falado e cotado ao prêmio é Nikola Jokic, o fantástico pivô passador de Denver. Esse, na verdade, é um candidato que eu não gosto tanto quanto outros: É o caso onde me parece mais Jokic recebendo uma atribuição maior e um esquema mais focado nas suas habilidades já existentes. Mas ainda assim, a forma como Jokic cresceu e expandiu seu jogo dentro do que já fazia esse ano foi espetacular, e cada passe sem olhar nas costas da defesa foi um dos pontos altos da temporada. Mesmo que as habilidades sejam as mesmas, o nível delas sendo posto em prática é muito maior, e fazer isso mantendo a eficiência merece sua indicação ao prêmio.

Já um nome muito menos falado, mas mais merecedor, é Rudy Gobert. Gobert sempre foi conhecido por sua fantástica defesa, graças à sua enorme envergadura, mas seu desafio sempre foi conseguir fazer o suficiente no resto do jogo para justificar os minutos e o espaço em quadra. E foi o que fez essa temporada: Gobert sempre foi um jogador feroz e atlético cortando para a cesta, mas parece muito mais confortável do que nunca nessa função. O francês desenvolveu uma série de movimentos para se reposicionar ou melhorar o timing dos arremessos quando recebe a bola, e está muito mais inteligente na hora de saber quando fazer um corte mais curto, e quando cortar com força para receber um lobby. Sua média subiu para 14 pontos por jogo, de longe a maior marca da carreira, e está arremessando 66.6%. E como se não fosse suficiente, Gobert está ainda melhor defensivamente essa temporada... mas falamos disso daqui a pouco. Como o forte de Gobert sempre será sua defesa, acabamos notando menos as evoluções que fez no resto do seu jogo, mas essa evolução foi o que transformou Gobert de um ótimo defensor em um dos melhores - talvez O melhor - pivô da NBA. Aliás, vale citar que Gobert é #2 na NBA INTEIRA em Win Shares. Isso me parece significante.

Mas eu não consigo não dar esse prêmio para Giannis Antetokounmpo. Apesar da pouca idade de Giannis, o salto de "bom jogador" para "estrela" é o mais difícil de fazer, e é exatamente o que ele fez: Giannis está dominando jogos rotineiramente, e mais do que nunca o grego capitalizou na sua versatilidade pra se tornar o unicórnio mais versátil e dominante da NBA. E não só ofensivamente, onde Giannis agora rotineiramente tem jogos de 25 pontos e funciona quase como armador, mas principalmente sua enorme evolução defensiva foi o que destravou uma nova dimensão para todo o time do Bucks: Antetokounmpo tem média de 1.9 tocos e 1.7 roubos por jogo, mas mais importante, Giannis é o QUINTO melhor jogador da NBA protegendo o aro, segurando oponentes a 46.3 FG% perto do aro. O grego se tornou essa temporada o primeiro da história a ficar entre os 20 melhores jogadores da temporada em pontos, rebotes, assistências, roubos E tocos. Isso é surreal.

Quantos jogadores são capazes de funcionar como protetor de aro na defesa E armador principal no ataque? Sua capacidade de fazer qualquer função ofensiva E defensiva fazem dele um legítimo coringa, capaz de destravar qualquer lineup para Milwaukee e funcionando como um missmatch ambulante dos dois lados da quadra. E não é como se o valor de Giannis viesse só de sua versatilidade: ele é um dos pontuadores mais dominantes da NBA, com média de 23 ppg em 52.2 FG%, além de 5.4 de assistências por jogo. E acima de qualquer outra, a evolução absurda de Giannis em 2017 como um dos 12 melhores jogadores da NBA é a que mais pode afetar o balanço de poder da liga nos próximos anos.

(Minhas mais sinceras desculpas a Isaiah Thomas, que eu decidi por não incluir na votação simplesmente porque não acho que ele esteja fazendo nada de muito diferente do de sempre, exceto a parte de acertar sempre. Um dos momentos mais difíceis da coluna)

Ballot final: 1. Giannis Antetokounmpo; 2. Rudy Gobert; 3. Harrison Barnes; 4. Nikola Jokic; 5. James Johnson.


Coach of the Year





Para quem não conhece, a minha postura sobre esse prêmio é a seguinte: Greg Popovich é o melhor técnico da (história da) NBA e deveria ganhar esse prêmio todo ano. Simples assim. Então, por esse motivo, eu NÃO coloco Popovich no meu ballot anual, para dar mais debate e graça para o prêmio. Ele é o vencedor honorário, e esse ano não é diferente: o que fez para remontar seu time sem Duncan, transformando o elenco e o banco, transformando David Lee em um bom defensor, e mantendo seu time como o segundo melhor da NBA foi digno das lendas... e é só mais um dia no escritório para Popovich.

Então isso posto, a disputa desse ano de CoY me parece estar aberta entre dois nomes: Eric Spolestra e Mike D'Anthony.

Se for para dar um palpite, eu acho que D'Anthony vai ganhar. Ele é a história "sexy" do ano, o técnico rejeitado que foi piada ao redor de toda a NBA quando foi contratado e levou o desacreditado Rockets a um terceiro lugar no fortíssimo Oeste, bem como o segundo melhor ataque da liga. Esse é o tipo de coisa que acabamos esquecendo ao longo de uma temporada bem sucedida, mas a offseason do Rockets foi ridicularizada ao redor da NBA: a projeção de Vegas para o time era de vencer 41 jogos, e todo mundo deu risada do absurdo que parecia na época juntar Mike D'Anthony com James Harden e seus vines defensivos, mais as contratações de Eric Gordon e Ryan Anderson. A defesa desse time, a narrativa dizia, seria uma piada que impediria o time de ser competitivo.

Engraçado como as coisas mudam, não é mesmo? Hoje em dia todo mundo fala do ótimo encaixe que foi Harden e suas habilidades sobrenaturais de criação com o esquema aberto e veloz de D'Anthony, sobre o "ótimo" elenco de apoio do Rockets, e por ai vai... sendo que foram as mesmas coisas que todo mundo criticou seis meses atrás.

E D'Anthony tem bastante mérito nessa mudança. Seu Rockets sem nenhum All-Star ao redor de James Harden ainda não tem uma boa defesa, só 17th na NBA, mas sem dúvida já é muito melhor do que esperavam, e mais do que suficiente para se vencer se associado a um ataque devastador... o que o Rockets tem de sobra. Tirando apenas a Máquina da Morte que é o ataque de Golden State (surreais 113.3 pontos por 100 posses de bola), Houston tem o melhor ataque da NBA (111.7) e terminará a temporada com a terceira melhor campanha da liga. E isso aconteceu principalmente porque cada uma das peças falhadas que compunham esse elenco foram colocadas no lugar certo, na hora certa, para fazer o time como um todo funcionar. E, talvez ainda mais importante, seu gênio ofensivo foi exatamente o que o time precisava para enfim liberar todo o enorme potencial de James Harden, alguém que não só é um gênio em termos individuais como é alguém que torna todos os seus companheiros melhores em quadra. Existe um equilíbrio difícil entre maximizar o jogador e maximizar o elenco, mas o Rockets encontrou muito bem esse balanço em 2017, e D'Anthony merece os créditos.

Mas com todo o respeito ao ótimo trabalho de D'Anthony, o meu voto vai para Spolestra porque eu acho que o que ele fez em Miami é o mais "puro" que se pode chegar que coloca em evidência o trabalho de um grande técnico. Não existe um sistema, não existe uma estrela: Spolestra simplesmente pegou um elenco muito fraco, com peças muito díspares e que não apresentavam nenhum tipo de coesão, e fez um trabalho absolutamente fantástico em montar uma forma de jogar que encaixa todas essas peças no lugar certo, colocando cada jogador em posição de maximizar suas forças e minimizar suas fraquezas, e montou esse complicadíssimo quebra cabeça em um time coeso e eficiente que está buscando uma das maiores reviravoltas dentro de uma mesma temporada que eu lembro de ter visto.

Mesmo depois de perder Justise Winslow, as coisas encaixaram em Miami: Dragic voltou a jogar em nível All-NBA, Dion Waiters pareceu uma estrela as vezes, James Johnson (que ainda não apareceu pela última vez nessa coluna) e Wayne Ellington estão jogando o melhor nível de basquete da vida, Tyler Johnson de repente não tem um contrato tão absurdo assim... existe simplesmente um número enorme de coisas dando certo para Miami, onde deveriam estar dando errado. O time pode não chegar aos playoffs por conta de um começo ruim e da lesão de Waiters, mas é muito raro ver um time com tão pouco talento jogando tão bem e colocando tanto medo no resto da NBA dessa maneira, um testamento ao trabalho de um dos melhores e mais subestimados técnicos da NBA.

Também queria deixar uma menção honrosa para Scott Brooks, muito criticado em Oklahoma City mas que deu vida nova a John Wall e o Wizards fazendo o que faz de melhor: desenvolver jogadores. Bradley Beal está jogando melhor do que nunca e merecia consideração séria para ser um All-Star, Otto Porter enfim se desenvolveu em um jogador completo e com um dos arremessadores mais certeiros da NBA de bônus, Kelly Oubre virou um jogador muito versátil e valioso... e claro, John Wall saltou um nível e estaria na conversa para MVP se essa temporada não tivesse quatro aliens disputando. E quando você pensa a respeito, para um time sem grandes ativos ou espaço salarial, a forma de evoluir é através da evolução dos talentos jovens que já estão no elenco. Foi o que aconteceu com Washington, e embora parte possa ser só o efeito de substituir um técnico péssimo, Scott Brooks merece mutos créditos pela ótima temporada do Wizards.

Ballot final: 1. Eric Spolestra; 2. Mike D'Anthony; 3. Scott Brooks; 4. Brad Stevens; 5. Quin Snyder.
Coach of the Year Emérito: Greg Popovich.


6th Man of the Year





Outro prêmio que eu não gosto por causa do critério utilizado pelos votantes. Em geral, esse prêmio é dado para aquele jogador que vem do banco e anota o maior número de pontos, como ilustrado pelo fato do Jamal Crawford ter vencido esse prêmio três vezes. Eu acho um critério muito pobre: claro que existe valor em alguém para pontuar vindo do banco quando seus titulares estão descansando, mas existe muito mais coisas que um 6th Man pode fazer e que acabam esquecidas por quem vota nesse prêmio. Existe muito valor em ter, por exemplo, um sexto homem capaz de jogar em mais de uma posição e mais de um estilo de jogo, porque isso oferece bastante flexibilidade sobre com quem ele vai jogar, e permite mais opções ao técnico. Sua capacidade de encaixar com os titulares para gerar lineups ainda melhores, ao invés de só jogar com os reservas. Ou talvez ele tenha alguma qualidade específica que seja crucial para destravar alguma característica que o time precisa, como por exemplo James Johnson (três vezes!) esse ano com sua capacidade de jogar quase de armador no ataque e de pivô na defesa.

Para mim, pessoalmente, é isso que faz os melhores sextos homens da NBA: jogadores cuja sua função vinda do banco não é apenas manter o time flutuando sem os titulares, mas transforma a própria forma do time jogar, funcionando como um sexto titular de fato, alguém integral à identidade e ao sistema da própria equipe. Mas jogadores assim são raros, e a exceção à regra. A grande maioria dos bons reservas são reservas por um motivo. Mesmo com times ficando cada vez mais inteligentes e atento ao encaixe entre seus jogadores, o que deixa mais bons jogadores vindo do banco, ainda não é comum ver aqueles reservas tipo Manu Ginobili que estão no banco porque sua presença lá abre uma nova dimensão inteiramente diferente para a equipe.

Mas também é por esse motivo que meu voto vai para Andre Iguodala. Iggy não seria titular no Warriors de qualquer maneira por causa da presença de Kevin Durant, mas de certa forma, ele é a personificação de tudo que faz do Warriors tão bom: sua capacidade de jogar múltiplas posições , que permite qualquer tipo de lineup; sua versatilidade defensiva e capacidade de trocar marcações, núcleo da defesa #2 do Warriors; seu altíssimo QI de basquete e habilidade de passar a bola tomando boas decisões; e o fato de ser um jogador extremamente coletivo e que não liga a mínima para estatísticas. Sua presença em quadra destrava a possibilidade do Warriors jogar qualquer estilo e com qualquer formação, e muitas vezes é a entrada de Iggy que injeta a energia e vontade que as vezes falta a Golden State.

E em particular foi sua atuação após a lesão de Durant que garantiu esse prêmio para mim. Não só Iggy não entrou na formação titular do time - o que seria o movimento óbvio - como foi quando Iguodala elevou seu jogo um novo nível, retomou o auge da sua intensidade defensiva, e foi um monstro fazendo tudo o que o Warriors precisava, quando precisava, e assumindo os bastidores quando não era mais necessário. Iggy é peça crucial da identidade e do estilo de jogo do melhor time da NBA, e isso vale alguma coisa para mim. Embora não atrapalhe que Iguodala lidere todos os candidatos ao prêmio em Win Shares, com 6.9.

Aliás, junto dos meus votos a esse prêmio deixo minhas melhores desculpas aos reservas do Spurs, que infelizmente ficaram de fora do Top5. O banco de San Antonio é o melhor da NBA e chave para seu sucesso, mas é difícil demais escolher um jogador mais importante em meio a um grupo cujo sucesso depende da coletividade. Então entre David Lee, Dewayne Dedmon, Manu e Patty Mills, eu simplesmente não achei que um deles deveria entrar acima de outros candidatos ao prêmio, mas fica o registro da força desse coletivo.

Por fim, minha decisão final ficou entre 5 jogadores para as últimas 4 vagas: Tyler Johnson (14-4-3, 37 3PT% para Miami), James Johnson (já citado), Enes Kanter (14-7, 57 FG% e um papel crucial em OKC mesmo jogando um pouco fora do seu estilo), Greg Monroe (mais daqui a pouco) e Lou Williams (18-3-2). Eu acabei deixando Lou Will de fora por dois motivos simples: seus números são ótimos, mas isso foi principalmente como foco do ataque de um time péssimo (Lakers) - ao contrário dos outros, que tiveram que fazer sua contribuição de forma muito mais balanceada para times que dependiam disso para brigar por playoffs - bem como sua queda de produção desde a troca para Houston. Não foi uma decisão fácil.

Queria também aproveitar para destacar Greg Monroe pela reviravolta que foi sua temporada, mudando totalmente sua performance defensiva para se tornar um jogador mais balanceado e fundamental para a temporada do Bucks. Seus passes são ótimos, sua defesa melhorou muito, ele ainda é alguém capaz de cavar alguns pontos quando o ataque fica estagnado, e não é a toa que as melhores lineups do Bucks esse ano tem Monroe envolvido.

Com minhas melhores desculpas a Williams, Zach Randolph, Eric Gordon, Kelly Oubre e o banco inteiro do Spurs.

Ballot final: 1. Andre Iguodala; 2. Greg Monroe; 3. James Johnson; 4. Tyler Johnson; 5. Enes Kanter.


Rookie of the Year




Esse não foi um bom ano para os calouros da classe 2016 da NBA. Na verdade, em termos de produção imediata, foi a pior produção de uma classe de calouros desde a 2000, amplamente considerada uma das piores (talvez A pior) classe de Draft da história da NBA. Isso não quer dizer, é claro, que a classe seja ruim, não tenha futuro, ou esteja fadada ao fracasso. Um ano é pouquíssimo para julgar algo assim, e muito ainda vai acontecer daqui para frente. É sempre importante lembrar de ter paciência. Não vamos poder realmente julgar o que essa classe de calouros foi até daqui a pelo menos três anos.

Isso posto, HOLY CRAP, esse primeiro ano foi péssimo. A primeira escolha do Draft, Ben Simmons, não jogou um minuto sequer e perdeu a temporada com uma lesão no pé, em meio a mais um show de incompetência dos médicos e da nova diretoria da Philadelphia. Brandon Ingram, a #2, tinha literalmente o pior WS da NBA inteira até semana passada. Dragan Bender, #4, teve média de 13 minutos por jogo antes de perder o resto da temporada com uma lesão no pé. O #5, Kris Dunn, um calouro de 23 anos, teve média de 3.7 pontos por jogo, arremessando 37.7% de quadra e 29.6% de 3PTs. Você entendeu a ideia.

O melhor calouro dessa classe em 2016 foi, adequadamente, Malcolm Brogdon, uma escolha de segunda rodada (#36 geral). Brogdon já tem 24 anos, então seu potencial não é muito grande, mas o que ele já tem no momento é mais do que suficiente para fazer dele um bom jogador de NBA. O jogo de Brogdon não é chamativo ou particularmente explosivo - embora suas belas cravadas sobre LeBron e Kyrie não tenham sido nada más - mas ele é extremamente valioso por causa de duas coisas: ele faz tudo bem, e ele não faz nada mal.

Parece besteira, mas no basquete de hoje isso é mais valioso do que se pensa: ofensiva e defensivamente, o foco dos times é atacar qualquer fraqueza ou ponto vulnerável do adversário, e jogadores que não oferecem isso são extremamente valiosos na NBA moderna. Essa capacidade de fazer tudo também permite a Brogdon jogar em várias posições e em qualquer função: armar o time, jogar sem a bola quando Giannis está de armador, defender armadores, defender alas, espaçar a quadra... Brogdon faz tudo, e seu altíssimo QI de basquete faz com que ele sempre tome a decisão certa na hora certa. É o tipo de jogador que faz o time melhor, e todo mundo precisa na NBA moderna. Alguém capaz de armar o jogo até certo ponto, chutar 40% de três, defender em alto nível e não ter nenhum defeito no seu jogo é muito valioso, e é o que faz Brogdon liderar a NBA com folga entre calouros em Win Shares (4.1).

Mas essa falta de bons jogadores da classe de 2016 acabou sendo ao mesmo tempo aumentada e ofuscada por causa de dois calouros que não eram desse Draft: Joel Embiid e Dario Saric, ambos escolhidos em 2014 por Sam Hinkie e que só foram estrear na NBA esse ano.

Acho que antes de mais nada podemos concordar que Joel Embiid foi DE LONGE o melhor jogador dessa classe de calouros quando esteve em quadra. Esqueça calouro: Embiid foi um dos melhores JOGADORES da NBA em um nível por-minutos, com médias de 29-11-3 e 3.5 tocos por 36 minutos. Além de ser um monstro ofensivamente, uma combinação de atleticismo explosivo, habilidade para finalizar, ótimo domínio de bola e alcance de 25-ft, Embiid também foi um dos defensores mais dominantes da temporada, liderando toda a NBA em proteção de aro - adversários chutaram 41% perto do aro contra Embiid, 2.5 pontos melhor que o segundo lugar - e transformando o Sixers na MELHOR defesa da NBA nos minutos que esteve em quadra: o time teve 99.1 de  Defensive Rating com Embiid em quadra. San Antonio lidera a NBA com 100.9. O Sixers alias teve +3.2 de saldo por 100 posses de bola com Embiid em quadra, equivalente à 7th melhor marca de toda a NBA.

Então Embiid como jogador esteve em outra estratosfera em relação ao resto da NBA, e se ficar saudável, será um dos jogadores mais dominantes da liga e que pode mudar o jogo. Mas não é o caso ainda: Embiid jogou apenas 31 jogos, com minutos restritos em todos eles, totalizando 768 minutos em quadra apenas. Eu não consigo dar o prêmio para alguém que jogou tão pouco... mas ao mesmo tempo não consigo deixar Embiid abaixo de ninguém na minha lista, porque ninguém chega nem perto dele (nas palavras do grande Tim Bontemps, "Ou Embiid não é elegível, ou o prêmio é dele"). Então optei por deixar o camaronês de fora do meu ballot e dar para ele o prêmio de ROY Moral de 2017. Me processem.

O outro calouro de 2014 desse ano foi Dario Saric, um dos jogadores que eu mais gostei de assistir na reta final dessa temporada. O croata é um ala de 2 metros e 8 que tem um ritmo próprio, pode jogar de armador, e da alguns dos passes mais legais da NBA. Saric começou o ano devagar e teve seus altos e baixos, não sendo dos jogadores mais consistentes e sofrendo um pouco com sua adaptação à NBA, mas desde que Embiid machucou e Saric recebeu as chaves do carro, o croata tem mostrado todo seu repertório e produzido em altíssimo nível: entre 08/02 e 24/03, Saric teve média de 20 pontos, 8 rebotes, 3.5 assistências e arremessou 48% de quadra e 33% de 3PTs em 21 jogos. Esses pontos são arbitrários na temporada, claro, mas mostram um pouco do potencial enorme de Saric. Jogadores com sua combinação de altura, passe, arremesso e QI de basquete são raros - e valiosos.

Então a decisão final acabou sendo entre Saric e Brogdon. Ao longo da temporada, os números dos dois não chamam tanto a atenção: 10-3-4 com 46-40-86 arremessando para Brogdon; 13-2-6 com 41-31-78 para Saric. Saric produziu mais, mas Brogdon foi mais eficiente e é um defensor melhor. Brogdon foi mais consistente ao longo do ano, mas por outro lado não teve um período de dominância como Saric teve naqueles 21 jogos.

No final, a decisão se resumiu ao seguinte: eu acredito que Saric tem um potencial maior, consegue atingir um nível maior, e é o que 90% dos times escolheriam o croata se pudessem escolher um dos dois para seu futuro... mas fazer o que Brogdon fez em um time que briga pelos playoffs e foi dado como morto em diferentes momentos da temporada com as lesões de Middleton e Jabari Parker é especial. Brogdon encaixou de forma muito impressionante nesse time, e sua capacidade de fazer um pouco de tudo e se adaptar a qualquer função foi um fator fundamental para consolidar um elenco talentoso, mas com partes que não se encaixam da forma mais limpa dentro de quadra. Ele pode espaçar a quadra, lidar com a bola, defender... e mais importante, ele pode fazer cada uma dessas coisas quando o time mais precisa de cada uma delas. Fazer o que Brogdon fez em um time que briga por playoffs, se adaptar e tirar ao máximo de suas oportunidades, e mais importante ainda, ser parte fundamental desse crescimento e desse sucesso, é o que fez dele meu calouro do ano.

Ballot final: 1. Malcolm Brogdon; 2. Dario Saric; 3. Jaylen Brown; 4. Jamal Murray; 5. Buddy Hield.
Rookie of the Year Moral: Joel Embiid.


Defensive Player of the Year




Não vou mentir: eu tive Rudy Gobert como meu voto nesse prêmio durante a maior parte do ano. Em um momento onde a NBA está valorizando (e sabendo como medir) cada vez mais proteção de aro, Gobert reina supremo como o rei desse quesito, de longe o melhor protetor de aro da NBA. Com suas gigantescas proporções, surpreendente agilidade e ótimo posicionamento, Gobert contesta mais arremessos perto do aro do que qualquer outro jogador da liga (10.3 por jogo) e segura os adversários a 43,3% nesses arremessos, a segunda maior marca da liga entre jogadores qualificados - e isso sem contar os incontáveis arremessos que Gobert altera antes mesmo de chegarem no garrafão, de jogadores que não querem ter que enfrentar o francês e seus braços gigantes.

Mas duas coisas colocaram Gobert um nível acima defensivamente esse ano, o centro de uma das melhores defesas da NBA. O primeiro foi sua evolução defendendo lances mais longe do aro - sua especialidade - em especial pick and rolls. Com sua agilidade e envergadura, Gobert é capaz de marcar o pick and roll cobrindo os dois jogadores envolvidos, com o ballhandler sabendo que se atacar a cesta vai ter que lidar com os braços gigantes do francês, e ao mesmo tempo usando essa envergadura para cobrir uma linha de passe para o pivô que corre para a cesta. Em outras palavras, Gobert consegue defender o pick and roll praticamente sozinho, sem precisar de ajuda, o que faz dele imensamente valioso em uma liga que vive praticamente dessas duas coisas para iniciar seus ataques: atacar a cesta, e pick and roll.

A segunda coisa é o que foi dito na parte sobre MIP: Gobert melhorou muito seu jogo em outras áreas além da defesa, se tornando especialmente um sólido jogador ofensivo. Isso pode parecer que não influencia no prêmio de melhor defensor, mas indiretamente, existe um efeito: como Gobert faz mais coisas e não tem mais alguns problemas, o técnico pode usá-lo mais tempo em quadra e especialmente em situações de fim de jogo, o que significa mais minutos, mais responsabilidades, e mais oportunidades para Gobert colocar sua defesa em uso - e por sua vez, mais impacto defensivo total (recomendo fortemente esse vídeo do ótimo Mike Prada para quem quer um exemplo visual do que eu falei sobre Gobert).

Mas na reta final da temporada, nos últimos 20 jogos, o jogador que estava logo atrás de Gobert durante todo o ano na minha lista de defensores assumiu o primeiro lugar. E não é que Draymond Green não estivesse jogando excepcional defesa durante todo o ano - afinal, ele ERA o #2 da lista - mas depois da lesão de Durant, Green teve a chance de mostrar os limites da sua capacidade defensiva, e o que ele fez no período foi realmente fantástico.

O Warriors, apesar das críticas que sofreu ao longo do ano, tem a segunda melhor defesa da NBA na temporada, atrás apenas do eterno Spurs. E o que é mais impressionante dessa defesa, e foi um ponto interessante ao longo de todo o ano, foi sua capacidade de proteger o aro mesmo jogando com um pivô em Zaza Pachulia que não é bom nessa função e foi uma grande piora no quesito em relação a Andrew Bogut. Durante boa parte do ano, Golden State superou esse problema graças a seus dois melhores defensores: Green e Kevin Durant, que combinaram para uma proteção de aro fora do padrão, mas igualmente eficiente. Mas quando Durant se machucou, com a sua ausência e a falta de um substituto à altura dos seus braços gigantes, todo mundo esperava que a defesa de Golden State, mais do que o ataque, fosse a grande prejudicada por essa lesão.

Mas isso não aconteceu, e o principal motivo disso foi que Draymond Green aumentou sua defesa ainda mais um nível e compensou a ausência de KD. E isso acontece por um motivo simples: você não pode finalizar perto do aro, se você não chegar até o aro. E não existe hoje um jogador melhor fazendo essa contenção do que Draymond: se Kawhi Leonard é o defensor mano-a-mano mais dominante da NBA, Green é o mais versátil, capaz de marcar o maior número diferentes de jogadores e cumprir mais funções defensivas... e mais importante, Dray é capaz de mudar de forma absolutamente perfeita de função e marcador durante cada jogada, sabendo a hora de trocar, sabendo a hora de ir para a ajuda na defesa só para dar um toco ou para assumir um novo marcador. Durante uma mesma posse de bola, Draymond Green vai defender um pivô no garrafão, trocar em um armador durante um pick and roll, mudar para um ala para aliviar o missmatch, defender o ataque deste à cesta, e acabar a posse com um roubo de bola. É impressionante.

Essa versatilidade e capacidade de fazer tudo em altíssimo nível do lado defensivo é a base da ótima defesa de Golden State, uma máquina de trocar a marcação de altíssimo QI de basquete que é possível graças a essa versatilidade, intensidade, e dominação de Green. E quando Durant foi para a lista dos machucados, Green fez de sua missão pessoal manter a defesa no mesmo nível, e foi o que ele fez, destruindo no processo alguns dos maiores candidatos a MVP do ano como Westbrook, Kawhi e Harden (2x). Esse nível superior, para mim, foi o que definiu meu voto a favor do ala do Warriors.

E embora seja estranho ver Kawhi entrando em terceiro em um prêmio que ele ganhou dois anos seguidos, a impressão que eu tive é que Leonard teve uma ligeira queda desse lado da quadra esse ano - em parte pelo aumento de responsabilidades ofensivas, em parte porque times estão mais espertos em como diminuir seu impacto defensivo - mas ainda é um monstro e não deve nada a ninguém defensivamente. Ele ainda é um dos melhores defensores da liga, se não da história da NBA.

Andre Robertson é mais um dos muito subestimados jogadores de Oklahoma City, mas que teve uma ótima atuação e é um pilar central em uma defesa que tem discretamente jogado muito bem. E por fim, Giannis é um caso engraçado: o grego ainda tem seus problemas defensivos e não é tão dominante no mano a mano como outros jogadores, mas sua enorme versatilidade, capacidade de proteger o aro em altíssimo nível E marcar 5 posições faz dele um dos defensores de maior impacto da liga. Então Giannis talvez não seja um dos 5 melhores defensores da NBA, mas é difícil encontrar 5 jogadores que tiveram maior impacto defensivo na temporada. Faz sentido?

Ballot final: 1. Draymond Green; 2. Rudy Gobert; 3. Kawhi Leonard; 4. Andre Roberson; 5. Giannis Antetokounmpo.


Most Valuable Player


É isso ai. Chegamos no grande momento. MVP - o jogador mais valioso da temporada.

Na história da NBA, já tivemos discussões de MVP extremamente acirradas (87' e 93' vem à mente), mas desde que comecei a assistir basquete eu não lembro de ter visto nada igual a esse ano, tanto no nível dos competidores pelo prêmio, no nível de paridade entre as principais escolhas, e no nível de polarização que o debate assumiu. Todo mundo parece ter seu candidato, e passa um enorme volume de tempo discutindo por que esse jogador merece ser o MVP - ou, muito pior, discutindo porque os outros NÃO podem ser o MVP.

E acho que a coisa MAIS importante sobre a disputa pelo MVP de 2016/17 que você pode saber, e que eu me sinto na obrigação de escrever, é essa (vou até colocar em negrito e itálico para ajudar):

NÃO EXISTE SÓ UM JOGADOR MERECEDOR DO PRÊMIO ESSE ANO!

Recentemente, especialmente nas redes sociais, eu vejo uma quantidade ENORME de pessoas falando que "Não existe outra escolha válida pro MVP a não ser X", ou "Se qualquer um além do jogador Y ganhar vai ser um absurdo"... e isso é ridículo. Essa temporada tem não um, não dois, mas QUATRO jogadores tendo temporadas históricas, cada um no seu próprio mérito, e existe um argumento muito forte a ser feito para cada um deles ganhar o prêmio: Russell Westbrook, James Harden, LeBron James e Kawhi Leonard. Se qualquer um deles ganhar terá feito por merecer e será muito válido, e embora podemos sempre escolher por um deles (eu fiz minha escolha para essa coluna), a pior coisa que podemos fazer é falar ou deixar alguém nos convencer de que só existe uma escolha possível para o prêmio.

Isto posto, vamos ao que interessa: quem é minha escolha para o MVP de 2017?

Nos círculos de debate, os grandes favoritos são Westbrook e Harden, com o armador de Oklahoma City parecendo levar uma certa vantagem. O que, aliás, levou àquele que ao meu ver é o pior argumento dessa corrida: o de que Westbrook merece ganhar o prêmio porque tem média de triple double. Hmm... e dai? A marca de Westbrook é muito divertida, sem dúvida, como qualquer recorde, mas triplos duplos não significam absolutamente nada de concreto - é uma marca arbitrária criada pelo departamento de marketing do Lakers nos anos 80 para exaltar algo que Magic Johnson fazia com frequência no começo de sua carreira. Por mais que seja divertido acompanhar TDs e torcer pela média de West, não existe nada de real que diga que uma média de TD seja mais valiosa do que qualquer outra. E se o argumento for "Westbrook fez algo que ninguém fazia desde os anos 60", pois bem, nenhum outro jogador na história da NBA teve os números que Harden teve esse ano. Ou LeBron. Ou Giannis. Por que devemos valorizar mais os números de Westbrook só por eles atingirem um parâmetro arbitrário mais famoso? Não podemos confundir isso com uma análise real.

E isso é uma pena, porque existe um EXCELENTE caso a ser feito para Russ sem precisar usar esse ponto arbitrário. Deixando de lado o fato dos seus números formarem um triplo duplo ou não, Russel É o líder da NBA com quase 32 pontos por jogo, é terceiro em assistências com 10.4 por jogo, E décimo em rebotes com 10.7 por jogo. Westbrook está tendo que segurar uma carga de trabalho imensa (West tem a maior USG%, que mede quantas posses de bola do time o jogador finaliza através de arremesso, turnover ou falta cavada, da história da NBA) e não desacelerou um minuto sequer, jogando todos os jogos em quinta marcha e ainda sobrando gasolina no tanque para os jogos apertados, um dos feitos atléticos mais impressionantes que eu já vi na minha vida. Russ também foi o jogador mais devastador da liga essa temporada nos finais de jogos, mesmo que fazendo isso principalmente contra times mais fracos, e não foram poucos os jogos que ele decidiu no final por conta própria. E talvez mais importante de tudo, Westbrook manteve o Thunder relevante e nos playoffs mesmo depois da equipe ter perdido um dos 3 melhores jogadores da liga essa offseason.

Do outro lado, James Harden não tem o apelo do triplo duplo de Westbrook, mas seu caso estatístico não é muito mais fraco. Harden está com médias de 29.1 pontos, 11.2 assistências e 8.1 rebotes enquanto manteve sua impressionante eficiência. Sabe quando foi que um jogador da história da NBA teve 29 pontos, 11 assistências e mais de 50% de eFG%? Nunca. Harden é o primeiro. E faz isso do jeito de sempre: cavando uma tonelada de faltas (lidera a NBA em lances livres), moldando seu jogo em um estilo de arremessos muito eficiente (focando seus arremessos perto do aro e na linha de três), manipulando defesas e encontrando passes que apenas outros três ou quatro jogadores no mundo seriam capazes de enxergar e executar.

Além disso, Harden tem uma vantagem quando se trata da performance coletiva. Se a temporada histórica de Westbrook rendeu a Oklahoma City a décima melhor campanha e o 17th melhor ataque da NBA, Harden levou o Rockets à terceira melhor campanha e segundo melhor ataque da liga (e um dos melhores da história da NBA), o que é significativo considerando que antes da temporada muita gente tinha dado o time por morto, e as projeções tinham Houston vencendo apenas 41 jogos esse ano - e isso tudo tendo a terceira maior USG% da temporada.

Então é inegável que as temporadas de Harden e Westbrook renderam o maior foco, e merecidamente. Mas esse foco parece ter desviado a atenção de outras temporadas, igualmente históricas, e que não encontram espaço suficiente nas discussões para serem devidamente valorizadas.

Tomemos LeBron James, por exemplo, alguém que é amplamente considerado o melhor jogador da NBA. Tudo que LeBron fez esse ano foi ter médias de 26.4 pontos, 8.7 assistências e 8.6 rebotes enquanto foi o foco de tudo que o Cavs fez nos dois lados da quadra, um mestre em manipular a quadra e cobrir as fraquezas de todos seus companheiros, enquanto maximiza suas forças. E se isso não parece tão impressionante quanto a produção de West e Harden, vale citar que LeBron é um jogador muito mais eficiente: o King James está arremessando 54% de quadra, 36.3% de 3 pontos e tem eFG% de 59.3, enquanto que Russ tem 42.6 FG%, 34.4 3PT% e 47.7 eFG% e Harden tem 43.8 FG%, 34.5 3PT% e 52.3 eFG%. E para tudo que se fala sobre LeBron ter os melhores companheiros, a verdade é que o time do Cavs despenca sem ele em quadra: +7.7 de Net Rating com ele em quadra, e -8.6 com ele fora (um dado que precisa ser levado com um grão de sal, mas ainda é impressionante). É um absurdo que LeBron esteja tendo uma temporada dessas e esteja atraindo zero respeito como possível MVP.

E é claro, existe um outro ponto a ser considerado e que sempre acaba ficando esquecido quando avaliamos jogadores. No basquete, existe DUAS funções: anotar pontos, e impedir que o outro time faça o mesmo. Ainda assim, nós quase nunca trazemos a defesa à tona quando discutimos o prêmio de MVP ou quem é o melhor jogador, em parte por defesa ser muito mais difícil de se medir ou avaliar.

E se você não me ouviu falar de defesa antes nessa seção do texto, é por um motivo simples: nenhum desses três jogadores citados realmente trouxe algo para a mesa desse lado da bola na temporada. A defesa deles vai desde "irregular" (LeBron) a "consideravelmente abaixo da média" (Westbrook), e suas contribuições se dão - ou se deram, porque sabemos que LeBron é capaz de defender em alto nível quando engajado - no lado ofensivo da quadra. Mas defesa ainda é metade do jogo, e é ai que entra o caso de Kawhi Leonard.

Nenhum dos candidatos a MVP desse ano consegue chegar remotamente perto do impacto defensivo que Leonard tem. O atual bicampeão do prêmio de defensor da temporada é, simplesmente, um dos melhores defensores de perímetro da história da NBA, um pesadelo ambulante capaz de destruir até mesmo os melhores jogadores ofensivos da liga, e é um dos 3 melhores defensores da temporada. Para toda a dominação ofensiva de LeBron, West e Harden, Leonard entrega o mesmo tipo de produção do outro lado.

E não é como se Leonard fosse um jogador defensivo sem jogo no ataque: Leonard tem média de 25.7 pontos por jogo, o sétimo maior USG% da NBA, e é um jogador hipereficiente em todos os tipos diferentes de jogada no ataque, seja conduzindo a bola, seja no pick and roll, seja cortando para a cesta, seja pegando e arremessando... você decide. A linha de Leonard é um excelente 48.6-38-88 com 54.3 eFG%, e essa capacidade de arremessar de forma eficiente em qualquer tipo de jogada é o fato em torno do qual é montado todo o ataque do Spurs, atualmente #7 da NBA. Leonard é um excelente jogador ofensivo.

E na verdade, se fosse escolher quem foi o MELHOR jogador da temporada 2017 da NBA, esse foi provavelmente Kawhi Leonard. Kawhi não tem a produção ofensiva dos demais por não ser tanto um iniciador de jogadas que cria para os companheiros (3.8 assistências por jogo apenas), mas também não está tão distante assim com sua combinação de volume, eficiência, pontuação e versatilidade ofensiva, a ponto de ser um dos 8, 10 melhores jogadores de ataque da temporada... e sua defesa não tem nem comparação com nenhum dos outros três jogadores, estando em um nível completamente superior. E quando juntamos sua contribuição ofensiva (Top10) com sua contribuição defensiva (Top3), nenhum outro jogador da NBA conseguiu ser tão dominante em termos totais: nem Westbrook, nem LeBron, nem James Harden. E Leonard merece crédito de sobra por ser o pilar em torno do qual está montado o ataque E a defesa do segundo melhor time da NBA, que ostenta o sétimo melhor ataque E a melhor defesa da competição.

Mas quanto mais eu esmiuçava, estudava e pensava para tentar decidir qual seria meu voto, mais eu voltava para duas palavras: Mais valioso.  É algo totalmente subjetivo, e a NBA propositalmente não vai nunca esclarecer o que significa para incentivar mais debates e discussões... mas ainda assim, não é o prêmio do melhor jogador. É o prêmio do jogador mais valioso, e foi para esse critério que eu acabava voltando. É, como eu disse, uma questão de CRITÉRIO acima de tudo, mas foi para essa direção que eu acabei seguindo na hora de tomar a minha decisão.

Então por mais que Cleveland e San Antonio sejam totalmente montados em torno de LeBron e Kawhi, respectivamente, nenhum deles é tão profundamente dependente de sua estrela quanto Thunder e Rockets. Leonard e LeBron são ambos o pilar em torno do qual seu time é montado, com sua excelência, versatilidade e consistência, mas esses times podem por vezes se manter com "apenas" boas performances complementares desses jogadores, fazendo o time funcionar sem precisar assumir o protagonismo... enquanto que Rockets e Thunder dependiam mais profundamente não só do jogo de Harden e Westbrook, mas da dominação desses jogadores para fazer seus times funcionar. Então na minha busca pelo MVP da temporada, eu acabei restringindo a discussão aos mesmos dois jogadores que começaram a conversa: Westbrook e Harden.

E boa sorte tentando decidir entre os dois! É extremamente difícil separar esses dois grandes craques em duas temporadas tão históricas. Ambos tiveram papeis absurdamente importantes para seus times, e tiveram temporadas estatisticamente históricas. Westbrook teve a maior produção entre os dois, por pouco; Harden teve sua produção de maneira consideravelmente mais eficiente, mas também teve uma USG% menor. Westbrook foi melhor nos momentos finais das partidas, mas também viu seu time precisar de mais jogos apertados. Westbrook foi mais explosivo e teve jogos mais espetaculares; Harden foi mais consistente e raramente tirava seu time dos jogos com uma má atuação.

No final, se resumiu ao seguinte para mim: eu achei que Harden, isoladamente, teve uma temporada um pouco melhor do que Westbrook. Westbrook teve uma produção maior, mas Harden foi o mais eficiente dos dois por uma boa margem, e ele fez mais com o talento que tinha nas mãos: se considerarmos que ambos foram defensores abaixo da média esse ano (Harden foi um pouco melhor) e que suas contribuições se deram principalmente ofensivamente, a diferença é ainda mais impressionante do que a diferença de campanha entre os dois times, com o ataque liderado por Harden sendo o segundo melhor da NBA e o por Westbrook o décimo sétimo.

Parte disso se da, inclusive, pela diferença de estilo entre os dois jogadores: as assistências de Harden são mais (na falta de um termo melhor) mais "valiosas" do que as de Westbrook porque levam a mais arremessos de três pontos, enquanto as de Westbrook levam a mais arremessos de dois. Além disso, o estilo de passe de Harden é mais baseado em ler a defesa, manipulá-la, e criar espaços - espaços estes que não levam apenas a assistências, mas a novas chances que seus companheiros podem criar com esses espaços, como evidenciado por Harden ser 3rd na NBA inteira em "assistências secundárias", a assistência para a assistência. Westbrook não tem esse lado tão cerebral e de manipular as defesas para sua vantagem - o que ele faz é simplesmente bater quem quer que esteja na sua frente, forçar uma mudança na defesa, e dai usar essa mudança para achar um companheiro livre. Isso é extremamente valioso por conta própria - afinal, Westbrook gera uma penca de cestas fáceis com isso - mas ele também leva a uma estagnação caso a assistência não se concretize, não abrindo tantos espaços para continuar a jogada, e por isso Westbrook é apenas 28th na NBA nessas assistências secundárias, um número muito baixo para alguém que da tantas assistências e joga tanto com a bola nas mãos.

O problema, claro, é que isso se tomados isoladamente. Mas em contexto, Harden tem uma vantagem sobre Westbrook pela situação em que se encontra. Embora eu não engula - e você também não deveria - essa história de que Westbrook tem um péssimo elenco de apoio e muito inferior ao de Harden, o que simplesmente não é verdade, o que acontece é que as peças ao redor de Harden encaixam de forma melhor ao redor de Harden no sistema implementado pelo técnico Mike D'Anthony, enquanto que embora Westbrook tenha companheiros de time tão bons quanto, eles não possuem um encaixe tão natural uns com os outros (e com Russ), o que torna mais difícil jogar de forma a extrair o máximo de todos eles. Então embora eu ache que Harden foi melhor do que Westbrook, ele também joga em um sistema e um coletivo que favorece seu jogo mais do que o ex-colega. Como avaliar isso?

E foi enquanto eu sofria com essa questão e com esse dilema que eu achei minha resposta. E quem me ajudou a chegar nela foi um jogador que atende pelo nome de Nikola Jokic.

Jokic é um excelente jogador e uma das mais jovens estrelas da NBA, um pivô passador de excelente qualidade ao ponto de que Denver abandonou toda sua forma de jogo durante a temporada para se reconstruir ao redor das suas habilidades únicas de passe. Desse momento em diante, Jokic teve médias de 20 pontos, 11 rebotes e 6 assistências por jogo com 58 FG%, e Denver teve o melhor ataque da NBA inteira, na frente até mesmo da imbatível máquina da morte de Golden State, marcando 113.2 pontos por 100 posses de bola.

O que eu percebi então foi o seguinte: se você tirasse Jokic desse sistema construído especificamente em torno dele e de suas habilidades de passe, com 100% de certeza o sérvio não teria o mesmo desempenho e não acumularia esses números absurdos... mas ao mesmo tempo, é impossível que Denver jogasse de forma a extrair o máximo desse elenco se não fosse POR CAUSA desse sistema, que por sua vez só é possível por causa das habilidades únicas e excepcionais de Jokic. Ele é beneficiado individualmente pelo sistema, mas o sistema também depende dele para ser possível... e se esse sistema torna o time como um todo melhor e mais dominante, então Jokic deve receber créditos por tornar isso possível, e não o contrário.

E foi por isso que eu tomei minha decisão de que James Harden é o meu MVP da temporada 2017 da NBA. Sim, é verdade que o sistema do time maximiza as habilidades de James Harden e aumenta seu impacto, mas também são as habilidades de Harden que maximizam e tornam possível o funcionamento do sistema ofensivo do Rockets, e essa combinação que elevou o time inteiro do Rockets a um novo patamar... e quando você pensa a respeito, é a forma mais importante que se pode afetar um time de basquete. O elenco inteiro do Rockets só encaixa tão bem entre si, e com o sistema de D'Anthony, por causa de James Harden, e se isso faz o Rockets ser o ataque #2 e time #3 da NBA... então sim, Harden merece os créditos por fazer isso acontecer.

E embora Westbrook também tenha um sistema desenhado ao seu redor para tirar o máximo de suas habilidades (e sim, ajudá-lo a ter média de triple double), o encaixe desse time é mais difícil em parte porque o encaixe com Westbrook é mais difícil. Você precisa tirar jogadores da sua zona de conforto, adaptar mais suas habilidades para sair do caminho de Westbrook (o melhor exemplo sendo o calouro Domatas Sabonis), e isso acaba limitando mais o teto do time... que, sem a menor dúvida, só é alto como é devido ao próprio Westbrook. Boa parte disso não é culpa de Russ, é questão de montagem de elenco... mas também não é justo ignorar a importância de Harden para fazer o tão falado "sistema" funcionar em um nível tão alto.

Por isso que, no fim do dia, faz sentido que o Rockets seja um time melhor do que o Thunder. Talvez Harden estivesse em uma situação mais favorável para brilhar em um nível mais alto, mas ele FEZ acontecer e levou seu time com ele, e isso é que realmente diferenciou os dois para mim.

Então James Harden é meu MVP. Se você tem uma opinião diferente, ótimo: não existe só um critério, e muito menos só uma linha de raciocínio para se chegar em uma conclusão. Caso se de ao trabalho de procurar, vai encontrar MUITOS artigos bons e inteligentes defendendo escolhas de MVP que serão diferentes da minha (e outros que defendem a mesma). Não existe uma verdade sobre quem deva ganhar o prêmio. A única verdade que eu defendo é que não podemos limitar essa fantástica disputa a uma opinião absoluta que aponte um único jogador como merecedor.

O resto é história.

Ballot final: 1. James Harden; 2. Russell Westbrook; 3. Kawhi Leonard; 4. LeBron James; 5. Stephen Curry; 6. Giannis Antetokounmpo; 7. John Wall; 8. Isaiah Thomas; 9. Anthony Davis; 10. Rudy Gobert.

Fontes: Synergy Sports; NBA.com/stats; Basketball-Reference; NBA Stats & Info; e uma tonelada de horas no NBA League Pass.