Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um adeus à NBA

Olha, o meu padrão no blog tem sido de três colunas por semana: Os palpites no sábado, um resumo da rodada na terça e um post elaborado na quinta. A gente muda conforme a dança, mas é a forma que na minha opinião o blog caminha num ritmo e abordagem mais satisfatórios (Sintam-se a vontade para discordar nos comentários, no twitter, http://twitter.com/tmwarning, no nosso email, tmwarning@hotmail.com, ou até por cartas). Mas as vezes acontece algo que nos força a mudar drasticamente a rotina a ponto de me comprometer com quatro colunas seguidas.

O fato é, eu não queria fazer essa coluna. Eu estar aqui fazendo essa coluna implica que as negociações  para o fim do lockout da NBA fracassaram de maneira definitiva. A tão malfadada decertificação não aconteceu mas aconteceu quase isso, e o resultado é o mesmo, e significa que a NBAPA não tem mais autoridade pra negociar pelos seus jogadores, o que por sua vez permite que os jogadores entrem com ações na Justiça contra a NBA pra tentarem resolver seus problemas na Justiça. Quem acompanhou o lockout da NFL vai lembrar que foi exatamente isso que a NFLPA fez. Mas com uma diferença muito grande: Os jogadores da NFL fizeram isso em Março, seis meses antes do começo da temporada, e os da NBA estão fazendo isso um mês DEPOIS do início da temporada. Uma ação na Justiça é extremamente demorada e ainda existe a chance de acontecerem recursos. Uma opção dessas deveria ter sido considerada meses atrás, nunca agora!

Na verdade, isso só reflete o desastre homérico (Stérnico parece um bom neologismo) que foram as negociações. Os donos foram agressivos desde o começo porque queriam mudar um sistema que não estava mais funcionando sem mudar de fato esse sistema, apenas pegando para si uma parcela maior do bolo e tentando se protegerem de si mesmos. E os jogadores foram passivos porque não queriam mudanças de fato, para eles podia ter continuado tudo como estava. De um lado os donos não fizeram nenhuma concessão durante as negociações, sempre quiseram ganhar mais sem perder nada, não buscaram um diálogo efetivo e nem negociações para levar a um meio termo, era na base do "Negociaremos que queremos uma divisão do BRI de 50/50 porque é nosso objetivo final! Quando eles aceitarem, vamos negociar pra conseguirmos mais benefícios!", e do outro os jogadores ficaram a maior parte do tempo sentados esperando os donos cederem alguma coisa de interesse para eles (o que, sério, não iam) ao invés de montar contrapropostas, realizar votações e dialogar entre si para montar um esquema que agregasse os interesses das maiorias.

Na verdade os dois lados estão cobertos de culpa. Nenhum foi razoável, ambos deixaram o assunto correr demais, demoraram demais para conversarem e nem isso tentaram de fato. Enquanto a NFL tinha pessoas do calibre de Bob Kraft e Jerry Jones negociando seu CBA, a NBA tem Billy Hunter, Bob Sarver e Dan Gilbert. Estavamos ferrados desde o começo. Eles sabiam o que estava em jogo desde o começo: A NBA teve sua melhor temporada em termos de mídia desde Michael Jordan, estava em expansão, tinha mais jogadores de destaque do que qualquer outro esporte, as Finais voltaram a escalar em audiência, tinhamos uma dúzia de subplots interessantíssimos... E o lockout está jogando tudo isso pela janela. A NHL esteve em uma situação parecida recentemente - um sistema que não funcionava e que perdia dinheiro. O CBA da NHL demorou pra sair, as negociações foram mal conduzidas... E o Hockey perdeu uma temporada inteira pra conseguir resolver esse problema e NUNCA se recuperou da perda de popularidade e contratos. O CBA salvou as finanças da Liga, mas enviou ela para um poço sem fundo do qual ela só está saindo agora. E por causa da NBA! As vendas de ingressos aumentaram com o lockout, o interesse aumentou, mais emissores estão interessadas em colocar hockey nas transmissões porque elas sabem que os torcedores que ficaram sem NBA vão procurar outros entretenimentos, outros esportes. Sempre existe uma parcela hardcore que quer basquete e nada mais, mas muita gente que assiste e acompanha gosta de esportes vai procurar outra coisa pra fazer. Eu tentei comprar ingressos pra um jogo do Tampa Bay Lightning essa semana e quase não consegui! Essa foi a falha da NBA: A grande maioria dos fãs não vai voltar, esses fãs vão procurar novos esportes, novas diversões e  a NBA vai retroceder dez anos na sua existência. A queda no interesse vai ser tão grande que muito me surpreenderia se os donos não teriam ganho mais com 47% do BRI sem o cancelamento do que com 50% após o cancelamento da temporada (Ainda não aconteceu, mas ta caminhando...).

E nessa situação, não tem quem tenha desculpa. Nenhum dos lados. Alguns donos estão SATISFEITOS perdendo essa temporada para forçar um acordo que lhes interesse mais (O Dan Gilbert provavelmente também quer tirar mais um ano do Lebron James em Miami). E mesmo com vários jogadores dispostos a aceitar uma proposta mais desfavorável só pra acabar com o lockout e jogar (e jogadores importantes), isso não foi levado em pauta porque a NBAPA só ficou "negociando" e votando com os 30 representantes de cada time, que não são jogadores importantes ou com voz ativa. Alguns dizem que foi pro Billy Hunter manter seu salário que ele preferiu não abrir as votações a todos os jogadores e só votaram os representantes. E aí faltou a alguns jogadores que buscassem fazer valer seus interesses, o excesso de apatia dos jogadores foi tão letal como a ganância e teimosia dos donos. Uma das melhores frases que eu li disse que alguns jogadores que dependem muito dessa temporada deveriam ter sido mais egoístas. Ou seja, ninguém se salva e todos perdem. Inclusive nós, fãs, e a própria Liga.

Ainda da tempo de salvar a temporada? Sim, a alternativa dos jogadores à decertificação é fácil de ser revertida. Mas pra isso as negociações precisam retomar e, como eu disse, temos donos SATISFEITOS com essa situação. Precisamos de gente ativa e com jogo de cintura pra conseguir negociar com os dois lados, e isso não vai partir dos líderes de ambas as partes. A temporada já foi cancelada até o meio de Dezembro e os prognósticos são os piores possíveis.

Mas eu estou puto da vida com essa situação e com esses caras. Eles se merecem, mas nós não merecemos eles. Não estou aqui pra continuar falando do que eu acho do lockout (Já falei tudo que tinha pra falar), e para quem quiser uma visão mais detalhada dos processos recomendo muito esse ótimo post do Bola Presa. Mas vocês já pararam pra pensar o que significa perder essa temporada? Contem comigo algumas.

1. O segundo ano do Miami Heat com sua geração de superestrelas. O primeiro ano começou mal, melhorou, teve altos e baixos, atingiu seu pico nos playoffs e terminou com uma amarga derrota pro Mavericks nas Finais. O time mostrou que ainda não tinha achado seu equilibrio com Dwyane Wade/Lebron e o Chris Bosh não está sendo um jogador dos mais úteis pra equipe. Ou seja, gente batendo a cabeça, elenco de apoio fraco, falta de garrafão e talento saindo pela tampa. Tudo que a gente esperava. Você não queria ver como esse time ia voltar pra nova temporada? Eu com certeza queria!

2. Uma temporada inteira de enterradas alucinantes do Blake Griffin. Só por isso já valeria uma temporada. Pensem bem, seria o terceiro ano do Griffin na NBA: O primeiro perdemos por lesão, o segundo foi lendário e o terceiro não vai existir. Um ano de enterradas mágicas quando poderiamos estar tendo três?? Eu odeio todo o mundo!!

3. Um ano de piadas com o David Kahn, que gosta de colecionar jogadores da mesma posição. Antes eram os armadores com Luke Ridnour, Jonny Flynn, Ricky Rubio e Ty Lawson, agora os alas com Michael Beasley, Kevin Love, Derrick Williams e Anthony Randolph. Meu dia a dia não será o mesmo sem ouvir pelo menos um grito de KAAAAAAHN! E pior, era a temporada onde ele podia finalmente acompanhar o Chris Wallace e sair do patamar de piores GMs do universo: Rubio, Wes Johnson, Williams, Love e um C que chegue numa troca pelo Beasley é um time capaz de nos divertir por noites a fio!

4. Jimmer Fredette!!

5. Não, sério!! Jimmer Fredette!!

6. Todos os calouros de um Draft que foi considerado um dos piores da história. Eu confesso que não estou interessado no Kyrie Irving, mas... Fredette, Kemba Walker, Rubio (Não é desse Draft mas é calouro), Bismack Biyombo, Enes Kanter, Jan Vesely, Williams e  Kenneth Faried? Tem UM jogador aí que não seria extremamente divertido de acompanhar nessa temporada pra ver como a gente fica? Acompanhar calouros é uma das coisas mais divertidas do dia a dia na NBA, eu estava LOUCO pra ver como essa molecada ia chegar na NBA.

7. O Cleveland Cavaliers indo jogar em Los Angeles contra o Clippers, quando a torcida do time de LA vai olhar pro Kyrie Irving e pensar "Nós perdemos esse cara pra nos livrarmos do Baron Davis??" antes que o Blake Griffin derrubasse todo o garrafão do Cavs com uma enterrada. Droga...

8. As inevitáveis comparações entre o Miami Heat e o Philadelphia Eagles, autoproclamados Dream Teams que não sabem jogar quartos períodos. Ah, espera, elas já estão acontecendo. Falha minha.

9. Hasheem Thabeet e seu enorme potencial.

9. Brincadeira de mau gosto acima.

10. A continuação da minha história paralela preferida, a questão Frank Wells/Michael Eisner (Méritos ao Bill Simmons pela brilhante comparação) de não um, mas dois times da Liga, Heat e Thunder. No Thunder a questão é simples, Kevin Durant tem que ser o alpha dog e o Russell Westbrook seu parceiro, mas o Russell ainda tem que aprender a jogar assim. Já no Heat a questão é muito mais difícil. Eu tenho mil vezes mais medo do Heat quando Wade é o líder do time, mas ele e Lebron tem estilos muito semelhantes e é difícil determinar quem deveria ficar com a bola. Os dois times se atrapalharam ano passado porque não conseguiram resolver essa questão a tempo. Seria divertidíssimo ver como eles resolveriam isso pra nova temporada.

11. A última temporada do Chris Paul em New Orleans, com o time desesperado pra tentar convencer sua superestrela que ele tem condições de ser campeão lá quando na verdade o time não tem nem mesmo um dono, e a inevítável dúvida: Tentar a sorte quando acabar seu contrato ou trocá-lo antes que percam o Paul por nada?

12. A inevitável revanche entre Bulls e Heat que aconteceria nos playoffs. Derrick Rose foi destruído por Lebron da última vez. Ele não vai aceitar isso em silêncio. Se ele melhorar seu jogo 10% do que melhorou da temporada 2010 pra 2011, nenhum time na NBA vai conseguir parar o Bulls.

13. A possível última chance de times como Celtics e Spurs de ganharem um título com sua geração atual de Tim Duncan, Manu Ginobili, Paul Pierce e Kevin Garnett. Não sabemos se será mesmo a última, mas esses jogadores perdem um pouco do seu jogo a cada ano. As chances vão minguando. Um ano inteiro parado pode fazer bem pela saúde deles, mas e pelo resto?

14. A troca envolvendo Dwight Howard por Lebron James que tem 1% de chance de acontecer mas que seria a troca mais genial da história da humanidade. Todos ganham, ninguém perde. Ela sozinha traria três títulos para Miami, daria ao Magic um Franchise Player com um contrato longo e o Lebron provavelmente não receberia mais tanto ódio. Perfeito. Porque diabos o Otis Smith (O cara que está com os contratos de Gilbert Arenas e Hedo Turkoglu empacando seu time e prestes a perder seu melhor jogador) tem contrato de GM nessa Liga e eu não?

15. Um ano remoendo a infeliz troca do Kendrick Perkins pelo Jeff Green. Ah, espera, essa tudo bem.

16. A evolução de Griffin, Westbrook, John Wall, Al Horford, Durant, Rose, Steph Curry, Demarcus Cousins, Eric Gordon, LaMarcus Aldridge e todas as estrelas jovens dessa Liga que ainda tem muito a oferecer e vão ter um ano tirado das suas carreiras.

17. A manutenção do auge de estrelas como Dirk Nowitzki (Sim, eu sei que ele tem idade para ser meu pai. Ou quase), Lebron, Wade, Carmelo Anthony, Zach Randolph (!!), Deron Williams, Chris Paul, Amare Stoudamire e Monta Ellis. Um ano fora no auge é uma coisa extremamente chata. Pergunte ao Michael Jordan, que provavelmente teria terminado sua carreira com oito títulos seguidos não fosse sua primeira aposentadoria.

18. Jogadores em fim de carreira que continuam chutando a bunda de todo mundo que encontram pela frente como Ray Allen e Steve Nash. Aliás, só pelo Steve Nash eu já fico extremamente triste, porque pelo menos o Allen já tem um título. Mas o Nash, meu jogador favorito de todos os tempos e que merece mais do que nenhum outro jogador ativo um título? Podemos estar perdendo a sua última temporada.

19. A possível última temporada do Sacramento Kings em Sacramento precisando de três bolas pra JJ Hickson, Jimmer, Tyreke Evans e Cousins jogarem juntos e arremessarem todas as bolas que quiserem.

20. A evolução de times jovens como Thunder, Wizards, Bulls e Wolves.

21. As inevitáveis performances épicas que teríamos nos playoffs. Elas são de lei, sempre temos algumas. Ano passado tivemos Dirk Nowitzki com umas três diferentes, Chris Paul comendo o Lakers com farinha, Lebron massacrando o MVP da Liga e o Brandon Roy jogando um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos. Mal podia esperar pelos desse ano.

22. A existência de uma cláusula no novo CBA que permitisse aos times dispensar um jogador desde que pagando seu salário (sem contar no Salary Cap), algo bem provável, e a subsequente dispensa do Brandon Roy pelo Blazers e sua inevitável ida para o Suns, onde a mágica equipe de médicos do time iria revitalizar sua carreira (Deu certo com o Grant Hill!) e montariam um time de Steve Nash, Roy, Hill, Markieff Morris e Marcin Gortat! Você apostaria contra esse time?? Nunca!

23. Colunas épicas do Bill Simmons, do Bola Presa, do Basketbawful, do NBA Playbook e dos trocentos outros sites, blogs e afins que tornam acompanhar a NBA tão mais divertido. Ah sim, o TM Warning também!

24. Uma fucking temporada inteira de NBA! São sete meses de jogos absurdos (Clippers e Wolves? Em qualquer dia da semana!) que nos fazem ficar acordados, alguns clássicos, jogos e atuações épicas, zilhões de subplots, protagonistas e antagonistas. A NBA trouxe isso em altíssimo nível em 2011, atraiu interesse do planeta inteiro... E agora estamos jogando tudo isso pela janela. Ninguém se salva e todos sabem da sua culpa. Os que conduziram essa negociação - de ambos os lados - se merecem. Não se preocuparam em um momento com os fãs, com os milhares de trabalhadores desempregados e as inúmeras pessoas cuja vida depende indiretamente desse marcado nem com nada. Os donos queriam ganhar mais e mais pra se protegerem deles mesmos e suas decisões estúpidas, e os jogadores só souberam esperar cair do céu uma proposta favorável sem UMA rodada de verdade de negociações ou uma contraproposta. Isso não vale para todos, claro, mas vale para os líderes, e no final a apatia dos que pensavam diferente foi tão nociva quanto isso tudo. Essa temporada não vai voltar. O momento que a NBA tinha não vai voltar. A Liga vai esfriar, vai perder contratos e valor, vai ver a NHL roubar parte do seu espaço... E vai demorar anos pra se recuperar e retornar ao patamar onde estava. E as pessoas que podiam evitar isso viram tudo de camarote e deixaram acontecer. Algumas até queriam que acontecesse! Isso é imperdoável, mas esse não é a questão. Releiam os 24 pontos. Esses são só ALGUNS dos milhares de pequenas histórias interessantes que acontecem no meio de uma temporada tão agitada e movimentada como a que tivemos em 2011. Vamos perder isso tudo. Vamos perder todas as outras. Vamos perder um esporte extremamente divertido e sua cacetada de estrelas. A gente não sabe quando vai voltar. A gente não sabe se vai voltar. Só podemos torcer.

Muito obrigado por nada, David Stern, Billy Hunter e companhia.

domingo, 17 de julho de 2011

Os dois lockouts

David Stern sabe que adoraria estar na pele do Roger Goodell


Antes de mais nada, o TM Warning está de volta. Peço mil desculpas pela ausência, sei que 18 dias fora é bastante, não queria deixar o blog às moscas mas foi necessário. Agradeço a todos que não desistiram e voltaram a acompanhar o blog, prometo correr pra acompanhar a NFL que já já deve estar de volta.

Eu até tinha pedido pra um amigo meu postar de vez em quando aqui, mas... Eu realmente não dou sorte com as pessoas que me prometem ajuda, né? O Celo postou nove vezes no total no blog e o Pedro nenhuma. Acontece, acontece. Estou de volta com força total agora, então vamos a isto.

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Como todo mundo sabe - não se comenta de outra coisa no mundo dos esportes americanos, tirando a derrota dos EUA pro Japão na final do Mundial de futebol feminino - tanto a NBA como a NFL estão passando por lockouts. Em ambos os casos, o CBA (Acordo entre a Liga e os jogadores que regulamenta a interação entre ambos, especialmente no que diz respeito aos contratos dos jogadores) vigente nas últimas temporadas expirou e esse lockout - a Liga 'trancando' os jogadores, impedindo que eles tenham contato com os times - agora está no lugar enquanto ambos os lados, Liga e associação dos jogadores, negociam um novo acordo para que as Ligas possam retomar sua atividade em 2011/2012. Tanto a NFL como a NBA passam por esse período extremamente difícil: Os jogadores estão sem poder realizar atividades junto dos clubes, times não podem trocar jogadores, renovar contratos ou assinar Free Agents e os calouros recém-draftados em ambas as Ligas não podem treinar com seus novos companheiros.

No entanto, a situação de ambas as Ligas é extremamente diferente, porque a natureza do novo CBA de cada uma delas é totalmente diferente em sua essencia. Eu venho aqui hoje pra tentar explicar a natureza dessa diferença entre os dois CBAs que estão sendo discutidos, e mostrar porque a situação da NBA é mil vezes pior que a da NFL. Como alguém disse na ESPN.com, a questão trabalhista da NFL nem merece ser chamada de 'lockout' quando comparada com a situação da NBA, de tão mais simples que ela é. Claro que nenhuma é simples, mas a questão da NFL já está praticamente resolvida, enquanto a da NBA nem começou a ser discutida e existe uma chance muito real de que a temporada da NBA seja cancelada, ou pelo menos encurtada.

A NFL é, em termos econômicos, uma Liga extremamente lucrativa. Estima-se que na última temporada, a NFL tenha tido um lucro de 9 BILHÕES de patacas, o que é dinheiro pra cacete. Cerca de 59,5% desse total era repassado aos jogadores (O Salary Cap de cada time era calculado em torno desses 59,5%, dividido pelos 32 times) no que era previsto pelo último CBA. Na prática é menos, porque ninguém usa o Salary Cap na sua totalidade, mas de qualquer forma os salários e os contratos são calculados com base nesses 59,5% da renda projetada pela NFL para o ano. Mas isso era no último CBA, que foi assinado num  período de prosperidade e onde todos andavam felizes com o momento econômico do US and A. Atualmente, em meio a uma crise econômica séria nos US and A, a Liga prega que é hora de ser mais conservativo e cortar um pouco os gastos de cada time, como forma de continuar sendo tão funcional como é, e obviamente os jogadores não querem ter seus salários reduzidos.

Em outras palavras, a questão por trás do lockout e das negociações para um novo CBA - que você pode entender melhor através desse post - é simples: A Liga gera dinheiro pra cacete, o problema é quem fica com quanto. A NFL acha que deve reduzir os 59,5% de forma a preservar os times, e os jogadores acham que assim ta bom. Existem muitas variáveis, como o salário dos aposentados, dos calouros e etc, mas em essência, toda essa discussão é motivada pura e simplesmente por você ter muito dinheiro e ter que dividir entre dois grupos que querem uma fatia maior. Complicado, mas nada que não se resolva com um pouco de boa vontade e, claro, com a temporada regular chegando. Os dois lados sabem que vão perder demais caso a temporada sofra consequências e portanto a boa vontade de ambos aumenta conforme nos aproximamos do dia 7 de Agosto, pra quando está marcado o primeiro jogo da pré-temporada. A NFL conseguiu duas vitórias na Justiça recentemente e parece estar no controle das negociações. A palavra que chega é que os dois lados já acertaram a parte financeira, apenas alguns detalhes ainda estão em cima da mesa e que dia 21 o novo CBA deve ser assinado. Amém!

Agora chegamos à parte difícil da questão, que é o lockout da NBA. Sim, ele acabou de começar, o da NFL teve muito mais tempo pra ser resolvido, mas não vamos alimentar falsas esperanças. A chance da solução desse lockout ser tão simples como o da NFL é a mesma de eu ser o QB titular do Cardinals em 2012 e... Espera, essa chance é boa... Ok, a chance de eu ser o QB titular do Packers em 2012. Zero.

Ao contrário da NFL, a NBA não é mais uma Liga lucrativa. Os times estão tendo prejuízo, a Liga está perdendo dinheiro e a NBA não é mais uma atividade atraente para a maioria dos donos de time. A temporada de 2011 foi uma das melhores da história da Liga, com altíssimos índices de audiência, um supertime que atraiu a atenção (e o ódio) do mundo todo, o Heat, muitos jogadores que atraíram a atenção de gente que não via NBA há muito tempo (estou olhando pra você, Blake Griffin!) e a NBA realmente entrou com tudo na era da internet. E mesmo assim os times disseram que o prejuizo combinado deles foi de 340 milhões de patacas!!

Tudo bem, primeiro de tudo, esse número é falso. A conta pra chegar nesse número foi feita pelos times e quem analisou os dados disse que foram contabilizados critérios absurdos. A idéia de inflar esse número era pra pressionar os jogadores de uma foram bem idiota, mas não podemos deixar isso esconder uma simples verdade: 22 de 30 times tiveram prejuízo em 2011, uma das melhores temporadas da Liga, com altos índices de audiência e grande envolvimento via net.

Vocês conseguem perceber a diferença? Na NFL, temos um enorme monte de dinheiro e uma discussão gananciosa sobre quem vai ficar com que parte. O sistema funciona perfeitamente, não existem franquias pequenas ou pobres na Liga, todas elas tem condições de pagar pelos seus jogadores e agora eles estão disputando as maiores fatias do bolo com os jogadores. Na NBA, é o oposto: O sistema não funciona mais. Os times perdem dinheiro, existem times miseráveis em mercados pequenos que não tem mais condições de manter um time da NBA sem ajuda, e as vezes nem assim. Ninguém quer entrar nesse mercado e o novo CBA não é simplesmente uma divisão de dinheiro, e sim uma profunda questão sobre o que fazer pra corrigir um modelo que está dando errado.

O problema é que ninguém realmente sabe como fazer isso. Os donos querem remendar coisas que façam sentido para eles mas que não vai consertar modelo nenhum, e os jogadores querem que tudo continue como está, mesmo que o jeito que está agora seja totalmente errado e não faça um puto de um sentido. Os problemas na NBA estão na própria Liga, que eu repito pela milésima vez, deixou de ser lucrativa. Na NFL, as cotas de transmissão de televisão são distribuidas equitativamente para todos os times, os incentivos da Liga começam de baixo para cima, o Salary Cap é fixo e não existem ressalvas. Isso tudo faz com que não existam times pobres. Existem times ricos, mas não existem times pobres. Um time de uma cidade com 100 mil habitantes acabou de ser campeão do Super Bowl. Os times dos grandes mercados (New York, Boston, etc) não polarizam os jogadores, existem grandes times em mercados como San Diego, Green Bay, Minnesota. A Liga faz sentido, os times tem dinheiro, e tudo funciona perfeitamente. Ter uma Franquia na NFL é lucrativo, as pessoas querem investiro no mercado.

A NBA por outro lado tem times como Kings e Hornets, que não conseguem mais se sustentar em mercados pequenos. Os ginásios não são suficientes, as cotas de transmissão são baixíssimas e eles não tem condições de sobreviver ou competir com times de mercado como Los Angeles e New York. Temos atrocidades como por exemplo ver times entupidos na sua folha salarial pagando mais de 15 milhões pra Baron Davis, Rashard Lewis, Elton Brand ou Gilbert Arenas. Você se assusta que times estejam perdendo dinheiro? O Hawks acabou de assinar um contrato de 120 milhões de patacas por seis anos com o Joe Johnson, um jogador que tem 30 anos e não é nem um dos 20 melhores da Liga. E no centro de tudo isso, o CBA, que regula esses contratos. É de se estranhar que estejam querendo abaixar o teto salarial e encurtando os tempos de duração dos contratos? E também da pra acreditar que tudo vai se resolver com salários menores pros jogadores? Não foram Lewis, Davis e cia que se ofereceram esses contratos, times ofereceram pra eles porque achavam que valiam a pena. O problema da NBA é muito mais profundo do que simplesmente discutir quem ganha quanto, são necessárias mudanças profundas na regulamentação desses contratos, a questão não é o quanto os jogadores ganham, e sim o quanto PODEM oferecer a eles.

Além disso, existe o relacionamento. Se vocês acham que o relacionamento dos jogadores da NFL com a Liga é ruim, é porque não viram o dos da NBA. Desde a última greve, eles genuinamente se odeiam. O relacionamento deles não poderia ser pior, os dois lados parecem mais preocupados em participar de um joguinho idiota de crianças em colocar um a culpa no outro pela falta de avanço nas negociações do que em realmente arrumar alguma coisa. Desde o começo do lockout, ninguém fez nenhum esforço pra começar a negociar e ambos os lados parecem pessimistas sequer pro COMEÇO das conversas.

Ou seja, o lockout da NFL é brincadeira de duas crianças mimadas que querem ter mais que a outra. Uma Liga que funciona, muito dinheiro e dois lados gananciosos. Isso vai ser resolvido essa semana no máximo, a Free Agency deve abrir até a outra semana, e podemos retomar nossa rotina assistindo o esporte que amamos. Na NBA, além de dois lados que se odeiam tendo que negociar, temos um modelo que não funciona, perda de dinheiro e nenhuma solução, apenas dois lados que tem uma visão muito distorcida das coisas. Os donos de times (Ou seja, a Liga) coloca a culpa nos salários enormes dos jogadores e ignora todo o resto, e os jogadores acham que tudo tem que continuar como está sem se preocupar com o fato de que a NBA não funciona mais tão bem como antes. Mudanças profundas são necessárias, o Bill Simmons fez um post brilhante sobre o assunto que eu talvez traduza se vocês quiserem (Mandem emails para tmwarning@hotmai.com ou deixem os comentários aí embaixo mesmo) e que oferece um novo modelo para regulamentar os salários, mas o fato é que são necessárias muito mais mudanças e mudanças muito mais profundas do que os donos querem admitir e isso passa por uma redução do tempo e do valor dos contratos. Ambos os lados vão ter que abrir mão de algumas coisas, e não existe nenhuma solução fácil pro problema. Um novo CBA feito nas coxas pode até sair, mas só vai adiar o problema, porque o David Stern não é um idiota e sabe que a Liga está precisando dessas mudanças. A proximidade da temporada regular não vai mudar isso, e por isso que não é improvável que tenhamos uma perda de jogos da temporada regular, talvez até uma temporada inteira!

Por fim, precisamos comentar do Deron Williams, que chamou a atenção de todo mundo assinando um contrato com o Besiktas, da Turquia. O contrato é de um ano e tem uma cláusula que ele termina automaticamente com o fim do lockout, permitindo que o Deron volte pra NBA. A idéia dele é simples, fazer dinheiro e continuar jogando mesmo com a NBA parada. De certa forma, isso reforça a posição dos jogadores nas negociações, que mostra que eles não estão desesperados pela volta da NBA, que tem outra forma de ganhar a vida enquanto isso. A expectativa é de que muitos jogadores estrangeiros façam o mesmo, mas poucos americanos sigam esse exemplo, de forma que seria mais uma atitude isolada. Vamos ficar no aguardo pra ver o desenrolar, mas os fãs de NBA podem ficar preocupados. E muito preocupados.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Entenda a greve e o lockout da NFL

Como prometido, eu vou hoje explicar tudo sobre a greve que está rolando na NFL. Peço desculpas pela demora, infelizmente eu tinha um projeto de faculdade importante para o final de semana e só agora eu tenho tempo pra escrever com calma. Mas espero que vocês entendam. Já aviso que o post está bem grande, mas está também subdividido. Espero que vocês tenham paciência de ler, caso se interessem. É uma questão muito difícil, complexa e ramificada. Se não tiverem paciência, podem tentar se localizar pelas perguntas ou palavras chave em negrito para ler um tema específico. Me digam depois o que acharam, e boa leitura. Se tiverem dúvidas, comentários ou qualquer coisa, podem deixar nos comentários no fim do post ou mandar um email pra gente em tmwarning@hotmail.com . 

Eu falei aqui recentemente sobre o que é o CBA que estava causando tanta comoção na NFL. Falei também que ele iria expirar em breve e que se a NFL e a NFLPA não chegassem a um acordo para um novo CBA, poderíamos ter uma greve e um lockout. Também falei algumas vezes aqui e no nosso twitter que ambas as partes tinham acertado, por duas vezes, prorrogar as negociações, primeiro em um dia e depois em uma semana. Acontece que a data limite era essa sexta feira que passou, e nenhum acordo foi fixado, as negociações pararam e temos oficialmente uma greve na NFL. Como a situação é muito complicada, eu vou aproveitar e explicar direitinho o que aconteceu, o que está acontecendo e o que deve ou pode acontecer.

Primeiro de tudo, o que aconteceu foi que nenhum acordo foi fixado até a data limite - sexta feira - e que portanto o CBA antigo oficialmente expirou. Nos últimos 15 dias, negociações aconteceram dia e noite entre ambas as partes, a NFL e a NFLPA, que como vocês podem ler no link ali de cima é uma união dos jogadores. Mas no fim, nenhum acordo foi fixado. A primeira pergunta é: porque não se chegou a um acordo? Na prática, foi por todos os motivos que eu falei no post sobre a CBA dali de cima, as divergências continuavam acerca de teto salarial, salário dos calouros, extensão da temporada regular, etc. Tirando o último desses itens, a gente pode olhar pra situação de outra forma, onde a questão na mesa passa a ser: como distribuir os 9 bilhões anuais de receita que a NFL recebe. Pra uma questão que já é difícil, ela ainda ganhou um agravante, que foi a questão da informação. A NFL afirma que foi afetada pela crise e que portanto é necessário conter certos gastos (Um argumento bem parecido com o da NBA), reduzindo coisas como teto salarial, salário de calouros e mais 95% dos problemas que estavam na mesa. A NFLPA teria pedido à NFL dados detalhados das finanças da NFL e dos times da Liga nos últimos 10 anos como forma de sustentar o seu argumento. E aqui vem a complicação, em quem acreditar? A NFL afirma que deu vários dados diversos para a NFLPA, inclusive alguns dados que não são disponibilizados nem para as franquias. Já a NFLPA afirma que não recebeu dados o suficiente e que a NFL fazia seus argumentos com base em um simples 'Confiem na gente'. Como nenhum dos lados quis ceder - nem a NFL disponibilizar mais dados nem a NFLPA se contentar com menos - esse foi um entrave fundamental nas negociações, porque ela trava tudo que deriva dessas finanças - ou seja, 99% das negociações que estavam na pauta.

Uma vez que, por tudo isso que aconteceu, a gente começa a entrar na parte mais complexa do assunto. O que aconteceu uma vez que não foi possível chegar a um novo acordo ao final da data limite? Primeiro de tudo, a NFLPA entrou com um pedido de dissolução. Ou seja, a NFLPA entrou com um pedido na justiça para deixar de existir como existia antes. Ao pedir essa dissolução, a NFLPA não mais funciona como uma união que representa os jogadores nas negociações desse CBA. Os jogadores, portanto, não estão mais sendo representados por ninguém além deles próprios. A primeira vista parece loucura que a NFLPA tenha feito isso, afinal ela parece perder força nas negociações já que não existe uma união para falar em nome dos jogadores. Mas na verdade essa dissociação tem alguns pontos interessantes.

Primeiro de tudo, ela não é definitiva. A NFLPA ainda existe, apenas como uma associação de trocas, mas essa dissociação pode ser revertida muito facilmente e a NFLPA, em questão de horas, pode voltar a existir pronta para negociar um acordo com a NFL. Portanto, não existe um enfraquecimento da sua posição, afinal ela pode retomar as negociações assim que a NFL estiver disposta a ceder algumas coisas. E segundo e mais importante, agora que os jogadores não são mais representados por uma união, eles estão livres pra tomarem atitudes como indivíduos na Justiça. E era exatamente esse o objetivo da dissociação. Imediatamente após o pedido ser aceito, dez jogadores entraram na justiça de Minnesota com uma ação antitruste contra a NFL. Esse pedido prevê que a Liga deve, entre outras coisas, pagar ao queixoso três vezes os prejuízos totais que lhes incorra por causa de um eventual lockout. Antes de falar mais sobre o que é um lockout, vou terminar de esclarecer essa questão. Entre os jogadores que entraram na justiça estão Tom Brady, Peyton Manning e Drew Brees. Como são jogadores que ganham salários ou franchise tanders muito altos, caso a Liga perca ela pode ser obrigada a pagar alguma coisa em torno das centenas de milhões de patacas.

Eu não vou entrar no detalhes sobre as ações movidas pelos jogadores, envolve muita coisa desnecessária pra entender a ação, por isso vou direto ao ponto. Os jogadores clamam que a NFL está prejudicando suas carreiras com suas práticas de truste, porque um lockout iria impedir que os jogadores trabalhassem aos preços de mercado, já que ela é tem o monopólio do futebol americano. A razão dessas ações - e portanto da dissolução da NFLPA - é impedir justamente que aconteça esse lockout.

Mas afinal, o que é esse lockout? Entender o lockout é necessário para entender o que está acontecendo nesse exato momento na NFL. Uma vez que não existe um CBA, e portanto as negociações foram interrompidas, a NFL tem o direito de decretar esse lockout - o que ela fez na madrugada de sexta para sábado. Uma vez decretado o lockout, os jogadores estão oficialmente separados da Liga, eles não podem ter nenhum tipo de contato com nenhum time, mesmo que ainda estejam sob contrato. Isso inclui que os jogadores façam treinos táticos, físicos e jogos, mas também impede que os jogadores sequer usem as dependências dos times para treinar, se tratar, etc. Isso no momento não tem grande importância, mas conforme formos nos aproximando das datas que os times começam a chamar seus jogadores para entrar em forma, fazer treinos físicos e os OTA - Obrigatory Teams Activities, ou atividades obrigatórias do time - a coisa complica porque os jogadores e os times não podem ter esse contato, e portanto essas atividades vão ser canceladas. Mas como é um cancelamento 'forçado', os jogadores naturalmente não vão receber o salário relativo à esse período (O salário de um jogador não engloba apenas as 17 semanas da temporada regular, e sim todo o período de atividades de um time), o que por si só já é muito ruim para eles, mas também eles não podem usar as instalações nem para entrar em forma e tampouco para cuidar de lesões, o que é ainda mais sério. Conforme a coisa for avançando, se esse lockout começar a comer cada vez mais o período de treinos e tudo mais, mais salário será descontado. Também é importante destacar que uma vez que está tudo parado, não são só os jogadores que deixam de receber salário: todos os ajudantes, coordenadores e funcionários também não vão trabalhar e não vão receber dinheiro nesse período.

E é exatamente isso que a ação que aqueles 10 jogadores moveram - vocês podem ter certeza que três dos maiores salários da NFL estarem entre os 10 não é uma coincidência, foi uma jogada anteriormente planejada com a NFLPA - estão querendo evitar. Entre as muitas coisas que a ação pede, a que deve ser mais rapidamente julgada é justamente um pedido para evitar o lockout, e portanto o jogador pode treinar normalmente, se tratar, e tudo mais junto ao clube enquanto espera um CBA novo ser assinado a tempo da coisa ficar mais séria.

Em resumo, o que aconteceu foi exatamente isso: A dissolução da NFLPA, o lockout e as ações movidas pelos jogadores como forma de evitar esse lockout. Cada um está tentando tirar as armas de barganha do outro: A NFL quer o lockout para forçar os jogadores a negociar para que possam treinar e ganhar seu salário, e os jogadores estão tentando ganhar na Justiça que a NFL fique impossibilitada de usar esse recurso.

Uma vez que tudo isso aconteceu ao longo do final de semana, a gente precisa entender também em que pé está a situação agora. De certa forma, ambos os lados estão esperando. A NFL está freqüentemente dizendo que quer retomar as negociações e para isso pede que a dissolução da NFLPA seja revertida, inclusive entrando com uma ação na Justiça. Mas a NFL também não está disposta a ceder terreno, ela apenas quer que as negociações sejam retomadas de onde pararam. Já a NFLPA disse que não vai retomar as negociações, que ela quer garantias antes que possam voltar a conversar. Como nenhum dos dois está disposto a ceder, ainda que possam retomar a negociação caso bem entendam, agora a batalha foi transferida para a Justiça.

Antes de mais nada, quero esclarecer que essa entrada na Justiça não precisa ir até o seu amargo final para que a solução seja resolvida. Uma ação completa de ambos os lados demoraria tempo demais e seria de certa forma prejudicial para os dois lados, e ambos estão cientes disso. Uma possibilidade, ainda que remota, é de agora que a NFLPA tomou um passo maior, que os donos dos times da NFL - e portanto a NFL em si -  decidam que não vale a pena esperar o resultado das ações, o risco de perder muito dinheiro tanto na Justiça como com um possível problema com a temporada, e que portanto é preferível ceder em algum ponto nas negociações. Se for assim, o problema pode se resolver em algumas semanas, não precisando esperar um processo judiciário que pode demorar um mês, três meses, seis meses.

Enquanto eu acho essa situação muito improvável, o fato também é que nenhuma das duas partes realmente pretende levar o assunto até o final na Justiça. Quando digo até o final é uma ação completa, com recurso, etc, que pode demorar meses e comprometer a temporada desse ano da NFL. A primeira audiência do processo está marcada para o dia 6 de Abril e possivelmente não será necessário mais do que um passo para resolver a situação. Como eu disse, ninguém realmente pretende que esse lockout e as audiências se estendam por um tempo que prejudicaria ambos os lados. O andamento da situação provavelmente vai caminhar de acordo com quem ganhar a primeira batalha. Se o Juiz David Doty declarar que não deve haver um lockout - ou seja, der um parecer favorável aos jogadores - a NFL perde sua maior arma, o lockout, e aí teria que escolher entre levar em frente uma ação judicial contra a NFLPA, que vai consumir tempo e dinheiro demais, ou então começar a ceder nas negociações, já que sua posição fica enfraquecida. Por outro lado, se o Juiz Doty der o parecer favorável à NFL e reverter a dissolução da NFLPA, dessa vez quem perde sua maior arma são os jogadores, e aí eles vão ter que começar a ceder aos interesses da NFL porque estarão num lockout indeterminado com a NFLPA ainda existente, incapaz de mover mais ações individuais.

Diz-se que o parecer provavelmente será favorável aos jogadores. O Juiz Doty é um juiz que desde os anos 90 trabalha em questões trabalhistas ligadas à NFL e que geralmente da o parecer favorável aos jogadores. No entanto, as vezes a Liga também ganha, e portanto não é nada garantido. Além disso, o juiz na ação de Brady foi trocado, não sendo mais Doty e sim o Juiz Nelson, e portanto isso pode causar uma pequena reviravolta nos eventos.

Por fim, resta falar de como serão as coisas daqui para a frente. A Free Agency não pode começar de forma alguma, já que os clubes e os jogadores não podem mais se relacionar, e portanto isso fica congelado. Caso até 28 de abril, noite do Draft, não tenhamos um CBA, o Draft ocorrerá normalmente, mas está virando alvo de controvérsia: A NFLPA está pentelhando todos os jogadores do Draft para não comparecerem ao Draft e nem darem entrevistas para os parceiros da NFL, como a ESPN, como forma de pressionar a Liga. Mas mesmo que tenha sucesso e ninguém apareça no Draft, o Draft prosseguirá normalmente. O problema é que, primeiro, os jogadores não vão conseguir assinar Free Agents, e ai a estratégia de alguns times de draftar jogadores para completar as posições carentes do time fica comprometida, porque você estaria draftando sem ter a chance de ver quais posições você conseguiria melhorar via Free Agency. Segundo porque a transição da NCAA para a NFL é dificílima, e os jogadores precisam do máximo de treino que puderem antes da temporada começar. Eles estão praticamente perdidos uma vez que entram no mundo da NFL, e precisam de orientação, aprender os modelos do time, pegar o ritmo de jogo, etc, e para um novato cada minuto é importante. Por isso, caso o lockout ainda esteja vigorando, os calouros vão ter seu aprendizado seriamente comprometido por não poderem interagir com seus times, vão simplesmente ter sido draftados e ficar sentados esperando que o CBA saia para assinar um contrato e começar a treinar. É uma situação bem difícil e eu - e muita gente - espera que o CBA possa sair até lá para que isso não aconteça. Mas nada de diferente deve acontecer até o dia 6 de Abril. A partir daí, vamos ver que rumos a situação vai tomar.